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* as opiniões expressas neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do 4oito
Por Renato Matos 01/02/2021 - 09:41Atualizado em 01/02/2021 - 09:42

A pandemia provocada pela Covid-19, desde o início, tem nos trazido imensas surpresas, geralmente desagradáveis.

Há pouco, a boa nova: as esperadas vacinas. 

Formuladas, testadas e aprovadas em poucos meses, trouxeram o melhor da ciência. Não são novas: mesmo as vacinas mais revolucionárias, como a de vetor viral e a mRNA, são resultado de décadas de pesquisas. A urgência e extensão da pandemia apenas acelerou os ensaios clínicos, que confirmaram o que vinha sendo testado em laboratório.

Agora que as vacinas estão aprovadas e relativamente disponíveis, vem o receio de que, em consequência de mutações do vírus, percam a eficácia mostrada nos trabalhos.

Uma situação em especial vem preocupando o mundo – a cepa, apelidada de P1, já é a dominante em Manaus e outras cidades do estado do Amazonas.

Novas ondas de infecção pelo coronavírus que são observadas em países europeus e asiáticos são teoricamente explicadas pelo grande número de pessoas ainda susceptíveis naqueles lugares.

Mas como explicar a explosão de casos em Manaus, com as assustadoras imagens de pessoas morrendo asfixiadas, num contexto de possível imunidade comunitária?

Um estudo que usou como amostra doadores de sangue, realizado em outubro passado, indicou que 76% da população manauara já havia sido infectada pelo SARS-CoV-2. 

Considerando um número básico de reprodução de 3 (R zero), foi estimado que quando 67% da população já houvesse sido infectada pelo coronavírus, teríamos a esperada imunidade de rebanho - quando o pequeno número de susceptíveis impediria a propagação da doença.

O que deu errado?

Um artigo na revista The Lancet, publicado em 27 de janeiro, tendo como autora principal a Dra. Ester Sabino, do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo, tenta analisar o mistério.

São enumeradas 4 possíveis explicações, não mutuamente excludentes. 

Em primeiro lugar, a amostra de doadores de sangue não seria representativa do que ocorre na população, ou seja, o número de susceptíveis à infecção é muito maior do que o estimado naquela pesquisa.

Segundo, a imunidade adquirida durante a primeira onda - ocorrida há 7 ou 8 meses - já poderia ter se perdido em janeiro, quando houve a nova explosão de casos. 

Terceiro, a nova linhagem de coronavírus, resultante de diversas mutações, a  P1, não seria mais reconhecida pelo sistema imunológico daqueles que já haviam sido infectados pela “velha” cepa viral.

Quarto, essas mutações podem ter levado a maior transmissibilidade do vírus, como ocorre com as novas variantes do Reino Unido e da África do Sul.

Se a ressurgência dos casos em Manaus se dever a um escape antigênico – o sistema de defesa não reconhecer mais o vírus “original” – poderemos ter problemas imensos pela frente. Desde novas ondas de infecção, até a temida redução da eficácia das vacinas disponíveis.

Tomara que não.

Por Renato Matos 25/01/2021 - 16:47Atualizado em 25/01/2021 - 16:49

Em março, quando os primeiros casos de coronavírus surgiram em nosso estado, nos demos conta de que não escaparíamos do vírus pandêmico.

Porém, não pensávamos, nem mesmo os mais pessimistas, que ficaríamos tanto tempo em suas mãos.

Nesse contexto de ainda meses (ou anos) de necessárias restrições, temos que ir nos adaptando da melhor maneira possível.

Nas áreas mais prejudicadas com a pandemia, sem dúvida, está a educação.

Como voltar às aulas presenciais, mantendo a possível segurança para os estudantes e seus familiares?

Recentemente, a Organização Mundial da Saúde, em colaboração, entre outros, com a Unesc e Unicef, publicou um checklist para dar suporte a reabertura das escolas.

São listadas 38 ações essenciais.

As informações que se seguem são retiradas desse documento.

Com base nos dados disponíveis, 8,5% dos casos reportados de coronavírus ocorreram em crianças abaixo de 18 anos, geralmente com sintomas leves e poucas mortes. Estas geralmente associadas a doenças pré-existentes.

As recomendações estão alinhadas com as conhecidas diretrizes da OMS: distanciamento físico, higiene das mãos e etiqueta respiratória, uso de máscaras, ventilação e limpeza das áreas físicas, além de medidas de isolamento para todas as pessoas com sintomas.

Salientam, de início, que as escolas podem precisar fechar e reabrir diversas vezes, na dependência da intensidade/gravidade dos casos de Covid-19 na região. Protocolos devem claramente pré-definir esses critérios.

Independente das regras nacionais ou estaduais, regiões ou cidades devem ter autonomia para tomar decisões. E a situação de cada escola deve ser particularizada.

Aos governos, além da definição das normas, há a obrigatoriedade de fornecimento de material para higiene das mãos e máscaras.

Entre as ações a serem tomadas nas escolas: reforço frequente das medidas protetivas, manutenção de pelo menos 1 metro de distância entre os estudantes (dentro e fora da sala de aula), medidas para reduzir o número de pessoas em cada turno, criação de diferentes horários de intervalos e de entrada/saída dos estudantes.

Máscaras, obrigatórias para todos, podem ser feitas de tecidos. Crianças com alguma forma de imunossupressão devem usar máscaras cirúrgicas – a ser orientado pelo médico assistente.

Ventilação adequada, sempre natural.

Avaliação diária de sintomas sugestivos de infecção por coronavírus entre os alunos, professores e funcionários. Na presença de algum indício, isolamento do caso até melhor definição. Todos os comunicantes devem ser investigados.

Uma política de “fique em casa se não estiver bem” deve ser bem reforçada para os estudantes, parentes, professores e funcionários.

Aqueles que tiveram contato com algum infectado devem permanecer em quarentena por 14 dias após o último contato com o caso índice.

Acrescentaríamos fatores familiares, talvez os mais difíceis de serem abordados.

A criança mora com pessoas idosas ou com comorbidades, que poderiam ter casos mais graves caso infectados?

A rápida vacinação desse grupo de risco facilitaria muito a tomada de decisões.

Difícil?

Sem dúvidas.

Mas são os caminhos para que nossos filhos voltem a ter a necessária educação.

Por Renato Matos 18/01/2021 - 10:41Atualizado em 18/01/2021 - 10:41

A taxa de eficácia global da vacina Coronavac, alcançada no ensaio clínico realizado no país, sob coordenação Instituto Butantã, foi de 50,38%.
Pareceu, num primeiro momento, um valor ruim - no “limiar da aceitabilidade” - como apresentado numa coletiva de imprensa prévia.

Mas sabemos que Deus ou o diabo estão nos detalhes.
Vamos a eles:
A melhor maneira de, cientificamente, avaliar uma intervenção médica é o chamado ensaio clínico. Voluntários são divididos em grupos, escolhidos aleatoriamente. Um que recebe a intervenção, como medicamento ou vacina, e outro controle, que faz uso de um placebo.
No início do estudo são definidos os critérios a serem utilizados, como tipo de população a ser estudada e o que vai ser considerado sucesso ou fracasso – o desfecho do estudo.

O estudo da Coronavac/Butantan queria uma resposta rápida, necessária neste momento de pandemia sem remédio.
Escolheu, portanto, uma população superexposta – médicos e paramédicos, em contato praticamente diário com doentes. Claro que esperando que iriam se infectar mais, atingindo o número necessário para os cálculos finais mais rapidamente.

De suma importância, e talvez o principal motivo para o “pior desempenho” em relação a outras vacinas, como a da Pfizer e da Moderna, é a definição de “caso Covid”. 
O estudo do Butantan considera “caso” qualquer sintoma sugestivo de infecção, mesmo que sejam extremamente leves, como apenas dores musculares ou cefaleia.
Os estudos de outras vacinas, por outro lado, exigem que para ser considerado “caso” deva haver, além dos sintomas leves, um sintoma de doença moderada, como falta de ar.
Esses casos devem ser confirmados pela técnica de RT-PCR, a mais sensível disponível.
Quando a vacina da Coronavac usa esse mesmo critério – doença moderada – sua eficácia sobe para robustos 78%. 

Além desses detalhes técnicos, outros diferenciais são importantes:

A vacina Coronavac é feita com vírus inativado, a maneira como vacinas são feitas há décadas, o que associa segurança.
Reações alérgicas graves, chamadas de choque anafilático, são estimadas em 1 caso para cada 100 mil pessoas com as novas vacinas.
Vacinas “antigas”, por vírus inativado, 1 caso por milhão – 10 vezes menos.

O escape da vacina.

As novas vacinas “ensinam” nossas células a produzirem uma única proteína que será reconhecida pelo sistema imune, a proteína S.
Caso haja mutação substancial nessa proteína, o organismo deixa de reconhecê-la – o “escape da vacina” - e lá se vai a imunidade.

Com as vacinas inativadas, são várias as proteínas reconhecidas – diversos alvos para serem atacados pelo sistema de defesa. 
Mudando uma, outras podem garantir a imunidade.

Resumindo, se por algum motivo (inclusive político) você não tiver acesso a essa vacina, suas chances de ficar doente dobram. 
E a probabilidade de necessitar de atendimento médico aumenta em 5 vezes.

Sem dúvidas, 50% pode ser um bom negócio.

Por Renato Matos 11/01/2021 - 10:06

Depois de um ano complicado em consequência da pandemia pela Covid-19, iniciamos 2021 sabendo que teremos meses duros pela frente, mas agora com a perspectiva de uma vacina que pode nos tirar dessa loucura.

Segundo o Coronavirus Vaccine Tracker, atualizado diariamente pelo New York Times, até o momento, 64 vacinas estão em estágio de ensaios clínicos em humanos, com 20 já alcançando os estágios finais de testes.  Pelo menos outras 85 estão em investigação em animais.

O Brasil apostou em poucas vacinas. Uma delas, conhecida como Oxford/AstraZeneca, foi desenvolvida em parceria com a Fiocruz - instituto de pesquisa em ciências biológicas, idealizado em 1900 pelo sanitarista Osvaldo Cruz, com sede no Rio de Janeiro.

A vacina Oxford/AstraZeneca, diferentemente das tecnologias utilizadas na Pfizer (mRNA) e na Coronavac (vírus inativado), utiliza um vetor viral (um adenovírus de chimpanzé) geneticamente modificado para levar informações para que as células produzam proteínas que serão reconhecidas como sendo do Coronavírus, assim desencadeando as esperadas reações que levarão à imunidade. 
O adenovírus foi modificado para que não consiga fazer cópias de si mesmo, não causando doenças. Sua função é levar a mensagem para codificar a proteína Spike – o “espinho” do coronavírus - alvo do sistema de defesa do organismo nessa vacina.

É a mesma técnica utilizada pela vacina russa, a Sputnik V, e a vacina da Johnson & Johnson - esta em testes por aqui, Criciúma, inclusive. 

A eficácia da vacina Oxford/AstraZeneca oscila entre 62% e 90%, dependendo do esquema de dose utilizado. Quando a dose inicial foi reduzida pela metade, sua eficácia aumentou.
Como diferencial em relação às vacinas da Pfizer e Moderna, que necessitam de cadeias de frio de até 70°C negativos, podem ser armazenadas entre 2°C e 8°C, facilitando a logística de distribuição.
Também são mais baratas. O preço é estimado entre 3 e 4 dólares a dose, enquanto as da Pfizer e Moderna ficam entre 15 e 25 dólares. 
Já foram liberadas para uso emergencial no Reino Unido, México, Índia e Argentina. 

A boa notícia é que poderemos ter essa vacina rapidamente. 
Se for cumprido o planejamento do Ministério da Saúde, até junho, a Fiocruz produzirá 100,4 milhões de doses. Outro tanto, no segundo semestre. 
Por meio do consórcio mantido pela Organização Mundial da Saúde, devemos receber mais 42 milhões de doses.
Como são 2 doses para cada pessoa, poderão ser imunizados 70 milhões de brasileiros.

Junto com a Coronavac, no momento, essas são as vacinas que estão mais próximas de serem utilizadas no país.
Estamos muito atrasados. 
Desde o início, sabíamos todos que a pandemia só se encerraria com boas vacinas, que a comunidade científica conseguiu fazer em tempo recorde.

Cabe aos responsáveis colocá-las o mais rapidamente possível a nossa disposição.

Por Renato Matos 05/01/2021 - 06:47Atualizado em 05/01/2021 - 06:48

As esperadas vacinas contra o coronavírus já estão disponíveis em muitos países e logo – esperamos – estarão à nossa disposição.
Deixando de lado as bobagens ditas por alguns desinformados – ou mal intencionados – o que realmente preocupa a comunidade médica são as reações alérgicas.
Quando graves, essas raras manifestações são chamadas de anafiláticas. Podem causar lesões pruriginosas de pele, edema (inchaço) de pálpebras e lábios, falta de ar, chiado no peito, sensação de garganta fechando, hipotensão e alterações cardíacas. 

Não é um evento relacionado apenas às vacinas. 
Entre as causas mais comuns de reações anafiláticas estão os antibióticos (em especial a penicilina e seus derivados) e contrastes utilizados em radiologia. 
Nesse contexto, em média, 1 ocorrência é relatada a cada 5000 exposições. 

As vacinas tradicionais, que inativam ou atenuam os vírus, costumam provocar reações anafiláticas numa incidência de 1 por milhão. 
Ainda não sabemos se a vacina Coronavac, manufaturada dessa maneira, terá comportamento semelhante.

Segundo artigo publicado esta semana no New England Journal of Medicine, até o momento, as reações anafiláticas às vacinas mRNA da Pfizer são de 1 caso por 100.000 aplicações.

Nessa nova tecnologia, um mensageiro (RNA) criado por bioengenharia é “embalado” para chegar intacto ao local de produção de proteínas nas células (fora do núcleo, não interferindo no código genético, o DNA). 
Faz parte dessa embalagem uma substância chamada polietilenoglicol (PEG), usada também em laxantes, gel de ultrassom, lubrificantes e na indústria de cosméticos.
O PEG parece ser o principal agente provocador da anafilaxia, não o agente imunizante em si.

As vacinas que usam um adenovírus como vetor, como a da Astra Zeneca/Oxford, que será fabricada em parceria com a Fiocruz, também utilizam uma substância com estrutura similar ao PEG. Porém, como ainda não está sendo usada em larga escala, não se sabe qual a incidência de anafilaxia.

Assim, pessoas com história de alergia ao PEG não devem utilizar os imunizantes que o contenham em sua composição.

Estas vacinas também estão contraindicadas naqueles que apresentam reação ao polisorbato, utilizado na indústria alimentícia e de cosméticos

Até novas orientações, estas novas vacinas devem ser evitadas em todos aqueles que já tiveram alguma reação alérgica grave – como à penicilina ou ao contraste iodado, outros medicamentos ou até a alguns alimentos. 

Todos os locais de vacinação devem dispor de Adrenalina - a droga de escolha para tratamento das reações anafiláticas – assim como pessoas treinadas para seu pronto reconhecimento.

 Já foram imunizadas 13 milhões de pessoas, com raríssimos casos – reversíveis – de anafilaxia.
Por outro lado, estão morrendo diariamente em consequência da Covid-19 em torno de 10.000 pessoas.

Na dúvida, converse com seu médico.
Não havendo contraindicação, vacine-se. 
É a única esperança de termos nossa vida normal de volta.

Por Renato Matos 28/12/2020 - 15:58Atualizado em 28/12/2020 - 16:13

Enquanto os médicos clínicos dedicam-se ao estudo da doença no indivíduo, os epidemiologistas são aqueles treinados para analisar e propor ações de prevenção e controle de saúde na coletividade.

Por isso, tão importantes e participativos neste contexto de pandemia.

Há poucas semanas, o New York Times publicou uma matéria em que ouviu informalmente 700 epidemiologistas americanos sobre suas percepções sobre os meses que estão por vir.

Naquele momento, já aguardavam a ampla disponibilidade das vacinas – as mais eficazes disponíveis no mundo.

Considerar que, por formação, epidemiologistas são mais conservadores e cautelosos e que existem muitas incógnitas, como duração da imunidade, possíveis mutações do vírus, logística de distribuição das vacinas e a reticência na aceitação da imunização entre alguns grupos.

Outro fator a influir nas suas percepções seria o desenvolvimento de algum medicamento eficaz contra o coronavírus – não há nenhum até o momento.

Vejamos:

A metade afirmou que não mudaria seu comportamento pessoal até que pelo menos 70% da população esteja vacinada.

Esse percentual é considerado, no momento, o limiar para que a imunidade de rebanho seja alcançada. Somente com uma grande redução no número de susceptíveis, o vírus perderia sua capacidade de transmissão.

A enquete mostrou que a maioria acredita que, mesmo com as vacinas, provavelmente teremos um ano ou mais antes que muitas atividades – principalmente aquelas que reúnam muitas pessoas - se reiniciem de maneira segura.

Apenas 1/3 dos entrevistados relatou que se sentiria seguro de retornar às atividades da vida diária quando tão somente eles estivessem vacinados.

Outros restringiriam seu contato social a pessoas que também já tenham sido vacinadas.

Muitos manterão o uso de máscaras e o distanciamento social.

“A nova normalidade será usar máscaras durante os próximos 12 a 18 meses e possivelmente pelos próximos anos. Se trata de uma mudança de paradigma.”

Resumindo o sentimento de boa parte da comunidade médica, Michelle Odden, professora adjunta de Epidemiologia da Universidade de Stanford disse que “não acreditava que este nível de fracasso na resposta federal fosse possível nos Estados Unidos - este vírus me deixou mais humilde como profissional e como pessoa”.

Quando perguntada sobre o que não voltará a normalidade, Victoria Holt, professora emérita da Universidade de Washington não titubeou: “Minhas relações com as pessoas que não levaram esta pandemia a sério e ignoraram as mensagens e recomendações da Saúde Pública”.

Por aqui, sem perspectivas reais de vacinação em massa, devemos esperar meses duros pela frente.

Por Renato Matos 21/12/2020 - 19:27Atualizado em 21/12/2020 - 19:30

As tão esperadas vacinas, que podem nos devolver a vida pré-pandemia, estão chegando e agora muitos andam com medo delas.

Tirando argumentos fantasiosos de movimentos antivacina, observamos que o que tem preocupado muitas pessoas é a rapidez com que as vacinas contra a Covid-19 foram desenvolvidas e liberadas para uso, mesmo que emergencial.

Assim como qualquer medicamento, as vacinas passam por fases de avaliação após a sua manufatura e testes em animais de laboratório.

As fases 1 e 2 são desenhadas para avaliar a segurança e a capacidade de gerar resposta imune.

Sendo aprovadas, as vacinas entram na definitiva fase 3, em que milhares de voluntários são efetivamente vacinados e comparados a um grupo controle que recebeu um placebo.

No caso das vacinas, depois da obtenção de um número pré-determinado de infectados, um grupo independente avalia quantos destes receberam a vacina ou o placebo.

Como exemplo, se são avaliados os primeiros 100 infectados entre os voluntários de um ensaio clínico e destes 90 fazem parte do grupo controle (no caso, não vacinados), é dito que a vacina tem 90% de eficácia.

No caso do coronavírus, alguns fatores contribuíram para essa celeridade.

O principal é o envolvimento de muitos cientistas associados, com o apoio e financiamento das maiores indústrias farmacêuticas do mundo - que não colocariam sua reputação (e capital) num processo desses se não tivessem convicção da sua segurança.

Outro, o grande número diário de casos, que permite que aquele número pré-determinado de infectados necessários para a análise estatística seja alcançado.

Esses cálculos independem se a vacina foi desenvolvida em 10 meses ou 10 anos.

O que assegura e quantifica a eficácia é essa análise estatística da fase 3.

Algumas vacinas contra o Covid-19 já venceram essa barreira – a melhor garantia que podemos ter que são eficazes e seguras.

Evidentemente, muitos dados ainda estão por surgir – a denominada fase 4 começa após a liberação do uso para grandes grupos populacionais, com particularidades que não conseguem ser avaliadas nessa fase 3.

Num tuíte recente, o professor de economia da Unicamp, Thomas Conti, lembrou que mais de 1.100.000 pessoas já receberam a vacina contra a Covid em 4 países diferentes.

As vacinas causaram 3 reações alérgicas relevantes, em indivíduos que já se recuperaram e estão bem.

Nesse intervalo, o coronavírus matou mais de 90 mil pessoas.

Lembrem dessa comparação.

E não tenham medo destas vacinas.

Por Renato Matos 14/12/2020 - 17:04Atualizado em 14/12/2020 - 17:05

Gosto de consensos de especialidade. Com todas as suas limitações, costumam reunir o estado da arte – as melhores evidências disponíveis a partir de fontes confiáveis sobre determinado assunto.

Entre as especialidades que lidam com a Covid-19, destaca-se a Infectologia, área da medicina que lida com doenças infecciosas.

Sintetizando o conhecimento acumulado nesses meses de pandemia, a Sociedade Brasileira de Infectologia emitiu um novo consenso sobre as recomendações sobre a Covid-19, tornado público em 9 de dezembro passado. 
Sem grandes novidades, mas sucinto e objetivo.

Salientamos algumas dessas recomendações:

“No atual momento da pandemia todo paciente com sintomas de “resfriado ou gripe” pode ter Covid-19 e deve ficar imediatamente em isolamento respiratório”. Para casos leves, o isolamento é de 10 dias. Em casos graves ou em imunodeprimidos, o tempo de isolamento sobe para 20 dias.

“Pacientes sintomáticos com suspeita de Covid-19 devem ser submetidos preferencialmente ao exame de RT-PCR. Esse exame tem 60% a 80% de sensibilidade”.  

Entendendo a sensibilidade de um teste para Covid-19 como a probabilidade de mostrar-se positivo quando o doente está infectado, vemos que nosso melhor teste tem uma margem de erro de 20% a 40%. 

Portanto, se o resultado for positivo para Covid-19, confirma o diagnóstico. Se o resultado for negativo, mas a suspeita clínica for forte, o paciente deve completar os 10 dias de isolamento respiratório, já que a margem de falsos negativos para o RT-PCR não é desprezível.

O mesmo raciocínio é válido para o teste de antígeno, mais disponível e de resultado mais rápido. Com sensibilidade inferior ao RT-PCR, teste negativo não exclui o diagnóstico.

“Os testes sorológicos para Covid-19 (exames de sangue), tanto os rápidos de farmácia quanto os de laboratório, não são recomendados para o diagnóstico precoce da doença. As classes de anticorpos IgA e IgM têm praticamente nenhuma utilidade clínica”.

Sobre o tratamento precoce nos primeiros dias de sintomas

“A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) não recomenda tratamento farmacológico precoce para Covid-19 com qualquer medicamento (cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, nitazoxanida, corticoide, zinco, vitaminas, anticoagulante, ozônio por via retal, dióxido de cloro), porque os estudos clínicos randomizados com grupo de controle existentes até o momento não mostraram benefício e, além disso, alguns destes medicamentos podem causar efeitos colaterais”.

“Essa orientação da SBI está alinhada com as recomendações das seguintes sociedades médicas científicas e outros organismos sanitários nacionais e internacionais, como: Sociedade de Infectologia dos EUA (IDSA) e da Europa (ESCMID), Instituto Nacional de Saúde dos EUA (NIH), Centros Norte-Americanos de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e Organização Mundial da Saúde (OMS).”

“Quando o quadro evolui com pneumonia e níveis baixos de oxigênio, o tratamento hospitalar com oxigenioterapia, dexametasona (corticoide) e heparina (anticoagulante) profilático fará com que a maioria dos pacientes evoluam bem e sem necessidade de ventilação mecânica”.

Reforçando - não há indicação de corticoides nas fases iniciais da doença.

Não são recomendações políticas, mas fruto dos melhores trabalhos, realizados com metodologia adequada, nos melhores centros médicos do mundo.

Disponíveis para todos os interessados.

Por Renato Matos 07/12/2020 - 18:19Atualizado em 07/12/2020 - 18:20

Severamente atingida pela primeira onda e voltando a enterrar quase mil conterrâneos por dia em consequência das mortes por coronavírus, a Itália já decidiu que este final de ano será diferente. 

O país que chamou a atenção do mundo ocidental para a mortalidade associada à infecção de Covid-19 e que no começo fez vistas grossas – lembram do "Milano Non Si Ferma" (Milão Não Para)? - adota agora a única estratégia que se mostrou efetiva em conter o avanço do coronavírus.

Abraçam a técnica do martelo e da dança, alternando entre períodos de medidas rigorosas - quando o contágio sai de controle - e abertura cautelosa - para manter a infecção sob controle.

O premiê italiano, Giuseppe Conte, anunciou no dia 3 de dezembro duras medidas para tentar conter a propagação adicional do vírus. As mais severas têm prazo de validade: de 21 de dezembro a 6 de janeiro, evidentemente para conter as viagens, aglomerações e festas de fim de ano.

O impacto social dessas medidas será imenso numa população que, como bem sabemos, valoriza a convivência familiar e a proximidade física, de preferência regada a um bom vinho e muita conversa.
Qualquer deslocamento sem justificativa está proibido após as 22 horas – nosso toque de recolher, só que mais alongado.

Também não serão permitidas as viagens entre as diversas regiões da Itália, mesmo que justificadas por visitas a parentes ou deslocamento para uma segunda casa que possam ter em outras províncias. Entre os dias 24 e 26 de dezembro e no dia 1º de janeiro, as regras endurecem ainda mais: está proibido o trânsito entre cidades da mesma região.

Nas áreas menos afetadas, os restaurantes poderão funcionar para almoços de Natal e Ano Novo, desde que limitem a 4 o número de pessoas por mesa. 

Jantares, proibidos.

Ceias de Natal e festas de Réveillon também estão vetadas, inclusive em hotéis – só serão permitidos serviços de quarto.

O premiê sabe que é impossível controlar o que acontece dentro das casas, mas apela para o bom senso dos seus governados: “Temos que entender que em um sistema liberal-democrático não podemos entrar na casa das pessoas e impor restrições rigorosas. Mas recomendamos fortemente que não sejam recebidas em casa pessoas com quem não se convive, sobretudo nessas ocasiões, nas quais os festejos se tornam mais intensos”.

O ministro italiano, Francesco Boccia, já avisou que neste ano o menino Jesus precisará nascer duas horas antes – até a missa do Galo será antecipada para obedecer ao toque de recolher.

No entanto, o sucesso dessas medidas poderá permitir que as atividades produtivas e as escolas para crianças sejam preservadas. E milhares de vidas, salvas.
 

Por Renato Matos 30/11/2020 - 16:52Atualizado em 30/11/2020 - 16:53

Aconteceu: você começa a ter aqueles sintomas que lembram gripes e resfriados: dor de garganta, coriza, tosse, dores musculares, dor de cabeça. Às vezes febre, outras, sintomas de gastroenterite. Esses sintomas se mesclam de diferentes formas e intensidades.

Caso tenha perdido o olfato e/ou o paladar, o diagnóstico está praticamente selado: é o coronavírus.

A probabilidade evidentemente aumenta se você participou de algum evento social, principalmente em ambientes fechados e sem uso de máscaras, ou teve contato com alguém sabidamente contaminado.

Nada de desespero: vamos partir do princípio de que em aproximadamente 80% dos casos a doença é leve e você não vai precisar de atendimento hospitalar. Porém, numa doença de comportamento altamente imprevisível, é importante que você seja acompanhado, mesmo que a distância, por um profissional de saúde habilitado.

Além do bom atendimento é fundamental que haja continuidade na atenção de saúde. É vital que você tenha acesso a um médico ou serviço de saúde, que, caso necessário, possa rapidamente acionar. 

Suspeita da doença e o papel dos testes:

Durante uma pandemia, quando estamos em fase de alta transmissão comunitária, como é o caso no momento, a presença de sintomas compatíveis geralmente é suficiente para que o diagnóstico seja presumido e que as necessárias medidas iniciais sejam tomadas. Nesse contexto, mesmo resultados negativos de exames não excluem o diagnóstico.

Se os testes forem acessíveis, sempre devem ser realizados. 

Na fase inicial dos sintomas, os testes a serem realizados são aqueles do “cotonete”: PCR ou teste do antígeno.

Nunca faça os testes sorológicos (aqueles de sangue ou “rápidos”) nesse momento - eles só serão positivos vários dias depois.

Avaliando o risco:

Devemos avaliar as comorbidades: quando presentes, o acompanhamento deve ser feito com maior frequência.

O sintoma mais preocupante é a falta de ar. Além da intensidade, sua trajetória. A rápida progressão é uma forte evidência de que o caso poderá evoluir mal.  

Se houver desconforto para realizar atividades que antes você fazia sem dificuldade, como subir escadas ou caminhar, fique alerta. Se o desconforto respiratório ocorre em repouso, estamos frente a um caso potencialmente grave.

Sempre que possível, adquira um oxímetro, aparelho que, colocado no dedo, indica a saturação de oxigênio. Em resumo, como seu pulmão está realizando as trocas gasosas. Valores baixos (geralmente abaixo de 94%) são sinais de que seu pulmão está tendo dificuldade em captar oxigênio – e estratégias diferentes de atendimento podem ser adotadas.

A necessidade de exames complementares é definida de acordo com a gravidade com que os sintomas e sinais se manifestam.

Não tome antibióticos por sua conta – essa é uma doença viral, não há indicação rotineira de seu uso. Também não use corticoide na fase inicial. A sua indicação no contexto Covid-19 é quando os níveis de oxigênio já começaram a baixar a níveis pré estabelecidos. Fora desse contexto, seu uso pode piorar a evolução.

Infelizmente, não existem medicamentos específicos que, tomados precocemente, modifiquem o curso da doença. Existem muitos detalhes que devem ser esmiuçados: procure profissionais de saúde que sabem lidar com essa infecção.
Evite disseminar o vírus. 

Se sua infecção for considerada leve, fique em casa.
Em caso de piora, procure rapidamente reavaliação médica.

Por Renato Matos 24/11/2020 - 14:44Atualizado em 24/11/2020 - 14:51

Alguns vírus geram imunidade por toda a vida. Outros, como o da influenza, apenas por alguns meses. “Mais pessoas estão tendo Covid-19 duas vezes, sugerindo que em alguns a imunidade declina rapidamente” é o título de um artigo publicado recentemente na Science.

Para ser considerado reinfectado, o paciente deve apresentar dois testes de PCR positivos com pelo menos 30 dias livres de sintomas entre eles. Mais exigentes, alguns cientistas só concordam que houve reinfecção quando houver sequenciamento genético e a segunda amostra apresentar algumas diferenças em relação à amostra original. 

Considerando o atraso entre o envio do artigo, revisão dos pares e publicação (18 de novembro), o artigo da Science relata 50 casos na Holanda, 95 no Brasil, 250 na Suécia, 285 no México e 243 casos no Qatar. Números com tendência de alta, já que a percepção é de que na infecção pelo Covid-19 a imunidade seja temporária.

Lia van der Hoek, líder de um grupo de virologistas da Universidade de Amsterdã, mostrou recentemente que a imunidade gerada pelos 4 coronavírus “antigos”, que causam resfriados comuns, se perde em torno de 12 meses. Segundo a cientista, essa é “uma má notícia para aqueles que ainda acreditam em imunidade de rebanho gerada por infecções naturais”. Esses dados também podem sinalizar o tempo de validade para as vacinas.

A imunidade contra uma infecção não depende apenas dos anticorpos. Outras células, como as de memória tipo B, células T e, principalmente, os anticorpos neutralizantes, parecem permanecer estáveis por pelo menos 6 meses após a infecção pelo coronavírus que gera a Covid-19. Buscando na história, há relatos de casos de SARS e MERS, as duas formas anteriores graves de infecções pelo coronavírus, nos quais a imunidade persistiu por até 2 anos.

Habitualmente, quadros mais graves geram respostas imunológicas mais vigorosas e persistentes, mas há pacientes que apresentaram quadros muito graves e que saem com poucos anticorpos - como se tivessem consumido parte de suas células de defesa. A gravidade da segunda infecção também não é uniforme: dos quadros relatados alguns são mais leves, outros muito mais severos. Como são testados somente os indivíduos que voltam a apresentar sintomas, não sabemos qual a incidência de casos de reinfecção assintomáticos.

Alguns cientistas se preocupam se poderia ocorrer na infecção por coronavírus o que acontece na dengue: uma segunda infecção, por um tipo mutante, ainda na presença de anticorpos da primeira infecção, torna o quadro mais grave, algumas vezes fatal. Em se tratando de coronavírus, ainda há muitas incertezas. Após ser infectado, seja esperto: mantenha os cuidados.

Por Renato Matos 17/11/2020 - 10:02

Uma das características da infecção pelo novo coronavírus é a sua imprevisibilidade.

Inicialmente considerada uma doença tipicamente respiratória, aos poucos fomos aprendendo que as complicações não paravam por aí.

Fenômenos tromboembólicos, complicações cardiológicas e renais se tornaram evidentes.

E, intrigantemente, as manifestações neurológicas. 

Alguns estudos chegam a relatar que até um terço dos pacientes com COVID-19 apresentam complicações do sistema nervoso.

Perda de olfato (anosmia) ou de paladar (ageusia) já são reconhecidas como marca registrada da infecção. Quando associados a sintomas gripais, praticamente selam diagnóstico de infecção pelo Coronavírus.

As complicações do sistema nervoso foram vistas tanto em pacientes que necessitaram de ventilação mecânica, como naqueles que apresentaram formas menos severas da doença. Este perfil – complicações neurológicas não relacionadas com a gravidade do quadro clínico - se repete em diversas publicações.

As manifestações neurológicas associadas a Covid-19 podem ser secundárias a baixos níveis de oxigênio, alterações da coagulação sanguínea, distúrbios renais, mas também resultantes das conhecidas reações inflamatórias e/ou imuno mediadas.

A invasão direta dos neurônios, ainda discutida, parece ser possível. Os vasos que nutrem as células neuronais possuem receptores por onde o coronavírus pode se ligar, como faz nas células do epitélio respiratório.

Finalmente, o SARS-CoV2 pode alcançar o sistema nervoso central através do nervo olfatório, que, quando comprometido, causa a conhecida perda de olfato.

Entre as complicações mais temidas estão os acidentes vasculares cerebrais (“derrames”), isquêmicos e hemorrágicos. Geralmente, ocorrem de 1 a 3 semanas após o início dos sintomas, mas podem ser a manifestação inicial da infecção.

Pacientes jovens têm apresentado eventos isquêmicos cerebrais, inclusive com a oclusão de vasos calibrosos, algo não usual fora do contexto da Covid-19.

Encefalite (inflamação do cérebro), encefalomielite (inflamação do cérebro e medula espinal) e meningite são também descritas.

Outra complicação neurológica grave é a Síndrome de Guillain-Barré, quando uma reação autoimune lesiona os nervos periféricos. Os sintomas começam nos pés e são ascendentes, podendo paralisar os músculos das pernas, do quadril e até os da respiração.

No dia a dia, vemos crises de agitação e delírios, convulsões, alterações do nível de consciência, dificuldade de concentração e perdas de memória. Nesse quesito, naqueles que já apresentavam algum grau de alteração, a piora pode ser marcada. 

Não existem tratamentos específicos.

O prognóstico a longo prazo também está para ser elucidado.

Injustamente, o papel dos neurologistas no manejo dos pacientes com Covid-19 é pouco reconhecido.

Por Renato Matos 10/11/2020 - 13:02

O diagnóstico de uma doença é um ato complexo. 

A realização de exames, quando necessários, apenas complementa o raciocínio clínico.

A sua interpretação, na maior parte das vezes, exige conhecimentos especializados. Exames normais podem esconder doenças, assim como exames alterados nem sempre indicam que algo está errado.

Para avaliarmos o resultado, precisamos entender características próprias do exame, como sensibilidade e especificidade e a probabilidade de doença quando o exame está alterado, o que chamamos de valor preditivo positivo ou negativo.

Não é puramente o número que aparece no exame ou o laudo que acompanha o exame de imagem.

O Conselho Federal de Medicina, em seu parecer 18/15, define que requisições de exames complementares, com algumas exceções previstas em lei, só podem ser feitas por médicos. 

A permissão de solicitar exames traz implícita a responsabilidade de orientar o paciente quanto a todos os procedimentos, cuidados e tratamentos necessários.

A pandemia também revirou essa norma. Exames particulares para diagnóstico de Covid-19 são realizados sem requisição médica. A própria ANVISA liberou a realização de testes rápidos em farmácias. 

O próprio nome – teste rápido - é confuso, já que não explica o que está sendo pesquisado, o vírus ou os anticorpos, só que o resultado é rápido.

Por falta de conhecimento, os resultados são tomados de forma literal – reagente ou não reagente. 

Na fase inicial da doença, devemos procurar o vírus, através do exame do RT-PCR ou teste de antígeno, ambos feitos pelo já famoso “cotonete”.
A partir do décimo dia, idealmente depois do décimo quarto, começam a ser detectados os anticorpos – a reação do sistema imunológico à presença do vírus. Esses exames, chamados de sorológicos, são feitos através de exames de sangue e coletados na veia ou com pequena punção na ponta dos dedos. Nas fases iniciais, eles sempre serão negativos.

Além dessa distinção básica, sempre considerar os falsos positivos e negativos, não tão raros.

“Test and trace” (testar os sintomáticos e rastrear os contatos) é o mantra adotado por todos os países que conseguiram passar pelo Covid 19 com menos estragos e recomendado pelas principais organizações médicas do mundo.

Nesse contexto, testar sempre significa buscar o vírus:  PCR ou teste do antígeno. Esperar a formação de anticorpos significa diagnóstico tardio. Quando o teste sorológico estiver positivo, geralmente já se perdeu o momento de isolar o sintomático. 

Nunca esqueça: quem solicita um exame tem a obrigação de saber interpretá-lo, com todas as sutilezas associadas.

Converse com seu médico.

Por Renato Matos 03/11/2020 - 10:27Atualizado em 03/11/2020 - 10:28

Para entendermos, devemos recordar as formas de transmissão do coronavírus.

Além dos fômites - objetos ou superfícies capazes de absorver, reter e transportar organismos infecciosos (menos importantes do que inicialmente considerados) - a via aérea é a forma tradicional de transmissão.

A principal se dá através de gotículas eliminadas durante a fala, tosse, espirros, ou até mesmo em situações em que a respiração se faz mais pronunciada, como em exercícios vigorosos ou canto. O vírus é compartilhado entre pessoas próximas, sendo 6 pés (pouco mais de 1,80 m) o número mágico dos norte-americanos.

A transmissão por aerossóis (partículas muito menores que as gotículas), inicialmente negada por algumas entidades, agora parece consolidada, mais ainda em ambientes fechados.

A importância dessa distinção é que os aerossóis, ao contrário das gotículas, podem permanecer horas em suspensão – e alcançar distâncias maiores. 

Entra agora o nosso ar-condicionado, que já tornamos essencial nos meses de verão.

Existem diversas formas de resfriamento do ambiente.

Tentei entender apenas o ar-condicionado convencional, geralmente tipo split, que usamos em nossas casas ou escritórios. Nesses sistemas, o ar presente no ambiente é aspirado, resfriado, filtrado e posteriormente re-ejetado no cômodo, sem que haja trocas com o ar externo. Importante salientar que essa filtração, eficaz para partículas maiores, não consegue reter o Covid-19.

Esse ar resfriado, voltando sob pressão, pode alcançar diversas pessoas que compartilham o mesmo espaço. 

Para que esses aparelhos convencionais possam captar o desejado, e supostamente puro, ar exterior, são necessárias adaptações mecânicas – nem sempre possíveis e geralmente caras.  Não conseguimos simplesmente mudar essa configuração no controle remoto. O princípio vale também para os carros, com a vantagem de aqui podermos ajustar o modo de ventilação, no próprio painel do veículo.

Em sistemas de ar-condicionado central (que podem ser ajustados para trocas com o ar exterior), esse modo de recirculação é ainda mais perigoso, pois poderá levar o vírus para diferentes ambientes.

Resumindo:

Na sua casa, com sua família, desde que ninguém esteja com suspeita de infecção, o ar-condicionado convencional pode ser usado sem problemas.

Em locais onde circulam diversas pessoas, como escritórios ou pequenos negócios, sempre buscar aumentar a ventilação, mantendo o máximo de janelas – e se possíveis portas – abertas. Mesmo com o ar-condicionado ligado.

Orientações semelhantes são válidas para o uso de ventiladores – os cômodos devem ser bem ventilados, permitindo trocas com o ar externo.

Para avaliação de modelos mais sofisticados, consulte engenheiros e técnicos especializados.

Mas sempre evitando o modo recircular.

Por Renato Matos 28/10/2020 - 13:19

A tuberculose é uma doença grave: está entre as 10 principais causas de morte no mundo.

No Brasil, em 2019, foram registradas pouco mais de 4 mil mortes.
Aqui em Criciúma, costumamos ter um pouco menos de 100 casos por ano e nossa cidade é referência nacional pelos seus bons índices de cura.
O bacilo da tuberculose pode afetar diversos órgãos, mas 70% dos casos são pulmonares.

Tosse é o sintoma principal nesse contexto. Se presente há mais de 3 semanas, a possibilidade de tuberculose deve ser avaliada. Principalmente, se acompanhada de febrícula vespertina, sudorese noturna e emagrecimento. Algumas vezes hemoptise – escarro com sangue.
O diagnóstico normalmente é simples: exame de escarro buscando o bacilo.
Há muito já utilizamos o PCR – também a melhor técnica para detecção do coronavírus – para pesquisar o Mycobacterium tuberculosis, o agente causador.

O tratamento tem altíssimos índices de cura, com medicamentos seguros, desenvolvidos há décadas.
O problema é o tempo – 6 meses de uso diário.
Após 2 ou 3 meses, o paciente pensa estar curado e, cansado de tomar remédios, abandona o tratamento.
Geralmente, a doença volta, muitas vezes com germes resistentes. 
Os medicamentos habituais deixam de ser efetivos e os disponíveis para esses germes multirresistentes são muito menos eficazes. 
Essa é a principal causa das mortes.

Para vencer essa situação, há anos, o Brasil adota a estratégia DOTS – tratamento diretamente supervisionado.
Resumindo, além das boas técnicas para aumentar a adesão, a tomada do medicamento deve ser acompanhada diariamente por um profissional de saúde. Que só libera o paciente após ter certeza de que os comprimidos foram deglutidos – alguns fazem de conta que os engolem e na saída do profissional retiram da boca e os jogam no lixo.

Fundamental no sucesso dos Programas de Tuberculose é o envolvimento de toda equipe com o doente, com estudadas e carinhosas técnicas de acolhimento e acompanhamento.
Mesmo com as melhores técnicas, alguns se rebelam e não querem tomar o medicamento – “é meu direito”.
A legislação sanitária do país já resolveu esse problema. Tratando-se de doença contagiosa, potencialmente fatal, transmitida por via aérea – como o atual coronavírus – o paciente sempre deve ser submetido ao tratamento.
Naqueles casos de abandono, todo o esquema de relacionamento com o paciente deve ser reconsiderado e a equipe reestimulada.

Esgotadas todas as possibilidades, evidentemente como exceção, “a internação compulsória deverá ser considerada”, ensina o Manual de Recomendações para Controle da Tuberculose do Ministério da Saúde.

Não se trata de autoritarismo.
Mas de saúde pública.

Por Renato Matos 19/10/2020 - 15:08Atualizado em 19/10/2020 - 15:15

A imensa maioria dos medicamentos testados para o tratamento do novo coronavírus não são novos, nem desenvolvidos especificamente para este fim. São drogas antigas, usadas em outras doenças e reposicionadas na tentativa de buscar alguma efetiva.

O conhecimento médico vai se consolidando a partir de estudos repetidos. Quanto maior a qualidade metodológica, tamanho da amostra e concordância entre eles, maior a probabilidade de que as conclusões sejam corretas.

A semana que passou nos trouxe evidências mais robustas quanto ao tratamento da Covid -19.

No dia 9 de outubro, o Instituto Nacional de Saúde dos EUA lançou uma atualização sobre o tratamento do SARSCoV2.

Num robusto e bem referenciado documento de 224 páginas, escrito sob a tutela de 16 grandes sociedades médicas - entre elas o American College of Chest Physicians, American Thoracic Society, CDC, Society of Critical Care Medicine, Infectious Disease Society of America e FDA - são avaliadas as atuais opções de tratamento.

Seguindo os estudos disponíveis e selecionados pelos especialistas, o painel definitivamente não recomenda usar qualquer medicamento de forma preventiva, tanto antes como após exposição ao Covid 19.

Quanto aos já infectados, mas não hospitalizados ou internados que não necessitem do uso de oxigênio suplementar, as conclusões também são, à princípio, contra o uso de qualquer medicamento antiviral. O “à princípio” aparece porque os americanos ainda discutem se o Remdesivir deveria ser utilizado nessas circunstâncias.

Especificamente sobre a cloroquina ou hidroxicloroquina, avaliando os dados obtidos até o momento, os painelistas são contrários ao seu uso, tanto preventivamente como em pacientes hospitalizados ou em tratamento ambulatorial. Isoladamente ou associada à Azitromicina.

Sobre a Ivermectina, o documento salienta que para que sejam obtidos os níveis que inibiram a replicação do SARSCoV2 em vitro seriam necessárias doses até 100 vezes maiores do que as aprovadas para uso em humanos. Também são contrários ao seu uso.

SOLIDARITY

No dia 15 passado, foram publicados os dados do estudo SOLIDARITY, conduzido pela Organização Mundial de Saúde, que avaliou o uso de Remdesivir, Hidroxicloroquina, Lopinavir/Ritonavir e Interferon no tratamento do novo coronavírus. 

No ensaio clínico, um dos maiores já realizados sobre o assunto, foram randomizados (escolhidos aleatoriamente) 11.266 adultos, em 405 hospitais de 30 países. 

Todos esses regimes de tratamento foram considerados inefetivos ou pouco efetivos. Não reduziram tempo de internação, necessidade de ventilação mecânica ou mortalidade de forma significativa.

A hidroxicloroquina apresentou um risco relativo (uma medida de comparação entre o grupo que recebeu o medicamento e o grupo controle) de 1,19 - apenas valores abaixo de 1 são considerados protetores. Segundo a OMS, esses dados produziram “evidências conclusivas” sobre a não efetividade desses medicamentos.

Continuamos esperando por boas notícias.

Por Renato Matos 12/10/2020 - 09:02

O New England Journal of Medicine, fundado em 1812, é o periódico médico geral mais lido e influente do mundo.

Extremamente técnico, como convém a uma publicação do gênero: não lembro de nenhum posicionamento que se possa classificar como francamente político.

Mas no último número, datado de 8 de outubro, perderam a paciência. Parece um desabafo dos médicos do país mais rico do mundo frente ao impensável fracasso que já custou a vida de quase de 250 mil norte-americanos.

Num editorial - texto de opinião que apresenta o posicionamento do jornal – intitulado “Morrendo em um vácuo de liderança”, analisam o comportamento de seus governantes durante a pandemia da Covid-19.

Com liberdades de tradução, reproduzo algumas das considerações:

"A magnitude da falha é assombrosa. O índice de mortalidade é 50 vezes maior do que no Japão, país com uma grande população de idosos, e supera em 2000 vezes o de países de baixa/média renda, como o Vietnam”.

“Fomos amplamente avisados, mas quando a doença chegou fomos incapazes de testar efetivamente e não conseguimos fornecer os equipamentos de proteção mais básicos para os trabalhadores de saúde e público em geral”.

O país líder em tecnologia se perdeu quando foi chamado a implementar medidas pouco sofisticadas.

As medidas de isolamento e quarentena foram tomadas tardiamente e de forma inconsistente.

“Nossas regras de distanciamento social, em muitos lugares, foram, quando muito, indolentes”.

“Em muitos lugares do país, as pessoas simplesmente não usaram as máscaras. Em grande parte, porque nossos líderes declararam abertamente que as máscaras são ferramentas políticas e não medidas efetivas de controle da infecção”.

Como esse fracasso ocorreu num país de enorme capacidade industrial, imensa expertise em saúde pública e ciência de base e com um sistema de pesquisa biomédica que é invejado no mundo?

“O governo federal repassou boa parte da responsabilidade para os estados. E os governadores oferecem respostas variadas, não por opção política, mas por diferentes competências”.

Salientam que os principais organismos federais de controle sanitário, como o Centro de Controle de Doenças e Prevenção (CDC), o Instituto Nacional de Saúde e a FDA (a ANVISA deles) foram politizados e excluídos das principais decisões.

“Em vez de confiar na experiência, o governo se voltou para líderes de opinião desinformados e charlatães que obscurecem a verdade e facilitam a promulgação de mentiras descaradas”.

Esperávamos que os Estados Unidos fossem um modelo de resposta à pandemia da Covid-19.

Ao politizar a doença, tiveram um trágico e vergonhoso resultado.
 

Por Renato Matos 05/10/2020 - 10:29Atualizado em 05/10/2020 - 10:30

O Covid 19 pegou o presidente Donald Trump há apenas 30 dias das eleições.
E, como seria de se esperar, o mundo todo está de olho no hospital militar Walter Reed.
Como costuma acontecer nessas situações, as notícias são truncadas, com partes essenciais propositalmente omitidas.
Nós, brasileiros mais rodados, ainda lembramos do presidente Tancredo Neves em fotos sorridentes junto aos médicos que o atenderam pouco antes da sua morte. 

Evidentemente estamos curiosos. Não para julgar a conduta daqueles médicos pressionados pela difícil situação.  
Mas, na prática, como iriam tratar o “homem mais poderoso do mundo”?

O médico do presidente, Sean P. Conley, profissional da Marinha americana, está no cargo há 2 anos.
Sua especialização, segundo o New York Times, é a osteopatia. 
Segundo a Osteopathic International Alliance, esta técnica “aborda o paciente de forma holística, utilizando apalpação e técnicas manuais para tratar músculos, articulações, nervos, o tecido conjuntivo, o sistema circulatório e os órgãos internos, a fim de favorecer a capacidade do corpo de restabelecer e manter a saúde”.  
Também trabalhou como emergencista, inclusive no Afeganistão.

Em maio ganhou atenção após revelar que, sob sua orientação, Mr. Trump havia iniciado o uso preventivo de hidroxicloroquina.

Apesar de afirmar que o presidente estava muito bem, corretamente cercou-se de bons especialistas e não demorou para internar seu diferenciado paciente. Com 74 anos e considerado obeso, Mr. Trump faz parte dos tradicionais grupos de risco. 

Como nos informam os principais veículos de comunicação do mundo, logo ao chegar ao hospital militar recebeu um coquetel de anticorpos monoclonais da empresa de biotecnologia americana Regeneron, tratamento ainda na fase 3 do ensaio clínico – igual a boa parte das vacinas que estamos esperando. 
Seus clínicos associaram o  antiviral Remdesivir, da também americana Gilead, medicamento autorizado de forma emergencial pela Food and Drug Administration (a ANVISA deles)  para pacientes hospitalizados em estado grave.  
Até o momento os trabalhos publicados com o Remdesivir mostraram redução no período de internação, mas não da mortalidade.
Além destes, Dr. Conley relatou que o presidente está tomando zinco, vitamina D, famotidina (uma medicação para gastrite), melatonina (hormônio para induzir o sono) e aspirina.

Apesar desta grande associação de medicamentos, os jornais neste domingo informam que por ter apresentado queda da saturação de oxigênio o presidente começou a usar a acessível Dexametasona – sugerindo que o quadro não é leve.

Interessante notar que em nenhum momento aventaram a possibilidade de usar Cloroquina ou Ivermectina.

Os médicos do presidente, com certeza, estão buscando as melhores opções disponíveis.
Mas certamente sabem que ainda não temos uma bala de prata.

Por Renato Matos 28/09/2020 - 11:32Atualizado em 28/09/2020 - 14:50

Frente a dificílima decisão de retomada das aulas presencias, a Sociedade Brasileira de Pediatria publicou suas orientações no dia 25 passado.

Reconhece que as lacunas no conhecimento da dinâmica de transmissão do SARS-CoV2 limitam a capacidade de avaliar com segurança os riscos associados a tal decisão. No Brasil a faixa etária de 0 a 19 anos representa 0,7% do total de mortes, o que reforça o conhecimento de que neste grupo preponderam casos leves ou assintomáticos.

O documento da Sociedade de Pediatria pondera que a probabilidade destas crianças, quando assintomáticas, transmitirem a infecção seja possivelmente menor, já que não apresentariam sintomas que contribuam para a infectividade, como tosse e espirros. 

Neste contexto de falta de evidências mais robustas, estas diretrizes pedem que a tomada de decisões seja baseada em características locais, tanto epidemiológicas como dependentes das estruturas física e de pessoal nas escolas. 

No aspecto epidemiológico cita guia de recomendações publicado pelo Centro de Controle de Doenças Infecciosas dos EUA em setembro de 2020. Neste documento o CDC avalia que o risco de transmissão é baixo ou moderado nos locais que registrem, respectivamente, menos de 20 ou 50 casos novos por 100 mil habitantes a cada 14 dias.

Recomendações: 

Rigorosas medidas de higiene pessoal e de superfície, associadas a medidas de distanciamento físico, com alternância de grupos em salas de aulas.
O espaçamento entre as cadeiras nas salas de aula deve respeitar o mínimo de 1, ou idealmente, 2 metros.
Triagem diária dos sintomas (febre, sintomas gripais ou gastrointestinais), com instruções expressas aos pais para reconhecimento destas manifestações.
Espaço reservado e pessoal treinado para acolhimento das crianças que iniciem com sintomas no período de aulas.
Exigência do uso de máscaras para crianças em condições de usá-las - há risco potencial de sufocamento em crianças menores de 2 anos
Disponibilidade de testes diagnósticos virológicos – PCR ou teste de antígeno - na Unidade de Saúde responsável pelo atendimento destas crianças.
Formação de comitês, com participação de técnicos da área da saúde e educação, que avaliem pontos específicos em cada escola, como número de banheiros, disponibilidade de pias, capacitação e proteção dos recursos humanos, transporte público utilizados pelos alunos, entre outros.

Adoção de modelo híbrido, com atividades presenciais intercaladas com remotas.
Respeito ao desejo daqueles que queiram ficar em casa, mesmo que motivados “apenas” pelo receio de retornar ao convívio social neste momento.
Conclui que “o retorno às aulas presenciais em um ambiente seguro é de extrema importância para a saúde de crianças e adolescentes. E, para atingir este objetivo, há exigências estruturais, higiênicas, sanitárias e comportamentais que necessitam ser planejadas e implantadas nas escolas”.

Por Renato Matos 23/09/2020 - 10:27Atualizado em 23/09/2020 - 10:54

A gripe espanhola de 1918 é considerada uma das piores pandemias da história. Estima-se entre 20 e 50 milhões as mortes no mundo – para comparação, estamos alcançando agora o primeiro milhão com o coronavírus. Chegou no Brasil por Salvador, onde havia aportado o navio britânico Demerara, com vários infectados a bordo. Rapidamente espalhou-se pelo país.

No auge da pandemia, na cidade de São Paulo - que possuía na época 500 mil habitantes - morriam em torno de 250 pessoas por dia. No Rio de Janeiro, em meados de outubro, foram enterrados em apenas três dias 1087 pessoas. Os detentos eram “convocados” para proceder ao transporte e enterro dos diversos corpos que permaneciam insepultos nas ruas da cidade.

Assim como agora, as pessoas achavam impossível não ter algum medicamento que pudesse prevenir ou curar a infecção. Estava pronto o espaço para a venda e abuso de produtos inúteis, viabilizado pelo pânico das pessoas.

Contra a espanhola, como era conhecida, uma alternativa era o Extrato Tonsilar do Instituto Butantã, que também oferecia o Extrato Suprarrenal e o Óleo Canforado. De outros laboratórios eram recomendados a Água Purgativa Queiroz e as Pílulas Sudoríficas de Luiz Carlos, estes como preventivos e curativos.

A doença poderia ser enfrentada também com o Salkinol número 1. Mas, havendo tosse, o indicado era o Salkinol número 2.

Um dos medicamentos mais procurados, anunciado como “o remédio da gripe espanhola”, a Grippina era produzida pelo laboratório de Alberto Seabra, famoso médico homeopata paulista. A Bayer trouxe a fenacetina, sintetizada na Alemanha poucos anos antes – “tiro e queda contra a influenza”.

Hoje proibida na maioria dos países por seus efeitos cancerígenos e outros graves efeitos colaterais, a fenacetina atualmente é a substância mais misturada com a cocaína no Brasil – barata, de consistência e cor semelhantes, aumenta o volume da droga sem chamar a atenção.

Como nos conta João Paulo Martino, no seu livro “1918. A Gripe Espanhola – os Dias Malditos” o Serviço Sanitário utilizava espaço nos jornais para divulgar os cuidados que a população deveria seguir. No boletim de 16 de outubro era publicado: “Para evitar a influenza, todo indivíduo deve fugir de aglomerações, principalmente à noite, não frequentar teatros, cinemas, não fazer visitas e tomar cuidados higiênicos com as mucosas”.

Inacreditavelmente, um século depois, a história se repete.

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