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* as opiniões expressas neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do 4oito
Por Renato Matos 22/07/2021 - 07:55Atualizado em 22/07/2021 - 07:56

A edição de ontem, 21, do New England Journal of Medicine traz um artigo original sobre a efetividade das vacinas da Pfizer e AstraZeneca, no Reino Unido, contra a nova variante Delta, surgida na Índia.
A efetividade das duas vacinas foi muito semelhante quando avaliada naqueles indivíduos que receberam apenas a primeira dose: apenas cerca de 30%.
Quando foram estudados aqueles que já haviam recebido as 2 doses, a eficiência subiu muito: 88% para os vacinados com a Pfizer, 67% para quem foi imunizado com a AstraZeneca.
Não há ainda estudos populacionais equivalentes com a Coronavac.
Segundo o diretor do Instituto Butantan, Bruno Covas, a Coronavac mostrou resultados “muito animadores” quando testada em laboratório na China. 
Apesar de já apresentar circulação comunitária no país – há casos detectados inclusive em Gramado - não sabemos ainda se essa variante vai se tornar predominante em nosso meio.
Como tradicionalmente temos um atraso de 6 a 8 semanas em relação às ondas ocorridas no hemisfério norte, devemos ficar atentos.
E, o mais rapidamente possível, avançar na vacinação completa da nossa população, principalmente dos mais vulneráveis.

Por Renato Matos 19/07/2021 - 07:27Atualizado em 19/07/2021 - 07:28

Em nossa cidade, depois de meses vivendo com cerca de 200 internações/dia de pacientes com Covid-19, os números estão baixando. Nos últimos dias estão um pouco acima de 100 – sendo a metade de outros municípios.
Números ainda bem acima dos observados em fevereiro. No dia 10 daquele mês, tínhamos 40 pacientes internados em nossos hospitais, sendo 21 de Criciúma.
Na sequência, chegou a variante Gama (P1) e sabemos como a situação evoluiu. Apenas nesses últimos 5 meses, morreram 350 criciumenses: mais da metade do total de óbitos (611) até o momento.
A dúvida, agora, quando a P1 vem perdendo força, é se a variante Delta, já com transmissão comunitária em alguns estados, ganhará espaço em nosso país.
A variante foi identificada pela primeira vez na Índia e foi responsável por uma onda esmagadora, que causou 30 milhões de infecções e, pelo menos, 400.000 mortes naquele país. 
O vírus rapidamente se espalhou para a Inglaterra, onde agora é a fonte de 99% dos casos. Desde então, apareceu em 104 países e em todos os 50 estados norte-americanos.
Nos EUA, infecções, hospitalizações e mortes estão subindo rapidamente em alguns estados com baixas taxas de vacinação:  Arkansas, Missouri, Texas e Nevada, por exemplo.
A “baixa vacinação” nesses estados significa 35% de pessoas totalmente imunizadas no Arkansas e 43% no Texas e em Nevada.
Pelo vacinômetro do governo do estado de Santa Catarina, atualizado em 17 de julho, estamos com 15,32% da população totalmente vacinada.
Esse é um dado crucial.
Até o momento, sabemos que as vacinas trazem proteção contra formas graves da variante Delta – desde que a pessoa esteja com a vacinação completa.
Apesar de podermos comemorar os últimos números em nossa cidade - resultado da eficiência mostrada pelas vacinas - é bom não baixar demais a guarda.

Por Renato Matos 15/07/2021 - 07:11Atualizado em 15/07/2021 - 07:11

A variante Delta foi identificada pela primeira vez na Índia, no final do ano passado. 

Declarada uma "variante de preocupação" pela Organização Mundial da Saúde em maio passado, ela foi a responsável pela violenta onda de casos e mortes que ocorreu na Índia este ano.

Pesquisas sugerem que a Delta é a mais contagiosa de todas as variantes conhecidas até o momento.

Essa variante já foi relatada em mais de 95 países, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, inclusive alguns poucos casos em nosso país.

No Reino Unido, já é responsável por mais de 95% dos novos casos de Covid-19, levando ao aumento no número de casos – mas não mortes. 

Está se tornando a variante dominante nos EUA. Casos envolvendo a Delta já foram confirmados em todos os 50 estados do país.

As vacinas em uso parecem oferecer uma boa proteção contra a variante Delta, e a maioria dos cientistas concorda que indivíduos totalmente vacinados provavelmente enfrentem pouco risco de hospitalizações e mortes.

 A Delta Plus

A variante da variante, chamada de Delta Plus, foi relatada pela primeira vez em um boletim do Public Health England, em 11 de junho. Casos dessa variante foram descobertos na Índia, EUA, Canadá, Japão, Reino Unido, Portugal, Suíça, Nepal, Polônia, Rússia e Turquia.

Ela é uma sub-linhagem da variante Delta, que adquiriu outra mutação da proteína Spike, já encontrada na variante Beta, identificada pela primeira vez na África do Sul.

Existe a preocupação que essa variante seja ainda mais transmissível.

E que possa escapar da proteção de algumas vacinas, como aconteceu com a variante sul africana.

Não há atalhos.

Precisamos acelerar nossa vacinação – e manter as medidas sanitárias - até que possamos contar com uma situação mais segura.

Por Renato Matos 12/07/2021 - 08:15Atualizado em 12/07/2021 - 08:17

Uma briga pública eclodiu entre a Pfizer e as autoridades federais de saúde americanas sobre a necessidade de doses de reforço das vacinas contra o coronavírus.
A Pfizer e a empresa alemã BioNTech anunciaram recentemente que planejam buscar autorização regulatória para uma injeção de reforço, prevendo que as pessoas precisariam de uma dose adicional de vacina de seis a 12 meses depois de serem totalmente imunizadas. 

Horas depois, o Departamento de Saúde americano emitiu uma repreensão enfática, dizendo que "os americanos que foram totalmente vacinados não precisam de uma injeção de reforço neste momento”.
A discordância ocorre quando o mundo é agitado pela variante Delta, surgida na Índia e que coloca em discussão as medidas de abertura tomadas pelos países com altos índices de vacinação.
A declaração do departamento de saúde não mencionou a Pfizer pelo nome, mas disse que "um processo rigoroso e baseado na ciência liderado pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, pela Food and Drug Administration e pelos Institutos Nacionais de Saúde determinarão se os reforços serão necessários”

Embora algumas variantes tragam preocupações por poderem escapar da proteção fornecida pelas vacinas, os dados disponíveis até o momento mostraram que pessoas totalmente vacinadas permanecem bem protegidas contra doenças graves, internação e morte.

Um relatório dos analistas da Bloomberg Intelligence estimou que os reforços da vacina contra o SARS-CoV-2 poderiam representar um mercado global de US$ 11 bilhões a US$ 37 bilhões a cada ano. 
"Ninguém está dizendo que nunca precisaremos de um reforço, mas dizer que precisamos agora e dar ao público a impressão de que as vacinas estão falhando e algo precisa ser feito com urgência... O momento não é agora", disse John P. Moore, professor de microbiologia e imunologia da Weill Cornell Medicine. 
Por aqui, sem dúvidas, a prioridade é completar a vacinação de toda a população o mais rapidamente possível.
Reforçando: pessoas totalmente vacinadas (doses completas) permanecem bem protegidas contra doenças graves, internação e morte..

Por Renato Matos 07/07/2021 - 13:54Atualizado em 07/07/2021 - 13:55

Linfonodomegalia é o termo usado para definir um aumento dos gânglios linfáticos, popularmente conhecida como ínguas.

Geralmente está associada a algum processo infeccioso, mas eventualmente pode sinalizar a presença de algum tumor.

A mamografia é um exame radiológico usado para detecção do câncer de mama.

Faz parte desse exame, a avaliação de gânglios axilares – seu aumento pode sugerir a presença de alguma metástase.

Entra aí, a vacina contra a Covid.

Uma reação rara após a aplicação de uma vacina no membro superior é o aumento dos gânglios axilares no mesmo lado da injeção.

Pode acontecer com a vacina do sarampo, da gripe - e com a vacina contra a Covid.

Não sinaliza nenhuma gravidade ou problema na aplicação da dose.

Mas pode confundir o radiologista quando da interpretação de uma mamografia.

Para normatizar a realização desse exame de rastreamento, a Sociedade Brasileira de Mastologia, juntamente com outras entidades relacionadas, recomenda que seja realizado antes da primeira dose ou quatro semanas após a segunda dose da vacina contra a Covid-19.

Em casos específicos, converse com seu ginecologista.

Por Renato Matos 05/07/2021 - 07:44Atualizado em 05/07/2021 - 07:45

Pelos mais diversos motivos, existe uma evidente desconfiança contra a Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan.

É o patinho feio das vacinas que utilizamos no Brasil. 

As vacinas que hoje estão disponíveis, ao contrário do que boa parte das pessoas pensam, não surgiram de uma hora para outra.

Mesmo as vacinas de tecnologia mais revolucionária, como as de vetor viral ou mRNA, já vêm sendo desenvolvidas há anos.

Faltavam os vultosos investimentos que só a pandemia poderia liberar.

Nesse aspecto de receio de novidades, a vacina do Butantan leva imensa vantagem.

Sua técnica de fabricação, usando vírus inativados, é a mais testada de todas – é usada em vacinas que utilizamos há muito tempo, como a da gripe, desenvolvida para ser utilizada nos soldados americanos na segunda guerra mundial (1939 a 1945).

Já aprovada pela Organização Mundial da Saúde, também tem mostrado segurança e eficácia em estudos de fase 2, quando utilizada em crianças e adolescentes de 3 a 17 anos de idade (The Lancet Infectious Disease, 28 de junho de 2021). 

Em estudo de vida real, sua eficiência foi testada no município de Serrana (SP), cidade com 45 mil habitantes. 

Cinco semanas após ter-se completado a vacinação da população adulta, observou-se redução de 95% dos óbitos, 86% nas internações e 80% dos casos sintomáticos. 

Esses números foram observados na população geral, apesar de apenas a população adulta ter sido vacinada.


Ainda lembrando das cópias baratas de diversos produtos que vinham da China décadas atrás?

A China é, hoje, a maior formadora mundial de alunos com graduação em ciências e engenharia. 

Desde 2007, o país concede mais doutorados em ciências naturais e engenharia do que qualquer outro país.

Atualmente é o segundo país com maior gasto em pesquisas e desenvolvimento, ficando atrás apenas dos EUA.

Deixemos de tolices.
Vamos virar a página dessa pandemia.

Por Renato Matos 30/06/2021 - 07:51Atualizado em 30/06/2021 - 07:51

Foi publicado no New England Journal of Medicine, em 23 de junho passado, o resultado de um estudo que avaliou a incidência de infecção secundária pelo SARS-CoV-2 em indivíduos não vacinados que tiveram contato com infectados dentro do ambiente domiciliar.
 Foram acompanhadas pouco mais de 960 mil pessoas nos meses de janeiro e fevereiro de 2021, em cidades da Inglaterra. 
Todos tiveram contato com infectados dentro de suas residências.
Entre aqueles que moravam com não vacinados, 10% desenvolveram a doença.
Quando o caso índice havia recebido a vacina Oxford/AstraZeneca (pelo menos 21 dias após a primeira dose), 5,7% desenvolveram a doença.
Quando a vacina utilizada foi a Pfizer/BioNTech, 6,2% dos comunicantes apresentaram a infecção.
Já sabemos que a vacinação contra a Covid-19 previne infecções e reduz a gravidade dos sintomas.
Os dados apresentados mostram que aqueles vacinados também transmitem menos a doença – mas não totalmente.
Por isso, a importância das conhecidas medidas sanitárias até que um alto percentual da população esteja imunizado e a circulação do vírus controlada.

Variante Delta e vacinas

Em Israel, que já tem mais de 80% da sua população adulta vacinada, a variante Delta (surgida na Índia) está se tornando a dominante.
Mais transmissível, a Delta levou a um aumento no número diário de casos naquele país – 308 casos no dia de ontem – mas sem aumento nas hospitalizações ou mortes.
Sua parede de imunização, até agora, tem se mantido firme..

Por Renato Matos 28/06/2021 - 08:01Atualizado em 28/06/2021 - 08:02

Dados recentemente disponibilizados pelo CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) e analisados pela agência Associated Press mostraram que pessoas totalmente vacinadas foram responsáveis por apenas 0,1% das 853.000 internações ocorridas em maio por Covid-19 naquele país.

O impacto na mortalidade também é imenso:  das 18.000 mortes, apenas 150 ocorreram naqueles completamente vacinados – 0,8%.
A diretora do CDC, Rochelle Walensky, disse que a vacina é tão eficaz que “quase todas as mortes por Covid-19, especialmente entre os adultos, são, neste ponto, totalmente evitáveis”.
Dados de 23 de junho mostram que 77% dos americanos acima de 65 anos estão completamente vacinados.
Acima de 18 anos, 56%. 

Os EUA, com uma população de 330 milhões de pessoas, contabilizam, até o momento, 603 mil mortes pela Covid-19.
Do pico de mais de 3.000 mortes diárias, hoje estão com cerca de 300 mortes/dia, que poderiam ser praticamente zeradas se todos os elegíveis tivessem sido vacinados.
 

Por Renato Matos 21/06/2021 - 08:06Atualizado em 21/06/2021 - 08:07

O princípio da hipótese nula se aplica à ciência em geral: um fenômeno não deve ser considerado verdadeiro antes da sua comprovação.
Até prova em contrário – usando as ferramentas do método científico – partimos do pressuposto de que não existe associação entre uma intervenção e um resultado.
Não só na definição da eficácia de medicamentos.
Usar celular causa câncer no cérebro?
Como o uso do celular é disseminado e vemos poucos casos de câncer no cérebro, partimos do pressuposto que não existe essa associação – esta é a hipótese nula. 
Para provarmos o contrário, precisaríamos que estudos muito bem delineados mostrassem, com mínimas margens de erro, que existe causalidade entre o seu uso e a doença.
Existem exceções a essa regra básica. 
Uma delas é o princípio da plausibilidade extrema, quando devemos acreditar no fenômeno ou adotar uma conduta médica, independente de demonstração científica.
O exemplo comumente usado é o paradigma do paraquedas. 
É tão plausível que o paraquedas vá reduzir a morte de alguém que pule de um avião que não há necessidade de nenhum estudo para testar essa hipótese.
O uso de máscaras para a prevenção da transmissão do coronavírus não preenche os critérios do princípio da plausibilidade extrema, mas pode se aproximar dele.
Em junho de 2020, a revista Lancet publicou uma revisão sistemática dos estudos observacionais publicados sobre a eficácia do uso de máscaras e distanciamento físico no controle da disseminação da doença, com resultados favoráveis a sua adoção. 
Foi apenas nessa época – meados de 2020 - que a Organização Mundial da Saúde recomendou a adoção disseminada do seu uso.
A rota primária de transmissão do SARS-CoV-2 é por meio de partículas respiratórias, muitas vezes eliminadas por indivíduos assintomáticos.  
Ao criar uma barreira, a máscara consegue estabelecer um obstáculo físico a sua transmissão.
A preponderância das evidências científicas atuais indica que as máscaras reduzem a transmissibilidade tanto em contextos clínicos quanto laboratoriais.
Dada a gravidade da pandemia, essas evidências, combinadas com o baixíssimo risco de complicações, suportam o seu uso pela população em geral.
A magnitude potencial do benefício a nível populacional é imensa.
Enquanto não tivermos uma parcela significativa da população vacinada, sua utilização é, literalmente, vital.

Por Renato Matos 14/06/2021 - 07:39Atualizado em 14/06/2021 - 07:40

A vacina tríplice viral é uma combinação dos vírus vivos atenuados do sarampo, da caxumba e da rubéola, usada rotineiramente em crianças acima de 12 meses de idade.
Em janeiro foi tornado público um estudo preliminar feito na Universidade Federal de Santa Catarina, sugerindo que o seu uso reduziria o risco de internação por Covid-19 em 74%. 
Apesar da falta de plausibilidade e o pequeno número de voluntários testados, algumas pessoas correram para tomá-la, esperando com isso ativar sua imunidade.  
Não leram a bula.
Lá está descrito que de 5% a 15% dos vacinados apresentam febre alta (maior que 39,5⁰C), que surge de 5 a 12 dias após a vacinação, com um a cinco dias de duração. Alguns podem apresentar convulsão febril, sem consequências graves.
A bula também informa que inflamação das meninges (meningite), em geral benigna, pode ocorrer entre o 11º e o 32º dia após a vacinação, além de inflamação do cérebro (encefalite), que pode surgir entre 15 e 30 dias após a vacinação. 
O número dessas complicações oscila entre 1 a cada 1 milhão e 1 a cada 2,5 milhões de vacinados com a primeira dose.

Outra vacina de uso corrente, a meningocócica ACWY, da Pfizer, a mesma fabricante da vacina contra o SARS-CoV-2, indicada para crianças e adolescentes, leva, em até 10% dos casos, a reações no local da aplicação, irritabilidade, dor de cabeça, sonolência, perda de apetite, febre, dores musculares e calafrios.
A mesma bula da vacina da Pfizer indica que “como ocorre com qualquer vacina, pode não ser induzida resposta imune protetora em todos os vacinados”.

Se formos ler a bula de todas as vacinas que são aplicadas há décadas, a relação de efeitos colaterais é muito semelhante.
Não seria diferente com as vacinas contra o coronavírus. 
Reações graves são excepcionalmente raras, a ponto de, quando aparecem, levarem à suspensão temporária de seu uso, até que a relação de causalidade seja estabelecida.

Além disso, não existem estudos comparando a efetividade das vacinas.
A eficácia de 90% de uma vacina não pode ser simplesmente comparada com os 70% de outra, testadas em outros locais e sob diferentes condições.

Todas as vacinas utilizadas no Brasil foram aprovadas em grandes ensaios clínicos e já tem o aval da Organização Mundial de Saúde.


Com menos de 15% da população brasileira vacinada com as duas doses necessárias, não é hora de querer ficar escolhendo marca de vacina.

Qual a melhor?

Aquela que puder ser aplicada no seu braço.
 

Por Renato Matos 07/06/2021 - 08:17Atualizado em 07/06/2021 - 08:18

A Bioética é a área de estudo focada na influência de princípios morais e éticos na prática médica e na pesquisa científica.
A resolução de dilemas bioéticos se baseia na análise de quatro princípios fundamentais: beneficência, não-maleficência, justiça e autonomia.
Beneficência é o ato, a prática ou virtude de fazer o bem.  Aplicada a saúde, determina que os tratamentos médicos devem ser aplicados considerando o máximo de benefício, com o mínimo prejuízo possível.
Não-maleficência se confunde com o princípio anterior e o complementa. Nenhum tratamento deve causar prejuízos além dos já existentes como consequência da doença.
O preceito da justiça determina que o acesso aos tratamentos de saúde seja feito de forma justa e igualitária, independente de questões sociais, culturais, étnicas, de gênero ou religiosas.
O foco da autonomia é centrado no paciente, habitualmente, a parte mais frágil na relação médico/paciente: a sua vontade quanto ao tratamento que será submetido deve ser respeitada.
A autonomia é o único dos princípios bioéticos que não é contemplado no Juramento de Hipócrates, escrito no século V a.C.

E quanto a autonomia do médico?

Uma boa discussão sobre o assunto, fruto de uma colaboração formal entre pesquisadores brasileiros e o Centro de Medicina Baseada em Evidências da Universidade de Oxford, está exposta no site da Oxford-Brazil EBM Alliance: “Autonomia Médica em Tempos de Pandemia”.
“Autonomia não significa liberdade irrestrita. Curiosamente, este pressuposto é muito utilizado para justificar opiniões pessoais e não surgiu na pandemia. Vemos com muita frequência médicos (e outros profissionais de saúde) resistentes a seguir diretrizes assistenciais ou protocolos de segurança do paciente, com a justificativa de que a sua autonomia estaria sendo tolhida”. 
Sob a pressão da pandemia, alguns médicos defendem a posição de que devemos “fazer qualquer coisa”, como se não prescrever algum tratamento, mesmo que ineficaz, caracterizaria omissão.
É uma posição ultrapassada, conhecida como o paradigma da mentalidade do médico ativo, em que fazer mais é sempre o melhor.


“Por fim, infelizmente a maioria dos médicos não é treinada para a prática do pensamento científico, e tem conhecimentos limitados de métodos de pesquisa. Vemos com tristeza condutas e defesas fervorosas de conduta A ou B baseadas em estudos com falhas ou limitações graves, que não poderiam jamais justificar as condutas médicas tomadas”. 
“Sim, os médicos, na maioria, são médicos, não são cientistas”.
O Código de Ética Médica adotado no Brasil, atualizado em 2019, estabelece que é direito do médico “indicar o procedimento adequado ao paciente, observadas as práticas cientificamente reconhecidas e respeitada a legislação vigente”.

Não é opinião e independe de pandemia.

É ditame do Código de Ética...

Por Renato Matos 31/05/2021 - 09:52Atualizado em 31/05/2021 - 09:53

A eficácia das vacinas, inclusive contra a Covid, nunca é de 100%.
Assim, existiria algum exame que poderia ser feito para assegurar que os vacinados estão realmente imunizados?


É preciso lembrar que vários atores participam da resposta imune. 
Além dos linfócitos tipo B - que produzem os conhecidos anticorpos que medimos nos testes sorológicos para o SARS-CoV-2 - temos os menos conhecidos, mas igualmente importantes, linfócitos T. 
São as células responsáveis pela imunidade celular. 
Para realçar a importância das células T, pode-se recordar que essa é a célula visada pelo vírus HIV.   
Quando depletadas, levam a graves - muitas vezes fatais - infecções oportunistas.
Também entram no jogo as células de memória, outro subgrupo dos linfócitos.


Os testes sorológicos para COVID-19, que estão disponíveis há meses nos laboratórios, detectam a presença de anticorpos da classe IgM, IgA ou IgG.
A presença desses anticorpos apenas mostra que houve exposição ao SARS-CoV-2, por infecção natural ou pós-vacina.
Não significa proteção contra infecção ou doença.

Recentemente foi disponibilizado comercialmente outro teste: a pesquisa de anticorpos neutralizantes.
Estes, bloqueando especificamente a ligação do vírus às células, impedem o desenvolvimento da infecção.
A produção desses anticorpos também pode ser secundária à infecção natural ou vacinação.
O resultado reagente vem acompanhado de um resultado numérico: acima de 20%, o teste é considerado positivo.
Contudo, até o momento, não existe definição da quantidade de anticorpos neutralizantes necessários para proteção contra a infecção pelo SARS-CoV-2.
Se o resultado for positivo, não significa que o indivíduo esteja realmente protegido.
Se negativo, não indica que não haja imunidade: há os outros mecanismos de defesa não avaliados por esse método.

Houvesse um teste laboratorial que indicasse com segurança a presença de imunidade plena após a vacinação, não seriam necessários os demorados e caros ensaios clínicos, padrão ouro, para avaliar a eficácia das vacinas.

Resumindo:  dentro dos conhecimentos atuais, à nível individual, não existe indicação de fazer qualquer tipo de teste para confirmar a eficácia da vacina.

Como tem sido dito à exaustão, as vacinas cumprirão seu papel quando grandes percentuais da população as tiverem recebido, reduzindo os susceptíveis na população. 
Vacina não é um tratamento individual. É coletivo.

Por Renato Matos 25/05/2021 - 18:53Atualizado em 25/05/2021 - 18:57

Frente a grande cobertura vacinal contra o SARS-CoV2, o Centro de Controle e Prevenção de Doença (CDC) dos EUA publicou novas diretrizes a serem adotadas dentro do território norte-americano.

A partir de agora, pessoas totalmente vacinadas podem participar de atividades em qualquer ambiente (interno ou ao ar livre) sem necessidade de usar máscara ou manter o distanciamento físico.

A dúvida é como proteger as crianças – ainda não imunizadas - uma vez que não é possível saber se as pessoas sem máscaras que estão em lugares públicos estão realmente vacinadas.

Na edição do dia 21 passado, o New York Times publicou uma enquete realizada com 828 especialistas, entre epidemiologistas e infectologistas, para avaliar essa questão.
Bom saber que será uma fase temporária.

A Pfizer, que já testou e liberou as vacinas contra o Covid-19 para adolescentes acima de 12 anos, anunciou que espera vacinar crianças acima de 2 anos ainda em setembro deste ano.
Nos Estados Unidos da América, existem apenas 3 vacinas aprovadas para uso emergencial: as eficientíssimas Pfizer e Moderna e, um pouco atrás, as da Johnson & Johnson.
Na pesquisa do New York Times, a maioria dos especialistas afirma que as crianças só podem ir a lugares públicos com máscaras. 

Mais prudentes, 30% dizem que as crianças simplesmente não deveriam frequentar esses locais.

E quando famílias, com todos os adultos já vacinados, decidem socializar em lugares fechados?
27% respondem que concordam que adultos vacinados fiquem juntos, mas não as crianças.
26% optaram por manter todas as precauções sanitárias, apesar dos adultos já vacinados.
36% admitem a possibilidade de ficarem todos juntos, mas apenas com um número limitados de pessoas.

Em ambientes externos, quando as crianças não puderem usar máscaras (como praticando natação ou alimentando-se), 69% dos entrevistados concordam que, eventualmente, poderiam ficar próximas.
Em lugares fechados, ¾ dos pesquisados acham que não deveria ser permitido que crianças fiquem sem máscaras – o risco de infectar-se nesses lugares é muito alto.
O mesmo percentual acha necessário que crianças usem máscaras em playgrounds ou praticando esportes ao ar livre.

Se essa é a percepção entre os especialistas norte-americanos, onde quase 300 milhões de doses já foram aplicadas e o número de mortos e infectados pela Covid-19 caiu drasticamente, como fazer diferente com nossas crianças? 

Por Renato Matos 17/05/2021 - 09:20Atualizado em 17/05/2021 - 09:23

A gravidez é um fator de risco para complicações da Covid-19, assim como é para a Influenza.

Um estudo publicado na JAMA Pediatrics, em 22 de abril deste ano, reforça essa associação: 2.130 mulheres de 18 países foram acompanhadas sob a supervisão de pesquisadores da Universidade de Washington e de Oxford. 

As grávidas que contraíram o vírus tiveram um risco 22 vezes maior de morrer do que as não infectadas.

Elas também apresentaram um risco maior de pré-eclâmpsia (hipertensão arterial durante a gravidez), parto prematuro e maior necessidade de internação em unidades de tratamento intensivo.

Comorbidades, como diabetes, e doença sintomática amplificaram o risco de complicações e mortes.

Recém-nascidos de mulheres diagnosticadas com Covid-19 tiveram mais chance de serem prematuros e necessidade de permanência em unidades de tratamento intensivo.

Cesarianas aumentaram o risco de testes positivos para Covid-19 nos recém-nascidos, mas não a amamentação.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que todas as mulheres grávidas que têm maior risco de exposição ao SARS-CoV-2 ou que tenham comorbidades sejam vacinadas após consulta e concordância do profissional de saúde que acompanha o caso.

Os dados de segurança sobre vacinação nesse grupo são limitados. Mulheres grávidas habitualmente são excluídas dos estudos de eficácia das vacinas.

Um estudo pequeno, com 131 mulheres, publicado na American Journal of Obstetrics & Gynecology, em março, mostrou que as vacinas da Pfizer e Moderna, que utilizam a técnica do RNA mensageiro, eram seguras e efetivas em grávidas e em mulheres que estavam amamentando. 

Em 21 de abril, o New England Journal of Medicine publicou um estudo mais robusto, avaliando as vacinas da Pfizer e Moderna em 35.000 mulheres grávidas.

Não houve aumento de complicações durante a gravidez ou riscos identificados nas crianças nascidas de mães vacinadas.

A partir daí, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA passou formalmente a recomendar a vacinação de grávidas, mas especificamente com essas vacinas.

No Brasil, em 26 de março, o Ministério da Saúde decidiu incluir todas a grávidas e puérperas (mulheres no pós-parto) no grupo prioritário para receber a vacina contra a Covid-19.

Todas as vacinas disponíveis no país estavam sendo utilizadas: Coronavac, Oxford/AstraZeneca e as raras Pfizer.

Essa determinação mudou após a morte, no Rio de Janeiro, de uma gestante de 35 anos, por AVC, após ter recebido a vacina da AstraZeneca.

Até que a associação entre a vacina da AstraZeneca e o óbito da gestante esteja esclarecida, o uso dessa vacina está suspenso em grávidas no país.

Agora, também, a vacinação está restrita somente a grávidas e puérperas com comorbidades. 

E apenas com as vacinas CoronaVac e Pfizer.

Importante ressaltar que enquanto o risco de trombose associado à vacina da AstraZeneca é de 0,0004%, o risco relacionado ao uso de anticoncepcionais é de 0,05%.

E naqueles infectados pela Covid-19, 16,5%!

Por Renato Matos 10/05/2021 - 10:05

Asma brônquica


A Comissão Científica de Asma da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, com contribuições de outras sociedades médicas, divulgou orientações sobre vacinação para pacientes com asma brônquica.

No início da pandemia era temido que esses pacientes pudessem ter piores desfechos. 

No entanto, a maioria dos asmáticos tem quadros leves ou moderados. Quando tinham a doença controlada, não mostravam formas mais graves de Covid-19.

Diferente é a situação de asmáticos graves, que têm maior probabilidade de formas severas e maior mortalidade hospitalar. 

Esses, sim, são considerados grupo prioritário para vacinação contra Covid-19.

Asmáticos graves são aqueles que apresentam uma doença não controlada – continuam a ter sintomas – apesar de doses altas de corticoide inalatório e um ou mais medicamentos de controle (broncodilatadores de ação prolongada) ou necessitam fazer uso de corticoide oral em mais da metade dos dias no ano anterior.

Também são considerados graves aqueles pacientes que necessitam fazer uso de anticorpos monoclonais, como o omalizumabe.

O Plano Nacional de Operacionalização de vacinação contra a Covid-19 também contempla outras pneumopatias crônicas graves:

- Doença pulmonar obstrutiva crônica (bronquite crônica associada a enfisema pulmonar)
- Fibrose cística
- Fibroses pulmonares
- Pneumoconioses
- Displasia pulmonar – doença pulmonar geralmente associada à prematuridade, em crianças que apresentaram insuficiência respiratória e necessitaram de ventilação mecânica.

 

Hipertensão arterial sistêmica

Uma boa definição é contida nas Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial, publicada pelas Sociedades Brasileira de Cardiologia, Hipertensão e Nefrologia, publicada em 2020: a hipertensão arterial (HA) é uma doença crônica não transmissível definida por níveis pressóricos em que os benefícios do tratamento (não medicamentoso e/ ou medicamentoso) superam os riscos. 

Definição Hipocrática na essência: “Primum non nocere” é um termo latino da bioética que significa "primeiro, não prejudicar". 

É caracterizada por elevação persistente da pressão arterial, ou seja, PA sistólica maior ou igual a 140 mmHg e/ou PA diastólica maior ou igual a 90 mmHg, medida com a técnica correta, em pelo menos duas ocasiões diferentes, na ausência de medicação anti-hipertensiva.

É uma doença comum: no Brasil é estimada uma prevalência em torno de 30 milhões de adultos – praticamente o mesmo número de pessoas que receberam até agora a primeira dose da vacina contra a Covid-19 no país. 

Se todos os hipertensos fizessem parte do grupo de risco, frente a escassez de vacinas, teríamos outro problema imenso a ser enfrentado.

Nesse cenário é fundamental que sejam especificadas aquelas situações em que realmente a presença de hipertensão traz riscos adicionais de complicações.

 

O Plano Nacional de Operacionalização de vacinação contra a Covid-19 especifica essas situações:

- Hipertensão arterial resistente, quando, apesar do uso de 3 anti-hipertensivos, os níveis pressóricos adequados não são alcançados;

- Hipertensão arterial estágio 3, quando a pressão sistólica for maior ou igual a 180 mmHg e/ou a pressão diastólica for maior ou igual a 110 mmHg;

- Indivíduos com níveis inferiores de pressão arterial (estágio 1 ou 2) só entram na lista de prioridades quando houver lesão em órgãos alvo (como coração, rins ou cérebro) ou comorbidades importantes.

 

Outras prioridades:


Da mesma forma, existem critérios específicos para outras doenças, como insuficiência cardíaca, síndromes coronarianas, doença renal crônica e imunossupressão.

Seu médico deverá preencher um formulário, inclusive já disponibilizado pela Secretaria de Saúde do nosso município, onde deverá especificar essas situações.

Pelo apresentado, fica claro que não é suficiente apresentar um atestado dizendo que você é portador de asma brônquica ou hipertensão arterial. Seu caso deve ser particularizado.


Num momento de muita procura e pouca oferta de vacinas, essas prioridades são fundamentais.

Converse com seu médico.

Por Renato Matos 04/05/2021 - 08:33

Cada coronavírus contém quase 30.000 letras de RNA em seu código genético. Aí estão as informações que permitem ao vírus infectar células e sequestrá-las para fazer novos vírus. 

A multiplicação viral se faz através de cópias, teoricamente idênticas, de seu RNA. 

Quando mais se multiplica, maior a probabilidade de cometer erros ao copiar essas informações – são as chamadas mutações.

Essas mutações são eventos normais dentro da biologia evolucionária dos vírus. São aleatórias: algumas os tornam mais fracos, enquanto outras os deixam mais aptos a proliferar ou causar mais infecções.

Diversas mutações terminam por gerar uma nova variante e as mais agressivas são adequadamente chamadas “de preocupação”.

Em publicação de 28 de abril, o Centro Europeu para Prevenção e Controle de Doenças publicou o resultado de um estudo realizado em 7 países do bloco.

O estudo foi conduzido entre outubro de 2020 e meados de março de 2021.

Foram analisados 19.995 casos de pessoas infectadas com as variantes de preocupação da época – a britânica (B.1.1.7), a sul africana (B.1.351) e a P1, a variante brasileira.

Comparando com pessoas infectadas com o vírus sem essas mutações, o risco de hospitalização para a variante britânica foi 1,7 vezes maior; para a sul africana, 3,6 vezes maior; e para a P1, 2,6, vezes maior.

Também houve aumento na necessidade de atendimento em unidades de tratamento intensivo: 2,3 para a britânica, 3,3 para a sul africana e 2,2 para a P1. 

Esses achados salientam o risco de formas severas da doença associado a essas variantes e enfatizam a necessidade de rápida cobertura vacinal associada à contínua aderência às conhecidas medidas sanitárias para prevenção da disseminação e do surgimento de novas variantes, que podem se tornar “de preocupação”.

 

Variantes circulantes no país

 

A Rede Genômica Fiocruz, formada por grupo de pesquisadores que tem como foco atual o estudo do genoma do Sars-CoV-2, relatou recentemente que existem em circulação no país 92 cepas do SARS-CoV-2.
A prevalente é a variante amazônica P1, detectada na maioria das unidades da federação, seguida pela variante inglesa, a B.1.1.7.

 

A preocupação do momento– a variante indiana 

 

Uma nova variante do SARS-CoV-2, denominada B.1.617, detectada recentemente na Índia, está sendo acompanhada com preocupação pelos organismos internacionais.

Apesar de não haver comprovação de que seja mais transmissível ou mortal, parece estar por trás do aumento exponencial de casos de Covid-19 na Índia nas últimas semanas.

Diferente de outras variantes de preocupação, carrega não apenas uma, mas duas mutações na proteína Spike – aquela responsável pela penetração do vírus nas células.

Essa dupla mutação também foi associada à menor capacidade de neutralização do coronavírus, tanto por anticorpos, como pelos linfócitos T, os principais responsáveis pela imunidade adquirida.

Isso significa que pessoas vacinadas ou que já tenham sido contaminadas podem estar menos protegidas contra a variante indiana. É a temida mutação de escape.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou no dia 27 passado que a variante indiana do novo coronavírus já foi detectada em pelo menos 17 países ao redor do mundo.

 

Vacinas de viagem

 

Com maiores parcelas da população mundial vacinadas, abre-se a possibilidade da retomada das viagens turísticas.

No entanto, países e/ou blocos de países, como a União Europeia, planejam restringir a entrada de viajantes vacinados com imunizantes não aprovados em seus territórios. 

Seguindo essa corrente de pensamento, os vacinados com a Coronavac não teriam acesso a países da União Europeia, nem aos EUA.

Essa vacina hoje está aprovada na China e tem uso emergencial permitido no Azerbaijão, Chile, Colômbia, Egito, Hong Kong, Uruguai, México, entre outros.

Os vacinados com a Oxford/AstraZeneca teriam maior possibilidade de escolha: seu uso está liberado na União Europeia, Canadá e dezenas de outros países.

Mas não ainda nos EUA.
 

Por Renato Matos 27/04/2021 - 15:00

Com o correr da pandemia, algumas verdades se tornaram mais salientes.
O acúmulo de estudos deixa bem claro que a transmissão do Coronavírus se dá primordialmente pela via respiratória, por gotículas ou aerossóis.

O papel da contaminação através do contato com superfícies está relegado a um papel secundário: é uma forma de transmissão extremamente rara - talvez tenhamos perdido muito tempo esfregando compras de supermercados.

Até meados do ano passado, não tínhamos esse conhecimento. Somente em junho, a OMS bateu o martelo sobre a importância do uso de máscaras na prevenção da disseminação do coronavírus.

Hoje, trabalhamos sem medo quando chegamos aos nossos locais de trabalho usando máscaras adequadas.

São o nosso colete à prova de balas – não são infalíveis, mas reduzem imensamente o risco de sermos mortalmente atingidos.

Uma das melhores defesas a favor do uso de máscaras a que tive acesso veio da lavra de um desembargador, ainda em novembro do ano passado. 

Ao responder a um mandado de segurança impetrado contra medida que havia determinado o uso de máscaras na cidade de Florianópolis, o desembargador do Tribunal de Justiça e ex-juiz em nossa cidade, Hélio do Valle Pereira, criou uma peça de extrema lucidez e erudição.

Com sua permissão, reproduzimos algumas das suas considerações.


Para não deixar dúvidas sobre sua posição, a conclusão de sua resposta inicia o documento: “É juridicamente legítima a imposição de uso de máscaras faciais, instrumento de combate ao contágio pelo Sars-Cov-2, causador da Covid-19”.

"O único propósito pelo qual o poder pode ser constantemente exercido sobre qualquer membro de uma comunidade, contra vontade deste, é o de prevenir danos para outros membros", disse John Stuart Mill, filósofo britânico que também sustentava a ideia de que, sem a plena liberdade, não pode haver progresso científico, jurídico ou político.

 “Usar máscaras em locais públicos - não fosse bastante a racionalidade de proteção da própria saúde - se justifica pela necessidade de preservação das outras pessoas”.

“Todos têm direito a ter suas próprias opiniões, mas não seus próprios fatos" (Daniel Patrick Moynihan).

“É o contra iluminismo: malquer a cultura formal, apequena o constitucionalismo, desdenha das universidades, deprecia a imprensa, enfastia-se com as diferenças; mas brada as conspirações, entusiasma-se com a ciência de WhatsApp, anima-se com a violência, revolta-se com a cooperação”. 

“É um iluminismo de supermercado, que vai às compras e nas prateleiras escolhe o que é conveniente - pelo preço!”

Por analogia, está claro que esse raciocínio vale para as outras medidas sanitárias necessárias nesse período de pandemia.

"Duas prioridades planetárias: desengaiolar pássaros, desengaiolar mentes" (Carlos Ayres Britto).

Brilhante.
Obrigado, doutor.

Por Renato Matos 20/04/2021 - 07:26Atualizado em 20/04/2021 - 07:27

O tratamento da tuberculose no Brasil é o mesmo, seja o paciente atendido no Hospital Sírio Libanês ou num pequeno posto de saúde da periferia.

Assim funciona o tratamento da maioria das doenças transmissíveis, como hepatites virais, hanseníase, HIV, entre tantas outras: sob a chancela do Ministério da Saúde, dentro das melhores evidências e com o respaldo das sociedades de especialidades.

Quando a assumiu o novo Ministro da Saúde, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, especialidade com tradição por seu alto padrão científico, tivemos a alegria de ouvir que, entre outras providências alinhadas com os melhores organismos internacionais, reuniria especialistas reconhecidos no tratamento do SARS-CoV-2 para traçar as recomendações sancionadas pelo seu ministério.

Melhor, chamaria para presidir esse grupo o Dr. Carlos Roberto Ribeiro de Carvalho, chefe da Divisão de Pneumologia do InCor (Instituto do Coração) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Até agora, infelizmente, a ideia não vingou.

Está claro que os conhecimentos para manejo de pacientes infectados pela Covid-19 ainda estão longe dos que temos para as doenças mais antigas.
Mas, passado mais de um ano da pandemia e com boa parte dos melhores pesquisadores do mundo envolvidos com o seu tratamento, já temos boas evidências do que deve ser feito.

Aos interessados, no dia 8 passado, foi publicado o “Guia de Manejo Covid-19”, que visa normatizar o atendimento de casos de Covid-19 no complexo Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Entre dezenas de especialistas daquele hospital, lá está o pneumologista que seria o escolhido pelo Dr. Queiroga para coordenar o protocolo do Ministério da Saúde – Dr. Carlos Roberto de Carvalho.
Que, se for convocado e assumir a função, não fará nada diferente do que consta no documento da USP – baseado na melhor literatura disponível, adaptada à nossa realidade e às nossas práticas.

No capítulo que discute o manejo dos casos, naqueles não graves – sem necessidade de internação hospitalar – o tratamento tem como objetivo aliviar os sintomas.

Em negrito, no documento, NÃO prescrever: 

    • Hidroxicloroquina/cloroquina/azitromicina
    • Ivermectina 
    • Antimicrobianos – estudos apontam coinfecção apenas entre 3 e 8% dos casos. Estes devem ser utilizados somente quando houver suspeita de infecção bacteriana.
    • Corticoides.

Deixam claro que o paciente deve ser reavaliado rapidamente caso haja falta de ar, alteração do estado mental, oximetria menor do que 94% em ar ambiente ou incapacidade de alimentar-se ou andar.

Desculpem a insistência no assunto, mas como alguns dizem que o paciente deve discutir o tratamento com seu médico, informação é fundamental.

Por Renato Matos 12/04/2021 - 09:35Atualizado em 12/04/2021 - 09:37

“Síndrome gripal” é um termo genérico utilizado quando o paciente apresenta febre de início súbito, acompanhada de tosse e/ou dor de garganta, geralmente associadas a dores musculares e cefaleia.

Quando esses sintomas são complicados por falta de ar, queda dos níveis de oxigênio (saturação <95%), necessidade de hospitalização ou óbito, a síndrome gripal passa a ser chamada de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG)

A definição de SRAG no Brasil segue o padrão da Organização Mundial da Saúde, de forma a manter a comparabilidade entre dados de diferentes países.

Os casos de SRAG devem ser notificados e os dados são reunidos em um sistema nacional pelo Ministério da Saúde, que os repassa semanalmente ao InfoGripe, gerido pela Fundação Osvaldo Cruz.

Entre as principais causas de SRAG estão os vírus Influenza e, desde o ano passado, o SARS-CoV-2.

Segundo o portal InfoGripe, até a semana epidemiológica 12, que se encerrou no dia 27/03/2021, dos casos reportados este ano, 95,5% tiveram como causa o coronavírus.

No ano passado, das apresentações com resultado laboratorial positivo, 0,3% eram provocadas pelo Influenza A, 0,2% pelo Influenza B e 97,9% pelo SARS-CoV2.

Não significa que não devamos fazer a vacina contra a Influenza – ele continua a ser um vírus importante, também associado a complicações respiratórias graves.

Mas, frente ao avassalador Coronavírus, ficou em segundo plano.

Pode complicar lá embaixo, também

Endotélio é o revestimento interno dos vasos sanguíneos e linfáticos. Não serve apenas como uma barreira mecânica, mas regula diversas funções orgânicas, entre outras, secretando substâncias vasodilatadoras e vasoconstritoras. 

Entre as vasodilatadoras, o óxido nítrico. 

A disfunção endotelial tem um papel central no aparecimento de sintomas e complicações da infecção pelo SARS-CoV-2, com o desenvolvimento de processos trombóticos e inflamatórios.

A disfunção erétil é considerada a marca registrada da disfunção endotelial.

O conhecido Viagra, por exemplo, age por vias metabólicas que aumentam a concentração de óxido nítrico, favorecendo o início e a manutenção da ereção.

Foi publicado no dia 20 de março, na revista Andrology, o artigo “Mask up to keep it up: Evidências preliminares da associação entre disfunção erétil e Covid-19”.

O trabalho, desenvolvido por endocrinologistas italianos, a maioria deles ligada à Universidade de Roma, investigou a prevalência de disfunção erétil entre homens que foram infectados pelo Coronavírus.

Ajustando os resultados por outros fatores que podem afetar a presença de disfunção erétil, como idade, estado psicológico e índice de massa corporal, aqueles infectados apresentaram um risco 5,6 vezes maior de disfunção erétil.

Com todas as limitações de um estudo retrospectivo, esse é um dado a ser considerado. 

Difícil foi achar uma tradução para a expressão “Mask up to keep it up”. 

Formal, “máscara em ação evita disfunção”.

No popular, com o perdão dos leitores: “nariz de fora, pinto que demora”.

Por Renato Matos 06/04/2021 - 07:30

Essa será a 23ª campanha de vacinação coordenada pelo Ministério da Saúde. Deve iniciar em 12 de abril e estender-se até 9 de junho. 
Alguns laboratórios particulares já estão vendendo o imunizante.
Terão direito de receber doses gratuitamente aqueles com mais de 60 anos, grupos prioritários (professores, trabalhadores da área de saúde e forças de segurança, caminhoneiros, população privada de liberdade, entre outros) e pessoas com doenças crônicas.
A composição da vacina é definida pela Organização Mundial da Saúde, de acordo com os vírus mais prevalentes que circularam nos meses que precederam a sua fabricação.
A vacina fornecida pelo SUS é chamada de trivalente, pois tem na sua composição 3 cepas: 2 da Influenza A (H1N1 e H3N2) e 1 cepa da Influenza B.
Nos laboratórios particulares, temos a vacina quadrivalente: as mesmas cepas da fornecida pelo SUS, mais 1 variante do tipo B. 
Talvez as futuras vacinas contra o SARS-CoV-2 possam ter essa polivalência. De acordo com as variantes circulantes em diferentes regiões do mundo, podemos ter vacinas com composições diversas. Aqui no Brasil, hoje, por exemplo, a cepa P1 seria priorizada. Além dela, outras cepas que representem os mutantes mais frequentes no momento.
A vacina contra a gripe utiliza vírus inativado, como a Coronavac produzida pelo Instituto Butantã. São extremamente seguras.
Só não podem recebê-la bebês abaixo de 6 meses e pessoas que apresentaram choque anafilático em aplicações anteriores.
Alergia à gema do ovo, antes contraindicação formal, agora passa a ser relativa – aqueles com reações prévias intensas devem ser vacinados em locais preparados para atender possíveis complicações.
Se tiver ocorrido previamente reação neurológica compatível com Síndrome de Guillain-Barré (doença autoimune, caracterizada por fraqueza muscular progressiva) até 30 dias após a aplicação anterior da vacina, seu quadro deve ser discutido com um especialista.
Se no momento de tomar a vacina contra a gripe houver sintomas sugerindo algum quadro infeccioso e febre, deve-se esperar a resolução dos sintomas para tomar a vacina.
Se a causa for coronavírus, há necessidade de aguardar pelo menos 4 semanas a contar do início dos sintomas, desde que tenha havido completa recuperação.
Chegou a sua vez de receber a vacina contra o coronavírus e está na hora de fazer a da gripe?
Primeiro faça a do Coronavírus. 
Duas semanas depois, a da gripe. 

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