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* as opiniões expressas neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do 4oito
Henrique Packter
Por Henrique Packter 18/01/2021 - 07:51

O ucraniano Avram Yossievitch Bloch (Jitomir, Império Russo, 8.10.1908   — SP, 19.11.1995),  foi um dos mais importantes empresários da imprensa e TV brasileiras. Jitomir, a 120 km de Kiev, era capital da Ucrânia. Filho de Josef e Ginda Bloch, o pai, gráfico nas 2 cidades, orienta os 3 filhos homens (Adolpho, Arnaldo e Boris) no seu ofício. Ainda em Kiev, Adolpho toma gosto pelas artes gráficas e teatro, auxiliando na impressão de cartazes e vendendo libretos com resumo das óperas encenadas no teatro local. Aos 9 anos Adolpho vê os primeiros pogroms contra judeus e a Guerra Civil de 1917, após a queda do czar.

 Durante o regime provisório de Alexander Kerenski, imprimiu o dinheiro que circularia nos primeiros tempos da Revolução Russa. Em 1912 Kerenski  foi eleito membro da quarta Duma por partido moderado. Duma Federal e Soviete da Federação, formam o Legislativo da Federação Russa. A Duma é a câmara baixa da Assembleia Federal; o Soviete da Federação é a câmara alta. Têm sede em Moscou. A Duma compõe-se de 450 deputados, eleitos para mandatos de quatro anos. Criação do Império Russo, seria extinta em 1917, mas, com o fim da URSS, foi reestabelecida (1993), pelo presidente Boris Iéltsin, após sua vitória política na Crise constitucional daquele ano.

Kerenski desempenha papel decisivo na queda do regime czarista. Ministro da Justiça, introduz reformas, incluindo abolição da pena capital, liberdades civis básicas (liberdade de imprensa, abolição da discriminação étnica e religiosa e planos para a introdução do sufrágio universal). Ministro da Guerra e Primeiro-Ministro entre julho a novembro de 1917, prosseguiu guerra contra a Alemanha. Mas não pôde evitar a Revolução de Outubro, quando os bolcheviques liderados por Lênin tomam o poder. Exila-se na Europa Ocidental (1918), depois vive nos EUA (1940) e morre de câncer (Nova Iorque,11.6.1970).

Adolpho Bloch, casado duas vezes (com Lucy Mendes Bloch e Ana Bentes Bloch), não teve filhos.

 A FAMÍLIA BLOCH FOGE PARA O BRASIL

A origem judaica da família Bloch foi motivo para se envolver em problemas (1917, época da Revolução Russa). Passavam fome e assim, com dezessete parentes, Adolpho Bloch troca sua terra natal, Jitomir, por Kiev. Em 1921, deixam a Ucrânia para morar 9 meses em Nápoles, na Itália. Viajam 3ª classe no Re d'Italia, chegam ao RJ em 1922.

OS COMEÇOS

Fundou o grupo de mídia com seu sobrenome, a Rede Manchete (1983), hoje extinta.

Os Bloch já em 1923 compram pequena impressora manual, primeira tipografia na vida de Adolpho Bloch. Os Diários Associados de Assis Chateaubriand, falecido em 1968, são de 2.10.1924. Vão morar em Aldeia Campista (zona norte RJ). Josef Bloch, com minguados recursos trazidos da Rússia, instala modesta gráfica. A família trouxe apenas pilãozinho, usado para espremer especiarias. Daí o título de sua biografia O Pilão, lançada em 1978. Era primo do escritor e médico ORL Pedro Bloch, primeiro foniatra brasileiro. Adolpho estudava à noite no Colégio Pedro 2º e de dia corria o comércio buscando encomendas.

Começam rodando folhas numeradas para o hoje ilegal jogo do bicho. Na década de 40, Adolpho trabalha na editora Rio Gráfica, de Roberto Marinho. Nas redações do RJ conhece boêmios, jornalistas e escritores. torna-se amigo de artistas e políticos; frequenta a área boêmia do RJ, as rodas de gafieira. O Grêmio Recreativo Familiar Kananga do Japão, inspiraria a novela Kananga do Japão, da Rede Manchete (1989), idealizada por Adolpho.

Na redação de A Vanguarda, Adolpho obtém o primeiro grande negócio quando sabe de exportador atrás de embalar laranjas em papel de seda especial. Nenhuma gráfica no RJ tinha condições de executar o trabalho. Adolpho aceitou a encomenda, providencia máquinas, tornando a gráfica Bloch conhecida.

A MANCHETE

Morrendo Josef, os 3 filhos, Adolpho, Arnaldo e Boris, administram a gráfica, e logo Adolpho revela qualidades que o tornariam líder. Vence a resistência dos irmãos e lança a revista Manchete – algo considerado rasgo de loucura -, o mercado era pequeno e havia um gigante na praça, a revista O Cruzeiro, com tiragem  de 700 mil exemplares por semana.

Em 26.4.1952,  três meses após  Irineu Noal ter seu teco-teco laçado em pleno voo em Santa Maria, RS,  Adolfo Bloch lança Manchete, semanário de âmbito nacional. É o início de um dos maiores impérios de mídia da América Latina. A revista se torna a mais lida do Brasil, ganhando projeção mundial.

Difíceis os primeiros anos de Manchete, embora a revista reunisse equipe de jornalistas de primeira ordem: Carlos Drummond de Andrade, Magalhães Júnior, Rubem Braga, Sérgio Porto, Lúcio Rangel, Vinícius de Moraes, Henrique Pongetti, Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos.  (Continua) 4.703

Henrique Packter
Por Henrique Packter 15/01/2021 - 08:43Atualizado em 15/01/2021 - 08:44

VERSÃO BRASILEIRA DE CARYL CHESSMAN

Alguém ainda lembra de JOÃO ACÁCIO PEREIRA DA COSTA, criminoso notório, o nosso bandido da luz vermelha? Nasceu em  Joinville, 24.6.1942, morrendo lá mesmo a  5.1.1998. 

Órfão aos 4 anos de idade, ele e o irmão mais velho, Joaquim Tavares Pereira, passam a ser criados por um tio. Em 1967, 25 anos de idade,  preso em Curitiba, Luz Vermelha conta que ele e o irmão eram submetidos a trabalhos forçados pelo tio em troca de comida. Teriam sido torturados física e psicologicamente pelo tio, que negou as acusações.  Quando pré-adolescente, teria sido  estuprado por meninos mais velhos, seus rivais, agressões que parecem ter despertado seus piores instintos.

Na adolescência vai morar em SP, fugindo dos furtos que praticara em SC. Fixa residência em Santos. Lá, apresentava-se como filho de fazendeiro, bom moço, levando vida tranquila. Praticava seus crimes em SP, voltando ileso para Santos.

Também praticou roubos e desmanches de carros no RJ. "Ia para o Rio de ônibus, voltando de carro. Chega a roubar 50 veículos", informa  o jornalista e escritor Gonçalo Junior, autor do livro Famigerado! — A História de Luz Vermelha, o bandido que aterrorizou São Paulo.

PERSONALIDADE QUADRIPARTITE           

Passava-se por quatro diferentes assaltantes: o incendiário, que punha fogo nos corredores de casas para provocar pânico nos moradores, o mascarado que roubava joias, o bandido macaco, por usar macaco de carro para abrir as janelas, e o Bandido da Luz Vermelha, por usar lanterna de aro avermelhado adquirida na loja de departamentos da Mappin.

Foram mais de 5 anos perturbando a ordem pública com dezenas de assaltos, estupros e homicídios, atribuídos a ele pela polícia. Teria praticado assaltos em 4 dias da semana, sempre das 2 às 4 horas da madrugada. Preferia mansões e utilizava figurino próprio ao cometer os crimes. Altas horas, interrompia a energia da casa. Cobria o rosto com lenço e tinha como principal marca a lanterna com lente vermelha. A imprensa apelidou-o de Bandido da Luz Vermelha, referência ao criminoso estadunidense Caryl Chessman, que tinha o mesmo apelido.

Luz Vermelha era vaidoso, vestia-se com cores vivas,  para chamar atenção, chapéus extravagantes e lenços de caubói cobrindo o rosto. Gostava de usar perucas. Costumava  passar-se por músico, carregando a tiracolo guitarra afanada.

Gastava o dinheiro obtido nos assaltos com mulheres e boates. Custou à  polícia seis anos para identificá-lo e só alcançou isso após ele deixar suas impressões digitais na janela de uma mansão.

PRISÃO

João Acácio foi preso em 8.8.1967 em Curitiba, onde vivia sob a falsa identidade de Roberto da Silva.

No interrogatório, confessou 4 crimes:

1.O primeiro em 3.10.1966, quando Walter Bedran, estudante de 19 anos, foi alvejado com tiro na cabeça ao tentar surpreender o bandido, que invadira seu quintal no Sumaré.

2.Dez dias depois, morre o operário José Enéas da Costa, 23, morto numa briga com o criminoso em bar da Bela Vista.

3.Em 7.6.1967, no Jardim América, o industrial Jean von Christian Szaraspatack, foi morto a tiros ao reagir a assalto,  

4.Em 6.7.1967, matou o vigia José Fortunato, que tentou impedir sua entrada na mansão em que era guarda no Ipiranga.

Foi condenado por 4 assassinatos, 7 tentativas de homicídio e 77 assaltos, a pena de 351 anos, 9 meses e 3 dias de prisão.

Nunca ficou comprovado, porém, que Acácio cometeu estupro ou que teve relações sexuais com suas vítimas.

LIBERDADE

Cumpridos os 30 anos previstos em lei, foi libertado na noite de 26.8.1997 e retornou para Joinville, mantendo uma certa popularidade, pela obsessão em vestir roupas vermelhas e quando alguém lhe pedia autógrafo, ele escrevia Autógrafo ...

MORTE

4 meses e 20 dias em liberdade, durante briga num bar, João é assassinado com tiro de espingarda em 5.1.1988.

Na época, o jornal Notícias Populares, publicou que o algoz do ex-detento alegou ter efetuado o disparo para salvar a vida do irmão, que fora agarrado e ameaçado com faca. Tudo depois desentendimento por suposto assédio sexual cometido por Luz Vermelha contra mãe e mulher do algoz. Em novembro de 2004, o autor da morte do bandido da luz vermelha foi absolvido em Joinville, aceita a tese de legítima defesa.

CINEMA

Sua vida criminosa inspirou o filme O Bandido da Luz Vermelha (1968), do cineasta Rogério Sganzerla, estrelado pelo ator Paulo Villaça. No filme, o personagem comete suicídio.
Luz nas trevas - A volta do bandido da luz vermelha, sequência do primeiro filme foi um dos filmes selecionados para a competição internacional do 63º Festival de Locarno, Suíça. Filme dirigido por Ícaro Martins e Helena Ignez, viúva de Rogério Sganzerla, estrelado pelo cantor Ney Matogrosso. Rodado em 2009, estreou em 2010.

LIVROS

Em 2019 sai Famigerado! — A História de Luz Vermelha, o bandido que aterrorizou São Paulo, do jornalista e escritor Gonçalo Junior.

MÚSICA

Virou música nas mãos do grupo de rock Ira! em Rubro Zorro, que abre o terceiro disco Psicoacústica (1988) e a faixa ainda possui algumas falas do filme O Bandido da Luz Vermelha de 1968, do cineasta Rogério Sganzerla. O cantor de horrorcore, Patrick Horla, também o cita como base para a canção O bandido da lupa vermelha.

Henrique Packter
Por Henrique Packter 12/01/2021 - 10:03

A pena capital, seja por qual forma for praticada, ainda suscita discussões intermináveis. Na verdade já vão rareando as execuções capitais como resultado de julgamentos legais. Relutam as pessoas sorteadas para compor juris cujo resultado possa ser a aplicação desta pena sem volta.

Um advogado nova-iorquino tenta convencer a esposa a participar de júri para o qual fora escolhida.

- Mas, diz ela, sou contra a pena de morte...

- Tire esta preocupação da cabeça. Trata-se de julgamento de noivo que prometeu casaco de peles mink à noiva e não cumpriu a promessa. É coisa pouca. Detenção por meses ou multa. Nada a ver com pena de morte.

A esposa põe-se a pensar:

- Prometeu casaco de peles e não cumpriu? Pensando bem, a pena de morte pode ter aplicações bem educativas, às vezes...

CARYL CHESSMAN

Nasceu em Saint Joseph (Michigan), 27.05.1921 e foi executado na câmara de gás em 02.05.1960, Califórnia, acusado de ser o bandido da luz vermelha  de lá -, por provas circunstanciais, acusações nunca comprovadas. Preso, dispensou advogado, estudou Direito, fez sua própria defesa (já se disse que todo autodidata tem um tolo como professor). Na prisão, escreveu obras autobiográficas: 2455-Cela da Morte, A Lei Quer Que Eu Morra, A Face Cruel da Justiça e O Garoto era Um Assassino. Os livros correram mundo, despertaram sentimentos contraditórios e reflexões sobre a pena de morte na Califórnia e  no resto do mundo. Formei-me no mesmo ano em que Chessman foi executado, na verdade cinco meses antes.

Ele teria inspirado o brasileiro João Acácio Pereira da Costa a cometer crimes usando lanterna de luz vermelha em SP. CHESSMAN, teve várias vezes cancelada sua execução no último momento, o trivial nos filmes americanos.

EVERALDO SABBATINI e esposa, sendo eu solteiro, minha noiva residindo em POA, convidavam-me para jantar um pato recheado em sua nova residência. Não é demais repetir que em 1960 quando Sabbatini e esposa chegaram a Criciúma e em 1968  quando chegam Albino José de Souza Filho e Dulce, mais a filha Mônica de 2 meses, simplesmente não havia apartamento ou casa para alugar em Criciúma. Os dois médicos e respectivas esposas, mais Mônica, ficaram hospedados em apartamentos do Hospital São José, claro, pagando diárias, como qualquer mortal.

Everaldo Sabbatini  e Teresa Moura Ferro Sabbatini, após longa espera, alugam casa próxima onde estão instalados hoje os advogados Góes, na João Pessoa. Convidando-me para saborear um pato com laranja. Everaldo já foi avisando:

- É prato de se comer rezando, coisa muito especial de boa.

Combinado o almoço para o final de semana, lá vinha dia de sol esplendoroso e lá ia eu para POA. Assim, íamos adiando a execução do Pato ... CHESSMAN!  No mesmo mês de maio em que CHESSMAN foi executado na California, nosso pato foi sacrificado e servido à ... Califórnia em Criciúma! Em tempo: nesse dia chovia o que Deus manda em Criciúma.  2.905

Henrique Packter
Por Henrique Packter 05/01/2021 - 09:01

Lupion governador, deu início a uma campanha (seu talão vale um milhão) para aumentar a arrecadação tributária e combater a sonegação fiscal. Os contribuintes deveriam juntar notas fiscais no valor de 3 mil cruzeiros e trocar por um talão que dava direito ao sorteio de um milhão de cruzeiros.

A 8.12.1959, a poucos dias  de minha formatura no Curso de Medicina, na mesma cidade de Curitiba, o subtenente da Polícia Militar, Haroldo Tavares, entrou no Bazar Centenário, na Praça Tiradentes, para comprar um pente. Escolheu um, achou caro o preço de 15 cruzeiros, reclama, mas paga e exige a nota fiscal.

O proprietário, o sírio Hermede Najar, não quer dar a nota exigida, os dois discutem e se atracam. Como logo vai se ver, Najar tinha o QI de uma ostra de porte médio. Segundo algumas testemunhas, outros dois sírios ajudam Hermede na agressão ao militar que sai da briga com a perna quebrada. Do lado de fora da loja, populares que a tudo assistiram, revoltam-se; vaiam e atiram pedras. Por precaução, o comerciante baixa as portas de aço de seu estabelecimento. Outras pessoas, a maioria nas filas de ônibus, engrossam o movimento. O tumulto ganha força, a porta de aço é arrombada e a loja, depredada.

A partir daquele momento, em correrias, a massa humana começa um quebra-quebra geral. Diversas lojas vizinhas são atacadas expandindo-se a revolta para as ruas 15 de novembro, Marechal Floriano e Marechal Deodoro e para as praças Osório e Rui Barbosa. Lojas, residências e até carrinhos de pipoca não escapam da ira popular. 120 lojas de comerciantes conhecidos como turcos, mas na verdade árabes, judeus, italianos, e até brasileiros experimentam a fúria de uma população descontrolada. Nem órgãos públicos como a COAP (Comissão de Abastecimento e Preços) a DFDG (Delegacia de Falsificações e Defraudações em Geral), a Chefatura de Polícia, a Biblioteca Pública, as sedes do IPASE e do IAPC escaparam ao vandalismo.  A Polícia Militar põe as tropas na rua. Os policiais atacam a cacetadas, bombas de gás lacrimogêneo e tiros. A população revida com pedradas e pauladas. Há mais de 50 feridos, entre eles o chefe de polícia Alfredo Pinheiro Jr e o comissário Eudes Brandão.

A polícia não consegue controlar a situação. Várias pessoas são presas e uma multidão se reúne em frente à chefatura de polícia, tentando soltar os presos. A muito custo é contida. Bombeiros são convocados a auxiliar para conter os ânimos. O povo corta as mangueiras dos carros-pipas para evitar os jatos d'água. A trégua vem com o cair da noite. A população vai dormir e, no dia seguinte, recomeça o tumulto.

Diante da gravidade da situação, o Exército entra em ação, colocando tanques de guerra nas ruas e esvazia o movimento. Pelotões de soldados armados com baionetas e metralhadoras sob o comando do capitão José Olavo de Castro (Polícia do Exército) e do general Oromar Osório impõem medidas drásticas para conter a rebelião: bares fecham às 20 horas, pontos de ônibus são transferidos de local, aglomerações são proibidas.  O Arcebispo, D. Manoel da Silva Delboeux, conclamou a população a retornar ao seu cotidiano de trabalho, sensatez e paz. Clamou contra a "tragédia triste do vandalismo", contra a "baderna predatória".

Este episódio encerrou a campanha seu tostão vale um milhão. Melhor não haver campanha nenhuma do que suportar os elevados prejuízos de uma revolta popular, prejuízos muitas vezes irrecuperáveis. 

Henrique Packter
Por Henrique Packter 28/12/2020 - 12:00Atualizado em 28/12/2020 - 12:04

Há quem afirme que a diretoria do aeroclube percebeu o pedaço do laço enrolado na hélice e obrigou o piloto a contar do que escapara. Diante do fato, os diretores do aeroclube, em reunião, decidiram cassar a licença do piloto Noal. Ele ainda pagou multa pela transgressão. Em 1999, aos 68 anos, perguntado sobre o fato, não se sentiu muito à vontade para falar sobre a façanha.

Disse: -Foi uma brincadeira de guri. Mesmo arredio, o piloto admitiu o perigo da manobra e desdenhou da habilidade do peão. (Aquele não laçava nem vaca. Foi uma sorte muito grande). Noal não conseguiu lembrar o dia exato do episódio. A façanha tornou famosos piloto e peão. A ousadia do piloto rendeu sucesso entre as garotas da época. Noal recebeu cartas que elogiavam sua coragem.

A RAZÃO CONQUISTA PREMIO DA ARI PELA REPORTAGEM HISTÓRICA

A matéria valeu À RAZÃO o 49º prêmio ASSOCIAÇÃO RIOGRANDENSE DE IMPRENSA (o caso do peão que laçou um avião).

Autor da façanha de laçar um avião pelo focinho, o peão Euclides Guterres, 24 anos, solteiro, foi descrito na época como vivaz, fazedor e contador de proezas e espanholadas. Quase todos os peões das estâncias do Rio Grande são assim. Morreu de leucemia em 1981. Nascido em Santa Maria, tornou-se celebridade instantânea em 20.1.1952, ao laçar o avião CAP4/Paulistinha (prefixo PP-HFP), que dava rasantes na fazenda de seu patrão.

"Eu não fiz por maldade. Foi pura brincadeira. Para falar a verdade, não acreditava que pudesse pegar o aviãozinho pelas guampas num tiro de laço." (Peão Euclides Guterres).

O fato (20.1.1952, 15 horas) encontra-se registrado em jornais da época (A Razão, Diário de Notícias, Almanaque do Correio do Povo e até na Time Magazine americana, que circulou em 11.2.1952). Em 1999 o feito mereceu ampla reportagem na Zero Hora, jornal de POA. A Base Aérea de Santa Maria também mantém em seu acervo vários jornais e revistas da época, relatando a incrível façanha do peão Euclides Guterres, que acabou conhecido como o Rei do Laço. Não existem registros de casos semelhantes.2.026

Henrique Packter
Por Henrique Packter 24/12/2020 - 10:59Atualizado em 24/12/2020 - 11:01

FELIZ NATAL, GENTE! FELIZ 2021! SAÚDE!

 Ao sobrevoar a Fazenda Tronqueiras, proximidades de Santa Maria, RS, Irineu embicou o Paulistinha numa série de rasantes sobre a mesma, espantando umas vacas que o peão Euclides Guterres acabara de apartar. No alto de uma das elevações, Euclides cuidava de uma novilha com bicheira e não gostou nem um pouco do que ocorria.  As passagens sobre a casa grande e a mangueira fizeram o peão passar a mão do laço de treze braças e 4 tentos que arremessou por diversas vezes em direção ao pequeno monomotor. (1 braça = 1,83 metros; tentos: pequenas tiras de couro às quais se prende o que se quer trazer à garupa).

 Eram os primeiros anos de  1952. A cada arremetida Irineu voava desafiadoramente mais baixo para inticar com o laçador. Na terceira ou quarta tentativa o avião foi laçado. Balançou, só não caindo porque a hélice cortou o laço de couro que acertara o bico do teco-teco. Por estar preso na cincha do arreio sobre o cavalo, o laço, com o impacto, rebentou na presilha e seguiu pendurado no avião. Estava feito!

 Outra versão dá conta que o peão Euclides Guterres, para não ser carregado pelo avião, largou o laço. Mas, a hélice, de golpe, já havia partido em duas as 13 braças de couro cru trançado. O jovem piloto tinha na frente dos olhos um pedaço do laço. Virou o nariz do aparelho e voou em direção a Camobi com a hélice partida!

O motor pipocou algumas vezes, perdeu altura para depois nivelar e sumir em direção a Santa Maria, levando preso na fuselagem um pedaço de laço gaúcho de treze braças, quatro tentos, couro cru.

Assustado, tratou de pousar. Ainda na cabeceira da pista, longe do hangar, teria retirado o laço que escondeu no meio das macegas. Como houve dano na hélice do aparelho, o piloto estava ameaçado de demissão, por ter agido de forma imprudente e provocativa, e por não ter comunicado o fato às autoridades aeronáuticas. Três dias depois do evento, A RAZÃO promoveu um encontro entre os protagonistas do episódio.

http://wp.clicrbs.com.br/almanaquegaucho/files/2012/11/0086115f.jpgHá quem afirme que a diretoria do aeroclube percebeu o pedaço do laço enrolado na hélice e obrigou o piloto a contar tudo, tin tin por tintin. É quando os diretores do aeroclube decidem cassar a licença do piloto Noal. Ele ainda pagou multa pela transgressão. Em 1999, aos 68 anos, perguntado sobre o fato, não se sentiu muito à vontade para falar sobre a façanha.

Disse:

-Foi uma brincadeira de guri. Mesmo arredio, o piloto admitiu o perigo da manobra e desdenhou da habilidade do peão. (Aquele não laçava nem vaca. Foi uma sorte muito grande). Noal não conseguiu lembrar o dia exato do episódio.

 A FAMA

Irineu falava dos namoricos e dos amassos vindos com a fama inesperada.

Nem sempre gostava de falar sobre o assunto, embora a história lhe rendesse certa fama. Irineu foi casado com Maryolanda, com quem teve três filhos - Alexandre, Giovani e Lorraine.  Versões validam as declarações de um dos filhos de Irineu, Alexandre Noal. – Não por acaso Irineu era conhecido como Gringo Louco. Ele gostava de pilotar e, mais ainda, de aventura. O meu avô tinha medo de voar. Mas, uma vez, meu pai o convenceu a voar com ele. Quando o vô percebeu, eles estavam passando por baixo da ponte do Passo do Verde – lembra o filho Alexandre Noal, 48 anos. Segundo Alexandre, apesar das diferentes versões para o fato, seu pai afirmava que pretendia devolver as cartas de uma ex-namorada. Por isso, resolveu dar rasantes na fazenda Tronqueiras, onde a moça morava e que até hoje pertence à família Xavier. Esperava que ela saísse de casa e ele pudesse arremessar as correspondências.

O voo de Noal entre a fazenda e o aeroclube não demorou nem oito minutos. Ao pousar mentiu que sofrera um acidente. Porém, foi denunciado pelo pedaço de laço enrolado na hélice. Acabou multado, foi expulso, teve o brevet cassado. Irineu guardou a hélice do paulistinha com o pedaço do laço. 3.803

Henrique Packter
Por Henrique Packter 30/11/2020 - 08:28Atualizado em 30/11/2020 - 08:43

"Nada nos pode parecer mais estranho do que a notícia de que um homem tenha laçado um avião. A vontade que a gente sente é de duvidar. Mas, a verdade é que a extraordinária façanha aconteceu no pampa gaúcho, em Tronqueiras, na rica fazenda de Arroio do Só, município de Santa Maria."

(Abertura da reportagem de 3 páginas, publicada n’O Cruzeiro, em 23.2.1952, assinada por Cláudio Candiota).

Há 68 anos atrás, inacreditável acontecimento colocou Santa Maria no mapa do mundo. Felizmente não foi nenhuma tragédia como esta mais recente da boate Kiss a responsável pela súbita notoriedade.

Irineu Gabriel Noal

Causou o reboliço meu colega do 2º ano científico do Colégio Santa Maria, Santa Maria, RS, Irineu Gabriel Noal. Avançava na escola com grande dificuldade, demonstrando pouco apetite para o estudo. Deu-se por satisfeito com a conquista do término deste segundo ano científico, não prosseguindo os estudos. Não ingressou em nenhum curso superior, que se saiba.

Lembro-me dele, falando sem olhar o interlocutor nos olhos, cigarro preso em dois dedos em pinça da mão. Acompanhava a fala desenhando (com o cigarro), semicírculos rápidos e nervosos no ar, na linha da cintura.

Era alto, moreno, cabelos crespos, lavados. Irineu, pilotando um teco-teco foi laçado por um peão de fazenda, justo quando recente tragédia aérea aconselhava prudência aos aeronautas. Em 12.7.1951 um avião das Linhas Aéreas Paulistas chocou-se com uma árvore a 3 km do aeroporto de Aracaju. No acidente morreram 32 pessoas entre passageiros e tripulantes.

O começo

Irineu voava num dia de janeiro de 52 para demostração, para impressionar a filha de rico e influente estancieiro. Teve sorte de ser apenas laçado. E se o pai da moça resolvesse atirar contra o imprudente piloto do monomotor que realizava rasantes em sua propriedade?  E se o peão-laçador mantivesse o laço preso nas mãos? Irineu foi notícia na imprensa mundial merecendo reportagem de destaque  n’O Cruzeiro, nº 19 (23.02.1952), a mais importante revista do país.

A imprensa da época

O José Adelor Lessa de então

Tarde de janeiro de 1952, o jornalista Cláudio Candiota, diretor do jornal A Razão, de Santa Maria, foi procurado em sua sala pelo comandante Fernando Pereyron, do aeroclube da cidade. O visitante trazia uma notícia de impacto, mas não queria sua divulgação. Pelo contrário, queria escondê-la. Temia causar prejuízo à imagem da escola de pilotagem sob sua responsabilidade, no aeroporto de Camobi. 

Quem era Fernando Pereyron Mocellin?

Herói da IIª Grande Guerra, foi Aspirante Aviador da Reserva, convocado durante o conflito. (Nome de Guerra: Mocellin). Era filho do joalheiro João Pereyron Mocellin. Nasceu em 20.06.1922 em Santa Maria e faleceu a 05.06.2001 (78 anos) em POA. Escreveu Missão 60, relatando sua preparação para combate na Segunda Guerra  Mundial, assim como algumas de suas 59 missões de combate. Para ele, a 60ª missão foi escrever o livro onde narra suas vivências da guerra. Apresentou-se ao 1o Grupo de Caça em Suffolk, vindo de uma escola de caças americana. Piloto de combate de esquadrilha, sua primeira missão foi em 12.11.44 e a última em 01.5.45. Ferido em combate por estilhaço da artilharia inimiga durante sua 24º missão em 02.1.45, foi promovido a 2o Tenente, 19 dias depois.

Recebeu várias Condecorações: Cruz de Sangue, Cruz de Aviação com 2 estrelas, Distinguished Flying Cross(EUA); Campanha da Itália, Air Medal 2 palmas (EUA); Presidential Unit Citation (EUA).

Pouco tempo após regressar ao Brasil pediu baixa da FAB, e voltou para Santa Maria e  para trabalhar na Joalheria do pai.

Henrique Packter
Por Henrique Packter 23/11/2020 - 10:43Atualizado em 23/11/2020 - 10:44

Santa Maria (RS), que se saiba e ao menos até 1953, era famosa por ser o mais importante entroncamento ferroviário do estado, pelo basquete praticado por seus quatro times e por sediar comando de forças militares de grande importância estratégica. Vem-me à lembrança e com facilidade o aeroporto de Camobi, 7º RI, 5º RAM, 3º BCCL, além da Brigada Militar comandada por um coronel. Na cidade a 3ª Divisão de Exército (3ª DE) já completou111 anos de história. As forças do exército eram comandadas por um general, hierarquicamente. situado entre os postos de coronel e de general de divisão.

General tem estrelas?

O distintivo, genérico, dos titulares da patente de general - igual ao dos antigos tenentes-generais e generais de divisão - era composto por três estrelas 

O que é um general 5 estrelas?

Têm cinco estrelas o almirante (Marinha), o marechal (Exército) e o marechal- do- ar (Aeronáutica). São militares com obrigatória participação em guerra. Quatro estrelas são dadas aos almirantes de esquadra, generais de exército e tenentes-brigadeiro. Santa Maria tinha um general 4 estrelas.

Rudolf Lange

Mas, o Cine Independência virou shopping popular, abrigando os camelôs que vagavam pelas ruas da cidade. Ao invés do Gordo e o Magro, Roy Rogers, Durango Kid, Carlitos, mercadorias piratas do Paraguai.

O Cine-Theatro Imperial, na segunda quadra da Dr. Bozano, transformou-se numa filial das Casas Eny de calçados. Ao invés das grandes peças de teatro que Edmundo Cardoso apresentava uma vez por ano com sua Escola de Teatro Leopoldo Froes...tênis, sandálias, sapatos e hawaianas. Claro, hoje existem as salas de cinema dos shoppings da cidade, com cerca de 80 lugares cada uma. Nada semelhante aos 1200 lugares do Cine Independência dos bons tempos. Também sumiram espetáculos de teatro com Maria Della Costa, Sandro Polônio, Procópio Ferreira.

Quem da faixa etária dos 60 ou 70 anos ainda lembra do tradicional matinê da 1,15 como era chamada a sessão dominical das 13,15 horas do Cine-Theatro Imperial? Passava filme de mocinho (nome dos filmes de faroeste americano), seguido de um seriado (cada domingo exibia um capítulo de longa história de aventuras, que chegava a durar dois meses). Na frente do cinema, antes das sessões, ocorria o tradicional troca-troca de gibis (revistas em quadrinhos dos heróis da época). Ou então, troca de figurinhas do famoso Álbum das Balas Rute.

Seu Aurélio

Lanterninha do Cine-Theatro Imperial, famoso pelo duro que dava na gurizada durante as sessões. Em sua homenagem existe o Cine-Clube Lanterninha Aurélio. A patota da rua Acampamento tinha seu Código de Honra. O Código exigia que novos moradores da região deveriam obrigatoriamente atravessar longo duto subterrâneo de águas pluviais da Rua Tuiutí, local sem qualquer iluminação e habitado por sapos enormes e, às vezes, outros bichos. Para provar que se era homem todos nos submetemos à prova para não sermos apontados em plena Rua do Acampamento como frescos, afeminados. Corria o ano de 1952 destinado a se tornar o mais célebre de nossa história como alunos do Colégio Marista.

Os bailes

Os grandes bailes eram  no Caixeiral (14.02.1886) e no Comerciário. Nos fundos do Caixeiral o Corintians, time de basquete da cidade, tinha sua quadra dotada de refletores para jogos noturnos..

Galináceo no matinê dominical do Cine Imperial

Um dos nossos colegas, aí na casa dos 16, 17 anos apostou que entraria no matinê com uma galinha e que seu Aurélio não perceberia. Não só entrou com a galinha, bico laboriosamente amarrado e por debaixo do grosso casacão de inverno), como sentou-se na primeira fila de cadeiras do mezanino (a parte superior da sala de exibição). Na hora mais romântica do filme, quando o mocinho pede a mão da moça em casamento, a galinha foi atirada lá de cima. A coitada, agora com bico desamarrado,  voou como pôde e foi se estatelar nas cabeças da gurizada lá embaixo. Um Seu Aurélio enfurecido interrompe a sessão no meio da algazarra generalizada. Luzes acesas, sobe ao mezanino. Queria porque queria saber quem tinha jogado o galináceo. Amedrontado,  nosso anônimo herói deixou o cinema debaixo dos aplausos da seleta assistência e ainda ganhou a aposta: 6 guaranás Cyrillinha, famoso refrigerante da época, fabricado em Santa Maria mesmo.

Henrique Packter
Por Henrique Packter 13/11/2020 - 08:55Atualizado em 13/11/2020 - 08:57
Cine Independência com a velha sede de A Razão ao lado

Residi em Santa Maria até 1953, quando conclui o Curso Científico no Colégio Marista, e ingressei na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná.  Havia dois cinemas de rua na cidade na década de 50, : Independência e Imperial, este o cinema da elite. Claro, tivemos antes outros cinemas, como Theatro Treze de Maio onde ocorreu a primeira sessão cinematográfica da cidade em 17.2.1898 graças a Germano Alves responsável por levar a magia do cinema a várias cidades gaúchas. A programação do Theatro, publicada no jornal O Combatente daquele dia, dava ênfase à estreia do Cinematógrafo Lumiére. 

Até início da década de 1910 apresentações de filmes na urbe eram em lugares improvisados, surgindo em 1908 espaço que mantinha programação contínua: o Cinematógrafo Seyfarth, esquina da rua dos Andradas com Rio Branco, antiga Cervejaria Seyfarth. Cinema Recreio Ideal (1911) segundo andar do Theatro Treze de Maio teve curta existência.

O Cine-Theatro Coliseu Santamariense (dezembro de 1911), construído em acomodações de madeira ofuscou o nosso Treze de Maio. As projeções vão ganhando espaço sobre as apresentações teatrais e musicais. Apenas em 1918, surge Cine Odeon, com capacidade para 350 pessoas, localizado onde fica a Caixa Econômica Federal no calçadão, durando apenas 1 ano. Nessa época e até início da década de 30  possuíamos cinema ao ar livre. 

Em 1935 foi inaugurado o Cine-Theatro Imperial que funcionou até 1979, 44 anos,  quando os herdeiros do proprietário do prédio, alugado à empresa Cupello, também proprietária do Cine Independência, retomam o prédio. Já em 1937, surge o novo Cinema Odeon, numa sala do Clube Caixeiral, de mesmo dono do Coliseu, ambos fechados em 1940.

O Cine-Theatro Independência abriu suas portas em 15.8.1922 nos fundos da Praça Saldanha Marinho e recebeu este nome em comemoração ao Centenário da Independência do Brasil, 48m de profundidade por 40m de frente. Exibia filmes mudos, o cinema sonoro é de 1926. Suas primeiras exibições de filmes mudos contavam com acompanhamento de música orquestral. Possuía duas entradas, uma pela praça (para a elite da cidade) e outra na lateral da rua do Comércio para os menos abastados. Em 1946, este cinema e o Imperial são adquiridos pelo Circuito Cinematográfico Gloria, que foi o responsável pela inauguração do Cine Glória, no local onde ficava o antigo Cine Coliseu, rua Roque Calaje, tornando-se detentor das três salas de cinema da cidade.

Cine Glória, na década de 90, chegou a ter 2.000 cadeiras, passando a 1.350 poltronas estofadas dobráveis, aumentando a área do palco para teatro. Feito maior da petizada nas sessões vespertinas era burlar a vigilância do lanterninha e assistir ao filme do mezanino e dê-lhe jogar pipocas no público do andar inferior. Já próximo de encerrar suas atividades, o Independência  apresentava peças e filmes adultos. Sua última sessão (27.9.1995, 73 anos de atividade), às 8:30h. Depois disso o prédio abrigou templo religioso, mesmo com a pressão da população para preservar esse patrimônio cultural.

Cine Independência (1922, ano de sua fundação)

O Cine-Theatro Independência abriu suas portas em 15.8.1922 nos fundos da Praça Saldanha Marinho e recebeu este nome em comemoração ao Centenário da Independência do Brasil, 48m de profundidade por 40m de frente. Exibia filmes mudos, o cinema sonoro é de 1926. Suas primeiras exibições de filmes mudos contavam com acompanhamento de música orquestral. Possuía duas entradas, uma pela praça (para a elite da cidade) e outra na lateral da rua do Comércio para os menos abastados. Em 1946, este cinema e o Imperial são adquiridos pelo Circuito Cinematográfico Gloria, que foi o responsável pela inauguração do Cine Glória, no local onde ficava o antigo Cine Coliseu, rua Roque Calaje, tornando-se detentor das três salas de cinema da cidade.

Cine Glória, na década de 90, chegou a ter 2.000 cadeiras, passando a 1.350 poltronas estofadas dobráveis, aumentando a área do palco para teatro. Feito maior da petizada nas sessões vespertinas era burlar a vigilância do lanterninha e assistir ao filme do mezanino e dê-lhe jogar pipocas no público do andar inferior. Já próximo de encerrar suas atividades, o Independência  apresentava peças e filmes adultos. Sua última sessão (27.9.1995, 73 anos de atividade), às 8:30h. Depois disso o prédio abrigou templo religioso, mesmo com a pressão da população para preservar esse patrimônio cultural.

Interior do Cine Independência na reinauguração em 1956

Desde 1959 Santa Maria ficara apenas com o ótimo Cine Glória, contando com mais de 2.000 lugares em suas duas salas. Pouca demora e a cidade fica órfã de cinema, com o encerramento das atividades do Glória em 1997 exibindo 2 filmes em sua última semana. A festa do vestibular de 1997 foi lá, utilizando algumas poucas cadeiras remanescentes, um misto de alegria e tristeza.  O que parecia ser o ponto forte do cinema, quantidade de lugares e tamanho, se tornou um empecilho. As salas não lotavam em consequência das locadoras de VHS e pela falta de segurança no entorno dos cinemas. Não é de hoje que a praça Saldanha Marinho à noite  não é segura. A  cidade amargou quase um ano sem cinema até a inauguração do Cine Big, no Shopping Monet, com míseros 400 lugares.

Henrique Packter
Por Henrique Packter 09/11/2020 - 17:33Atualizado em 09/11/2020 - 17:33

Os mais antigos moradores de Santa Maria foram os índios Minuanos. Italianos, alemães, portugueses, espanhóis, indígenas e negros escravos chegam depois e também compõem as etnias que originaram a população da cidade. A lenda indígena da origem do município conta com o bandeirante Morotin que se casa com a índia Imembuí, da tribo dos Minuanos..

Às margens do Arroio També conviviam em paz duas tribos, Tapes e Minuanos, estes habitando região do município conhecida como Coxilha do Pau Fincado - mais para a região da campanha. Os Tapes, em maior número, viviam para os lados da serra.

O lugar era chamado pelos índios de Ybitory-Retan (terra da alegria). Ibotiquintã, esposa do cacique dos Minuanos, deu à luz menina que chamou de Ymembuí (filha das águas). Mais tarde, mocinha, Imembuy passa a ser assediada pela rapaziada  e um destes jovens índios, Acangatú, rejeitado pela beldade, abandona a tribo.

É quando chega tropa de bandeirantes portugueses para demarcar fronteiras que é emboscada e dizimada pelos Minuanos. Os índios poupam apenas dois sobreviventes. Um deles é mandado de volta para contar a desgraça ocorrida com os demais; Rodrigues, o outro, seria sacrificado, em ritual sangrento.

Rodrigues, depois Morotin deve escolher: ou casa, ou morre

Escolhe casar, claro. Rodrigues era português, mas não tanto assim. Conquistando  e casando com Imembuy livra-se da morte. Rodrigues recebe, então, nome indígena, Morotin. Tiveram um filho, José, que, brincando, perde-se na mata, sendo salvo pelo desaparecido Acangatú que se decide por retornar à tribo.

Portugal e Espanha firmam tratado, acordando a devolução de terras ocupadas ilegalmente por ambas as partes (Tratado Preliminar de Restituições Recíprocas, 1777). Em 1787, comissão de espanhóis e portugueses, passa pela região e divide o território em sesmarias. Francisco de Amorim recebe gleba onde hoje se situa a cidade, depois comprada pelo Pe. Ambrosio José de Freitas.

O acampamento da comissão demarcadora de limites entre terras de domínio espanhol e português, cria a cidade (1797). O engenheiro e astrônomo José Saldanha Marinho chefiava a comissão demarcadora. Desentendimentos relativos aos limites dos dois territórios e desavença com o comissário espanhol, D. Diogo de Albear (1797), faz a 2ª Subdivisão Demarcadora, comandada pelo Cel Francisco João Róscio, retornar a Santa Maria. A comissão monta acampamento onde hoje está a Praça Saldanha Marinho e a Rua do Acampamento. Esta, fica conhecido por Acampamento de Santa Maria e, mais tarde, Acampamento de Santa Maria da Boca do Monte, nome dado pelos espanhóis, por ficar na entrada da serra que leva a São Martinho.

Assim, a Rua do Acampamento surge no local dos ranchos dos demarcadores. Depois vem a Rua Pacifica, atual Dr. Bozano, a mais importante artéria comercial da cidade e que levava ao Passo da Areia. O 28º Batalhão de Estrangeiros chega para lutar na Guerra Cisplatina (1828). Em 17.11.1837 Santa Maria passou a freguesia e a praça era a Praça da Matriz. Intensifica-se o povoamento da região, muitos militares optam por ficar na freguesia após baixa da tropa. Colonos vindos das bandas de São Leopoldo iniciam o ciclo da colonização alemã. Santa Maria, elevada à condição de Vila,  separa-se de Cachoeira do Sul (1857). Criado em 16.12.1857 o município é instalado em 17.5.1858.

Henrique Packter
Por Henrique Packter 03/11/2020 - 09:25

Na madrugada de domingo, 27 de janeiro de 2013, o mundo foi abalado por uma das mais espantosas tragédias ocorridas em casa de diversão ao longo da história. No incêndio da boate Kiss em Santa Maria, RS, rua dos Andradas 1925, morreram 242 pessoas e 680 outras ficaram feridas.

Há relatos e fotos chocantes da tragédia que roubou vidas jovens, a maior parte delas na casa dos 20 anos. Os corpos das vítimas, pisoteados, calcinados e irreconhecíveis, amontoavam-se por toda a parte. À destruição somou-se horror e sofrimento.

A notícia propagou-se e alcançou o mundo todo num instante.

Hoje, identificados e enterrados os mortos cuida-se ainda dos sobreviventes e de seus familiares aniquilados e traumatizados para todo o sempre. A sociedade busca ainda hoje respostas para perguntas que atormentam a cidade: Algum engenheiro assinou o projeto fatídico da boate? Quem, na Prefeitura e nos Bombeiros, autorizou o funcionamento da casa noturna? Qual a justificativa para o disparo efetuado por músico(s) de artefato incendiário em ambiente confinado e apinhado de pessoas? Porque extintores não foram utilizados e quando o foram não funcionaram? Como entender que o teto de uma boate-armadilha seja revestido por material inflamável?  Quem autorizou essa alteração? Qual a lotação da casa e quantas pessoas lá se encontravam quando da tragédia? Quantos funcionários da casa sobreviveram? Quem eram na realidade os proprietários da casa? Seria verdade que menores tiveram acesso à casa e consumiram bebidas alcoólicas?

Uma tragédia anunciada, resultado de prevenção negligenciada pelos órgãos públicos, funcionários e autoridades responsáveis. Pela segunda vez na história os olhos do mundo voltavam-se para Santa Maria. A primeira vez ocorrera 61 anos antes em 1952 e por razão exatamente oposta, um acontecimento hilário, inédito. É desse acontecimento que me ocuparei, porque de tragédias a humanidade está saturada.

Santa Maria, RS

Na foto o centro da urbe, a famosa primeira quadra da rua Dr. Bozano, fechada ao trânsito de veículos nas noites de sábado para footing de jovens estudantes, quando o tempo permitia.

Santa Maria já foi reconhecida como cidade ferroviária ou cidade coração do Rio Grande por estar situada em local estratégico, entrecruzamento de ferrovias, transbordo obrigatório para que pessoas da fronteira, do norte do estado gaúcho alcançassem POA. Aos nossos vizinhos Uruguai e Argentina também se ia pelo trem na minha época de estudante, anos 40 e 50. Rodovias inexistiam ou eram precárias. Santa Maria se tornou o maior entroncamento ferroviário do estado e talvez do país, ponto de encontro de comerciantes. A Avenida Rio Branco, que tinha no seu início a Gare da Estação, era nesse particular a via mais importante da cidade.

Livros registram a saga dos ferroviários gaúchos. Em 2007, lançamento de Fragmentos da História Ferroviária Brasileira e Riograndense, de João Rodolpho Flores. Numa das  Feiras do Livro santa-mariense foi lançado  Trabalhadores da V.F.R.G.S. – profissão, mutualismo, cooperativismo,  iniciativa editorial  da Câmara de Vereadores da cidade (Lei do Livro). Experiências de trabalho e de cidadania dos trabalhadores ferroviários do estado entre  1898 e 1957.

Com o declínio do transporte ferroviário e a ocupação ocorrida pelos investimentos em educação, a cidade passa a ser reconhecida como cidade universitária.  O professor e mais tarde reitor da Universidade de Santa Maria, José Mariano da Rocha Fº tem tudo a ver com isso. Em 1992, Marianinho, como era conhecido, recebeu o título de cidadão santa-mariense do século. Em 1999, com votação consagradora, foi eleito Gaúcho do Século, sendo o mais votado na Promoção da RBS TV/Zero Hora que escolheu 20 gaúchos que marcaram o século 20.

Santa Maria tem hoje 32 mil estudantes universitários em 7 Universidades. São 167 cursos de graduação, 51 de mestrado, 32 de doutorado, 4.106 professores  e 510.209 livros nas bibliotecas.  

Henrique Packter
Por Henrique Packter 28/10/2020 - 10:31Atualizado em 28/10/2020 - 10:31

Rogério Martorano

As três maiores matérias que  produziu foram pauta do Jornalista Davi Nasser que indicou as séries: O natal de minha infância, Quando eles eram crianças, com 12 grandes personalidades do país e Solteirões famosos. 

Estabeleceu laços de amizade com o presidente JK e Carlos Lacerda, governador do RJ. Deste foi assador oficial em seu sítio de Petrópolis, o sítio do Alecrim, Rocio,  onde preparava pratos típicos da região sul como o carreteiro e entrevero. A casa de campo de Lacerda vizinhava àquela onde moravam Lota de Macedo Soares e a poeta americana Elizabeth Bishop. Lacerda frequentava o círculo de amizades das duas, que eram lacerdistas, embora não se encaixassem no pesado eufemismo que o cronista Antônio Maria usou, as mal-amadas, para satirizar as mulheres de classe média, em geral casadas e católicas, que se voluntariavam às pencas para fazer campanha por Lacerda no RJ.

Antes de se tornar o símbolo máximo da direita ideológica no panorama político da segunda metade do século passado, Carlos Lacerda foi um promissor militante de esquerda no RJ. Não apenas simpatizante do comunismo, como tantos jovens na década de 30 e nas seguintes, mas um ativista precoce que se destacou nas manifestações de rua e logo estaria no centro dos acontecimentos.

Durante o período da ditadura militar, Rogério tinha passe livre das forças armadas, auxiliando muitos jornalistas presos na época. Recebeu diploma de honra militar e medalha Marechal Hermes, maior condecoração do exército. Foi agraciado com o título de cidadão carioca pela Assembleia Legislativa do RJ.

Em 1972 publicou matéria especial sobre Lages,  a capital do papel, reportagem de mais de 30 páginas. Lançada no RJ com a presença do então Prefeito lageano Vidal Ramos.

Escreveu durante dez anos na Gazeta do Povo do Paraná toda quarta-feira, coluna sobre política e economia de SC. Disponibilizou material para Folha de São Paulo, Estadão, Jornal do Brasil e Jornal O Globo.

Residiu em Joinville-SC onde conheceu mulher que renderia histórica reportagem, mas ela se recusava a conceder entrevistas. Tornaram-se amigos e logo ela conta sua história. Chamava-se Fryderica Michailiszm e foi namorada de Adolf Hitler, aos 16 anos de idade. Era sua última matéria no Cruzeiro, último exemplar a circular em 1978. A edição teve repercussão internacional e ainda é exposta em museus pelo mundo.

Turismo

Numa de suas viagens com Chateaubriand voaram sobre a Serra do Rio do Rastro e Coxilha Rica, com destino a POA. Rogério apontou as belas paisagens da Serra Catarinense e seu potencial turístico. Em 1992 procurou os governadores do  RS e de SC e os prefeitos da região. Idealizou a rodovia Caminhos da Neve que integraria dois polos de turismo, Serra Catarinense e Gaúcha. Ideia de repercussão fantástica, a estrada ainda não foi concluída.

O abominável homem das neves

SALIM MIGUEL, de  quem tive o privilégio da amizade, contava-me que a cada inverno Rogério Martorano retornava de São Joaquim para o RJ  sobraçando fotos e cartazes alusivos às nevascas na serra catarinense. Tantas foram as fotos e reportagens que acabou conhecido como o ABOMINÁVEL HOMEM DAS NEVES

A SEGUIR: A GUERRA DO PENTE e O PRIMEIRO HOMEM A LAÇAR UM AVIÃO EM PLENO VOO.

Henrique Packter
Por Henrique Packter 23/10/2020 - 09:05

É aqui e agora que se revela o porquê de intitular-se essa série de artigos de O ABOMINÁVEL HOMEM DAS NEVES.  

ROGÉRIO MARTORANO

A saga de ASSIS CHATEAUBRIAND na revolução de 30, quando escapa de ser fuzilado em São Joaquim/ SC,  está detalhada no livro de Fernando Morais, CHATÔ, O REI DO BRASIL, que acabei por sintetizar. Salim Miguel, o grande e talvez maior escritor catarinense de todos os tempos, tinha um final barriga-verde para essa história, final esse que passo a relatar e que envolve o jornalista ROGÉRIO MARTORANO, filho de César Martorano, o homem a quem CHATÔ ficou a dever a vida.
Rigério é joaquinense, mas reside em Florianópolis. Jornalista aposentado, muito contribuiu para tornar conhecida sua cidade natal. Trabalhou por 20 anos na Revista O Cruzeiro de Assis Chateaubriand.

Contando Rogério sete anos de idade, seu pai, César Martorano, era proprietário de uma emissora de rádio na pequena São Joaquim, o que despertou em Rogério insuspeitada veia jornalística. 

OS INÍCIOS

Aos 18 anos Rogério já perseguia o sonho de ser jornalista. Ouvia seu pai falar de Chatô e decide ir ao RJ fazer o alistamento militar  e procurar o célebre proprietário da revista O Cruzeiro. Em janeiro de 1959 chega à cidade maravilhosa e vai à casa de Chatô. 1959 é o ano em que o autor dessas mal-traçadas e seu primo, Egídio Martorano, futuro prefeito de São Joaquim, deputado estadual por SC, secretário de Estado e o autor destas mal-traçadas, nos formamos na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná.

CHATÔ CONHECE O FILHO DE SEU SALVADOR

Ao identificar-se como catarinense de São Joaquim, filho de César Martorano, Chateaubriand, levantou-se da cadeira e beijou-lhe a testa. Contou que seu pai salvara-lhe a vida; o que fazia no RJ? – Queria ser jornalista declara Rogério. Chatô promete fazer dele um jornalista e hospeda-o em sua casa por cerca de um ano e meio.

NA REVISTA O CRUZEIRO

Conheceu grandes nomes do jornalismo da época num almoço: Armando Nogueira, Davi Nasser, Luiz Carlos Barreto, Raquel de Queiroz, fotógrafo Jean Manzon... Na redação da revista O Cruzeiro inicia-se no jornalismo. Até chegar a repórter era saudado como foquinha, foca.

Divulgou de maneira maiúscula São Joaquim, elaborando reportagem sobre a neve, seu cenário suíço no Sul do Brasil. A partir daí todos os anos a revista estampava  em suas páginas matérias sobre a neve.

Henrique Packter
Por Henrique Packter 20/10/2020 - 11:12Atualizado em 20/10/2020 - 11:15

Em POA,  Chatô contraria Osvaldo Aranha e se alista no exercito revolucionário como soldado raso. Ganha o competente uniforme, cantil, mochila, facão, uma inútil carabina Geco fabricada na Alemanha em 1922, pistola Lugger, pente de balas para ambas as armas de fogo, botas quase parceiradas. Assina sem ler os papeis que lhe apresentam  e parte de avião para Curitiba. Antes, visita o general Cândido Rondon mantido em prisão domiciliar na capital gaúcha por recusar-se a aderir ao movimento revolucionário.

O aguaceiro continua. Percorre de taxi o trajeto Curitiba-Ponta Grossa onde se encontra com Vargas e faz a primeira entrevista concedida pelo chefe supremo da revolução, matéria publicada no Diário de Notícias de POA, órgão Associado.

Volta a Curitiba onde permanece por mais de uma semana e onde entrevista todo mundo para artigos que seriam publicados após 4 de novembro. Em Ponta Grossa, monta sua cama no vagão-dormitório do trem, ao lado da cama do general Gois Monteiro e  até 24 de outubro não sai mais de perto do chefe militar da revolução.

Enquanto isso, Washington Luís rejeita proposta de demissão trazida pelo cardeal Sebastião Leme e é deposto pelo general Augusto Tasso Fragoso que assume a chefia de governo provisório. Chatô era testemunha ocular da história, futuro slogan do Repórter Esso (1941). Às sete da manhã conversa com Vargas sobre a política externa que pretendia implantar. Ficou evidente para ele que Vargas não nutria lá muita admiração pelos yankes e chega a dizer que estranhava esta veia americanófila do jornalista. Chatô consubstancia seu pensamento em política internacional declarando:

- Sem os EUA nós não passamos de um espirro de gato.

Presidente deposto e preso esmorece o ânimo paulista e a ansiada Batalha do Itararé acaba não ocorrendo. O trem estacionado há dias em Ponta Grossa  põe-se em marcha agora repleto de notáveis. Cai a censura à imprensa  e a partir de 27 de outubro os jornais de Chateaubriand passam a publicar reportagens e artigos sobre a revolução. O RJ é invadido pacificamente por milhares de jovens soldados,lenços vermelhos no pescoço. Menos de 2 semanas após a posse de Vargas, Chatô publicava artigo acusando o governo revolucionário de Ditadura.

Naquela primeira entrevista concedida por Vargas a Chatô ele explicitava os 17 pontos de seu governo. Chato chamava o Hotel Glória de  O Covil dos Gaúchos, pois lá viviam vários deles. As relações entre Chatô e Vargas são ora cordiais, ora pouco amistosas. Com o interventor de SP, seu desafeto, entabulou polêmica repleta de escândalos, acusado que foi de receber dinheiro público para publicar notícias favoráveis ao governo. Chatô admitiu o fato aduzindo que não era o único jornalista  a fazê-lo.

No final de 1930 escreve artigo em que menciona pela primeira vez o nome oficial e registrado do poderoso grupo, os  Diários Associadosonde, onde  Chatô escrevia seus artigos, sempre a lápis.

Getúlio Dornelles Vargas

Presidiu o Brasil em dois períodos. O primeiro, de 15 anos ininterruptos,1930 a 1945.  Costuma-se dividi-lo em 3 fases: 1930 a 1934, como chefe do Governo Provisório; de 1934 a 1937 como presidente da república do Governo Constitucional, eleito pela Assembleia Nacional Constituinte de 1934; e, de 1937 a 1945, como ditador, durante o Estado Novo implantado após golpe de Estado.

No segundo período, eleito por voto direto, Getúlio governou o Brasil por 3 anos e meio: de 31.1.1951  a 24.8.1954, quando comete suicídio, no Palácio do Catete, RJ, então capital federal.. Getúlio era chamado por seus simpatizantes de pai dos pobres, devido à legislação trabalhista e políticas sociais adotadas sob seus governos. Adotou doutrina e estilo político denominados de getulismo ou varguismo. Seus seguidores, até hoje existentes, são getulistas. Era tratado pelas pessoas próximas de Doutor Getúlio, e as pessoas do povo se referiam a ele como Getúlio.

Influente até hoje sua herança política é invocada e disputada por. pelo menos, dois partidos políticos: o Partido Democrático Trabalhista (PDT) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Getúlio Vargas foi inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, em 15.9.2010. 

Henrique Packter
Por Henrique Packter 15/10/2020 - 17:35

O próprio juiz de direito, José Fonseca Nunes de Oliveira e o prefeito Boanerges Pereira de Medeiros disputavam o privilégio de hospedá-lo. Mas, dormiu mesmo na pensão até a madrugada seguinte.  Meio mundo de curiosos acompanharam e velaram seu repouso do lado de fora da pensão.. Manhãzinha cedo acorda para seguir viagem a Bom Jesus, no RS.

A viagem para o RS

Acompanhado de César Martorano e de Antonio  Palma parte a cavalo para alcançar Vacaria e, finalmente, POA. Até Vacaria eram 100km, um terço do trecho percorrido de  Florianólpolis a São Joaquim. Foram mais 3 dias para vencer a escarpada costa do Lava Tudo. Boca da noite jantam na fazenda do coronel Inácio Palma, pai dos 3 jovens irmãos Palma. Andam mais, até alcançar a fazenda de Augusto Pires às margens do Lava Tudo que separa Lages de São Joaquim. Saem dia escuro com Nico Pires, filho do fazendeiro  e bom conhecedor da região. Ele guia o grupo até local bem estreito do rio, embora  muito encachoeirado e caudaloso. Ali vadeiam o curso dágua.  Nico atravessa a nado, um a um, cavalos e cavaleiros. Tudo na  mais absoluta escuridão e silêncio, debaixo de chuva torrencial. Terminada a proeza Chatô tira bolo de notas dos bolsos, dá uma parte delas ao rapaz, sem contar.

A Coxilha Rica

A cavalgada pela montanha se estende pelo dia inteiro. Dormem a noite do dia 8 na Coxilha Rica do coronel Belisário Ramos, pai de Aristiliano Ramos, edil em Lages e incorporado ao exercito revolucionário em POA. Coxilha Rica, em Lages  tem 100 km² de zona rural num planalto a mais de 1.000 m acima do nível do mar. Predomina a vegetação rasteira de gramíneas; onde ocorrem remanescentes de floresta encontra-se a araucária. Coxilha, como todo mundo sabe, é vasto terreno ondulado. O solo da Coxilha Rica é pouco profundo, pedregoso, não muito fértil e coberto de gramíneas que no inverno ressecam com a geada e com o vento..  

Primeira via terrestre de ligação entre sul e sudeste do Brasil, o Caminho das Tropas, traçada no século 18 , abrangia a Coxilha Rica. Passavam pela região tropeiros levando gado do RS a SP (Sorocaba) e sul de MG. Nesta região correm os rios Pelotas, Pelotinhas, Penteado, Lageado Bonito e o Lava-Tudo.

As propriedades privadas instaladas na Coxilha Rica são fazendas destinadas à pecuária, à criação de gado utilizando  pastagem natural. Há séculos cria-se gado na região, que concentra a maior variedade de raças bovinas de corte do Brasil. Raimundo Colombo ex-governador de SC e lageano de muitos costados é grande proprietário rural na Coxilha Rica.

Em solo gaúcho

Beirando o rio Pelotas, caminho de Bom Jesus,  raiando o dia haviam atravessado o rio Pelotas e estavam em solo gaúcho.  Chegam a Bom Jesus à noite. Despede-se dos acompanhante e só então vasculha os próprios bolsos. No fundo de um deles encontra a amarfanhada passagem do hidroavião, preenchida com todos os seus dados do embarque a 3 de outubro, no RJ. Talvez se exibida fosse em São Joaquim teria lhe poupado grande sofrimento.  Poucas horas e estava em Vacaria onde encontra o general Valdomiro Lima sitiando a cidade com  incrível exército brancaleone de voluntários. Um carro do exército deixa-o em POA, na metade da tarde do dia 10 de outubro,  uma semana após o embarque  no avião da Condor no RJ. POA era uma praça de guerra onde encontrou apenas Osvaldo Aranha, agora governador do RS.  Vargas e seu estado-maior viajavam pela ferrovia rumo ao PR . Poucas horas antes, outra composição partira levando 3 mil soldados da cavalaria. 

Henrique Packter
Por Henrique Packter 13/10/2020 - 07:57Atualizado em 13/10/2020 - 07:58

O Estado Menor joaquinense que aprisionara Chatô se pergunta:

- Aquele nanico queria se fazer passar pelo jornalista Assis Chateaubriand, dono de jornais e rádios, aliancista de primeira hora? Declarado espião, o julgamento e condenação  à morte acontecem ali mesmo! O pelotão de fuzilamento constituído de sete revolucionários, também foi sorteado na hora. Era um espião do governo, isso sim! Major Bibiano ainda acusou de covardia e dignos de também serem fuzilados as poucas vozes que pediam por cautela, por acalmar os ânimos, por aguardar um pouco antes de tomar tão drástica decisão. Chateaubriand inutilmente advogou em causa própria. Pediu que mandassem emissário a Bom Retiro, ouvir Gerôncio Thibes, ou ir a Florianópolis atrás de Rupp Júnior. Debalde. Ia morrer pelas armas da revolução que ajudara a desencadear.  

A reviravolta

E afinal, quem era Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello?

Chateaubriand ou Chatô, criou e dirigiu a maior cadeia de imprensa na históri do país, os Diários Associados: 34 jornais, 36 emissoras de rádio, 18 canais de televisão, uma agência de notícias, uma revista semanal (O Cruzeiro), uma mensal (A Cigarra), várias revistas infantis (a primeira O Guri, 1940, em quadrinhos), e a editora O Cruzeiro. Foi senador da república por  duas vezes, membro da Academia Brasileira de Letras, fundador do MASP, museu de assombroso acervo, criou a campanha Deem Asas Ao Brasil que doava aviões de treinamento para aeroclubes brasileiros, embaixador do Brasil na Inglaterra, autor de mais de 18 mil artigos de jornais. Cognominado de Bucaneiro Político pelo emprego nem sempre ético de seus veículos de comunicação.Este homem estava para ser fuzilado na obscura cidade de São Joaquim em SC, acusado de espionagem em   favor do governo Washington Luís, governo que combatia.

O fuzilamento

Chatô, verdade verdadeira, estava exausto e encostara-se no muro do fuzilamento. Viu, vagamente, alguém cochichar coisas nos ouvidos de Bibiano. Era alguém  da comunidade que vinha advertir Bibiano de que o  garoto César Martorano, agora agraciado com a patente de tenente revolucionário, representava O Jornal do RJ em São Joaquim. Este jornal era carro chefe do  jornalismo de Chateaubriand. Martorano angariava assinaturas para o jornal e eventualmente mandava notícias da cidade mais fria do  Brasil. Tinha carteira funcional para identificá-lo como membro da família dos Associados e a carteira estava assinada pelo verdadeiro Assis Chateaubriand. Findos os  cochichos Bibiano decide adiar a execução por uma hora e confina o infeliz prisioneiro a prisão na pensão do Apolinário. Dois praças armados levam Chatô algemado até o albergue. Apolinário decreta  que ninguém se hospeda na pensão sem registrar-se no competente livro de hóspedes. Entrega o grande livro negro a Chatô, mais caneta, tinteiro e mata-borrão. Com o indicador direito, unha quase limpa, aponta a linha a ser preenchida, como era de lei. Nome por extenso,  profissão, estado civil e assinatura. Assinado o tal livro, Bibiano carrega pressurosamente com o mesmo até a farmácia de Blayer onde César Martorano já o aguardava, carteirinha na mão. Tinha ela duas assinaturas: uma do gerente Orlando Ribeiro Dantas, já a de Chateaubriand era ilegível e infalsificável, montoeira de garranchos incompreensíveis. Bibiano detém-se  no exame e conferência das assinaturas, ao cabo do qual exame volta-se para a pequena multidão de pessoas aglomeradas na porta da botica, penitenciando-se: quase fuzilamos um inocente, o homem preso na pensão é mesmo o Dr.Assis Chateaubriand!

Henrique Packter
Por Henrique Packter 08/10/2020 - 17:26Atualizado em 08/10/2020 - 17:27

Em Urupema

CHATÔ como já se disse, era bom de cama. Deitou e imediatamente ferrou no sono, roncando adoidado até 5 e meia da manhã numa cama improvisada. Acordado com fortes safanões, conhece o guia André, providenciado por Thibes, um polaco louro, mas rústico  como um bugre escreveria Chatô  Seria sua companhia até Urupema. Chatô não pode  deixar de rir-se da própria indumentária, vestida até com certa elegância. Entre os acessórios  estavam chapéu de aba larga, presente do engenheiro Baldassini, construtor de seu jornal no RJ, uma capa azul da Casa Burberry, Londres, ambos nunca antes usados. Montam e somem na escuridão.

Inicia a longa cavalgada

Chove o tempo todo. Homens e animais sobem a serra por 9 horas  seguidas. Cerca das 2 da tarde Chatô estava descadeirado  e tinha nádegas e pernas assadas pelo atrito com os arreios.

Chegam à fazenda de Maneco Arruda,  uma vez que Jango  Mattos, indicado por Rupp, falecera em acidente com arma de caça. Almoçados fartamente com carne  de caça, o dia ainda não escurecera quando guia e jornalista caem sobre camas às pressas arranjadas. Despertados às 4 da manhã fazem rápida refeição.   Chuva inclemente continuava sem dar tréguas e Chatô usava emplastros providenciados pela mulher de Arruda para aliviar as virilhas em carne viva  pela cavalgada. Antes do dia clarear  estão em Painel. Dali em diante seria guiado por Dinarte Couto Arruda, fazendeiro e presidente do Partido Republicano na região.

Chatô fica sabendo que o novo guia seria sua companhia até Monte Alegre. Dali a São Joaquim, era uma reta de 2 léguas que percorreria sozinho. Coisa de uma hora a cavalo.

Chateaubriand em São Joaquim

O chefe local da Aliança em São Joaquim era João Palma, a  cidade totalmente favorável ao golpe de 30, getulista, portanto. Chico Palma, terceiro dos irmãos Palma, tinha um arsenal em mãos, mais de 80 armas de fogo. Já no dia 4, sabedores que a revolução começara em POA,  cercaram o alojamento de madeira de 10 soldados comandados por um tenente. Eles se renderam a 100 civis armados,  sem esboçar reação.  O autoproclamado major Bibiano Rodrigues Lima comandava um destacamento, distribuindo patentes militares de capitão e tenente revolucionário a seus homens de confiança. Quando Chatô chega à cidade, ela estava sob total domínio das forças  getulistas. Situada a uma altitude de 1.354 metros tem população estimada em 2019 de 26.952 habitantes. Situada no Planalto Serrano, dista 85 km de Lages e 232 km de Florianópolis. A cidade conta com uma grande diversidade étnica, composta principalmente por descendentes de portugueses, alemães, italianos, japoneses e indígenas. Grande parte da população migrou de outros estados, principalmente do RS.

Chatô chega a São Joaquim sem as cartas de recomendação escritas por Rupp Júnior, sem documentos, sem dinheiro. Chega debaixo de chuva que teimava em continuar já fazia três dias. O tempo era frio quase insuportável e a capa azul não protegia do tempo inclemente. Ademais, obrigava-se a caminhar com as pernas bem arqueadas: as assaduras provocavam sensação muito dolorosa ao andar. Já fazia três dias de uma viagem programada para poucas horas. Bate à porta do farmacêutico Hilário Blayer, a quem conta suas desditas. Para quem ouvia, a coisa toda era inverossímil. Deixa Chatô diante do balcão da botica e parte em busca dos três irmãos Palma, que logo chegam. O Major Bibiano também vem a reboque mais capitães e tenentes. Todos armados até os dentes e má catadura, o que assustou Chatô, obrigado a repetir sua história.  Bibiano  era um paisano sanguinário, ansioso por vingar o pai, morto em Lages, num dos tantos entreveros políticos da região.  Chatô viu sua história ser ouvida com incredulidade e desdém.

Henrique Packter
Por Henrique Packter 05/10/2020 - 12:05

Já vimos que o jornalista Assis Chateaubriand embarcou a 3.10.1930 no RJ, noventa anos atrás,  em hidroavião da empresa Condor, pilotado por dois aviadores alemães, com destino a POA para se juntar às tropas revolucionárias comandadas por Getúlio Vargas e Góis Monteiro. Marchava o RS rumo ao RJ para derrubar o governo do presidente Washington Luís. A viagem de Chatô teria duração de poucas horas com escala prevista em Florianópolis. O terrível mau tempo, as chuvas incessantes e a revolução em marcha interrompem o voo na capital catarinense, onde Chatô soube que sua prisão fora decretada pelo governado Fúlvio Aducci, leal ao governo federal. Chatô procura Nereu Ramos (que estava em POA) e depois Henrique Rupp Jr.

Rupp  oferece refúgio em sítio seu, próximo a Florianópolis, coisa que CHATÔ recusa. Só aceita solução que o leve a POA. Então, de Florianópolis viajaria de carro a Bom Retiro (3 horas e meia), Dali a cavalo pelos altos da Serra do Mar a Urubici (37 km) e, sempre a cavalo, até São Joaquim (61 km). Onze horas de noite escura, CHATÔ mais motorista são embarcados por Rupp rumo a Bom Retiro. CHATÔ vestia batina negra.

Dois carros participam da fuga. Num dos carros vão motorista desarmado e CHATÔ. No carro de trás 3 homens armados davam proteção. Faltando 15 minutos para a meia-noite Rupp entrega 3 cartas a CHATÔ. Uma delas para Gerôncio Thibes  em Bom Retiro que forneceria meios para que alcançasse São Joaquim. A segunda e terceira  para João e Antônio Palma e ao farmacêutico Hilário Blayer,  todos conspiradores da Aliança Liberal,  liderada por Vargas.

Batina  sobre o terno, nas mãos  capa e chapéu, começa a viagem debaixo de chuva que  enlameava a estrada. O motorista para  o carro e coloca correntes nas rodas. O mesmo fez o carro de segurança 5 km atrás. Perto das 3 horas da manhã próximos a Bom Retiro dois troncos atravessados na estrada impedem a passagem do     carro. Era tosco posto policial, guardado por dois soldados armados de fuzil. Eles indagam se poderiam dar notícia do jornalista Assis Chateaubriand  cuja prisão fora decretada pelo governador. Teriam cruzado com algum veículo suspeito? CHATÔ pediu para ler o telegrama assinado por Marinho Lobo , chefe de polícia. Documento lido, CHATÔ denuncia o carro de segurança como possível viatura que estaria dando fuga ao jornalista. Passam a correr pela estrada estreita e sinuosa, parando adiante para derrubar o poste de telégrafo que foi atravessado na estrada com o fio   cortado. Chegam em Bom Retiro então vilazinha de meia dúzia de casas, igreja protestante, hospedaria, botequim e farmácia.. Acordam morador que os atende, lamparina numa das mãos, fuzil na outra. Dá o endereço de Gerôncio Thibes, morador numa chácara.

Hóspede de Thibes em Bom Retiro

Apresentada e lida a carta de Rupp Júnior, Chatô queima as cartas de apresentação de Rupp para São Joaquim,  mais a batina. 

Thibes explica que a trilha entre Urubici e São Joaquim fora destruída pelas chuvas incessantes. Precisava usar caminho alternativo, duas vezes mais longo, para São Joaquim. Melhor, aconselhou, era sair de Bom Retiro a cavalo até Canoa e Urupema. A cavalo porque a essa altura o carro utilizado já fora identificado pelos legalistas. Dormiria em Urupema seguindo até Painel onde atravessaria o rio e a serra do Lava-Tudo, só então chegando a São Joaquim

Henrique Packter
Por Henrique Packter 29/09/2020 - 19:35

O jornalista FRANCISCO DE ASSIS CHATEAUBRIAND BANDEIRA DE MELLO (Chatô) dono do poderoso DIÁRIOS ASSOCIADOS, chega ao aeroporto do cais Pharoux, RJ, para apanhar o hidroavião que o levaria a juntar-se às forças revolucionárias gaúchas. Inicia viagem RJ-POA às 5,30 horas de chuvosa sexta-feira, 3.10.1930, embarcando no Junkers G-24 da CONDOR. Soubesse ele dos dissabores que o esperavam nos 7 dias seguintes, esqueceria a viagem.
Era proibido fumar em qualquer momento do voo ou portar arma de fogo nos hidroaviões. CHATÔ entregou revólver e charutos.
Más condições meteorológicas obrigam o piloto Heinz Puetz voar a 50 m de altura com 9 passageiros, enfrentando tempo terrível no avião lotado.  Vencem os 300 km até Santos em 4 angustiantes horas.

Reabastecido, o avião decola e  avança menos de 150 km. Tempo ruim, teto precário faz Puetz pousar na estreita faixa entre Ilha Comprida e continente. Voa os 50 km seguintes com os flutuadores esquiando sobre as águas do canal. Pelo meio-dia piora o tempo que já era ruim, Puetz desliga os motores e o avião flutua diante de Cananéia e seus dois canhões coloniais. Às 3 da tarde, quando deveria sobrevoar POA, Puetz decola, avisando que avançariam 70 km até Paranaguá, onde pernoitariam.

Chegam às 17 horas  e partem às 6,30 da manhã seguinte com sol e tudo, mas ainda sem notícias do movimento revolucionário. Puetz calcula em duas horas a viagem a POA com rápida escala em Florianópolis. Aqui, telegrama em alemão aguarda o piloto: a situação está muito difícil em POA, única frase que CHATÔ consegue ler. Cancelado restante do voo, a viagem terminava em Florianópolis. O pior estava por vir. Em São Joaquim, a 120 km, a cidade preparava-se para acontecimentos verdadeiramente inacreditáveis na história da revolução e do país. 

O império de Chatô

Começa a montar seu império jornalístico a partir do final dos anos 20. Reúne sob seu comando mais de 100 jornais, revistas, estações de rádio e TV. Nos anos 40 e 50, é um dos homens mais influentes do país, temido pelas campanhas jornalísticas que encabeça como aquela contrária à criação da Petrobrás. Pioneiro na transmissão do sinal de televisão no país, cria a TV Tupi em 1950. No Estado Novo, consegue de Getúlio Vargas a promulgação de decreto que lhe dá direito à guarda da filha, após separar-se da mulher. Na ocasião, cunhou a frase: Se a lei é contra mim, vamos mudar a lei. Criou o Museu de Arte de São Paulo (Masp) (1947) com Pietro Maria Bardi. Senador pela Paraíba (1952) e pelo Maranhão (1955), redigia seus artigos a lápis, exceto após trombose  que o deixou tetraplégico(1960).  Trabalha até o final da vida e morre em São Paulo (1968). 

Henrique Packter
Por Henrique Packter 23/09/2020 - 07:35

A trajetória dos Diários Associados começa em 1924 quando o jornalista Assis Chateaubriand contava 32 anos e adquire O Jornal, diário que circulava no RJ  desde 1919. Depois, com a aquisição de outras empresas de mídia impressa, rádio e TV o grupo se torna o mais importante do Brasil. Em 1925, compra o jornal paulista Diário da Noite. Em 1928, funda a empresa gráfica O Cruzeiro e, em 1934, adquire revista mensal A Cigarra. Em MG compra o jornal Estado de Minas (1929). Ainda em 1929 funda o Diário de São Paulo. Diário da Tarde nasce em 1931. Chatô criou ainda, no RJ, a Agência Meridional e a Rádio Tupi. A elas se juntariam a Rádio Tupi de SP  e a Rádio Educadora, rebatizada Rádio Tamoio, RJ.  A televisão vem em 1950 com a TV Tupi de SP, primeiro canal de TV da América Latina. Neste ano da graça de 2020 a TV brasileira comemora 70 anos de atividades.

Ícone da imprensa

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello o Chatô (4.10.1892-4.4.1968), foi jornalista, empresário, mecenas, político, advogado, professor de direito, escritor, empresário, diplomata e membro da Academia Brasileira de Letras.  Um dos homens públicos mais influentes do Brasil nas décadas de 40, 50 e 60, magnata das comunicações no Brasil, justamente esse homem estava prestes a ser fuzilado em São Joaquim, SC, em outubro de 1930. 

Dono dos Diários Associados, o maior conglomerado de mídia da América Latina, no seu auge contou com mais de cem jornais, emissoras de rádio e TV, revistas e agência telegráfica. Chegou a editar 34 jornais no país, além de possuir 36 estações de rádio, 18 de televisão, uma agência de notícias, várias revistas infantis e a Editora O Cruzeiro, com a revista semanal do mesmo nome, periódico de maior circulação na América Latina. Senador pela Paraíba e pelo Maranhão, renunciou a este último mandato quando designado embaixador em Londres por JK (1957-1960). Escreveu livros e tornou-se imortal da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira nº 37.

Odiado e temido, polêmico e controverso, Chateaubriand, o Cidadão Kane brasileiro, foi acusado de inescrupuloso, antiético, por supostamente chantagear empresas não anunciantes em seus veículos. Também por insultar empresários com inverdades, como aquelas assacadas contra o industrial Francisco Matarazzo Jr. Seu império parecia construído com base em interesses e compromissos políticos, incluindo proximidade turbulenta, mas proveitosa, com o Presidente Vargas.

Criador e fundador do Museu de Arte de SP com Pietro Maria Bardi (1947), em 4.10.1968, data da morte de Chateaubriand e trinta e oito anos após o episódio sobre o qual escrevo, Pietro Maria Bardi, pendurou três obras-primas na câmara ardente onde Chatô era velado: Banhista com o Cão Grifo, nu gigantesco de Renoir, o Retrato do Cardeal Cristófaro Madruzzo, de Ticiano, e Don Juan António Llorente, de Goya, majestoso retrato do secretário da Inquisição espanhola. Direção dos Associados considerou ofensiva tal exposição no velório (duas telas religiosas e um nu artístico). Exige a retirada das obras, mas Bardi bate o pé:

- Mas dottore, é minha última homenagem a Chatô. Nesta parede, estão as três coisas que ele mais amou na vida: o poder, a arte e mulher pelada. É a última frase do livro Chatô, o rei do Brasil, 695 páginas – que Fernando Moraes lembrou, ao ver o filme homônimo de Guilherme Fontes que retrata com humor e sarcasmo homem patologicamente obcecado pelo poder, mulheres.  e o sonho de construir museus para civilizar o Brasil. 

CHATÔ foi escrito baseado em entrevistas sobre Assis Chateaubriand.

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