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CORONAVÍRUS - Saiba mais aqui
* as opiniões expressas neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do 4oito
Por Renato Matos 23/09/2020 - 10:27Atualizado em 23/09/2020 - 10:54

A gripe espanhola de 1918 é considerada uma das piores pandemias da história. Estima-se entre 20 e 50 milhões as mortes no mundo – para comparação, estamos alcançando agora o primeiro milhão com o coronavírus. Chegou no Brasil por Salvador, onde havia aportado o navio britânico Demerara, com vários infectados a bordo. Rapidamente espalhou-se pelo país.

No auge da pandemia, na cidade de São Paulo - que possuía na época 500 mil habitantes - morriam em torno de 250 pessoas por dia. No Rio de Janeiro, em meados de outubro, foram enterrados em apenas três dias 1087 pessoas. Os detentos eram “convocados” para proceder ao transporte e enterro dos diversos corpos que permaneciam insepultos nas ruas da cidade.

Assim como agora, as pessoas achavam impossível não ter algum medicamento que pudesse prevenir ou curar a infecção. Estava pronto o espaço para a venda e abuso de produtos inúteis, viabilizado pelo pânico das pessoas.

Contra a espanhola, como era conhecida, uma alternativa era o Extrato Tonsilar do Instituto Butantã, que também oferecia o Extrato Suprarrenal e o Óleo Canforado. De outros laboratórios eram recomendados a Água Purgativa Queiroz e as Pílulas Sudoríficas de Luiz Carlos, estes como preventivos e curativos.

A doença poderia ser enfrentada também com o Salkinol número 1. Mas, havendo tosse, o indicado era o Salkinol número 2.

Um dos medicamentos mais procurados, anunciado como “o remédio da gripe espanhola”, a Grippina era produzida pelo laboratório de Alberto Seabra, famoso médico homeopata paulista. A Bayer trouxe a fenacetina, sintetizada na Alemanha poucos anos antes – “tiro e queda contra a influenza”.

Hoje proibida na maioria dos países por seus efeitos cancerígenos e outros graves efeitos colaterais, a fenacetina atualmente é a substância mais misturada com a cocaína no Brasil – barata, de consistência e cor semelhantes, aumenta o volume da droga sem chamar a atenção.

Como nos conta João Paulo Martino, no seu livro “1918. A Gripe Espanhola – os Dias Malditos” o Serviço Sanitário utilizava espaço nos jornais para divulgar os cuidados que a população deveria seguir. No boletim de 16 de outubro era publicado: “Para evitar a influenza, todo indivíduo deve fugir de aglomerações, principalmente à noite, não frequentar teatros, cinemas, não fazer visitas e tomar cuidados higiênicos com as mucosas”.

Inacreditavelmente, um século depois, a história se repete.

Por Renato Matos 17/09/2020 - 21:02

A epidemia do SARSCoV 1 – a primeira do século 21 - iniciou na China, na província de Guangdong. 

Os primeiros casos surgiram em novembro de 2002 – uma síndrome gripal evoluindo para pneumonia atípica, com alta mortalidade.

A porta de saída para o mundo foi Hong Kong, que faz fronteira com aquela província chinesa.
 
O carreador do novo vírus para Hong Kong teria sido um nefrologista chinês. No mesmo andar do hotel onde estava hospedado havia pessoas do Canadá, Singapura e do Vietnã. Infectados, ao voltarem aos seus países, levaram o desconhecido agente. Que acabou atingindo 26 países.

Acredita-se que o médico tenha sido infectado por um lojista do mercado de peixes de Guangdong. Internado, infectou 23 médicos e enfermeiros, dezenas de pacientes e familiares – ficou conhecido entre os médicos como o “Rei do Veneno”.

Entra aí a culinária e a cultura.

Numa população de 1,3 bilhão de pessoas o consumo de animais silvestres era comum.  Naquela época de grandes mudanças sociais que acompanharam o desenvolvimento econômico chinês, surgiu um novo ingrediente.  

A ingesta de animais exóticos, muitas vezes in natura, passou a ser visto como uma forma de diferenciação social, trazendo aos adeptos boa reputação, prosperidade e sorte.
 
Milhares de restaurantes eram especializados naqueles pratos. 
A época ficou conhecida como a Era do Sabor Selvagem – que incluía a degustação de praticamente todas as espécies de animais, comprados em imensos mercados com péssimas condições de higiene. História que já conhecemos. 

Em março de 2003 a Organização Mundial de Saúde emitiu um alerta global chamando a atenção sobre uma nova pneumonia atípica, de causa desconhecida.

O agente causador não havia sido isolado, mas sabia-se que era transmitido por via aérea.

Só em maio – 6 meses após o relato dos primeiros casos – um grupo de médicos de Hong Kong publicou na revista Lancet o artigo “Coronavírus como uma possível causa da síndrome respiratória aguda grave”.

A grande diferença daquela epidemia em relação a atual é que os infectados pelo SARS-CoV1 já tinham muitos sintomas quando começavam a transmitir o vírus, o que facilitava o reconhecimento e isolamento dos casos. Os assintomáticos, se é que os havia, não transmitiam a doença.

Ao final, 774 mortes no mundo. 

Desapareceu completamente 8 meses depois do seu início. Sem tratamento ou vacina que mudassem o seu curso natural – apenas com rígidas medidas de isolamento, quarentena, higiene e uso de máscaras.

Já vimos que agora o veneno é mais potente. Cada vez mais conectados, precisamos de uma ágil, resoluta e segura coordenação global.

Por Renato Matos 14/09/2020 - 08:28Atualizado em 14/09/2020 - 08:30

Febre tifoide é uma doença infecciosa causada pela Salmonella typhy. Os humanos são os únicos reservatórios e é geralmente transmitida por alimentos contaminados.

Não é a mesma coisa que tifo – este causado por bactérias do gênero Rickettsia, parasitas de pulgas, piolhos e carrapatos.

Os sintomas habituais são febre, dores abdominais e diarreia. Alguns casos evoluem para perfuração intestinal e peritonite.

Na era pré antibiótica a mortalidade era alta – até 15%.

Habitualmente é uma doença aguda e limitada. No entanto, em torno de 5% dos infectados podem continuar transmitindo a doença por muitos anos - são os portadores crônicos assintomáticos.

Entra aí Mary Mallon, imigrante irlandesa que chegou nos Estados Unidos em 1883 para trabalhar como cozinheira. Fixou-se em Nova York.

Algum tempo depois começaram a aparecer casos de febre tifoide naquela cidade, surpreendentemente em famílias de alto poder aquisitivo. A doença não era rara naquela época, mas geralmente afetava subúrbios e áreas pobres da cidade.

Uma boa avaliação epidemiológica ligou os casos com Mary Mallon. Como naquela época não havia antibióticos que pudessem tratar a Salmonella, o caminho era o isolamento da carreadora crônica.

Durante 3 anos ficou isolada em uma cabana.

Comprometendo-se a mudar de ramo, foi finalmente liberada para retomar a sua vida normal.

Mas cozinhar era sua profissão – voltou a trabalhar em casas de famílias.

Novos casos voltaram a aparecer nas áreas ricas da cidade, rapidamente ligados à nossa personagem assintomática.

Estima-se que tenha infectado em torno de 50 pessoas, com 3 mortes.

Não houve mais negociação – passou os últimos 23 anos de sua vida em isolamento compulsório - até sua morte.

Esse padrão de transmissão parece ocorrer também na maior parte das doenças infecciosas transmitidas por via respiratória. Geralmente estes super transmissores são assintomáticos ou pouco sintomáticos e frequentam lugares que favorecem esta disseminação.

No caso do coronavírus sabemos que o número básico de reprodução (R0) fica entre 2 e 3 – sem medidas de controle cada indivíduos infectados transmite a doença para outras 2 ou 3 pessoas.

No entanto, um único indivíduo pode infectar dezenas ou centenas de pessoas.

Alguns matemáticos, que buscam regras na natureza, chegam a relacionar esta forma de transmissão ao princípio de Pareto, ou regra 80/20, que afirma que, para muitos eventos, aproximadamente 80% dos efeitos vem de 20% das causas.

Cuidado, portanto, com nossos super transmissores.


 

Por Renato Matos 08/09/2020 - 16:41

A esperada vacina contra o coronavírus ainda não chegou e já começaram os questionamentos quanto a sua obrigatoriedade.
Este não é um assunto novo, e, aqui mesmo no Brasil, já tivemos um sangrento episódio relacionado com o assunto.

No início do século passado o Rio de Janeiro era o principal porto da América do Sul.
O grande problema - desviando os navios para outros portos do continente - eram as doenças infecciosas. 
Malária, febre amarela, peste bubônica, tuberculose e principalmente a varíola, com sua imensa mortalidade, eram as principais. 
A cidade era conhecida no exterior como o “túmulo dos estrangeiros”.

Num amplo programa de modernização e saneamento do país, o presidente Rodrigues Alves (que acabou morrendo por complicações da gripe Espanhola) foi buscar o médico sanitarista Osvaldo Cruz, que havia chegado há pouco de Paris.
De família rica, completou sua formação no Instituto Pasteur, na época o maior centro de estudos de doenças infecciosas do mundo. 
Para aceitar o cargo, equivalente ao de Ministro da Saúde, pediu ampla liberdade de ação.
Começou pela febre amarela.

Já se sabia na época que era transmitida por mosquitos.
Como o seu controle exigia a pulverização compulsória das casas com altas doses de inseticidas, aplicadas por técnicos do governo, a popularidade do sanitarista começou a ser abalada.
Até aí sem maiores repercussões sociais.

A situação mudou quando ele tentou implementar a vacinação compulsória contra a varíola. 
Esta vacina não era nova. 

Na verdade, foi a primeira a ser desenvolvida e vinha sendo usada em larga escala em outros países. Na Alemanha desde 1875.
Após meses de exaltada discussão no Congresso Nacional, no dia 9 de novembro de 1904 foi sancionada a lei que a tornava obrigatória.
Foi o estopim para aquele que foi considerado o levante popular mais indomável do país, que ficou conhecido por Revolta da Vacina.

Como sempre havia interesse políticos associados. Lauro Sodré, senador, já havia criado a Liga contra a Vacina Obrigatória. 
Numa época de grandes pudores, o que de fato levou a população já incomodada a entrar em luta aberta contra as forças do Estado, foi que esta vacinação obrigaria as mulheres a exporem, por força da lei, braços, ombros e, o pior de tudo – eventualmente nádegas - para os funcionários do governo. 

Foram diversos dias de lutas nas ruas da cidade, com centenas de mortos.
A lei foi revogada poucos dias depois.
A varíola foi erradicada – por força da vacina – apenas em 1980.

Por Renato Matos 03/09/2020 - 08:10

Os anos de prática de medicina nos deixam mais duros.  
Sentimos quando perdemos um paciente, mas mecanismos de defesa bem enraizados nos protegem contra sofrimentos maiores.
Mas nem sempre funcionam.

Em 2009 também vivemos uma pandemia, aquela provocada pelo vírus Influenza A H1N1.
Ficou conhecida como gripe suína - o reservatório intermediário do vírus.
Iniciou no México em março de 2009, teve casos relatados em 214 países e nos atingiu com mais intensidade no inverno daquele ano.

Morreram muito mais jovens. Totalmente diferente do padrão da gripe sazonal – e do coronavírus - onde os idosos são os mais atingidos. 
Os mais velhos teriam certa imunidade pelos contatos prévios com o vírus – o H1N1, que também causou a gripe espanhola em 1918, circulou até 1958.
O Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo contabilizou durante toda aquela pandemia de Influenza 2.098 mortes no país – a mortalidade de 2 dias de coronavírus. 

Tínhamos o Tamiflu, que apesar de efeitos longe de espetaculares, nos ajudou a passar por aquela fase sem maiores perdas.
E no final de 2009 já chegava a vacina específica - que já existia para outros vírus influenza - e foi adaptada para aquela nova cepa viral.  
Os estados mais afetados foram os do sul do país, com o Paraná tendo o maior número de casos por habitante.

Quatorze meses depois do início, a OMS declarou oficialmente o fim da pandemia

Aqui em Criciúma na época o Prefeito também era Clésio Salvaro. 
Um vírus menos letal do que inicialmente considerado, além de diversas estratégias de mobilização e pronto atendimento da população (inclusive a montagem de um hospital de campanha próximo ao Hospital S. José) foram decisivos para um grande sucesso.
Nenhuma pessoa morreu em nossa cidade. 

Pouco depois daquela fase mais pesada fomos chamados para atender uma paciente, lembro que professora, transferida de Orleans. Veio direto para a UTI do Hospital S. João Batista. Chegou já em parada cardiorrespiratória e as manobras de ressuscitação fracassaram.
Na saída da UTI, os olhos de uma menina, talvez uns 12 anos, me fitavam angustiados. Suplicantes até.
“E a mamãe doutor, melhorou?”

 Perguntou com timidez, visível pavor e um fiozinho de esperança.
Naquele momento todas as habilidades para suportar melhor as mortes foram por terra. 
Vi ali, congelado, todo o imenso sofrimento que viria.
Sempre que vejo essa imensidão de vidas perdidas, mortes evitáveis, lembro dos olhos da menina.

Por Renato Matos 31/08/2020 - 09:02Atualizado em 31/08/2020 - 09:03

A necessidade de entender e tentar prever o comportamento de doenças infecciosas levou a criação de modelos que, com simulações numéricas, mostrem caminhos para interferir na sua propagação. 

Um dos mais antigos, conhecidos e utilizados é o modelo S-I-R. 

S de suscetíveis – indivíduos saudáveis que são vulneráveis a contrair a doença. 
I de infectados – aqueles que contraíram o agente patogênico e se tornam vetores de propagação da doença. 
R de recuperados: os infectados que se curaram – ou morreram. E que deixam de ser suscetíveis. 

O trabalho inicial que avaliou estas interações foi publicado em 1927, por Kermack e McKendrick. 

O artigo de amigável título “Uma contribuição para a teoria matemática das epidemias” esconde 20 páginas de complexas manipulações e equações diferenciais. 

Wiliam Kermack, um dos autores, tem uma história incomum. Escocês, formado em matemática e química, ficou completamente cego aos 26 anos em consequência de uma explosão acidental enquanto trabalhava no seu laboratório. 

Curioso e determinado, não abandonou a carreira e continuou suas pesquisas com a ajuda de colegas, aprimorando a sua já extraordinária capacidade de fazer cálculos mentalmente. 

Voltando ao SIR, dentro das simplificações necessárias para a formulação matemática, o modelo considera estanques aqueles três compartimentos - suscetíveis, infectados e recuperados. 

A passagem de um estágio para o outro se faz sem volta. 

A fórmula não vale para doenças que não geram imunidade – que pelo menos por enquanto não parece ser o caso do coronavírus – onde os recuperados podem voltar a ser suscetíveis. 

Trazendo para a atual pandemia: 

A estratégia de imunização de rebanho, buscando reduzir os suscetíveis, já provou que cobra um preço altíssimo em número de vidas. 

A vacina, que pode levar os suscetíveis para recuperados sem passar pela perigosa fase dos infectados/doentes, ainda está em andamento. 

Para evitar a propagação da epidemia, hoje, nos resta evitar que os suscetíveis se infectem. 

A doença tende a regredir – ou desaparecer – quando o número de reprodução fica abaixo de 1 - cada indivíduo infectado transmitindo a doença para menos de uma pessoa. 

Não é ideologia – é matemática.

Por Renato Matos 26/08/2020 - 10:55

Alguns dizem que as medidas mais rigorosas adotadas em nosso estado no início da pandemia só atrasaram a chegada para valer do coronavírus – seria preferível ter logo enfrentado o problema, sem o tal do achatamento da curva.
Será?

Compartilho a opinião de vários especialistas – nenhum de nós viveu uma situação tão dramática, tão fora de controle. O coronavírus nos pegou totalmente vulneráveis. Os conhecimentos foram surgindo em tempo real, quando já estávamos tratando pacientes extremamente graves. Informações vindo de todos os lados. Das fontes tradicionais às mais bizarras. 

Nós, profissionais da saúde, aprendemos a nos proteger melhor. Estamos nos infectando e morrendo menos. Logo compreendemos que não estávamos lidando apenas uma doença do aparelho respiratório – não era só uma pneumonia viral. O coronavírus traz também importantes alterações no sistema de coagulação do sangue – trombos se alojando em vasos pulmonares eram corresponsáveis pela brutal insuficiência respiratória. 

O uso correto de anticoagulantes melhorou - e muito - o prognóstico destes doentes. 

Fomos reconhecendo – e apreendendo a manejar - manifestações cardíacas, neurológicas, gastrointestinais e renais. Percebemos a imensa cascata inflamatória. Na tentativa de vencer o vírus o organismo lança mão de diversas substâncias que podem se voltar contra células saudáveis. 

Nesta linha, naqueles pacientes que precisam de oxigênio, o uso da dexametasona - um corticoide barato e antigo, desenvolvido em 1957 – reduziu a mortalidade em 30%. Nenhum outro medicamento até agora mostrou eficácia comparável na redução do número de mortes. 

O uso de soro de convalescente, tratamento centenário, voltou à tona, apesar de resultados ainda discutíveis. 

A utilização correta de técnicas de ventilação mecânica - muitas otimizadas durante a pandemia – e o treinamento das equipes, salvou milhares de pessoas. Uma análise recente de 24 estudos observacionais, publicado no jornal Anaesthesia, mostrou que a taxa de mortalidade em pacientes com Covid19 que precisaram de atendimento em unidades de cuidados intensivos, caiu de 60 para 40% de março até maio deste ano. Bom, mas uma taxa ainda muito alta comparada com os 20% observados em outras pneumonias virais.

E, sim, aprendemos que medidas de isolamento físico, higiene pessoal e uso adequado de máscaras podem fazer uma imensa diferença, permitindo inclusive que voltássemos a trabalhar com maior segurança. 

Este tempo também nos deixou mais perto de uma vacina que pode virar o jogo definitivamente a nosso favor. 

Sem dúvidas, está valendo a pena.

Por Renato Matos 23/08/2020 - 07:44Atualizado em 23/08/2020 - 07:44

No início do século passado as principais causas de morte eram, de longe, as doenças infecciosas. Pneumonia, tuberculose e gastroenterite matavam a maior parte das pessoas, muitas vezes ainda crianças. “Quem tem um não tem nenhum”, era um provérbio da época, que retrata o dado demográfico de uma mortalidade infantil ao redor de 50% e nos recorda que, para ter um filho, as famílias deviam colocar no mundo pelo menos dois.
As melhorias nas condições sanitárias, os tratamentos efetivos e as vacinas foram mudando gradualmente este cenário. No Brasil e no mundo. Hoje as principais causas de mortes são as doenças cardiovasculares, entre elas o infarto do miocárdio e o acidente vascular cerebral. Na sequência as mortes provocadas por câncer. Um pouco abaixo, os homicídios - no ano passado tivemos pouco mais de 40 mil assassinatos no país - uma das mais altas taxas por habitante do mundo, segundo a
Organização Mundial da Saúde. Para chamar a atenção sobre a magnitude das doenças cardiovasculares no país, a Sociedade Brasileira de Cardiologia criou o Cardiômetro.
No modelo do Impostômetro, que fornece em tempo real o que o país está arrecadando (este ano já um pouco mais de 1,3 trilhão de reais), busca chamar a atenção sobre o número absurdo de mortes.
Como a maior parte destas perdas podem ser evitadas ou postergadas, este instrumento, além de mostrar o tamanho do problema, chama a atenção sobre importância do tratamento dos fatores modificáveis de risco – obesidade, sedentarismo, hipertensão arterial, diabete mellitus, tabagismo, entre outros. Acessando hoje o Cardiômetro vemos que nos últimos 22 dias morreram 23.800 pessoas por todas as doenças cardiovasculares no Brasil – infarto, arritmias, insuficiência cardíaca, miocardite, acidente vascular isquêmicos e hemorrágicos etc. Dividindo pelo número de dias, em torno de 1000 mortes diárias – a média histórica dos últimos anos.
Aproveitando, uma das afirmações que mais circulam nestes meses de pandemia é que morrem muito mais pessoas infartadas ou de câncer do que por complicações associadas ao novo coronavírus. 
Há alguns meses morrem tantas ou mais pessoas pelo Covid-19 no Brasil do que todas – todas - as doenças cardiovasculares. E muito mais do que de câncer, doenças respiratórias crônicas, acidentes ou homicídios.
No texto introdutório do Cardiômetro a Sociedade de Cardiologia afirma que criou este medidor porque, apesar das doenças cardiovasculares serem as que mais matam no país, muita gente não se preocupa. Com o coronavírus também não.

Por Renato Matos 19/08/2020 - 21:44Atualizado em 19/08/2020 - 21:45

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (em inglês: Centers for Disease Control and Prevention – CDC) é um dos mais respeitados centros de pesquisa sobre doenças infecciosas do mundo. Há poucos dias atualizou as informações sobre o tempo de isolamento para doentes com o Covid-19.

Novos e mais robustos estudos mostram que quando pesquisado pela técnica do RT-PCR (aquela do “cotonete”) o novo coronavírus pode ser encontrado nas vias aéreas superiores por até 12 semanas. No entanto, após 10 dias dos sintomas iniciais, em pacientes com doença leve a moderada, não foram encontrados vírus competentes para replicação.

Ou seja, o teste pode resultar positivo – até porque o exame do RT-PCR pode detectar pequenos fragmentos de vírus, mesmo quando ele já está morto – mas estes vírus/fragmentos não tem a capacidade de infectar outras pessoas.

A exceção se daria naqueles pacientes que tiveram formas graves da doença ou são imunodeprimidos. Nestes, vírus passíveis de serem transmitidos foram
encontrados até 20 dias após o início dos sintomas.

Não existem estudos que validem estes achados em crianças – todos estes trabalhos foram feitos em adultos. Segundo o CDC estratégias baseadas em testes (RT-PCR) para determinar o fim do isolamento domiciliar não são mais recomendadas, exceto em certas circunstâncias – pacientes imunodeprimidos ou situações especiais a serem
consideradas pelo médico assistente.

A determinação anterior dizia que o doente deveria ficar isolado por no mínimo 10 dias após o início dos sintomas desde que estivesse pelo menos 72 horas sem febre ou sintomas respiratórios.

As 72 foram reduzidas para 24 horas.

E a “melhora nos sintomas respiratórios” foi expandida para “melhora dos sintomas”, reconhecendo as novas apresentações que sabemos ser associadas a infecção pelo novo coronavírus. 

Para os assintomáticos, o isolamento pode ser descontinuado 10 dias após a data da realização do PCR.

O CDC diz também que, apesar de relatos esparsos, até o momento a reinfecção pelo Covid-19 não foi definitivamente confirmada.

Sabe-se, porém, que pessoas contaminadas com o betacoronavírus (parente dócil do Covid-19, agente de infecções leves) se tornam susceptíveis novamente após cerca de 90 dias.

Resumindo:
1. Os 14 dias de isolamento que adotamos por aqui estão de bom tamanho.
2. Não esperar resultados de testes de PCR para tirar pacientes do isolamento – a não ser em situações muito particulares.
3. Testes sorológicos (IgM/IgG) não tem nada a oferecer neste contexto.
4. Pacientes com quadros graves ou imunodeprimidos devem manter o isolamento por pelo menos 20 dias.

Por Renato Matos 16/08/2020 - 11:47Atualizado em 16/08/2020 - 11:51

O pulmão é um órgão excepcional. Formado por cerca de 300 milhões de alvéolos – minúsculos sacos aéreos – esticado como um tapete teria a superfície equivalente a uma quadra de tênis. 

Ar e sangue nos pulmões são separados por uma membrana com espessura difícil de imaginar - 200 vezes menor que uma folha de papel. Esta estrutura imensa e delicada faz com que a absorção de gases ou partículas seja absurdamente rápida. Tanto para o bem quanto para o mal. Troca rapidamente com o ambiente oxigênio e gás carbônico. Mas também permite que uma droga inalada atinja o cérebro com velocidade equivalente à aplicada na veia. 

A Organização Mundial da Saúde estima que morram de forma prematura 4 milhões de pessoas ao ano em consequência de poluição ambiental em áreas externas. Entre as principais doenças provocadas ou exacerbadas estão doenças cardíacas, derrames cerebrais, diversos tumores - com destaque para o câncer de pulmão - e diferentes doenças respiratórias, agudas ou crônicas.

Os principais implicados nestas mortes são materiais particulados e gases como ozônio, dióxido de enxofre e de nitrogênio, além do monóxido de carbono. Juntando a vulnerabilidade da membrana alvéolo capilar com a poluição ambiental – grande parte dela emitida pelo cano de descarga dos carros – chegamos na nossa avenida Centenário.

Diariamente são centenas de pessoas caminhando, correndo e andando de bicicleta nas calçadas e canteiro central ao longo dos seus oito quilômetros. Ao lado, milhares de carros, numa intimidade semelhante àquela do ar e sangue nos pulmões. Para piorar, marcando encontro na mesma hora do rush. Poluição direto na veia.

Os estudos têm consistentemente mostrado que praticar exercícios físicos em lugares poluídos ainda é melhor do que não fazer exercício algum. Dr. Paulo Saldiva, ciclista e pesquisador da USP, uma das maiores autoridades em poluição atmosférica do país já fez seus cálculos: “Fazendo uma conta muito contra a bicicleta, calculo que eu perca uns cinco ou seis meses de vida por causa da poluição que recebo ao pedalar. Mas eu ganho uns três anos e meio ou quatro anos graças ao exercício. Dá um saldo positivo de alguns anos”. Mas, já que conseguirmos vencer a preguiça, vale a pena procurar um lugar mais seguro – e temos lugares imensamente mais adequados do que a nossa principal via axial.

Por Renato Matos 12/08/2020 - 16:05Atualizado em 12/08/2020 - 16:06

O nosso código de ético é enfático – “é proibido ao médico prescrever tratamento ou outros procedimentos sem exame direto do paciente”. Sem espaço para atendimento virtual.

A pandemia levou o Conselho Federal de Medicina a flexibilizar esta norma e implementar em caráter emergencial e temporário a telemedicina no país. A liberação ocorreu em 23 de março - tínhamos então 34 óbitos pelo novo coronavírus.

Os evidentes riscos do atendimento presencial para os pacientes e profissionais da saúde tornou a decisão inevitável.  E nós que havíamos aprendido que o exame físico era inseparável da consulta médica, tivemos que nos adaptar.
Melhor que na nossa especialidade quase sempre o diagnóstico é inferido ao final da anamnese - a fase inicial da consulta onde ouvimos, de forma padronizada, a história do paciente.

Logo surgiram as plataformas de atendimento que inclusive permitem a gravação de toda a consulta, gerando a necessária segurança jurídica. O agendamento é feito da forma tradicional, com a secretária no consultório.

Combinado o horário, a conexão é feita através do endereço de e-mail. Aí a primeira surpresa nesta medicina virtual – muitas pessoas não têm e-mail. Buscamos um emprestado. Mas as vezes só o WhatsApp mesmo – esse é universal, até os
mais velhos se viram bem com ele.

Sempre no início da consulta uma preocupação – a conexão vai dar certo? O paciente vai saber acessar a plataforma? A tranquilidade chega quando vemos e ouvimos o paciente – o sistema está funcionando. Daí para a frente é como se estivéssemos no consultório.

É fácil estabelecer a empatia - relação médico paciente independe da forma de conexão. A expressão facial e o padrão respiratório do paciente já nos permitem avaliar de pronto a gravidade da situação.

A falta do exame físico pode ser parcialmente substituída por uma anamnese mais acurada e detalhada. Os exames laboratoriais e radiológicos, quando necessários, são solicitados e os resultados rapidamente acessados.

Em novo contato virtual explicamos as condutas a serem tomadas e encaminhamos o tratamento. A receita chega diretamente no celular do paciente que, apresentando o QR code na farmácia, retira seus medicamentos. Diferente da consulta tradicional, o que realmente muda é a frequência dos retornos.

Especificamente no caso dos pacientes com coronavírus, o acompanhamento é diário até a resolução do processo. Método laborioso, mas fundamental numa doença em que tudo pode mudar em poucas horas.

Com suas limitações a telemedicina tem muito a oferecer. Bem regulamentada e feita de forma ética deve permanecer após a pandemia.

Por Renato Matos 10/08/2020 - 09:34Atualizado em 10/08/2020 - 09:35

A indicação do uso generalizado de máscaras foi uma das maiores inovações desta pandemia.

Apenas no início de junho a Organização Mundial da Saúde rendeu-se às evidências e passou a indicar o seu uso em ambiente comunitário.

“Máscaras podem fazer mais do que proteger os outros durante COVID-19: reduzindo o inóculo do SARS-CoV-2 para proteger o usuário” foi um artigo recente publicado pela Dra. Mônica Gandhi, da Divisão de Doenças Infecciosas da Universidade da Califórnia.

Defende a teoria que exposição a menores concentrações de partículas virais (o inóculo) pode levar a formas menos severas da doença. Há plausibilidade – menos vírus, maior a probabilidade de o sistema inato de defesa evitar a infecção.

Esta proposição não é nova.

Desde 1938 existe o conceito de LD50 - dose letal que mata 50% dos animais expostos a determinadas concentrações virais.

Experimentos feitos em humanos com o vírus da Influenza A já mostravam que quanto maior o inóculo, maior a gravidade dos sintomas.

Alguns exemplos são utilizados na publicação.

Hamsters expostos à contaminados pelo coronavírus, separados por tecido usado em máscaras cirúrgicas, tiveram menos infecções. E, quando doentes, apresentaram manifestações mais leves.

Em humanos estudos observacionais nos dão bons indicativos.

Navios de cruzeiros são bons modelos – diversas pessoas confinadas.

Em fevereiro houve o surto no navio Diamond Princess, com 3700 passageiros. Após a detecção de um passageiro infectado que desembarcou em Hong Kong, todos a bordo foram obrigados a ficar numa hoje impensável quarentena.

Ao final, 712 passageiros infectados e 10 mortos.

Naquela fase o uso de máscaras não era usual.

Dos infectados, 80% tiveram sintomas.

Contrasta a expedição que partiu em março de Ushuaia, Argentina, para um cruzeiro pela Península Antártica. Na saída, todos os 128 corajosos passageiros e 95 tripulantes (a OMS já havia declarado que estávamos em uma pandemia) estavam bem.

No oitavo dia um passageiro apareceu com febre. Os protocolos de isolamento foram imediatamente iniciados e todos começaram a usar máscaras cirúrgicas. Para aqueles que tinham contato com os sintomáticos, máscaras N95 - aquelas que são usadas em ambiente hospitalar.

Dos 128 comprovadamente infectados, apenas 19% com sintomas.

Seja esperto. Use máscara

Por Renato Matos 07/08/2020 - 09:20

Volnei Morastoni, que virou motivo de piada ao propor a aplicação retal de ozônio como tratamento para pacientes infectados por coronavírus, já havia sido prefeito de Itajaí em 2005. Foi também deputado estadual por 4 mandatos e de 2011 a 2014 presidiu a Comissão Estadual de Saúde.

Tem formação em pediatra e saúde pública. Há algum tempo é adepto da homeopatia.

O Ozônio

Nosso conhecido por participar da absorção da radiação ultravioleta emitida pelo sol, é motivo de discussão entre os defensores do meio ambiente. Na prática é geralmente utilizado como desinfetante de ambientes e piscinas.

Há algum tempo o seu uso tem sido testado em humanos. Os milagres de sempre: auxiliar no tratamento do câncer, dores em geral, problemas circulatórios e a procurada melhora da imunidade. Prova de eficácia, nenhuma.

Tanto que o Conselho Federal de Medicina proíbe expressamente aos médicos a sua prescrição. Só libera o seu uso em ensaios clínicos que tenham sido aprovados pelos
órgãos competentes.

Evidências

Mas, com tantas novidades, haveria algum estudo que daria suporte a proposição corajosa do prefeito? Fomos lá pesquisar.

O ClinicalTrials.gov é um portal utilizado pelos pesquisadores do mundo todo. Lá expõem o que será avaliado, de que forma e como os resultados serão apresentados.
Buscando por coronavírus e ozônio encontramos 3 estudos. Um deles sobre a modulação da flora intestinal, outro como prevenção e apenas um como tratamento.

Números nada animadores para justificar a exposição do prefeito em redes sociais.

Itajaí

Tem os piores índices no controle de coronavírus no estado. O número de mortos por lá (107) é quase o triplo de Criciúma (39).

Morastoni já havia causado polemica ao propor o uso de cânfora (por via oral) buscando aumentar a tal da imunidade de seus munícipes.

Até aí não havia mexido com o intestino de ninguém. Aí veio a pérola: aplicação retal de ozônio. “Uma aplicação tranquilíssima, rapidíssima de dois minutos com cateter fino, com um resultado excelente”.

Sua afirmação teve o respaldo do cardiologista Arnoldo de Souza, presidente da Sociedade Brasileira de Ozonioterapia, que ao exaltar a medida, acrescentou que a aplicação de ozônio pelo ânus é uma opção "dez vezes mais barata" do que a versão intravenosa.

O que seria apenas mais uma entre tantas loucuras da pandemia ganha outra dimensão quando somos informados que os proponentes desta bobagem foram recebidos pelo atual
Ministro da Saúde.

Fica cada vez mais difícil nos livrarmos com decência desta pandemia.

Por Renato Matos 03/08/2020 - 09:46

Dentre as explicações da origem da palavra medicina, uma é que viria do latim mederi - buscar o melhor caminho.

Não é uma ciência exata – longe disso. Bons médicos juntam as melhores evidências disponíveis com a experiência adquirida em anos de prática.

Trabalhamos com probabilidades, não certezas.

Uma das melhores fontes para busca destas evidências é a Colaboração Cochrane.

São quase 30 mil pesquisadores em mais de 100 países.

Filtram os melhores estudos e os analisam através de técnicas específicas, gerando revisões sistemáticas – nossas melhores evidências.

Nesta linha, avaliaram há pouco a sensibilidade e o momento ideal para realização dos testes sorológicos para o Covid19 - aqueles que medem a presença de anticorpos (IgG e IgM).

Foram encontradas 11.000 publicações sobre o assunto.

Selecionaram 54, metodologicamente corretas e relevantes. Somando os dados, 16.000 testes.

Resultados

A sensibilidade (proporção de testes positivos naqueles que realmente tiveram a doença) é relacionada ao momento da realização do exame.

Testes para detecção de IgG e IgM realizados entre o 8º e o 14ª dias após o início dos sintomas identificaram apenas 70% dos que tiveram o COVID 19.

Quando analisaram os feitos entre o 15º a 35º dias observaram resultados acurados em 90% dos casos.

Não existem estudos suficientes para avaliar a sensibilidade destes testes após 35 dias.

Na prática

Algumas empresas exigem que seus funcionários retornem ao trabalho se após o 7º dia do início dos sintomas os testes sorológicos forem negativos.

Ou que permaneçam afastados se o IgM ainda está positivo.

Nas duas situações, erros que podem custar muito.

Funcionários em casa sem necessidade.

Ou pior, pessoas ainda contaminadas no ambiente de trabalho.

Teste sorológico isolado não tem função diagnóstica. Também não determina quando encerrar o isolamento ou a quarentena.

Melhor seguir as recomendações – atualizadas - da Organização Mundial da Saúde:

para pacientes sintomáticos, liberar do isolamento (voltar ao trabalho) 10 dias após o início dos sintomas, mais - pelo menos - 3 dias adicionais sem febre ou sintomas respiratórios.

Por Renato Matos 29/07/2020 - 10:19Atualizado em 29/07/2020 - 10:20

Já percebendo que não será simples sair desta pandemia, as pessoas buscam insistentemente saber quando teremos uma vacina eficaz e disponível. 

Moderna, Sinovac e Oxford são as marcas do momento. Mas existem quase 200 vacinas sendo testadas contra o coronavírus. A sua descoberta certamente ficará como um marco na história – como uma nova corrida espacial, laboratórios brigando para ser o primeiro a “pisar na lua”.

No meio de tanta expectativa, chama a atenção e preocupa o crescente movimento antivacina. 

Que não é novo.

A primeira vacina eficaz foi contra a varíola.

Em 1796, o médico britânico Edward Jenner imunizou um menino de 8 anos, utilizando o pus de uma ordenhadeira que apresentava uma forma branda da doença, a varíola bovina.

Aí começou a briga.

Naquela época alguns já não aceitavam a técnica. Não só por motivos médicos ou sanitários. A vacina seria “uma tentativa dos homens se oporem às punições de Deus por seus pecados”.

Alguns anos atrás Andrew Wakefield publicou um estudo na revista Lancet, levantando a possibilidade de um "vínculo causal" da vacina MMR, que protege contra sarampo, rubéola e caxumba, com autismo.Descobriu-se depois que Wakefield estava envolvido com um pedido de patente para uma vacina contra sarampo que concorreria com a MMR. Outros autores do artigo admitiram depois que diversos dados do trabalho haviam sido falsificados. Acabou tendo seu título de médico cassado.

Mas o estrago estava feito. E as redes sociais não perdoaram.

Teorias da conspiração e desinformação circulam livremente. Até Bill Gates entrou agora no rolo – estaria ajudando a desenvolver vacinas que inoculariam microchips na população.

Bobagem e coisa de ignorantes?

Artigo recente (“Mesmo o Covid 19 não pode matar o movimento antivacina”) publicado no British Medical Journal mostra que entre 1000 pessoas entrevistadas em Nova Iorque somente 59% aceitariam tomar a vacina. E apenas 53% a dariam para seus filhos.

Antony Fauci, o epidemiologista norte americano que orienta presidentes desde a década de 80 – e tenta segurar Donald Trump - já fez as contas: se a vacina for 70 a 75% efetiva e 1/3 dos americanos se recusarem a usá-la, a imunidade de rebanho será improvável.

E todo o imenso trabalho poderá ser desperdiçado.
 

Por Renato Matos 27/07/2020 - 10:19

Na época da faculdade, meados da década de 80, tínhamos aulas de psiquiatria na Clínica Olivé Leite, conhecida em Pelotas como Roxo. Este termo vinha do antigo nome, Sanatório Dr. Henrique Roxo, apesar de alguns fazerem referência as cores dos altos muros. Na ocasião a política para tratamento de parte dos doentes mentais eram internações prolongadas. Era o nosso antigo Rio Maina.

Nosso professor era o Dr. Sérgio Olivé Leite, filho do fundador do manicômio.

Tínhamos pouco mais de 20 anos. Aquela experiência era esperada, mas temida. Como lidar com pessoas que pareciam tão diferentes, numa época em que aquela especialidade dispunha de tão poucos recursos?

Até onde sabíamos não eram mais utilizados eletrochoques, mas estava escrito que em 1949 Avelino Costa trouxera de Chicago para Pelotas esta técnica – “achavam” naquela época que era um tratamento eficaz. Ainda não havia surgido a medicina baseada em evidências, o que valia era a experiência de médicos bem considerados pela comunidade – científica e local.

As aulas eram frequentemente interrompidas por enfermeiras que vinham dizer que determinado doente estava muito agitado, outros, que por seu estado depressivo, não queriam sair do quarto ou alimentar-se.

E, inexperientes, ficávamos curiosos quando nosso professor tranquilamente dizia: pode dar aquela dose do Materiner. Dependendo da intensidade dos sintomas mudava a cor prescrita, mas sabíamos que os casos graves recebiam o Materiner Vermelho. E como geralmente a enfermeira não voltava, entendíamos que o doente havia melhorado.

Na sequência do curso aprendemos que Materiner significava Matéria Inerte – cápsulas de talco colorido. Ali tivemos a primeira experiência prática do poder do placebo.

Quem nunca recebeu da mãe um copo de água com açúcar, para acalmar “os nervos”?

Placebo por definição é qualquer substância ou tratamento inerte, empregado como se fosse ativo. Mas que realmente provoca um efeito positivo, com real melhora dos sintomas.

Mas nada a ver com o coronavírus.
 

Por Renato Matos 22/07/2020 - 15:23Atualizado em 22/07/2020 - 15:27

Com estas semanas de infecções frequentes por coronavírus temos atendido dezenas de pessoas com sintomas suspeitos. Quase que invariavelmente ligam com o diagnóstico pronto. Relacionam a tosse com suposta sinusite. A falta de ar é aquela asma que há vários anos não se manifestava. Perdeu o olfato, mas é a rinite. A diarreia, uma comida que não estava bem conservada. E, também, claro, é só uma “gripezinha”.

Mas, pode ser Covid?

Em épocas de pandemia, mesmo naqueles casos leves, pelas implicações de isolamento e quarentena de contatos, temos a obrigação de sempre ter o coronavírus em mente. Perder esta oportunidade de diagnóstico precoce pode levar a consequências desastrosas.

Sintomas

Lembrar que 30 a 40% dos casos são assintomáticos. Mas que podem transmitir a doença. Quase sempre achamos que infecções respiratórias – pelo menos as mais severas - vem acompanhadas de febre. Na Covid, pouco menos da metade dos pacientes tem temperatura elevada.

Tosse, em 50%.

Aquele mal estar que estamos acostumados a sentir quando estamos gripados, como dores musculares, cefaleia e dor na garganta, em 20 a 30%. Um número menor ainda tem diarreia. Desconforto respiratório, 1/3 dos infectados. Estes dados são obtidos de um relato de 370.000 casos confirmados de Covid-19 apresentados pelo Centro de Doenças Infecciosas dos EUA. Sintomas muito inespecíficos. No caso do Covid, o diferencial é a perda de olfato. Se presente, a probabilidade da doença aumenta muito. No mais, parece uma gripe “normal”.

E depois?

Buscamos saber se houve contato com pessoas sabidamente doentes. Ou exposições a eventos sociais – que não deveriam ocorrer nesta época – sem proteção adequada. Os exames dependem da gravidade e do tempo de aparecimento dos sintomas.

É erro grosseiro sair atrás de exames sorológicos por sua conta – o tal de IgG e IgM – logo no início. O IgM demora em torno de 8 dias para positivar. O IgG, até 2 semanas. O ideal seria o RT PCR – o do “cotonete” – mas este não temos disponível para resultado rápido em nosso meio. Com tantas incertezas, procure seu médico ou serviço de saúde – desde que eles entendam do manejo de todas estas variáveis. Da nossa parte, o que nos dá segurança é o contato frequente com o paciente. Como bem sabemos, a grande maioria evolui bem. Mas alguns precisam de medidas pontuais – que não podem demorar. 

Por Renato Matos 17/07/2020 - 12:32Atualizado em 17/07/2020 - 12:33

Lemos que a empresa de biotecnologia americana Moderna divulgou detalhes da vacina que vem desenvolvendo contra o novo coronavírus. O título numa conceituada revista nacional de economia e negóciospega pesado: 100% de sucesso! Cita como fonte de tanto otimismo artigo publicado esta semana no New England Jornalof Medicine, uma das revistas médicas de maior prestígio no mundo.

Antes de entramos nos detalhes, é importante que entendamos como medicamentos –e vacinas – são testadas. São os ensaios clínicos. Existem fases a serem ultrapassadas. Na fase 1 o medicamento/vacina é testado em um pequeno grupo de pessoas. O objetivo é estabelecer segurança e/ou tolerância, também tentando avaliar a dose apropriada. 

A fase 2 também é considerada inicial, mas usa um número maior de indivíduos que na fase anterior. Já existe uma amostragem mais elaborada. Agora os cientistas já estão começando a avaliar a eficácia, sempre buscando mais dados de segurança.

Já a fase 3 é desenhada para ser definitiva. São usadas grandes amostras, com técnicas refinadas de amostragem e escolha de grupo controle – que não usam o medicamento e servem para comparação. Geralmente são testadas milhares de
pessoas, muitasvezes em diversos países.

Os dados obtidos são então analisados por sofisticadas técnicas estatísticas. Tendo passado com sucesso por estas 3 fases, o medicamento é considerado apto para ser utilizado.

Voltando à vacina da Moderna: oque diz o artigo da New Englandque gerou tanta euforia?

Tem o título de “Imunogenicidade de uma candidata a vacina contra o Sars-CoV-2”. Há interesse especial da classe científica por utilizar uma técnica diferente das usuais, usando o RNA mensageiro.

Relata os achados preliminares de um estudo de fase 1, quando foram avaliados 45 adultos sadios, de 18 a 55 anos de idade. O objetivo era avaliar a segurança e a  capacidade de gerar resposta imune. Foram administradas 2 doses com um intervalo de 28 dias.

O resultado foi adequado em todos os participantes e nenhum efeito colateral significativo foi observado. Termina dizendo que “estes achados suportam a exploração adicional desta vacina”. 

A velocidade com que foi desenvolvidaé fantástica. Do início dos estudos até a fase 1 foram apenas6 meses. O tempo habitualéde 3 a 9 ANOS. Apesar do bom resultado, a vacina da Moderna está na fase 1. 

As de Oxford e a chinesa Sinovac já estão sendo testadas no Brasil – e estão em fase 3.

A corrida para ser a “primeira vacina” será boa. 

Esperamos que seja rápida.

Por Renato Matos 15/07/2020 - 13:12

Até os trabalhos de Louis Pasteur, em fins de 1880, a teoria miasmática dominava o mundo médico – algo de putrefeito no ar, insalubre, provocaria as doenças. Nesta percepção, desde os tempos bíblicos, já era comum o isolamento de pessoas com doenças supostamente contagiosas.

No entanto, o pioneirismo do uso sistemático deste isolamento preventivo é creditado à cidade de Veneza. O receio da peste negra – que dizem ter matado 1/3 da população europeia da época - fazia com que os navios ficassem nos portos durante 30 dias, período que inicialmente achavam ser suficiente para, caso houvesse algum caso incubado, a doença se manifestasse. Era o Trentino. Como parece que os 30 dias não garantiram a segurança da cidade, esticaram para “quaranta giorni”. Quarenta dias – daí a nossa quarentena.

Antes das recomendações, precisamos entender o que é período de incubação - o tempo decorrido entre a infecção e o início dos sintomas. No caso do coronavírus a média para aparecimento dos sintomas é de 5 dias. E 97% dos sintomáticos notarão que não estão bem em 11 ou 12 dias. 

O conhecido 14 dias é um arredondamento com margem de segurança. Já sabemos que isolamento é para pessoas doentes.

A quarentena é feita para restringir os movimentos e contatos de pessoas SAUDÁVEIS, mas que possam ter sido infectadas alguém doente.

A definição de contato no contexto do coronavírus é importante:

• Ter estado próximo – 1 a 2 metros (americanos falam em 6 pés – 1,83 m) durante pelo menos 15 minutos 
• Ter contato físico direto - beijar ou abraçar, por exemplo
• Ter compartilhado utensílios para comer ou beber
• O doente ter espirrado, tossido ou de alguma forma “jogado” gotículas respiratórias em você

Se houve contato com alguém doente ou com suspeita de estar infectado no seu trabalho, por exemplo, o afastamento preconizado é de 14 dias após o último contato. Fácil. Durante estes dias você poderá estar incubando a doença e é um potencial transmissor – e deve ficar em quarentena. 

Os cálculos podem ser bem diferentes quando você mora com um doente. O número de dias de quarentena muda, na dependência das possibilidades de isolamento do infectado. Se ele conseguir se afastar completamente de vocês, valem os 14 dias.
Caso haja contatos adicionais neste período de quarentena, o prazo é maior. E se realmente o isolamento for impraticável, maior ainda. As vezes até mais de 3 semanas. 

Na dúvida, converse com seu médico ou agente de saúde que está lhe acompanhando. Esta é a estratégia adotada por todos os países que se saíram bem na luta contra o coronavírus. Diagnóstico precoce – com PCR – e isolamento dos casos/quarentena adequada para os contatos.

Por Renato Matos 13/07/2020 - 12:43

O tradicional Dicionário Oxford há algum tempo vem escolhendo a ”palavra do ano”. Em 2019 a eleita foi “emergência climática”. O termo teve um aumento de cem vezes na quantidade de usos, saindo de uma "relativa obscuridade para se tornar um dos termos mais proeminentes — e mais debatidos — de 2019”. Este ano não será necessária muita pesquisa – está fácil o para coronavírus. Mas existem outras palavras fundamentais: testes moleculares e sorológicos, isolamento e quarentena. Apesar de não terem impacto a ponto de virarem celebridade de dicionário, são fundamentais para que possamos nos proteger.

Primeiro, e de novo, os testes. O teste para diagnóstico, que diz se você está ou não doente é o PCR. Testes sorológicos, que medem os anticorpos, positivam apenas dias depois. Quando o tempo para que sejam adotadas medidas eficazes de isolamento já passou. 

Isolamento deve ser feito por quem está doente. Quarentena, para quem tem ou teve contato com o doente. 

Não é firula de linguagem. As medidas a serem adotadas são diferentes. E as pessoas não estão se dando conta disso, usam 14 dias como um número que resolve qualquer situação. Estas determinações são as preconizadas pelo Centro de Controle de Doenças Infecciosas dos EUA e pela OMS, publicadas por esta última em 27 de maio passado, substituindo a de 12 de janeiro – as informações mudaram.

Primeiro, isolamento para pacientes sintomáticos: 10 dias após o início dos sintomas, mais PELO MENOS 3 dias adicionais sem sintomas – sem febre (não usando antitérmicos evidentemente) e sem sintomas respiratórios.

Vamos usar o dia 1º de agosto como exemplo, fica mais fácil. Você iniciou com sintomas neste dia - e melhorou em seguida. Terminará seu isolamento – e o risco de contaminar outras pessoas – dia 13. Dez dias após o início dos sintomas, mais os 3 dias de margem de segurança. 

Agora, se os seus sintomas permanecem por 20 dias – mantem períodos febris ou continua tossindo – a conta muda. 20 dias + 3 dias. Você só deverá sair do isolamento no dia 24. 

Evidentemente existem dificuldades para aplicar este critério. Conversando diariamente com pacientes infectados pelo coronavírus, muitas vezes não conseguimos determinar a data precisa do início dos sintomas. “Comecei com febre ontem, mas não estava me sentindo bem, com cefaleia e dores no corpo há alguns dias”. Também o término: “a febre cedeu, mas continuo não me sentindo bem, ainda com tosse”. 

Na dúvida, erre para mais. Ou converse com seu médico/profissional de saúde que está lhe acompanhando. Mas como ter certeza de que não vou contaminar mais ninguém? Dois testes de PCR negativos com intervalo mínimo de 24 horas. No momento, impraticável no nosso meio. 

Amanhã continuamos.

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