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* as opiniões expressas neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do 4oito
Por Dr. Renato Matos 19/01/2022 - 08:42 Atualizado em 19/01/2022 - 08:44

Frente à imensa eficiência e segurança das vacinas contra a Covid-19, na falta de melhores argumentos, uma das alegações repetidas pelos desinformados (às vezes, mal-intencionados) antivacinas é que estamos usando imunizantes “experimentais”.

Um pouquinho de história.

Katalin Karikó, búlgara, doutora pela Universidade de Szeged, uma das tradicionais daquele país, emigrou para os Estados Unidos em 1985 para um pós-doutorado na Universidade da Pensilvânia.
Seu objeto de pesquisa era o RNA mensageiro (mRNA), já conhecido há algumas décadas.

Na época, todas as atenções na área estavam focadas no Projeto Genoma Humano - empreendimento multinacional que buscava decifrar o “livro da vida” - iniciado em 1990 e completado em 2003.

O RNA, sigla para ácido ribonucleico, era considerado secundário – uma molécula que “apenas” copia as informações do DNA no núcleo e transmite esses dados para outras estruturas produzirem proteínas.

Persistente, acreditando no potencial terapêutico de suas pesquisas, Karikó começou, no início da década de 90, a aplicar em animais sequências de RNA mensageiro através de injeções intramusculares.

O objetivo era que essas moléculas, uma vez dentro das células, começassem a produzir proteínas conforme a “receita” preparada pela pesquisadora.

Mas falhava repetidamente: as moléculas de mRNA sintetizadas pela cientista eram reconhecidas como estranhas pelo sistema imunológico e rapidamente eliminadas.

Em 2004, com mudanças na formulação do mRNA, os resultados começaram a aparecer. 

Vislumbrando seu potencial, a Universidade da Pensilvânia logo patenteou os achados de Karikó.

Em 2010, um grupo de arrojados cientistas, saídos das melhores universidades norte americanas, comprou esses direitos e fundou a ModeRNA – acrômio para Modifiyng RNA - pioneira nas vacinas mRNA, que mudaram a história da nossa pandemia.

Em 2013, Katalin Karikó começou a trabalhar na empresa BioNTech, onde atualmente é vice-presidente.

A BioNTech é a parceira da Pfizer na produção das também vencedoras vacinas contra o SARS-CoV-2, que usam a mesma plataforma mRNA.

Katalin Karikó é uma das fortes candidatas a prêmio Nobel de química deste ano.

O que a pandemia fez foi liberar os bilhões de dólares necessários para que a vacina saísse do laboratório.

Depois de 30 anos de incontáveis experimentações.
 

Por Dr. Renato Matos 17/01/2022 - 08:29 Atualizado em 17/01/2022 - 08:32

O coração possui 3 camadas: a mais interna é o delgado endocárdio, a média é o musculoso miocárdio e o revestimento externo é um saco fibroso, chamado pericárdio.
Miocardite e pericardite são processos inflamatórios envolvendo essas estruturas.

A frequência de miocardite na população em geral não é bem definida, uma vez que a apresentação clínica é variável e não existe um teste relativamente acurado que possa confirmar o diagnóstico.
Para termos um padrão de comparação, no relatório do Global Burden of Disease, de 2019, a taxa de miocardite entre 35 e 39 anos foi de 6,1 por 100.000 habitantes nos homens e 4,4 por 100.000 nas mulheres.

Na edição de 14 de dezembro passado, o periódico Nature Medicine, um dos de maior prestígio da área, traz números que mostram a associação entre miocardite, pericardite e arritmias cardíacas relacionadas à vacina e à infecção pelo SARS-CoV-2.

Foram avaliadas pessoas acima de 16 anos de idade vacinadas contra a Covid-19 na Inglaterra, entre dezembro de 2020 e agosto de 2021.
Os dados se referem a quase 40 milhões de vacinados.

O aumento do risco após a primeira dose da vacina da Oxford/AstraZeneca foi de 1 evento por milhão de vacinados. 
Com a vacina da Pfizer, 6 casos adicionais por milhão.
Após a segunda dose, 10 casos extras.
Naqueles infectados pelo SARS-CoV-2, QUARENTA casos adicionais por milhão.

Miocardite após vacina da Pfizer em crianças

Como com qualquer vacina, são comuns efeitos leves após a vacinação contra a Covid-19 para crianças de 5 a 11 anos – dor no local da aplicação, leve mal-estar, cefaleia e, eventualmente, febre.
A preocupação são efeitos colaterais graves.

Recentemente, o Centro para Controle de Doenças e Prevenção dos EUA (CDC) liberou dados referentes à vacinação de 8,7 milhão de crianças entre 5 e 11 anos de idade.
A única vacina aprovada nos EUA para essa faixa etária é a da Pfizer, liberada para aplicação naquele país desde outubro de 2021.
Altíssimo perfil de segurança.

Em relação a miocardite, foram relatados 11 casos suspeitos.

Destes, 8 preencheram os critérios pré-definidos para a doença – menos de 1 caso por milhão.
Nenhum caso grave, nenhum óbito.

Eficácia superior a 90%.
Sejamos racionais. 

Não há nenhuma razão lógica para deixarmos de vacinar nossos filhos.

Por Dr. Renato Matos 10/01/2022 - 19:04 Atualizado em 10/01/2022 - 19:10

Existem diversos esquemas de tempo de isolamento (para aqueles infectados) e de quarentena (para aqueles que tiveram contato sem proteção com um caso suspeito).
Começamos a pandemia com 10 dias de isolamento e 14 dias de quarentena, sem apoio de exames, esquema ainda preconizado pelo Ministério da Saúde.

Agora, o Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, numa controversa decisão, reduziu o tempo de isolamento para 5 dias, sem necessidade de testes adicionais.

Esse posicionamento foi criticado pela Associação Médica Americana: “De acordo com a própria fundamentação do CDC para reduzir o tempo de isolamento para o público em geral, estima-se que 31% das pessoas permanecem infecciosas 5 dias após um teste Covid-19 positivo. Com centenas de milhares de novos casos ocorrendo diariamente, dezenas de milhares - potencialmente centenas de milhares de pessoas - poderiam regressar ao trabalho e à escola ainda transmitindo a doença se seguissem as novas orientações do CDC sobre o fim do isolamento após cinco dias sem um teste negativo”. 
"Deve ser exigido um teste de antígeno negativo para terminar o isolamento após um teste positivo para a Covid-19”.

O CDC também atualizou as suas orientações quanto à quarentena após exposições a casos conhecidos de Covid-19. 
Os indivíduos que não estejam totalmente vacinados, assintomáticos, devem ficar em quarentena durante 5 dias após a exposição, seguidos de uma rigorosa utilização de máscara durante mais 5 dias. 

Os indivíduos totalmente vacinados não necessitam submeter-se à quarentena após uma exposição, desde que permaneçam assintomáticos; no entanto, devem usar uma máscara em público durante 10 dias.

Em caso de sintomas, devem ser imediatamente testados, colocando-se em isolamento até a definição do quadro.

A Organização Mundial da Saúde continua preconizando 14 dias de quarentena.

O Ministério da Saúde está estudando essas modificações de protocolos, algumas, inclusive já adotadas por alguns estados, para definir novas regras.

Como os testes são de difícil acesso para a população em geral, talvez tenhamos que optar por uma posição mais prudente.

Por Dr. Renato Matos 07/01/2022 - 11:39 Atualizado em 07/01/2022 - 11:39

Aconteceu.

Você se cuidou durante meses, fez as vacinas recomendadas, evitou aglomerações (ou não?), mas depois de 2 anos com convívio social restrito e uma grande redução do número de casos de Covid, acabou baixando a guarda no final do ano.

Poucos dias depois, começou a sentir uma irritação na garganta, um pouco de tosse, febre baixa, dores musculares.

Segundo a Divisão de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina, o número de casos novos de Covid aumentou 560% em nosso estado nos últimos 7 dias, e há circulação comunitária da Influenza A H3N2.

Então, o que fazer?

Primeiro, parta do princípio de que seja Covid: em vacinados, os sintomas são geralmente mais leves e a nova variante Ômicron costuma acometer mais as vias aéreas superiores, como um resfriado, ou, como os pacientes costumam dizer, “sinusite”.

Até que a situação fique esclarecida, mantenha-se isolado. Se tiver que sair, use máscara, de preferência as N95, bem ajustadas. 

Procure comprovar se a infecção é pelo SARS-CoV-2, fazendo os testes que buscam o vírus nas vias aéreas – o “exame do cotonete”. O teste mais acessível é o de antígeno.

Apesar de menos sensível do que o RT- PCR – pois pode gerar mais falsos negativos - é um bom exame.

Se você foi exposto a pessoas supostamente infectadas pela Covid-19, a Food and Drug Administration (FDA) recomenda que seja testado de 3 a 5 dias após o contato suspeito.

Se o teste inicial for negativo, mas a suspeita permanecer, repita o teste em torno de 48 horas após o teste inicial. Até lá, mantenha o isolamento.

Após 5 a 7 dias do início dos sintomas, a carga viral costuma cair e o teste de antígeno tem maior possibilidade de resultar num falso negativo. Nesse caso, o RT- PCR passa a ser o indicado. Ou, caso tenha acesso, usá-lo como exame inicial.

Se houver oportunidade, principalmente se você apresentar maiores riscos, seria interessante também testar para Influenza. Os sintomas podem ser semelhantes aos da Covid, mas geralmente iniciam de forma mais abrupta, com febre alta.

Como tratar

Se você não apresenta comorbidades, é jovem, com sintomas leves, não precisa procurar imediatamente um pronto socorro ou uma unidade de saúde.

Fique isolado, controle a temperatura e, se possível, a saturação de oxigênio – com o acessível oxímetro. Use apenas medicação sintomática.

As “Diretrizes Brasileiras para Tratamento Medicamentoso Ambulatorial do Paciente com Covid-19” - já com aprovação do Conselho Nacional de Saúde e em sintonia com as orientações das maiores sociedades médicas do mundo – contraindicam o uso do chamado kit Covid. 

Havendo comorbidades, o uso de Tamiflu está indicado naqueles pacientes com Influenza – mas seu benefício maior ocorre quando usado nas primeiras 48 horas, após o início dos sintomas.

Se a febre persistir, o estado geral piorar e, principalmente, se houver desconforto respiratório ou queda da saturação, procure imediatamente um serviço de saúde. Sempre que possível converse com um bom médico – ele lhe orientará corretamente.

Por Dr. Renato Matos 29/12/2021 - 08:23 Atualizado em 29/12/2021 - 08:25

A Associação Médica Brasileira, AMB, por meio do Comitê Extraordinário de Monitoramento da Covid-19, o CEM COVID_ AMB, vem a público manifestar-se integralmente a favor da vacinação contra a Covid-19 para crianças de 5 a 11 anos. Empenhamos nossa mensagem tranquilizadora às famílias brasileiras, baseada à luz das melhores evidências científicas.

Destacamos que a autorização da imunização na infância segue o mesmo rigor e normas de eficácia e segurança das demais faixas etárias. Atende de forma plena aos critérios exigidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Anvisa, para vacinação de todos os públicos. Critérios estes foram igualmente adotados pela European Medicines Agency, EMA, Food and Drug Administration dos Estados Unidos, FDA, pela Divisão de Alimentos e Produtos para a Saúde do Canadá (HPFB), e outros órgãos similares de vários países de todo o mundo.

Lembramos que a liberação por parte da Anvisa, neste e em quaisquer casos/faixas etárias, somente ocorre após rigorosos estudos clínicos, tendo como voluntários milhares de indivíduos, com o objetivo de garantir a segurança e eficácia.

Especificamente quanto ao público infantil, dados de efetividade, em mundo real, vêm dos Estados Unidos, onde mais de 7 milhões de crianças já receberam a vacina da Pfizer, sendo que 2 milhões delas já receberam a segunda dose.

Infelizmente, já registramos cerca de 300 óbitos na faixa etária de 5 e 11 anos desde o início da pandemia: média de 150 ao ano. Novas mortes são absolutamente evitáveis e temos obrigação de trabalhar nesse sentido.

Enfatizamos que crianças podem também ser acometidas pela Síndrome Inflamatória Multissistêmica associada ao SARS-Cov-2; desenvolver sequelas e Covid longa. Portanto, a vacinação é essencial para reduzir/evitar sofrimento, hospitalizações e mortes.

Além disso, a imunização é indispensável para reduzir a transmissão, em particular por enfrentarmos uma doença com ciclos inesperados e o surgimento de novas variantes. Vemos agora novas ondas na Europa e nos Estados Unidos, atingindo, proporcionalmente, muito mais crianças e adolescentes do que há dois anos. Faz-se necessária a urgente aquisição das doses pediátricas pelo Ministério da Saúde.

Cabe ainda ressaltar que os critérios para introdução de uma vacina num programa público não se resumem ao número de mortes relacionadas à doença contra a qual se deseja uma intervenção. Por exemplo, gripe, diarreia por rotavírus, varicela, caxumba, rubéola, hepatite A, entre outras doenças, faziam muito menos vítimas do que a Covid-19 em pediatria e não hesitamos em recomendar a vacinação contra todas essas doenças.

Vacina-se para prevenir hospitalizações, sequelas, uso de antibióticos, visitas aos serviços de saúde, ocupação de leitos em UTI, entre outros.

Lembramos que a perda de uma vida de uma criança tem um significado muito maior que a de adulto, em cálculos de farmacoeconomia, conceitua-se como anos de vida perdidos. Além de tudo isso, o aspecto da proteção indireta, reduzindo casos secundários é sempre considerado.

Pelo exposto, assim como por questões éticas, epidemiológicas e sanitárias, conclamamos todos os pais e/ou responsáveis a, quando as vacinas estiverem disponíveis, vacinarem seus filhos. Vacina é vida. E vacinar é um ato de amor!

São Paulo, 27 de dezembro de 2021.

Associação Médica Brasileira - AMB
Associação Brasileira de Alergia e Imunologia - ASBAI
Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular - ABHH
Associação Brasileira de Medicina de Emergência - ABRAMEDE
Associação Brasileira de Medicina Física e Reabilitação - ABMFR
Associação de Medicina Intensiva Brasileira - AMIB
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia - FEBRASGO 
Sociedade Brasileira De Clínica Médica - SBCM
Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia - SBGG
Sociedade Brasileira de Infectologia - SBI
Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade – SBMFC
Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial – SBPC/ML
Sociedade Brasileira de Pediatria - SBP
Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia - SBPT
Sociedade Brasileira de Reumatologia - SBR

Por Dr. Renato Matos 27/12/2021 - 10:18 Atualizado em 27/12/2021 - 10:21

Milhares de crianças na faixa etária dos 5 aos 11 anos já foram vacinadas no mundo, com índices irrisórios de complicações.

Mesmo os casos de pericardite e miocardite, inflamações dos tecidos cardíacos, raros e não fatais em adolescentes, são praticamente inexistentes nesta faixa etária.

Cada morte ou sequelas em crianças torna-se inaceitável quando temos vacinas seguras e eficazes.

Diversas entidades médicas, que inclusive foram ouvidas pela ANVISA, já se posicionaram a favor da vacinação das crianças.

A Sociedade Brasileira de Pediatria é enfática:
"Ao contrário do que afirmou recentemente o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, o número de hospitalizações e de mortes motivadas pela covid-19 na população pediátrica, de forma geral, incluindo o grupo de crianças de 5-11 anos, não está em patamares aceitáveis"
"Infelizmente, as taxas de mortalidade e de letalidade em crianças no Brasil estão entre as mais altas do mundo."

 A instituição destacou que, desde o início da pandemia, 2.500 pessoas de zero a 19 anos morreram por conta da doença, mais de 300 delas confirmadas no grupo de 5 a 11 anos.

O Brasil figura no segundo lugar do ranking de crianças vítimas da covid no mundo, atrás somente do Peru. A cada 1 milhão de crianças de zero a nove anos existentes no País, 32 perderam a vida para a doença.

Nas últimas semanas, nos EUA, cerca de 800 crianças tem sido admitidas diariamente em hospitais, infectadas pelo SARS-CoV-2 – todas não vacinadas.

Além disso, como salienta Márcio Bittencourt, epidemiologista da USP: “O que mais preocupa nesta discussão é a falta de compreensão que a vacinação contra a COVID-19 nas crianças é também uma estratégia comunitária de redução da circulação viral”.
“Cada um sem vacina é mais um que ajuda o vírus a circular – não é só a criança, mas o convívio delas.”
Sejamos racionais – vacinemos nossos filhos o mais rapidamente possível.

Que tenhamos um saudável 2022.

 

Por Dr. Renato Matos 20/12/2021 - 09:25 Atualizado em 20/12/2021 - 09:25

A gripe é uma doença respiratória que infecta entre 5% e 15% da população mundial, anualmente. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que essas infecções resultem em até 650 mil mortes por ano – o que tivemos de óbitos até agora pela Covid em nosso país.

Existem dezenas de vírus Influenza circulando no mundo, mas a cada temporada alguns se sobressaem.
Com a chegada do SARS-CoV-2, eles ficaram em segundo plano, ocupado pequenos percentuais dos casos que evoluíram para formas graves que exigiram hospitalização ou causaram mortes.

Com a marcada (temporária?) redução dos casos de Covid, o vírus da Influenza voltou a ocupar o palco.

A cepa da vez é a H3N2, subtipo de Influenza A, que foi detectada pela primeira vez em humanos em 1968, causando uma pandemia que provocou mais de um milhão de mortes em todo o mundo.

Foi denominada na época A/Hong Kong/1/1968, conforme a nomenclatura adotada pela OMS: tipo do vírus/ local onde foi inicialmente isolada/ número da cepa/ ano de isolamento.

Desde então, sofreu diversas mutações, levando a OMS a mudar 28 vezes a composição das vacinas para acompanhar sua evolução.

A OMS reúne-se duas vezes por ano para recomendar as cepas que serão incluídas na vacina contra a gripe sazonal.

A vacina contra gripe que recebemos este ano – e está sendo aplicada no hemisfério norte agora – contém a cepa A/Hong Kong/2671/2019.

A que está chegando é diferente – descoberta numa cidade australiana chamada Darwin - por isso A/Darwin/9/2021.

Já está prevista para fazer parte da vacina que será utilizada por aqui no próximo ano.

Já sabemos que a eficácia da vacina da gripe, normalmente moderada, ficará ainda menor contra a variante Darwin.

Mas boa parte dos especialistas pensa que, apesar disso, ainda vale a pena apostar na vacina “velha” – esperando que a chamada imunidade cruzada nos traga alguma proteção, pelo menos contra casos graves e mortes.
 

Por Dr. Renato Matos 13/12/2021 - 08:17 Atualizado em 13/12/2021 - 08:18

Durante esses quase 2 anos da pandemia de Covid, quase não víamos mais casos de gripe “tradicional”.

Agora que os números de SARS-CoV-2 vem caindo, resultado da eficiente vacinação, voltamos a ouvir falar dela.
No Rio de Janeiro, tecnicamente, já existe uma epidemia de Influenza A H3N2.

Segundo Marcelo Gomes, coordenador do InfoGripe, da Fiocruz, a tendência é que o vírus se espalhe pelo país – como costuma acontecer com as viroses de transmissão respiratória - num horizonte de semanas.

Chamamos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) aqueles quadros gripais que evoluem com falta de ar e queda dos níveis de oxigênio.

Desde agosto deste ano, o Rio de Janeiro, assim como a maior parte do país, vinha com quedas no número de internações por SRAG.
 
Entre o fim de outubro e o início de dezembro, aquele estado teve um aumento de 71% nos casos da síndrome respiratória grave segundo dados da Fiocruz, já frutos do H3N2.

Os cuidados para evitá-la são exatamente os mesmos que já conhecemos contra a Covid. 

Quanto maior o risco potencial apresentado pelo indivíduo (imunossupressão, gestação, comorbidades), maior deve ser a aderência aos protocolos, máscaras inclusive.
Vale também a vacinação, que deve ser anual.

Aqueles que receberam a vacina da gripe durante a campanha nacional, entre abril e junho, tem sua parcela de proteção, que é moderada – as vacinas contra a Influenza, tradicionalmente, são menos eficazes do que as vacinas contra a Covid.

Nós, médicos, temos que voltar a pensar em gripe, que tem sintomas muito semelhantes aos da Covid, principalmente naqueles vacinados - até para pensar em voltar a usar o Tamiflu quando houver indicação.

A boa notícia é que a vacina da gripe disponibilizada neste ano, tanto em instituições públicas quanto privadas, tem a cepa da Influenza A H3N2 na sua composição.

Quem ainda não recebeu a vacina, deveria procurá-la o mais rapidamente possível. 
Ainda é tempo.

Apesar da menor eficiência, protege contra internações e mortes.

Um bom negócio.

Por Dr. Renato Matos 06/12/2021 - 10:18 Atualizado em 06/12/2021 - 10:18

Quando parecia que as coisas estavam se ajustando com as altas taxas de vacinação, veio essa nova variante de preocupação, identificada na África do Sul.

O mundo entrou novamente em alerta.

Já foram detectados casos em mais de 30 países, Brasil inclusive.

Continuamos sem saber se é mais transmissível ou letal que as variantes que a precederam, mas há sinais de que tenha maior capacidade de reinfectar pessoas que já tiveram a Covid.

Boa parte dos casos descritos na África do Sul mostram doenças leves, mas o relato se refere a pessoas jovens, que costumam apresentar formas mais brandas da doença. 

Não costuma haver perda de olfato ou paladar, apresentando-se como um quadro gripal usual, o que já observamos em pessoas completamente vacinadas e infectadas pela Covid.

A farmacêutica Regeneron, fabricante do coquetel de anticorpos monoclonais contra o SARS-CoV-2, já avisou que seu produto poderia ser menos eficaz contra essa nova variante, devendo ser atualizado caso a variante se espalhe de forma agressiva.

Já a britânica GSK informou que seu Sotrovimab, também uma mistura de anticorpos monoclonais, usado naqueles casos com potencial de evoluir para formas graves, continua eficaz.

A grande questão – e preocupação – é se as vacinas em uso, na maioria baseadas na proteína Spike, manterão sua eficácia contra a Ômicron, que apresenta mais de 30 mutações nessa localização. 

Na pior das hipóteses, as fabricantes de vacina já informaram que em 3 meses poderão lançar no mercado novos imunizantes direcionados contra a nova variante.

Lembrar que a segunda variante de preocupação, a beta, também surgida na África do Sul, não trouxe maiores consequências em nível mundial.

Evidentemente, não é hora para pânico, mas de vacinar os recalcitrantes, reforçar a imunização dos já vacinados há mais de 6 meses e manter medidas sanitárias adequadas à situação local e pessoal de cada um.

O brasileiro da Ômicron

A descoberta da variante Ômicron teve a participação direta de Túlio de Oliveira, brasileiro de 45 anos que há 25 vive no país africano.

Com estilo zen, filho de hippies “raiz”, estudou no Colégio Champagnat da congregação Marista em Porto Alegre e formou-se em biotecnologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Chegou à África do Sul em 1997, quando sua mãe foi trabalhar por lá.

Fixou residência no país, e, estudando o vírus HIV, fundou um dos maiores centros de estudos genômicos do mundo, de onde veio a informação sobre o surgimento da nova variante, logo rotulada de preocupação pela OMS.

Nosso conterrâneo tem mais de 150 publicações em revistas científicas, dentre elas Nature, Science e Lancet.

Em entrevista ao The New Yorker Magazine, Túlio de Oliveira disse que o surgimento dessa nova variante é “o último prego no caixão da imunidade do rebanho” induzida por infecção natural.

Diz a Folha que é torcedor do Internacional.

Por Dr. Renato Matos 29/11/2021 - 07:56 Atualizado em 29/11/2021 - 07:59

Quando estávamos nos acostumando a uma vida mais normal – em muitos casos normal demais - o relato do aparecimento de uma nova variante com potencial para trazer de volta dias sombrios preocupa.

Apesar de ainda não sabermos se é mais transmissível, se provocará casos mais graves ou se poderá escapar das vacinais em uso, com certeza, alguns dados chamam a atenção.

Antes de tudo, a rapidez com que a Organização Mundial de Saúde (OMS) a rotulou como variante de preocupação.

Essa denominação é reservada para aquelas variantes com maior transmissibilidade, maior capacidade de provocar doença ou que podem suplantar as medidas habituais de controle sanitário ou eficiência das vacinas.

Para comparação, a variante Delta, que hoje predomina na maior parte do mundo, foi detectada na Índia no final de 2020 e foi classificada como de preocupação pela OMS somente em maio de 2021.

No caso da Ômicron, a OMS foi informada no dia 24 de novembro. O Comitê Consultivo responsável pela avaliação das novas variantes reuniu-se dois dias depois e já a etiquetou como de preocupação. 

Tem 50 mutações, 32 na proteína Spike – o alvo utilizado pela maioria das vacinas no mundo, entre elas Pfizer, AstraZeneca e Janssen.

Essa é a quinta cepa classificada como variante de preocupação. As anteriores são alfa, beta, gama e delta. 

Era uma história já prevista: o diretor geral da OMS, Tedros Adhanom, está rouco de dizer que os países ricos deveriam ajudar os mais pobres na aquisição de vacinas.  

A África – que tem apenas 7% da sua população completamente vacinada – mostra que essa doença é de todos. 

Sem vacinas e sem cuidados, o surgimento de novas variantes de preocupação é (era?) somente questão de tempo.

Ômicron – a breve?

Seguindo a nomenclatura adotada pela OMS, seu nome deveria ser “nu”, mas a letra foi pulada por soar como “new” em inglês.

A letra seguinte da fila seria “Xi”, também desprezada por ser um sobrenome comum na China, inclusive do seu Presidente, Xi Jinping.

As maiores fabricantes de vacinas já preveem que entre duas e três semanas saberão se suas vacinas continuam eficazes contra a Ômicron.

Caso haja escape da vacina, calculam que em três meses terão imunizantes diretamente dirigidos contra ela. 

Tomara que a Ômicron tenha o comportamento previsto pelo seu nome. 

Segundo o dicionário Houaiss, a origem da palavra significa 'o pequeno, ou seja, breve'.

Por Dr. Renato Matos 22/11/2021 - 08:28 Atualizado em 22/11/2021 - 08:30

O Brasil, segundo o Ministério da Saúde, passou de 360 milhões de doses de vacinas contra a Covid aplicadas.
Apesar do alto perfil de segurança e comprovadíssima eficiência, alguns resistem.

Como pneumologista, acompanhei de perto dois pacientes, com nível de educação superior, que, por motivos ideológicos, resolveram não fazer a vacina. Tiveram casos graves, com risco iminente de morte.
Um deles voltou a consultar após a internação. 
Profissional da área da saúde, logo que começou a ter sintomas fez o teste que comprovou a infecção pela Covid.
Mantendo-se fiel ao seu grupo foi acompanhado, à distância, por um ortopedista de outro estado, que prescreveu, em doses altas e em momentos inoportunos, tudo aquilo que os estudos já mostravam que não funcionava. 

Como estava piorando, já com febre há 12 dias, aceitou a indicação do irmão, paciente antigo, e fomos procurados.
A indicação de internação foi imediata.

Foram 2 semanas difíceis, necessitando de altos fluxos de oxigênio. Mas sobreviveu. Tinha pouco mais de 40 anos, com 2 filhas pré-adolescentes.

No dia do retorno, após o exame clínico, perguntei, educadamente, se, caso tivesse morrido, sua família conseguiria manter um padrão razoável de vida.
- Não doutor. Sou profissional liberal, tenho uma boa remuneração, mas sem nenhum patrimônio ou seguro que pudesse deixá-las financeiramente confortáveis.  A vida delas mudaria muito. 
- Essa foi a maior angústia durante o tempo de hospital. Mais do que o medo de morrer. - Completou
- E agora, vais te vacinar? - Perguntei
- Depois do que passei, vou sim.
Porém, virando-se para a esposa, que estava sentada ao lado:
- Mas tu não me enche mais o saco!

Por Dr. Renato Matos 15/11/2021 - 11:29 Atualizado em 15/11/2021 - 11:30

Singapura é composta por 63 ilhas, onde moram um pouco mais de 5 milhões de habitantes - uma das maiores densidades populacionais do mundo.

De acordo com o relatório das Nações Unidas, ocupa o oitavo lugar no índice de desenvolvimento humano, com expectativa de vida de 85 anos - mais de cinco anos superior à norte-americana.

Tem um sistema de saúde peculiar - mistura prestações de serviços públicos e privados - que além de ser considerado um dos mais qualificados do mundo, tem melhor custo-efetividade.

Desde o início da pandemia, a ex-colônia britânica foi um modelo de gestão, com vigilância extensiva, rastreio de contatos e restrições de movimentos para manter baixos os casos de vírus.

Além disso, o governo pagava integralmente a conta de qualquer cidadão internado em hospitais particulares (70% dos atendimentos no modelo de saúde do país), desde que residentes permanentes ou portadores de um passe de trabalho de longo prazo e que estivessem doentes com a Covid-19, a menos que o teste estivesse positivo logo após retornar do exterior.

Chegando a 85% das pessoas elegíveis totalmente vacinadas e a 18% com as doses de reforço, começou, como esperado, a aliviar restrições relacionadas com o vírus.

Apesar da alta taxa de vacinação, o número de casos diários começou a subir. De 50 a 100 em agosto, agora, nas últimas semanas, vem se mantendo em torno de 3.000, evidentemente, com internações e mortes preponderando entre os não vacinados.

O remédio veio amargo.

A partir do dia 9 de novembro, Singapura deixou de cobrir os custos médicos das pessoas "não vacinadas por opção”.

“Atualmente, as pessoas não vacinadas representam uma grande proporção daqueles que requerem cuidados intensivos e contribuem, de maneira desproporcional, para a pressão dos nossos recursos", indicou nota emitida pelo Ministério da Saúde.

Vacinar não é obrigatório.

Mas, dentro do sistema peculiar de saúde, aqueles que se vacinaram não são mais obrigados a partilhar dos custos gerados pelos que negam, sem justificativa, a imunização.

Parece justo.

Por Dr. Renato Matos 08/11/2021 - 11:47 Atualizado em 08/11/2021 - 11:47

No início da pandemia, sem medicamentos eficazes ou vacinas, dependíamos exclusivamente de isolamento físico, uso de máscaras e medidas de higiene.

Ou sorte, casos infectados.

Meses depois, as fantásticas vacinas começaram a mudar o cenário.

Além da proteção de até 90% contra quadros graves e mortes, reduzem o risco de transmissão do vírus em aproximadamente 50%.

Mas não temos – ou não tínhamos - medicamentos eficazes que pudessem ser usados naqueles em que a eficiência da vacina não era suficiente – ou naqueles teimosos não vacinados.

O tratamento precoce “de verdade”. 

Os aprovados anticorpos monoclonais são extremamente caros e, na nossa realidade, não disponíveis.

Partindo do princípio de que vírus são combatidos com antivirais e não com antibióticos ou antiparasitários – vide hepatite C e HIV - as companhias farmacêuticas vêm trabalhando exaustivamente na sua pesquisa.

As últimas semanas nos trouxeram excelentes notícias.

Primeiro, o Molnupiravir, da Merck.  Usado até o quinto dia de sintomas, por via oral, em indivíduos não vacinados e com pelo menos uma comorbidade, reduziu em 50% a necessidade de internação em comparação ao grupo placebo, sem nenhuma morte entre aqueles que o usaram.

Agora, a Pfizer tornou público o resultado do ensaio clínico que vinha testando a associação de dois antivirais, também utilizados por via oral: o PF-07321332, associado ao Ritonavir.

Se confirmados, os resultados do já batizado PAXLOVID são exuberantes: redução de 89% no risco de internação ou morte naqueles tratados até três dias após o início dos sintomas. Com 5 dias, resultados quase parecidos.

Diversos antivirais – mais de 200, segundo a revista Science - estão em estudos.

Até termos esses medicamentos à disposição, alguns cuidados ainda se fazem necessários.

Quanto maior for o seu risco, pela presença de comorbidades ou pela possibilidade de infectar familiares ou amigos que façam parte de grupos mais vulneráveis, maiores devem ser os cuidados.

Não podemos, nesse momento, colocar toda a responsabilidade nas vacinas.

Já sabemos da imprevisibilidade do SARS-CoV2.

Não temos o direito de agora botar tudo a perder.

Por Dr. Renato Matos 01/11/2021 - 08:43 Atualizado em 01/11/2021 - 08:44

Apesar de fazerem parte de um grupo com baixa letalidade, as crianças podem apresentar quadros graves quando infectadas pelo SARS-CoV-2.

Além disso, são reconhecidas transmissoras da doença, justamente pelo fato de apresentarem poucos ou nenhum sintoma.

Há poucos dias, um painel independente do FDA, órgão que regula o uso de medicamentos nos Estados Unidos, votou por liberar a vacina contra a Covid-19 em crianças entre 5 e 11 anos.

Com um placar elástico: 17 a favor e 1 abstenção.

O resultado já era esperado – crianças nessa faixa etária tem um robusto sistema imunológico, já exposto a diversos agentes etiológicos – e vacinas.

Oficializando as expectativas, a Pfizer/BioNTech apresentou o resultado de um estudo em que 3.109 participantes de 5 a 11 anos receberam a vacina e 1.528, o placebo.

Ao final do período estipulado foram observados 3 casos no grupo vacina e 16 no grupo controle – uma eficácia média de 90,7%.

Usando duas doses de 10 microgramas – 1/3 do habitual – com um intervalo de 3 semanas, a resposta imune e perfil de segurança foram semelhantes às obtidas entre os adolescentes.

Havendo o aval final do FDA e regulamentação pelo Comitê Consultivo de Práticas de Imunização do CDC, a vacinação nos EUA deve começar já nos próximos dias.

A Pfizer já afirmou que irá encaminhar a mesma solicitação para a ANVISA durante o mês de novembro.

Apesar de cinco diretores da agência receberem ameaças de morte caso aconteça a aprovação das vacinas para este grupo de crianças, esperamos que, em breve, também sejam imunizadas.

Aí, sim, Papai Noel vai poder entregar seus presentes com mais tranquilidade.

Só não sabemos ainda se poderá vir sem máscara - já aprendemos que 2 meses é um período longo para fazermos pressuposições sobre esse imprevisível vírus.

Por Dr. Renato Matos 25/10/2021 - 08:14 Atualizado em 25/10/2021 - 08:17

Talvez um dos grandes aprendizados que adquirimos durante a pandemia foi a eficácia das máscaras. Já assimiladas culturalmente por alguns povos asiáticos, mas, até meados do ano passado, a própria Organização Mundial da Saúde ainda não recomendava oficialmente o seu uso. Mas, logo o seu papel ficou claro. Numa doença altamente transmissível, de evolução imprevisível e sem tratamento, a transmissão por via aérea precisava de barreiras que reduzissem a sua propagação. Além dos trabalhos científicos que mostram sua eficiência, é visível na rotina de consultório a sua importância. Costumo brincar com meu filho, também pneumologista, que, se as pessoas continuarem a usar máscaras depois da pandemia, precisaremos mudar de especialidade. 

Máscaras funcionam. Porém, dado o grande impacto das vacinas na redução e gravidade dos casos das infecções por coronavírus, já está na hora de pararmos com seu uso? A experiência de outros países que nos precederam com altos níveis de vacinação mostra que ainda não. Nos EUA, contra a opinião da maioria dos epidemiologistas, o presidente Biden liberou o uso de máscaras. Sabemos no que deu: as infecções aumentaram muito, a mais transmissível variante Delta assumiu o posto e a doença voltou com força. O mesmo aconteceu em Israel e em diversos países europeus.

Aqui, com vacinação atrasada em relação a esses países, apesar de algumas posições políticas contrárias, a máscara e o afastamento físico foram nossas melhores armas. Interessante notar que esse é um dos motivos que os especialistas usam para explicar o menor impacto da variante Delta em nosso país. O não uso de máscaras em ambientes externos por pessoas vacinadas, desde que não haja aglomerações, parece seguro. O problema quando se coloca isso como lei é a sensação do “já passou”. Tomara que sim, mas talvez ainda tenhamos um bom caminho a percorrer.

Por Dr. Renato Matos 21/10/2021 - 11:28 Atualizado em 21/10/2021 - 11:31

Acompanhamos centenas de pacientes com Covid. O medo costuma acompanhar a internação, numa doença que, até alguns meses, tinha - e, agora, em não vacinados, ainda tem - um curso imprevisível.
A piora da falta de ar, o aumento da necessidade de oxigênio, a persistência da febre e, pior, a transferência para a UTI, são eventos devastadores. Tanto para o paciente, como para os familiares.

Na UTI, os sinais de melhora costumam ser lentos, geralmente, medidos em semanas. Tempo de tortura psicológica imensa para todos os envolvidos. Marcou-me, em especial, um caso que não acompanhava como médico.  Mas o irmão do paciente, que conhecia desde a adolescência, ligava com certa frequência para obter informações de como o quadro poderia evoluir. Certo dia, mandou uma mensagem de voz em que relatava a surpreendente melhora do irmão, já com alta prevista para o dia seguinte. Entrou nos detalhes dos preparativos que a filha de 11 anos vinha fazendo, esperando com ansiedade a volta do pai, que já estava longe há semanas. Explodindo de alegria, preparou a casa com carinho, quase uma festinha de aniversário: balões coloridos, cartazes de boas-vindas, docinhos. O pai morreu naquela noite.
Sempre penso nela quando vejo pessoas recusando a vacina pelos mais absurdos motivos. Seus filhos não merecem passar por isso.

Por Dr. Renato Matos 18/10/2021 - 07:56 Atualizado em 18/10/2021 - 07:56

Faço, mais uma vez, uso das palavras do professor Mario Rigatto, agora para saudar todos aqueles que, como nós, foram privilegiados em poder exercer a medicina.
Coisa de médico de antigamente?
Medicina também é uma arte, e, quando de qualidade, não envelhece.
A necessária atualização não prescinde da sensibilidade do artesão, mesmo com o aumento dos intermediários, humanos e tecnológicos.

Vamos ao mestre:

“Estranha profissão é a de médico. 
Dele se pede toda a sensibilidade que um ser humano pode abrigar. 
Para que entenda a linguagem da dor, da angústia, do medo, da desesperança e do sofrimento. 
Para que fale com a alma de seus pacientes. 
Para que transforme tênues fímbrias de esperança no lenho ardente da vontade de viver. 
De pessoa assim tão rica de sentimentos se pede, paradoxalmente, o mais frio domínio das emoções. 
Para que um franzir de cenhos ou um arquear de boca não semeiem, no espírito do paciente, dúvidas e opressões. 
Para que o tremer da mão não imprima, ao bisturi, o erro milimétrico que separa a vida da morte. 
Para que o marejar dos olhos não o prive da clareza meridiana que se pede ao diagnosticista. 
Para que o embargo da voz não roube credulidade a sua mensagem de fé. 
Sempre me pareceu difícil reunir, num mesmo indivíduo, tão nobre textura e tão rude couraça."

Parabéns a todos os colegas.
Continuamos juntos.

Por Dr. Renato Matos 12/10/2021 - 08:06

O governo norte-americano afirmou, no dia 8 passado, que vai permitir a entrada de viajantes internacionais que tenham tomado qualquer uma das vacinas aprovadas pela Organização Mundial da Saúde.
Das 6 vacinas autorizadas pela OMS, agora passaporte vacinal para passear na Disney, 4 estão em uso no Brasil: Pfizer, AstraZeneca, Janssen e, também, a injustiçada CoronaVac.

Mais uma evidência de sua eficácia.
Mais um detalhe: terceira dose não é exclusiva para quem recebeu a Coronavac. Os países que basearam sua vacinação com a Pfizer e a AstraZeneca também estão aplicando a terceira dose para idosos e imunossuprimidos.

Por Dr. Renato Matos 11/10/2021 - 08:35 Atualizado em 11/10/2021 - 08:36

Foi publicado em preprint, há poucos dias, no MedRxiv, “Avaliação de diferentes tipos de máscaras faciais para limitar a disseminação do SARS-CoV-2 – Um Estudo de Modelagem”. 
O estudo foi feito por pesquisadores do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) e avaliou o impacto de diferentes tipos de máscaras na incidência de Covid e mortalidade pela doença nos EUA.
A análise mostrou que as máscaras faciais estão associadas a reduções nas taxas de infecção por Covid-19: de 69% (máscaras de tecido) a 78% (máscaras cirúrgicas).
Quando foi avaliado o impacto sobre a mortalidade, houve redução de 82% para as máscaras de tecido comum e 87% para as máscaras cirúrgicas, no período considerado no estudo – 6 meses.
Esses dados reforçam os diversos estudos epidemiológicos, de modelagem matemática e de laboratório, realizados durante a pandemia. 
Máscaras faciais de diversos materiais têm o potencial de reduzir substancialmente a transmissão do SARS-CoV-2, sua eficiência dependendo do tipo e ajuste da máscara e da adoção percentual na população.

E máscaras não reduzem apenas os casos de Covid. 
Segundo a revista Nature, os Estados Unidos registraram apenas 646 mortes por gripe na temporada 2020-21 - a média anual está na casa das dezenas de milhares — e houve apenas uma morte por gripe pediátrica. A Austrália não teve mortes sazonais por gripe até agora em 2021, em comparação com entre 100 e 1.200 em anos anteriores.
Na situação de incerteza que ainda vivemos, o uso de máscaras, associado à vacinação e ao distanciamento físico em lugares pouco ventilados, ainda é fundamental.

Por Dr. Renato Matos 04/10/2021 - 07:42 Atualizado em 04/10/2021 - 07:43

O Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, foi diagnosticado com a Covid no dia 21 de setembro, quando estava em Nova York com a comitiva presidencial.
E, por que, segundo o noticiário, o ministro não pode viajar de volta para o Brasil?
Primeiro, lembrar que o ministro não está cumprindo quarentena, como habitualmente é dito.  
Quarentena é a regra que se aplica a pessoas que tiveram contato próximo e sem medidas adequadas de segurança com alguma pessoa infectada – tradicionalmente de 14 dias, mas já com outros protocolos mais curtos.

Como infectado, o ministro precisa cumprir os dias de isolamento: 10 para casos leves, como parece ser o seu caso.
O problema é que para entrar em aviões comerciais, dependendo da regra do país de destino, é necessário que se apresente um teste negativo de PCR para o SARS-CoV 2, realizado 72 horas antes do embarque.
Séries de literatura mostram que 9,5% dos pacientes permanecem com PCR positivo 30 dias depois do teste inicial e, em alguns casos, a positividade chega a alcançar 3 meses – ou talvez um pouco mais.
Dentro dos conhecimentos atuais, depois de 3 meses, a possibilidade de reinfecção deve ser fortemente considerada.

O PCR para Covid, teste altamente sensível, detecta a presença do material genético do vírus nas secreções respiratórias, mas nada diz a respeito da sua viabilidade – podem ser apenas restos de vírus mortos.
Se o país de destino – ou de retorno – exigir o PCR com antecedência ao embarque, será muito difícil explicar na companhia aérea que aquele é um positivo “residual”.
E caso você se infecte durante a viagem, mesmo assintomático, vai ter que ficar de molho, como o ministro.

Considere esses riscos quando estiver planejando sua próxima viagem.

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