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* as opiniões expressas neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do 4oito
Por Renato Matos 24/11/2020 - 14:44Atualizado em 24/11/2020 - 14:51

Alguns vírus geram imunidade por toda a vida. Outros, como o da influenza, apenas por alguns meses. “Mais pessoas estão tendo Covid-19 duas vezes, sugerindo que em alguns a imunidade declina rapidamente” é o título de um artigo publicado recentemente na Science.

Para ser considerado reinfectado, o paciente deve apresentar dois testes de PCR positivos com pelo menos 30 dias livres de sintomas entre eles. Mais exigentes, alguns cientistas só concordam que houve reinfecção quando houver sequenciamento genético e a segunda amostra apresentar algumas diferenças em relação à amostra original. 

Considerando o atraso entre o envio do artigo, revisão dos pares e publicação (18 de novembro), o artigo da Science relata 50 casos na Holanda, 95 no Brasil, 250 na Suécia, 285 no México e 243 casos no Qatar. Números com tendência de alta, já que a percepção é de que na infecção pelo Covid-19 a imunidade seja temporária.

Lia van der Hoek, líder de um grupo de virologistas da Universidade de Amsterdã, mostrou recentemente que a imunidade gerada pelos 4 coronavírus “antigos”, que causam resfriados comuns, se perde em torno de 12 meses. Segundo a cientista, essa é “uma má notícia para aqueles que ainda acreditam em imunidade de rebanho gerada por infecções naturais”. Esses dados também podem sinalizar o tempo de validade para as vacinas.

A imunidade contra uma infecção não depende apenas dos anticorpos. Outras células, como as de memória tipo B, células T e, principalmente, os anticorpos neutralizantes, parecem permanecer estáveis por pelo menos 6 meses após a infecção pelo coronavírus que gera a Covid-19. Buscando na história, há relatos de casos de SARS e MERS, as duas formas anteriores graves de infecções pelo coronavírus, nos quais a imunidade persistiu por até 2 anos.

Habitualmente, quadros mais graves geram respostas imunológicas mais vigorosas e persistentes, mas há pacientes que apresentaram quadros muito graves e que saem com poucos anticorpos - como se tivessem consumido parte de suas células de defesa. A gravidade da segunda infecção também não é uniforme: dos quadros relatados alguns são mais leves, outros muito mais severos. Como são testados somente os indivíduos que voltam a apresentar sintomas, não sabemos qual a incidência de casos de reinfecção assintomáticos.

Alguns cientistas se preocupam se poderia ocorrer na infecção por coronavírus o que acontece na dengue: uma segunda infecção, por um tipo mutante, ainda na presença de anticorpos da primeira infecção, torna o quadro mais grave, algumas vezes fatal. Em se tratando de coronavírus, ainda há muitas incertezas. Após ser infectado, seja esperto: mantenha os cuidados.

Por Renato Matos 17/11/2020 - 10:02

Uma das características da infecção pelo novo coronavírus é a sua imprevisibilidade.

Inicialmente considerada uma doença tipicamente respiratória, aos poucos fomos aprendendo que as complicações não paravam por aí.

Fenômenos tromboembólicos, complicações cardiológicas e renais se tornaram evidentes.

E, intrigantemente, as manifestações neurológicas. 

Alguns estudos chegam a relatar que até um terço dos pacientes com COVID-19 apresentam complicações do sistema nervoso.

Perda de olfato (anosmia) ou de paladar (ageusia) já são reconhecidas como marca registrada da infecção. Quando associados a sintomas gripais, praticamente selam diagnóstico de infecção pelo Coronavírus.

As complicações do sistema nervoso foram vistas tanto em pacientes que necessitaram de ventilação mecânica, como naqueles que apresentaram formas menos severas da doença. Este perfil – complicações neurológicas não relacionadas com a gravidade do quadro clínico - se repete em diversas publicações.

As manifestações neurológicas associadas a Covid-19 podem ser secundárias a baixos níveis de oxigênio, alterações da coagulação sanguínea, distúrbios renais, mas também resultantes das conhecidas reações inflamatórias e/ou imuno mediadas.

A invasão direta dos neurônios, ainda discutida, parece ser possível. Os vasos que nutrem as células neuronais possuem receptores por onde o coronavírus pode se ligar, como faz nas células do epitélio respiratório.

Finalmente, o SARS-CoV2 pode alcançar o sistema nervoso central através do nervo olfatório, que, quando comprometido, causa a conhecida perda de olfato.

Entre as complicações mais temidas estão os acidentes vasculares cerebrais (“derrames”), isquêmicos e hemorrágicos. Geralmente, ocorrem de 1 a 3 semanas após o início dos sintomas, mas podem ser a manifestação inicial da infecção.

Pacientes jovens têm apresentado eventos isquêmicos cerebrais, inclusive com a oclusão de vasos calibrosos, algo não usual fora do contexto da Covid-19.

Encefalite (inflamação do cérebro), encefalomielite (inflamação do cérebro e medula espinal) e meningite são também descritas.

Outra complicação neurológica grave é a Síndrome de Guillain-Barré, quando uma reação autoimune lesiona os nervos periféricos. Os sintomas começam nos pés e são ascendentes, podendo paralisar os músculos das pernas, do quadril e até os da respiração.

No dia a dia, vemos crises de agitação e delírios, convulsões, alterações do nível de consciência, dificuldade de concentração e perdas de memória. Nesse quesito, naqueles que já apresentavam algum grau de alteração, a piora pode ser marcada. 

Não existem tratamentos específicos.

O prognóstico a longo prazo também está para ser elucidado.

Injustamente, o papel dos neurologistas no manejo dos pacientes com Covid-19 é pouco reconhecido.

Por Renato Matos 10/11/2020 - 13:02

O diagnóstico de uma doença é um ato complexo. 

A realização de exames, quando necessários, apenas complementa o raciocínio clínico.

A sua interpretação, na maior parte das vezes, exige conhecimentos especializados. Exames normais podem esconder doenças, assim como exames alterados nem sempre indicam que algo está errado.

Para avaliarmos o resultado, precisamos entender características próprias do exame, como sensibilidade e especificidade e a probabilidade de doença quando o exame está alterado, o que chamamos de valor preditivo positivo ou negativo.

Não é puramente o número que aparece no exame ou o laudo que acompanha o exame de imagem.

O Conselho Federal de Medicina, em seu parecer 18/15, define que requisições de exames complementares, com algumas exceções previstas em lei, só podem ser feitas por médicos. 

A permissão de solicitar exames traz implícita a responsabilidade de orientar o paciente quanto a todos os procedimentos, cuidados e tratamentos necessários.

A pandemia também revirou essa norma. Exames particulares para diagnóstico de Covid-19 são realizados sem requisição médica. A própria ANVISA liberou a realização de testes rápidos em farmácias. 

O próprio nome – teste rápido - é confuso, já que não explica o que está sendo pesquisado, o vírus ou os anticorpos, só que o resultado é rápido.

Por falta de conhecimento, os resultados são tomados de forma literal – reagente ou não reagente. 

Na fase inicial da doença, devemos procurar o vírus, através do exame do RT-PCR ou teste de antígeno, ambos feitos pelo já famoso “cotonete”.
A partir do décimo dia, idealmente depois do décimo quarto, começam a ser detectados os anticorpos – a reação do sistema imunológico à presença do vírus. Esses exames, chamados de sorológicos, são feitos através de exames de sangue e coletados na veia ou com pequena punção na ponta dos dedos. Nas fases iniciais, eles sempre serão negativos.

Além dessa distinção básica, sempre considerar os falsos positivos e negativos, não tão raros.

“Test and trace” (testar os sintomáticos e rastrear os contatos) é o mantra adotado por todos os países que conseguiram passar pelo Covid 19 com menos estragos e recomendado pelas principais organizações médicas do mundo.

Nesse contexto, testar sempre significa buscar o vírus:  PCR ou teste do antígeno. Esperar a formação de anticorpos significa diagnóstico tardio. Quando o teste sorológico estiver positivo, geralmente já se perdeu o momento de isolar o sintomático. 

Nunca esqueça: quem solicita um exame tem a obrigação de saber interpretá-lo, com todas as sutilezas associadas.

Converse com seu médico.

Por Renato Matos 03/11/2020 - 10:27Atualizado em 03/11/2020 - 10:28

Para entendermos, devemos recordar as formas de transmissão do coronavírus.

Além dos fômites - objetos ou superfícies capazes de absorver, reter e transportar organismos infecciosos (menos importantes do que inicialmente considerados) - a via aérea é a forma tradicional de transmissão.

A principal se dá através de gotículas eliminadas durante a fala, tosse, espirros, ou até mesmo em situações em que a respiração se faz mais pronunciada, como em exercícios vigorosos ou canto. O vírus é compartilhado entre pessoas próximas, sendo 6 pés (pouco mais de 1,80 m) o número mágico dos norte-americanos.

A transmissão por aerossóis (partículas muito menores que as gotículas), inicialmente negada por algumas entidades, agora parece consolidada, mais ainda em ambientes fechados.

A importância dessa distinção é que os aerossóis, ao contrário das gotículas, podem permanecer horas em suspensão – e alcançar distâncias maiores. 

Entra agora o nosso ar-condicionado, que já tornamos essencial nos meses de verão.

Existem diversas formas de resfriamento do ambiente.

Tentei entender apenas o ar-condicionado convencional, geralmente tipo split, que usamos em nossas casas ou escritórios. Nesses sistemas, o ar presente no ambiente é aspirado, resfriado, filtrado e posteriormente re-ejetado no cômodo, sem que haja trocas com o ar externo. Importante salientar que essa filtração, eficaz para partículas maiores, não consegue reter o Covid-19.

Esse ar resfriado, voltando sob pressão, pode alcançar diversas pessoas que compartilham o mesmo espaço. 

Para que esses aparelhos convencionais possam captar o desejado, e supostamente puro, ar exterior, são necessárias adaptações mecânicas – nem sempre possíveis e geralmente caras.  Não conseguimos simplesmente mudar essa configuração no controle remoto. O princípio vale também para os carros, com a vantagem de aqui podermos ajustar o modo de ventilação, no próprio painel do veículo.

Em sistemas de ar-condicionado central (que podem ser ajustados para trocas com o ar exterior), esse modo de recirculação é ainda mais perigoso, pois poderá levar o vírus para diferentes ambientes.

Resumindo:

Na sua casa, com sua família, desde que ninguém esteja com suspeita de infecção, o ar-condicionado convencional pode ser usado sem problemas.

Em locais onde circulam diversas pessoas, como escritórios ou pequenos negócios, sempre buscar aumentar a ventilação, mantendo o máximo de janelas – e se possíveis portas – abertas. Mesmo com o ar-condicionado ligado.

Orientações semelhantes são válidas para o uso de ventiladores – os cômodos devem ser bem ventilados, permitindo trocas com o ar externo.

Para avaliação de modelos mais sofisticados, consulte engenheiros e técnicos especializados.

Mas sempre evitando o modo recircular.

Por Renato Matos 28/10/2020 - 13:19

A tuberculose é uma doença grave: está entre as 10 principais causas de morte no mundo.

No Brasil, em 2019, foram registradas pouco mais de 4 mil mortes.
Aqui em Criciúma, costumamos ter um pouco menos de 100 casos por ano e nossa cidade é referência nacional pelos seus bons índices de cura.
O bacilo da tuberculose pode afetar diversos órgãos, mas 70% dos casos são pulmonares.

Tosse é o sintoma principal nesse contexto. Se presente há mais de 3 semanas, a possibilidade de tuberculose deve ser avaliada. Principalmente, se acompanhada de febrícula vespertina, sudorese noturna e emagrecimento. Algumas vezes hemoptise – escarro com sangue.
O diagnóstico normalmente é simples: exame de escarro buscando o bacilo.
Há muito já utilizamos o PCR – também a melhor técnica para detecção do coronavírus – para pesquisar o Mycobacterium tuberculosis, o agente causador.

O tratamento tem altíssimos índices de cura, com medicamentos seguros, desenvolvidos há décadas.
O problema é o tempo – 6 meses de uso diário.
Após 2 ou 3 meses, o paciente pensa estar curado e, cansado de tomar remédios, abandona o tratamento.
Geralmente, a doença volta, muitas vezes com germes resistentes. 
Os medicamentos habituais deixam de ser efetivos e os disponíveis para esses germes multirresistentes são muito menos eficazes. 
Essa é a principal causa das mortes.

Para vencer essa situação, há anos, o Brasil adota a estratégia DOTS – tratamento diretamente supervisionado.
Resumindo, além das boas técnicas para aumentar a adesão, a tomada do medicamento deve ser acompanhada diariamente por um profissional de saúde. Que só libera o paciente após ter certeza de que os comprimidos foram deglutidos – alguns fazem de conta que os engolem e na saída do profissional retiram da boca e os jogam no lixo.

Fundamental no sucesso dos Programas de Tuberculose é o envolvimento de toda equipe com o doente, com estudadas e carinhosas técnicas de acolhimento e acompanhamento.
Mesmo com as melhores técnicas, alguns se rebelam e não querem tomar o medicamento – “é meu direito”.
A legislação sanitária do país já resolveu esse problema. Tratando-se de doença contagiosa, potencialmente fatal, transmitida por via aérea – como o atual coronavírus – o paciente sempre deve ser submetido ao tratamento.
Naqueles casos de abandono, todo o esquema de relacionamento com o paciente deve ser reconsiderado e a equipe reestimulada.

Esgotadas todas as possibilidades, evidentemente como exceção, “a internação compulsória deverá ser considerada”, ensina o Manual de Recomendações para Controle da Tuberculose do Ministério da Saúde.

Não se trata de autoritarismo.
Mas de saúde pública.

Por Renato Matos 19/10/2020 - 15:08Atualizado em 19/10/2020 - 15:15

A imensa maioria dos medicamentos testados para o tratamento do novo coronavírus não são novos, nem desenvolvidos especificamente para este fim. São drogas antigas, usadas em outras doenças e reposicionadas na tentativa de buscar alguma efetiva.

O conhecimento médico vai se consolidando a partir de estudos repetidos. Quanto maior a qualidade metodológica, tamanho da amostra e concordância entre eles, maior a probabilidade de que as conclusões sejam corretas.

A semana que passou nos trouxe evidências mais robustas quanto ao tratamento da Covid -19.

No dia 9 de outubro, o Instituto Nacional de Saúde dos EUA lançou uma atualização sobre o tratamento do SARSCoV2.

Num robusto e bem referenciado documento de 224 páginas, escrito sob a tutela de 16 grandes sociedades médicas - entre elas o American College of Chest Physicians, American Thoracic Society, CDC, Society of Critical Care Medicine, Infectious Disease Society of America e FDA - são avaliadas as atuais opções de tratamento.

Seguindo os estudos disponíveis e selecionados pelos especialistas, o painel definitivamente não recomenda usar qualquer medicamento de forma preventiva, tanto antes como após exposição ao Covid 19.

Quanto aos já infectados, mas não hospitalizados ou internados que não necessitem do uso de oxigênio suplementar, as conclusões também são, à princípio, contra o uso de qualquer medicamento antiviral. O “à princípio” aparece porque os americanos ainda discutem se o Remdesivir deveria ser utilizado nessas circunstâncias.

Especificamente sobre a cloroquina ou hidroxicloroquina, avaliando os dados obtidos até o momento, os painelistas são contrários ao seu uso, tanto preventivamente como em pacientes hospitalizados ou em tratamento ambulatorial. Isoladamente ou associada à Azitromicina.

Sobre a Ivermectina, o documento salienta que para que sejam obtidos os níveis que inibiram a replicação do SARSCoV2 em vitro seriam necessárias doses até 100 vezes maiores do que as aprovadas para uso em humanos. Também são contrários ao seu uso.

SOLIDARITY

No dia 15 passado, foram publicados os dados do estudo SOLIDARITY, conduzido pela Organização Mundial de Saúde, que avaliou o uso de Remdesivir, Hidroxicloroquina, Lopinavir/Ritonavir e Interferon no tratamento do novo coronavírus. 

No ensaio clínico, um dos maiores já realizados sobre o assunto, foram randomizados (escolhidos aleatoriamente) 11.266 adultos, em 405 hospitais de 30 países. 

Todos esses regimes de tratamento foram considerados inefetivos ou pouco efetivos. Não reduziram tempo de internação, necessidade de ventilação mecânica ou mortalidade de forma significativa.

A hidroxicloroquina apresentou um risco relativo (uma medida de comparação entre o grupo que recebeu o medicamento e o grupo controle) de 1,19 - apenas valores abaixo de 1 são considerados protetores. Segundo a OMS, esses dados produziram “evidências conclusivas” sobre a não efetividade desses medicamentos.

Continuamos esperando por boas notícias.

Por Renato Matos 12/10/2020 - 09:02

O New England Journal of Medicine, fundado em 1812, é o periódico médico geral mais lido e influente do mundo.

Extremamente técnico, como convém a uma publicação do gênero: não lembro de nenhum posicionamento que se possa classificar como francamente político.

Mas no último número, datado de 8 de outubro, perderam a paciência. Parece um desabafo dos médicos do país mais rico do mundo frente ao impensável fracasso que já custou a vida de quase de 250 mil norte-americanos.

Num editorial - texto de opinião que apresenta o posicionamento do jornal – intitulado “Morrendo em um vácuo de liderança”, analisam o comportamento de seus governantes durante a pandemia da Covid-19.

Com liberdades de tradução, reproduzo algumas das considerações:

"A magnitude da falha é assombrosa. O índice de mortalidade é 50 vezes maior do que no Japão, país com uma grande população de idosos, e supera em 2000 vezes o de países de baixa/média renda, como o Vietnam”.

“Fomos amplamente avisados, mas quando a doença chegou fomos incapazes de testar efetivamente e não conseguimos fornecer os equipamentos de proteção mais básicos para os trabalhadores de saúde e público em geral”.

O país líder em tecnologia se perdeu quando foi chamado a implementar medidas pouco sofisticadas.

As medidas de isolamento e quarentena foram tomadas tardiamente e de forma inconsistente.

“Nossas regras de distanciamento social, em muitos lugares, foram, quando muito, indolentes”.

“Em muitos lugares do país, as pessoas simplesmente não usaram as máscaras. Em grande parte, porque nossos líderes declararam abertamente que as máscaras são ferramentas políticas e não medidas efetivas de controle da infecção”.

Como esse fracasso ocorreu num país de enorme capacidade industrial, imensa expertise em saúde pública e ciência de base e com um sistema de pesquisa biomédica que é invejado no mundo?

“O governo federal repassou boa parte da responsabilidade para os estados. E os governadores oferecem respostas variadas, não por opção política, mas por diferentes competências”.

Salientam que os principais organismos federais de controle sanitário, como o Centro de Controle de Doenças e Prevenção (CDC), o Instituto Nacional de Saúde e a FDA (a ANVISA deles) foram politizados e excluídos das principais decisões.

“Em vez de confiar na experiência, o governo se voltou para líderes de opinião desinformados e charlatães que obscurecem a verdade e facilitam a promulgação de mentiras descaradas”.

Esperávamos que os Estados Unidos fossem um modelo de resposta à pandemia da Covid-19.

Ao politizar a doença, tiveram um trágico e vergonhoso resultado.
 

Por Renato Matos 05/10/2020 - 10:29Atualizado em 05/10/2020 - 10:30

O Covid 19 pegou o presidente Donald Trump há apenas 30 dias das eleições.
E, como seria de se esperar, o mundo todo está de olho no hospital militar Walter Reed.
Como costuma acontecer nessas situações, as notícias são truncadas, com partes essenciais propositalmente omitidas.
Nós, brasileiros mais rodados, ainda lembramos do presidente Tancredo Neves em fotos sorridentes junto aos médicos que o atenderam pouco antes da sua morte. 

Evidentemente estamos curiosos. Não para julgar a conduta daqueles médicos pressionados pela difícil situação.  
Mas, na prática, como iriam tratar o “homem mais poderoso do mundo”?

O médico do presidente, Sean P. Conley, profissional da Marinha americana, está no cargo há 2 anos.
Sua especialização, segundo o New York Times, é a osteopatia. 
Segundo a Osteopathic International Alliance, esta técnica “aborda o paciente de forma holística, utilizando apalpação e técnicas manuais para tratar músculos, articulações, nervos, o tecido conjuntivo, o sistema circulatório e os órgãos internos, a fim de favorecer a capacidade do corpo de restabelecer e manter a saúde”.  
Também trabalhou como emergencista, inclusive no Afeganistão.

Em maio ganhou atenção após revelar que, sob sua orientação, Mr. Trump havia iniciado o uso preventivo de hidroxicloroquina.

Apesar de afirmar que o presidente estava muito bem, corretamente cercou-se de bons especialistas e não demorou para internar seu diferenciado paciente. Com 74 anos e considerado obeso, Mr. Trump faz parte dos tradicionais grupos de risco. 

Como nos informam os principais veículos de comunicação do mundo, logo ao chegar ao hospital militar recebeu um coquetel de anticorpos monoclonais da empresa de biotecnologia americana Regeneron, tratamento ainda na fase 3 do ensaio clínico – igual a boa parte das vacinas que estamos esperando. 
Seus clínicos associaram o  antiviral Remdesivir, da também americana Gilead, medicamento autorizado de forma emergencial pela Food and Drug Administration (a ANVISA deles)  para pacientes hospitalizados em estado grave.  
Até o momento os trabalhos publicados com o Remdesivir mostraram redução no período de internação, mas não da mortalidade.
Além destes, Dr. Conley relatou que o presidente está tomando zinco, vitamina D, famotidina (uma medicação para gastrite), melatonina (hormônio para induzir o sono) e aspirina.

Apesar desta grande associação de medicamentos, os jornais neste domingo informam que por ter apresentado queda da saturação de oxigênio o presidente começou a usar a acessível Dexametasona – sugerindo que o quadro não é leve.

Interessante notar que em nenhum momento aventaram a possibilidade de usar Cloroquina ou Ivermectina.

Os médicos do presidente, com certeza, estão buscando as melhores opções disponíveis.
Mas certamente sabem que ainda não temos uma bala de prata.

Por Renato Matos 28/09/2020 - 11:32Atualizado em 28/09/2020 - 14:50

Frente a dificílima decisão de retomada das aulas presencias, a Sociedade Brasileira de Pediatria publicou suas orientações no dia 25 passado.

Reconhece que as lacunas no conhecimento da dinâmica de transmissão do SARS-CoV2 limitam a capacidade de avaliar com segurança os riscos associados a tal decisão. No Brasil a faixa etária de 0 a 19 anos representa 0,7% do total de mortes, o que reforça o conhecimento de que neste grupo preponderam casos leves ou assintomáticos.

O documento da Sociedade de Pediatria pondera que a probabilidade destas crianças, quando assintomáticas, transmitirem a infecção seja possivelmente menor, já que não apresentariam sintomas que contribuam para a infectividade, como tosse e espirros. 

Neste contexto de falta de evidências mais robustas, estas diretrizes pedem que a tomada de decisões seja baseada em características locais, tanto epidemiológicas como dependentes das estruturas física e de pessoal nas escolas. 

No aspecto epidemiológico cita guia de recomendações publicado pelo Centro de Controle de Doenças Infecciosas dos EUA em setembro de 2020. Neste documento o CDC avalia que o risco de transmissão é baixo ou moderado nos locais que registrem, respectivamente, menos de 20 ou 50 casos novos por 100 mil habitantes a cada 14 dias.

Recomendações: 

Rigorosas medidas de higiene pessoal e de superfície, associadas a medidas de distanciamento físico, com alternância de grupos em salas de aulas.
O espaçamento entre as cadeiras nas salas de aula deve respeitar o mínimo de 1, ou idealmente, 2 metros.
Triagem diária dos sintomas (febre, sintomas gripais ou gastrointestinais), com instruções expressas aos pais para reconhecimento destas manifestações.
Espaço reservado e pessoal treinado para acolhimento das crianças que iniciem com sintomas no período de aulas.
Exigência do uso de máscaras para crianças em condições de usá-las - há risco potencial de sufocamento em crianças menores de 2 anos
Disponibilidade de testes diagnósticos virológicos – PCR ou teste de antígeno - na Unidade de Saúde responsável pelo atendimento destas crianças.
Formação de comitês, com participação de técnicos da área da saúde e educação, que avaliem pontos específicos em cada escola, como número de banheiros, disponibilidade de pias, capacitação e proteção dos recursos humanos, transporte público utilizados pelos alunos, entre outros.

Adoção de modelo híbrido, com atividades presenciais intercaladas com remotas.
Respeito ao desejo daqueles que queiram ficar em casa, mesmo que motivados “apenas” pelo receio de retornar ao convívio social neste momento.
Conclui que “o retorno às aulas presenciais em um ambiente seguro é de extrema importância para a saúde de crianças e adolescentes. E, para atingir este objetivo, há exigências estruturais, higiênicas, sanitárias e comportamentais que necessitam ser planejadas e implantadas nas escolas”.

Por Renato Matos 23/09/2020 - 10:27Atualizado em 23/09/2020 - 10:54

A gripe espanhola de 1918 é considerada uma das piores pandemias da história. Estima-se entre 20 e 50 milhões as mortes no mundo – para comparação, estamos alcançando agora o primeiro milhão com o coronavírus. Chegou no Brasil por Salvador, onde havia aportado o navio britânico Demerara, com vários infectados a bordo. Rapidamente espalhou-se pelo país.

No auge da pandemia, na cidade de São Paulo - que possuía na época 500 mil habitantes - morriam em torno de 250 pessoas por dia. No Rio de Janeiro, em meados de outubro, foram enterrados em apenas três dias 1087 pessoas. Os detentos eram “convocados” para proceder ao transporte e enterro dos diversos corpos que permaneciam insepultos nas ruas da cidade.

Assim como agora, as pessoas achavam impossível não ter algum medicamento que pudesse prevenir ou curar a infecção. Estava pronto o espaço para a venda e abuso de produtos inúteis, viabilizado pelo pânico das pessoas.

Contra a espanhola, como era conhecida, uma alternativa era o Extrato Tonsilar do Instituto Butantã, que também oferecia o Extrato Suprarrenal e o Óleo Canforado. De outros laboratórios eram recomendados a Água Purgativa Queiroz e as Pílulas Sudoríficas de Luiz Carlos, estes como preventivos e curativos.

A doença poderia ser enfrentada também com o Salkinol número 1. Mas, havendo tosse, o indicado era o Salkinol número 2.

Um dos medicamentos mais procurados, anunciado como “o remédio da gripe espanhola”, a Grippina era produzida pelo laboratório de Alberto Seabra, famoso médico homeopata paulista. A Bayer trouxe a fenacetina, sintetizada na Alemanha poucos anos antes – “tiro e queda contra a influenza”.

Hoje proibida na maioria dos países por seus efeitos cancerígenos e outros graves efeitos colaterais, a fenacetina atualmente é a substância mais misturada com a cocaína no Brasil – barata, de consistência e cor semelhantes, aumenta o volume da droga sem chamar a atenção.

Como nos conta João Paulo Martino, no seu livro “1918. A Gripe Espanhola – os Dias Malditos” o Serviço Sanitário utilizava espaço nos jornais para divulgar os cuidados que a população deveria seguir. No boletim de 16 de outubro era publicado: “Para evitar a influenza, todo indivíduo deve fugir de aglomerações, principalmente à noite, não frequentar teatros, cinemas, não fazer visitas e tomar cuidados higiênicos com as mucosas”.

Inacreditavelmente, um século depois, a história se repete.

Por Renato Matos 17/09/2020 - 21:02

A epidemia do SARSCoV 1 – a primeira do século 21 - iniciou na China, na província de Guangdong. 

Os primeiros casos surgiram em novembro de 2002 – uma síndrome gripal evoluindo para pneumonia atípica, com alta mortalidade.

A porta de saída para o mundo foi Hong Kong, que faz fronteira com aquela província chinesa.
 
O carreador do novo vírus para Hong Kong teria sido um nefrologista chinês. No mesmo andar do hotel onde estava hospedado havia pessoas do Canadá, Singapura e do Vietnã. Infectados, ao voltarem aos seus países, levaram o desconhecido agente. Que acabou atingindo 26 países.

Acredita-se que o médico tenha sido infectado por um lojista do mercado de peixes de Guangdong. Internado, infectou 23 médicos e enfermeiros, dezenas de pacientes e familiares – ficou conhecido entre os médicos como o “Rei do Veneno”.

Entra aí a culinária e a cultura.

Numa população de 1,3 bilhão de pessoas o consumo de animais silvestres era comum.  Naquela época de grandes mudanças sociais que acompanharam o desenvolvimento econômico chinês, surgiu um novo ingrediente.  

A ingesta de animais exóticos, muitas vezes in natura, passou a ser visto como uma forma de diferenciação social, trazendo aos adeptos boa reputação, prosperidade e sorte.
 
Milhares de restaurantes eram especializados naqueles pratos. 
A época ficou conhecida como a Era do Sabor Selvagem – que incluía a degustação de praticamente todas as espécies de animais, comprados em imensos mercados com péssimas condições de higiene. História que já conhecemos. 

Em março de 2003 a Organização Mundial de Saúde emitiu um alerta global chamando a atenção sobre uma nova pneumonia atípica, de causa desconhecida.

O agente causador não havia sido isolado, mas sabia-se que era transmitido por via aérea.

Só em maio – 6 meses após o relato dos primeiros casos – um grupo de médicos de Hong Kong publicou na revista Lancet o artigo “Coronavírus como uma possível causa da síndrome respiratória aguda grave”.

A grande diferença daquela epidemia em relação a atual é que os infectados pelo SARS-CoV1 já tinham muitos sintomas quando começavam a transmitir o vírus, o que facilitava o reconhecimento e isolamento dos casos. Os assintomáticos, se é que os havia, não transmitiam a doença.

Ao final, 774 mortes no mundo. 

Desapareceu completamente 8 meses depois do seu início. Sem tratamento ou vacina que mudassem o seu curso natural – apenas com rígidas medidas de isolamento, quarentena, higiene e uso de máscaras.

Já vimos que agora o veneno é mais potente. Cada vez mais conectados, precisamos de uma ágil, resoluta e segura coordenação global.

Por Renato Matos 14/09/2020 - 08:28Atualizado em 14/09/2020 - 08:30

Febre tifoide é uma doença infecciosa causada pela Salmonella typhy. Os humanos são os únicos reservatórios e é geralmente transmitida por alimentos contaminados.

Não é a mesma coisa que tifo – este causado por bactérias do gênero Rickettsia, parasitas de pulgas, piolhos e carrapatos.

Os sintomas habituais são febre, dores abdominais e diarreia. Alguns casos evoluem para perfuração intestinal e peritonite.

Na era pré antibiótica a mortalidade era alta – até 15%.

Habitualmente é uma doença aguda e limitada. No entanto, em torno de 5% dos infectados podem continuar transmitindo a doença por muitos anos - são os portadores crônicos assintomáticos.

Entra aí Mary Mallon, imigrante irlandesa que chegou nos Estados Unidos em 1883 para trabalhar como cozinheira. Fixou-se em Nova York.

Algum tempo depois começaram a aparecer casos de febre tifoide naquela cidade, surpreendentemente em famílias de alto poder aquisitivo. A doença não era rara naquela época, mas geralmente afetava subúrbios e áreas pobres da cidade.

Uma boa avaliação epidemiológica ligou os casos com Mary Mallon. Como naquela época não havia antibióticos que pudessem tratar a Salmonella, o caminho era o isolamento da carreadora crônica.

Durante 3 anos ficou isolada em uma cabana.

Comprometendo-se a mudar de ramo, foi finalmente liberada para retomar a sua vida normal.

Mas cozinhar era sua profissão – voltou a trabalhar em casas de famílias.

Novos casos voltaram a aparecer nas áreas ricas da cidade, rapidamente ligados à nossa personagem assintomática.

Estima-se que tenha infectado em torno de 50 pessoas, com 3 mortes.

Não houve mais negociação – passou os últimos 23 anos de sua vida em isolamento compulsório - até sua morte.

Esse padrão de transmissão parece ocorrer também na maior parte das doenças infecciosas transmitidas por via respiratória. Geralmente estes super transmissores são assintomáticos ou pouco sintomáticos e frequentam lugares que favorecem esta disseminação.

No caso do coronavírus sabemos que o número básico de reprodução (R0) fica entre 2 e 3 – sem medidas de controle cada indivíduos infectados transmite a doença para outras 2 ou 3 pessoas.

No entanto, um único indivíduo pode infectar dezenas ou centenas de pessoas.

Alguns matemáticos, que buscam regras na natureza, chegam a relacionar esta forma de transmissão ao princípio de Pareto, ou regra 80/20, que afirma que, para muitos eventos, aproximadamente 80% dos efeitos vem de 20% das causas.

Cuidado, portanto, com nossos super transmissores.


 

Por Renato Matos 08/09/2020 - 16:41

A esperada vacina contra o coronavírus ainda não chegou e já começaram os questionamentos quanto a sua obrigatoriedade.
Este não é um assunto novo, e, aqui mesmo no Brasil, já tivemos um sangrento episódio relacionado com o assunto.

No início do século passado o Rio de Janeiro era o principal porto da América do Sul.
O grande problema - desviando os navios para outros portos do continente - eram as doenças infecciosas. 
Malária, febre amarela, peste bubônica, tuberculose e principalmente a varíola, com sua imensa mortalidade, eram as principais. 
A cidade era conhecida no exterior como o “túmulo dos estrangeiros”.

Num amplo programa de modernização e saneamento do país, o presidente Rodrigues Alves (que acabou morrendo por complicações da gripe Espanhola) foi buscar o médico sanitarista Osvaldo Cruz, que havia chegado há pouco de Paris.
De família rica, completou sua formação no Instituto Pasteur, na época o maior centro de estudos de doenças infecciosas do mundo. 
Para aceitar o cargo, equivalente ao de Ministro da Saúde, pediu ampla liberdade de ação.
Começou pela febre amarela.

Já se sabia na época que era transmitida por mosquitos.
Como o seu controle exigia a pulverização compulsória das casas com altas doses de inseticidas, aplicadas por técnicos do governo, a popularidade do sanitarista começou a ser abalada.
Até aí sem maiores repercussões sociais.

A situação mudou quando ele tentou implementar a vacinação compulsória contra a varíola. 
Esta vacina não era nova. 

Na verdade, foi a primeira a ser desenvolvida e vinha sendo usada em larga escala em outros países. Na Alemanha desde 1875.
Após meses de exaltada discussão no Congresso Nacional, no dia 9 de novembro de 1904 foi sancionada a lei que a tornava obrigatória.
Foi o estopim para aquele que foi considerado o levante popular mais indomável do país, que ficou conhecido por Revolta da Vacina.

Como sempre havia interesse políticos associados. Lauro Sodré, senador, já havia criado a Liga contra a Vacina Obrigatória. 
Numa época de grandes pudores, o que de fato levou a população já incomodada a entrar em luta aberta contra as forças do Estado, foi que esta vacinação obrigaria as mulheres a exporem, por força da lei, braços, ombros e, o pior de tudo – eventualmente nádegas - para os funcionários do governo. 

Foram diversos dias de lutas nas ruas da cidade, com centenas de mortos.
A lei foi revogada poucos dias depois.
A varíola foi erradicada – por força da vacina – apenas em 1980.

Por Renato Matos 03/09/2020 - 08:10

Os anos de prática de medicina nos deixam mais duros.  
Sentimos quando perdemos um paciente, mas mecanismos de defesa bem enraizados nos protegem contra sofrimentos maiores.
Mas nem sempre funcionam.

Em 2009 também vivemos uma pandemia, aquela provocada pelo vírus Influenza A H1N1.
Ficou conhecida como gripe suína - o reservatório intermediário do vírus.
Iniciou no México em março de 2009, teve casos relatados em 214 países e nos atingiu com mais intensidade no inverno daquele ano.

Morreram muito mais jovens. Totalmente diferente do padrão da gripe sazonal – e do coronavírus - onde os idosos são os mais atingidos. 
Os mais velhos teriam certa imunidade pelos contatos prévios com o vírus – o H1N1, que também causou a gripe espanhola em 1918, circulou até 1958.
O Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo contabilizou durante toda aquela pandemia de Influenza 2.098 mortes no país – a mortalidade de 2 dias de coronavírus. 

Tínhamos o Tamiflu, que apesar de efeitos longe de espetaculares, nos ajudou a passar por aquela fase sem maiores perdas.
E no final de 2009 já chegava a vacina específica - que já existia para outros vírus influenza - e foi adaptada para aquela nova cepa viral.  
Os estados mais afetados foram os do sul do país, com o Paraná tendo o maior número de casos por habitante.

Quatorze meses depois do início, a OMS declarou oficialmente o fim da pandemia

Aqui em Criciúma na época o Prefeito também era Clésio Salvaro. 
Um vírus menos letal do que inicialmente considerado, além de diversas estratégias de mobilização e pronto atendimento da população (inclusive a montagem de um hospital de campanha próximo ao Hospital S. José) foram decisivos para um grande sucesso.
Nenhuma pessoa morreu em nossa cidade. 

Pouco depois daquela fase mais pesada fomos chamados para atender uma paciente, lembro que professora, transferida de Orleans. Veio direto para a UTI do Hospital S. João Batista. Chegou já em parada cardiorrespiratória e as manobras de ressuscitação fracassaram.
Na saída da UTI, os olhos de uma menina, talvez uns 12 anos, me fitavam angustiados. Suplicantes até.
“E a mamãe doutor, melhorou?”

 Perguntou com timidez, visível pavor e um fiozinho de esperança.
Naquele momento todas as habilidades para suportar melhor as mortes foram por terra. 
Vi ali, congelado, todo o imenso sofrimento que viria.
Sempre que vejo essa imensidão de vidas perdidas, mortes evitáveis, lembro dos olhos da menina.

Por Renato Matos 31/08/2020 - 09:02Atualizado em 31/08/2020 - 09:03

A necessidade de entender e tentar prever o comportamento de doenças infecciosas levou a criação de modelos que, com simulações numéricas, mostrem caminhos para interferir na sua propagação. 

Um dos mais antigos, conhecidos e utilizados é o modelo S-I-R. 

S de suscetíveis – indivíduos saudáveis que são vulneráveis a contrair a doença. 
I de infectados – aqueles que contraíram o agente patogênico e se tornam vetores de propagação da doença. 
R de recuperados: os infectados que se curaram – ou morreram. E que deixam de ser suscetíveis. 

O trabalho inicial que avaliou estas interações foi publicado em 1927, por Kermack e McKendrick. 

O artigo de amigável título “Uma contribuição para a teoria matemática das epidemias” esconde 20 páginas de complexas manipulações e equações diferenciais. 

Wiliam Kermack, um dos autores, tem uma história incomum. Escocês, formado em matemática e química, ficou completamente cego aos 26 anos em consequência de uma explosão acidental enquanto trabalhava no seu laboratório. 

Curioso e determinado, não abandonou a carreira e continuou suas pesquisas com a ajuda de colegas, aprimorando a sua já extraordinária capacidade de fazer cálculos mentalmente. 

Voltando ao SIR, dentro das simplificações necessárias para a formulação matemática, o modelo considera estanques aqueles três compartimentos - suscetíveis, infectados e recuperados. 

A passagem de um estágio para o outro se faz sem volta. 

A fórmula não vale para doenças que não geram imunidade – que pelo menos por enquanto não parece ser o caso do coronavírus – onde os recuperados podem voltar a ser suscetíveis. 

Trazendo para a atual pandemia: 

A estratégia de imunização de rebanho, buscando reduzir os suscetíveis, já provou que cobra um preço altíssimo em número de vidas. 

A vacina, que pode levar os suscetíveis para recuperados sem passar pela perigosa fase dos infectados/doentes, ainda está em andamento. 

Para evitar a propagação da epidemia, hoje, nos resta evitar que os suscetíveis se infectem. 

A doença tende a regredir – ou desaparecer – quando o número de reprodução fica abaixo de 1 - cada indivíduo infectado transmitindo a doença para menos de uma pessoa. 

Não é ideologia – é matemática.

Por Renato Matos 26/08/2020 - 10:55

Alguns dizem que as medidas mais rigorosas adotadas em nosso estado no início da pandemia só atrasaram a chegada para valer do coronavírus – seria preferível ter logo enfrentado o problema, sem o tal do achatamento da curva.
Será?

Compartilho a opinião de vários especialistas – nenhum de nós viveu uma situação tão dramática, tão fora de controle. O coronavírus nos pegou totalmente vulneráveis. Os conhecimentos foram surgindo em tempo real, quando já estávamos tratando pacientes extremamente graves. Informações vindo de todos os lados. Das fontes tradicionais às mais bizarras. 

Nós, profissionais da saúde, aprendemos a nos proteger melhor. Estamos nos infectando e morrendo menos. Logo compreendemos que não estávamos lidando apenas uma doença do aparelho respiratório – não era só uma pneumonia viral. O coronavírus traz também importantes alterações no sistema de coagulação do sangue – trombos se alojando em vasos pulmonares eram corresponsáveis pela brutal insuficiência respiratória. 

O uso correto de anticoagulantes melhorou - e muito - o prognóstico destes doentes. 

Fomos reconhecendo – e apreendendo a manejar - manifestações cardíacas, neurológicas, gastrointestinais e renais. Percebemos a imensa cascata inflamatória. Na tentativa de vencer o vírus o organismo lança mão de diversas substâncias que podem se voltar contra células saudáveis. 

Nesta linha, naqueles pacientes que precisam de oxigênio, o uso da dexametasona - um corticoide barato e antigo, desenvolvido em 1957 – reduziu a mortalidade em 30%. Nenhum outro medicamento até agora mostrou eficácia comparável na redução do número de mortes. 

O uso de soro de convalescente, tratamento centenário, voltou à tona, apesar de resultados ainda discutíveis. 

A utilização correta de técnicas de ventilação mecânica - muitas otimizadas durante a pandemia – e o treinamento das equipes, salvou milhares de pessoas. Uma análise recente de 24 estudos observacionais, publicado no jornal Anaesthesia, mostrou que a taxa de mortalidade em pacientes com Covid19 que precisaram de atendimento em unidades de cuidados intensivos, caiu de 60 para 40% de março até maio deste ano. Bom, mas uma taxa ainda muito alta comparada com os 20% observados em outras pneumonias virais.

E, sim, aprendemos que medidas de isolamento físico, higiene pessoal e uso adequado de máscaras podem fazer uma imensa diferença, permitindo inclusive que voltássemos a trabalhar com maior segurança. 

Este tempo também nos deixou mais perto de uma vacina que pode virar o jogo definitivamente a nosso favor. 

Sem dúvidas, está valendo a pena.

Por Renato Matos 23/08/2020 - 07:44Atualizado em 23/08/2020 - 07:44

No início do século passado as principais causas de morte eram, de longe, as doenças infecciosas. Pneumonia, tuberculose e gastroenterite matavam a maior parte das pessoas, muitas vezes ainda crianças. “Quem tem um não tem nenhum”, era um provérbio da época, que retrata o dado demográfico de uma mortalidade infantil ao redor de 50% e nos recorda que, para ter um filho, as famílias deviam colocar no mundo pelo menos dois.
As melhorias nas condições sanitárias, os tratamentos efetivos e as vacinas foram mudando gradualmente este cenário. No Brasil e no mundo. Hoje as principais causas de mortes são as doenças cardiovasculares, entre elas o infarto do miocárdio e o acidente vascular cerebral. Na sequência as mortes provocadas por câncer. Um pouco abaixo, os homicídios - no ano passado tivemos pouco mais de 40 mil assassinatos no país - uma das mais altas taxas por habitante do mundo, segundo a
Organização Mundial da Saúde. Para chamar a atenção sobre a magnitude das doenças cardiovasculares no país, a Sociedade Brasileira de Cardiologia criou o Cardiômetro.
No modelo do Impostômetro, que fornece em tempo real o que o país está arrecadando (este ano já um pouco mais de 1,3 trilhão de reais), busca chamar a atenção sobre o número absurdo de mortes.
Como a maior parte destas perdas podem ser evitadas ou postergadas, este instrumento, além de mostrar o tamanho do problema, chama a atenção sobre importância do tratamento dos fatores modificáveis de risco – obesidade, sedentarismo, hipertensão arterial, diabete mellitus, tabagismo, entre outros. Acessando hoje o Cardiômetro vemos que nos últimos 22 dias morreram 23.800 pessoas por todas as doenças cardiovasculares no Brasil – infarto, arritmias, insuficiência cardíaca, miocardite, acidente vascular isquêmicos e hemorrágicos etc. Dividindo pelo número de dias, em torno de 1000 mortes diárias – a média histórica dos últimos anos.
Aproveitando, uma das afirmações que mais circulam nestes meses de pandemia é que morrem muito mais pessoas infartadas ou de câncer do que por complicações associadas ao novo coronavírus. 
Há alguns meses morrem tantas ou mais pessoas pelo Covid-19 no Brasil do que todas – todas - as doenças cardiovasculares. E muito mais do que de câncer, doenças respiratórias crônicas, acidentes ou homicídios.
No texto introdutório do Cardiômetro a Sociedade de Cardiologia afirma que criou este medidor porque, apesar das doenças cardiovasculares serem as que mais matam no país, muita gente não se preocupa. Com o coronavírus também não.

Por Renato Matos 19/08/2020 - 21:44Atualizado em 19/08/2020 - 21:45

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (em inglês: Centers for Disease Control and Prevention – CDC) é um dos mais respeitados centros de pesquisa sobre doenças infecciosas do mundo. Há poucos dias atualizou as informações sobre o tempo de isolamento para doentes com o Covid-19.

Novos e mais robustos estudos mostram que quando pesquisado pela técnica do RT-PCR (aquela do “cotonete”) o novo coronavírus pode ser encontrado nas vias aéreas superiores por até 12 semanas. No entanto, após 10 dias dos sintomas iniciais, em pacientes com doença leve a moderada, não foram encontrados vírus competentes para replicação.

Ou seja, o teste pode resultar positivo – até porque o exame do RT-PCR pode detectar pequenos fragmentos de vírus, mesmo quando ele já está morto – mas estes vírus/fragmentos não tem a capacidade de infectar outras pessoas.

A exceção se daria naqueles pacientes que tiveram formas graves da doença ou são imunodeprimidos. Nestes, vírus passíveis de serem transmitidos foram
encontrados até 20 dias após o início dos sintomas.

Não existem estudos que validem estes achados em crianças – todos estes trabalhos foram feitos em adultos. Segundo o CDC estratégias baseadas em testes (RT-PCR) para determinar o fim do isolamento domiciliar não são mais recomendadas, exceto em certas circunstâncias – pacientes imunodeprimidos ou situações especiais a serem
consideradas pelo médico assistente.

A determinação anterior dizia que o doente deveria ficar isolado por no mínimo 10 dias após o início dos sintomas desde que estivesse pelo menos 72 horas sem febre ou sintomas respiratórios.

As 72 foram reduzidas para 24 horas.

E a “melhora nos sintomas respiratórios” foi expandida para “melhora dos sintomas”, reconhecendo as novas apresentações que sabemos ser associadas a infecção pelo novo coronavírus. 

Para os assintomáticos, o isolamento pode ser descontinuado 10 dias após a data da realização do PCR.

O CDC diz também que, apesar de relatos esparsos, até o momento a reinfecção pelo Covid-19 não foi definitivamente confirmada.

Sabe-se, porém, que pessoas contaminadas com o betacoronavírus (parente dócil do Covid-19, agente de infecções leves) se tornam susceptíveis novamente após cerca de 90 dias.

Resumindo:
1. Os 14 dias de isolamento que adotamos por aqui estão de bom tamanho.
2. Não esperar resultados de testes de PCR para tirar pacientes do isolamento – a não ser em situações muito particulares.
3. Testes sorológicos (IgM/IgG) não tem nada a oferecer neste contexto.
4. Pacientes com quadros graves ou imunodeprimidos devem manter o isolamento por pelo menos 20 dias.

Por Renato Matos 16/08/2020 - 11:47Atualizado em 16/08/2020 - 11:51

O pulmão é um órgão excepcional. Formado por cerca de 300 milhões de alvéolos – minúsculos sacos aéreos – esticado como um tapete teria a superfície equivalente a uma quadra de tênis. 

Ar e sangue nos pulmões são separados por uma membrana com espessura difícil de imaginar - 200 vezes menor que uma folha de papel. Esta estrutura imensa e delicada faz com que a absorção de gases ou partículas seja absurdamente rápida. Tanto para o bem quanto para o mal. Troca rapidamente com o ambiente oxigênio e gás carbônico. Mas também permite que uma droga inalada atinja o cérebro com velocidade equivalente à aplicada na veia. 

A Organização Mundial da Saúde estima que morram de forma prematura 4 milhões de pessoas ao ano em consequência de poluição ambiental em áreas externas. Entre as principais doenças provocadas ou exacerbadas estão doenças cardíacas, derrames cerebrais, diversos tumores - com destaque para o câncer de pulmão - e diferentes doenças respiratórias, agudas ou crônicas.

Os principais implicados nestas mortes são materiais particulados e gases como ozônio, dióxido de enxofre e de nitrogênio, além do monóxido de carbono. Juntando a vulnerabilidade da membrana alvéolo capilar com a poluição ambiental – grande parte dela emitida pelo cano de descarga dos carros – chegamos na nossa avenida Centenário.

Diariamente são centenas de pessoas caminhando, correndo e andando de bicicleta nas calçadas e canteiro central ao longo dos seus oito quilômetros. Ao lado, milhares de carros, numa intimidade semelhante àquela do ar e sangue nos pulmões. Para piorar, marcando encontro na mesma hora do rush. Poluição direto na veia.

Os estudos têm consistentemente mostrado que praticar exercícios físicos em lugares poluídos ainda é melhor do que não fazer exercício algum. Dr. Paulo Saldiva, ciclista e pesquisador da USP, uma das maiores autoridades em poluição atmosférica do país já fez seus cálculos: “Fazendo uma conta muito contra a bicicleta, calculo que eu perca uns cinco ou seis meses de vida por causa da poluição que recebo ao pedalar. Mas eu ganho uns três anos e meio ou quatro anos graças ao exercício. Dá um saldo positivo de alguns anos”. Mas, já que conseguirmos vencer a preguiça, vale a pena procurar um lugar mais seguro – e temos lugares imensamente mais adequados do que a nossa principal via axial.

Por Renato Matos 12/08/2020 - 16:05Atualizado em 12/08/2020 - 16:06

O nosso código de ético é enfático – “é proibido ao médico prescrever tratamento ou outros procedimentos sem exame direto do paciente”. Sem espaço para atendimento virtual.

A pandemia levou o Conselho Federal de Medicina a flexibilizar esta norma e implementar em caráter emergencial e temporário a telemedicina no país. A liberação ocorreu em 23 de março - tínhamos então 34 óbitos pelo novo coronavírus.

Os evidentes riscos do atendimento presencial para os pacientes e profissionais da saúde tornou a decisão inevitável.  E nós que havíamos aprendido que o exame físico era inseparável da consulta médica, tivemos que nos adaptar.
Melhor que na nossa especialidade quase sempre o diagnóstico é inferido ao final da anamnese - a fase inicial da consulta onde ouvimos, de forma padronizada, a história do paciente.

Logo surgiram as plataformas de atendimento que inclusive permitem a gravação de toda a consulta, gerando a necessária segurança jurídica. O agendamento é feito da forma tradicional, com a secretária no consultório.

Combinado o horário, a conexão é feita através do endereço de e-mail. Aí a primeira surpresa nesta medicina virtual – muitas pessoas não têm e-mail. Buscamos um emprestado. Mas as vezes só o WhatsApp mesmo – esse é universal, até os
mais velhos se viram bem com ele.

Sempre no início da consulta uma preocupação – a conexão vai dar certo? O paciente vai saber acessar a plataforma? A tranquilidade chega quando vemos e ouvimos o paciente – o sistema está funcionando. Daí para a frente é como se estivéssemos no consultório.

É fácil estabelecer a empatia - relação médico paciente independe da forma de conexão. A expressão facial e o padrão respiratório do paciente já nos permitem avaliar de pronto a gravidade da situação.

A falta do exame físico pode ser parcialmente substituída por uma anamnese mais acurada e detalhada. Os exames laboratoriais e radiológicos, quando necessários, são solicitados e os resultados rapidamente acessados.

Em novo contato virtual explicamos as condutas a serem tomadas e encaminhamos o tratamento. A receita chega diretamente no celular do paciente que, apresentando o QR code na farmácia, retira seus medicamentos. Diferente da consulta tradicional, o que realmente muda é a frequência dos retornos.

Especificamente no caso dos pacientes com coronavírus, o acompanhamento é diário até a resolução do processo. Método laborioso, mas fundamental numa doença em que tudo pode mudar em poucas horas.

Com suas limitações a telemedicina tem muito a oferecer. Bem regulamentada e feita de forma ética deve permanecer após a pandemia.

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