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Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 12/04/2018 - 21:37Atualizado em 16/04/2018 - 16:04

Nos últimos dias vimos a rivalidade elevada ao nível máximo nas discussões políticas entre brasileiros de lados opostos.
O senso comum sempre nos alertou para o fato de que não devíamos discutir política, assim como não devíamos discutir futebol e religião.
Porém, já estamos bem distantes da época em que "sobrevivíamos apesar de Brasilia" - como disse em uma de suas entrevistas o psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes.
Atualmente não conseguimos sobreviver sem fazer a nossa parte para mudar o que acontece em Brasilia. 
As discussões sobre politica estão acontecendo com frequência entre familiares, colegas de trabalho e amigos - mesmo que estejamos carentes de fontes confiáveis e seguras para fundamentar nossos argumentos e, embora, muitas vezes tenhamos que nos basear em informações de baixa qualidade ou ainda confiar em notícias sem que tenhamos como fazer os devidos questionamentos sobre as mesmas. Está aí a internet que não me deixa mentir!
Nas redes sociais não tememos fazer afirmações polêmicas pois estamos protegidos, olhando para a tela do computador ou celular e não nos olhos do nosso interlocutor. Torna-se fácil argumentar com informações fictícias, contra-argumentar com fake news e depois xingar, bloquear e/ou desfazer a amizade.
Nas redes sociais, o defensor de direita ou de esquerda encontra um território propício para entrar em rivalidade pois sua integridade física esta assegurada. É importante dizer, que o mesmo não se aplica necessariamente a sua integridade mental pois é cada vez maior o número de pessoas que deixam as redes temendo por sua sanidade. Estes são os mais sensíveis à fala do outro, que não resistem a tomar partido mas depois sofrem com as agressões verbais recebidas.
No bojo da rivalidade existente em nosso país vem crescendo o ódio que fere através de palavras ditas e não ditas - ou que não são mais permitidas nas redes sociais. 
Na vida real, sem a tela do computador como escudo de proteção, em suas casas ou fora delas, nas ruas, nas praças, nos locais de protesto, a rivalidade toma outra dimensão: delimita territórios, divide, segrega, separa inclusive pessoas que tem fortes vínculos afetivos. 
Os últimos dias no Brasil não nos ensinaram apenas sobre cidadania e justiça - ou a falta dela - ensinaram também como é torpe, tanto a vitória quanto a derrota, para quem não sabe competir. 
Para nós e nossos filhos, infelizmente, uma lição de NÃO saber ganhar e de NÃO saber perder. 
Esses últimos dias assemelharam-se ao final de um campeonato, em seu jogo decisivo que, lamentavelmente, torna-se violento.
Que tem torcida contra torcida, indo as vias de fato e que, mais muito mais do que a favor de seus times, querem acabar com o oponente.
Assemelharam-se em certa medida também aos conflitos que acontecem em nome da religião onde os fanáticos religiosos até matam e morrem em nome do que acreditam.
Na politica, assim como na religião e no futebol, a paixão pode cegar.
A cegueira passional tolhe o direito de expressão, seja lá o que for que queiramos expressar, entorpece o pensamento das pessoas a ponto de quererem homogenizar as falas numa tentativa inglória de homogenizar os diferentes pensamentos. 
Nós nunca pensaremos de modo igual ainda que tenhamos ideais semelhantes pois os caminhos para se chegar a um mesmo lugar podem ser muitos. 
Ao expressarmos nossos ideais políticos, muitos de nossos princípios e valores ficam expostos e essa é a liberdade de expressão a que todos nós temos direito. A rivalidade política vigente tenta nos roubar esse direito.
Está difícil acreditar que podemos ser apenas competidores de lados opostos em termos de politica mas com um objetivo em comum: fazer o Brasil dar certo. Porque um lado está simplesmente negando o outro, não há mais diálogo entre os diferentes lados, o que nos faz questionar: como um país pode dar certo com um povo rejeitando o diálogo e cultivando a rivalidade entre si? 
Tudo isso reflete nas relações...
Muito do que acontece nas relações nesse tempo de rivalidade politica é competição - a boa e velha competição para ver quem ganha. Todos nós competimos, alguns são mais ou menos competitivos mas, se analisarmos com sinceridade nossas relações familiares, no trabalho, relações de amizade, namoro, casamento, etc, perceberemos que a competitividade existe pelo menos em uma dessas relações, quando não em mais de uma ou, até mesmo em todas - no caso dos mais competitivos. Isso em si, não é bom nem ruim, pode ser importante pois nos localiza em relação ao outro e, tendo o outro como referência, competir com ele pode ser a mola propulsora para nos aproximarmos daquilo que desejamos. O problema reside no fato de que em nome da competição tornemos o outro um inimigo, um rival que precisa ser destruído para que nós possamos ganhar.
Tomando como verdade o fato de que a responsabilidade dos rumos políticos do Brasil é nossa - e isso significa dizer que precisamos vigiar constantemente nossas ações para não incorrermos nos mesmos erros dos políticos que criticamos - podemos competir pelas melhores ideias e propostas, seja nas ruas ou nas urnas, competição esta que terá efeito na nossa motivação por um país melhor e até no nosso desempenho em busca disso.
Mas seja na politica ou nos relacionamentos, para competir está faltando capacidade empática. Só a empatia pode quebrar os muros erguidos pela rivalidade. Empatia: a capacidade de se colocar no lugar do outro e tentar sentir o que ele sente, como ele sente, de que jeito ele sente. 
Só a empatia pode nos levar a autocrítica que pode nos devolver a capacidade de diálogo e nos fazer adicionar novamente aquele amigo excluído do Facebook durante o impeachment da ex-presidenta ou a prisão do ex-presidente.
Para quem prioriza os relacionamentos, fica a dica.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 03/04/2018 - 17:34

Na semana passada falamos sobre o Ninho Vazio.

Os filhos crescem e a gente envelhece.
E é justamente quando os filhos crescem e vão viver suas vidas ou, quem não tem filhos, entre 45 e 55 anos, que o envelhecimento se evidencia com mais intensidade.
Em algum momento todos nós, sem exceção, olhamos a imagem refletida no espelho e estranhamos. Como envelheci neste ultimo ano - nós pensamos - ignorando o fato de que envelhecer é um processo que acontece diariamente, sem pausa e sem trégua.

Depois de vinte anos sem ver o amigo, nos deparamos com ele no corredor do supermercado e, estupefatos, pensamos: - Nossa! Como ele envelheceu! 

Mas...O que esperávamos? Que rejuvenescesse ao longo das duas décadas? 

Provável e lamentavelmente sim, é o que esperamos.

Afinal, é este o apelo generalizado através de promessas milagrosas da indústria dos cosméticos, dos procedimentos estéticos e das intervenções cirúrgicas: rejuvenesça!

Assim como o nascimento, o crescimento e o amadurecimento, o envelhecimento faz parte da vida. 

É inevitável e, sob certo ponto de vista, um privilégio pois, morrer cedo é a unica alternativa para o envelhecer.
Porém, de uns tempo pra cá, esse é o ponto de vista de poucos. 
A sabedoria que sempre foi valorizada e associada aos mais velhos perdeu espaço e credibilidade para a jovialidade ou o frescor da juventude. 
Velho respeitado, hoje em dia, é o velho jovem de corpo, mente e espirito. 
A mulher velha, a que se permitiu envelhecer, via de regra é considerada desleixada ou, na melhor das hipóteses, é tida como uma mulher sem vaidade, o que muitas vezes leva a julgamentos do tipo:  - autoestima baixa, falta de amor próprio, descaso com aparência - até o cruel e taxativo: embarangou!
A verdade é que a ação do tempo em nós é implacável; rugas, flacidez, perda dos contornos, ganho de peso; tudo isso e muito mais é parte do pacote denominado ENVELHECER.
Depois do fotoshop e de todas as intervenções estéticas, desde as minimamente invasivas até as que nos quebram e sugam sem piedade, envelhecer tornou-se "opcional". Entre aspas a palavra opcional.
Obviamente a ideia de adiar os resultados do processo de envelhecimento pode ser muito sedutora, algumas pessoas até justificam dizendo que as oportunidades de trabalho aumentam assim como as chances de conseguir um novo parceiro. 
Mas a verdade é que viver é despedir-se.
Assim como nos despedimos de nossos filhos quando deixam nossos lares, ou como nos despedimos dos nossos pais quando deixam esse mundo, temos que nos despedir de nós mesmos...  um pouco a cada dia.
Quem chega aos cinquenta pensando, sentindo e vivendo como pensava, sentia e vivia aos vinte anos? 
Nossas conquistas, nossas perdas, nossas vitórias e nossas derrotas não nos permitirão o auto-engano. 
Por que o corpo deve aparentar vinte anos se ele abriga memórias de mais de quarenta anos de vida?
Por que o rosto deve aparentar no máximo trinta anos se as nossas lembranças tem registros de cinquenta anos de vida?
Porque sim, porque queremos, porque podemos, são respostas que denotam o poder das escolhas.
Podemos escolher adiar ao máximo o envelhecimento, aparentando ser mais jovens do que realmente somos por tempo indeterminado.
Assim como podemos, também, escolher envelhecer sem adiamentos.
Permitam-me falar sobre esta escolha: ENVELHECER. 
Particularmente, não quero parecer jovem. Não quero parecer irmã da minha filha. Não quero elogios comparativos que fazem com que uma das partes saia lesada. Na verdade, eu nem considero este tipo de referência elogiosa. Quero envelhecer, faço questão disso! Ainda que eu sinta falta de muitas coisas que ficaram para trás com a juventude, folgo em saber de todos os meus ganhos por ser uma mulher madura. 

Neste ano faço cinquenta anos.Eu nunca consegui imaginar como seria viver todos estes anos. Mas eu os vivi. E eles me trouxeram cabelos brancos, rugas e muitas outras mudanças no corpo. 
Eu tenho um carinho enorme por todas estas mudanças, talvez até um apego, para que, além de mim, outras pessoas também possam constatar o óbvio: eu estou envelhecendo. 
Isso é sobre o direito de permitir que o tempo deixe suas marcas em nós.
Não é fácil, há quem não saia de casa sem maquiagem ou com o botox vencido. 
Há quem diga que não é a mesma coisa encontrar conhecidos na rua depois que inventaram os filtros do instagram. Não apenas porque não querem ser vistos com todas as suas imperfeições mas, também, porque lhes custa ver o outro como é, sem a luz ideal, sem o angulo perfeito, sem retoques, sem filtros.
Quanto a mim estou curtindo esta fase da vida. Se tiver sorte, vocês me verão a cada ano um pouco mais velha. E eu gostaria de ter reconhecido meu direito a ter cinquenta anos na cabeça, na alma e no corpo. Especialmente no corpo. Estou envelhecendo e estou feliz por isso. 
Como já cantou Arnaldo Antunes: "Não quero morrer pois quero ver Como será que deve ser envelhecer Eu quero é viver pra ver qual é E dizer venha pra o que vai acontecer."

E eu te convido a, esporadicamente, dizer não aos mecanismos antienvelhecimento.
Não é fácil, mas pode ser extremamente libertador. 
É que em ultima análise, considerando os aspectos que comentei, esse é um ato de rebeldia contra a ditadura da beleza.
É uma desobediência. 
É dizer um NÃO entre todos os SIM que a gente precisa dizer.
E, talvez, este seja o NÃO que a gente está precisando dizer.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 27/03/2018 - 17:39Atualizado em 03/04/2018 - 16:01

Quem é pai ou mãe sabe...

A gente ainda nem aprendeu a lidar com aquelas lembranças da nossa infância que insistem em permanecer, mesmo contra nossa vontade e quando percebemos já estamos lidando com a infância dos nossos filhos.

Aí, vamos deixando de lado as lembranças e questões mal resolvidas da nossa infância e adolescência e tratamos de ser um bom pai/uma boa mãe pra acompanhar a infância e adolescência deles.

O tempo vai passando e, entre alegrias e tristezas, nossos filhos  vão crescendo e a gente vai amadurecendo, na marra algumas vezes.

Porque por mais que nós priorizemos a criação e educação de nossos filhos, a nossa existência continua a exigir de nós.

Exige equilíbrio ao mesmo tempo que exige certos malabarismos.  Exige serenidade ao mesmo tempo que exige firmeza.

Exige sabedoria e, as vezes, exige que a gente chute o balde mesmo.

Exige resiliência e as vezes exige renuncia, desistência.

A vida exige que a gente a curta mas pra isso ela nos exige exige trabalho.

Então vamos administrando nossas vidas com todas as suas exigências, mais as questões mal resolvidas que insistem em permear tudo isso e, paralelamente, administramos a vida dos nossos filhos.

Na prática é assim:

Nasce o primeiro dentinho enquanto  a gente está lá tentando ficar mais bonito...fazendo um clareamento dentário.

Dão os primeiros passos enquanto a gente está buscando coragem pra encarar os desafios da vida, CAMINHAR e seguir em frente

Vão ao primeiro dia na escolinha enquanto a gente decide se volta ou não ao trabalho.

Chega o dia da  formatura da pré escola e a gente tem a festa dos quinze anos de formados do ensino médio. No mesmo dia!

Enfim o primeiro dia de aula no colégio grandão, primeiro ano... e a gente revive toda a nossa história dentro daquele mesmo colégio ou outo semelhante.

Eles escolhem a profissão enquanto a gente está insatisfeito com o trabalho, querendo dar outro rumo a nossa vida profissional.

Eles vão para a faculdade enquanto isso a gente se questiona sobre o que realmente quer da vida.

Eles encontram o amor da sua vida enquanto a gente vive  uma crise no casamento.

Eles vão morar fora enquanto isso a gente ali... na eterna duvida sobre deixar ou não o Brasil.

Eles voltam e um tempo depois eles nos comunicam que vão sair de casa, querem morar sozinhos.

Então...

Enquanto vivem as descobertas da liberdade e independência, nós descobrimos por experiencia própria o que significa a síndrome do ninho vazio.

Nós que sempre nos queixamos de ter que renunciar as nossas próprias lembranças, inseguranças, traumas e questões mal resolvidas como pai e mãe, agora temos tempo e espaço de sobra pra isso.

Porque ninho vazio é isso, tempo e espaço de sobra... não precisamos mais nos ocupar com as questões dos nossos filhos.

E sem saber o que fazer com isso começamos a remexer em baús de lembranças e rever fotografias e relembrar a infância deles... e a nossa própria infância.

E em determinado momento as lembranças da infância deles se confundem com as nossas próprias lembranças de infância. Pensamos em como agimos com eles e quando percebemos estamos pensando como nossos pais agiam conosco

e, as vezes, ficamos chocados como nossos erros foram semelhantes ao que nossos pais cometeram quando éramos crianças.

Noutras vezes, é a lembrança da rebeldia deles que é inacreditavelmente igual a que nós mesmos vivemos na nossa adolescência.

No tempo e espaço do ninho vazio a gente passa o passado todinho a limpo, pelo menos na nossa cabeça.

E a gente teme que eles nos culpem por seus traumas  e inseguranças.

Mas sabemos que um dia nos verão com olhos de pais.

E então poderão nos perdoar e aceitar como somos, com nossos erros e acertos.

Até porque, ao menos é o que se espera, a essa altura da vida, adultos com filhos adultos, nós também já perdoamos nossos pais.

 

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