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Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 12/06/2019 - 20:08Atualizado em 12/06/2019 - 20:20

Todos temos amigos, amores e paixões que não são mais.

Não moram mais onde moravam, geograficamente falando e dentro da gente também.

Não gostam mais do que gostavam.

Não fazem mais o que faziam.

Não se expressam mais como se expressavam.

Não nos procuram mais como procuravam.

Não são mais quem eram.

Não representam mais, para nós, o que representavam.

Permanecem apenas nas fotografias, num ou noutro objeto que lhes pertenceu e que ainda guardamos.

Não temos mais seus telefones, nem seus endereços reais ou virtuais. Ou temos, o que não é bom...

Não precisamos atualizá-los assim como não precisamos que nos atualizem sobre as suas vidas. Assim deveria ser...

O lugar deles não é nas nossas memórias recentes.

Jazem adormecidos em antigas recordações. Pelo menos deveriam...

Mas...basta que algo os desperte em nós para que tenhamos a certeza de que não são mais.

São apenas visitas que não queremos fazer, nem receber. Ou, pelo menos, não deveríamos...

Ainda os chamamos de amigos, de amores, de paixões.

Mas racionalizamos e percebemos que não temos mais nada em comum.

Nesse dia dos namorados, se esse é o seu caso, liga o som e canta bem alto com o Lulu Santos:

'Não te quero mal.

Apenas não te quero mais.'

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 22/05/2019 - 17:43Atualizado em 22/05/2019 - 17:51

São tantas esperas em tantas salas que perdemos a conta.

Procuramos alguém que nos enxergasse.

Alguém que visse em nós o que não queríamos mostrar. 

Alguém que pudesse ver o que nem sabiamos mais se existia em nós. 

Não seria qualquer pessoa. 

Precisava ser alguém que suportasse nos ver despidos de todas máscaras. E que, ainda assim, nos aceitasse.

Alguém que não tivesse medo de nós.

Alguém que desse o valor devido ao que somos, sem errar na medida.

Alguém que soubesse separar todo o nosso lixo emocional, verbalizado, exteriorizado, atentando para o que pode ser reaproveitado. 

Alguém que sorrisse com a paz de um anjo, satisfeito por presenciar um encontro 'nosso com nós mesmos'. 

Alguém que desviasse o olhar e ouvidos das bobagens que dizemos e fazemos para chamar a atenção, porém, sem nos dar as costas. 

Alguém que descrevesse as visões que tem de nosso passado e do nosso futuro sem receio de que não nos pertencessem. 

Alguém que dissesse que não há nada de errado conosco. 

Alguém que serenamente respondesse a nossa insistente pergunta, dizendo carinhosamente: - É isso o que você faz. 

Alguém que nos fizesse perceber em todas as pequenas ações que realizamos, que é isso o que nós fazemos. 

Alguém que ao acolher nos libertasse. E que, ao nos libertar, acolhesse nossa alma carente do 'para sempre'.

 

P.S. Escrevi pensando na sala de espera do psicólogo mas acredito que se aplica a muitas outras salas de espera.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 08/05/2019 - 17:05Atualizado em 08/05/2019 - 17:20

Está tudo bem.

Ou melhor, você está bem.

A vida continua acontecendo e nem tudo é do jeito que você quer. Mas você não está frustrado. Não está triste. Não está revoltado.

Não é que você não se importe. Você se importa numa medida que não o afeta negativamente. 

Passou a pensar sobre o que pode fazer para mudar o que incomoda.

Percebeu que muitas vezes nada pode fazer a respeito de certas coisas.

Parece que experimentou uma certa paz de espírito, embora a sensação seja a de se aconchegar para dormir um sono atrasado.

Sente-se bem a ponto de ajudar quem precisa. Estou aqui, é só chamar - você diz.

Não pode afirmar que sairia por aí procurando problemas para resolver, causas para se engajar, ideais pelos quais lutar. Mas reafirma para si mesmo que está pronto, caso seja chamado. Faz analogia com uma ambulância; assim como ela, não vai sair por aí em alta velocidade e com a sirene ligada sem que tenha sido solicitado. 

 

Também não está muito alegre, feliz ou animado. Nenhum evento à vista para o qual precise posar de eufórico e empolgado.

Há coisas, porém, que lhe deixam bem.

Possivelmente chame a atenção por demonstrar uma serenidade a qual julgam que não lhe pertence. Mas julgamentos não lhe incomodam. Causar impressões é o que menos interessa. Você está realmente sereno agora. Tanto que não lhe importa como você estará depois.

Tudo o que você tem é o agora e as turbulências do seu agora não lhe roubam a serenidade. 

 

Depois de tanto tempo você se sente novamente voltado para fora, para a vida, para o outro mas completamente seguro dentro de si mesmo.

Se dá conta de que viver, as vezes, é só respirar.

E para viver intensa e serenamente você deve respirar profundamente.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 18/04/2019 - 16:20Atualizado em 18/04/2019 - 16:38

Há períodos da vida em que olhamos pro nosso cenário e só vemos desânimo, preguiça e relaxamento. 

Como se estivéssemos boiando num lago de águas paradas.

Eventualmente, uma marola nos despeja na areia. 

Essa marola é como a nossa vontade que nos leva pra lá e pra cá.

Nós, nesses períodos, não temos vontade. De nada.

Logo nós, que já tivemos muita vontade de tudo...

Vontade é bom. É a melhor coisa do mundo!

Vontade é a vida do mundo.

Se eu tivesse direito a três desejos eu pediria vontade, vontade e vontade.

Vontade pro agora, vontade pra depois e vontade de reserva. Para nunca faltar.

Porque pode faltar tudo mas não pode faltar vontade. 

Pode faltar até saúde e paz. Com vontade a gente continua assim mesmo - e ainda dá um jeitinho de melhorar. 

Para correr atrás - do que for - tem que ter vontade.

Devia ser proibido faltar vontade.

Quem não a tem que o diga, não é mesmo queridos leitores? 

Não há nada mais injusto do que ser desprovido de vontade.

O mundo fica passando na nossa frente como um filme do qual somos meros espectadores.

A gente sabe que poderia estar atuando, contracenando, interagindo. 

Poderíamos, inclusive, ser protagonistas nesse filme.

Mas o máximo que a gente consegue é assistir.

E a gente assiste ao filme e assiste aos que nos assistem estarrecidos. 

A gente sabe que os que nos assistem querem nos sacudir. Eles são nossos familiares, nossos amigos...

A gente ouve as sugestões, as coisas que eles acham que poderíamos estar fazendo.

A gente ouve que tem que ter "força de vontade". E o melhor que a gente consegue é achar graça.

A gente não consegue, nunca conseguiremos explicar, o que é a falta de vontade.

Dizem que falta de vontade é defeito dos graves.

Dizem que aos maus políticos falta vontade. Que aos bandidos, criminosos e ladrões faltou vontade de estudar, de trabalhar, de se esforçar.

Pode até ser. Mas não lhes faltou vontade de trilhar o caminho da marginalidade.

Falta de vontade mesmo não leva a lugar nenhum; nem à politica, nem à bandidagem, nem à criminalidade e nem à ladroagem. 

Falta de vontade é 'joie de vivre', só que ao contrário; só que não, como dizem os jovens.

Se você não padece desse mal, nem queira saber como é. 

Nós que padecemos, sem vontade, até como consumidores somos 'inúteis'. Compramos o mínimo necessário.

Mas, meu amigo, você ficaria rico se pudesse nos vender vontade. Porque é muito ruim ser ou estar desprovido de vontade.

Eu imagino quem tem vontade é como o mar. As ondas sempre estourando na areia são as vontades todas que se apresentam. 

E quem não tem vontade é como um lago. Vez ou outra, por um acaso do destino, uma marolinha se forma. É a escassa e rara vontade se apresentando.

E há que se aproveitar. 

Nunca se sabe quando virá a próxima. Nunca se sabe por quanto tempo ficaremos a deriva, como meros espectadores.

 

Queridos leitores, julguemos menos e nos solidarizemos mais com quem não apresenta vontades.

Por si só esse fardo já é bastante pesado.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 05/04/2019 - 18:38Atualizado em 05/04/2019 - 18:42

Ela era só uma menina mas já havia caminhado muito.

Sempre lutara, muitas vezes consigo mesma, para que sua vida fosse melhor. Nunca deixara de buscar algo a mais - e melhor - para sua vida. Até nos lugares mais improváveis de encontrar ela foi, atrás dos caminhos que  poderiam levá-la a realizar seus sonhos.

Precisara pensar muito, durante muito tempo e, por último, precisou não pensar mais, para tomar uma importante decisão. Uma decisão da qual ela ainda não estava muito certa. O que ela sabia, sempre soubera, é que queria o melhor para sua vida. E ela sabia também que ficar bem era o melhor que podia fazer por quem amava. E ela amava muito sua mãe. Amava tanto que queria alcançar seu sonho só para depois poder entregá-lo a ela, como se entrega um presente. Mas ela sabia que antes de ir pra guerra e lutar por seu sonho ela teria que preparar-se. Ela não se sentia pronta. Precisava amadurecer, ampliar os horizontes de sua mente, aprender a se defender - dos outros e de si mesma. Ela precisava se fortalecer.

Então ela foi embora para outra cidade. Não levou muitas coisas. O que tinha de mais valioso na bagagem eram seus sonhos. No início era encorajador não estar carregando malas cheias de pesos inúteis mas, com o tempo, ela passou a olhar para sua mala e só ver sonhos. E ela sentia falta de todo o resto; da sua cama, seu travesseiro, sua família, seus amigos e de tudo o que poderia ter dado certo - mas que não deu. Ela se deu conta, de que junto com os sonhos, tinha saudade na bagagem. E então ela se agarrava aos sonhos para não sofrer com a saudade. Mas os sonhos pareciam nuvens, existiam e eram tão lindos, mas ela não podia tocá-los. Ela estava carente de contato e não podia tocar na única coisa que levara consigo.

Na nova cidade ela não tinha amigos, o que fez a bagagem ficar um pouco mais pesada, pois dentro dela - agora ela percebera - também havia solidão. Então ela foi ficando desanimada. Lamentava ter só sonhos, saudade e solidão. E uma rotina de trabalho e estudos que logo se iniciaria pois ela queria ser independente financeiramente e, também,  voltaria a fazer a faculdade que desejara. A noite, ela olhava para a lua e pedia que lhe desse forças. Então, a lua brilhava mais intensamente. Ela chorava sozinha perto de um vaso de violetas e elas começavam a desabrochar. Ela escrevia uma carta e quem recebia, sentia-a junto de si.

Ela nem imaginava a força que tinha e a luz que irradiava. Pedia que torcessem por ela e para que seus planos dessem certo. Ela só queria que todo aquele esforço valesse a pena. Ela nem percebia que já havia chegado lá. A menina era um guerreira valente que não se entregava nunca. Tudo o que ela precisava fazer ela estava fazendo e o universo só pedia que ela continuasse caminhando.

Mas ela nem pensava em parar...

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 27/03/2019 - 22:27Atualizado em 27/03/2019 - 22:40

Morei alguns anos numa cidade grande. Ela era grande se comparada com a cidade onde nasci.

Tudo era maior na cidade grande. De tudo, tinha muito mais na cidade grande.

Avançava os quarteirões com cuidado quando saia a caminhar.

Tudo era o desconhecido. Mesmo os cenários que já conheia. Porque sempre havia elementos novos neles.

Era como se eu fosse uma eterna turista.

Um pouco por isso, adquiri o hábito de só sair de casa levando uma câmera fotográfica.

Registrava tudo o que achava bonito.

Não porque tudo era belo e alegre ao contrário do que possam pensar.

É que, na verdade, na cidade grande havia muitas coisas feias e tristes. Coisas com as quais nunca irei me acostumar.

Certo dia vi um jacarandá repleto de flores roxas. 

Acima dele o céu esnobava um azul radiante enfeitado de nuvens brancas. 

O sol brilhava com intensidade.

Daria uma linda fotografia.

Embaixo dele, porém, estendido na calçada, dormia um rapaz.

Poderia ser a descrição de um momento de sossego. 

Mas o rapaz tinha as roupas sujas e rasgadas. 

Suas roupas grossas e quentes não condiziam com o dia quente.

Seus velhos calçados serviam-lhe de travesseiro. 

Tinha os pés machucados.

E a sombra do jacarandá não estava sobre ele.

Eu o avistei de longe. 

E quando já estava longe dele, eu ainda olhava para trás desejando que despertasse.

Pensei em acordá-lo. Em oferecer-lhe um copo d'água. Em convidá-lo para deitar-se a sombra.

Pensei em fotografar.

Pensei em fazer tantas coisas mas nada fiz.

 

Julguem-me.

Em minha defesa direi:

Tive medo de sua reação.

Não fui indiferente. Mas não soube o que fazer ou como fazer.

Continuei a caminhar fazendo uma prece por ele e desejando que alguém fizesse o que não fiz.

Naquele dia decidi que, mesmo que tenha que conviver com a frustração de não saber como agir, eu não permitirei que cenas assim se tornem comuns. Jamais serei indiferente.

É a minha consciência que não quero perder. 

Ninguém tira nada de uma pessoa consciente sem o seu consentimento.

Não poderão tirar minha tristeza. Mas também não poderão tirar minha alegria.

Eu me senti triste a sombra daquele jacarandá florido - como há tempo não me sentia.

Porque poderia ser meu irmão, meu filho, meu sobrinho jogado ali, sozinho, sem cuidados. 

Me senti triste porque poderia ser eu.

Mas, principalmente, porque não era eu.

E não sendo eu, nada pude fazer.

 

Seja a nossa cidade grande ou pequena façamos a nossa parte para que ela seja mais humana.

Um olhar amoroso sobre tudo e todos me parece ser o melhor caminho. Mesmo que em algumas situações não saibamos o que fazer.

A indiferença dos habitantes em relação as mazelas da cidade revela a pequenez dessa cidade, mesmo que seja uma cidade grande.

A consciência dos habitantes em relação as mazelas da cidade revela a grandeza dessa cidade, mesmo que seja uma cidade pequena.

 

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 19/03/2019 - 17:45Atualizado em 19/03/2019 - 17:48

Era final de março. 

Estava oficialmente encerrada a temporada de veraneio eu supunha.

Ir à praia depois da temporada era como ir à igreja quando não há missa, padre ou fiéis.

É o momento ideal para mim.

A praia estava com a maioria de suas casas fechadas. As ruas estavam desertas. 

Havia um vento varrendo o que sobrara do verão.

Era quente ainda. Mas poucas pessoas passeavam a beira-mar.

A luz do sol incidia quase outonalmente sobre nós e sobre todas coisas.

As coisas. Os carros. As casas.

Paramos o carro em frente a casa de praia da nossa família.

Como todas as coisas, lá estava ela, no mesmo lugar.

Assim são as coisas. Nós passamos, elas permanecem.

Incomodou-me num primeiro instante que a casa ainda estivesse lá.

Tantas pessoas já não estão.

O tempo, ultimamente, levando tanto consigo!

Mas a casa de praia não. 

O tempo não a levara. Ela estava lá. 

Estava com outras cores nas paredes e janelas. Tinta nova e fresca a cobriam. A grama que a cercava estava aparada. 

Tanto tempo depois e eu a encontrei renovada. 

Se pudéssemos conversar eu lhe diria, ironicamente, o quanto rejuvenesceu.

Desci do carro e parei na calçada em frente ao muro da casa. 

Com o olhar, desafiei a sua aparente juventude.

Corajosamente, pulei o portãozinho que lhe dava acesso. 

A grama verde e bem cuidada parecia enroscar-se em meus pés. 

Senti que a casa, imponentemente, demarcava seu território de canto a canto.

Eu era uma intrusa naquele terreno.

Reconheci ter perdido o desafio assim que pisei no gramado. 

A casa ficou maior e eu encolhi com o barulho ensurdecedor das lembranças que a habitavam. 

Tentei fitá-la como quem quer continuar o desafio, mas a força para erguer a cabeça e encarar aquelas paredes, portas e janelas, precisava ser maior do que toda a força que eu dispunha naquele momento.

Abaixei a cabeça e caminhei até a varanda, tentando não sucumbir ao vendaval de emoções que me assolava.

O vento teria ficado mais forte? 

Ou seria a força das memórias presas dentro da casa quase me jogando para longe?

Em frente a porta de entrada, confortou-me saber que eu não tinha a chave e não entraria ali, por onde tantas vezes saí. 

Ouvi o ranger dos ganchos da rede, a voz da minha infância, da infância de meus irmãos, sobrinhos e filhas. 

Todas as infâncias em seus verões estavam ali.

Empurravam a porta fechada tentando abri-la a força. 

Minha adolescência em seus verões quase saltava a janela. 

Todas as adolescências que veranearam ali alvoroçaram-se com minha presença.

Assustada, caminhei ao lado da casa percorrendo toda a extensão da varanda. 

Próxima a cozinha ouvi os sons dos pratos, talheres e copos sendo postos a mesa. 

Vozes animadas voltando do mar.

Senti o cheiro da comida de minha mãe e a fome de todos ao seu redor.

O passado abraçou-me convidando a juntar-me a ele. 

Meio sem vontade, virei a esquina da casa que dava para a parte dos fundos.

Parada em frente a porta da cozinha eu desejei ardentemente aceitar o convite e sentar para almoçar com as lembranças e matar minha fome e minha sede do passado. 

Eu pensei que poderia ficar ali nos fundos da casa da praia para sempre e viver daquelas lembranças. 

Eu teria ficado ali como alguém que senta  ao lado de um baú de cartas e fotos antigas e passa seus dias revendo-as, relendo as e  alimentando-se de lembranças. 

Eu achei que poderia suportar todas as memórias tristes guardadas naquele 'casa baú' só para sentir outra vez o cheiro da comida da minha mãe e me sentir junto de todos voltando do mar ansiosos pelo almoço. 

Parei de pensar por alguns segundos  e olhei para a garagem.

Enxerguei as mulheres da casa lavando roupas no tanque e os homens da casa lavando os carros enquanto as crianças tomavam banho na piscina de plástico. 

Toda aquela água começou a respingar em mim.

Estava muito quente. 

A água e as lembranças eram frias.

As lembranças jorravam pelas frestas e eu não as queria fora. 

Precisava deixá-las. 

Se caminhasse um pouco mais eu chegaria ao final daquela parede e virando a próxima esquina da casa eu encontraria o caminho de volta. 

Pensei no que faria. Cheguei a perguntar em voz alta o que deveria fazer agora.

Caminhei  até o fim da parede e, dos fundos do patio, enxerguei a rua, o carro e dentro dele as pessoas que eu amava. 

Caminhei rápido abafando as vozes dentro da casa e dentro de mim.

Caminhei me recompondo.

Caminhei sentindo o que estava deixando para trás a cada passo que dava. 

O gramado acabou e passei por cima do portão novamente para deixar o pátio da casa.

Sentei no banco do carro e, com as pernas ainda para fora, olhei novamente para casa. 

Algumas lágrimas desnecessárias e teimosas escorreram limpando o orgulho dos meus olhos. 

Nada em mim era desafiador ao olhar para a casa agora. 

Eu havia caminhado ao redor da casa e estava de volta ao carro. Isso era tudo. 

Olhei uma ultima vez para a casa, desta vez com respeito.

E com uma gratidão dolorida. Mas ainda assim, olhei com gratidão.

Quando o carro partiu desejei por um instante que a casa deixasse de existir. 

Sou assim. Gosto quando as coisas quebram, porque eu não sei o fim delas. 

Mas na esquina daquela rua percebi que era entro de mim que aquelas vozes começavam a silenciar.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 01/03/2019 - 16:36Atualizado em 01/03/2019 - 16:57

É carnaval.

Mesmo que não te peçam perdão, perdoe.

 

Perdoe quem leva barulho de carnaval ao teu retiro espiritual.

Perdoe quem usa somente o seu repertório para fazer o enredo deste que pode ser um samba de dois (teu e dele).

Perdoe quem não viu que tu estavas mais para quarta feira de cinzas.

Perdoe quem entoou em teus ouvidos fados escritos com as tristezas e mazelas dele ao mesmo tempo em que divulgava aos outros fotos da própria alegria com ritmo de marchinhas de carnaval.

Perdoe quem ligou para falar de suas dores no momento em que travavas uma grande luta para superar as tuas.

Perdoe quem tem flores nas mãos e te mostra somente os espinhos.

Perdoe os que não são sensíveis a tua fragilidade emocional, os que não entendem tua instabilidade, tipica do conflito entre desejar ficar bem quando, definitivamente, nada está tão bem assim.

Perdoe quem te instigou a disputar consigo o primeiro lugar no podium na prova do 'vamos ver quem sofre mais'.

Perdoe por não te escutarem direito e falarem mais e mais alto para que tu não deixasses de ouvir.

Perdoe quem voltou a fazer parte da tua vida, não por ti mas, pelo bem que isto faria a ele.

Perdoe quem buscou e rebuscou até encontrar em ti a empatia que te fez sentir e sofrer com ele.

Perdoe por te fazerem dizer o que não queriam ouvir e por terem te feito se sentir culpado por isso.

Perdoe quem respondeu ao teu pedido de perdão com um solene 'eu te perdoo'.

Perdoe quem maculou teu luto que, até então, era só uma tristeza serena.

Perdoe quem passou como um trio elétrico pelo teu mosteiro e te deixou ouvindo o barulho dos tambores.

 

Perdoe tudo e isso também.

 

Só não pedoe facilmente ataques a tua sinceridade.

A sinceridade que pediram que tu manifestasse.

A sinceridade que tu estavas autorizado a demonstrar por terem te solicitado encarecidamente.

Não perdoe quem te fez deixar a segurança do teu mundo para ir até o dele. E depois nao ter te acolhido.

Não perdoe tamanho descuido contigo.

Da parte dele e, sobretudo, da tua parte.

Não perdoe enquanto tu mesmo ainda não puder te perdoar.

No mais, perdoe.

No mais, se perdoe.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 19/02/2019 - 13:47Atualizado em 19/02/2019 - 13:50

Entre as minhas lembranças mais remotas há uma pela qual tenho um carinho especial.

Quando acordava eu ajeitava meu corpo na cama e mirava o teto.

Era o encontro preferido das minhas manhãs.

Meus olhos fitavam o teto branco e aquilo era como o encontro de olhares apaixonados.

Olhava para o teto branco e ficava lá deitada, alheia ao mundo inteiro incluindo as pessoas que o habitavam.

Não havia nada lá. Apenas o teto do meu quarto.

Eu não projetava sombras, não visualizava formas, nem cores.  

Nada explodia diante dos meus olhos naquela tela, diferentemente da explosão de estímulos na tela de um celular.

A cor do teto, talvez, nem fosse branca. 

Paradoxalmente, branco é o adjetivo que dou ao teto para falar da ausência de tudo, inclusive de cores.

Nada o habitava.

E era ali, naquele vazio, que eu me encontrava todas as manhãs.

 

Olhando o teto branco eu permitia que meus pensamentos chegassem e partissem, sem me apegar a nenhum deles.

Muitos pensamentos ocorriam enquanto eu estava lá deitada.

Mas nenhum destes pensamentos permanecia. 

Meu olhar focava o teto - como o zoom de uma câmera - e os pesamentos ficavam desfocados. 

Estado meditativo, talvez.

 

Fiz isso por muito tempo. 

Ficava olhando para o teto branco em noites de insonia também.

No escuro, era preciso ficar mais tempo deitada  ajustando o foco do olhar até que ele se acostumasse a falta da luz e eu, enfim, pudesse enxergá-lo.

O ato de permanecer imóvel olhando para o teto não era alegre nem triste. 

Não era solitário nem me fazia companhia.

Não era pior ou melhor do que qualquer outra coisa. 

Era, somente.

 

Éramos o teto branco, eu e os pensamentos correndo na minha cabeça - como corre o rio em direção ao mar.

Éramos mesmo.

Existíamos.

E permanecemos nas minhas lembranças até hoje.

 

Me pego, as vezes, tentando repetir a experiencia.

Mas perdi a capacidade de me perder - e me achar - no teto branco.

Não mudei tanto assim.

Ainda permaneço por longos períodos com o olhar perdido num ponto.

Bem, não é o mesmo teto branco. 

Mas, creio, não é essa a diferença mais importante.

É que não sou mais a mesma olhando para ele.

Meus olhos inquietos deslizam pelos cantos do teto. Correm para o centro onde está a lampada. Veem mosquitinhos caídos dentro da luminária. Criam formas e sombras. Enxergam pequenas manchas a serem limpas. 

O teto branco, hoje, me faz pensar em tintas e pincéis. Provoca  a vontade de jogar cores e criar formas ali. Ele tornou-se insuficiente para meu deleite.

 

Meus olhos viram muitas coisas lindas nesta vida e com certeza descrevê-las e contrapô-las a visão do teto branco tornaria esta uma escolha absurda.

No entanto havia eu diante de todas as coisas lindas que vi.

E havia eu diante do teto branco.

 

Certamente o que nos marca, a ponto de ficarmos com o olhar perdido diante delas,  não é a linda pessoa, paisagem ou tela.

O que realmente nos marca é o que acontece conosco diante de tudo isso.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 14/02/2019 - 13:37Atualizado em 14/02/2019 - 14:11

Querido leitor, todos temos nossas manias não é mesmo?

De todas as minhas manias havia uma que eu levava muito a sério.

Enquanto caminhava e pensava, subitamente decidia que a partir do próximo passo eu faria tudo diferente.

 

Enquanto caminhava, comparava mentalmente a minha maneira de viver com a maneira com que outras pessoas viviam as suas vidas.

Nesta comparação, via de regra, eu saia perdendo.

Então caminhava e pensava em tudo o que eu poderia fazer melhor e mais bem feito.

Não faltava autocrítica. 

Sobrava super valorização do comportamento alheio.

Naquela contabilidade, meu saldo existencial era sempre negativo.

Nada estava suficientemente bom.

Tudo podia melhorar.

Dos meus hábitos aos relacionamentos, passando pelo jeito de ser e estar no mundo, eu concluía que poderia melhorar em tudo. 

A mudança, eu supunha, me deixaria satisfeita comigo mesma.

Então eu me concentrava nos meus passos. 

Localizava-me em relação a um referencial não muito distante - uma arvore, uma casa ou uma pessoa - e estabelecia, de onde eu estava até lá, uma caminhada rumo a mudança. 

Haveria então um ultimo passo na caminhada de quem eu era. 

E o próximo passo iniciaria a caminhada de quem eu gostaria de ser.

 

>

A mania do próximo passo funciona como auto-ajuda. 

É algo inspirador. Motivacional. 

É como a ideia de começar uma dieta na segunda-feira (desta vez vai dar certo!).

Basta nossa auto-estima cair um pouco e a ideia do próximo passo surge como solução para todas as nossas insatisfações pessoais.

Por algum tempo após o próximo passo nos sentimos aptos, capaz e competentes.

Somos tomados por uma segurança momentânea e sentimos que podemos vencer todas as nossas limitações.

Depois do próximo passo caminhamos firmemente, de cabeça erguida e com o olhar confiante.

Mas em algum momento a aptidão, a capacidade, a competência, a segurança e a confiança nos abandonam.

Não há sustentação em nós para elas.

Vão embora sempre, antes mesmo de precisarmos delas.

E nos vemos, novamente, tendo que encarar os desafios com os recursos dos quais dispomos habitualmente. Nada de novo. 

E fazemos tudo, novamente, do jeito que conseguimos. Como podemos fazer.

Fiz isto muitas vezes, tantas quantas me frustrei por terminar a caminhada do mesmo jeito que iniciara.

 

Transformar um único passo num divisor de águas, num marco existencial determinante, é uma das armadilhas que construímos para nós.

E na qual mais caímos.

Insatisfação não rima com autocobrança. 

Insatisfação rima com aceitação.

A mania do próximo passo é o sintoma mais visível da expectativa exagerada em relação a nós mesmos.

 

Acredito que podemos ser melhor em tudo. 

"Viver pra ser melhor também é um jeito de levar a vida."

Acredito, também, que podemos tornar tudo mais difícil com nossas exigências e ideais inatingíveis.

 

Querido leitor, uma caminhada não tem outra função se não a de nos fazer sentir bem. 

Entendi que o próximo passo só tem a importância de unir o passo anterior ao que vem depois.

Porque o caminho se faz passo a passo.

Às vezes a passos largos, rápidos, quase saltitantes.

Outras vezes a passos curtos, cansados e pesados.

Como sou. Como posso ser.

Sempre em frente.

Sempre enfrente! - eu acrescentaria.

Próximo passo realmente importante na vida é o que nos leva adiante. 

O passo que não nos deixa desistir. 

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 30/01/2019 - 19:35Atualizado em 30/01/2019 - 19:45

Toda cidade tem dono.

Um dono para cada assunto.

Vários donos, a maior parte, em cargos vitalícios e hereditários.

Tem, por exemplo, o prefeito e o grande empreendedor, como em todas as cidades.

Com isso a gente se acostuma.

Tem os donos de clínicas, escritórios e instituições - gente que tornou-se dona de seu espaço com muito esforço e trabalho.

E isso é muito bacana.


Vejam a nossa cidade, aqui tem muita gente legal.

Tem gente inteligente - no sentido mais bonito e abrangente da palavra.

Tem gente solidária - fui testemunha disso todas as vezes em que precisei de solidariedade.

Tem gente que faz a cidade ficar mais bonita - gente que enfeita a vida com arte e poesia.

Tem gente que é gente, "gente que só se veste de si mesma". E fica linda assim.

Tem muita gente legal aqui, diga-se de passagem.

Mas também tem gente que não é dono de nada, mas se comporta como se fosse dono de tudo e todos.

Esses são os "donos da cidade".

 

Tem os donos da beleza. Donos da moda. Donos da informação e da notícia. Donos do conhecimento. Donos das riquezas naturais - como se isso fosse possível.

Tem gente, acredite, que é dono da vida dos outros.

Os donos ditam a moda, o peso ideal, a cor e o corte de cabelo.

A opinião dos donos é a palavra final.

E com isso não dá pra se acostumar.


Analise a relação entre os donos da cidade e seu grau de poder aquisitivo.

Perceba que há donos com grana e sem grana.

O que torna mais dificil entender como chegam ao "poder".

Não há eleições diretas.

Mas, uma vez no poder, os donos da cidade são agraciados com muita bajulação por boa parte dos seus conterrâneos.


Há também uma relação de posse entre algumas pessoas com a cidade.

Não aquele amor à terra natal muito natural e compreensível.

Algo mais para "ame-a ou deixe-a". Em outras palavras: aceita ou vaza.

É difícil discordar das regras dos donos da cidade e permanecer jogando.

Só os fortes conseguem.

Muitos fraquejam... Sucumbem.


Não escrevo este texto para os donos da cidade.

Escrevo para as centenas de pessoas que conheço - e deve haver milhares - que não mandam em nada. Que não são donos de coisa alguma, a não ser de si mesmos e de suas vidas.

Gente maravilhosa que resiste bravamente.

Desconheço seus meios de sobrevivência. 

Talvez sejam mais 'desligados' e nem percebam o que eu percebo.

Ou, talvez, acharam maneiras de driblar as - muitas - ditaduras impostas.

 

Uma das estratégias deve ser não bater de frente com essa gente.


Há muitos anos eu ouvia a Daniela Mercury cantando:

"O canto dessa cidade sou eu, o canto dessa cidade é meu!" 

E eu ficava pensando - como é que pode!?

Como pode tamanha arrogância e prepotência? Se intitular a dona do canto de Salvador?

Hoje vejo que a unica diferença entre ela e outros donos do canto da cidade é que ela gritava para quem quisesse ouvir.

Os "donos das cidades" são mais discretos.

Mas seguem arrastando multidões nos seus trios elétricos invisíveis.

 

A boa notícia é que cabe a você, querido leitor, decidir se irá segui-los.

 

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 30/01/2019 - 19:24Atualizado em 30/01/2019 - 19:32

Conversávamos sobre dons - talentos que considerávamos inatos.

A roda de conversa era pequena e rapidamente identificávamos em nós mesmas e nas demais o dom que se destacava.

Porém, havia uma de nós que não falara e da qual ninguém falara também.

Até que ela se manifestou:

-  Acho que só eu não tenho um dom.

Rapidamente, incomodadas por aquela afirmação, nos pusemos a convencê-la do contrário. 

Mas ela estava convicta.

Nada do que dizíamos a seu respeito representava-lhe um dom.

Quando, unânimes, lhe dissemos que o trabalho que realizava era um grande dom, ela nos respondeu:

- Não se refiram ao que faço diariamente como trabalho remunerado. Falem do dom revelado nas coisas que faço por puro prazer ou porque manifesta-se forte e naturalmente em mim. 

Estava desafiando-nos a indicar-lhe uma vocação? 

Talvez.

Não soubemos o que dizer-lhe naquele momento.

Mas para sua sorte - ou azar - eu a conheço desde que nasceu e nossa diferença de idade permite-me recordar claramente de toda sua infância.

Falar daquela menina brincando, sonhando, fazendo o que gostava de fazer me pareceu a resposta.

.

Era uma menina que adorava descobrir. A descoberta a deixava feliz.

Perdi aquela menina de vista várias vezes quando ela embrenhava-se nas casas e quintais desconhecidos, os quais vistávamos pela primeira vez. Quando eu a encontrava, ela já conhecia todos os cômodos da casa, todas as árvores do quintal.  E eu a encontrava feliz.

Eu a perdia de vista muitas vezes porque era fascinada pelo íntimo e privado. Interessava-lhe, mais do que minha companhia, descobrir onde ficavam os quartos dos fundos, os banheiros, as gavetas, os  livros e tudo o que não deveria mexer. Tudo ela escarafunchava pelo simples prazer da descoberta. Voltava após suas descobertas com o rosto feliz.

Sempre esteve entre os maiores aventureiros com os quais convivi. Os meninos da vizinhança a tinham como uma mascote. Carregavam-na junto com eles para a partida de taco, para as peladas,  para os circuitos de bicicross. E de lá voltava feliz.

Nas trilhas, em montanhas ou desfiladeiros, partia com os primeiros e voltava com os últimos. Levei alguns sustos com sua demora em voltar. Por vontade própria ou levada por alguém, esteve em lugares nos quais eu, bem mais velha do que ela, nunca estive. Partia e voltava feliz.

Era muito atenta a muitas coisas ao mesmo tempo.  Atenta e sorridente. Sempre com o olhar feliz.

Permitia que a irmã a maquiasse e produzisse inteira para ser fotografada como boneca. E na sequencia seguia para o campinho de futebol com seu irmão. Tinha uma versatilidade admirável. E transitava feliz entre cenários contrastantes.

Não se deixou intimidar por sua própria timidez. Sempre precisou de amigos e, quando não tinha, ela os criava. Por um bom tempo convivi com ela e quatro de seus amigos imaginários: Pipa, Páqua, Cícero e Biguá. Ela dava-lhes tanta vida que existiram até para mim. Para onde íamos seus quatro amigos imaginários iam juntos. E ela seguia feliz.

Dona de uma energia contagiante, mesclava sensibilidade e entusiasmo. Era sensível e amorosa. Mas nunca 'sentimentalóide' nem 'melosa' - como ela mesma fez questão de afirmar anos depois.

Onde estivesse, naquilo que estivesse fazendo; entregava-se, era inteira. Cantava alto. Ria muito. Corria. Pulava. Fugia do que a deixava infeliz. 


Naquele dia na roda de conversa, os dons dos quais falávamos e que julgávamos ter, nada mais eram que aspirações, desejos e sonhos de criança.  Coisas que não nos furtávamos de vivenciar mesmo depois de adultas. 


Relembrando a infância daquela menina e contrapondo-a a sua vida de adulta não tive dúvidas em, posteriormente, lhe afirmar: o seu dom era extrair alegria de todas as suas vivências. 

 

E você querido leitor, qual é o seu dom?

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 18/01/2019 - 14:32Atualizado em 18/01/2019 - 14:50

Eu tinha um relógio de parede no qual, no lugar das horas, estavam desenhados doze diferentes passarinhos. A cada hora completa o passarinho correspondente aquela hora cantava três vezes. O relógio precisava de duas pilhas para funcionar e mais duas pilhas para os passarinhos cantarem. A cada canto de passarinho eu percebia que mais uma hora de mais um dia havia passado. Percebia que tinha cada vez menos tempo.  

Tinha dias que isto me fazia pensar:

- O tempo está passando e não estou fazendo nada de útil, nada de interessante com a minha vida. 

Quando pensava assim, sentia-me aflita. 

Muitas vezes, fragilizada por este pensamentos, procurava entre meus contatos aqueles que pudessem me ajudar a encontrar um emprego em caráter emergencial, que preenchesse todo meu tempo livre. Qualquer coisa que me livrasse da procrastinação.

Mandava currículos aleatoriamente para todas as vagas dos classificados. Foram tantas e tão distintas que eu poderia escrever um livro sobre isto.

Impressionante como os contatos e os anúncios não respondem a este tipo de desespero. Parece que sabem que não é o emprego qie estamos procurando. Parece que percebem que só desejamos nos sentir útil. E isso, infelizmente, não é requisito para contratação.

Para além das percepções dos contatos e recrutadores, está a minha minha percepção do favor que fazem ao não responderem a um pedido confuso em que pedimos para ser útil numa vaga de trabalho na qual logo estaremos sentindo a ausência de sentido.

Nos dias que passamos vendo o sol nascer, vendo o sol se pôr, os passarinhos - do meu antigo relógio ou das árvores - cantando, não estamos procrastinando como ousam dizer, estamos fazendo nosso trabalho de base que, acredito, é cuidar de nós mesmos e das pessoas e bichos que dependem de nós.

No final destes dias talvez nos sintamos procrastinadores e é ruím se sentir assim quando a gente não quer isso pra si. 

Mas querido leitor este sentimento perdura somente até percebermos o quanto já caminhamos, o quanto já lutamos - uma luta que sempre foi entre nós mesmos. 

E aí, se prestarmos atenção, se estivermos presentes, empenhados em nosso crescimento, veremos brotando pequenos raminhos de dentro de nós que irão nos sinalizar a direção certa.

O que você chamava de procrastinação era o tempo necessário para suas raízes encontrarem a água da qual precisavam. Era o tempo necesário para os novos brotos surgirem.

Somos seres humanos querido leitor, não temos compartimentos para pilhas que nos façam funcionar 'perfeitamente' como um relógio e ainda cantar como os passarinhos. 

Há dias em que nossa produção pode e deve se resumir a continuar caminhando. De preferência ouvindo o canto dos pássaros.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 18/01/2019 - 14:16Atualizado em 18/01/2019 - 14:30

Voltei depois de um certo distanciamento mas foi difícil voltar dessa vez. 

Houve dias em que penseique se eu voltasse, viria rasa demais, superficial demais, sobrariam amenidades. 

Vocês já me conhecem o bastante para saber que não sou dada a conversas superficiais.

Serei direta. 

Não vim antes porque estava tudo bem. Tudo aparentemente bem. 

Medos apaziguados pela luz radiante do verão. Confusões adormecidas dentro dos armários junto as roupas de frio, escondidas nessa estação.

Dias em que olhei apenas para o presente ou, quando não estava satisfeita, espiei o futuro. 

Sabe, depositei planos lá, no futuro. Isso me levava para frente.

Foram dias em que, acredite, não olhei pra trás. Nada, absolutamente nada no pretérito era sedutor. Tesão pelo futuro define bem minha ausência. 

Porém, sempre soube durante esse tempo que algo ou alguém poderia me trazer de volta. 

Algo de fora ou de dentro de mim. Outro alguém ou um 'alguém outro', desses tantos que sou. Ou, até mesmo, um novo alguém que venho construindo e ainda não conheço. 

Sempre soube que a ida, todo o caminho de ida, é o caminho de volta feito de costas.

Por isso é complicado seguir em frente. A vista do presente é o passado.

Por isso eu sabia que voltaria. 

 

Pra ser sincera, embora meu silêncio tivesse atividade e felicidade, eu mesma desejei uma turbulência qualquer que me fizesse voltar.

Mas estou num lugar onde, mesmo querendo muito, as pessoas e as coisas não me afetam mais. 

Não como afetavam antes. 

Sim, eu ainda sinto muito todas as mazelas da vida e me comove de forma melancólica e profunda tudo o que retira a cor e o brilho dos dias. 

Ainda amo intensamente e a falta de alegria no outro não cai bem em mim. Nunca cairá. 

Mas estas perplexidades não criam mais raízes em mim. 

No solo da minha alma as tristezas não brotam mais. Não dão mais fruto e nem flor. 

Meus frutos e minhas flores de dentro são as flores do amor, da gentileza e da generosidade. Sou solo fértil pra estas sementes. Para as demais sou terra estéril. 

Por isso nada nem ninguém me parou. De fora não tive freios para minha paz.

O limite fui eu quem deu.

Eu me parei. 

Voltei a pensar da maneira clássica, aquela, antiga, só para ver o que me aconteceria.

Só que não é mais a mesma coisa. 

Uma única vida, vivida com consciência, é o suficiente. Não há necessidade de regressos. O que precisa ser feito você faz. Aprendi isso nesses dias.

E eu estou vivendo um conto de fadas. As vezes, acho que sou mesmo uma fada, a fada do meu próprio conto. 

Sou a Alice das maravilhas do país que eu construí. Um pais que é só meu, onde poucos podem entrar. 

Você não acredita em conto de fadas? 

É que para você não é possível viver feliz para sempre. 

Mas eu descobri que é. 

Porque meu conceito de felicidade mudou e enfrentar a vida ao lado de alguém, com tudo o que isso significa, para mim, hoje, isso é ser feliz. 

Então, enquanto eu estiver enfrentando a vida ao lado das pessoas que querem estar ao meu lado eu estarei sendo feliz pra sempre no meu conto de fadas, no meu pais das maravilhas.

Você deve estar pensando:

- Meu Deus ela regrediu, era para amadurecer, mas ela parece uma criança falando desse jeito.

Mas tente entender, eu tinha tanto medo de perder tantas coisas e tantas pessoas. Tanto medo...E eu deixei  todas as coisas que eu jamais queria perder e todas as pessoas que eu jamais queria que fossem embora, eu simplesmente deixei que fossem. Eu deixei e aceitei que fossem embora. 

Você não acha que isto é amadurecer? Eu fiquei apenas com o que ficou na minha vida e eu passei a curtir minha vida assim. 

Foi assim que eu a transformei num conto de fadas. Eu sou uma fada madura. Eu virei uma fada na maturidade, esta é a minha verdade, mesmo que ninguém queira perceber.

Outra coisa que me aconteceu nesses dias e que percebo agora, escrevendo, é que eu parei de questionar tudo. 

 

Eu olhava para as pessoas e as situações e logo uma pergunta qualquer começava a se construir na minha cabeça. E eu nem ouvia direito o que me falavam pois eu estava sempre muito preocupada em questionar tudo. 

Você não imagina o quanto todas aquelas perguntas que eu fazia o tempo todo roubavam minha paz. 

Pois justo eu que questionava tudo e vivia perguntando:

- Por que é assim? Para que serve isso que está acontecendo?

Eu que sacava os por quês e para quês a todo instante, hoje só me ocorre questionar a mim mesma sobre as lições que a vida repete. 

Nessas horas me questiono:

-Por que isto está me acontecendo novamente? 

Mas veja, não é uma pergunta destinada a alguém fora de mim.

É uma questão que eu mesma me proponho, para refletir. Uma pergunta que faço em pensamento ou com a voz baixa. Bem baixa...

 

Por que voltei então? 

Talvez tenha sentido saudade. 

Ou, talvez, pra lhe contar estas coisas todas. 

Ou, ainda, pra lhe dizer que essa sou eu agora. 

Não para lhe agradar, pois isso não me satisfaz mais. 

Acho que vim lhe dizer que consegui!

Eu sempre lutei para ser diferente e hoje posso lhe dizer que não faço mais parte do exército de iguais. 

Estou aqui sem máscaras, autêntica, verdadeira, o mais verdadeira que consigo ser. 

Sei que, bem no fundo, esperaram que eu pensasse por mim mesma ao invés de segui-lo ou de seguir quem quer que fosse.

Todos nós queremos ser diferentes.  Não quer que eu o siga ou o imite. 

 

Enfim...

Vim pra dizer que minhas questões - agora - eu as dirijo a mim mesma. 

Continuo aquela rebelde que vocês conhecem, só mudei o foco da rebeldia. 

Tem muito pensamento em forma de conceito antigo e ultrapassado dento da minha cabeça para eu questionar. 

Este é um exercício solitário e silencioso que tenho feito enquanto passeio no meu pais das maravilhas. Enquanto faço magias no meu conto de fadas.

Ser aceita ou não desse jeito não é um problema para mim, aliás, "o que pensam de nós não é problema nosso", não é mesmo?

Vim me expor para você.

Vim lhe mostrar quem sou agora.

Como sabemos "é difícil dizer quem sou pois você pode não gostar e isso é tudo o que eu tenho". (Alias, este é o título de um ótimo livro sabiam? Adorei tê-lo descoberto.)

Mas mesmo que doa - caso você não goste - quem mais eu poderia ser além de mim mesma?

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 08/01/2019 - 19:30Atualizado em 08/01/2019 - 19:31

Sinto prazer em falar de mim, da minha vida, das minhas coisas.

Talvez eu seja um pouco egocêntrica ou narcisista.
Mas, em tempos de redes sociais, quem nunca?

Não tenho problema em admitir isso.

Falar sobre meus dias e noites, meus relacionamentos e isolamentos, minha realidade e percepções, meus medos e coragens; personifica-me e faz com que eu veja a mim mesma como algo passível de ser transformado.

O que falo, modifica-se.

O que calo, consolida-se.

E nada em mim é para ser consolidado.

Sou um vir a ser.

 

Já falei de mim para outras pessoas, quaisquer pessoas.

Até bem pouco tempo falava para quem quisesse ouvir.

Atualmente estou mais reservada.

Escolho criteriosamente as pessoas para as quais vou falar.

Há vezes em que escolho os assuntos e as pessoas. 

Determinados assuntos falo para determinadas pessoas.

Aprendi que posso falar tudo para todos. Mas nem todos podem ouvir tudo o que falo.

Calar foi uma atitude de respeito para com estas pessoas e comigo mesma.

 

Já vivi momentos nos quais quis falar com alguém e não havia ninguém disponível a minha volta.

Mas isso não foi tão ruim.

Meus piores momentos foram aqueles nos quais me fechei, nos quais renunciei ao meu sagrado direito de compartilhar.

Quando isso acontece invariavelmente recorro a outras maneiras de me expressar.

Há vezes em que me expresso cuidando dos outros. Cuidando de mim: Organizando minha casa. Arrumando minhas coisas. Lendo. Assistindo a um filme. Caminhando por lugares desconhecidos. Saindo à rua e fotografando tudo o que desperta o meu interesse. Brincando com um animal de estimação. Tomando um café. Observando a vida da janela. Inventando algo. Fazendo um bolo. Fazendo a sobrancelha. Fazendo qualquer coisa que me faça consciente, presente.

Mas há vezes em que tudo é enfadonho e, quando isso ocorre, minha conexão com o mundo enfraquece.

São dias em que a vontade desaparece e eu preciso de muita força para realizar as minimas tarefas do cotidiano.

Sempre e somente quando volto a falar de mim, me expondo de alguma forma, sinto-me conectada ao mundo que me cerca.

E quando volto a falar de mim, não importa se estão todos ocupados demais e sem um minuto sequer para me ouvir.

Porque quando falo de mim eu estou presente, importo-me comigo e com meu bem estar e sou minha ouvinte mais atenta.

Em nenhum outro lugar e em nenhuma outra pessoa encontrei maior acolhimento do que em mim mesma.

 

Por isso escrevo. 

Escrevo para conversar comigo.

Escrevo para me sentir totalmente livre. 

Sem limite para a autenticidade, a  honestidade, a sinceridade, o desprendimento e a transparência.

Escrever é, acima de tudo, um gesto de confiança para com a pessoa que sou hoje.

E o que é melhor; só lê o que escrevo quem realmente quer saber o que eu penso.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 08/01/2019 - 19:16Atualizado em 08/01/2019 - 19:22

Noite dessas perdi o sono e depois de revirar na cama por um tempo pensando no piloto automático acreditei ter solucionado mentalmente um dos meus mais sérios problemas.
Resolvido o problema virei para o lado e dormi como um anjo.
Quando acordei e levantei da cama, sentia-me aliviada. 
Estava desobrigada de uma das mais difíceis tarefas diárias; sorrir e ser simpática com todos.
Eu não cumprimentaria mais ninguém por obrigação, somente se eu realmente sentisse vontade. 
Isso provocaria um efeito cascata, os outros deixariam de me cumprimentar também, então de quebra, poderia sair de casa vestida do jeito que desejasse.
Não me preocuparia mais com cabelos desgrenhados ou cara de sono no meio da manhã.
Mau humor não seria impedimento para sair à rua. 
Para todos os efeitos, agindo assim, eu seria aquela 'eterna mal humorada'. 
Diriam que sou o tipo de pessoa que vê e finge que não viu. Antipática.
E isso não me atormentaria pois seria a mais pura verdade.
Talvez ficasse com fama de esquisita.
Mas, os julgamentos, quais fossem, manifestados por olhares, palavras ou gestos só me motivariam a continuar de cara fechada.
Acabariam os bate papos vazios de significado na entrada e saída do trabalho, no elevador, nas filas.
Não pertenceria mais ao grupo que sai cumprimentando todos os que aparecem pela frente para fazer com que o seu dia e o do outro fique melhor.
Acabariam as canseiras no maxilar por sorrir demais apenas por educação.
Seria o fim da boca escancarada - que definitivamente não harmonizava comigo.
Meu rosto, sério, descansaria.

Perceberia quantos "Oi tudo bem! tudo! E você?", "Obrigada, não precisava", "Que lindo, adorei"; foram ditos sempre sorrindo desnecessariamente.
A canseira no maxilar teria me avisado que eu não poderia continuar assim. O corpo sempre fala.

A partir daquela manhã sorriria mais e melhor com os olhos, com as palavras, com o silêncio.
Sorriria assim, sem cessar e sem cansar.
Manteria meu sorriso raro, mesmo que eu sorrisse muitas vezes ao dia. Raro por ser verdadeiro. Raro por ter brotado do desejo de sorrir.
E não sentiria a menor falta de sorrir de outro jeito.
Estaria cada vez mais a vontade com quem realmente sou, com minha essência.
Porque simpatia forçada é reflexo do cuidado com a aparência. 
Simpatia forçada não é reflexo de cuidado com a essência.

Agiria assim até o dia em que sentisse novamente vontade de agradar.
Até ser possuída outra vez pela necessidade de ser simpática.
Até desejar novamente um espelho para meu sorriso, em outro rosto, conhecido ou desconhecido.

Mas...não foi uma resolução de insônia.
Foi apenas um sonho.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 12/12/2018 - 18:35Atualizado em 12/12/2018 - 18:35

"Esse seu peso nas costas pode ser as suas asas paradas."

Li essa frase em algum lugar e lembrei de um sonho recorrente no qual eu podia voar.
E eu voava. 
Ah! Como eu voava.
Bastava querer e, depois, deixar que os pés se elevassem do chão num delicado impulso inicial.
Então eu subia bem alto.
Lá de cima olhava os prédios, as casas, as arvores, as pessoas; tudo se distanciando.
Tudo ficando cada vez menor.
Quando não enxergava mais nada além da imensidão azul eu descia num mergulho.
Mantinha os braços estendidos junto ao meu corpo. 
Podia abri-los se quisesse mas só o fazia quando queria brincar que meus braços eram asas. 
Com os braços abertos eu dava rasantes sobre as ruas e as praças.
Brincalhona, subia um pouco e depois descia ainda mais perto do solo. 
Quase tocava nas pessoas. 
Sobrevoava os lugares flutuando devagar, sem pressa alguma. 
Eu era pura contemplação e sensação.
Para aterrizar eu só precisava querer e depois me colocar em posição vertical. 
Descia como uma pluma e meus pés tocavam o chão tão macio e levemente que eu custava a perceber que já estava  caminhando outra vez.

Sonhei muitas vezes que estava  voando.
Este foi, sem dúvida, o meu melhor sonho.
A sensação era tão boa e intensa que, confesso, tentei voar acordada.
Teoricamente eu sabia o que fazer.
Eu só precisava praticar. 
E acreditar.
E eu acreditava.
Mas não foi o suficiente. 
Acordada eu nunca experimentei a sensação de voar.

Sinto saudade desse sonho. 
Faz tempo que não voo.
Já faz tanto tempo que começo a esquecer como era.
Mas ainda acredito.
E durmo.
Então, tenho esperança de voltar a sonhar que estou voando.

E o que poderia significar esse sonho no qual voamos?
Eu penso que nosso lugar não é onde decolamos.
Também não é onde aterrizamos.
Penso que não temos um único lugar, o qual podemos chamar de 'nosso'!
Acredito que é em pleno voo que nos sentimos em casa.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 07/12/2018 - 16:16Atualizado em 07/12/2018 - 16:18

A vida sem as redes sociais me revelou que há vida sem elas.

Fiz a experiência; fiquei sessenta e quatro dias abstinente, limpa, com as contas devidamente encerrada.

Contei os dias como um adicto: só por hoje, um dia de cada vez.

No tempo fora das redes, achei que brincaria mais com minha filha pequena, conversaria mais com minha filha mais velha, namoraria mais meu marido, curtiria mais o meu cãozinho.

Achei que iria ler mais livros, caminhar mais, sentar mais vezes na varanda e olhar mais o céu.

Achei que assistiria os bons programas nos canais da TV fechada.

Achei que veria mais filmes. Exploraria mais a cidade. Teria mais disciplina. Manteria tudo ao meu redor mais organizado. Achei que funcionaria noutro ritmo.

No entanto, a mais sedutora das idéias que eu tinha sobre a vida sem redes sociais, era a de que eu encontraria mais todos aqueles amigos com quem há tanto tempo só me relacionava virtualmente.

 

O que realmente aconteceu foi que nada disso aconteceu. Continuei fazendo tudo do mesmo jeito que fazia antes.

 

Eu relaxei, sem duvida. Dormi bem e mais. Porque, para mim, os avisos de atualizações, comentários e curtições dos amigos eram despertadores ininterruptos do meu descanso e sono.

Escrevi mais também. Porque tudo o que não pude compartilhar através de fotos me senti compelida a descrever em palavras.

Por outro lado, perdi a vontade de registrar a vida através de fotografias. E senti falta desta vontade.

Aceitei - a despeito do que pensa toda aquela gente sobre meus registros fotográficos - que eu fico feliz em fotografar e compartilhar.

Percebi que dias bons são bons com ou sem as redes sociais. Dias ruins também.

Obviamente as relações com as redes se dão das mais diferentes formas.

Para mim elas são um amigo inespecífico. Não sei seu nome e não o conheço bem. Mas sei que existe. 

Como acontece com todo e qualquer amigo, ele me traz alegrias e frustrações.

E eu senti falta deste amigo que podia ser o Fulano, o Beltrano, o Cicrano. 

Ou um holograma feito a partir da combinação deles todos.

 

Depois de sessenta e quatro dias voltei para as redes sociais porque conclui que elas  estavam mais para uma rede de apoio do que para um vício. Por precaução, apenas desativei a notificação de atualizações.

Esta conexão permanente na qual, a qualquer momento, podemos manifestar nossos sentimentos, para mim, funciona como um grupo de ajuda. 

Nas redes sociais, assim como em qualquer outro grupo de ajuda, o que nos une é o vício. 

Mas assim como em qualquer outro grupo, todos temos histórias a compartilhar.

E através de nossa participação podemos ajudar e receber ajuda.


E pra você: há vida sem as redes sociais?

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 29/11/2018 - 16:58Atualizado em 29/11/2018 - 17:02
Com a proximidade do final do ano letivo pais e filhos se envolvem diretamente com a questão da aprovação e reprovação.
Nessa época alguns pais folgam em saber que seus filhos já estão aprovados. 
Estes alunos foram aprovados diariamente no decorrer do ano letivo, pois sabe-se que aprovação não é apenas a nota da média final. 
Aprovação, neste caso, é o reconhecimento da escola, da família e da sociedade na forma de elogios e incentivo pelo desempenho do aluno.
Mas muitos pais ainda anseiam pela nota que dirá se seu filho foi aprovado ou reprovado.
 
Entende-se que o aluno saudável do ponto de vista físico e psicológico é livre para decidir, a cada dia, como vai enfrentar os desafios escolares.
Livre para decidir de que forma vai se comportar diariamente na escola.
Sim, os alunos são diferentes. Não há dois alunos iguais e existem, também, diferentes tipos de inteligência.
E sim, via de regra, a escola está organizada para acolher e avaliar o aluno com mais facilidade na inteligência lógico-matemática.
Porém, muitos alunos com a referida facilidade não tem um comportamento necessário para o bom aproveitamento desta organização escolar.
Outros, carecem desta facilidade mas compensam esta carência com dedicação, disciplina, empenho, esforço, atenção nas aulas, execução das tarefas e muito estudo.
Há diferentes combinações entre perfil e comportamento de alunos. Por exemplo:
Alunos com dificuldade de aprendizagem e comportamento relapso ou rebelde e alunos com facilidade de aprendizagem e comportamento exemplar - em termos de aproveitamento escolar.
No final do ano letivo todos querem ser aprovados.
Para a grande maioria, a aprovação virá.
Mas virá de diferentes maneiras para os diferentes tipos de alunos.
Enquanto uns folgam em saber que já estão aprovados, outros esperam ansiosamente pela aprovação fazendo cálculos mentais mirabolantes, contando com décimos daqui e dali que lhes ajudarão a conseguir a nota suficiente para escaparem dos exames finais.
Há os que sabem antecipadamente que farão os exames e investem todos seus esforços para conseguirem, nessa etapa, a aprovação que não buscaram ou não conseguiram durante o ano todo.
Não importa como a aprovação virá, ela é sempre vista como uma premiação.
A reprovação, por sua vez, é recebida como punição.
Dificilmente ela é aceita pelo aluno como consequência de suas escolhas.
 
Buscamos a aprovação em quase tudo que fazemos. 
Ninguém gosta de ser reprovado. 
Fazemos escolhas e optamos por determinados comportamentos mas, quando somos reprovados pelos mesmos, passamos a questioná-los.
A reprovação externa nos leva a questionar nossa  auto-aprovação – que é um processo interno.
A reprovação escolar, quando acontece, não tem outro sentido a não ser o de levar todos os envolvidos no processo ensino-aprendizagem a refletirem sobre suas ações.
Os pais, a escola e a sociedade também são passíveis de aprovação ou reprovação.
Mas, em última análise, este processo pertence ao aluno e diz respeito a sua própria vida.
Nesse sentido, aprovação ou reprovação são sinalizadores da caminhada indicando o momento de comemorar ou refletir sobre estratégias de recomeço.
  
Ansiando pela aprovação dos filhos ou temendo sua reprovação os pais cobram excessivamente um bom rendimento escolar.
Mas muitos esquecem de facilitar a autonomia e a responsabilidade que levará seus filhos a caminharem sozinhos. 
A autonomia e a responsabilidade leva os filhos a arcar com as consequencias de suas escolhas.
Quando o aluno se responsabiliza por suas escolhas ele tem a autocobrança necessária e suficiente para administrar as variações das notas escolares buscando um equilíbrio no seu desempenho que o leva a aprovar-se, além de receber aprovação externa.
Este período de provas, recuperações e exames finais desperta esta autocobrança em quase todos os alunos. 
Não tenham pena, queridos pais.
Esta é a ideia.
Que cada vez mais nossos filhos sejam responsáveis por suas escolhas e pelas consequências das mesmas em suas vidas.
 
 
Artigo escrito para o Jornal A Tribuna 
Grayce Guglielmi Balod
Pedagoga e Psicóloga
Especialista em Orientação Profissional

 

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 19/11/2018 - 20:38Atualizado em 19/11/2018 - 20:44

Pra quem tem medo de viajar de avião, pior do que uma noite de insônia somente a noite de insônia que antecede uma viagem de avião.
A pessoa insone, com medo de avião, prestes a embarcar, tem a frente uma combinação indigesta.
Dá náuseas.

Medo de avião é caso perdido.
A gente trata. Melhora. Piora. Até que estabiliza.
Resta-nos conviver com ele.
É a luta entre a nossa fraca racionalidade e o turbilhão de emoções que, oportunamente, nos invade. Porque viagens de avião são emocionantes.
O voo nos deixa em suspenso. Tira os pés do chão. Leva aos céus.
A razão fica em desvantagem diante do turbilhonamento emocional.
Voar sempre nos chacoalha, mesmo quando não há turbulência.
É a vida expondo o risco de morte.
Sim. Viver tem risco de morte.

Por outro lado, voar é pura poesia.
Ou seria, se nós relaxassemos.
Na impossibilidade de relaxar, sempre renovamos a promessa de nunca mais estar a bordo.
Voando vivemos um reveillon intenso, cheio de promessas de aproveitar cada segundo da vida com os pés no chão.
O nosso ano novo é o pouso.

Mas com os pés no chão acabamos esquecendo as promessas.
Até que uma nova viagem de avião nos lembra de cada uma delas.

Sabemos que o risco de morte também está na viagem de carro. 
No despretensioso passeio a pé. 
Nos exames de rotina. 
Na própria rotina.
Mas no chão, a razão, tão sem emoção, não nos convence disso.
E a vida passa sem que o medo de perdê-la nos assuste.
E a urgência de vivê-la adormece.
Até que surge uma nova e necessária viagem de avião.
Lá vamos nós de novo, decolar, tirar os pés do chão.
Olhar a lua lá do alto. 
Ver o sol da vista mais bonita. 
Enxergar as nuvens - que coisa maluca - olhando para baixo.
Ver tudo de um outro ponto de vista. 
Mudar as perspectivas.
Entrar em estado de alerta.

É nas viagens de avião que a vida assume o comando.
E nos põe no devido lugar.
E nos mostra que tudo o que há para fazer é relaxar e curtir a vista.
Porque nada está sob nosso controle.

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