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Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 09/10/2018 - 17:23Atualizado em 09/10/2018 - 17:30

Querida leitora
Eu quero, com a minha participação na Campanha Viva Mais do Outubro Rosa, alertar para a importância dos cuidados com a saúde psicológica e emocional da mulher. 
Nós não somos apenas nosso corpo, por isso, os cuidados com a mente, os pensamentos, os sentimentos e as emoções são muito importantes, tanto na prevenção quanto no combate ao câncer de mama.
Me perguntam: O que eu posso fazer para me cuidar emocionalmente? Como eu posso me ajudar? O que pode me salvar?
Respondo: Faça, com carinho, com presença, as coisas simples, essas que na correria da vida deixamos pra lá ou fazemos apenas por fazer.

Entregue-se ao sabor da vitória ou ao amargo da derrota quando elas vierem.
Não entre em lutas inglórias que não a levarão a lugar nenhum e que a machucarão.
Renda-se quando for preciso e sua salvação aparecerá por todo o lado.
No sorriso de sua filha caçula.
Nas noticias de sua filha mais velha.
No carinho do seu companheiro. 
A família que você formou a salvará, sua família de origem a salvará. Todas as famílias que a acolhem a salvarão.


Conversar com seus irmãos a salva.
Estar com seus sobrinhos a salva.
Divagar com sua prima a salva.
Brincar com seu cãozinho ou com seu gatinho a salva.
Sua salvação está ali na janela aberta mostrando a lua.
Na rede esperando na varanda.
No banho demorado e revigorante.
Nos livros que pode ler.
Nas músicas que pode ouvir.
Na cama em que descansa.
No sofá onde se entrega à preguiça.
No banco da praça sempre a esperando.
No parque onde pode brincar.
No sol se pondo no rio, no mar, na serra...
Em tudo o que pode ouvir.
Em tudo o que pode dizer.
E então uma terapia a salva.
Suas aulas a salvam, essas para a qual você retornou agora que está na meia idade.
As flores  salvam.
Fotografias salvam.
Gentilezas salvam.
Solidariedade  salva.
Visitas de amigos queridos salvam.
Ficar em casa salva.
Vencer a preguiça salva.
Sair à rua salva.
Caminhar sem pressa salva.
Levar seu filho ou seu neto à escola salva.
Buscá-lo salva.
Reconhecer seus verdadeiros amigos a salva.
Esperar pelo momento de ter seu neto em seus braços a salva.
Perdoar salva.
Ser perdoada salva.
Amar salva.
Ser amada salva.
Ter coragem salva.
Continuar, sobretudo, é o que nos salva.
Nossa salvação está na fé que temos e que não conseguimos explicar.


Cuide do seu espírito, da sua mente e das suas emoções assim como nos ensinaram a cuidar de nosso corpo.
E não esqueça, o que nos salva é o amor e a gratidão pelas coisas mais simples dessa vida.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 02/10/2018 - 16:22Atualizado em 02/10/2018 - 16:29

"É hoje!"

Chegou o dia da mulher fazer os exames ginecológicos anuais.

Ultrassonografia transvaginal, ultrassonografia abdominal total, radiografia das mamas e mamografia.

Um dia, apenas um dia por ano dedicado aos cuidados com nossa saúde.

E justamente nesse dia parece que dá tudo errado. 

Levanta da cama e colide com a bicicleta que 'estacionou' no seu quarto. Escova os dentes e quando vai fazer o bochecho, sente uma dor rápida e aguda nos mesmos. Precisa manter-se em jejum e de bexiga cheia para realizar os exames médicos e, justamente neste dia, perde o sono cedo demais. 

Sai de casa atrapalhada e, lá fora, percebe que está chovendo. Volta e pega a sua sombrinha. Tem a sensação de estar carregando muita coisa e não estar levando o principal. 

No caminho pensa, tentando lembrar do que teria esquecido. Sua mente está confusa e lembra de muitas coisas que tem pra fazer, menos do que teria esquecido. Chega no horário marcado ao local onde fará os exames. Mas ´só ela foi pontual, todos de quem ela depende a partir de agora, estão atrasados. 

Enquanto espera, abre o jornal na parte dos classificados e, atentamente, analisa as vagas de emprego. Depois de um tempo procurando, encontra uma vaga interessante a qual quer, no mínimo, circular para não perder de vista. Neste exato momento é chamada para passar à próxima sala. 

Pedem que tire a roupa e vista um avental descartável. Na minúscula cabine em que se encontra ela tenta organizar tudo o que tem em mãos. Coloca sua sombrinha no chão e pendura sua bolsa e roupas no cabide. Quando vai pegar o avental sua blusa cai sobre a poça d'água que a sombrinha formou. A blusa é branca e está encharcada. Ela racionaliza: como fará para voltar para casa com a blusa deste jeito? Na sua cabeça, os problemas para resolver parecem não ter fim. Agora, ela precisa lembrar do que esqueceu e, ainda, encontrar uma solução para o problema da blusa. 

Ao sair da cabine recebe a chave de um armário onde deve deixar seus pertences. Está confusa e não sabe como organizar tudo no pequeno armário: o jornal, sua bolsa, a pasta com os exames anteriores e a roupa - molhada. Antes que termine sua organização, é chamada para iniciar os exames. Ela respira aliviada: esvaziará sua bexiga. Mas é informada que o médico atrasou e por esta razão fará todos os exames porém este - para o qual a bexiga deve estar cheia - ficará por último. 

Bravamente passa pela bateria de exames e é liberada. Volta para o armário e descobre que organizou seus pertences da pior forma. Sua blusa branca, agora, além de molhada está manchada com as cores do jornal. Veste-a assim mesmo e volta para casa. 

Está muito atrasada e não almoça.  Segue direto para seus compromissos da tarde. Eles exigem que esteja atenta e ela dá o melhor de si. Mas a sensação de que esqueceu algo e tem coisas urgentes para resolver continua. 

Será que deve marcar horário na dentista? - ela pensa. Liga e agenda um horário. 

No seu intervalo decide fazer uma  lista com tudo o que está pendente. Quer ver no papel, diante de seus olhos, o que pode estar lhe deixando assim confusa. Rapidamente escreve cinco itens. Mas não sente nenhum alívio. Toma um café rapidamente e lembra-se de mais dois itens. Talvez, só depois de resolvê-los se sentirá mais organizada, ela pensa. Segue com seus compromissos até que finalmente volta para casa, ávida por descobrir o que está lhe incomodando. Está cansada mas faz cinco dos sete itens que enumerou. Ainda assim está com aquela sensação de que esqueceu algo e de que tem muita coisa para fazer. 

O sono e o cansaço lhe vencem e determinam o fim do seu dia. 

Na manhã seguinte acorda pronta para iniciar sua rotina novamente. Logo percebe que este dia tambem não seguirá a rotina costumeira. Assim como no dia anterior precisará fazer algumas coisas que normalmente não faz - e deixar de fazer algumas outras que sempre faz- em função das responsabilidades que assumiu para hoje. 

Então começa a entender porque tinha a sensação de tantas coisas para fazer. Ela queria pôr tudo no lugar pois não suporta alterações na sua rotina. 
Por isso adiou tanto o auto-exame e os exames de rotina, porque podem indicar alterações que lhe colocarão diante do novo e, inevitavelmente, terá que lidar com isso.

Finalmente descobre do que estava esquecendo. Estava esquecendo de relaxar, de seguir o fluxo natural dos acontecimentos. 

Mas... Só para se certificar de que é isto mesmo, resolve organizar sua bolsa. Não satisfeita, ainda dá uma geral em sua carteira, jogando fora papéis inúteis e colocando tudo no seu devido lugar. Mas percebe que também não era isso o que estava faltando. 

Então, aceita que quer controlar tudo mas, definitivamente, não pode. 

Ainda assim, procura o papel onde estão escritos os dois itens pendentes, mas não o encontra. 

O dia segue e no seu intervalo de trabalho senta calmamente e pede um café. 

Pensa alto: - O que ainda tenho para fazer mesmo? 

Mas isto não é mais tão importante. 

O mais importante já está feito; seus exames preventivos.

Agora está em dia consigo mesma. Não há mais nada de urgente para fazer. 

Importante mesmo é saborear seu café.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 24/09/2018 - 16:32Atualizado em 24/09/2018 - 17:02

Para muitos  o luto é tragicômico.

Mas não precisa ser assim.

Isso só acontece quando nos descuidamos, quando subestimamos seu poder.

O luto dói porque é um processo onde a mudança é explícita.

Não há como negar, como disfarçar, nem como fugir dela.

O luto, comumente associado a MORTE é, na verdade, o processo de VIDA mais intenso pelo qual alguém pode passar.

O luto é o aprendizado vital de que nada permanece, tudo muda, inclusive o quê ou quem você mais ama nessa vida.

No dia a dia a gente finge que não vê. Finge que não sabe disso. 

Podemos passar anos convivendo com algo ou alguém que não é mais o que era e podemos seguir acreditando que tudo continua igual.

No luto não.

A ausência de quem partiu impõe o reconhecimento da mudança e transforma tudo e todos ao redor.

É como se retirassem toda a mobília de sua casa, deixando só as paredes, sem sua permissão. 

Você terá que começar de novo. 

Terá que repensar prioridades.

Terá que refletir se a máquina de lavar louça era realmente necessária. 

Se as paredes terão quadros desta vez. 

Se os móveis serão sob medida. 

Você terá, inclusive, que analisar considerando suas condições, se pode começar a mobiliar novamente agora ou se precisará viver um tempo com todo o espaço vazio ao seu redor.

E mesmo que você decida repor tudo exatamente do jeito que era imediatamente, você descobre que nada, nunca mais será como antes.

E quando a pessoa que morreu é alguem da sua família, alguem que você ama muito?

Se foi seu pai que morreu, você estranhará sua mãe. 

Se foi sua mãe, estranhará seu pai. 

Se foi seu filho, estranhará a si mesmo.

Seus irmãos se tornarão estranhamente humanos, algo para além de apenas seus irmãos.

Seus primos  lhe parecerão inalcançáveis. 

Seu namorado/marido não caberá mais no  papel de salvador.

Seus filhos ou sobrinhos crescerão e você tentará acompanhar mas será como  tentar acompanhar o movimento de uma montanha russa.

Você ficara tonto e confuso e, as vezes, sem forças.

Você se agarrará aos que ficaram e, sem que perceba, criará a expectativa de que sejam sua âncora de vida agora.

Então, ao menor movimento deles indicando mudanças, você se desespera. 

Como e porque motivo aconteceria de novo? 

Por que algo ou alguém ousaria sair da inercia agora?

Você não pode acompanhar, não suporta mais mudanças. 

Quer que a vida pare de girar tão rapidamente. 

Quer descer do carrossel. Não quer mais brincar!...

Mas, para quem quer aprender, o luto é o ensinamento mais profundo sobre o agora. 

Sobre a eternidade de um momento.

Você aprende que nada é. Tudo está. 

E você só supera o luto quando aprende que esse exato momento já não está mais.

 

A comédia do luto é querer assumir como suas, as características que são exclusivamente dele.

Você insiste em dizer: 

- Essa sou eu. Sempre tive dificuldade para dormir. Sempre gostei de ficar só.  Eu sempre esperei que nada mudasse.  Eu sou assim...

Mas era o seu orgulho que falava por você. 

É difícil admitir o quanto está doendo.

Admita o luto e ele quebra seu orgulho.

Nada é você. Você é nada. Você apenas está.

E, agora, está tentando compreender e aceitar seu papel na nova constituição familiar.

Está tentando se readaptar.

Está vivendo como se nada demais tivesse acontecido mas, o intervalo entre um riso e outro, parece não ter fim. 

E você não consegue, por mais que se esforce, costurar um momento ou um dia de sorriso no outro, as vezes, tão distante. 

Então você se sente uma farsa porque no sábado você sorriu e até gargalhou e, na segunda, você não tinha forças pra sair de sua cama.

Quem é você afinal? Aquela que ri, sorri e até gargalha? Ou aquela que não consegue levantar?

 

Na teoria o luto parece simples, calmo e até linear. 

Ouviu dizer que passaria por fases intituladas de negação, barganha, raiva, negociação e aceitação. 

Um período de vida instável porém previsível, com a aprovação de todos ao seu redor. 

Mais do que isso, com o carinho, a acolhida, o ombro amigo, o colo das pessoas que você quer bem. 

Talvez, alguém querido até chegasse em algum momento e lhe dissesse:

- Já chega! Vamos lá! Levanta! Vou te tirar de casa. Vamos caminhar, ver a vida lá fora. Reencontrar as belezas da vida e enxergar os milagres do amanhecer, do entardecer  e do anoitecer...
E o salvasse.

Mas não é assim que é.

O luto não tem começo, não tem meio e, se você descuidar, não terá fim.

E ele não é feito só de tristeza, 

Você não se torna um santo ou mártir, ao contrario, toda a sua fragilidade humana fica exacerbada e exposta. 

E você se magoa com tudo e todos porque torna tudo e todos seus devedores.

A vida lhe traiu, levou o que lhe era precioso e sagrado.

E você exige ser tratado com respeito por todos agora.

A sua posição é a de vitima e você acha legítimo estar nessa posição.

Até você aceitar que não é vitima de nada, afastará amigos, oportunidades de trabalho e todas as situações de vida que lhe trazem alegria genuína.

 

Querido leitor, no luto,  precisamos de alguém para nos lembrar que estas, talvez, fossem realmente características nossas mas que todas elas ficam acentuadas pela dor do luto.

Precisamos de alguém para nos lembrar que não podemos assumir o lugar de quem morreu, porque - Deus! - nunca ninguém no mundo poderá.

Precisamos de alguém para nos lembrar que não podemos evitar que as pessoas que amamos passem pelo que estão passando.

Precisamos de alguém para nos lembrar que cada pessoa que amamos viverá o luto à sua maneira e que é egoísmo nosso querer que seja diferente, só porque nós gostariamos que fosse.

Precisamos de alguém para nos  fazer entender que ainda dói e que se não pedirmos ajuda ninguém saberá que está doendo e portanto ninguém poderá nos ajudar.

Eu, psicóloga, precisei procurar outra psicóloga para compartilhar com ela todas aquelas duvidas em relação a Deus, céu, universo, vida após morte, galáxias, buracos negros, 'de onde viemos e para onde vamos' e blá, blá blá... dúvidas que assombram que está de luto.

Eu precisei ir até ela para pedir-lhe que me dissesse o que acontece depois que os nossos olhos fecham pela ultima vez. 

Hoje eu lhe diria:

-  Desculpe o pedido absurdo cara colega. E obrigada por não saber.  Obrigada, sobretudo, por lembrar-me que ninguém sabe. E fazer-me lembrar que FÉ é seguir vivendo, a despeito disso.

Querido leitor, desejo que você, no seu processo de luto, saiba reconhecer a hora de bucar ajuda. E desejo ainda mais  que a pessoa a quem você recorrer saiba conduzi-lo pelos caminhos da aceitação ajudando-o a reconhecer a tragicomédia do luto:  que a nossa insistência, beirando a loucura, em procurar respostas para perguntas que não temos, é apenas o nosso coração saudoso, ansiando por notícias do lado de lá.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 18/09/2018 - 18:30Atualizado em 18/09/2018 - 19:01

Grande parte das conversas entre pessoas que ainda não se conhecem começa com o tradicional:
- O que você faz? Trabalha com quê?

Poderia ser nossa deixa para falarmos que curtimos a vida, contemplamos o pôr do sol, tomamos banhos de chuva, dormimos bastante, passamos uma boa parte do tempo livre navegando na internet ou largados no sofá da sala de estar, acompanhamos a sutil diferença da luz do sol enquanto mudam as estações, tomamos muitos cafés, comemos chocolate e gostamos de caminhar sem pressa com nosso cachorro.

Mas quando nos perguntam - O que você faz? - querem saber o que fazemos profissionalmente, que falemos sobre o que nos torna útil na sociedade, sobre o que nos traz retorno financeiro, sobre o popularmente conhecido 'ganha pão'.

Quando nos encontramos nesta situação, em que precisamos falar de nós a partir daquilo que fazemos, nem sempre somos honestos e, as vezes, caímos na armadilha de elaborar um discurso para passar a impressão de que o nosso fazer é importante e com isso ganhar a aprovação de quem nos questiona. 

Falar do que fazemos profissionalmente é falar uma linguagem  universal, sobre a qual todos conseguem opinar e se sentem a vontade para criticar, elogiar, julgar como mais ou menos importante para a sociedade, ou abster-se de fazer comentários mas ficar matutando sobre o que ouviu.

Esta pergunta incomoda mais a medida que estamos mais atentos ao que fizemos. E não estou me referindo ao 'fazeres' profissionais apenas. Refiro-me a atenção que damos à forma como acordamos, aos primeiros pensamentos que nos ocorrem ao despertar, aos nossos primeiros sentimentos, ao modo de levantar da cama, às nossas primeiras escolhas, à roupa que vestimos, ao nosso café da manhã, ao que fizemos com nosso tempo... Porque tudo isto são "fazeres" ou afazeres.

Podemos facilmente perceber a frequência com que as pessoas falam do que fazem; seja na rua, nas filas de espera, no ponto de ônibus, na rodoviária, no aeroporto. Nós as ouvimos falando da empolgação ou do descontentamento que sentem por estarem fazendo o que fazem, de como estão atrasadas para seu compromisso e do que o atraso poderá acarretar, da ansiedade em terminar o horário de expediente e poderem estar com alguém em algum lugar que desejam, de planos e projetos relatados com a ênfase necessária para envolver o outro e fazê-lo comprar sua ideia. 

Talvez por isso as conversas comecem com "o que você faz?" 

 

Num mundo ideal, para mim, conversas entre desconhecidos  poderiam começar com: 
- Quem é você? 

- Como você está? 

- Você quer falar agora? Porque né, às vezes, a pessoa nem quer...

Mas as pessoas, de modo geral, se sentem mais a vontade, e pensam estar deixando o outro mais a vontade, quando perguntam "O que você faz?" 

Possivelmente para muitas pessoas é fácil responder a esta pergunta. "Sou Advogado, Engenheira Civil, Dentista..." 

A pergunta geralmente não é "Quem você é?" mas, se você formou-se em Direito, Engenharia ou Odontologia pode dizer que 'é' advogado, engenheiro ou dentista. Concordemos, porém, ninguém é isso apenas. 

Ninguém é, apenas, o que faz profissionalmente. 

Somos, talvez, a soma de tudo o que fazemos, no trabalho ou fora dele, nos círculos sociais ou quando estamos sozinhos, na presença de pessoas íntimas ou de completos estranhos para nós. 

Nestes diferentes ambientes, temos diferentes tipos de comportamentos  e se pudéssemos abarcá-los todos em nossa resposta à pergunta "o que você faz?" daríamos uma boa amostra de nós mesmos. 

Porém, ainda assim, faltaria tudo o que pensamos, dissemos, deixamos de dizer e de fazer. Faltaria, inclusive, o que desconhecemos sobre nós mesmos.

Tantas vezes nos sentimos inúteis, sem poder fazer nada quando, por exemplo, pegamos uma condução, ou mesmo nosso carro, para voltar às nossas casas no fim do dia e acabamos presos no trânsito. 

Justamente nesta hora estamos fazendo inúmeras coisas: talvez refletindo sobre nosso dia, talvez sonhando com um dia melhor ou diferente, talvez tentando resolver mentalmente o problema que ficou pendente, talvez estejamos nos dando conta de nosso cansaço e de que precisamos relaxar.  Talvez, seja o nosso momento de agradecer a vida que levamos e a oportunidade de fazer o que fazemos. Talvez, seja o raro momento em que  repensamos nossos 'fazeres' mas, mesmo decididos a encontrar outros caminhos, tudo o que podemos fazer, por ora, é seguir em frente. 
Mas como dizer isso a quem nos pergunta:
- O que você faz?

 

Querido leitor, com esta reflexão, quero levá-lo a perceber a oportunidade que temos de conhecer verdadeiramente o outro quando fazemos um primeiro contato, uma primeira pergunta para ele. Oportunidade que podemos desperdiçar quando iniciamos uma conversa focando apenas em saber o que o outro faz, com que o outro trabalha. 
Poderíamos iniciar um movimento mudando a pergunta "O que você faz?"para "O que você fez hoje?"

Porque essa é uma pergunta que parece ser mais fácil de responder e que nos leva a refletir constantemente sobre nossos 'fazeres', permitindo-nos ajustar a rota sempre que considerarmos necessário.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 04/09/2018 - 19:49Atualizado em 04/09/2018 - 19:56

Uma das conclusões que cheguei com minha experiência de atendimentos no consultório foi que, pensar sobre algo, é sempre muito pior do que experienciar.
Quando pensamos em como será, o que sentiremos, o que pensaremos, o que faremos, formulamos inúmeras hipóteses, a maior parte delas desnecessárias e até mesmo nocivas a nossa saúde mental e emocional.
Quando vivenciamos, não estamos especulando. Estamos vivendo, sentindo, pensando e agindo. No mínimo, boa parte da ansiedade vai embora. Ficamos com o fenômeno, o evento e, a partir daí, quaisquer que sejam nossas decisões, serão fundamentadas na experiência e não nas nossas elucubrações e devaneios.
Não há como saber se iremos nos arrepender depois. Podemos, evidentemente, conhecer o que estamos escolhendo e assim fazermos nossa escolha de forma mais consciente. No entanto, somente ao 'depois' cabem as respostas. A questão é desejar o depois.
Se o depois chegou e nos trouxe arrependimento, é o momento de reavaliarmos nossa escolha. Sabemos que toda escolha implica em perdas. Não há como escolher sem perder alguma coisa. Podemos voltar atrás? É isto o que desejamos? Vamos seguir em frente com nossa escolha e assumir as desvantagens da mesma?  Traçaremos uma nova rota? O que faremos com o que temos em mãos?
A vida é um eterno decidir. Decidimos sair da cama, escovar os dentes, comer, estudar, trabalhar, descansar, socializar. Ou não.
Muitas vezes pensamos: "Não deveria ter saído da cama hoje." Mas já está feito.
Imagine passar o dia inteiro deitado, olhando para o teto, com medo de se arrepender de ter levantado.
Tenham medo de se arrepender, não há nada de errado com isso. Mas não se deixem paralisar por este medo.
Como dizem por aí, "vai com medo mesmo". A menos, é claro, que o medo é sua desculpa para não tentar.
Todos nós nos arrependemos todos os dias sobre as mais diversas coisas: palavras ditas, não ditas, atitudes que tomamos ou deixamos de tomar, nos arrependemos por nos alimentarmos da forma errada, por não praticarmos atividade física, por não sermos produtivos o suficiente, por não termos sido bons o suficiente, por milhares de coisas.
Mas volto a dizer, pensar sobre como seria será sempre infinitamente mais angustiante do que vivenciar.
Quando vivenciamos, terminamos o ensaio e estrelamos no palco da vida. Lugar onde somos protagonistas de nossas histórias.
Insuportável seria vivermos eternamente ensaiando sem a chance de estrearmos um dia.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 28/08/2018 - 20:00Atualizado em 28/08/2018 - 20:04

Fiz as pazes com a mediocridade.
O adjetivo (medíocre) é forte e muitas vezes usado para denegrir o trabalho ou a imagem de alguém.
No entanto, o significado de medíocre vai além disso e pode surpreender. 
Medíocre vem do latim 'mediocris' e significa médio! Está entre o bom e o mau, o gigante e o minúsculo, a qualidade e a falta dela, a criatividade e a cópia.
E, cá entre nós, por mais que não queiramos estar na média, não seremos gênios o tempo inteiro. Podemos ter momentos de criatividade extrema mas isso não significa sermos bons o suficiente para ficarmos acima da média o tempo todo (pelo menos não sem muito esforço).

Numa rápida retrospectiva revi minhas tentativas de ter meus possíveis talentos reconhecidos.

No ballet na tenra infância. Nas participações nos shows de valores da escola. Nas aulas de violão. Na natação. No inglês. Em todas as - necessárias - aulas de reforço para as disciplinas de cálculos. No entusiasmo com que fazia as redações nas aulas de Língua Portuguesa. Em todos os artesanatos confeccionados nas aulas de Iniciação Para o Trabalho. Em toda a minha vida acadêmica, da pré-escola a pós-graduação. No meu trabalho como professora e como psicóloga. Nas trocas e vendas num brechó virtual que criei. Nas inúmeras tentativas de melhorar minha qualidade de vida, fisica, mental e espiritualmente

Nunca me destaquei. Em nenhuma das tentativas fui "genial". 

Sempre me deparei com algum tipo de limitação.

Algumas vezes fui persistente - a persistência sempre trás algum reconhecimento, dos outros ou de nós mesmos.

Recebi elogios e em alguns até acreditei. 
Mas o que acontece comigo e com a maioria de nós que passamos por isso?

Na maioria das vezes abandonamos o barco.

Porque queremos ser especial no que fazemos.

Mas não podemos porque somos medíocres naquilo.

Nem o melhor, nem o pior.

Nem tão bom, nem tão ruim.

Nem tão grande, nem tão pequeno.

Nós não nos situamos em nenhum extremo que receba destaque.

Isto me incomodou durante um bom tempo. 

Incomodou tanto que me esforcei demasiadamente, ora para que reparassem minhas qualidades, ora para que reparassem meus defeitos. Em todo o tempo, para que me enxergassem.

Hoje sei que não era a mediocridade que eu temia.Meu  medo era ser esquecida.
Esse é o nosso maior medo: sermos esquecidos!

Foi assim que preferi ser a chata a não ser ninguém na vida das pessoas ao meu redor.

E foi assim, também, que me libertei para ser quem posso ser e fazer o que posso fazer.

Para alguém como eu leva um tempo até aceitar que a vida é isso aí: abrir os olhos, levantar, respirar e fazer o que for possível, mesmo correndo o risco de ser taxada de medíocre.
Até porque a outra opção seria não fazer nada, talvez, nem levantar pela manhã.
De coração querido leitor, desejo que você escolha sempre a primeira opção: abra os olhos, levante, respire fundo e faça o que for possível.
Feito é melhor que perfeito.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 20/08/2018 - 16:40Atualizado em 20/08/2018 - 16:45

O ano é como uma estrada comprida, a qual conhecemos bem. 
E agosto é o túnel da estrada. 
Supomos, a cada começo de ano, saber como estaremos e o que sentiremos em cada trecho desta estrada. 
Sabemos que fará calor no início da jornada e que depois virá a meia-estação. 
Quase no meio da estrada precisaremos de reforços pois os dias serão mais curtos e as noites mais longas. 
Fará muito frio e, em muitos dias, não haverá sol para iluminar o caminho. 
Mas sabemos, também, que depois deste trecho a temperatura estará amena novamente e a caminhada será mais fácil. 
No final da estrada o calor intenso voltará. 
Caminharemos em dias de festa, de recolhimento, de luz e de escuridão. 
Caminharemos sentindo a brisa no rosto em alguns dias. Em outros o caminho estará repleto de folhas caídas, trazidas pelo vento. 
Andaremos olhando para as flores enfeitando o caminho e poderemos nos refrescar num lago a beira da estrada nos dias mais quentes. 
Em alguns trechos encontraremos muitas pessoas e em outros caminharemos sozinhos. 
Sempre haverá uma surpresa. Algo que nunca antes enxergamos na estrada. Esta é a graça da caminhada. É na expectativa das surpresas que nos animamos a caminhar. 
Há um trecho da estrada que chamo de túnel. É quando já faz frio há muito tempo. Quando passamos dias caminhando sem ver o sol. Dias em que chove muito e os viajantes da estrada ficam mais reservados. Alguns nem cumprimentam quando se encontram. Estão muito preocupados com a própria sobrevivência. 
Quase todos vestem roupas escuras, a grande maioria veste preto. 
É a parte da caminhada em que já estamos cansados e sabemos que ainda há uma longa jornada até o final. Embora certos de que não desistiremos, caminhamos cabisbaixos, olhando nossos passos. 
São os dias em que olhamos para trás e já não enxergamos o início do túnel. Janeiro está muito longe agora. 
Olhamos para frente e não vemos seu final. Dezembro ainda não está perto. 
Dentro do túnel, a cada dia, somos vitoriosos apenas por ter continuado a caminhar. 
Quando agosto chega ao fim conseguimos sentir outra vez o frescor da brisa lá fora, a luz do sol, o perfume das flores. E sentimos renovada a vontade de caminhar com alegria até o fim da estrada.
Talvez seja apenas imaginação, o túnel e até mesmo a estrada. Afinal, filosoficamente falando, não existe agosto, nem janeiro ou dezembro. Não existe começo, meio ou fim.
Nesse sentido tudo o que temos é o agora, o momento presente.
Então querido leitor; agosto, gosto ou desgosto, fica totalmente a seu gosto.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 15/08/2018 - 20:43Atualizado em 15/08/2018 - 20:45

Tem muita beleza escondida e muito lixo exposto em nossas casas.
É impressionante a quantidade de coisas e lembranças bonitas que encontramos escondidas dentro de nossos armários e gavetas. 
Herbert Vianna fala lindamente sobre isso na música Tendo a Lua.

Começamos a mexer nestas coisas sem a menor ideia do que nos espera. 
Sabemos apenas, intuitivamente, que vamos nos deparar com lembranças. 
Mas depois de encontrar o primeiro objeto, muitos outros parecem nos dizer: 
- Olha eu escondido aqui! Me nota! Você não gostaria de me ver todos os dias? Me coloca na sua estante!
São cartas, cartinhas, cartões, bilhetinhos, recortes e fotografias.
Solícitos, vamos retirando dos esconderijos tudo o que consideramos belo, alegre ou útil.
Nas primeiras tentativas de expor tanta coisa acabamos nos atrapalhando um pouco. Precisamos de um tempo para nos familiarizarmos com todo aquele estímulo visual e, principalmente, emocional. 
Aos poucos, vamos identificando o que já não faz mais parte do nosso cenário. 
Não precisamos de muitos critérios para escolher o que retirar da nossa vista. 
Algumas coisas simplesmente não combinam com o cenário que queremos enxergar todos os dias. Devem voltar pras gavetas. Ou ir embora de vez. 
O que é feio, porém necessário, que fique guardado. Se além de feio, é inútil e triste, que vire lixo. 
Porque assim como os objetos que deixamos expostos sem que harmonizem com nosso ambiente e os outros, bonitos, porém esquecidos no fundo das gavetas, nós também acabamos insistindo em revelar nossos defeitos e fragilidades enquanto escondemos cuidadosamente nossa força e nossas qualidades.
Jogue fora o lixo e, se não for possível, 'esconda-o'.
E exponha o que é belo querido leitor.
Como cantou Herbert Vianna, "a casa fica bem melhor assim".
Possivelmente a vida fica bem melhor assim também.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 15/08/2018 - 20:16Atualizado em 15/08/2018 - 20:17

Felicidade bate à porta.
Há quem não acredite.
Muitos acham que é preciso buscá-la fora de casa, em outra cidade, outro país, outra universidade, outro trabalho, outro relacionamento.
Há quem não acredite que pode encontrar a felicidade em sua casa, em seu trabalho, enfim, em sua rotina.
Andam - quando não correm - de bar em bar, de festa em festa, de cidade em cidade, atrás da tão desejada felicidade.
Mas chega a hora de passar dessa fase.
Até nos aventuraremos por aí, mas buscando emoções - as quais na hora e na dose certa só fazem bem - mas sabendo que isso não tem nada a ver com felicidade .
É clichê, mas somente quando paramos de buscar a felicidade desenfreadamente é que ela nos encontra.
O que não percebemos é que somente ao nos aquietarmos poderemos recebê-la no conforto da nossa sala de estar.
Sim.
Mas para isso precisaremos enfrentar o silêncio.
A solidão.
O encontro com os velhos problemas.
Precisaremos nos deparar, inclusive, com problemas novos e que até então passavam despercebidos.
Sim.
Teremos que olhar para eles.
Pensar sobre eles.
Até, algumas vezes, conversar sobre eles. 
Empenhar-nos em resolvê-los ou aprender a lidar com eles.
Sim.
Aprender a lidar com problemas insolúveis é desagradável.
Todos, nessa hora, temos vontade de sair correndo.
E, frequentemente, saímos, desvairados, fugitivos de nós mesmos.
Consumimos, barganhamos, ostentamos.
Saímos flexionando os mais diferentes verbos na tentativa de esquecer os problemas e encontrar a felicidade, nem que seja a força.
Até que chega a hora de voltar para casa.
A hora em que cessam as buscas. 
Damos por encerrada as tentativas de encontrar a felicidade.
Acreditamos que só nos resta a resignação.
Assistiremos, enlutados, a felicidade dos outros pela televisão e pela internet.
Oficializaremos a morte da nossa própria felicidade.
Sim.
Fazemos isso.
Sem tê-la encontrado, nós a declaramos morta.
E ela, sempre a nos rodear.

Nosso erro é achar que o céu tem de estar azul, o mar transparente, a casa reformada, a família na mais completa harmonia, os amigos nos procurando e os inimigos nos admirando.
A felicidade não precisa de nada disso para chegar.
Mas chega com tudo isso também.
Não precisamos "antes" resolver ou organizar coisa alguma, 
A felicidade não impõe condições.
Coexiste com perdas, faltas e ausências de toda ordem.
A felicidade precisa, apenas, que nós a enxerguemos.

Felicidade é isso: 
Nos deixa em paz.
Nos aceita como somos.
Não pede nada em troca.
Chega sem alarde.
Permanece somente pelo tempo que quisermos.

Aprenda querido leitor, a tempo, que a felicidade nos encontra mais facilmente quando nos aquietamos.
E é tão bom recebê-la que acabaremos vivendo pacificamente para merecer suas visitas.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 02/08/2018 - 18:10Atualizado em 02/08/2018 - 18:20

Se todos os sentimentos são humanos, só não os sente quem não é.

Todo mundo sente. 

A intensidade com que sentimos é que pode variar - e muito - de pessoa para pessoa.

Há uma frase que se popularizou na internet e que diz mais ou menos assim: "Não tenho medo de pessoas invejosas, tenho nojo."

Nas primeiras vezes em que me deparei com esta frase fiquei pensando; como pode alguém se orgulhar por sentir nojo de pessoas porque estas sentem o que ela não sente? Ainda que estivesse fazendo referência ao fato de que não sente medo de pessoas invejosas, como pode alguém alardear com orgulho que sente nojo?   

Com o tempo, ao me deparar com a frase, já não era isto que eu pensava. Passei a me questionar: Como alguém se amedrontaria ou teria ojeriza a pessoas portadoras de um sentimento que ela desconhece ou que nunca experimentou na sua condição humana?

Sinceramente, respeito todos os sentimentos. Como disse o filósofo Publio Terencio, "nada do que é humano me é estranho". Não quero dizer com isso que sentimentos que causam mal a nós mesmos ou a outros devam ser cultivados ou alimentados. Não acho que a mágoa, a raiva, o ciúme, a inveja devam receber consideração especial. Mas também não creio que devam ser negados pois, quase sempre, dizem algo de nós para nós mesmos.

Somos parte de uma sociedade extremamente competitiva. Desde criança somos comparados. E sempre haverá alguém que é mais ou melhor do que nós em alguma coisa. Isto pode aparecer de forma objetiva - como por exemplo, o amigo que é mais alto e tem melhor desempenho no basquete - ou de forma subjetiva - quando por exemplo achamos que alguém é mais bonito ou melhor do que nós em tudo o que faz.

Nossas escolas fazem questão de divulgar o nome de seu aluno primeiro colocado no vestibular. Empresas divulgam nome e foto do funcionário destaque. A ditadura da beleza estabeleceu quem são os mais bonitos. A moda determina os mais bem vestidos. Até o que era para ser investimento em qualidade de vida virou uma disputa de quem é o mais magro, quem é campeão nos esportes ou quem se alimenta melhor. Nós somos preparados para invejar pois estabeleceu-se um padrão, todos devem querer as mesmas coisas. 

Há tanto mito em torno dos sentimentos que alguns sentem inveja de quem, supostamente, não tem inveja. E alguns acreditam piamente que não experimentam os chamados 'sentimentos inferiores'. Obviamente, numa sociedade assim, quando se está  numa condição favorável é possível que a pessoa não tenha olhos para seus próprios 'sentimentos inferiores' ou, até mesmo, que tais sentimentos não se manifestem com frequência. Mas em condições desfavoráveis é comum as pessoas  passarem a olhar para o que não tem ou não conseguem alcançar. A partir daí, facilmente, enxergam o que os outros tem e alcançam. Se neste momento sua autoeficácia não estiver suficientemente forte, podem sentir inveja. Não é o fim do mundo. Ela fará mais mal a quem sente do que a qualquer outra pessoa. A menos, é claro, que a pessoa canalize seus esforços para destruir o que o outro construiu. Mas aí é outra história.

Se somos capazes de amar também somos capazes de odiar. Na mesma intensidade que desejamos algo ou alguém, sentimos ciúmes. Se criamos expectativas nos relacionamentos, nos magoamos. Todas as pessoas que podem nos despertar sentimentos de profunda alegria, também podem nos deixar com raiva. Admiramos as pessoas quando estamos de bem com a vida e com nós mesmos na medida em que as invejamos quando nos sentimos mal.

O que fazemos com estes sentimentos é o que nos diferencia uns dos outros!

Quando prestamos atenção em nossos sentimentos temos a oportunidade de nos conhecer melhor. Este é um primeiro e importante passo para nos ajudarmos. 

E não há nada melhor para afugentar 'sentimentos inferiores' do que saber que podemos contar com nós mesmos.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 27/07/2018 - 16:48Atualizado em 27/07/2018 - 16:50

Com todo o respeito as mães (valendo para os pais também) que trabalham fora de casa e querem, mas não podem, curtir os filhos de férias, afirmo:

Filho em casa é um presente.

Possivelmente curto mais as férias escolares de minha filha do que ela mesma.

Os dias ficam mais animados. Eu fico mais animada!

Nas férias você pode enxergar - de fato - seus filhos.

Observe seus pequenos. 

Eles estão bem diferente das férias do inverno passado.

Seus interesses mudaram. Mudaram os livros que lêem, os programas que assistem na TV, os filmes que querem ver no cinema.

Não querem mais saber de algumas brincadeiras e jogos. 

O jeito de se vestir provavelmente mudou. 

Suas conversas ganharam profundidade e, não raramente, você muda de assunto surpresa com sua capacidade de conversar de 'mulher pra mulher' ou de 'homem pra mulher'.

Não raramente, também, eles interrompem diálogos subitamente, como se não tivessem o menor interesse no assunto que você propõe. 

Se isso estiver acontecendo e eu não estiver enganada, seu filho está adolescendo.

Você pensa: Ela está completamente enganada.

Mas toda vez que desvia o olhar do desodorante de seu filho e acaba enxergando seu rosto no espelho do banheiro, seu reflexo lhe afirma: Sim, ele está adolescendo.

Então você fica desejosa de mais dias de férias, de mais tempo com ele, de menos compromissos para ambos.

A sensação de que a infância está acabando traz o sentimento de urgência. Urgência de convivência.

Toda mãe em sã consciência sabe que sentirá saudade de seu filho criança.

Deseja ardentemente vê-lo crescer saudável e passar por todas as fases da vida.

Mas sabe que não será mais necessária como foi nos primeiros anos de vida do filho.

Talvez seu filho ainda lhe chame de melhor mãe do mundo.

Faz cartinhas e cartões para você.

Pede carinho e cafuné.

Adora receber massagem e, as vezes, fazer também.

Pede pra você sair da internet e assistir TV com ele.

Faz uma infinidade de programações nas quais você está inclusa.

Pergunta o que você tem quando está pensativa.

Aceita sugestões sobre o que vestir, calçar e de como deve arrumar o cabelo.

Demonstra preocupar-se em lhe deixar quando vai dormir na casa de um amigo.

Diz que lhe ama agarrada em seu pescoço várias vezes ao dia.

Não é de se esperar que isso dure a vida toda.

Tudo isso só para você!

Enquanto durar não seja maluca de desperdiçar. Porque chegará o dia em que ele estará em outra querida leitora.

Nas férias você pode curtir tudo isso sem hora para ir dormir. Sem hora para acordar. Sem compromissos para interromper vocês.

Quando a vida voltar à sua rotina será a vez dos 'agora não posso'. De curtir seu filho somente quando for possível.

Agora é a vez das férias escolares de seus filhos e é a sua vez de curti-los o tempo todo.

O tempo todo que eles permitirem, é claro.

Desespero com as férias escolares? Que nada! Curta as férias da garotada.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 18/07/2018 - 19:19Atualizado em 18/07/2018 - 19:22

A Copa do Mundo colocou em evidência nomes como Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo.
Eles foram ovacionados e também extremamente cobrados por fazerem bem o que fazem.
Mas é possível sentir-se o melhor no que faz sendo um completo anônimo?

Ao longo de nossas vidas experienciamos vários papéis. 

Alguns são apenas tentativas despretensiosas. Outros surgem por necessidade e não podemos recusá-los. E, finalmente, existem aqueles que escolhemos e para os quais nos empenhamos em ser o melhor que pudermos.

Na infância somos filhos, irmãos, colegas, alunos disso e daquilo, deste e daquele professor.

Na adolescência seguimos com estes papéis e ainda nos tornamos estudiosos, melhores amigos, namorados, praticante de um ou outro esporte, fãs de celebridades.

Quando adultos somos marido, mulher, genro, nora, pais, tios e profissionais.

Sem saber como, vamos acumulando e equilibrando todos estes papéis, acreditando que podemos ser bons em tudo. 

Mais do que isso, acreditamos que podemos e devemos ser ótimos em todos os papéis que desempenharmos.

Confiantes disso, seguimos aceitando novos papéis existenciais, seja como protagonistas ou coadjuvantes.

E em todos eles desejamos nos destacar e, quem sabe, receber o devido reconhecimento, equivalente ao merecido Oscar para o grande ator.

Somente quando percebemos que não podemos ser bons em tudo é que passamos a analisar melhor os papéis e escolher considerando nossa vontade e também nossa capacidade de representá-lo.

Estas escolhas nos permitem dar nosso melhor sem nos importarmos com críticas.

Assim que é com o chef  que se aventura pela primeira vez na cozinha. Com a atleta de competição que busca apenas qualidade de vida. Com o blogueiro que escreve pelo prazer de escrever. Com a mãe que decidiu sê-la em período integral para não deixar de acompanhar a infância do - outro - filho. 

Estes são exemplos de papéis existenciais escolhidos cuidadosamente e sentir-se ótimo ao realizá-los tem mais valor do que ser considerado ótimo pelos demais.

Todos deveríamos ter a oportunidade de escolher ao menos um de nossos papéis sem sermos pressionados pelas exigências da vida. Assim poderíamos nos sentir os melhores do mundo. Não porque assim nos consideram. Mas porque o vivenciamos com paixão e experienciamos a plenitude, mesmo que no anonimato.
Em quais papeis querido leitor você se sente realizado, feliz, pleno, mesmo que não o aplaudam, mesmo que não ganhe likes, nem visualizações, nem reconhecimento algum que não seja o seu?
Eliane Brunn é uma jornalista e escritora que gosto muito e que fala dos pequenos gestos, diminutos, invisíveis...Ela fala do avesso da importância, do antônimo da evidência. Segundo ela são as pequenas atitudes que salvam o mundo todos os dias.
Então, seguindo seu raciocínio, é possível sim sentir-se o melhor do mundo sendo anônimo. Como? Ajudando alguém que precisa, cozinhando para alguém que está com fome, ouvindo quem quer desabafar, falando com quem quer ouvir ou mesmo fazendo algo menos altruísta, como jogar um futebol no fim de semana, escrever num blog sem compromisso, fazer uma atividade física no fim do expediente. Mesmo, ou melhor, principalmente, se isso não o deixar em evidência!

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 11/07/2018 - 17:20Atualizado em 11/07/2018 - 17:32

Aprecie lavar o rosto ao sair da cama. Fazer uma concha com as mãos e encher de água para, em seguida, levá-la até seu rosto. Mergulhá-lo na água e despertar do sono para a vida.
Aprecie vestir roupas confortáveis e simples. Roupas que não te revelem por completo mas que também não te escondam. Roupas com as quais você possa viver seu dia inteiro, sem precisar mudá-las para um ou outro compromisso.
Aprecie dar bom dia às pessoas. Um bom dia que transmita seu desejo de que o dia seja realmente bom. Dê bom dia para seu marido, sua filha, para o vizinho, para o porteiro. 
Aprecie, também, ouvir 'bom dia' das pessoas que encontra pela manhã.
Aprecie cada etapa do preparo do seu café. Encher a chaleira de água, acender o fogo, colocar a água para esquentar. Pôr o pó de café dentro do filtro de papel no coador sobre o bule. Depois, derramar a água sobre o pó e sentir o aroma do café tomando conta de toda a cozinha e, não raras vezes, de toda a casa.
Aprecie caminhar olhando para tudo o que há de bonito no seu bairro e nas redondezas. No chão, as folhas do plátano secas que o vento espalha por toda a rua no outono e inverno. No céu, as nuvens brancas ou o azul infinito. No ar, a brisa e os aromas. 
Aprecie as flores nos jardins das casas, nas janelas, nas árvores. São lindas mesmo caídas formando tapetes coloridos no chão. Não resista, fotografe tudo o que achar bonito. Ou, apenas contemple.
Aprecie sua casa. Aprecie organizá-la e, depois, vê-la limpa e cheirosa, bonita e funcional. Aprecie todos os cômodos da sua casa. Em cada um deles sinta-se acolhido de um modo especial. Nos quartos, deixe as camas bem feitas, cobertas com as colchas de crochê que herdou de sua avó ou de sua mãe. Na sala, enfeite com flores e velas. A cozinha é seu lugar de movimento. Lave a louça você mesmo de vez em quando, sem ajuda de maquina de lavar. Faça espuma nos pratos, talheres e panelas e, depois, deixe que seja levada pela água. Deixe as louças no escorredor secando ao sabor do vento. Na área de serviço, descanse olhando pela janela. Na varanda, deite na rede e veja o sol se por. Sua casa deve ser seu lugar preferido.
Aprecie ir a livraria  e ficar lá por horas. Parar sem compromisso diante de todos os títulos que te chamam a atenção. Aprecie escolher alguns livros, sentar e folheá-los com calma. Apaixone-se por vários deles mas escolho apenas um  para ir consigo. 
Aprecie retirar da sua estante, livros que já leu e releu e, dos quais, consegue se desapegar. Aprecie esquecê-los em lugares públicos. A propósito, aprecie praças, parques, calçadas, muros, escadas, mesas, bancos; tudo o que compõe a paisagem urbana. Entre estes lugares, escolha o mais bonito e tranquilo para deixar um livro. Fotografe e guardo a imagem do lugar que recebeu o livro como lembrança. Depois, pense nas múltiplas possibilidades que se abrem quando esquece um livro pela cidade.
Aprecie dar e receber carinho. Palavras bonitas, elogios e incentivos fazem bem, acalmam o coração e alegram a alma. Tão bom quanto ouvir palavras carinhosas é pronunciá-las.
Aprecie abraçar. Sinta-se envolvido e envolvendo. Feche os olhos e desapareça no abraço.
Aprecie o silencio, a musica calma, a luz suave. 
Aprecie estar com pessoas simples que sabem ouvir e que gostem de falar das coisas da vida. Troque ideias sobre assuntos do cotidiano e aprenda com elas a lidar com as situações adversas. Pessoas e conversas leves embelezam nossa vida.
Aprecie estar com sua família. Aprecie quando se reúnem ao redor de uma mesa farta, conversam e dão risadas. Alimente sua alma quando convive em harmonia com seus familiares.
Aprecie ter uma criança em seus braços. Aprecie observá-la, conversar com ela, fazê-la sorrir.
Aprecie a companhia de um cãozinho, de um gatinho. Eles são testemunhas de muitas histórias vividas em nossa caminhada. Aliás, um cãozinho é sempre um bom motivo para uma caminhada.
Aprecie olhar pela janela ou sentar em um banquinho como um fiel contemplador das belezas da vida.
Aprecie o por do sol, o canto dos pássaros,  a natureza em todas as estações, cada qual com sua beleza e encanto.
Aprecie saborear as delícias que seu marido prepara quando cozinha. Silencie e saboreie enquanto troca olhares de aprovação.
Aprecie escrever sobre sua maneira de viver a vida. Registre, com prazer, sua existência.
Reconheça que há vezes em que faz coisas que não aprecia. E que se demora nelas mais do que o necessário.
Diante de todas as possibilidades que lhe fazem bem, há vezes em que você não as escolhe.

Este texto é para lembrar que sempre que houver uma escolha a fazer, faça a escolha que lhe fará bem. 
E se você não aprecia nada disso que escrevi acima, recomendo que escreva seu próprio texto.
O texto das coisas que você aprecia!

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 04/07/2018 - 14:42Atualizado em 04/07/2018 - 14:54

Com tantas coisas boas pra sonhar, imaginar, lembrar, em certos dias nossos pensamentos encalham numa coisa só. Um único fato, gesto ou olhar. Uma única atitude, reação ou frase. E um pensamento atrevido, insistente, prepotente, insiste em ficar assombrando cada minuto, de cada hora de nosso dia. 
Tantas coisas mais importantes e até interessantes pra pensar, meu Deus. Mas não. Só tal pensamento consegue despertar nossa atenção. 
Então passamos a analisá-lo de todas as perspectivas, de todos os (nossos próprios) pontos de vista, destinando-lhe os mais diferentes significados, as mais ensandecidas interpretações, as mais ridículas importâncias. 
Com um mundo inteiro a nossa frente para contemplar, percebemo-nos impossibilitados de ver coisa alguma. Presos dentro de nossa mente, o pensamento movendo-se em círculos, acreditamos que a qualquer momento teremos um 'insight' e tudo estará explicado. Poderemos, então, tomar as medidas necessárias e assim, só assim, descansaremos.
Quanta bobagem. 
Certa vez uma psicanalista me ouviu por um longo tempo durante o qual relatei minuciosamente minha preocupação crônica com uma pessoa próxima a mim. Seus comportamentos, consequências de suas escolhas, resultados de suas ações, o que eu pensava que deveria fazer, como eu pensava que deveria proceder e por aí em diante. A vida do outro - ainda que este outro fosse alguém muito próximo a mim - ganhou uma dimensão gigantesca e eu passei a pensar para ele e por ele, muito embora, possivelmente ele não estivesse interessado. 
Depois de um tempo me ouvindo a psicanalista ajeitou-se em sua poltrona e buscou lá de dentro uma pergunta que saiu quase em forma de um suspiro: 
- Em que você não quer pensar?
Não consegui lhe responder na hora. Na verdade, na hora, nem ao menos entendi sua pergunta. Fiquei com ela durante um tempo, cozinhando meus neurônios. Fato interessante pois enquanto pensava no que eu estava evitando pensar, já não me preocupava com as escolhas e a vida da pessoa querida, as quais não podia modificar.
Mais interessante ainda foi perceber, dias depois, quanta coisa tinha pra pensar sobre a minha própria vida, quantas escolhas a fazer, quantas decisões a tomar e - o mais difícil - por onde começar.
Ainda me perco em pensamentos repetitivos. Eventualmente dou importância maior do que deveria a situações corriqueiras, do cotidiano. Mas não mais por muito tempo. Logo que me percebo 'noiada' pergunto a mim mesma:
 - No que você não quer pensar?
Aprendi pagando pois fazer análise sai caro, e repasso o aprendizado de graça.
Quando pensamentos repetitivos, ruminantes, insistirem em lhe incomodar questione-se:
O que você está evitando pensar? Viver? Mudar em sua vida?
A pergunta tem quase o mesmo efeito de quando balançamos a cabeça forte e rapidamente. Provocamos  o movimento necessário para a interrupção momentânea dos pensamentos, o que nos permite uma trégua na qual podemos rever nossas preocupações.
E, o que é melhor, leva-nos do estado de pré-ocupação para o de ocupação, a melhor maneira, sem dúvida, de afugentar nossas 'nóias'.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 21/06/2018 - 16:06Atualizado em 21/06/2018 - 17:36

Há quem goste muito do inverno!

Mas para algumas pessoas a estação que se inicia hoje é uma verdadeira prova de resistência física e emocional.

O inverno por si só leva muita gente aos consultórios psicológicos.

Esses diriam ao psicólogo:

"O inverno exige muito de mim. Naturalmente me encolho para pessoas, situações, fenômenos e eventos. O inverno me encolhe ainda mais. Encolhe meus ombros, meu pescoço, minhas costas. Fico contraído como se isto pudesse criar uma camada de proteção no meu corpo que impedisse a perda de calor. Obviamente isso não acontece. O que realmente acontece é que fico travado e só quando lembro de alongar percebo o meu grau de encolhimento. Quase nunca me dou conta do quanto estou encolhido, só quando pescoço, ombros e costas começam a doer.
Para piorar a situação entra em cena a lei da inércia e, quanto mais me encolho e me recolho, mais encolhido e recolhido eu fico. 
Durante o inverno sou um animal em estado de hibernação, sonolento, inativo, com as funções vitais do meu corpo reduzidas ao absolutamente necessário: sobrevivência. Preciso me lembrar de respirar fundo, pois a minha respiração quase cessa, meus batimentos cardíacos diminuem e todos os processos bioquimicos do meu corpo restringem-se ao minimo."

Brincadeiras a parte, é fato que qualquer animal que permaneça inativo durante semanas com temperatura corporal inferior a normal está em hibernação. Eu fico bem próximo a isto.
Tudo se torna muito difícil; lavar o rosto, escovar os dentes, lavar a louça. Mexer com água, mesmo que seja aquecida, me enerva. Banho é um capítulo a parte. Todo aquele movimento de retirada das inúmeras roupas para, posteriormente, entrar embaixo de uma ducha, para mim, fica desprovido de sentido. Confesso que depois, quando já estou embaixo da água quente, é muito prazeroso. Mas é só o tempo de me acostumar e preciso me despedir daquele momento quente e relaxante. Me desencolho e o frio inicia seu processo de encolhimento. 
Considerando a lei da inércia, novamente, penso que poderia tranquilamente hibernar durante o inverno ou, pelo menos, nos dias mais frios. Mas os deveres e obrigações me chamam à atividade. Então, são quatro meses de infinita adaptação. Encolhe, desencolhe, encolhe, desencolhe. Sinceramente é muita adaptação e readaptação para mim.
O inverno exige demais. O inverno cansa! 
Sim, eu gosto de fazer charme com casacos longos e botas, cachecóis, gorros e luvas. Mas, mesmo que eu quisesse, seria odioso dormir com tudo isso. E mais cedo ou mais tarde chega a hora de tirar ou trocar de roupas. Além disso, tantas roupas tornam-me ainda mais atrapalhado, esbarro em objetos e derrubo-os com facilidade. 
Ar condicionado e aquecedores são ilusões momentâneas que fazem esquecer do frio rigoroso que corta meus lábios e resseca minha pele. Mas me deixam com dor de cabeça e baixam minha imunidade. E sempre haverá o momento de sair destes ambientes quentes, mas artificiais, e encarar a realidade da rua. Aliás, rua, o lugar onde muitos dormem. No inverno sempre haverá isso para pensar enquanto eu estiver me renovando em um banho quente.
Tenho consciência de como estou sendo chato e queixoso. Talvez outras coisas estejam me incomodando até mais do que esta massa de ar frio. Sim, é possivel que eu esteja projetando minha insatisfação geral com a vida numa única estação mas, creio que a deliciosa meia-estação tornaria tudo mais ameno. Ah, o outono e a primavera...
Enquanto eu viver vou gostar de todas as estações, afinal elas compõem este bem maior chamado vida, porém, sempre terei preferência pelas meias-estações.
As estações de extremo - verão e inverno - duplicam minha já difícil tarefa de ter que que viver tudo com intensidade sem perder o equilíbrio.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 11/06/2018 - 20:49Atualizado em 11/06/2018 - 20:53

Não restam dúvidas sobre a diferença de sensibilidade entre as pessoas. 

Enquanto alguns deixam claro que simplesmente não se importam com as atitudes e comportamentos alheios, outros sentem - e sentem muito. E, depois de sentir, não conseguem esconder que estão sentidos.

Fala-se bastante sobre a hipersensibilidade das pessoas que estão atentas a tudo o que o outro pode despertar em si. São os chamados, pejorativamente, ofendidinhos.

Fala-se pouco, porém, das pequenas indelicadezas que, longe de chamar a atenção por fazerem grande barulho ou causarem grande estrago, agem silenciosamente e vão aos poucos roubando o pouco de ingenuidade que nos resta. A ingenuidade de acreditar que é possível relacionar-se sem frustrações com as indelicadezas com que nos cercam.

A informação que seria útil e que não nos repassam.

O gesto de gratidão - ou um simples obrigado - que não vem.

O e-mail pensado e enviado com carinho, que não é respondido.

A visita de retribuição que não aparece.

A mensagem enviada que fica sem retorno. 

A manifestação de carinho sem reciprocidade.

O perdão que não nos é dado.

O apoio que não recebemos.

O colega que chega nos atropelando sem se importar com o que estamos pensando e sentindo.

A pessoa - a qual admirávamos pela simplicidade - que aluga nossos ouvidos para falar de sua genialidade.

O amigo querido que desabafou o nosso desabafo para o amigo querido dele.

Os mimos que tanto gostávamos e que se revelam cheios de intenções duvidosas.

A pessoa que aparece novamente, com novo interesse.

O comentário sutilmente maldoso - ou maldosamente sutil - que nos atinge em cheio.

Um 'chega pra lá' leve e certeiro.

Silêncios.

Ausências.

Esquecimentos.

O abraço que queremos receber num dia como esse e que não chega.

Somos adultos, sabemos que podemos conversar e pedir o que queremos. Mas sabemos, também, que se precisarmos pedir não terá o mesmo significado do gesto autêntico e espontâneo, o qual desejávamos.

Se você, querido leitor, sente-se afetado por essas indelicadezas preste mais atenção em seus sentimentos e, antes que se transformem num amontoado de mágoa e  finalmente de angústia que você já nem sabe explicar de onde vem, passe a identificar o que o deixou assim entristecido. Tudo bem se foi algo tão pequeno que você nem tem coragem de falar. Escreva sobre isso, grave e ouça sozinho depois, converse consigo mesmo em frente ao espelho...Mas não acumule mágoa com essas pequenas indelicadezas.

A pessoas e seus comportamentos, situações recorrentes, fatos que não pode modificar. Não busque outra coisa a não ser sentir e identificar o que sente. Não confronte ninguém, enfrente a si mesmo!

O mestre Içami Tiba dizia: "Onde há um folgado, há também um sufocado." Eu ouso dizer que onde há alguém que sofre com a hipersensibilidade há também alguém que é no mínimo indelicado (pra não falar das insensibilidades).

É preciso sentir o que houver pra sentir assim como é preciso identificar o que/quem  gerou o sentimento. 

Sinta o que houver para sentir, identifique o que/quem gerou seu sentimento e valide-o!

E siga olhando para os gestos de delicadezas que ainda nos cercam.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 04/06/2018 - 21:08Atualizado em 04/06/2018 - 21:11

Alguns sofrimentos são inevitáveis e nem é necessário muita sensibilidade para estar vulnerável ao que os causa: doenças, morte, a perda de um ente querido, tragédias, violência, injustiças.

Mas nós não sofremos somente por essas questões e, pra falar a verdade, a grande maioria das pessoas queixa-se do sofrimento por questões bem menores. Por exemplo:

A gente sofre quando está muito frio e quando está quente demais.

Quando está chovendo e quando o sol é escaldante.

Quando tem barulho e quando tem muito silêncio.

Quando há muito o que fazer e quando não há nada para fazer.

Quando estamos sozinhos e quando tem gente demais.

Quando estamos com sono e quando temos insônia.

Quando temos fome e quando estamos com indigestão.

Quando estamos gordos e quando estamos magros.

Quando temos metas a atingir e quando as atingimos.

Quando não temos tempo e quando não sabemos o que fazer com tanto tempo.

A gente sofre de saudade e sofre porque tem dificuldades para conviver.

Sofre por falta de grana e por não saber o que fazer com tanta grana.

Sofre quando é pobre e sofre por medo de ficar pobre.

Sofre porque tá solteiro. Sofre porque tá casado.

Sofre porque trabalha. Sofre porque tá desempregado.

Sofre porque divorciou. Sofre porque está sozinho.

Sofre porque está na balada e tudo o que quer é um ninho.

Sofre porque não tem som e sofre porque a música é triste.

Sofre porque estão enchendo o saco e depois sofre porque desapareceram.

Sofre porque dói e sofre porque não sabe onde dói.

Sofre porque precisa limpar a casa e porque tem medo de não ter casa.

Sofre porque mora longe e sofre porque não aguenta ficar perto.

Sofre por lembrar e sofre por esquecer.

Sofre porque é igual e sofre porque é diferente.

A gente sofre por razões absurdas.

Não! O que enche os consultórios de psicologia não são os sofrimentos inevitáveis das grandes perdas e decepções. 

Porque a gente sofre até por não encontrar razões para sofrer.

Sofre porque está feliz achando que deveria estar triste.

Sofre porque quer equilíbrio e porque está tudo equilibrado demais.

Sofre por antecipação. 

Sofre porque o pensamento distorce os fatos. 

Sofre porque quer sofrer.

A gente sofre porque a sogra é chata. Porque a cunhada não gosta da gente. Porque tem ciúmes da amiga. Porque tem inveja do colega. Porque é egoísta. Porque é adulto. Porque tem ilusões. Porque perdeu as ilusões. Porque guarda mágoas. Porque o tempo passou. Porque o tempo não passa. Por tudo a gente sofre.

Sofre porque precisa levantar da cama. Sofre porque tem medo de não acordar.

Sofre porque o filho é pequeno e nos dá trabalho e depois sofre porque ele cresceu e foi embora.

Sofre pelo preço do sucesso e sofre por ter fracassado.

Sofre por ter sido esquecido e sofre quando é muito lembrado.

Sofre porque nada é como antes e porque o agora é tudo o que temos.

Sofre porque não está sofrendo e porque tem medo de voltar a sofrer. E a gente volta a sofrer e sofre.

Sofre na expectativa da chegada e sofre ainda mais na partida.

Sofre na alegria pela certeza da sua finitude e sofre ainda mais na tristeza.

Sofre com o próprio sofrimento e sofre ainda mais com o sofrimento de quem a gente ama.

Sofre porque ama. 

Sofre porque não ama.

Sofre quando está com saúde por medo de perdê-la e sofre na doença por temer não vencê-la.

A gente sofre na vida.

A gente só não sabe se sofre na morte, se não já estaria sofrendo por isso também.

Caro leitor, a vida não é uma festa onde só a alegria faz sentido. A dor e o sofrimento fazem parte da nossa existência. 

Mas estejamos atentos para não confundirmos a inconstância da vida que, ora está de um jeito, ora está de outro, com o sofrimento humano. O sofrimento, quando chega, não deixa dúvidas de que é sofrimento. Será o tempo de nos fortalecermos para enfrentá-lo. Porém se conseguirmos relativizá-lo entendendo que mesmo que a dor seja inevitável o sofrimento é opcional, talvez seja este um sofrimento desnecessário.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 21/05/2018 - 17:01Atualizado em 21/05/2018 - 17:03

Queridos leitores, acompanhem esse desabafo de uma partilhante e reflitam comigo sobre as amizades depois do whatsapp.

"Amigos dos grupos do whatsApp, eu desisto.
Saio, pacificamente, de todos os grupos aos quais me incluíram.
Saio em paz com todos e espero que possamos manter algum tipo de contato fora do mundo virtual.
Certamente minha saída não interferirá na continuidade dos grupos pois não dei início a nenhum deles e não os administro.
Minha participação, tímida em alguns dias e empolgada em outros, foi uma amostra de como eu funciono aqui no mundo real.
Sobre a participação de vocês quero que saibam:
Vocês não me incomodaram. Vocês me fizeram falta.
Pertencer a um grupo, para mim, mesmo sendo um grupo de whatsApp, dá a sensação de ter companhia.
É a opção de abrir mão da solidão.
Então, explico-lhes, que fazer parte de vários grupos no whatsApp  me fez crer na minha capacidade de extroversão e sociabilidade. 
Acreditei, também, ser capaz de manter a constância e sinceridade em grupos heterogêneos, formados por pessoas distintas.
Esta parecia ser a proposta dos grupos e me empenhei para isso.
Porém, eu não consegui.
Permaneço apenas nos grupos formados por pessoas que integram minha vida real.
Neste caso, eles são uma extensão dos relacionamentos previamente estabelecidos.
As dificuldades de relacionamento que temos no mundo real estendem-se ao virtual.
Quando há convivência, os integrantes do grupo conhecem uns aos outros e suas respectivas limitações. 
Alguns dias, por exemplo, acordo de mau humor, não quero conversa e não acho graça em piada alguma.
Como posso dizer isso à colega que desconhece tal característica e que acorda-me efusivamente as seis e meia da manhã de uma terça-feira?!
Mas essa questão foi a menos importante.
Em todos os grupos, passada a empolgação inicial, os diálogos resumiam-se a mensagens prontas de bom dia, boa tarde e boa noite. 
Algumas frases motivacionais, fotos de homens sarados, piadas eróticas.
Videos fofos ou divertidos.
Uma ou outra foto pessoal.
E muito silêncio.
Quem aguenta passar de um grupo silencioso a outro quando quer barulho?!
Quem aguenta passar de um grupo barulhento a outro quando quer silêncio?1
Disseram-me: Leve na brincadeira!
Eu quase consegui brincar de pertencer a grupos.
Mas, em determinado momento, quando alguém quebrava o silencio e falava do filho doente, do problema financeiro ou da sua solidão, eu me punha a pensar como poderia ajudar.
Afinal, se eu sabia, não poderia ficar indiferente.
Então pensava nas palavras certas e em como fazer para trazer para perto aquele amigo tão distante.
Mas, pasmem, enquanto refletia eu recebia a notificação de uma nova mensagem.
Curiosa, deparava-me com uma piada de outra pessoa do mesmo grupo que ou não leu, ou leu mas não entendeu, ou entendeu mas não se comoveu com o problema do amigo. 
Então eu tentava achar graça e entrar em outra vibe.
Mas quando estava quase conseguindo alguém  do mesmo grupo aparecia dando continuidade ao problema em questão.
Como posso acompanhar?
Pensei em falar tudo o que estava sentindo e o quanto eu gostaria de estar com pelo menos um de vocês aqui no mundo real para tomar um café e contar sobre meu dia e ouvi-lo contar sobre o seu. 
Mas achei a ideia estapafúrdia e, ao pensar assim, percebi o quanto os grupos de whatsApp são desnecessários.
Se há algo para o qual realmente servem é para que tenhamos a real dimensão de nossa solidão. 
Depois de zapear de um grupo para outro encaminhando piadas e rindo feito doida, muitas vezes, olhei para os lados e vi que estava só.
Ah! Há, também, uma questão de logística.
Não sei participar de um grupo sem saber o que estão falando entre si.
E eu não estava mais conseguindo administrar tal questão.
Na manhã em que me exclui dos grupos, acordei exausta pois havia entrado madrugada adentro colocando em dia a visualização de fotos, mensagens, textos e videos.
Confesso que algumas piadas valeram a pena. Dei boas gargalhadas.
Também entrei em algumas saias justas.
Houve o dia em que decidi ouvir uma mensagem de voz, baixinho, na fila do caixa.
Mas o som do celular não estava baixinho, estava no máximo.
Senti minhas bochechas esquentarem. Fazia tempo que não ficava vermelha de vergonha.
Claro, também me emocionei.
Chorei de alegria com boas notícias.
E também de saudade.
Grupos de whatsApp me dão saudade de quem os compõem.
Recentemente encontrei na rua a amiga de um dos grupos que pouco ou raramente vejo. 
Num rompante, impulsionado pela avalanche emocional, grudei nela como quem gruda no ídolo que só vê pela tela da televisão.
A amiga ali no mundo real, ao meu lado, era algo surreal.
A que ponto chegamos!?
Daquele dia em diante passei a temer pela minha sanidade.
"Pessoas que amo moram longe"  me identifico muito com essa frase.
Os correios foram minha ponte de ligação com meus amigos distantes. 
Vivi a Era Jurássica das cartas. 
Depois, dos emails. 
Fui fascinada pelo orkut.
Adorava o fotolog.
Facebook e instagram são meus vícios atuais e vivo bem com eles pois entendo a presença distante das pessoas queridas que ali estão.
Mas, para mim, os grupos de whatsApp são ao mesmo tempo distantes e próximos demais.
Não sei me relacionar assim com ninguém.
Nem no mundo real.
Aos amigos dos grupos que vendem e negociam quero dizer que estou aqui. 
Não compro muito e nesse sentido creio que abro espaço no grupo para alguém mais consumista.
Aos amigos que só querem minha amizade tenho tanto a dizer...
Se você é meu amigo e está distante vou ama-lo e aprender a viver com a saudade.
Se você é meu amigo e está próximo vou ama-lo e querer sua companhia.
Simples assim.
Mas se você é meu amigo e está num grupo de whatsApp não sei como lidar.
Sou totalmente incompetente para administrar isso.
Sim, é tudo uma brincadeira. Claro!
Ou não, não é mesmo?
Dizem-me: 
Mas é uma forma de manter contato com quem você ama!
Não, não é. 
E uma forma de constatar diariamente o quanto nos distanciamos. 
O quanto a vida nos afasta. 
E o quanto o amor permanece independentemente dos recursos tecnológicos."

A minha reflexão, querido leitor, é a seguinte:
Os mundos reais e virtuais estão se misturando numa velocidade absurda.
E é relativamente fácil amar alguém que nunca vimos e cuja amizade foi construída no mundo virtual.
Mas a transição do amor e amizade que se construíram nas aulas do ensino médio, nos recreios do colégio, nas baladas de fim de semana, no antigo e duradouro emprego, nas festas sem hora pra acabar e, depois, consolidados na dor das perdas, quando seguraram nossa mão enquanto dávamos o ultimo adeus a quem amávamos, definitivamente, estes, são mais difíceis de transformar em amigos virtuais apenas. 
Prefiro guarda-los dentro deste lugar que denominam coração.
Neste lugar onde as memórias e sentimentos ficam eternamente vivos mesmo sem novas notificações de mensagens.

Gostaria de saber qual a sua reflexão sobre essa questão.
Conte-me pelo whatsapp.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 12/05/2018 - 23:15Atualizado em 12/05/2018 - 23:17

Hoje quero compartilhar uma descoberta que fiz na homenagem às mães da escola de minha filha caçula há uns anos atrás.

Quando vi minha foto projetada no telão pensei:

- Faltam filhos meus aí!

Na foto escolhida para a homenagem estávamos apenas eu e minha filha caçula. 

Que vacilo - pensei - tenho outros filhos. 

Mas mesmo que eu quisesse ver ali uma foto minha com todos os meus filhos não conseguiria. Porque não caberiam todos na foto.

Oficialmente, tenho duas filhas.

Mas são incontáveis os  filhos que adotei ao longo de minha vida.

Fui mãe de meus avós, mãe de meu pai e mãe de minha mãe.

Fui mãe de meu irmão e mãe de minhas irmãs.

Fui mãe de meus maridos e de meus "genrinhos", entre aspas, namoradinhos da minha filha.

Fui mãe de filhos de alguns namorados que tive.

Fui mãe de amigas e de amigos.

Fui mãe de primos e até de tios.

Fui mãe de meus sobrinhos.

Fui mãe de amigas das minhas filhas.

Fui mãe de filhas das minhas amigas.


Nenhuma destas mães biológicas me deu seu filho em adoção.

E nenhum destes filhos me pediu para que eu fosse sua mãe.

Alguns, possivelmente, nem queriam!

Mas nada pude - nem eles  poderiam - fazer para me impedir de adotá-los.

A maternidade era tudo o que eu tinha a lhes oferecer, por isso eu a oferecia.

Era o que eu sabia fazer: cuidar - do meu jeito.

Adotava e me mostrava super protetora e até meio possessiva - eis a prova de que não adotava para colher os louros da ação de adotar.

Alguns de meus filhos rebelaram-se, como era previsível. 

Outros esmeraram-se no papel de filho cuidando sempre para que eu estivesse feliz no papel de mãe.


Minha irmã caçula foi a primeira que 'adotei' conscientemente, tipo, sabendo que aquele papel que eu decidira desempenhar era papel de mãe.

Antes dela eu já me relacionava como mãe com muitas pessoas mas ainda não percebia isso.

Enquanto sua 'mãe' assumi, ainda na minha puberdade, sua criação e educação. Tomei para mim, como responsabilidade minha sabe? Não é fácil...

Dei-lhe todo o amor que tinha e ensinei tudo o que sabia.

Confesso que era pouco, assim como era pouca a minha maturidade.

Casei de véu e grinalda - grávida - com minha irmãzinha grudada em minhas pernas.

Como uma mãe canguru, que tem sua bolsa ocupada por outro filhote e diz para o maiorzinho:

- Não posso te levar na bolsa mas grude em minhas pernas e te levarei aonde eu for.

Ela entendeu o recado e grudou. 

Ficou ali durante toda a cerimônia do casamento. Ficou durante a festa. E ficou enquanto aguentou.

Durante minha gravidez ela dormia quando eu tinha sono e eu sentia sono quando ela dormia.

Uma simbiose, sem dúvida. 

Nossos instintos indicavam a direção, substituindo experiência e maturidade

Com o pouco de discernimento que a idade me permitiu, dias antes do parto conversei com minha filha enquanto acariciava a barriga:

- Tem uma criança aqui fora junto comigo te esperando. Ela é pequena, nasceu pouco antes de voce. Eu a amo muito e espero que a ames também.

Minha primeira filha nasceu na condição de primeira filha biológica de uma mãe que já tinha outros filhos. Um deles, sua tia.


Com o tempo percebi que não era possível fazer com que  todos os meus filhos se reconhecessem como irmãos.

Cada um deles com sua singularidade mostrou mais afinidade com uns  e menos com outros.

Ser mãe de muitos filhos não faz, necessariamente, com que todos sejam irmãos.

Mas nunca me senti menos mãe de nenhum deles por isso.


Muito tempo depois...Fui mãe novamente. 

De outra filha biológica.

E de muitos outros filhos que fui adotando pela vida.

Até que tornei-me mãe de mim mesma.

E hoje sou minha própria mãe. 

As mulheres que perderam sua mãe sabem a importância de nos tornarmos mãe de nós mesmas.


Quando digo que nasci para ser mãe não me refiro ao conceito tradicional da palavra mãe.

Não quero os méritos da mãe que é homenageada no segundo domingo de maio.

Nunca fui mãe em período integral.

Não sei o que é estar disponível vinte e quatro horas do dia para um filho. Preciso de um tempo pra mim.

Não sou uma mãe muito prendada.

Exerço outros papéis na vida - além do papel de mãe e não abro mão deles.

Se digo que nasci pra ser mãe e fui mãe desta gente toda é porque, para mim, ser mãe é ter a capacidade de ser feliz através da felicidade do filho. 

Sim! É  sofrer com seu sofrimento também. 

Mas ser mãe - inclusive de mim mesma - é, acima de tudo, encontrar um certo sentido pra vida no sentido que os filhos - todos os filhos - dão para suas próprias vidas.


Sob esse ponto de vista, talvez toda mulher tenha nascido para ser mãe.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 30/04/2018 - 19:19Atualizado em 30/04/2018 - 19:23

Não tínhamos nem completado uma década de vida e já nos questionavam: - O que você vai ser quando crescer?
Embora a pergunta nos direcionasse mais para as questões de ordem profissional já nos davam a entender que éramos nós que decidiríamos que tipo de vida íamos levar.
Rapidamente passa a infância, vem a adolescência e logo surge o vestibular ou a necessidade de trabalhar e ter independência financeira. 
Sem muita reflexão chega a hora de firmar compromisso com as pessoas que nos questionavam e, sobretudo, de firmar compromisso com nós mesmos. 
Chega a hora de 'provar' que nos mantivemos fiéis aos "sonhos de criança".
Ou, que temos outros sonhos agora, pelos quais trabalharemos.
Algumas vezes, mesmo que a resposta que dávamos à pergunta quando éramos crianças não corresponda mais ao que sentimos ou pensamos, nos mantemos fiel a ela na idade adulta.
Isto trás implicações e, em alguns casos, complicações pra vida que a gente leva.
Há pessoas que responderam 'certo' aos cinco ou seis anos de idade - a resposta que deram quando crianças, continua valendo agora que são adultos.
Há outras pessoas que reconheceram que a resposta que deram era válida tão somente para aquele momento da vida e hoje têm outras respostas para a mesma pergunta. 
E há pessoas que mesmo agora, na idade adulta, não responderam para si mesmas de forma consciente e almejam uma oportunidade de fazê-lo.
Você se inclui em alguma dessas condições?
Destino ou escolha? 
Como você vê os caminhos que o trouxeram até o atual cenário de sua vida profissional?
Escolhemos ou somos escolhidos?
Há teorias que nos levam a acreditar que nossa vida é fruto de nossas escolhas. 
Há outras teorias que tentam nos tirar o peso da responsabilidade sobre nossas escolhas, contrapondo-as a um universo de questões culturais, econômicas e sociais, no qual afundam.
Se não há argumento contra o fato de que 'de barriga vazia não conseguimos nem pensar direito', imagine quanto a fazer escolhas conscientes nesta condição.
Posto isto, se a necessidade básica é de alimentar-se e, se para tanto, é necessário um trabalho, o primeiro que aparecer é o que irá nos escolher.
De barriga cheia, no entanto, as possibilidades parecem ganhar outra dimensão. Entram em cena os quereres. Quero isto, não quero aquilo.
Se prestarmos muita atenção veremos que determinadas atividades nos acenam de leve, ao longe, nos dizendo sutilmente: eu escolho você.
A medida que nos aproximamos delas nos sentimos acolhidos e temos a sensação de que nos escolheram mesmo.
Mas ao analisarmos nossos passos, percebemos claramente o movimento que fizemos, descartando outros caminhos para seguir nesta direção.
É aí que surge novamente a questão: Escolhemos ou somos escolhidos?
Nas nossas caminhadas existenciais, aprendemos que as coisas não acontecem somente porque queremos que elas aconteçam, é necessário que nos empenhemos em torná-las realidade.
E em alguns casos, todo o nosso esforço não é suficiente e  precisamos contar com o universo e esperar que ele conspire a nosso favor.
Nos relacionamentos e na profissão, há pessoas que escolheram e há pessoas que foram escolhidas.
E há, é claro, alguns sortudos que tiveram o privilégio de ser escolhidos pela pessoa e profissão que escolheram. 

Para exemplificar:

Se você tem dezesseis ou dezessete anos e resolve casar, seu relacionamento é avaliado como 'fadado ao fracasso' pela maior parte das pessoas, porque nesta idade, acreditam,  é difícil distinguir  paixão de amor e você pode estar entrando de cabeça numa relação que tem  prazo de validade - dezoito a trinta meses dizem os mais céticos. Depois disso, cessam  todas aquelas sensações provocadas pelo estado alterado do seu cérebro.  Neste momento do relacionamento você fica com o ônus e o bônus, quando não desaparece, diminui significativamente. 

Não obstante, estas mesmas pessoas exigem que você, nesta mesma idade, tenha clareza do curso que irá escolher para prestar vestibular. O Ensino Médio está acabando  - ou você já está cursando um pré vestibular  - e não pode ter dúvidas em relação ao curso que irá escolher.

Frequentemente não é o amor pela profissão que faz com você a escolha, pois você não a conhece intimamente. Talvez você se encante por ela, possivelmente mais por suas características atraentes do que por conhecê-la profundamente. 

Imaginemos um(a) jovem que escolhe um curso universitário aos dezesseis anos e que casa-se nesta mesma idade. Em ambos os casos os elementos internos dos quais disponibiliza para firmar-se ao fazer suas escolhas ainda são precários pois recém está saindo da adolescência - ou passando por ela - fase onde acontecem várias mudanças físicas, psicológicas e comportamentais. Está tudo em transição, tudo em 'ebulição'. Nesta fase podemos nos apaixonar por muitas pessoas e profissões.

Alguns jovens mais decididos dizem que desde crianças sabiam qual seria sua profissão. São como jovens prometidos para o casamento. A diferença é que eles mesmos se prometeram e estão em paz com isso. Mas não são a maioria. 

A grande maioria terá que casar com o curso, dormir e acordar com ele, com a responsabilidade de continuar com ele, de cumprir com suas obrigações para com ele, mesmo não estando pronta para isso. 

Percebem que este mesmo exemplo se aplica aos relacionamentos afetivos nessa faixa etária?

É interessante! Você concorda que é jovem demais para casar quando está cursando o Ensino Médio.  Mas  você casa, nesta idade, com o curso universitário, por exemplo.

Estamos sempre fazendo escolhas. Meu alerta é para a qualidade das escolhas que fazemos, que dependerá, em alguns casos, da nossa maturidade para faze-las.

Mesmo que nós, adultos, ao observarmos nossos filhos ou alunos, tenhamos consciência que são jovens demais para estas escolha, não temos muito o que fazer para ajudá-los. 

Somente a vivencia poderá transformá-los em sujeitos de suas vidas, autores de sua história, responsáveis pelas consequências de todas as escolhas que fizeram e que ainda farão.

A vida validará, ou não, estas escolhas.

Foi assim conosco não é mesmo?

Assim será com nossos filhos, assim será com nossos alunos.

Se não temos escolha a não ser aceitar o que a vida nos impõe  talvez estejamos olhando para o destino.

Em todas as situações de vida que tivermos mais de uma alternativa estaremos fazendo uma escolha.

Feitas as escolhas, a vida que se delineará para nós  será pura e simplesmente resultante delas.

Não adianta culpar o destino quando você pode escolher de novo. E de novo.. E de novo a cada dia.

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