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Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 07/12/2018 - 16:16Atualizado em 07/12/2018 - 16:18

A vida sem as redes sociais me revelou que há vida sem elas.

Fiz a experiência; fiquei sessenta e quatro dias abstinente, limpa, com as contas devidamente encerrada.

Contei os dias como um adicto: só por hoje, um dia de cada vez.

No tempo fora das redes, achei que brincaria mais com minha filha pequena, conversaria mais com minha filha mais velha, namoraria mais meu marido, curtiria mais o meu cãozinho.

Achei que iria ler mais livros, caminhar mais, sentar mais vezes na varanda e olhar mais o céu.

Achei que assistiria os bons programas nos canais da TV fechada.

Achei que veria mais filmes. Exploraria mais a cidade. Teria mais disciplina. Manteria tudo ao meu redor mais organizado. Achei que funcionaria noutro ritmo.

No entanto, a mais sedutora das idéias que eu tinha sobre a vida sem redes sociais, era a de que eu encontraria mais todos aqueles amigos com quem há tanto tempo só me relacionava virtualmente.

 

O que realmente aconteceu foi que nada disso aconteceu. Continuei fazendo tudo do mesmo jeito que fazia antes.

 

Eu relaxei, sem duvida. Dormi bem e mais. Porque, para mim, os avisos de atualizações, comentários e curtições dos amigos eram despertadores ininterruptos do meu descanso e sono.

Escrevi mais também. Porque tudo o que não pude compartilhar através de fotos me senti compelida a descrever em palavras.

Por outro lado, perdi a vontade de registrar a vida através de fotografias. E senti falta desta vontade.

Aceitei - a despeito do que pensa toda aquela gente sobre meus registros fotográficos - que eu fico feliz em fotografar e compartilhar.

Percebi que dias bons são bons com ou sem as redes sociais. Dias ruins também.

Obviamente as relações com as redes se dão das mais diferentes formas.

Para mim elas são um amigo inespecífico. Não sei seu nome e não o conheço bem. Mas sei que existe. 

Como acontece com todo e qualquer amigo, ele me traz alegrias e frustrações.

E eu senti falta deste amigo que podia ser o Fulano, o Beltrano, o Cicrano. 

Ou um holograma feito a partir da combinação deles todos.

 

Depois de sessenta e quatro dias voltei para as redes sociais porque conclui que elas  estavam mais para uma rede de apoio do que para um vício. Por precaução, apenas desativei a notificação de atualizações.

Esta conexão permanente na qual, a qualquer momento, podemos manifestar nossos sentimentos, para mim, funciona como um grupo de ajuda. 

Nas redes sociais, assim como em qualquer outro grupo de ajuda, o que nos une é o vício. 

Mas assim como em qualquer outro grupo, todos temos histórias a compartilhar.

E através de nossa participação podemos ajudar e receber ajuda.


E pra você: há vida sem as redes sociais?

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 29/11/2018 - 16:58Atualizado em 29/11/2018 - 17:02
Com a proximidade do final do ano letivo pais e filhos se envolvem diretamente com a questão da aprovação e reprovação.
Nessa época alguns pais folgam em saber que seus filhos já estão aprovados. 
Estes alunos foram aprovados diariamente no decorrer do ano letivo, pois sabe-se que aprovação não é apenas a nota da média final. 
Aprovação, neste caso, é o reconhecimento da escola, da família e da sociedade na forma de elogios e incentivo pelo desempenho do aluno.
Mas muitos pais ainda anseiam pela nota que dirá se seu filho foi aprovado ou reprovado.
 
Entende-se que o aluno saudável do ponto de vista físico e psicológico é livre para decidir, a cada dia, como vai enfrentar os desafios escolares.
Livre para decidir de que forma vai se comportar diariamente na escola.
Sim, os alunos são diferentes. Não há dois alunos iguais e existem, também, diferentes tipos de inteligência.
E sim, via de regra, a escola está organizada para acolher e avaliar o aluno com mais facilidade na inteligência lógico-matemática.
Porém, muitos alunos com a referida facilidade não tem um comportamento necessário para o bom aproveitamento desta organização escolar.
Outros, carecem desta facilidade mas compensam esta carência com dedicação, disciplina, empenho, esforço, atenção nas aulas, execução das tarefas e muito estudo.
Há diferentes combinações entre perfil e comportamento de alunos. Por exemplo:
Alunos com dificuldade de aprendizagem e comportamento relapso ou rebelde e alunos com facilidade de aprendizagem e comportamento exemplar - em termos de aproveitamento escolar.
No final do ano letivo todos querem ser aprovados.
Para a grande maioria, a aprovação virá.
Mas virá de diferentes maneiras para os diferentes tipos de alunos.
Enquanto uns folgam em saber que já estão aprovados, outros esperam ansiosamente pela aprovação fazendo cálculos mentais mirabolantes, contando com décimos daqui e dali que lhes ajudarão a conseguir a nota suficiente para escaparem dos exames finais.
Há os que sabem antecipadamente que farão os exames e investem todos seus esforços para conseguirem, nessa etapa, a aprovação que não buscaram ou não conseguiram durante o ano todo.
Não importa como a aprovação virá, ela é sempre vista como uma premiação.
A reprovação, por sua vez, é recebida como punição.
Dificilmente ela é aceita pelo aluno como consequência de suas escolhas.
 
Buscamos a aprovação em quase tudo que fazemos. 
Ninguém gosta de ser reprovado. 
Fazemos escolhas e optamos por determinados comportamentos mas, quando somos reprovados pelos mesmos, passamos a questioná-los.
A reprovação externa nos leva a questionar nossa  auto-aprovação – que é um processo interno.
A reprovação escolar, quando acontece, não tem outro sentido a não ser o de levar todos os envolvidos no processo ensino-aprendizagem a refletirem sobre suas ações.
Os pais, a escola e a sociedade também são passíveis de aprovação ou reprovação.
Mas, em última análise, este processo pertence ao aluno e diz respeito a sua própria vida.
Nesse sentido, aprovação ou reprovação são sinalizadores da caminhada indicando o momento de comemorar ou refletir sobre estratégias de recomeço.
  
Ansiando pela aprovação dos filhos ou temendo sua reprovação os pais cobram excessivamente um bom rendimento escolar.
Mas muitos esquecem de facilitar a autonomia e a responsabilidade que levará seus filhos a caminharem sozinhos. 
A autonomia e a responsabilidade leva os filhos a arcar com as consequencias de suas escolhas.
Quando o aluno se responsabiliza por suas escolhas ele tem a autocobrança necessária e suficiente para administrar as variações das notas escolares buscando um equilíbrio no seu desempenho que o leva a aprovar-se, além de receber aprovação externa.
Este período de provas, recuperações e exames finais desperta esta autocobrança em quase todos os alunos. 
Não tenham pena, queridos pais.
Esta é a ideia.
Que cada vez mais nossos filhos sejam responsáveis por suas escolhas e pelas consequências das mesmas em suas vidas.
 
 
Artigo escrito para o Jornal A Tribuna 
Grayce Guglielmi Balod
Pedagoga e Psicóloga
Especialista em Orientação Profissional

 

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 19/11/2018 - 20:38Atualizado em 19/11/2018 - 20:44

Pra quem tem medo de viajar de avião, pior do que uma noite de insônia somente a noite de insônia que antecede uma viagem de avião.
A pessoa insone, com medo de avião, prestes a embarcar, tem a frente uma combinação indigesta.
Dá náuseas.

Medo de avião é caso perdido.
A gente trata. Melhora. Piora. Até que estabiliza.
Resta-nos conviver com ele.
É a luta entre a nossa fraca racionalidade e o turbilhão de emoções que, oportunamente, nos invade. Porque viagens de avião são emocionantes.
O voo nos deixa em suspenso. Tira os pés do chão. Leva aos céus.
A razão fica em desvantagem diante do turbilhonamento emocional.
Voar sempre nos chacoalha, mesmo quando não há turbulência.
É a vida expondo o risco de morte.
Sim. Viver tem risco de morte.

Por outro lado, voar é pura poesia.
Ou seria, se nós relaxassemos.
Na impossibilidade de relaxar, sempre renovamos a promessa de nunca mais estar a bordo.
Voando vivemos um reveillon intenso, cheio de promessas de aproveitar cada segundo da vida com os pés no chão.
O nosso ano novo é o pouso.

Mas com os pés no chão acabamos esquecendo as promessas.
Até que uma nova viagem de avião nos lembra de cada uma delas.

Sabemos que o risco de morte também está na viagem de carro. 
No despretensioso passeio a pé. 
Nos exames de rotina. 
Na própria rotina.
Mas no chão, a razão, tão sem emoção, não nos convence disso.
E a vida passa sem que o medo de perdê-la nos assuste.
E a urgência de vivê-la adormece.
Até que surge uma nova e necessária viagem de avião.
Lá vamos nós de novo, decolar, tirar os pés do chão.
Olhar a lua lá do alto. 
Ver o sol da vista mais bonita. 
Enxergar as nuvens - que coisa maluca - olhando para baixo.
Ver tudo de um outro ponto de vista. 
Mudar as perspectivas.
Entrar em estado de alerta.

É nas viagens de avião que a vida assume o comando.
E nos põe no devido lugar.
E nos mostra que tudo o que há para fazer é relaxar e curtir a vista.
Porque nada está sob nosso controle.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 09/11/2018 - 00:00Atualizado em 09/11/2018 - 00:03

Observo que fica ofegante ao caminhar morro acima. Digo à ela que precisa se exercitar mais, fazer uma atividade física regularmente.

Seu medo de elevador me incomoda. Explico-lhe, como a uma criança, que não há o que temer. Mostro-lhe o que fazer caso fiquemos presas dentro dele.

Penso que sua organização é bagunçada e me antecipo em por no lugar o que tirou e tirar o que colocou.

Ela fala quando quero me concentrar. Fala quando quero ouvir outras falas. Ela fala em muitos momentos inapropriados, penso eu. Eu peço que espere, que tenha um pouco de paciência.

Ouço quando faz uma ligação para um irmão querido. Parece-me um monólogo, rápido, sem pausas, quase que sem tempo para respirar. Imito-a para que se ouça. Peço, sarcasticamente, que respire, tome um copo de água e ligue novamente para ouvir o que seu irmão tem a lhe dizer. Ela ri.

Olho para a foto que tiramos juntas e comento que a raiz de seu cabelo está entregando a verdadeira cor dos mesmos. 

Vejo que manda e pede notícias com muita frequência para o marido, filhos e netos. Digo-lhe que relaxe e deixe que eles a procurem.

Ela dá muitas voltas para me fazer um pedido. Sugiro que seja objetiva e diga o que quer exatamente, sem rodeios, dando-me o direito de responder sim ou não.

Salta-me aos olhos suas aflições, sua ansiedade, sua insegurança, seus medos, suas preocupações.

Vou dormir um pouco depois dela e acordo um pouco depois dela também. Se ajustássemos nossos horários, dormiríamos e acordaríamos na mesma hora. Temos necessidade da mesma quantidade de horas de sono. Nisso nós somos iguais.

Pela manhã e a tarde ela me observa.

A noite ela quebra o silêncio com uma afirmação serena e segura. Ela diz que meu dia é cheio e que eu ainda não me dei conta disso. Acrescenta, ainda, que educar os filhos, administrar uma casa, cuidar dos bichos de estimação, trabalhar e estudar é o suficiente.

Eu a ouço atentamente. 

Então eu a vejo e me vejo.

E me dou conta de que sou eu que preciso me exercitar mais. Que não tenho porque temer o elevador. Que minha bagunça é organizada e minha organização é bagunçada. Que sou tagarela. Que meus pensamentos atropelam minhas palavras quando quero expor meus sentimentos a alguém querido. Que está na hora de me decidir quanto ao que fazer com meus cabelos brancos. Que preciso ser mais objetiva. Que preciso dar espaço para que sintam minha falta. E que gostaria de dormir um pouco mais cedo para acordar um pouco mais cedo também.

Eu  imito seus comportamentos. Justamente os que menos gosto. E peço a ela que mude em si aquilo que eu quero mudar em mim.

Mas quando ela fala com propriedade e sapiência sobre mim eu simplesmente me calo e desfruto da paz de espírito advinda de ter o reconhecimento da pessoa na qual sempre me espelhei.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 28/10/2018 - 11:48Atualizado em 28/10/2018 - 11:52

Um a um sucumbirão todos os nossos ídolos.
Frequentemente repetimos - menos para os outros e mais para nós mesmos - sobre a necessidade de distinguir o autor de sua obra. Porque o autor é gente, não é mesmo? O autor tem defeitos!
Por muito tempo, porém, idolatramos pessoas, simples mortais, reverenciando-os como gênios, iluminados ou abençoados de forma privilegiada.
De alguns nos aproximamos numa tentativa inglória de sentir sua vibração e nos beneficiarmos do contato com sua energia. 
De outros nos distanciamos, reverenciando-os de longe como compete ao bom admirador.
Por ter sido fiel a cada um dos nossos ídolos, não tivemos muitos. 
Um roqueiro, uma modelo, um ator, uma professora, um psicólogo, uma psiquiatra, um grande profissional, uma bailarina, um poeta, uma atleta, um pesquisador, uma filósofa, ou, nesses últimos tempos, um presidenciável.
Por perceber como transcendiam os limites do humano naquilo que faziam, nós os tornamos deuses. Idolatramo-os.
Mas a fidelidade caminha lado a lado com o tempo. E o tempo reapresenta-nos a cada um dos nossos ídolos. Então nós os vemos como seres humanos que são. 
Encontrei meu último ídolo, a quem eu idolatrava por sua disciplina e equilibrio, fazendo seu lanche da tarde duas vezes consecutivas. Entre empadinhas e vidros de conservas sua perfeição diluiu-se no pecado da gula.
Foi só um detalhe, uma simples 'jacada' da parte dele mas, para mim, foi o suficiente.
Não tenho mais nenhum ídolo. Um a um sucumbiram todos!
A questão principal a que devemos nos deter não são os ídolos, é a nossa idolatria, esta coisa de querer ser o que não somos: perfeitos. Não somos perfeitos, ninguém é!
Sigamos curtindo o som, contemplando o belo, admirando atuações, lendo os livros, assistindo as aulas, buscando o auto-conhecimento, respeitando a dedicação e a disciplina, flutuando com a dança, trascendendo-nos na poesia, torcendo pela cura de todas as doenças e pelo crescimento existencial e a felicidade. Torcendo pelo Brasil. 
Sem idolatria.
Estaremos melhor assim.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 23/10/2018 - 17:09Atualizado em 23/10/2018 - 17:21

Querida leitora
É de nossa inteira responsabilidade iluminar os trechos de escuridão de nossas caminhadas.
Temos os nossos momentos. 
Momentos bons e ruins. Momentos muito bons e muito ruins.
Me refiro a momentos exclusivamente nossos. 
Vividos sozinha. Testemunhados somente por Deus.
Precisamos aprender a vivenciar os bons e maus momentos sem deixar que eles comprometam o andamento das nossas vidas.
Mas não é fácil administrar bem a intensidade dos momentos muito bons e dos momentos muito ruins.
São situações em que nos sentimos jogadas a extremos, sem controle das nossas emoções, ao sabor do vento. Do vendaval, eu diria.
Precisamos aprender a nos proteger. 
Enxergar onde podemos nos agarrar, do que e como devemos desviar, quando devemos fechar os olhos, tapar os ouvidos e calar a voz.
E aprender a dialogar com nós mesmas no meio destes vendavais.
- O que eu posso fazer por mim agora?
Perguntar. Responder. E fazer. 
E, o que quer que  façamos, sempre ajuda. 
Então iluminamos a escuridão da tempestade.

É típico de nós, mulheres, ficar feliz por muito pouco. 
E infeliz por muito pouco também.
Pequenos gestos, perdidos na imensidão das interações humanas diárias, não nos passam despercebidos.
Nos alegramos por coisas que ninguém mais vê e nos entristecemos por coisas que só nós enxergamos também.
Lembro sempre de algo que li: "A arte de ser sábio é saber o que ignorar."
Para nós é complicado pois nascemos dotadas da capacidade de ver o invisível - ou adquirimos esta capacidade ao longo de nossas vidas.
E, no invisível, há o bem e o mal. Há anjos e demônios.
É um dom. E se nos descuidarmos, pode ser um castigo.
Querida leitora, nosso chão é a corda bamba e precisamos, necessariamente, desenvolver o equilíbrio para podermos caminhar.
Sabedoria para nós não é um luxo, é uma necessidade.
Sabedoria é a luz que nos guia.
Por que saliento a importância de iluminarmos nossas vidas?
Porque nós que sentimos tanto temos um ego bastante inflado!
Oscilamos entre a satisfação por recebermos a valorização que merecemos e a insatisfação por estarmos sendo injustiçadas.
E o mundo, de fato, não gira ao nosso redor.
Mas, as vezes, esquecemos disso.
O egocentrismo nos faz andar em círculos.
Nós somos egocêntricas quando somos ingratas.
Percebam como o ego se encolhe quando a gratidão cresce.
Deveríamos viver em estado de gratidão.
Fizemos coisas erradas das quais nos arrependemos pois, mesmo sabendo-as erradas, nós as fizemos. E fomos perdoadas.
Fomos acolhidas no nosso desespero.
Fomos agraciadas com a companhia de almas que nós mesmas teriamos escolhido para viverem ao nosso lado.
Tivemos novas chances depois de tê-las desperdiçado.
Vemos milagres todos os dias. Só não vê quem não quer!
Compreenda os sinais e saiba para onde ir!
Em mais de uma circunstância fomos salvas.
Nossas preces, hoje, devem ser somente de gratidão e perdão.
Gratidão é não insistir com o que nos tira o equilíbrio. Seja bom ou mau, maravilhoso ou horrível o momento.
Gratidão é parar de cultivar incomodações.
Gratidão é saber que não perdemos o que nunca tivemos. Não mantemos o que não é nosso.
Gratidão é luz!

Busque a luz querida leitora!
Entenda luz como desejar.
Converse consigo no meio dos vendavais.
Pergunte. Responda. E faça.
Durma, tome um banho, ajude alguém. Lave a louça, se só houver isso para fazer.
Ou saia caminhando.
Pare em frente a um cinema e olhe os filmes em cartaz. 
Continue caminhando e pare novamente, em frente a um salão de beleza talvez... 
Entre, faça luzes no cabelo.
Saia iluminada.
Talvez você perceba que estava faltando LUZ nos seus cabelos. 
Tudo bem não ter percebido antes.
Seja grata por ter descoberto.
No final, o momento que era muito ruim, iluminou seu cabelo, sua cabeça e seu coração.
Luz, querida leitora, nem que seja nos cabelos!

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 17/10/2018 - 17:38Atualizado em 17/10/2018 - 17:43

Se há algo que nós mulheres aprendemos com a maturidade é que a vida é uma infinidade de possibilidades.
Muitas de nossas inseguranças derivam dessa consciência.
São muitas escolhas a fazer.
Não é fácil posar de mulher decidida.
Não é fácil viver no piloto automático, uma vida disciplinada e com rotinas auto-impostas.
Não é fácil ter a capacidade de não pensar. De fazer.
Quantas vezes já criamos nossas rotinas e até nos empolgamos no início.
Mas é sintomático: em dois tempos lá estamos nós novamente refletindo sobre os motivos para continuar...ou parar...
Quantas pessoas já nos disseram:
- Tu não podes pensar, tens que fazer.
E, às vezes, perdidas em nossos pensamentos não encontramos uma resposta, uma saída.

Mas querida leitora, ninguém fica sem saída enquanto houver vida.
Por isso hoje quero chamar a sua atenção para o problema da repressão.
Somos muito reprimidas. 
E o que é pior, nós mesmas nos reprimimos.
Então temos essa falsa sensação de não ter, ou não saber, o que temos para fazer.

Por isso sou uma admiradora das corredoras peladas de Porto Alegre (lembram delas? mulheres que há alguns anos foram notícia em todo o Brasil porque, uma após outra, foram pegas correndo peladas pelas ruas da cidade).
Tudo bem, não pode. 
Eu não correria pelada.
E sugiro que você não faça isso também.
Mas elas representam muitas de nós.
Não pelo ato em si, mas porque fizeram.
Tiveram coragem.
Quantas de nós já tivemos vontade de sair correndo peladas em situações que simplesmente não sabíamos mais o que fazer!
Conheço distintas senhoras que já tiveram vontade de sair correndo peladas também.
Sei porque elas me contaram,trocamos idéias, rimos, fomos cúmplices de uma vontade proibida em comum.
Elas me confidenciaram o desejo como uma carta na manga, um segredo, uma saída proibida para ser cogitada no desespero.
Sair correndo pelada seria a cartada final. 
Algumas senhoras tinham até vontade de gritar enquanto corriam peladas.
E o que isso simboliza?
Tirar a roupa seria como se livrar de tudo. 
Correr seria como deixar tudo pra trás. 
Correr pelada, nós sabemos, é um grito de liberdade.

Desconheço as razões das corredoras peladas.
Mas elas representam muitas mulheres.

Seria tão bom se toda mulher tivesse alguém de sua confiança que lhe dissesse o que ela deve fazer quando ela não tem a menor ideia do que fazer.
Alguém que arriscasse um palpite, uma sugestão de ação.
Nem que fosse para a mulher se rebelar contra o palpite. 
E fazer qualquer outra coisa.
Porque a verdade é que há momentos em que não temos a menor ideia do que devemos fazer.

Num momento como esse tive a sorte de conversar com alguém que me levou a pensar sobre o meu gosto pela escrita  - que me acompanha desde criança quando ainda escrevia em meus diários.
Para cada mulher que não sabe o que pode ou deve fazer em certos momentos da vida, eu desejo alguém que a lembre de sua essência e resgate, de sua história de vida, algo que lhe traga alívio.
E desejo que nós, mulheres, deixemos as repressões e opressões para trás e sigamos em frente, cada dia um pouco mais livres de nossas amarras.


Eu acredito que quem pode se dar ao luxo de dizer "É isso que sou, é pegar ou largar!" já viveu um bocado. 
Quem avisa que "é pegar ou largar" conhece bem suas limitações. 
E provavelmente passa seus dias tentando vencer a si mesmo
As mulheres corredoras peladas gritaram para quem quisesse ouvir:
- É isso que eu sou! É pegar ou lagar.
Evidentemente foram pegas. E presas. E, consequentemente, largadas a própria sorte.
Mas, antes, foram livres.
Metaforicamente falando corremos peladas a cada superação de desilusões. A cada superação de decepções. A cada superação de desespero.
Corremos peladas todas as vezes que nos damos conta que nos abreviaram (ou nós mesmas nos abreviamos)  a um único papel existencial - seja o de profissional, de mãe, de dona de casa, de esposa, ou, o pior de todos os papéis, o de incapaz.
Que nós possamos simplesmente tirar a roupa que nos vestem (ou que nós mesmas vestimos) e sair correndo.
Para depois nos reencontrar com todas as nossas questões existenciais novamente.
Porém, desta vez, novas, zeradas, nuas de abreviações, opressões e repressões.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 09/10/2018 - 17:23Atualizado em 09/10/2018 - 17:30

Querida leitora
Eu quero, com a minha participação na Campanha Viva Mais do Outubro Rosa, alertar para a importância dos cuidados com a saúde psicológica e emocional da mulher. 
Nós não somos apenas nosso corpo, por isso, os cuidados com a mente, os pensamentos, os sentimentos e as emoções são muito importantes, tanto na prevenção quanto no combate ao câncer de mama.
Me perguntam: O que eu posso fazer para me cuidar emocionalmente? Como eu posso me ajudar? O que pode me salvar?
Respondo: Faça, com carinho, com presença, as coisas simples, essas que na correria da vida deixamos pra lá ou fazemos apenas por fazer.

Entregue-se ao sabor da vitória ou ao amargo da derrota quando elas vierem.
Não entre em lutas inglórias que não a levarão a lugar nenhum e que a machucarão.
Renda-se quando for preciso e sua salvação aparecerá por todo o lado.
No sorriso de sua filha caçula.
Nas noticias de sua filha mais velha.
No carinho do seu companheiro. 
A família que você formou a salvará, sua família de origem a salvará. Todas as famílias que a acolhem a salvarão.


Conversar com seus irmãos a salva.
Estar com seus sobrinhos a salva.
Divagar com sua prima a salva.
Brincar com seu cãozinho ou com seu gatinho a salva.
Sua salvação está ali na janela aberta mostrando a lua.
Na rede esperando na varanda.
No banho demorado e revigorante.
Nos livros que pode ler.
Nas músicas que pode ouvir.
Na cama em que descansa.
No sofá onde se entrega à preguiça.
No banco da praça sempre a esperando.
No parque onde pode brincar.
No sol se pondo no rio, no mar, na serra...
Em tudo o que pode ouvir.
Em tudo o que pode dizer.
E então uma terapia a salva.
Suas aulas a salvam, essas para a qual você retornou agora que está na meia idade.
As flores  salvam.
Fotografias salvam.
Gentilezas salvam.
Solidariedade  salva.
Visitas de amigos queridos salvam.
Ficar em casa salva.
Vencer a preguiça salva.
Sair à rua salva.
Caminhar sem pressa salva.
Levar seu filho ou seu neto à escola salva.
Buscá-lo salva.
Reconhecer seus verdadeiros amigos a salva.
Esperar pelo momento de ter seu neto em seus braços a salva.
Perdoar salva.
Ser perdoada salva.
Amar salva.
Ser amada salva.
Ter coragem salva.
Continuar, sobretudo, é o que nos salva.
Nossa salvação está na fé que temos e que não conseguimos explicar.


Cuide do seu espírito, da sua mente e das suas emoções assim como nos ensinaram a cuidar de nosso corpo.
E não esqueça, o que nos salva é o amor e a gratidão pelas coisas mais simples dessa vida.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 02/10/2018 - 16:22Atualizado em 02/10/2018 - 16:29

"É hoje!"

Chegou o dia da mulher fazer os exames ginecológicos anuais.

Ultrassonografia transvaginal, ultrassonografia abdominal total, radiografia das mamas e mamografia.

Um dia, apenas um dia por ano dedicado aos cuidados com nossa saúde.

E justamente nesse dia parece que dá tudo errado. 

Levanta da cama e colide com a bicicleta que 'estacionou' no seu quarto. Escova os dentes e quando vai fazer o bochecho, sente uma dor rápida e aguda nos mesmos. Precisa manter-se em jejum e de bexiga cheia para realizar os exames médicos e, justamente neste dia, perde o sono cedo demais. 

Sai de casa atrapalhada e, lá fora, percebe que está chovendo. Volta e pega a sua sombrinha. Tem a sensação de estar carregando muita coisa e não estar levando o principal. 

No caminho pensa, tentando lembrar do que teria esquecido. Sua mente está confusa e lembra de muitas coisas que tem pra fazer, menos do que teria esquecido. Chega no horário marcado ao local onde fará os exames. Mas ´só ela foi pontual, todos de quem ela depende a partir de agora, estão atrasados. 

Enquanto espera, abre o jornal na parte dos classificados e, atentamente, analisa as vagas de emprego. Depois de um tempo procurando, encontra uma vaga interessante a qual quer, no mínimo, circular para não perder de vista. Neste exato momento é chamada para passar à próxima sala. 

Pedem que tire a roupa e vista um avental descartável. Na minúscula cabine em que se encontra ela tenta organizar tudo o que tem em mãos. Coloca sua sombrinha no chão e pendura sua bolsa e roupas no cabide. Quando vai pegar o avental sua blusa cai sobre a poça d'água que a sombrinha formou. A blusa é branca e está encharcada. Ela racionaliza: como fará para voltar para casa com a blusa deste jeito? Na sua cabeça, os problemas para resolver parecem não ter fim. Agora, ela precisa lembrar do que esqueceu e, ainda, encontrar uma solução para o problema da blusa. 

Ao sair da cabine recebe a chave de um armário onde deve deixar seus pertences. Está confusa e não sabe como organizar tudo no pequeno armário: o jornal, sua bolsa, a pasta com os exames anteriores e a roupa - molhada. Antes que termine sua organização, é chamada para iniciar os exames. Ela respira aliviada: esvaziará sua bexiga. Mas é informada que o médico atrasou e por esta razão fará todos os exames porém este - para o qual a bexiga deve estar cheia - ficará por último. 

Bravamente passa pela bateria de exames e é liberada. Volta para o armário e descobre que organizou seus pertences da pior forma. Sua blusa branca, agora, além de molhada está manchada com as cores do jornal. Veste-a assim mesmo e volta para casa. 

Está muito atrasada e não almoça.  Segue direto para seus compromissos da tarde. Eles exigem que esteja atenta e ela dá o melhor de si. Mas a sensação de que esqueceu algo e tem coisas urgentes para resolver continua. 

Será que deve marcar horário na dentista? - ela pensa. Liga e agenda um horário. 

No seu intervalo decide fazer uma  lista com tudo o que está pendente. Quer ver no papel, diante de seus olhos, o que pode estar lhe deixando assim confusa. Rapidamente escreve cinco itens. Mas não sente nenhum alívio. Toma um café rapidamente e lembra-se de mais dois itens. Talvez, só depois de resolvê-los se sentirá mais organizada, ela pensa. Segue com seus compromissos até que finalmente volta para casa, ávida por descobrir o que está lhe incomodando. Está cansada mas faz cinco dos sete itens que enumerou. Ainda assim está com aquela sensação de que esqueceu algo e de que tem muita coisa para fazer. 

O sono e o cansaço lhe vencem e determinam o fim do seu dia. 

Na manhã seguinte acorda pronta para iniciar sua rotina novamente. Logo percebe que este dia tambem não seguirá a rotina costumeira. Assim como no dia anterior precisará fazer algumas coisas que normalmente não faz - e deixar de fazer algumas outras que sempre faz- em função das responsabilidades que assumiu para hoje. 

Então começa a entender porque tinha a sensação de tantas coisas para fazer. Ela queria pôr tudo no lugar pois não suporta alterações na sua rotina. 
Por isso adiou tanto o auto-exame e os exames de rotina, porque podem indicar alterações que lhe colocarão diante do novo e, inevitavelmente, terá que lidar com isso.

Finalmente descobre do que estava esquecendo. Estava esquecendo de relaxar, de seguir o fluxo natural dos acontecimentos. 

Mas... Só para se certificar de que é isto mesmo, resolve organizar sua bolsa. Não satisfeita, ainda dá uma geral em sua carteira, jogando fora papéis inúteis e colocando tudo no seu devido lugar. Mas percebe que também não era isso o que estava faltando. 

Então, aceita que quer controlar tudo mas, definitivamente, não pode. 

Ainda assim, procura o papel onde estão escritos os dois itens pendentes, mas não o encontra. 

O dia segue e no seu intervalo de trabalho senta calmamente e pede um café. 

Pensa alto: - O que ainda tenho para fazer mesmo? 

Mas isto não é mais tão importante. 

O mais importante já está feito; seus exames preventivos.

Agora está em dia consigo mesma. Não há mais nada de urgente para fazer. 

Importante mesmo é saborear seu café.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 24/09/2018 - 16:32Atualizado em 24/09/2018 - 17:02

Para muitos  o luto é tragicômico.

Mas não precisa ser assim.

Isso só acontece quando nos descuidamos, quando subestimamos seu poder.

O luto dói porque é um processo onde a mudança é explícita.

Não há como negar, como disfarçar, nem como fugir dela.

O luto, comumente associado a MORTE é, na verdade, o processo de VIDA mais intenso pelo qual alguém pode passar.

O luto é o aprendizado vital de que nada permanece, tudo muda, inclusive o quê ou quem você mais ama nessa vida.

No dia a dia a gente finge que não vê. Finge que não sabe disso. 

Podemos passar anos convivendo com algo ou alguém que não é mais o que era e podemos seguir acreditando que tudo continua igual.

No luto não.

A ausência de quem partiu impõe o reconhecimento da mudança e transforma tudo e todos ao redor.

É como se retirassem toda a mobília de sua casa, deixando só as paredes, sem sua permissão. 

Você terá que começar de novo. 

Terá que repensar prioridades.

Terá que refletir se a máquina de lavar louça era realmente necessária. 

Se as paredes terão quadros desta vez. 

Se os móveis serão sob medida. 

Você terá, inclusive, que analisar considerando suas condições, se pode começar a mobiliar novamente agora ou se precisará viver um tempo com todo o espaço vazio ao seu redor.

E mesmo que você decida repor tudo exatamente do jeito que era imediatamente, você descobre que nada, nunca mais será como antes.

E quando a pessoa que morreu é alguem da sua família, alguem que você ama muito?

Se foi seu pai que morreu, você estranhará sua mãe. 

Se foi sua mãe, estranhará seu pai. 

Se foi seu filho, estranhará a si mesmo.

Seus irmãos se tornarão estranhamente humanos, algo para além de apenas seus irmãos.

Seus primos  lhe parecerão inalcançáveis. 

Seu namorado/marido não caberá mais no  papel de salvador.

Seus filhos ou sobrinhos crescerão e você tentará acompanhar mas será como  tentar acompanhar o movimento de uma montanha russa.

Você ficara tonto e confuso e, as vezes, sem forças.

Você se agarrará aos que ficaram e, sem que perceba, criará a expectativa de que sejam sua âncora de vida agora.

Então, ao menor movimento deles indicando mudanças, você se desespera. 

Como e porque motivo aconteceria de novo? 

Por que algo ou alguém ousaria sair da inercia agora?

Você não pode acompanhar, não suporta mais mudanças. 

Quer que a vida pare de girar tão rapidamente. 

Quer descer do carrossel. Não quer mais brincar!...

Mas, para quem quer aprender, o luto é o ensinamento mais profundo sobre o agora. 

Sobre a eternidade de um momento.

Você aprende que nada é. Tudo está. 

E você só supera o luto quando aprende que esse exato momento já não está mais.

 

A comédia do luto é querer assumir como suas, as características que são exclusivamente dele.

Você insiste em dizer: 

- Essa sou eu. Sempre tive dificuldade para dormir. Sempre gostei de ficar só.  Eu sempre esperei que nada mudasse.  Eu sou assim...

Mas era o seu orgulho que falava por você. 

É difícil admitir o quanto está doendo.

Admita o luto e ele quebra seu orgulho.

Nada é você. Você é nada. Você apenas está.

E, agora, está tentando compreender e aceitar seu papel na nova constituição familiar.

Está tentando se readaptar.

Está vivendo como se nada demais tivesse acontecido mas, o intervalo entre um riso e outro, parece não ter fim. 

E você não consegue, por mais que se esforce, costurar um momento ou um dia de sorriso no outro, as vezes, tão distante. 

Então você se sente uma farsa porque no sábado você sorriu e até gargalhou e, na segunda, você não tinha forças pra sair de sua cama.

Quem é você afinal? Aquela que ri, sorri e até gargalha? Ou aquela que não consegue levantar?

 

Na teoria o luto parece simples, calmo e até linear. 

Ouviu dizer que passaria por fases intituladas de negação, barganha, raiva, negociação e aceitação. 

Um período de vida instável porém previsível, com a aprovação de todos ao seu redor. 

Mais do que isso, com o carinho, a acolhida, o ombro amigo, o colo das pessoas que você quer bem. 

Talvez, alguém querido até chegasse em algum momento e lhe dissesse:

- Já chega! Vamos lá! Levanta! Vou te tirar de casa. Vamos caminhar, ver a vida lá fora. Reencontrar as belezas da vida e enxergar os milagres do amanhecer, do entardecer  e do anoitecer...
E o salvasse.

Mas não é assim que é.

O luto não tem começo, não tem meio e, se você descuidar, não terá fim.

E ele não é feito só de tristeza, 

Você não se torna um santo ou mártir, ao contrario, toda a sua fragilidade humana fica exacerbada e exposta. 

E você se magoa com tudo e todos porque torna tudo e todos seus devedores.

A vida lhe traiu, levou o que lhe era precioso e sagrado.

E você exige ser tratado com respeito por todos agora.

A sua posição é a de vitima e você acha legítimo estar nessa posição.

Até você aceitar que não é vitima de nada, afastará amigos, oportunidades de trabalho e todas as situações de vida que lhe trazem alegria genuína.

 

Querido leitor, no luto,  precisamos de alguém para nos lembrar que estas, talvez, fossem realmente características nossas mas que todas elas ficam acentuadas pela dor do luto.

Precisamos de alguém para nos lembrar que não podemos assumir o lugar de quem morreu, porque - Deus! - nunca ninguém no mundo poderá.

Precisamos de alguém para nos lembrar que não podemos evitar que as pessoas que amamos passem pelo que estão passando.

Precisamos de alguém para nos lembrar que cada pessoa que amamos viverá o luto à sua maneira e que é egoísmo nosso querer que seja diferente, só porque nós gostariamos que fosse.

Precisamos de alguém para nos  fazer entender que ainda dói e que se não pedirmos ajuda ninguém saberá que está doendo e portanto ninguém poderá nos ajudar.

Eu, psicóloga, precisei procurar outra psicóloga para compartilhar com ela todas aquelas duvidas em relação a Deus, céu, universo, vida após morte, galáxias, buracos negros, 'de onde viemos e para onde vamos' e blá, blá blá... dúvidas que assombram que está de luto.

Eu precisei ir até ela para pedir-lhe que me dissesse o que acontece depois que os nossos olhos fecham pela ultima vez. 

Hoje eu lhe diria:

-  Desculpe o pedido absurdo cara colega. E obrigada por não saber.  Obrigada, sobretudo, por lembrar-me que ninguém sabe. E fazer-me lembrar que FÉ é seguir vivendo, a despeito disso.

Querido leitor, desejo que você, no seu processo de luto, saiba reconhecer a hora de bucar ajuda. E desejo ainda mais  que a pessoa a quem você recorrer saiba conduzi-lo pelos caminhos da aceitação ajudando-o a reconhecer a tragicomédia do luto:  que a nossa insistência, beirando a loucura, em procurar respostas para perguntas que não temos, é apenas o nosso coração saudoso, ansiando por notícias do lado de lá.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 18/09/2018 - 18:30Atualizado em 18/09/2018 - 19:01

Grande parte das conversas entre pessoas que ainda não se conhecem começa com o tradicional:
- O que você faz? Trabalha com quê?

Poderia ser nossa deixa para falarmos que curtimos a vida, contemplamos o pôr do sol, tomamos banhos de chuva, dormimos bastante, passamos uma boa parte do tempo livre navegando na internet ou largados no sofá da sala de estar, acompanhamos a sutil diferença da luz do sol enquanto mudam as estações, tomamos muitos cafés, comemos chocolate e gostamos de caminhar sem pressa com nosso cachorro.

Mas quando nos perguntam - O que você faz? - querem saber o que fazemos profissionalmente, que falemos sobre o que nos torna útil na sociedade, sobre o que nos traz retorno financeiro, sobre o popularmente conhecido 'ganha pão'.

Quando nos encontramos nesta situação, em que precisamos falar de nós a partir daquilo que fazemos, nem sempre somos honestos e, as vezes, caímos na armadilha de elaborar um discurso para passar a impressão de que o nosso fazer é importante e com isso ganhar a aprovação de quem nos questiona. 

Falar do que fazemos profissionalmente é falar uma linguagem  universal, sobre a qual todos conseguem opinar e se sentem a vontade para criticar, elogiar, julgar como mais ou menos importante para a sociedade, ou abster-se de fazer comentários mas ficar matutando sobre o que ouviu.

Esta pergunta incomoda mais a medida que estamos mais atentos ao que fizemos. E não estou me referindo ao 'fazeres' profissionais apenas. Refiro-me a atenção que damos à forma como acordamos, aos primeiros pensamentos que nos ocorrem ao despertar, aos nossos primeiros sentimentos, ao modo de levantar da cama, às nossas primeiras escolhas, à roupa que vestimos, ao nosso café da manhã, ao que fizemos com nosso tempo... Porque tudo isto são "fazeres" ou afazeres.

Podemos facilmente perceber a frequência com que as pessoas falam do que fazem; seja na rua, nas filas de espera, no ponto de ônibus, na rodoviária, no aeroporto. Nós as ouvimos falando da empolgação ou do descontentamento que sentem por estarem fazendo o que fazem, de como estão atrasadas para seu compromisso e do que o atraso poderá acarretar, da ansiedade em terminar o horário de expediente e poderem estar com alguém em algum lugar que desejam, de planos e projetos relatados com a ênfase necessária para envolver o outro e fazê-lo comprar sua ideia. 

Talvez por isso as conversas comecem com "o que você faz?" 

 

Num mundo ideal, para mim, conversas entre desconhecidos  poderiam começar com: 
- Quem é você? 

- Como você está? 

- Você quer falar agora? Porque né, às vezes, a pessoa nem quer...

Mas as pessoas, de modo geral, se sentem mais a vontade, e pensam estar deixando o outro mais a vontade, quando perguntam "O que você faz?" 

Possivelmente para muitas pessoas é fácil responder a esta pergunta. "Sou Advogado, Engenheira Civil, Dentista..." 

A pergunta geralmente não é "Quem você é?" mas, se você formou-se em Direito, Engenharia ou Odontologia pode dizer que 'é' advogado, engenheiro ou dentista. Concordemos, porém, ninguém é isso apenas. 

Ninguém é, apenas, o que faz profissionalmente. 

Somos, talvez, a soma de tudo o que fazemos, no trabalho ou fora dele, nos círculos sociais ou quando estamos sozinhos, na presença de pessoas íntimas ou de completos estranhos para nós. 

Nestes diferentes ambientes, temos diferentes tipos de comportamentos  e se pudéssemos abarcá-los todos em nossa resposta à pergunta "o que você faz?" daríamos uma boa amostra de nós mesmos. 

Porém, ainda assim, faltaria tudo o que pensamos, dissemos, deixamos de dizer e de fazer. Faltaria, inclusive, o que desconhecemos sobre nós mesmos.

Tantas vezes nos sentimos inúteis, sem poder fazer nada quando, por exemplo, pegamos uma condução, ou mesmo nosso carro, para voltar às nossas casas no fim do dia e acabamos presos no trânsito. 

Justamente nesta hora estamos fazendo inúmeras coisas: talvez refletindo sobre nosso dia, talvez sonhando com um dia melhor ou diferente, talvez tentando resolver mentalmente o problema que ficou pendente, talvez estejamos nos dando conta de nosso cansaço e de que precisamos relaxar.  Talvez, seja o nosso momento de agradecer a vida que levamos e a oportunidade de fazer o que fazemos. Talvez, seja o raro momento em que  repensamos nossos 'fazeres' mas, mesmo decididos a encontrar outros caminhos, tudo o que podemos fazer, por ora, é seguir em frente. 
Mas como dizer isso a quem nos pergunta:
- O que você faz?

 

Querido leitor, com esta reflexão, quero levá-lo a perceber a oportunidade que temos de conhecer verdadeiramente o outro quando fazemos um primeiro contato, uma primeira pergunta para ele. Oportunidade que podemos desperdiçar quando iniciamos uma conversa focando apenas em saber o que o outro faz, com que o outro trabalha. 
Poderíamos iniciar um movimento mudando a pergunta "O que você faz?"para "O que você fez hoje?"

Porque essa é uma pergunta que parece ser mais fácil de responder e que nos leva a refletir constantemente sobre nossos 'fazeres', permitindo-nos ajustar a rota sempre que considerarmos necessário.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 04/09/2018 - 19:49Atualizado em 04/09/2018 - 19:56

Uma das conclusões que cheguei com minha experiência de atendimentos no consultório foi que, pensar sobre algo, é sempre muito pior do que experienciar.
Quando pensamos em como será, o que sentiremos, o que pensaremos, o que faremos, formulamos inúmeras hipóteses, a maior parte delas desnecessárias e até mesmo nocivas a nossa saúde mental e emocional.
Quando vivenciamos, não estamos especulando. Estamos vivendo, sentindo, pensando e agindo. No mínimo, boa parte da ansiedade vai embora. Ficamos com o fenômeno, o evento e, a partir daí, quaisquer que sejam nossas decisões, serão fundamentadas na experiência e não nas nossas elucubrações e devaneios.
Não há como saber se iremos nos arrepender depois. Podemos, evidentemente, conhecer o que estamos escolhendo e assim fazermos nossa escolha de forma mais consciente. No entanto, somente ao 'depois' cabem as respostas. A questão é desejar o depois.
Se o depois chegou e nos trouxe arrependimento, é o momento de reavaliarmos nossa escolha. Sabemos que toda escolha implica em perdas. Não há como escolher sem perder alguma coisa. Podemos voltar atrás? É isto o que desejamos? Vamos seguir em frente com nossa escolha e assumir as desvantagens da mesma?  Traçaremos uma nova rota? O que faremos com o que temos em mãos?
A vida é um eterno decidir. Decidimos sair da cama, escovar os dentes, comer, estudar, trabalhar, descansar, socializar. Ou não.
Muitas vezes pensamos: "Não deveria ter saído da cama hoje." Mas já está feito.
Imagine passar o dia inteiro deitado, olhando para o teto, com medo de se arrepender de ter levantado.
Tenham medo de se arrepender, não há nada de errado com isso. Mas não se deixem paralisar por este medo.
Como dizem por aí, "vai com medo mesmo". A menos, é claro, que o medo é sua desculpa para não tentar.
Todos nós nos arrependemos todos os dias sobre as mais diversas coisas: palavras ditas, não ditas, atitudes que tomamos ou deixamos de tomar, nos arrependemos por nos alimentarmos da forma errada, por não praticarmos atividade física, por não sermos produtivos o suficiente, por não termos sido bons o suficiente, por milhares de coisas.
Mas volto a dizer, pensar sobre como seria será sempre infinitamente mais angustiante do que vivenciar.
Quando vivenciamos, terminamos o ensaio e estrelamos no palco da vida. Lugar onde somos protagonistas de nossas histórias.
Insuportável seria vivermos eternamente ensaiando sem a chance de estrearmos um dia.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 28/08/2018 - 20:00Atualizado em 28/08/2018 - 20:04

Fiz as pazes com a mediocridade.
O adjetivo (medíocre) é forte e muitas vezes usado para denegrir o trabalho ou a imagem de alguém.
No entanto, o significado de medíocre vai além disso e pode surpreender. 
Medíocre vem do latim 'mediocris' e significa médio! Está entre o bom e o mau, o gigante e o minúsculo, a qualidade e a falta dela, a criatividade e a cópia.
E, cá entre nós, por mais que não queiramos estar na média, não seremos gênios o tempo inteiro. Podemos ter momentos de criatividade extrema mas isso não significa sermos bons o suficiente para ficarmos acima da média o tempo todo (pelo menos não sem muito esforço).

Numa rápida retrospectiva revi minhas tentativas de ter meus possíveis talentos reconhecidos.

No ballet na tenra infância. Nas participações nos shows de valores da escola. Nas aulas de violão. Na natação. No inglês. Em todas as - necessárias - aulas de reforço para as disciplinas de cálculos. No entusiasmo com que fazia as redações nas aulas de Língua Portuguesa. Em todos os artesanatos confeccionados nas aulas de Iniciação Para o Trabalho. Em toda a minha vida acadêmica, da pré-escola a pós-graduação. No meu trabalho como professora e como psicóloga. Nas trocas e vendas num brechó virtual que criei. Nas inúmeras tentativas de melhorar minha qualidade de vida, fisica, mental e espiritualmente

Nunca me destaquei. Em nenhuma das tentativas fui "genial". 

Sempre me deparei com algum tipo de limitação.

Algumas vezes fui persistente - a persistência sempre trás algum reconhecimento, dos outros ou de nós mesmos.

Recebi elogios e em alguns até acreditei. 
Mas o que acontece comigo e com a maioria de nós que passamos por isso?

Na maioria das vezes abandonamos o barco.

Porque queremos ser especial no que fazemos.

Mas não podemos porque somos medíocres naquilo.

Nem o melhor, nem o pior.

Nem tão bom, nem tão ruim.

Nem tão grande, nem tão pequeno.

Nós não nos situamos em nenhum extremo que receba destaque.

Isto me incomodou durante um bom tempo. 

Incomodou tanto que me esforcei demasiadamente, ora para que reparassem minhas qualidades, ora para que reparassem meus defeitos. Em todo o tempo, para que me enxergassem.

Hoje sei que não era a mediocridade que eu temia.Meu  medo era ser esquecida.
Esse é o nosso maior medo: sermos esquecidos!

Foi assim que preferi ser a chata a não ser ninguém na vida das pessoas ao meu redor.

E foi assim, também, que me libertei para ser quem posso ser e fazer o que posso fazer.

Para alguém como eu leva um tempo até aceitar que a vida é isso aí: abrir os olhos, levantar, respirar e fazer o que for possível, mesmo correndo o risco de ser taxada de medíocre.
Até porque a outra opção seria não fazer nada, talvez, nem levantar pela manhã.
De coração querido leitor, desejo que você escolha sempre a primeira opção: abra os olhos, levante, respire fundo e faça o que for possível.
Feito é melhor que perfeito.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 20/08/2018 - 16:40Atualizado em 20/08/2018 - 16:45

O ano é como uma estrada comprida, a qual conhecemos bem. 
E agosto é o túnel da estrada. 
Supomos, a cada começo de ano, saber como estaremos e o que sentiremos em cada trecho desta estrada. 
Sabemos que fará calor no início da jornada e que depois virá a meia-estação. 
Quase no meio da estrada precisaremos de reforços pois os dias serão mais curtos e as noites mais longas. 
Fará muito frio e, em muitos dias, não haverá sol para iluminar o caminho. 
Mas sabemos, também, que depois deste trecho a temperatura estará amena novamente e a caminhada será mais fácil. 
No final da estrada o calor intenso voltará. 
Caminharemos em dias de festa, de recolhimento, de luz e de escuridão. 
Caminharemos sentindo a brisa no rosto em alguns dias. Em outros o caminho estará repleto de folhas caídas, trazidas pelo vento. 
Andaremos olhando para as flores enfeitando o caminho e poderemos nos refrescar num lago a beira da estrada nos dias mais quentes. 
Em alguns trechos encontraremos muitas pessoas e em outros caminharemos sozinhos. 
Sempre haverá uma surpresa. Algo que nunca antes enxergamos na estrada. Esta é a graça da caminhada. É na expectativa das surpresas que nos animamos a caminhar. 
Há um trecho da estrada que chamo de túnel. É quando já faz frio há muito tempo. Quando passamos dias caminhando sem ver o sol. Dias em que chove muito e os viajantes da estrada ficam mais reservados. Alguns nem cumprimentam quando se encontram. Estão muito preocupados com a própria sobrevivência. 
Quase todos vestem roupas escuras, a grande maioria veste preto. 
É a parte da caminhada em que já estamos cansados e sabemos que ainda há uma longa jornada até o final. Embora certos de que não desistiremos, caminhamos cabisbaixos, olhando nossos passos. 
São os dias em que olhamos para trás e já não enxergamos o início do túnel. Janeiro está muito longe agora. 
Olhamos para frente e não vemos seu final. Dezembro ainda não está perto. 
Dentro do túnel, a cada dia, somos vitoriosos apenas por ter continuado a caminhar. 
Quando agosto chega ao fim conseguimos sentir outra vez o frescor da brisa lá fora, a luz do sol, o perfume das flores. E sentimos renovada a vontade de caminhar com alegria até o fim da estrada.
Talvez seja apenas imaginação, o túnel e até mesmo a estrada. Afinal, filosoficamente falando, não existe agosto, nem janeiro ou dezembro. Não existe começo, meio ou fim.
Nesse sentido tudo o que temos é o agora, o momento presente.
Então querido leitor; agosto, gosto ou desgosto, fica totalmente a seu gosto.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 15/08/2018 - 20:43Atualizado em 15/08/2018 - 20:45

Tem muita beleza escondida e muito lixo exposto em nossas casas.
É impressionante a quantidade de coisas e lembranças bonitas que encontramos escondidas dentro de nossos armários e gavetas. 
Herbert Vianna fala lindamente sobre isso na música Tendo a Lua.

Começamos a mexer nestas coisas sem a menor ideia do que nos espera. 
Sabemos apenas, intuitivamente, que vamos nos deparar com lembranças. 
Mas depois de encontrar o primeiro objeto, muitos outros parecem nos dizer: 
- Olha eu escondido aqui! Me nota! Você não gostaria de me ver todos os dias? Me coloca na sua estante!
São cartas, cartinhas, cartões, bilhetinhos, recortes e fotografias.
Solícitos, vamos retirando dos esconderijos tudo o que consideramos belo, alegre ou útil.
Nas primeiras tentativas de expor tanta coisa acabamos nos atrapalhando um pouco. Precisamos de um tempo para nos familiarizarmos com todo aquele estímulo visual e, principalmente, emocional. 
Aos poucos, vamos identificando o que já não faz mais parte do nosso cenário. 
Não precisamos de muitos critérios para escolher o que retirar da nossa vista. 
Algumas coisas simplesmente não combinam com o cenário que queremos enxergar todos os dias. Devem voltar pras gavetas. Ou ir embora de vez. 
O que é feio, porém necessário, que fique guardado. Se além de feio, é inútil e triste, que vire lixo. 
Porque assim como os objetos que deixamos expostos sem que harmonizem com nosso ambiente e os outros, bonitos, porém esquecidos no fundo das gavetas, nós também acabamos insistindo em revelar nossos defeitos e fragilidades enquanto escondemos cuidadosamente nossa força e nossas qualidades.
Jogue fora o lixo e, se não for possível, 'esconda-o'.
E exponha o que é belo querido leitor.
Como cantou Herbert Vianna, "a casa fica bem melhor assim".
Possivelmente a vida fica bem melhor assim também.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 15/08/2018 - 20:16Atualizado em 15/08/2018 - 20:17

Felicidade bate à porta.
Há quem não acredite.
Muitos acham que é preciso buscá-la fora de casa, em outra cidade, outro país, outra universidade, outro trabalho, outro relacionamento.
Há quem não acredite que pode encontrar a felicidade em sua casa, em seu trabalho, enfim, em sua rotina.
Andam - quando não correm - de bar em bar, de festa em festa, de cidade em cidade, atrás da tão desejada felicidade.
Mas chega a hora de passar dessa fase.
Até nos aventuraremos por aí, mas buscando emoções - as quais na hora e na dose certa só fazem bem - mas sabendo que isso não tem nada a ver com felicidade .
É clichê, mas somente quando paramos de buscar a felicidade desenfreadamente é que ela nos encontra.
O que não percebemos é que somente ao nos aquietarmos poderemos recebê-la no conforto da nossa sala de estar.
Sim.
Mas para isso precisaremos enfrentar o silêncio.
A solidão.
O encontro com os velhos problemas.
Precisaremos nos deparar, inclusive, com problemas novos e que até então passavam despercebidos.
Sim.
Teremos que olhar para eles.
Pensar sobre eles.
Até, algumas vezes, conversar sobre eles. 
Empenhar-nos em resolvê-los ou aprender a lidar com eles.
Sim.
Aprender a lidar com problemas insolúveis é desagradável.
Todos, nessa hora, temos vontade de sair correndo.
E, frequentemente, saímos, desvairados, fugitivos de nós mesmos.
Consumimos, barganhamos, ostentamos.
Saímos flexionando os mais diferentes verbos na tentativa de esquecer os problemas e encontrar a felicidade, nem que seja a força.
Até que chega a hora de voltar para casa.
A hora em que cessam as buscas. 
Damos por encerrada as tentativas de encontrar a felicidade.
Acreditamos que só nos resta a resignação.
Assistiremos, enlutados, a felicidade dos outros pela televisão e pela internet.
Oficializaremos a morte da nossa própria felicidade.
Sim.
Fazemos isso.
Sem tê-la encontrado, nós a declaramos morta.
E ela, sempre a nos rodear.

Nosso erro é achar que o céu tem de estar azul, o mar transparente, a casa reformada, a família na mais completa harmonia, os amigos nos procurando e os inimigos nos admirando.
A felicidade não precisa de nada disso para chegar.
Mas chega com tudo isso também.
Não precisamos "antes" resolver ou organizar coisa alguma, 
A felicidade não impõe condições.
Coexiste com perdas, faltas e ausências de toda ordem.
A felicidade precisa, apenas, que nós a enxerguemos.

Felicidade é isso: 
Nos deixa em paz.
Nos aceita como somos.
Não pede nada em troca.
Chega sem alarde.
Permanece somente pelo tempo que quisermos.

Aprenda querido leitor, a tempo, que a felicidade nos encontra mais facilmente quando nos aquietamos.
E é tão bom recebê-la que acabaremos vivendo pacificamente para merecer suas visitas.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 02/08/2018 - 18:10Atualizado em 02/08/2018 - 18:20

Se todos os sentimentos são humanos, só não os sente quem não é.

Todo mundo sente. 

A intensidade com que sentimos é que pode variar - e muito - de pessoa para pessoa.

Há uma frase que se popularizou na internet e que diz mais ou menos assim: "Não tenho medo de pessoas invejosas, tenho nojo."

Nas primeiras vezes em que me deparei com esta frase fiquei pensando; como pode alguém se orgulhar por sentir nojo de pessoas porque estas sentem o que ela não sente? Ainda que estivesse fazendo referência ao fato de que não sente medo de pessoas invejosas, como pode alguém alardear com orgulho que sente nojo?   

Com o tempo, ao me deparar com a frase, já não era isto que eu pensava. Passei a me questionar: Como alguém se amedrontaria ou teria ojeriza a pessoas portadoras de um sentimento que ela desconhece ou que nunca experimentou na sua condição humana?

Sinceramente, respeito todos os sentimentos. Como disse o filósofo Publio Terencio, "nada do que é humano me é estranho". Não quero dizer com isso que sentimentos que causam mal a nós mesmos ou a outros devam ser cultivados ou alimentados. Não acho que a mágoa, a raiva, o ciúme, a inveja devam receber consideração especial. Mas também não creio que devam ser negados pois, quase sempre, dizem algo de nós para nós mesmos.

Somos parte de uma sociedade extremamente competitiva. Desde criança somos comparados. E sempre haverá alguém que é mais ou melhor do que nós em alguma coisa. Isto pode aparecer de forma objetiva - como por exemplo, o amigo que é mais alto e tem melhor desempenho no basquete - ou de forma subjetiva - quando por exemplo achamos que alguém é mais bonito ou melhor do que nós em tudo o que faz.

Nossas escolas fazem questão de divulgar o nome de seu aluno primeiro colocado no vestibular. Empresas divulgam nome e foto do funcionário destaque. A ditadura da beleza estabeleceu quem são os mais bonitos. A moda determina os mais bem vestidos. Até o que era para ser investimento em qualidade de vida virou uma disputa de quem é o mais magro, quem é campeão nos esportes ou quem se alimenta melhor. Nós somos preparados para invejar pois estabeleceu-se um padrão, todos devem querer as mesmas coisas. 

Há tanto mito em torno dos sentimentos que alguns sentem inveja de quem, supostamente, não tem inveja. E alguns acreditam piamente que não experimentam os chamados 'sentimentos inferiores'. Obviamente, numa sociedade assim, quando se está  numa condição favorável é possível que a pessoa não tenha olhos para seus próprios 'sentimentos inferiores' ou, até mesmo, que tais sentimentos não se manifestem com frequência. Mas em condições desfavoráveis é comum as pessoas  passarem a olhar para o que não tem ou não conseguem alcançar. A partir daí, facilmente, enxergam o que os outros tem e alcançam. Se neste momento sua autoeficácia não estiver suficientemente forte, podem sentir inveja. Não é o fim do mundo. Ela fará mais mal a quem sente do que a qualquer outra pessoa. A menos, é claro, que a pessoa canalize seus esforços para destruir o que o outro construiu. Mas aí é outra história.

Se somos capazes de amar também somos capazes de odiar. Na mesma intensidade que desejamos algo ou alguém, sentimos ciúmes. Se criamos expectativas nos relacionamentos, nos magoamos. Todas as pessoas que podem nos despertar sentimentos de profunda alegria, também podem nos deixar com raiva. Admiramos as pessoas quando estamos de bem com a vida e com nós mesmos na medida em que as invejamos quando nos sentimos mal.

O que fazemos com estes sentimentos é o que nos diferencia uns dos outros!

Quando prestamos atenção em nossos sentimentos temos a oportunidade de nos conhecer melhor. Este é um primeiro e importante passo para nos ajudarmos. 

E não há nada melhor para afugentar 'sentimentos inferiores' do que saber que podemos contar com nós mesmos.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 27/07/2018 - 16:48Atualizado em 27/07/2018 - 16:50

Com todo o respeito as mães (valendo para os pais também) que trabalham fora de casa e querem, mas não podem, curtir os filhos de férias, afirmo:

Filho em casa é um presente.

Possivelmente curto mais as férias escolares de minha filha do que ela mesma.

Os dias ficam mais animados. Eu fico mais animada!

Nas férias você pode enxergar - de fato - seus filhos.

Observe seus pequenos. 

Eles estão bem diferente das férias do inverno passado.

Seus interesses mudaram. Mudaram os livros que lêem, os programas que assistem na TV, os filmes que querem ver no cinema.

Não querem mais saber de algumas brincadeiras e jogos. 

O jeito de se vestir provavelmente mudou. 

Suas conversas ganharam profundidade e, não raramente, você muda de assunto surpresa com sua capacidade de conversar de 'mulher pra mulher' ou de 'homem pra mulher'.

Não raramente, também, eles interrompem diálogos subitamente, como se não tivessem o menor interesse no assunto que você propõe. 

Se isso estiver acontecendo e eu não estiver enganada, seu filho está adolescendo.

Você pensa: Ela está completamente enganada.

Mas toda vez que desvia o olhar do desodorante de seu filho e acaba enxergando seu rosto no espelho do banheiro, seu reflexo lhe afirma: Sim, ele está adolescendo.

Então você fica desejosa de mais dias de férias, de mais tempo com ele, de menos compromissos para ambos.

A sensação de que a infância está acabando traz o sentimento de urgência. Urgência de convivência.

Toda mãe em sã consciência sabe que sentirá saudade de seu filho criança.

Deseja ardentemente vê-lo crescer saudável e passar por todas as fases da vida.

Mas sabe que não será mais necessária como foi nos primeiros anos de vida do filho.

Talvez seu filho ainda lhe chame de melhor mãe do mundo.

Faz cartinhas e cartões para você.

Pede carinho e cafuné.

Adora receber massagem e, as vezes, fazer também.

Pede pra você sair da internet e assistir TV com ele.

Faz uma infinidade de programações nas quais você está inclusa.

Pergunta o que você tem quando está pensativa.

Aceita sugestões sobre o que vestir, calçar e de como deve arrumar o cabelo.

Demonstra preocupar-se em lhe deixar quando vai dormir na casa de um amigo.

Diz que lhe ama agarrada em seu pescoço várias vezes ao dia.

Não é de se esperar que isso dure a vida toda.

Tudo isso só para você!

Enquanto durar não seja maluca de desperdiçar. Porque chegará o dia em que ele estará em outra querida leitora.

Nas férias você pode curtir tudo isso sem hora para ir dormir. Sem hora para acordar. Sem compromissos para interromper vocês.

Quando a vida voltar à sua rotina será a vez dos 'agora não posso'. De curtir seu filho somente quando for possível.

Agora é a vez das férias escolares de seus filhos e é a sua vez de curti-los o tempo todo.

O tempo todo que eles permitirem, é claro.

Desespero com as férias escolares? Que nada! Curta as férias da garotada.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 18/07/2018 - 19:19Atualizado em 18/07/2018 - 19:22

A Copa do Mundo colocou em evidência nomes como Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo.
Eles foram ovacionados e também extremamente cobrados por fazerem bem o que fazem.
Mas é possível sentir-se o melhor no que faz sendo um completo anônimo?

Ao longo de nossas vidas experienciamos vários papéis. 

Alguns são apenas tentativas despretensiosas. Outros surgem por necessidade e não podemos recusá-los. E, finalmente, existem aqueles que escolhemos e para os quais nos empenhamos em ser o melhor que pudermos.

Na infância somos filhos, irmãos, colegas, alunos disso e daquilo, deste e daquele professor.

Na adolescência seguimos com estes papéis e ainda nos tornamos estudiosos, melhores amigos, namorados, praticante de um ou outro esporte, fãs de celebridades.

Quando adultos somos marido, mulher, genro, nora, pais, tios e profissionais.

Sem saber como, vamos acumulando e equilibrando todos estes papéis, acreditando que podemos ser bons em tudo. 

Mais do que isso, acreditamos que podemos e devemos ser ótimos em todos os papéis que desempenharmos.

Confiantes disso, seguimos aceitando novos papéis existenciais, seja como protagonistas ou coadjuvantes.

E em todos eles desejamos nos destacar e, quem sabe, receber o devido reconhecimento, equivalente ao merecido Oscar para o grande ator.

Somente quando percebemos que não podemos ser bons em tudo é que passamos a analisar melhor os papéis e escolher considerando nossa vontade e também nossa capacidade de representá-lo.

Estas escolhas nos permitem dar nosso melhor sem nos importarmos com críticas.

Assim que é com o chef  que se aventura pela primeira vez na cozinha. Com a atleta de competição que busca apenas qualidade de vida. Com o blogueiro que escreve pelo prazer de escrever. Com a mãe que decidiu sê-la em período integral para não deixar de acompanhar a infância do - outro - filho. 

Estes são exemplos de papéis existenciais escolhidos cuidadosamente e sentir-se ótimo ao realizá-los tem mais valor do que ser considerado ótimo pelos demais.

Todos deveríamos ter a oportunidade de escolher ao menos um de nossos papéis sem sermos pressionados pelas exigências da vida. Assim poderíamos nos sentir os melhores do mundo. Não porque assim nos consideram. Mas porque o vivenciamos com paixão e experienciamos a plenitude, mesmo que no anonimato.
Em quais papeis querido leitor você se sente realizado, feliz, pleno, mesmo que não o aplaudam, mesmo que não ganhe likes, nem visualizações, nem reconhecimento algum que não seja o seu?
Eliane Brunn é uma jornalista e escritora que gosto muito e que fala dos pequenos gestos, diminutos, invisíveis...Ela fala do avesso da importância, do antônimo da evidência. Segundo ela são as pequenas atitudes que salvam o mundo todos os dias.
Então, seguindo seu raciocínio, é possível sim sentir-se o melhor do mundo sendo anônimo. Como? Ajudando alguém que precisa, cozinhando para alguém que está com fome, ouvindo quem quer desabafar, falando com quem quer ouvir ou mesmo fazendo algo menos altruísta, como jogar um futebol no fim de semana, escrever num blog sem compromisso, fazer uma atividade física no fim do expediente. Mesmo, ou melhor, principalmente, se isso não o deixar em evidência!

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 11/07/2018 - 17:20Atualizado em 11/07/2018 - 17:32

Aprecie lavar o rosto ao sair da cama. Fazer uma concha com as mãos e encher de água para, em seguida, levá-la até seu rosto. Mergulhá-lo na água e despertar do sono para a vida.
Aprecie vestir roupas confortáveis e simples. Roupas que não te revelem por completo mas que também não te escondam. Roupas com as quais você possa viver seu dia inteiro, sem precisar mudá-las para um ou outro compromisso.
Aprecie dar bom dia às pessoas. Um bom dia que transmita seu desejo de que o dia seja realmente bom. Dê bom dia para seu marido, sua filha, para o vizinho, para o porteiro. 
Aprecie, também, ouvir 'bom dia' das pessoas que encontra pela manhã.
Aprecie cada etapa do preparo do seu café. Encher a chaleira de água, acender o fogo, colocar a água para esquentar. Pôr o pó de café dentro do filtro de papel no coador sobre o bule. Depois, derramar a água sobre o pó e sentir o aroma do café tomando conta de toda a cozinha e, não raras vezes, de toda a casa.
Aprecie caminhar olhando para tudo o que há de bonito no seu bairro e nas redondezas. No chão, as folhas do plátano secas que o vento espalha por toda a rua no outono e inverno. No céu, as nuvens brancas ou o azul infinito. No ar, a brisa e os aromas. 
Aprecie as flores nos jardins das casas, nas janelas, nas árvores. São lindas mesmo caídas formando tapetes coloridos no chão. Não resista, fotografe tudo o que achar bonito. Ou, apenas contemple.
Aprecie sua casa. Aprecie organizá-la e, depois, vê-la limpa e cheirosa, bonita e funcional. Aprecie todos os cômodos da sua casa. Em cada um deles sinta-se acolhido de um modo especial. Nos quartos, deixe as camas bem feitas, cobertas com as colchas de crochê que herdou de sua avó ou de sua mãe. Na sala, enfeite com flores e velas. A cozinha é seu lugar de movimento. Lave a louça você mesmo de vez em quando, sem ajuda de maquina de lavar. Faça espuma nos pratos, talheres e panelas e, depois, deixe que seja levada pela água. Deixe as louças no escorredor secando ao sabor do vento. Na área de serviço, descanse olhando pela janela. Na varanda, deite na rede e veja o sol se por. Sua casa deve ser seu lugar preferido.
Aprecie ir a livraria  e ficar lá por horas. Parar sem compromisso diante de todos os títulos que te chamam a atenção. Aprecie escolher alguns livros, sentar e folheá-los com calma. Apaixone-se por vários deles mas escolho apenas um  para ir consigo. 
Aprecie retirar da sua estante, livros que já leu e releu e, dos quais, consegue se desapegar. Aprecie esquecê-los em lugares públicos. A propósito, aprecie praças, parques, calçadas, muros, escadas, mesas, bancos; tudo o que compõe a paisagem urbana. Entre estes lugares, escolha o mais bonito e tranquilo para deixar um livro. Fotografe e guardo a imagem do lugar que recebeu o livro como lembrança. Depois, pense nas múltiplas possibilidades que se abrem quando esquece um livro pela cidade.
Aprecie dar e receber carinho. Palavras bonitas, elogios e incentivos fazem bem, acalmam o coração e alegram a alma. Tão bom quanto ouvir palavras carinhosas é pronunciá-las.
Aprecie abraçar. Sinta-se envolvido e envolvendo. Feche os olhos e desapareça no abraço.
Aprecie o silencio, a musica calma, a luz suave. 
Aprecie estar com pessoas simples que sabem ouvir e que gostem de falar das coisas da vida. Troque ideias sobre assuntos do cotidiano e aprenda com elas a lidar com as situações adversas. Pessoas e conversas leves embelezam nossa vida.
Aprecie estar com sua família. Aprecie quando se reúnem ao redor de uma mesa farta, conversam e dão risadas. Alimente sua alma quando convive em harmonia com seus familiares.
Aprecie ter uma criança em seus braços. Aprecie observá-la, conversar com ela, fazê-la sorrir.
Aprecie a companhia de um cãozinho, de um gatinho. Eles são testemunhas de muitas histórias vividas em nossa caminhada. Aliás, um cãozinho é sempre um bom motivo para uma caminhada.
Aprecie olhar pela janela ou sentar em um banquinho como um fiel contemplador das belezas da vida.
Aprecie o por do sol, o canto dos pássaros,  a natureza em todas as estações, cada qual com sua beleza e encanto.
Aprecie saborear as delícias que seu marido prepara quando cozinha. Silencie e saboreie enquanto troca olhares de aprovação.
Aprecie escrever sobre sua maneira de viver a vida. Registre, com prazer, sua existência.
Reconheça que há vezes em que faz coisas que não aprecia. E que se demora nelas mais do que o necessário.
Diante de todas as possibilidades que lhe fazem bem, há vezes em que você não as escolhe.

Este texto é para lembrar que sempre que houver uma escolha a fazer, faça a escolha que lhe fará bem. 
E se você não aprecia nada disso que escrevi acima, recomendo que escreva seu próprio texto.
O texto das coisas que você aprecia!

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