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Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 14/02/2019 - 13:37Atualizado em 14/02/2019 - 14:11

Querido leitor, todos temos nossas manias não é mesmo?

De todas as minhas manias havia uma que eu levava muito a sério.

Enquanto caminhava e pensava, subitamente decidia que a partir do próximo passo eu faria tudo diferente.

 

Enquanto caminhava, comparava mentalmente a minha maneira de viver com a maneira com que outras pessoas viviam as suas vidas.

Nesta comparação, via de regra, eu saia perdendo.

Então caminhava e pensava em tudo o que eu poderia fazer melhor e mais bem feito.

Não faltava autocrítica. 

Sobrava super valorização do comportamento alheio.

Naquela contabilidade, meu saldo existencial era sempre negativo.

Nada estava suficientemente bom.

Tudo podia melhorar.

Dos meus hábitos aos relacionamentos, passando pelo jeito de ser e estar no mundo, eu concluía que poderia melhorar em tudo. 

A mudança, eu supunha, me deixaria satisfeita comigo mesma.

Então eu me concentrava nos meus passos. 

Localizava-me em relação a um referencial não muito distante - uma arvore, uma casa ou uma pessoa - e estabelecia, de onde eu estava até lá, uma caminhada rumo a mudança. 

Haveria então um ultimo passo na caminhada de quem eu era. 

E o próximo passo iniciaria a caminhada de quem eu gostaria de ser.

 

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A mania do próximo passo funciona como auto-ajuda. 

É algo inspirador. Motivacional. 

É como a ideia de começar uma dieta na segunda-feira (desta vez vai dar certo!).

Basta nossa auto-estima cair um pouco e a ideia do próximo passo surge como solução para todas as nossas insatisfações pessoais.

Por algum tempo após o próximo passo nos sentimos aptos, capaz e competentes.

Somos tomados por uma segurança momentânea e sentimos que podemos vencer todas as nossas limitações.

Depois do próximo passo caminhamos firmemente, de cabeça erguida e com o olhar confiante.

Mas em algum momento a aptidão, a capacidade, a competência, a segurança e a confiança nos abandonam.

Não há sustentação em nós para elas.

Vão embora sempre, antes mesmo de precisarmos delas.

E nos vemos, novamente, tendo que encarar os desafios com os recursos dos quais dispomos habitualmente. Nada de novo. 

E fazemos tudo, novamente, do jeito que conseguimos. Como podemos fazer.

Fiz isto muitas vezes, tantas quantas me frustrei por terminar a caminhada do mesmo jeito que iniciara.

 

Transformar um único passo num divisor de águas, num marco existencial determinante, é uma das armadilhas que construímos para nós.

E na qual mais caímos.

Insatisfação não rima com autocobrança. 

Insatisfação rima com aceitação.

A mania do próximo passo é o sintoma mais visível da expectativa exagerada em relação a nós mesmos.

 

Acredito que podemos ser melhor em tudo. 

"Viver pra ser melhor também é um jeito de levar a vida."

Acredito, também, que podemos tornar tudo mais difícil com nossas exigências e ideais inatingíveis.

 

Querido leitor, uma caminhada não tem outra função se não a de nos fazer sentir bem. 

Entendi que o próximo passo só tem a importância de unir o passo anterior ao que vem depois.

Porque o caminho se faz passo a passo.

Às vezes a passos largos, rápidos, quase saltitantes.

Outras vezes a passos curtos, cansados e pesados.

Como sou. Como posso ser.

Sempre em frente.

Sempre enfrente! - eu acrescentaria.

Próximo passo realmente importante na vida é o que nos leva adiante. 

O passo que não nos deixa desistir. 

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 30/01/2019 - 19:35Atualizado em 30/01/2019 - 19:45

Toda cidade tem dono.

Um dono para cada assunto.

Vários donos, a maior parte, em cargos vitalícios e hereditários.

Tem, por exemplo, o prefeito e o grande empreendedor, como em todas as cidades.

Com isso a gente se acostuma.

Tem os donos de clínicas, escritórios e instituições - gente que tornou-se dona de seu espaço com muito esforço e trabalho.

E isso é muito bacana.


Vejam a nossa cidade, aqui tem muita gente legal.

Tem gente inteligente - no sentido mais bonito e abrangente da palavra.

Tem gente solidária - fui testemunha disso todas as vezes em que precisei de solidariedade.

Tem gente que faz a cidade ficar mais bonita - gente que enfeita a vida com arte e poesia.

Tem gente que é gente, "gente que só se veste de si mesma". E fica linda assim.

Tem muita gente legal aqui, diga-se de passagem.

Mas também tem gente que não é dono de nada, mas se comporta como se fosse dono de tudo e todos.

Esses são os "donos da cidade".

 

Tem os donos da beleza. Donos da moda. Donos da informação e da notícia. Donos do conhecimento. Donos das riquezas naturais - como se isso fosse possível.

Tem gente, acredite, que é dono da vida dos outros.

Os donos ditam a moda, o peso ideal, a cor e o corte de cabelo.

A opinião dos donos é a palavra final.

E com isso não dá pra se acostumar.


Analise a relação entre os donos da cidade e seu grau de poder aquisitivo.

Perceba que há donos com grana e sem grana.

O que torna mais dificil entender como chegam ao "poder".

Não há eleições diretas.

Mas, uma vez no poder, os donos da cidade são agraciados com muita bajulação por boa parte dos seus conterrâneos.


Há também uma relação de posse entre algumas pessoas com a cidade.

Não aquele amor à terra natal muito natural e compreensível.

Algo mais para "ame-a ou deixe-a". Em outras palavras: aceita ou vaza.

É difícil discordar das regras dos donos da cidade e permanecer jogando.

Só os fortes conseguem.

Muitos fraquejam... Sucumbem.


Não escrevo este texto para os donos da cidade.

Escrevo para as centenas de pessoas que conheço - e deve haver milhares - que não mandam em nada. Que não são donos de coisa alguma, a não ser de si mesmos e de suas vidas.

Gente maravilhosa que resiste bravamente.

Desconheço seus meios de sobrevivência. 

Talvez sejam mais 'desligados' e nem percebam o que eu percebo.

Ou, talvez, acharam maneiras de driblar as - muitas - ditaduras impostas.

 

Uma das estratégias deve ser não bater de frente com essa gente.


Há muitos anos eu ouvia a Daniela Mercury cantando:

"O canto dessa cidade sou eu, o canto dessa cidade é meu!" 

E eu ficava pensando - como é que pode!?

Como pode tamanha arrogância e prepotência? Se intitular a dona do canto de Salvador?

Hoje vejo que a unica diferença entre ela e outros donos do canto da cidade é que ela gritava para quem quisesse ouvir.

Os "donos das cidades" são mais discretos.

Mas seguem arrastando multidões nos seus trios elétricos invisíveis.

 

A boa notícia é que cabe a você, querido leitor, decidir se irá segui-los.

 

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 30/01/2019 - 19:24Atualizado em 30/01/2019 - 19:32

Conversávamos sobre dons - talentos que considerávamos inatos.

A roda de conversa era pequena e rapidamente identificávamos em nós mesmas e nas demais o dom que se destacava.

Porém, havia uma de nós que não falara e da qual ninguém falara também.

Até que ela se manifestou:

-  Acho que só eu não tenho um dom.

Rapidamente, incomodadas por aquela afirmação, nos pusemos a convencê-la do contrário. 

Mas ela estava convicta.

Nada do que dizíamos a seu respeito representava-lhe um dom.

Quando, unânimes, lhe dissemos que o trabalho que realizava era um grande dom, ela nos respondeu:

- Não se refiram ao que faço diariamente como trabalho remunerado. Falem do dom revelado nas coisas que faço por puro prazer ou porque manifesta-se forte e naturalmente em mim. 

Estava desafiando-nos a indicar-lhe uma vocação? 

Talvez.

Não soubemos o que dizer-lhe naquele momento.

Mas para sua sorte - ou azar - eu a conheço desde que nasceu e nossa diferença de idade permite-me recordar claramente de toda sua infância.

Falar daquela menina brincando, sonhando, fazendo o que gostava de fazer me pareceu a resposta.

.

Era uma menina que adorava descobrir. A descoberta a deixava feliz.

Perdi aquela menina de vista várias vezes quando ela embrenhava-se nas casas e quintais desconhecidos, os quais vistávamos pela primeira vez. Quando eu a encontrava, ela já conhecia todos os cômodos da casa, todas as árvores do quintal.  E eu a encontrava feliz.

Eu a perdia de vista muitas vezes porque era fascinada pelo íntimo e privado. Interessava-lhe, mais do que minha companhia, descobrir onde ficavam os quartos dos fundos, os banheiros, as gavetas, os  livros e tudo o que não deveria mexer. Tudo ela escarafunchava pelo simples prazer da descoberta. Voltava após suas descobertas com o rosto feliz.

Sempre esteve entre os maiores aventureiros com os quais convivi. Os meninos da vizinhança a tinham como uma mascote. Carregavam-na junto com eles para a partida de taco, para as peladas,  para os circuitos de bicicross. E de lá voltava feliz.

Nas trilhas, em montanhas ou desfiladeiros, partia com os primeiros e voltava com os últimos. Levei alguns sustos com sua demora em voltar. Por vontade própria ou levada por alguém, esteve em lugares nos quais eu, bem mais velha do que ela, nunca estive. Partia e voltava feliz.

Era muito atenta a muitas coisas ao mesmo tempo.  Atenta e sorridente. Sempre com o olhar feliz.

Permitia que a irmã a maquiasse e produzisse inteira para ser fotografada como boneca. E na sequencia seguia para o campinho de futebol com seu irmão. Tinha uma versatilidade admirável. E transitava feliz entre cenários contrastantes.

Não se deixou intimidar por sua própria timidez. Sempre precisou de amigos e, quando não tinha, ela os criava. Por um bom tempo convivi com ela e quatro de seus amigos imaginários: Pipa, Páqua, Cícero e Biguá. Ela dava-lhes tanta vida que existiram até para mim. Para onde íamos seus quatro amigos imaginários iam juntos. E ela seguia feliz.

Dona de uma energia contagiante, mesclava sensibilidade e entusiasmo. Era sensível e amorosa. Mas nunca 'sentimentalóide' nem 'melosa' - como ela mesma fez questão de afirmar anos depois.

Onde estivesse, naquilo que estivesse fazendo; entregava-se, era inteira. Cantava alto. Ria muito. Corria. Pulava. Fugia do que a deixava infeliz. 


Naquele dia na roda de conversa, os dons dos quais falávamos e que julgávamos ter, nada mais eram que aspirações, desejos e sonhos de criança.  Coisas que não nos furtávamos de vivenciar mesmo depois de adultas. 


Relembrando a infância daquela menina e contrapondo-a a sua vida de adulta não tive dúvidas em, posteriormente, lhe afirmar: o seu dom era extrair alegria de todas as suas vivências. 

 

E você querido leitor, qual é o seu dom?

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 18/01/2019 - 14:32Atualizado em 18/01/2019 - 14:50

Eu tinha um relógio de parede no qual, no lugar das horas, estavam desenhados doze diferentes passarinhos. A cada hora completa o passarinho correspondente aquela hora cantava três vezes. O relógio precisava de duas pilhas para funcionar e mais duas pilhas para os passarinhos cantarem. A cada canto de passarinho eu percebia que mais uma hora de mais um dia havia passado. Percebia que tinha cada vez menos tempo.  

Tinha dias que isto me fazia pensar:

- O tempo está passando e não estou fazendo nada de útil, nada de interessante com a minha vida. 

Quando pensava assim, sentia-me aflita. 

Muitas vezes, fragilizada por este pensamentos, procurava entre meus contatos aqueles que pudessem me ajudar a encontrar um emprego em caráter emergencial, que preenchesse todo meu tempo livre. Qualquer coisa que me livrasse da procrastinação.

Mandava currículos aleatoriamente para todas as vagas dos classificados. Foram tantas e tão distintas que eu poderia escrever um livro sobre isto.

Impressionante como os contatos e os anúncios não respondem a este tipo de desespero. Parece que sabem que não é o emprego qie estamos procurando. Parece que percebem que só desejamos nos sentir útil. E isso, infelizmente, não é requisito para contratação.

Para além das percepções dos contatos e recrutadores, está a minha minha percepção do favor que fazem ao não responderem a um pedido confuso em que pedimos para ser útil numa vaga de trabalho na qual logo estaremos sentindo a ausência de sentido.

Nos dias que passamos vendo o sol nascer, vendo o sol se pôr, os passarinhos - do meu antigo relógio ou das árvores - cantando, não estamos procrastinando como ousam dizer, estamos fazendo nosso trabalho de base que, acredito, é cuidar de nós mesmos e das pessoas e bichos que dependem de nós.

No final destes dias talvez nos sintamos procrastinadores e é ruím se sentir assim quando a gente não quer isso pra si. 

Mas querido leitor este sentimento perdura somente até percebermos o quanto já caminhamos, o quanto já lutamos - uma luta que sempre foi entre nós mesmos. 

E aí, se prestarmos atenção, se estivermos presentes, empenhados em nosso crescimento, veremos brotando pequenos raminhos de dentro de nós que irão nos sinalizar a direção certa.

O que você chamava de procrastinação era o tempo necessário para suas raízes encontrarem a água da qual precisavam. Era o tempo necesário para os novos brotos surgirem.

Somos seres humanos querido leitor, não temos compartimentos para pilhas que nos façam funcionar 'perfeitamente' como um relógio e ainda cantar como os passarinhos. 

Há dias em que nossa produção pode e deve se resumir a continuar caminhando. De preferência ouvindo o canto dos pássaros.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 18/01/2019 - 14:16Atualizado em 18/01/2019 - 14:30

Voltei depois de um certo distanciamento mas foi difícil voltar dessa vez. 

Houve dias em que penseique se eu voltasse, viria rasa demais, superficial demais, sobrariam amenidades. 

Vocês já me conhecem o bastante para saber que não sou dada a conversas superficiais.

Serei direta. 

Não vim antes porque estava tudo bem. Tudo aparentemente bem. 

Medos apaziguados pela luz radiante do verão. Confusões adormecidas dentro dos armários junto as roupas de frio, escondidas nessa estação.

Dias em que olhei apenas para o presente ou, quando não estava satisfeita, espiei o futuro. 

Sabe, depositei planos lá, no futuro. Isso me levava para frente.

Foram dias em que, acredite, não olhei pra trás. Nada, absolutamente nada no pretérito era sedutor. Tesão pelo futuro define bem minha ausência. 

Porém, sempre soube durante esse tempo que algo ou alguém poderia me trazer de volta. 

Algo de fora ou de dentro de mim. Outro alguém ou um 'alguém outro', desses tantos que sou. Ou, até mesmo, um novo alguém que venho construindo e ainda não conheço. 

Sempre soube que a ida, todo o caminho de ida, é o caminho de volta feito de costas.

Por isso é complicado seguir em frente. A vista do presente é o passado.

Por isso eu sabia que voltaria. 

 

Pra ser sincera, embora meu silêncio tivesse atividade e felicidade, eu mesma desejei uma turbulência qualquer que me fizesse voltar.

Mas estou num lugar onde, mesmo querendo muito, as pessoas e as coisas não me afetam mais. 

Não como afetavam antes. 

Sim, eu ainda sinto muito todas as mazelas da vida e me comove de forma melancólica e profunda tudo o que retira a cor e o brilho dos dias. 

Ainda amo intensamente e a falta de alegria no outro não cai bem em mim. Nunca cairá. 

Mas estas perplexidades não criam mais raízes em mim. 

No solo da minha alma as tristezas não brotam mais. Não dão mais fruto e nem flor. 

Meus frutos e minhas flores de dentro são as flores do amor, da gentileza e da generosidade. Sou solo fértil pra estas sementes. Para as demais sou terra estéril. 

Por isso nada nem ninguém me parou. De fora não tive freios para minha paz.

O limite fui eu quem deu.

Eu me parei. 

Voltei a pensar da maneira clássica, aquela, antiga, só para ver o que me aconteceria.

Só que não é mais a mesma coisa. 

Uma única vida, vivida com consciência, é o suficiente. Não há necessidade de regressos. O que precisa ser feito você faz. Aprendi isso nesses dias.

E eu estou vivendo um conto de fadas. As vezes, acho que sou mesmo uma fada, a fada do meu próprio conto. 

Sou a Alice das maravilhas do país que eu construí. Um pais que é só meu, onde poucos podem entrar. 

Você não acredita em conto de fadas? 

É que para você não é possível viver feliz para sempre. 

Mas eu descobri que é. 

Porque meu conceito de felicidade mudou e enfrentar a vida ao lado de alguém, com tudo o que isso significa, para mim, hoje, isso é ser feliz. 

Então, enquanto eu estiver enfrentando a vida ao lado das pessoas que querem estar ao meu lado eu estarei sendo feliz pra sempre no meu conto de fadas, no meu pais das maravilhas.

Você deve estar pensando:

- Meu Deus ela regrediu, era para amadurecer, mas ela parece uma criança falando desse jeito.

Mas tente entender, eu tinha tanto medo de perder tantas coisas e tantas pessoas. Tanto medo...E eu deixei  todas as coisas que eu jamais queria perder e todas as pessoas que eu jamais queria que fossem embora, eu simplesmente deixei que fossem. Eu deixei e aceitei que fossem embora. 

Você não acha que isto é amadurecer? Eu fiquei apenas com o que ficou na minha vida e eu passei a curtir minha vida assim. 

Foi assim que eu a transformei num conto de fadas. Eu sou uma fada madura. Eu virei uma fada na maturidade, esta é a minha verdade, mesmo que ninguém queira perceber.

Outra coisa que me aconteceu nesses dias e que percebo agora, escrevendo, é que eu parei de questionar tudo. 

 

Eu olhava para as pessoas e as situações e logo uma pergunta qualquer começava a se construir na minha cabeça. E eu nem ouvia direito o que me falavam pois eu estava sempre muito preocupada em questionar tudo. 

Você não imagina o quanto todas aquelas perguntas que eu fazia o tempo todo roubavam minha paz. 

Pois justo eu que questionava tudo e vivia perguntando:

- Por que é assim? Para que serve isso que está acontecendo?

Eu que sacava os por quês e para quês a todo instante, hoje só me ocorre questionar a mim mesma sobre as lições que a vida repete. 

Nessas horas me questiono:

-Por que isto está me acontecendo novamente? 

Mas veja, não é uma pergunta destinada a alguém fora de mim.

É uma questão que eu mesma me proponho, para refletir. Uma pergunta que faço em pensamento ou com a voz baixa. Bem baixa...

 

Por que voltei então? 

Talvez tenha sentido saudade. 

Ou, talvez, pra lhe contar estas coisas todas. 

Ou, ainda, pra lhe dizer que essa sou eu agora. 

Não para lhe agradar, pois isso não me satisfaz mais. 

Acho que vim lhe dizer que consegui!

Eu sempre lutei para ser diferente e hoje posso lhe dizer que não faço mais parte do exército de iguais. 

Estou aqui sem máscaras, autêntica, verdadeira, o mais verdadeira que consigo ser. 

Sei que, bem no fundo, esperaram que eu pensasse por mim mesma ao invés de segui-lo ou de seguir quem quer que fosse.

Todos nós queremos ser diferentes.  Não quer que eu o siga ou o imite. 

 

Enfim...

Vim pra dizer que minhas questões - agora - eu as dirijo a mim mesma. 

Continuo aquela rebelde que vocês conhecem, só mudei o foco da rebeldia. 

Tem muito pensamento em forma de conceito antigo e ultrapassado dento da minha cabeça para eu questionar. 

Este é um exercício solitário e silencioso que tenho feito enquanto passeio no meu pais das maravilhas. Enquanto faço magias no meu conto de fadas.

Ser aceita ou não desse jeito não é um problema para mim, aliás, "o que pensam de nós não é problema nosso", não é mesmo?

Vim me expor para você.

Vim lhe mostrar quem sou agora.

Como sabemos "é difícil dizer quem sou pois você pode não gostar e isso é tudo o que eu tenho". (Alias, este é o título de um ótimo livro sabiam? Adorei tê-lo descoberto.)

Mas mesmo que doa - caso você não goste - quem mais eu poderia ser além de mim mesma?

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 08/01/2019 - 19:30Atualizado em 08/01/2019 - 19:31

Sinto prazer em falar de mim, da minha vida, das minhas coisas.

Talvez eu seja um pouco egocêntrica ou narcisista.
Mas, em tempos de redes sociais, quem nunca?

Não tenho problema em admitir isso.

Falar sobre meus dias e noites, meus relacionamentos e isolamentos, minha realidade e percepções, meus medos e coragens; personifica-me e faz com que eu veja a mim mesma como algo passível de ser transformado.

O que falo, modifica-se.

O que calo, consolida-se.

E nada em mim é para ser consolidado.

Sou um vir a ser.

 

Já falei de mim para outras pessoas, quaisquer pessoas.

Até bem pouco tempo falava para quem quisesse ouvir.

Atualmente estou mais reservada.

Escolho criteriosamente as pessoas para as quais vou falar.

Há vezes em que escolho os assuntos e as pessoas. 

Determinados assuntos falo para determinadas pessoas.

Aprendi que posso falar tudo para todos. Mas nem todos podem ouvir tudo o que falo.

Calar foi uma atitude de respeito para com estas pessoas e comigo mesma.

 

Já vivi momentos nos quais quis falar com alguém e não havia ninguém disponível a minha volta.

Mas isso não foi tão ruim.

Meus piores momentos foram aqueles nos quais me fechei, nos quais renunciei ao meu sagrado direito de compartilhar.

Quando isso acontece invariavelmente recorro a outras maneiras de me expressar.

Há vezes em que me expresso cuidando dos outros. Cuidando de mim: Organizando minha casa. Arrumando minhas coisas. Lendo. Assistindo a um filme. Caminhando por lugares desconhecidos. Saindo à rua e fotografando tudo o que desperta o meu interesse. Brincando com um animal de estimação. Tomando um café. Observando a vida da janela. Inventando algo. Fazendo um bolo. Fazendo a sobrancelha. Fazendo qualquer coisa que me faça consciente, presente.

Mas há vezes em que tudo é enfadonho e, quando isso ocorre, minha conexão com o mundo enfraquece.

São dias em que a vontade desaparece e eu preciso de muita força para realizar as minimas tarefas do cotidiano.

Sempre e somente quando volto a falar de mim, me expondo de alguma forma, sinto-me conectada ao mundo que me cerca.

E quando volto a falar de mim, não importa se estão todos ocupados demais e sem um minuto sequer para me ouvir.

Porque quando falo de mim eu estou presente, importo-me comigo e com meu bem estar e sou minha ouvinte mais atenta.

Em nenhum outro lugar e em nenhuma outra pessoa encontrei maior acolhimento do que em mim mesma.

 

Por isso escrevo. 

Escrevo para conversar comigo.

Escrevo para me sentir totalmente livre. 

Sem limite para a autenticidade, a  honestidade, a sinceridade, o desprendimento e a transparência.

Escrever é, acima de tudo, um gesto de confiança para com a pessoa que sou hoje.

E o que é melhor; só lê o que escrevo quem realmente quer saber o que eu penso.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 08/01/2019 - 19:16Atualizado em 08/01/2019 - 19:22

Noite dessas perdi o sono e depois de revirar na cama por um tempo pensando no piloto automático acreditei ter solucionado mentalmente um dos meus mais sérios problemas.
Resolvido o problema virei para o lado e dormi como um anjo.
Quando acordei e levantei da cama, sentia-me aliviada. 
Estava desobrigada de uma das mais difíceis tarefas diárias; sorrir e ser simpática com todos.
Eu não cumprimentaria mais ninguém por obrigação, somente se eu realmente sentisse vontade. 
Isso provocaria um efeito cascata, os outros deixariam de me cumprimentar também, então de quebra, poderia sair de casa vestida do jeito que desejasse.
Não me preocuparia mais com cabelos desgrenhados ou cara de sono no meio da manhã.
Mau humor não seria impedimento para sair à rua. 
Para todos os efeitos, agindo assim, eu seria aquela 'eterna mal humorada'. 
Diriam que sou o tipo de pessoa que vê e finge que não viu. Antipática.
E isso não me atormentaria pois seria a mais pura verdade.
Talvez ficasse com fama de esquisita.
Mas, os julgamentos, quais fossem, manifestados por olhares, palavras ou gestos só me motivariam a continuar de cara fechada.
Acabariam os bate papos vazios de significado na entrada e saída do trabalho, no elevador, nas filas.
Não pertenceria mais ao grupo que sai cumprimentando todos os que aparecem pela frente para fazer com que o seu dia e o do outro fique melhor.
Acabariam as canseiras no maxilar por sorrir demais apenas por educação.
Seria o fim da boca escancarada - que definitivamente não harmonizava comigo.
Meu rosto, sério, descansaria.

Perceberia quantos "Oi tudo bem! tudo! E você?", "Obrigada, não precisava", "Que lindo, adorei"; foram ditos sempre sorrindo desnecessariamente.
A canseira no maxilar teria me avisado que eu não poderia continuar assim. O corpo sempre fala.

A partir daquela manhã sorriria mais e melhor com os olhos, com as palavras, com o silêncio.
Sorriria assim, sem cessar e sem cansar.
Manteria meu sorriso raro, mesmo que eu sorrisse muitas vezes ao dia. Raro por ser verdadeiro. Raro por ter brotado do desejo de sorrir.
E não sentiria a menor falta de sorrir de outro jeito.
Estaria cada vez mais a vontade com quem realmente sou, com minha essência.
Porque simpatia forçada é reflexo do cuidado com a aparência. 
Simpatia forçada não é reflexo de cuidado com a essência.

Agiria assim até o dia em que sentisse novamente vontade de agradar.
Até ser possuída outra vez pela necessidade de ser simpática.
Até desejar novamente um espelho para meu sorriso, em outro rosto, conhecido ou desconhecido.

Mas...não foi uma resolução de insônia.
Foi apenas um sonho.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 12/12/2018 - 18:35Atualizado em 12/12/2018 - 18:35

"Esse seu peso nas costas pode ser as suas asas paradas."

Li essa frase em algum lugar e lembrei de um sonho recorrente no qual eu podia voar.
E eu voava. 
Ah! Como eu voava.
Bastava querer e, depois, deixar que os pés se elevassem do chão num delicado impulso inicial.
Então eu subia bem alto.
Lá de cima olhava os prédios, as casas, as arvores, as pessoas; tudo se distanciando.
Tudo ficando cada vez menor.
Quando não enxergava mais nada além da imensidão azul eu descia num mergulho.
Mantinha os braços estendidos junto ao meu corpo. 
Podia abri-los se quisesse mas só o fazia quando queria brincar que meus braços eram asas. 
Com os braços abertos eu dava rasantes sobre as ruas e as praças.
Brincalhona, subia um pouco e depois descia ainda mais perto do solo. 
Quase tocava nas pessoas. 
Sobrevoava os lugares flutuando devagar, sem pressa alguma. 
Eu era pura contemplação e sensação.
Para aterrizar eu só precisava querer e depois me colocar em posição vertical. 
Descia como uma pluma e meus pés tocavam o chão tão macio e levemente que eu custava a perceber que já estava  caminhando outra vez.

Sonhei muitas vezes que estava  voando.
Este foi, sem dúvida, o meu melhor sonho.
A sensação era tão boa e intensa que, confesso, tentei voar acordada.
Teoricamente eu sabia o que fazer.
Eu só precisava praticar. 
E acreditar.
E eu acreditava.
Mas não foi o suficiente. 
Acordada eu nunca experimentei a sensação de voar.

Sinto saudade desse sonho. 
Faz tempo que não voo.
Já faz tanto tempo que começo a esquecer como era.
Mas ainda acredito.
E durmo.
Então, tenho esperança de voltar a sonhar que estou voando.

E o que poderia significar esse sonho no qual voamos?
Eu penso que nosso lugar não é onde decolamos.
Também não é onde aterrizamos.
Penso que não temos um único lugar, o qual podemos chamar de 'nosso'!
Acredito que é em pleno voo que nos sentimos em casa.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 07/12/2018 - 16:16Atualizado em 07/12/2018 - 16:18

A vida sem as redes sociais me revelou que há vida sem elas.

Fiz a experiência; fiquei sessenta e quatro dias abstinente, limpa, com as contas devidamente encerrada.

Contei os dias como um adicto: só por hoje, um dia de cada vez.

No tempo fora das redes, achei que brincaria mais com minha filha pequena, conversaria mais com minha filha mais velha, namoraria mais meu marido, curtiria mais o meu cãozinho.

Achei que iria ler mais livros, caminhar mais, sentar mais vezes na varanda e olhar mais o céu.

Achei que assistiria os bons programas nos canais da TV fechada.

Achei que veria mais filmes. Exploraria mais a cidade. Teria mais disciplina. Manteria tudo ao meu redor mais organizado. Achei que funcionaria noutro ritmo.

No entanto, a mais sedutora das idéias que eu tinha sobre a vida sem redes sociais, era a de que eu encontraria mais todos aqueles amigos com quem há tanto tempo só me relacionava virtualmente.

 

O que realmente aconteceu foi que nada disso aconteceu. Continuei fazendo tudo do mesmo jeito que fazia antes.

 

Eu relaxei, sem duvida. Dormi bem e mais. Porque, para mim, os avisos de atualizações, comentários e curtições dos amigos eram despertadores ininterruptos do meu descanso e sono.

Escrevi mais também. Porque tudo o que não pude compartilhar através de fotos me senti compelida a descrever em palavras.

Por outro lado, perdi a vontade de registrar a vida através de fotografias. E senti falta desta vontade.

Aceitei - a despeito do que pensa toda aquela gente sobre meus registros fotográficos - que eu fico feliz em fotografar e compartilhar.

Percebi que dias bons são bons com ou sem as redes sociais. Dias ruins também.

Obviamente as relações com as redes se dão das mais diferentes formas.

Para mim elas são um amigo inespecífico. Não sei seu nome e não o conheço bem. Mas sei que existe. 

Como acontece com todo e qualquer amigo, ele me traz alegrias e frustrações.

E eu senti falta deste amigo que podia ser o Fulano, o Beltrano, o Cicrano. 

Ou um holograma feito a partir da combinação deles todos.

 

Depois de sessenta e quatro dias voltei para as redes sociais porque conclui que elas  estavam mais para uma rede de apoio do que para um vício. Por precaução, apenas desativei a notificação de atualizações.

Esta conexão permanente na qual, a qualquer momento, podemos manifestar nossos sentimentos, para mim, funciona como um grupo de ajuda. 

Nas redes sociais, assim como em qualquer outro grupo de ajuda, o que nos une é o vício. 

Mas assim como em qualquer outro grupo, todos temos histórias a compartilhar.

E através de nossa participação podemos ajudar e receber ajuda.


E pra você: há vida sem as redes sociais?

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 29/11/2018 - 16:58Atualizado em 29/11/2018 - 17:02
Com a proximidade do final do ano letivo pais e filhos se envolvem diretamente com a questão da aprovação e reprovação.
Nessa época alguns pais folgam em saber que seus filhos já estão aprovados. 
Estes alunos foram aprovados diariamente no decorrer do ano letivo, pois sabe-se que aprovação não é apenas a nota da média final. 
Aprovação, neste caso, é o reconhecimento da escola, da família e da sociedade na forma de elogios e incentivo pelo desempenho do aluno.
Mas muitos pais ainda anseiam pela nota que dirá se seu filho foi aprovado ou reprovado.
 
Entende-se que o aluno saudável do ponto de vista físico e psicológico é livre para decidir, a cada dia, como vai enfrentar os desafios escolares.
Livre para decidir de que forma vai se comportar diariamente na escola.
Sim, os alunos são diferentes. Não há dois alunos iguais e existem, também, diferentes tipos de inteligência.
E sim, via de regra, a escola está organizada para acolher e avaliar o aluno com mais facilidade na inteligência lógico-matemática.
Porém, muitos alunos com a referida facilidade não tem um comportamento necessário para o bom aproveitamento desta organização escolar.
Outros, carecem desta facilidade mas compensam esta carência com dedicação, disciplina, empenho, esforço, atenção nas aulas, execução das tarefas e muito estudo.
Há diferentes combinações entre perfil e comportamento de alunos. Por exemplo:
Alunos com dificuldade de aprendizagem e comportamento relapso ou rebelde e alunos com facilidade de aprendizagem e comportamento exemplar - em termos de aproveitamento escolar.
No final do ano letivo todos querem ser aprovados.
Para a grande maioria, a aprovação virá.
Mas virá de diferentes maneiras para os diferentes tipos de alunos.
Enquanto uns folgam em saber que já estão aprovados, outros esperam ansiosamente pela aprovação fazendo cálculos mentais mirabolantes, contando com décimos daqui e dali que lhes ajudarão a conseguir a nota suficiente para escaparem dos exames finais.
Há os que sabem antecipadamente que farão os exames e investem todos seus esforços para conseguirem, nessa etapa, a aprovação que não buscaram ou não conseguiram durante o ano todo.
Não importa como a aprovação virá, ela é sempre vista como uma premiação.
A reprovação, por sua vez, é recebida como punição.
Dificilmente ela é aceita pelo aluno como consequência de suas escolhas.
 
Buscamos a aprovação em quase tudo que fazemos. 
Ninguém gosta de ser reprovado. 
Fazemos escolhas e optamos por determinados comportamentos mas, quando somos reprovados pelos mesmos, passamos a questioná-los.
A reprovação externa nos leva a questionar nossa  auto-aprovação – que é um processo interno.
A reprovação escolar, quando acontece, não tem outro sentido a não ser o de levar todos os envolvidos no processo ensino-aprendizagem a refletirem sobre suas ações.
Os pais, a escola e a sociedade também são passíveis de aprovação ou reprovação.
Mas, em última análise, este processo pertence ao aluno e diz respeito a sua própria vida.
Nesse sentido, aprovação ou reprovação são sinalizadores da caminhada indicando o momento de comemorar ou refletir sobre estratégias de recomeço.
  
Ansiando pela aprovação dos filhos ou temendo sua reprovação os pais cobram excessivamente um bom rendimento escolar.
Mas muitos esquecem de facilitar a autonomia e a responsabilidade que levará seus filhos a caminharem sozinhos. 
A autonomia e a responsabilidade leva os filhos a arcar com as consequencias de suas escolhas.
Quando o aluno se responsabiliza por suas escolhas ele tem a autocobrança necessária e suficiente para administrar as variações das notas escolares buscando um equilíbrio no seu desempenho que o leva a aprovar-se, além de receber aprovação externa.
Este período de provas, recuperações e exames finais desperta esta autocobrança em quase todos os alunos. 
Não tenham pena, queridos pais.
Esta é a ideia.
Que cada vez mais nossos filhos sejam responsáveis por suas escolhas e pelas consequências das mesmas em suas vidas.
 
 
Artigo escrito para o Jornal A Tribuna 
Grayce Guglielmi Balod
Pedagoga e Psicóloga
Especialista em Orientação Profissional

 

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 19/11/2018 - 20:38Atualizado em 19/11/2018 - 20:44

Pra quem tem medo de viajar de avião, pior do que uma noite de insônia somente a noite de insônia que antecede uma viagem de avião.
A pessoa insone, com medo de avião, prestes a embarcar, tem a frente uma combinação indigesta.
Dá náuseas.

Medo de avião é caso perdido.
A gente trata. Melhora. Piora. Até que estabiliza.
Resta-nos conviver com ele.
É a luta entre a nossa fraca racionalidade e o turbilhão de emoções que, oportunamente, nos invade. Porque viagens de avião são emocionantes.
O voo nos deixa em suspenso. Tira os pés do chão. Leva aos céus.
A razão fica em desvantagem diante do turbilhonamento emocional.
Voar sempre nos chacoalha, mesmo quando não há turbulência.
É a vida expondo o risco de morte.
Sim. Viver tem risco de morte.

Por outro lado, voar é pura poesia.
Ou seria, se nós relaxassemos.
Na impossibilidade de relaxar, sempre renovamos a promessa de nunca mais estar a bordo.
Voando vivemos um reveillon intenso, cheio de promessas de aproveitar cada segundo da vida com os pés no chão.
O nosso ano novo é o pouso.

Mas com os pés no chão acabamos esquecendo as promessas.
Até que uma nova viagem de avião nos lembra de cada uma delas.

Sabemos que o risco de morte também está na viagem de carro. 
No despretensioso passeio a pé. 
Nos exames de rotina. 
Na própria rotina.
Mas no chão, a razão, tão sem emoção, não nos convence disso.
E a vida passa sem que o medo de perdê-la nos assuste.
E a urgência de vivê-la adormece.
Até que surge uma nova e necessária viagem de avião.
Lá vamos nós de novo, decolar, tirar os pés do chão.
Olhar a lua lá do alto. 
Ver o sol da vista mais bonita. 
Enxergar as nuvens - que coisa maluca - olhando para baixo.
Ver tudo de um outro ponto de vista. 
Mudar as perspectivas.
Entrar em estado de alerta.

É nas viagens de avião que a vida assume o comando.
E nos põe no devido lugar.
E nos mostra que tudo o que há para fazer é relaxar e curtir a vista.
Porque nada está sob nosso controle.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 09/11/2018 - 00:00Atualizado em 09/11/2018 - 00:03

Observo que fica ofegante ao caminhar morro acima. Digo à ela que precisa se exercitar mais, fazer uma atividade física regularmente.

Seu medo de elevador me incomoda. Explico-lhe, como a uma criança, que não há o que temer. Mostro-lhe o que fazer caso fiquemos presas dentro dele.

Penso que sua organização é bagunçada e me antecipo em por no lugar o que tirou e tirar o que colocou.

Ela fala quando quero me concentrar. Fala quando quero ouvir outras falas. Ela fala em muitos momentos inapropriados, penso eu. Eu peço que espere, que tenha um pouco de paciência.

Ouço quando faz uma ligação para um irmão querido. Parece-me um monólogo, rápido, sem pausas, quase que sem tempo para respirar. Imito-a para que se ouça. Peço, sarcasticamente, que respire, tome um copo de água e ligue novamente para ouvir o que seu irmão tem a lhe dizer. Ela ri.

Olho para a foto que tiramos juntas e comento que a raiz de seu cabelo está entregando a verdadeira cor dos mesmos. 

Vejo que manda e pede notícias com muita frequência para o marido, filhos e netos. Digo-lhe que relaxe e deixe que eles a procurem.

Ela dá muitas voltas para me fazer um pedido. Sugiro que seja objetiva e diga o que quer exatamente, sem rodeios, dando-me o direito de responder sim ou não.

Salta-me aos olhos suas aflições, sua ansiedade, sua insegurança, seus medos, suas preocupações.

Vou dormir um pouco depois dela e acordo um pouco depois dela também. Se ajustássemos nossos horários, dormiríamos e acordaríamos na mesma hora. Temos necessidade da mesma quantidade de horas de sono. Nisso nós somos iguais.

Pela manhã e a tarde ela me observa.

A noite ela quebra o silêncio com uma afirmação serena e segura. Ela diz que meu dia é cheio e que eu ainda não me dei conta disso. Acrescenta, ainda, que educar os filhos, administrar uma casa, cuidar dos bichos de estimação, trabalhar e estudar é o suficiente.

Eu a ouço atentamente. 

Então eu a vejo e me vejo.

E me dou conta de que sou eu que preciso me exercitar mais. Que não tenho porque temer o elevador. Que minha bagunça é organizada e minha organização é bagunçada. Que sou tagarela. Que meus pensamentos atropelam minhas palavras quando quero expor meus sentimentos a alguém querido. Que está na hora de me decidir quanto ao que fazer com meus cabelos brancos. Que preciso ser mais objetiva. Que preciso dar espaço para que sintam minha falta. E que gostaria de dormir um pouco mais cedo para acordar um pouco mais cedo também.

Eu  imito seus comportamentos. Justamente os que menos gosto. E peço a ela que mude em si aquilo que eu quero mudar em mim.

Mas quando ela fala com propriedade e sapiência sobre mim eu simplesmente me calo e desfruto da paz de espírito advinda de ter o reconhecimento da pessoa na qual sempre me espelhei.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 28/10/2018 - 11:48Atualizado em 28/10/2018 - 11:52

Um a um sucumbirão todos os nossos ídolos.
Frequentemente repetimos - menos para os outros e mais para nós mesmos - sobre a necessidade de distinguir o autor de sua obra. Porque o autor é gente, não é mesmo? O autor tem defeitos!
Por muito tempo, porém, idolatramos pessoas, simples mortais, reverenciando-os como gênios, iluminados ou abençoados de forma privilegiada.
De alguns nos aproximamos numa tentativa inglória de sentir sua vibração e nos beneficiarmos do contato com sua energia. 
De outros nos distanciamos, reverenciando-os de longe como compete ao bom admirador.
Por ter sido fiel a cada um dos nossos ídolos, não tivemos muitos. 
Um roqueiro, uma modelo, um ator, uma professora, um psicólogo, uma psiquiatra, um grande profissional, uma bailarina, um poeta, uma atleta, um pesquisador, uma filósofa, ou, nesses últimos tempos, um presidenciável.
Por perceber como transcendiam os limites do humano naquilo que faziam, nós os tornamos deuses. Idolatramo-os.
Mas a fidelidade caminha lado a lado com o tempo. E o tempo reapresenta-nos a cada um dos nossos ídolos. Então nós os vemos como seres humanos que são. 
Encontrei meu último ídolo, a quem eu idolatrava por sua disciplina e equilibrio, fazendo seu lanche da tarde duas vezes consecutivas. Entre empadinhas e vidros de conservas sua perfeição diluiu-se no pecado da gula.
Foi só um detalhe, uma simples 'jacada' da parte dele mas, para mim, foi o suficiente.
Não tenho mais nenhum ídolo. Um a um sucumbiram todos!
A questão principal a que devemos nos deter não são os ídolos, é a nossa idolatria, esta coisa de querer ser o que não somos: perfeitos. Não somos perfeitos, ninguém é!
Sigamos curtindo o som, contemplando o belo, admirando atuações, lendo os livros, assistindo as aulas, buscando o auto-conhecimento, respeitando a dedicação e a disciplina, flutuando com a dança, trascendendo-nos na poesia, torcendo pela cura de todas as doenças e pelo crescimento existencial e a felicidade. Torcendo pelo Brasil. 
Sem idolatria.
Estaremos melhor assim.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 23/10/2018 - 17:09Atualizado em 23/10/2018 - 17:21

Querida leitora
É de nossa inteira responsabilidade iluminar os trechos de escuridão de nossas caminhadas.
Temos os nossos momentos. 
Momentos bons e ruins. Momentos muito bons e muito ruins.
Me refiro a momentos exclusivamente nossos. 
Vividos sozinha. Testemunhados somente por Deus.
Precisamos aprender a vivenciar os bons e maus momentos sem deixar que eles comprometam o andamento das nossas vidas.
Mas não é fácil administrar bem a intensidade dos momentos muito bons e dos momentos muito ruins.
São situações em que nos sentimos jogadas a extremos, sem controle das nossas emoções, ao sabor do vento. Do vendaval, eu diria.
Precisamos aprender a nos proteger. 
Enxergar onde podemos nos agarrar, do que e como devemos desviar, quando devemos fechar os olhos, tapar os ouvidos e calar a voz.
E aprender a dialogar com nós mesmas no meio destes vendavais.
- O que eu posso fazer por mim agora?
Perguntar. Responder. E fazer. 
E, o que quer que  façamos, sempre ajuda. 
Então iluminamos a escuridão da tempestade.

É típico de nós, mulheres, ficar feliz por muito pouco. 
E infeliz por muito pouco também.
Pequenos gestos, perdidos na imensidão das interações humanas diárias, não nos passam despercebidos.
Nos alegramos por coisas que ninguém mais vê e nos entristecemos por coisas que só nós enxergamos também.
Lembro sempre de algo que li: "A arte de ser sábio é saber o que ignorar."
Para nós é complicado pois nascemos dotadas da capacidade de ver o invisível - ou adquirimos esta capacidade ao longo de nossas vidas.
E, no invisível, há o bem e o mal. Há anjos e demônios.
É um dom. E se nos descuidarmos, pode ser um castigo.
Querida leitora, nosso chão é a corda bamba e precisamos, necessariamente, desenvolver o equilíbrio para podermos caminhar.
Sabedoria para nós não é um luxo, é uma necessidade.
Sabedoria é a luz que nos guia.
Por que saliento a importância de iluminarmos nossas vidas?
Porque nós que sentimos tanto temos um ego bastante inflado!
Oscilamos entre a satisfação por recebermos a valorização que merecemos e a insatisfação por estarmos sendo injustiçadas.
E o mundo, de fato, não gira ao nosso redor.
Mas, as vezes, esquecemos disso.
O egocentrismo nos faz andar em círculos.
Nós somos egocêntricas quando somos ingratas.
Percebam como o ego se encolhe quando a gratidão cresce.
Deveríamos viver em estado de gratidão.
Fizemos coisas erradas das quais nos arrependemos pois, mesmo sabendo-as erradas, nós as fizemos. E fomos perdoadas.
Fomos acolhidas no nosso desespero.
Fomos agraciadas com a companhia de almas que nós mesmas teriamos escolhido para viverem ao nosso lado.
Tivemos novas chances depois de tê-las desperdiçado.
Vemos milagres todos os dias. Só não vê quem não quer!
Compreenda os sinais e saiba para onde ir!
Em mais de uma circunstância fomos salvas.
Nossas preces, hoje, devem ser somente de gratidão e perdão.
Gratidão é não insistir com o que nos tira o equilíbrio. Seja bom ou mau, maravilhoso ou horrível o momento.
Gratidão é parar de cultivar incomodações.
Gratidão é saber que não perdemos o que nunca tivemos. Não mantemos o que não é nosso.
Gratidão é luz!

Busque a luz querida leitora!
Entenda luz como desejar.
Converse consigo no meio dos vendavais.
Pergunte. Responda. E faça.
Durma, tome um banho, ajude alguém. Lave a louça, se só houver isso para fazer.
Ou saia caminhando.
Pare em frente a um cinema e olhe os filmes em cartaz. 
Continue caminhando e pare novamente, em frente a um salão de beleza talvez... 
Entre, faça luzes no cabelo.
Saia iluminada.
Talvez você perceba que estava faltando LUZ nos seus cabelos. 
Tudo bem não ter percebido antes.
Seja grata por ter descoberto.
No final, o momento que era muito ruim, iluminou seu cabelo, sua cabeça e seu coração.
Luz, querida leitora, nem que seja nos cabelos!

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 17/10/2018 - 17:38Atualizado em 17/10/2018 - 17:43

Se há algo que nós mulheres aprendemos com a maturidade é que a vida é uma infinidade de possibilidades.
Muitas de nossas inseguranças derivam dessa consciência.
São muitas escolhas a fazer.
Não é fácil posar de mulher decidida.
Não é fácil viver no piloto automático, uma vida disciplinada e com rotinas auto-impostas.
Não é fácil ter a capacidade de não pensar. De fazer.
Quantas vezes já criamos nossas rotinas e até nos empolgamos no início.
Mas é sintomático: em dois tempos lá estamos nós novamente refletindo sobre os motivos para continuar...ou parar...
Quantas pessoas já nos disseram:
- Tu não podes pensar, tens que fazer.
E, às vezes, perdidas em nossos pensamentos não encontramos uma resposta, uma saída.

Mas querida leitora, ninguém fica sem saída enquanto houver vida.
Por isso hoje quero chamar a sua atenção para o problema da repressão.
Somos muito reprimidas. 
E o que é pior, nós mesmas nos reprimimos.
Então temos essa falsa sensação de não ter, ou não saber, o que temos para fazer.

Por isso sou uma admiradora das corredoras peladas de Porto Alegre (lembram delas? mulheres que há alguns anos foram notícia em todo o Brasil porque, uma após outra, foram pegas correndo peladas pelas ruas da cidade).
Tudo bem, não pode. 
Eu não correria pelada.
E sugiro que você não faça isso também.
Mas elas representam muitas de nós.
Não pelo ato em si, mas porque fizeram.
Tiveram coragem.
Quantas de nós já tivemos vontade de sair correndo peladas em situações que simplesmente não sabíamos mais o que fazer!
Conheço distintas senhoras que já tiveram vontade de sair correndo peladas também.
Sei porque elas me contaram,trocamos idéias, rimos, fomos cúmplices de uma vontade proibida em comum.
Elas me confidenciaram o desejo como uma carta na manga, um segredo, uma saída proibida para ser cogitada no desespero.
Sair correndo pelada seria a cartada final. 
Algumas senhoras tinham até vontade de gritar enquanto corriam peladas.
E o que isso simboliza?
Tirar a roupa seria como se livrar de tudo. 
Correr seria como deixar tudo pra trás. 
Correr pelada, nós sabemos, é um grito de liberdade.

Desconheço as razões das corredoras peladas.
Mas elas representam muitas mulheres.

Seria tão bom se toda mulher tivesse alguém de sua confiança que lhe dissesse o que ela deve fazer quando ela não tem a menor ideia do que fazer.
Alguém que arriscasse um palpite, uma sugestão de ação.
Nem que fosse para a mulher se rebelar contra o palpite. 
E fazer qualquer outra coisa.
Porque a verdade é que há momentos em que não temos a menor ideia do que devemos fazer.

Num momento como esse tive a sorte de conversar com alguém que me levou a pensar sobre o meu gosto pela escrita  - que me acompanha desde criança quando ainda escrevia em meus diários.
Para cada mulher que não sabe o que pode ou deve fazer em certos momentos da vida, eu desejo alguém que a lembre de sua essência e resgate, de sua história de vida, algo que lhe traga alívio.
E desejo que nós, mulheres, deixemos as repressões e opressões para trás e sigamos em frente, cada dia um pouco mais livres de nossas amarras.


Eu acredito que quem pode se dar ao luxo de dizer "É isso que sou, é pegar ou largar!" já viveu um bocado. 
Quem avisa que "é pegar ou largar" conhece bem suas limitações. 
E provavelmente passa seus dias tentando vencer a si mesmo
As mulheres corredoras peladas gritaram para quem quisesse ouvir:
- É isso que eu sou! É pegar ou lagar.
Evidentemente foram pegas. E presas. E, consequentemente, largadas a própria sorte.
Mas, antes, foram livres.
Metaforicamente falando corremos peladas a cada superação de desilusões. A cada superação de decepções. A cada superação de desespero.
Corremos peladas todas as vezes que nos damos conta que nos abreviaram (ou nós mesmas nos abreviamos)  a um único papel existencial - seja o de profissional, de mãe, de dona de casa, de esposa, ou, o pior de todos os papéis, o de incapaz.
Que nós possamos simplesmente tirar a roupa que nos vestem (ou que nós mesmas vestimos) e sair correndo.
Para depois nos reencontrar com todas as nossas questões existenciais novamente.
Porém, desta vez, novas, zeradas, nuas de abreviações, opressões e repressões.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 09/10/2018 - 17:23Atualizado em 09/10/2018 - 17:30

Querida leitora
Eu quero, com a minha participação na Campanha Viva Mais do Outubro Rosa, alertar para a importância dos cuidados com a saúde psicológica e emocional da mulher. 
Nós não somos apenas nosso corpo, por isso, os cuidados com a mente, os pensamentos, os sentimentos e as emoções são muito importantes, tanto na prevenção quanto no combate ao câncer de mama.
Me perguntam: O que eu posso fazer para me cuidar emocionalmente? Como eu posso me ajudar? O que pode me salvar?
Respondo: Faça, com carinho, com presença, as coisas simples, essas que na correria da vida deixamos pra lá ou fazemos apenas por fazer.

Entregue-se ao sabor da vitória ou ao amargo da derrota quando elas vierem.
Não entre em lutas inglórias que não a levarão a lugar nenhum e que a machucarão.
Renda-se quando for preciso e sua salvação aparecerá por todo o lado.
No sorriso de sua filha caçula.
Nas noticias de sua filha mais velha.
No carinho do seu companheiro. 
A família que você formou a salvará, sua família de origem a salvará. Todas as famílias que a acolhem a salvarão.


Conversar com seus irmãos a salva.
Estar com seus sobrinhos a salva.
Divagar com sua prima a salva.
Brincar com seu cãozinho ou com seu gatinho a salva.
Sua salvação está ali na janela aberta mostrando a lua.
Na rede esperando na varanda.
No banho demorado e revigorante.
Nos livros que pode ler.
Nas músicas que pode ouvir.
Na cama em que descansa.
No sofá onde se entrega à preguiça.
No banco da praça sempre a esperando.
No parque onde pode brincar.
No sol se pondo no rio, no mar, na serra...
Em tudo o que pode ouvir.
Em tudo o que pode dizer.
E então uma terapia a salva.
Suas aulas a salvam, essas para a qual você retornou agora que está na meia idade.
As flores  salvam.
Fotografias salvam.
Gentilezas salvam.
Solidariedade  salva.
Visitas de amigos queridos salvam.
Ficar em casa salva.
Vencer a preguiça salva.
Sair à rua salva.
Caminhar sem pressa salva.
Levar seu filho ou seu neto à escola salva.
Buscá-lo salva.
Reconhecer seus verdadeiros amigos a salva.
Esperar pelo momento de ter seu neto em seus braços a salva.
Perdoar salva.
Ser perdoada salva.
Amar salva.
Ser amada salva.
Ter coragem salva.
Continuar, sobretudo, é o que nos salva.
Nossa salvação está na fé que temos e que não conseguimos explicar.


Cuide do seu espírito, da sua mente e das suas emoções assim como nos ensinaram a cuidar de nosso corpo.
E não esqueça, o que nos salva é o amor e a gratidão pelas coisas mais simples dessa vida.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 02/10/2018 - 16:22Atualizado em 02/10/2018 - 16:29

"É hoje!"

Chegou o dia da mulher fazer os exames ginecológicos anuais.

Ultrassonografia transvaginal, ultrassonografia abdominal total, radiografia das mamas e mamografia.

Um dia, apenas um dia por ano dedicado aos cuidados com nossa saúde.

E justamente nesse dia parece que dá tudo errado. 

Levanta da cama e colide com a bicicleta que 'estacionou' no seu quarto. Escova os dentes e quando vai fazer o bochecho, sente uma dor rápida e aguda nos mesmos. Precisa manter-se em jejum e de bexiga cheia para realizar os exames médicos e, justamente neste dia, perde o sono cedo demais. 

Sai de casa atrapalhada e, lá fora, percebe que está chovendo. Volta e pega a sua sombrinha. Tem a sensação de estar carregando muita coisa e não estar levando o principal. 

No caminho pensa, tentando lembrar do que teria esquecido. Sua mente está confusa e lembra de muitas coisas que tem pra fazer, menos do que teria esquecido. Chega no horário marcado ao local onde fará os exames. Mas ´só ela foi pontual, todos de quem ela depende a partir de agora, estão atrasados. 

Enquanto espera, abre o jornal na parte dos classificados e, atentamente, analisa as vagas de emprego. Depois de um tempo procurando, encontra uma vaga interessante a qual quer, no mínimo, circular para não perder de vista. Neste exato momento é chamada para passar à próxima sala. 

Pedem que tire a roupa e vista um avental descartável. Na minúscula cabine em que se encontra ela tenta organizar tudo o que tem em mãos. Coloca sua sombrinha no chão e pendura sua bolsa e roupas no cabide. Quando vai pegar o avental sua blusa cai sobre a poça d'água que a sombrinha formou. A blusa é branca e está encharcada. Ela racionaliza: como fará para voltar para casa com a blusa deste jeito? Na sua cabeça, os problemas para resolver parecem não ter fim. Agora, ela precisa lembrar do que esqueceu e, ainda, encontrar uma solução para o problema da blusa. 

Ao sair da cabine recebe a chave de um armário onde deve deixar seus pertences. Está confusa e não sabe como organizar tudo no pequeno armário: o jornal, sua bolsa, a pasta com os exames anteriores e a roupa - molhada. Antes que termine sua organização, é chamada para iniciar os exames. Ela respira aliviada: esvaziará sua bexiga. Mas é informada que o médico atrasou e por esta razão fará todos os exames porém este - para o qual a bexiga deve estar cheia - ficará por último. 

Bravamente passa pela bateria de exames e é liberada. Volta para o armário e descobre que organizou seus pertences da pior forma. Sua blusa branca, agora, além de molhada está manchada com as cores do jornal. Veste-a assim mesmo e volta para casa. 

Está muito atrasada e não almoça.  Segue direto para seus compromissos da tarde. Eles exigem que esteja atenta e ela dá o melhor de si. Mas a sensação de que esqueceu algo e tem coisas urgentes para resolver continua. 

Será que deve marcar horário na dentista? - ela pensa. Liga e agenda um horário. 

No seu intervalo decide fazer uma  lista com tudo o que está pendente. Quer ver no papel, diante de seus olhos, o que pode estar lhe deixando assim confusa. Rapidamente escreve cinco itens. Mas não sente nenhum alívio. Toma um café rapidamente e lembra-se de mais dois itens. Talvez, só depois de resolvê-los se sentirá mais organizada, ela pensa. Segue com seus compromissos até que finalmente volta para casa, ávida por descobrir o que está lhe incomodando. Está cansada mas faz cinco dos sete itens que enumerou. Ainda assim está com aquela sensação de que esqueceu algo e de que tem muita coisa para fazer. 

O sono e o cansaço lhe vencem e determinam o fim do seu dia. 

Na manhã seguinte acorda pronta para iniciar sua rotina novamente. Logo percebe que este dia tambem não seguirá a rotina costumeira. Assim como no dia anterior precisará fazer algumas coisas que normalmente não faz - e deixar de fazer algumas outras que sempre faz- em função das responsabilidades que assumiu para hoje. 

Então começa a entender porque tinha a sensação de tantas coisas para fazer. Ela queria pôr tudo no lugar pois não suporta alterações na sua rotina. 
Por isso adiou tanto o auto-exame e os exames de rotina, porque podem indicar alterações que lhe colocarão diante do novo e, inevitavelmente, terá que lidar com isso.

Finalmente descobre do que estava esquecendo. Estava esquecendo de relaxar, de seguir o fluxo natural dos acontecimentos. 

Mas... Só para se certificar de que é isto mesmo, resolve organizar sua bolsa. Não satisfeita, ainda dá uma geral em sua carteira, jogando fora papéis inúteis e colocando tudo no seu devido lugar. Mas percebe que também não era isso o que estava faltando. 

Então, aceita que quer controlar tudo mas, definitivamente, não pode. 

Ainda assim, procura o papel onde estão escritos os dois itens pendentes, mas não o encontra. 

O dia segue e no seu intervalo de trabalho senta calmamente e pede um café. 

Pensa alto: - O que ainda tenho para fazer mesmo? 

Mas isto não é mais tão importante. 

O mais importante já está feito; seus exames preventivos.

Agora está em dia consigo mesma. Não há mais nada de urgente para fazer. 

Importante mesmo é saborear seu café.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 24/09/2018 - 16:32Atualizado em 24/09/2018 - 17:02

Para muitos  o luto é tragicômico.

Mas não precisa ser assim.

Isso só acontece quando nos descuidamos, quando subestimamos seu poder.

O luto dói porque é um processo onde a mudança é explícita.

Não há como negar, como disfarçar, nem como fugir dela.

O luto, comumente associado a MORTE é, na verdade, o processo de VIDA mais intenso pelo qual alguém pode passar.

O luto é o aprendizado vital de que nada permanece, tudo muda, inclusive o quê ou quem você mais ama nessa vida.

No dia a dia a gente finge que não vê. Finge que não sabe disso. 

Podemos passar anos convivendo com algo ou alguém que não é mais o que era e podemos seguir acreditando que tudo continua igual.

No luto não.

A ausência de quem partiu impõe o reconhecimento da mudança e transforma tudo e todos ao redor.

É como se retirassem toda a mobília de sua casa, deixando só as paredes, sem sua permissão. 

Você terá que começar de novo. 

Terá que repensar prioridades.

Terá que refletir se a máquina de lavar louça era realmente necessária. 

Se as paredes terão quadros desta vez. 

Se os móveis serão sob medida. 

Você terá, inclusive, que analisar considerando suas condições, se pode começar a mobiliar novamente agora ou se precisará viver um tempo com todo o espaço vazio ao seu redor.

E mesmo que você decida repor tudo exatamente do jeito que era imediatamente, você descobre que nada, nunca mais será como antes.

E quando a pessoa que morreu é alguem da sua família, alguem que você ama muito?

Se foi seu pai que morreu, você estranhará sua mãe. 

Se foi sua mãe, estranhará seu pai. 

Se foi seu filho, estranhará a si mesmo.

Seus irmãos se tornarão estranhamente humanos, algo para além de apenas seus irmãos.

Seus primos  lhe parecerão inalcançáveis. 

Seu namorado/marido não caberá mais no  papel de salvador.

Seus filhos ou sobrinhos crescerão e você tentará acompanhar mas será como  tentar acompanhar o movimento de uma montanha russa.

Você ficara tonto e confuso e, as vezes, sem forças.

Você se agarrará aos que ficaram e, sem que perceba, criará a expectativa de que sejam sua âncora de vida agora.

Então, ao menor movimento deles indicando mudanças, você se desespera. 

Como e porque motivo aconteceria de novo? 

Por que algo ou alguém ousaria sair da inercia agora?

Você não pode acompanhar, não suporta mais mudanças. 

Quer que a vida pare de girar tão rapidamente. 

Quer descer do carrossel. Não quer mais brincar!...

Mas, para quem quer aprender, o luto é o ensinamento mais profundo sobre o agora. 

Sobre a eternidade de um momento.

Você aprende que nada é. Tudo está. 

E você só supera o luto quando aprende que esse exato momento já não está mais.

 

A comédia do luto é querer assumir como suas, as características que são exclusivamente dele.

Você insiste em dizer: 

- Essa sou eu. Sempre tive dificuldade para dormir. Sempre gostei de ficar só.  Eu sempre esperei que nada mudasse.  Eu sou assim...

Mas era o seu orgulho que falava por você. 

É difícil admitir o quanto está doendo.

Admita o luto e ele quebra seu orgulho.

Nada é você. Você é nada. Você apenas está.

E, agora, está tentando compreender e aceitar seu papel na nova constituição familiar.

Está tentando se readaptar.

Está vivendo como se nada demais tivesse acontecido mas, o intervalo entre um riso e outro, parece não ter fim. 

E você não consegue, por mais que se esforce, costurar um momento ou um dia de sorriso no outro, as vezes, tão distante. 

Então você se sente uma farsa porque no sábado você sorriu e até gargalhou e, na segunda, você não tinha forças pra sair de sua cama.

Quem é você afinal? Aquela que ri, sorri e até gargalha? Ou aquela que não consegue levantar?

 

Na teoria o luto parece simples, calmo e até linear. 

Ouviu dizer que passaria por fases intituladas de negação, barganha, raiva, negociação e aceitação. 

Um período de vida instável porém previsível, com a aprovação de todos ao seu redor. 

Mais do que isso, com o carinho, a acolhida, o ombro amigo, o colo das pessoas que você quer bem. 

Talvez, alguém querido até chegasse em algum momento e lhe dissesse:

- Já chega! Vamos lá! Levanta! Vou te tirar de casa. Vamos caminhar, ver a vida lá fora. Reencontrar as belezas da vida e enxergar os milagres do amanhecer, do entardecer  e do anoitecer...
E o salvasse.

Mas não é assim que é.

O luto não tem começo, não tem meio e, se você descuidar, não terá fim.

E ele não é feito só de tristeza, 

Você não se torna um santo ou mártir, ao contrario, toda a sua fragilidade humana fica exacerbada e exposta. 

E você se magoa com tudo e todos porque torna tudo e todos seus devedores.

A vida lhe traiu, levou o que lhe era precioso e sagrado.

E você exige ser tratado com respeito por todos agora.

A sua posição é a de vitima e você acha legítimo estar nessa posição.

Até você aceitar que não é vitima de nada, afastará amigos, oportunidades de trabalho e todas as situações de vida que lhe trazem alegria genuína.

 

Querido leitor, no luto,  precisamos de alguém para nos lembrar que estas, talvez, fossem realmente características nossas mas que todas elas ficam acentuadas pela dor do luto.

Precisamos de alguém para nos lembrar que não podemos assumir o lugar de quem morreu, porque - Deus! - nunca ninguém no mundo poderá.

Precisamos de alguém para nos lembrar que não podemos evitar que as pessoas que amamos passem pelo que estão passando.

Precisamos de alguém para nos lembrar que cada pessoa que amamos viverá o luto à sua maneira e que é egoísmo nosso querer que seja diferente, só porque nós gostariamos que fosse.

Precisamos de alguém para nos  fazer entender que ainda dói e que se não pedirmos ajuda ninguém saberá que está doendo e portanto ninguém poderá nos ajudar.

Eu, psicóloga, precisei procurar outra psicóloga para compartilhar com ela todas aquelas duvidas em relação a Deus, céu, universo, vida após morte, galáxias, buracos negros, 'de onde viemos e para onde vamos' e blá, blá blá... dúvidas que assombram que está de luto.

Eu precisei ir até ela para pedir-lhe que me dissesse o que acontece depois que os nossos olhos fecham pela ultima vez. 

Hoje eu lhe diria:

-  Desculpe o pedido absurdo cara colega. E obrigada por não saber.  Obrigada, sobretudo, por lembrar-me que ninguém sabe. E fazer-me lembrar que FÉ é seguir vivendo, a despeito disso.

Querido leitor, desejo que você, no seu processo de luto, saiba reconhecer a hora de bucar ajuda. E desejo ainda mais  que a pessoa a quem você recorrer saiba conduzi-lo pelos caminhos da aceitação ajudando-o a reconhecer a tragicomédia do luto:  que a nossa insistência, beirando a loucura, em procurar respostas para perguntas que não temos, é apenas o nosso coração saudoso, ansiando por notícias do lado de lá.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 18/09/2018 - 18:30Atualizado em 18/09/2018 - 19:01

Grande parte das conversas entre pessoas que ainda não se conhecem começa com o tradicional:
- O que você faz? Trabalha com quê?

Poderia ser nossa deixa para falarmos que curtimos a vida, contemplamos o pôr do sol, tomamos banhos de chuva, dormimos bastante, passamos uma boa parte do tempo livre navegando na internet ou largados no sofá da sala de estar, acompanhamos a sutil diferença da luz do sol enquanto mudam as estações, tomamos muitos cafés, comemos chocolate e gostamos de caminhar sem pressa com nosso cachorro.

Mas quando nos perguntam - O que você faz? - querem saber o que fazemos profissionalmente, que falemos sobre o que nos torna útil na sociedade, sobre o que nos traz retorno financeiro, sobre o popularmente conhecido 'ganha pão'.

Quando nos encontramos nesta situação, em que precisamos falar de nós a partir daquilo que fazemos, nem sempre somos honestos e, as vezes, caímos na armadilha de elaborar um discurso para passar a impressão de que o nosso fazer é importante e com isso ganhar a aprovação de quem nos questiona. 

Falar do que fazemos profissionalmente é falar uma linguagem  universal, sobre a qual todos conseguem opinar e se sentem a vontade para criticar, elogiar, julgar como mais ou menos importante para a sociedade, ou abster-se de fazer comentários mas ficar matutando sobre o que ouviu.

Esta pergunta incomoda mais a medida que estamos mais atentos ao que fizemos. E não estou me referindo ao 'fazeres' profissionais apenas. Refiro-me a atenção que damos à forma como acordamos, aos primeiros pensamentos que nos ocorrem ao despertar, aos nossos primeiros sentimentos, ao modo de levantar da cama, às nossas primeiras escolhas, à roupa que vestimos, ao nosso café da manhã, ao que fizemos com nosso tempo... Porque tudo isto são "fazeres" ou afazeres.

Podemos facilmente perceber a frequência com que as pessoas falam do que fazem; seja na rua, nas filas de espera, no ponto de ônibus, na rodoviária, no aeroporto. Nós as ouvimos falando da empolgação ou do descontentamento que sentem por estarem fazendo o que fazem, de como estão atrasadas para seu compromisso e do que o atraso poderá acarretar, da ansiedade em terminar o horário de expediente e poderem estar com alguém em algum lugar que desejam, de planos e projetos relatados com a ênfase necessária para envolver o outro e fazê-lo comprar sua ideia. 

Talvez por isso as conversas comecem com "o que você faz?" 

 

Num mundo ideal, para mim, conversas entre desconhecidos  poderiam começar com: 
- Quem é você? 

- Como você está? 

- Você quer falar agora? Porque né, às vezes, a pessoa nem quer...

Mas as pessoas, de modo geral, se sentem mais a vontade, e pensam estar deixando o outro mais a vontade, quando perguntam "O que você faz?" 

Possivelmente para muitas pessoas é fácil responder a esta pergunta. "Sou Advogado, Engenheira Civil, Dentista..." 

A pergunta geralmente não é "Quem você é?" mas, se você formou-se em Direito, Engenharia ou Odontologia pode dizer que 'é' advogado, engenheiro ou dentista. Concordemos, porém, ninguém é isso apenas. 

Ninguém é, apenas, o que faz profissionalmente. 

Somos, talvez, a soma de tudo o que fazemos, no trabalho ou fora dele, nos círculos sociais ou quando estamos sozinhos, na presença de pessoas íntimas ou de completos estranhos para nós. 

Nestes diferentes ambientes, temos diferentes tipos de comportamentos  e se pudéssemos abarcá-los todos em nossa resposta à pergunta "o que você faz?" daríamos uma boa amostra de nós mesmos. 

Porém, ainda assim, faltaria tudo o que pensamos, dissemos, deixamos de dizer e de fazer. Faltaria, inclusive, o que desconhecemos sobre nós mesmos.

Tantas vezes nos sentimos inúteis, sem poder fazer nada quando, por exemplo, pegamos uma condução, ou mesmo nosso carro, para voltar às nossas casas no fim do dia e acabamos presos no trânsito. 

Justamente nesta hora estamos fazendo inúmeras coisas: talvez refletindo sobre nosso dia, talvez sonhando com um dia melhor ou diferente, talvez tentando resolver mentalmente o problema que ficou pendente, talvez estejamos nos dando conta de nosso cansaço e de que precisamos relaxar.  Talvez, seja o nosso momento de agradecer a vida que levamos e a oportunidade de fazer o que fazemos. Talvez, seja o raro momento em que  repensamos nossos 'fazeres' mas, mesmo decididos a encontrar outros caminhos, tudo o que podemos fazer, por ora, é seguir em frente. 
Mas como dizer isso a quem nos pergunta:
- O que você faz?

 

Querido leitor, com esta reflexão, quero levá-lo a perceber a oportunidade que temos de conhecer verdadeiramente o outro quando fazemos um primeiro contato, uma primeira pergunta para ele. Oportunidade que podemos desperdiçar quando iniciamos uma conversa focando apenas em saber o que o outro faz, com que o outro trabalha. 
Poderíamos iniciar um movimento mudando a pergunta "O que você faz?"para "O que você fez hoje?"

Porque essa é uma pergunta que parece ser mais fácil de responder e que nos leva a refletir constantemente sobre nossos 'fazeres', permitindo-nos ajustar a rota sempre que considerarmos necessário.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 04/09/2018 - 19:49Atualizado em 04/09/2018 - 19:56

Uma das conclusões que cheguei com minha experiência de atendimentos no consultório foi que, pensar sobre algo, é sempre muito pior do que experienciar.
Quando pensamos em como será, o que sentiremos, o que pensaremos, o que faremos, formulamos inúmeras hipóteses, a maior parte delas desnecessárias e até mesmo nocivas a nossa saúde mental e emocional.
Quando vivenciamos, não estamos especulando. Estamos vivendo, sentindo, pensando e agindo. No mínimo, boa parte da ansiedade vai embora. Ficamos com o fenômeno, o evento e, a partir daí, quaisquer que sejam nossas decisões, serão fundamentadas na experiência e não nas nossas elucubrações e devaneios.
Não há como saber se iremos nos arrepender depois. Podemos, evidentemente, conhecer o que estamos escolhendo e assim fazermos nossa escolha de forma mais consciente. No entanto, somente ao 'depois' cabem as respostas. A questão é desejar o depois.
Se o depois chegou e nos trouxe arrependimento, é o momento de reavaliarmos nossa escolha. Sabemos que toda escolha implica em perdas. Não há como escolher sem perder alguma coisa. Podemos voltar atrás? É isto o que desejamos? Vamos seguir em frente com nossa escolha e assumir as desvantagens da mesma?  Traçaremos uma nova rota? O que faremos com o que temos em mãos?
A vida é um eterno decidir. Decidimos sair da cama, escovar os dentes, comer, estudar, trabalhar, descansar, socializar. Ou não.
Muitas vezes pensamos: "Não deveria ter saído da cama hoje." Mas já está feito.
Imagine passar o dia inteiro deitado, olhando para o teto, com medo de se arrepender de ter levantado.
Tenham medo de se arrepender, não há nada de errado com isso. Mas não se deixem paralisar por este medo.
Como dizem por aí, "vai com medo mesmo". A menos, é claro, que o medo é sua desculpa para não tentar.
Todos nós nos arrependemos todos os dias sobre as mais diversas coisas: palavras ditas, não ditas, atitudes que tomamos ou deixamos de tomar, nos arrependemos por nos alimentarmos da forma errada, por não praticarmos atividade física, por não sermos produtivos o suficiente, por não termos sido bons o suficiente, por milhares de coisas.
Mas volto a dizer, pensar sobre como seria será sempre infinitamente mais angustiante do que vivenciar.
Quando vivenciamos, terminamos o ensaio e estrelamos no palco da vida. Lugar onde somos protagonistas de nossas histórias.
Insuportável seria vivermos eternamente ensaiando sem a chance de estrearmos um dia.

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