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Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 21/06/2018 - 16:06Atualizado há 9 horas

Há quem goste muito do inverno!

Mas para algumas pessoas a estação que se inicia hoje é uma verdadeira prova de resistência física e emocional.

O inverno por si só leva muita gente aos consultórios psicológicos.

Esses diriam ao psicólogo:

"O inverno exige muito de mim. Naturalmente me encolho para pessoas, situações, fenômenos e eventos. O inverno me encolhe ainda mais. Encolhe meus ombros, meu pescoço, minhas costas. Fico contraído como se isto pudesse criar uma camada de proteção no meu corpo que impedisse a perda de calor. Obviamente isso não acontece. O que realmente acontece é que fico travado e só quando lembro de alongar percebo o meu grau de encolhimento. Quase nunca me dou conta do quanto estou encolhido, só quando pescoço, ombros e costas começam a doer.
Para piorar a situação entra em cena a lei da inércia e, quanto mais me encolho e me recolho, mais encolhido e recolhido eu fico. 
Durante o inverno sou um animal em estado de hibernação, sonolento, inativo, com as funções vitais do meu corpo reduzidas ao absolutamente necessário: sobrevivência. Preciso me lembrar de respirar fundo, pois a minha respiração quase cessa, meus batimentos cardíacos diminuem e todos os processos bioquimicos do meu corpo restringem-se ao minimo."

Brincadeiras a parte, é fato que qualquer animal que permaneça inativo durante semanas com temperatura corporal inferior a normal está em hibernação. Eu fico bem próximo a isto.
Tudo se torna muito difícil; lavar o rosto, escovar os dentes, lavar a louça. Mexer com água, mesmo que seja aquecida, me enerva. Banho é um capítulo a parte. Todo aquele movimento de retirada das inúmeras roupas para, posteriormente, entrar embaixo de uma ducha, para mim, fica desprovido de sentido. Confesso que depois, quando já estou embaixo da água quente, é muito prazeroso. Mas é só o tempo de me acostumar e preciso me despedir daquele momento quente e relaxante. Me desencolho e o frio inicia seu processo de encolhimento. 
Considerando a lei da inércia, novamente, penso que poderia tranquilamente hibernar durante o inverno ou, pelo menos, nos dias mais frios. Mas os deveres e obrigações me chamam à atividade. Então, são quatro meses de infinita adaptação. Encolhe, desencolhe, encolhe, desencolhe. Sinceramente é muita adaptação e readaptação para mim.
O inverno exige demais. O inverno cansa! 
Sim, eu gosto de fazer charme com casacos longos e botas, cachecóis, gorros e luvas. Mas, mesmo que eu quisesse, seria odioso dormir com tudo isso. E mais cedo ou mais tarde chega a hora de tirar ou trocar de roupas. Além disso, tantas roupas tornam-me ainda mais atrapalhado, esbarro em objetos e derrubo-os com facilidade. 
Ar condicionado e aquecedores são ilusões momentâneas que fazem esquecer do frio rigoroso que corta meus lábios e resseca minha pele. Mas me deixam com dor de cabeça e baixam minha imunidade. E sempre haverá o momento de sair destes ambientes quentes, mas artificiais, e encarar a realidade da rua. Aliás, rua, o lugar onde muitos dormem. No inverno sempre haverá isso para pensar enquanto eu estiver me renovando em um banho quente.
Tenho consciência de como estou sendo chato e queixoso. Talvez outras coisas estejam me incomodando até mais do que esta massa de ar frio. Sim, é possivel que eu esteja projetando minha insatisfação geral com a vida numa única estação mas, creio que a deliciosa meia-estação tornaria tudo mais ameno. Ah, o outono e a primavera...
Enquanto eu viver vou gostar de todas as estações, afinal elas compõem este bem maior chamado vida, porém, sempre terei preferência pelas meias-estações.
As estações de extremo - verão e inverno - duplicam minha já difícil tarefa de ter que que viver tudo com intensidade sem perder o equilíbrio.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 11/06/2018 - 20:49Atualizado em 11/06/2018 - 20:53

Não restam dúvidas sobre a diferença de sensibilidade entre as pessoas. 

Enquanto alguns deixam claro que simplesmente não se importam com as atitudes e comportamentos alheios, outros sentem - e sentem muito. E, depois de sentir, não conseguem esconder que estão sentidos.

Fala-se bastante sobre a hipersensibilidade das pessoas que estão atentas a tudo o que o outro pode despertar em si. São os chamados, pejorativamente, ofendidinhos.

Fala-se pouco, porém, das pequenas indelicadezas que, longe de chamar a atenção por fazerem grande barulho ou causarem grande estrago, agem silenciosamente e vão aos poucos roubando o pouco de ingenuidade que nos resta. A ingenuidade de acreditar que é possível relacionar-se sem frustrações com as indelicadezas com que nos cercam.

A informação que seria útil e que não nos repassam.

O gesto de gratidão - ou um simples obrigado - que não vem.

O e-mail pensado e enviado com carinho, que não é respondido.

A visita de retribuição que não aparece.

A mensagem enviada que fica sem retorno. 

A manifestação de carinho sem reciprocidade.

O perdão que não nos é dado.

O apoio que não recebemos.

O colega que chega nos atropelando sem se importar com o que estamos pensando e sentindo.

A pessoa - a qual admirávamos pela simplicidade - que aluga nossos ouvidos para falar de sua genialidade.

O amigo querido que desabafou o nosso desabafo para o amigo querido dele.

Os mimos que tanto gostávamos e que se revelam cheios de intenções duvidosas.

A pessoa que aparece novamente, com novo interesse.

O comentário sutilmente maldoso - ou maldosamente sutil - que nos atinge em cheio.

Um 'chega pra lá' leve e certeiro.

Silêncios.

Ausências.

Esquecimentos.

O abraço que queremos receber num dia como esse e que não chega.

Somos adultos, sabemos que podemos conversar e pedir o que queremos. Mas sabemos, também, que se precisarmos pedir não terá o mesmo significado do gesto autêntico e espontâneo, o qual desejávamos.

Se você, querido leitor, sente-se afetado por essas indelicadezas preste mais atenção em seus sentimentos e, antes que se transformem num amontoado de mágoa e  finalmente de angústia que você já nem sabe explicar de onde vem, passe a identificar o que o deixou assim entristecido. Tudo bem se foi algo tão pequeno que você nem tem coragem de falar. Escreva sobre isso, grave e ouça sozinho depois, converse consigo mesmo em frente ao espelho...Mas não acumule mágoa com essas pequenas indelicadezas.

A pessoas e seus comportamentos, situações recorrentes, fatos que não pode modificar. Não busque outra coisa a não ser sentir e identificar o que sente. Não confronte ninguém, enfrente a si mesmo!

O mestre Içami Tiba dizia: "Onde há um folgado, há também um sufocado." Eu ouso dizer que onde há alguém que sofre com a hipersensibilidade há também alguém que é no mínimo indelicado (pra não falar das insensibilidades).

É preciso sentir o que houver pra sentir assim como é preciso identificar o que/quem  gerou o sentimento. 

Sinta o que houver para sentir, identifique o que/quem gerou seu sentimento e valide-o!

E siga olhando para os gestos de delicadezas que ainda nos cercam.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 04/06/2018 - 21:08Atualizado em 04/06/2018 - 21:11

Alguns sofrimentos são inevitáveis e nem é necessário muita sensibilidade para estar vulnerável ao que os causa: doenças, morte, a perda de um ente querido, tragédias, violência, injustiças.

Mas nós não sofremos somente por essas questões e, pra falar a verdade, a grande maioria das pessoas queixa-se do sofrimento por questões bem menores. Por exemplo:

A gente sofre quando está muito frio e quando está quente demais.

Quando está chovendo e quando o sol é escaldante.

Quando tem barulho e quando tem muito silêncio.

Quando há muito o que fazer e quando não há nada para fazer.

Quando estamos sozinhos e quando tem gente demais.

Quando estamos com sono e quando temos insônia.

Quando temos fome e quando estamos com indigestão.

Quando estamos gordos e quando estamos magros.

Quando temos metas a atingir e quando as atingimos.

Quando não temos tempo e quando não sabemos o que fazer com tanto tempo.

A gente sofre de saudade e sofre porque tem dificuldades para conviver.

Sofre por falta de grana e por não saber o que fazer com tanta grana.

Sofre quando é pobre e sofre por medo de ficar pobre.

Sofre porque tá solteiro. Sofre porque tá casado.

Sofre porque trabalha. Sofre porque tá desempregado.

Sofre porque divorciou. Sofre porque está sozinho.

Sofre porque está na balada e tudo o que quer é um ninho.

Sofre porque não tem som e sofre porque a música é triste.

Sofre porque estão enchendo o saco e depois sofre porque desapareceram.

Sofre porque dói e sofre porque não sabe onde dói.

Sofre porque precisa limpar a casa e porque tem medo de não ter casa.

Sofre porque mora longe e sofre porque não aguenta ficar perto.

Sofre por lembrar e sofre por esquecer.

Sofre porque é igual e sofre porque é diferente.

A gente sofre por razões absurdas.

Não! O que enche os consultórios de psicologia não são os sofrimentos inevitáveis das grandes perdas e decepções. 

Porque a gente sofre até por não encontrar razões para sofrer.

Sofre porque está feliz achando que deveria estar triste.

Sofre porque quer equilíbrio e porque está tudo equilibrado demais.

Sofre por antecipação. 

Sofre porque o pensamento distorce os fatos. 

Sofre porque quer sofrer.

A gente sofre porque a sogra é chata. Porque a cunhada não gosta da gente. Porque tem ciúmes da amiga. Porque tem inveja do colega. Porque é egoísta. Porque é adulto. Porque tem ilusões. Porque perdeu as ilusões. Porque guarda mágoas. Porque o tempo passou. Porque o tempo não passa. Por tudo a gente sofre.

Sofre porque precisa levantar da cama. Sofre porque tem medo de não acordar.

Sofre porque o filho é pequeno e nos dá trabalho e depois sofre porque ele cresceu e foi embora.

Sofre pelo preço do sucesso e sofre por ter fracassado.

Sofre por ter sido esquecido e sofre quando é muito lembrado.

Sofre porque nada é como antes e porque o agora é tudo o que temos.

Sofre porque não está sofrendo e porque tem medo de voltar a sofrer. E a gente volta a sofrer e sofre.

Sofre na expectativa da chegada e sofre ainda mais na partida.

Sofre na alegria pela certeza da sua finitude e sofre ainda mais na tristeza.

Sofre com o próprio sofrimento e sofre ainda mais com o sofrimento de quem a gente ama.

Sofre porque ama. 

Sofre porque não ama.

Sofre quando está com saúde por medo de perdê-la e sofre na doença por temer não vencê-la.

A gente sofre na vida.

A gente só não sabe se sofre na morte, se não já estaria sofrendo por isso também.

Caro leitor, a vida não é uma festa onde só a alegria faz sentido. A dor e o sofrimento fazem parte da nossa existência. 

Mas estejamos atentos para não confundirmos a inconstância da vida que, ora está de um jeito, ora está de outro, com o sofrimento humano. O sofrimento, quando chega, não deixa dúvidas de que é sofrimento. Será o tempo de nos fortalecermos para enfrentá-lo. Porém se conseguirmos relativizá-lo entendendo que mesmo que a dor seja inevitável o sofrimento é opcional, talvez seja este um sofrimento desnecessário.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 21/05/2018 - 17:01Atualizado em 21/05/2018 - 17:03

Queridos leitores, acompanhem esse desabafo de uma partilhante e reflitam comigo sobre as amizades depois do whatsapp.

"Amigos dos grupos do whatsApp, eu desisto.
Saio, pacificamente, de todos os grupos aos quais me incluíram.
Saio em paz com todos e espero que possamos manter algum tipo de contato fora do mundo virtual.
Certamente minha saída não interferirá na continuidade dos grupos pois não dei início a nenhum deles e não os administro.
Minha participação, tímida em alguns dias e empolgada em outros, foi uma amostra de como eu funciono aqui no mundo real.
Sobre a participação de vocês quero que saibam:
Vocês não me incomodaram. Vocês me fizeram falta.
Pertencer a um grupo, para mim, mesmo sendo um grupo de whatsApp, dá a sensação de ter companhia.
É a opção de abrir mão da solidão.
Então, explico-lhes, que fazer parte de vários grupos no whatsApp  me fez crer na minha capacidade de extroversão e sociabilidade. 
Acreditei, também, ser capaz de manter a constância e sinceridade em grupos heterogêneos, formados por pessoas distintas.
Esta parecia ser a proposta dos grupos e me empenhei para isso.
Porém, eu não consegui.
Permaneço apenas nos grupos formados por pessoas que integram minha vida real.
Neste caso, eles são uma extensão dos relacionamentos previamente estabelecidos.
As dificuldades de relacionamento que temos no mundo real estendem-se ao virtual.
Quando há convivência, os integrantes do grupo conhecem uns aos outros e suas respectivas limitações. 
Alguns dias, por exemplo, acordo de mau humor, não quero conversa e não acho graça em piada alguma.
Como posso dizer isso à colega que desconhece tal característica e que acorda-me efusivamente as seis e meia da manhã de uma terça-feira?!
Mas essa questão foi a menos importante.
Em todos os grupos, passada a empolgação inicial, os diálogos resumiam-se a mensagens prontas de bom dia, boa tarde e boa noite. 
Algumas frases motivacionais, fotos de homens sarados, piadas eróticas.
Videos fofos ou divertidos.
Uma ou outra foto pessoal.
E muito silêncio.
Quem aguenta passar de um grupo silencioso a outro quando quer barulho?!
Quem aguenta passar de um grupo barulhento a outro quando quer silêncio?1
Disseram-me: Leve na brincadeira!
Eu quase consegui brincar de pertencer a grupos.
Mas, em determinado momento, quando alguém quebrava o silencio e falava do filho doente, do problema financeiro ou da sua solidão, eu me punha a pensar como poderia ajudar.
Afinal, se eu sabia, não poderia ficar indiferente.
Então pensava nas palavras certas e em como fazer para trazer para perto aquele amigo tão distante.
Mas, pasmem, enquanto refletia eu recebia a notificação de uma nova mensagem.
Curiosa, deparava-me com uma piada de outra pessoa do mesmo grupo que ou não leu, ou leu mas não entendeu, ou entendeu mas não se comoveu com o problema do amigo. 
Então eu tentava achar graça e entrar em outra vibe.
Mas quando estava quase conseguindo alguém  do mesmo grupo aparecia dando continuidade ao problema em questão.
Como posso acompanhar?
Pensei em falar tudo o que estava sentindo e o quanto eu gostaria de estar com pelo menos um de vocês aqui no mundo real para tomar um café e contar sobre meu dia e ouvi-lo contar sobre o seu. 
Mas achei a ideia estapafúrdia e, ao pensar assim, percebi o quanto os grupos de whatsApp são desnecessários.
Se há algo para o qual realmente servem é para que tenhamos a real dimensão de nossa solidão. 
Depois de zapear de um grupo para outro encaminhando piadas e rindo feito doida, muitas vezes, olhei para os lados e vi que estava só.
Ah! Há, também, uma questão de logística.
Não sei participar de um grupo sem saber o que estão falando entre si.
E eu não estava mais conseguindo administrar tal questão.
Na manhã em que me exclui dos grupos, acordei exausta pois havia entrado madrugada adentro colocando em dia a visualização de fotos, mensagens, textos e videos.
Confesso que algumas piadas valeram a pena. Dei boas gargalhadas.
Também entrei em algumas saias justas.
Houve o dia em que decidi ouvir uma mensagem de voz, baixinho, na fila do caixa.
Mas o som do celular não estava baixinho, estava no máximo.
Senti minhas bochechas esquentarem. Fazia tempo que não ficava vermelha de vergonha.
Claro, também me emocionei.
Chorei de alegria com boas notícias.
E também de saudade.
Grupos de whatsApp me dão saudade de quem os compõem.
Recentemente encontrei na rua a amiga de um dos grupos que pouco ou raramente vejo. 
Num rompante, impulsionado pela avalanche emocional, grudei nela como quem gruda no ídolo que só vê pela tela da televisão.
A amiga ali no mundo real, ao meu lado, era algo surreal.
A que ponto chegamos!?
Daquele dia em diante passei a temer pela minha sanidade.
"Pessoas que amo moram longe"  me identifico muito com essa frase.
Os correios foram minha ponte de ligação com meus amigos distantes. 
Vivi a Era Jurássica das cartas. 
Depois, dos emails. 
Fui fascinada pelo orkut.
Adorava o fotolog.
Facebook e instagram são meus vícios atuais e vivo bem com eles pois entendo a presença distante das pessoas queridas que ali estão.
Mas, para mim, os grupos de whatsApp são ao mesmo tempo distantes e próximos demais.
Não sei me relacionar assim com ninguém.
Nem no mundo real.
Aos amigos dos grupos que vendem e negociam quero dizer que estou aqui. 
Não compro muito e nesse sentido creio que abro espaço no grupo para alguém mais consumista.
Aos amigos que só querem minha amizade tenho tanto a dizer...
Se você é meu amigo e está distante vou ama-lo e aprender a viver com a saudade.
Se você é meu amigo e está próximo vou ama-lo e querer sua companhia.
Simples assim.
Mas se você é meu amigo e está num grupo de whatsApp não sei como lidar.
Sou totalmente incompetente para administrar isso.
Sim, é tudo uma brincadeira. Claro!
Ou não, não é mesmo?
Dizem-me: 
Mas é uma forma de manter contato com quem você ama!
Não, não é. 
E uma forma de constatar diariamente o quanto nos distanciamos. 
O quanto a vida nos afasta. 
E o quanto o amor permanece independentemente dos recursos tecnológicos."

A minha reflexão, querido leitor, é a seguinte:
Os mundos reais e virtuais estão se misturando numa velocidade absurda.
E é relativamente fácil amar alguém que nunca vimos e cuja amizade foi construída no mundo virtual.
Mas a transição do amor e amizade que se construíram nas aulas do ensino médio, nos recreios do colégio, nas baladas de fim de semana, no antigo e duradouro emprego, nas festas sem hora pra acabar e, depois, consolidados na dor das perdas, quando seguraram nossa mão enquanto dávamos o ultimo adeus a quem amávamos, definitivamente, estes, são mais difíceis de transformar em amigos virtuais apenas. 
Prefiro guarda-los dentro deste lugar que denominam coração.
Neste lugar onde as memórias e sentimentos ficam eternamente vivos mesmo sem novas notificações de mensagens.

Gostaria de saber qual a sua reflexão sobre essa questão.
Conte-me pelo whatsapp.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 12/05/2018 - 23:15Atualizado em 12/05/2018 - 23:17

Hoje quero compartilhar uma descoberta que fiz na homenagem às mães da escola de minha filha caçula há uns anos atrás.

Quando vi minha foto projetada no telão pensei:

- Faltam filhos meus aí!

Na foto escolhida para a homenagem estávamos apenas eu e minha filha caçula. 

Que vacilo - pensei - tenho outros filhos. 

Mas mesmo que eu quisesse ver ali uma foto minha com todos os meus filhos não conseguiria. Porque não caberiam todos na foto.

Oficialmente, tenho duas filhas.

Mas são incontáveis os  filhos que adotei ao longo de minha vida.

Fui mãe de meus avós, mãe de meu pai e mãe de minha mãe.

Fui mãe de meu irmão e mãe de minhas irmãs.

Fui mãe de meus maridos e de meus "genrinhos", entre aspas, namoradinhos da minha filha.

Fui mãe de filhos de alguns namorados que tive.

Fui mãe de amigas e de amigos.

Fui mãe de primos e até de tios.

Fui mãe de meus sobrinhos.

Fui mãe de amigas das minhas filhas.

Fui mãe de filhas das minhas amigas.


Nenhuma destas mães biológicas me deu seu filho em adoção.

E nenhum destes filhos me pediu para que eu fosse sua mãe.

Alguns, possivelmente, nem queriam!

Mas nada pude - nem eles  poderiam - fazer para me impedir de adotá-los.

A maternidade era tudo o que eu tinha a lhes oferecer, por isso eu a oferecia.

Era o que eu sabia fazer: cuidar - do meu jeito.

Adotava e me mostrava super protetora e até meio possessiva - eis a prova de que não adotava para colher os louros da ação de adotar.

Alguns de meus filhos rebelaram-se, como era previsível. 

Outros esmeraram-se no papel de filho cuidando sempre para que eu estivesse feliz no papel de mãe.


Minha irmã caçula foi a primeira que 'adotei' conscientemente, tipo, sabendo que aquele papel que eu decidira desempenhar era papel de mãe.

Antes dela eu já me relacionava como mãe com muitas pessoas mas ainda não percebia isso.

Enquanto sua 'mãe' assumi, ainda na minha puberdade, sua criação e educação. Tomei para mim, como responsabilidade minha sabe? Não é fácil...

Dei-lhe todo o amor que tinha e ensinei tudo o que sabia.

Confesso que era pouco, assim como era pouca a minha maturidade.

Casei de véu e grinalda - grávida - com minha irmãzinha grudada em minhas pernas.

Como uma mãe canguru, que tem sua bolsa ocupada por outro filhote e diz para o maiorzinho:

- Não posso te levar na bolsa mas grude em minhas pernas e te levarei aonde eu for.

Ela entendeu o recado e grudou. 

Ficou ali durante toda a cerimônia do casamento. Ficou durante a festa. E ficou enquanto aguentou.

Durante minha gravidez ela dormia quando eu tinha sono e eu sentia sono quando ela dormia.

Uma simbiose, sem dúvida. 

Nossos instintos indicavam a direção, substituindo experiência e maturidade

Com o pouco de discernimento que a idade me permitiu, dias antes do parto conversei com minha filha enquanto acariciava a barriga:

- Tem uma criança aqui fora junto comigo te esperando. Ela é pequena, nasceu pouco antes de voce. Eu a amo muito e espero que a ames também.

Minha primeira filha nasceu na condição de primeira filha biológica de uma mãe que já tinha outros filhos. Um deles, sua tia.


Com o tempo percebi que não era possível fazer com que  todos os meus filhos se reconhecessem como irmãos.

Cada um deles com sua singularidade mostrou mais afinidade com uns  e menos com outros.

Ser mãe de muitos filhos não faz, necessariamente, com que todos sejam irmãos.

Mas nunca me senti menos mãe de nenhum deles por isso.


Muito tempo depois...Fui mãe novamente. 

De outra filha biológica.

E de muitos outros filhos que fui adotando pela vida.

Até que tornei-me mãe de mim mesma.

E hoje sou minha própria mãe. 

As mulheres que perderam sua mãe sabem a importância de nos tornarmos mãe de nós mesmas.


Quando digo que nasci para ser mãe não me refiro ao conceito tradicional da palavra mãe.

Não quero os méritos da mãe que é homenageada no segundo domingo de maio.

Nunca fui mãe em período integral.

Não sei o que é estar disponível vinte e quatro horas do dia para um filho. Preciso de um tempo pra mim.

Não sou uma mãe muito prendada.

Exerço outros papéis na vida - além do papel de mãe e não abro mão deles.

Se digo que nasci pra ser mãe e fui mãe desta gente toda é porque, para mim, ser mãe é ter a capacidade de ser feliz através da felicidade do filho. 

Sim! É  sofrer com seu sofrimento também. 

Mas ser mãe - inclusive de mim mesma - é, acima de tudo, encontrar um certo sentido pra vida no sentido que os filhos - todos os filhos - dão para suas próprias vidas.


Sob esse ponto de vista, talvez toda mulher tenha nascido para ser mãe.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 30/04/2018 - 19:19Atualizado em 30/04/2018 - 19:23

Não tínhamos nem completado uma década de vida e já nos questionavam: - O que você vai ser quando crescer?
Embora a pergunta nos direcionasse mais para as questões de ordem profissional já nos davam a entender que éramos nós que decidiríamos que tipo de vida íamos levar.
Rapidamente passa a infância, vem a adolescência e logo surge o vestibular ou a necessidade de trabalhar e ter independência financeira. 
Sem muita reflexão chega a hora de firmar compromisso com as pessoas que nos questionavam e, sobretudo, de firmar compromisso com nós mesmos. 
Chega a hora de 'provar' que nos mantivemos fiéis aos "sonhos de criança".
Ou, que temos outros sonhos agora, pelos quais trabalharemos.
Algumas vezes, mesmo que a resposta que dávamos à pergunta quando éramos crianças não corresponda mais ao que sentimos ou pensamos, nos mantemos fiel a ela na idade adulta.
Isto trás implicações e, em alguns casos, complicações pra vida que a gente leva.
Há pessoas que responderam 'certo' aos cinco ou seis anos de idade - a resposta que deram quando crianças, continua valendo agora que são adultos.
Há outras pessoas que reconheceram que a resposta que deram era válida tão somente para aquele momento da vida e hoje têm outras respostas para a mesma pergunta. 
E há pessoas que mesmo agora, na idade adulta, não responderam para si mesmas de forma consciente e almejam uma oportunidade de fazê-lo.
Você se inclui em alguma dessas condições?
Destino ou escolha? 
Como você vê os caminhos que o trouxeram até o atual cenário de sua vida profissional?
Escolhemos ou somos escolhidos?
Há teorias que nos levam a acreditar que nossa vida é fruto de nossas escolhas. 
Há outras teorias que tentam nos tirar o peso da responsabilidade sobre nossas escolhas, contrapondo-as a um universo de questões culturais, econômicas e sociais, no qual afundam.
Se não há argumento contra o fato de que 'de barriga vazia não conseguimos nem pensar direito', imagine quanto a fazer escolhas conscientes nesta condição.
Posto isto, se a necessidade básica é de alimentar-se e, se para tanto, é necessário um trabalho, o primeiro que aparecer é o que irá nos escolher.
De barriga cheia, no entanto, as possibilidades parecem ganhar outra dimensão. Entram em cena os quereres. Quero isto, não quero aquilo.
Se prestarmos muita atenção veremos que determinadas atividades nos acenam de leve, ao longe, nos dizendo sutilmente: eu escolho você.
A medida que nos aproximamos delas nos sentimos acolhidos e temos a sensação de que nos escolheram mesmo.
Mas ao analisarmos nossos passos, percebemos claramente o movimento que fizemos, descartando outros caminhos para seguir nesta direção.
É aí que surge novamente a questão: Escolhemos ou somos escolhidos?
Nas nossas caminhadas existenciais, aprendemos que as coisas não acontecem somente porque queremos que elas aconteçam, é necessário que nos empenhemos em torná-las realidade.
E em alguns casos, todo o nosso esforço não é suficiente e  precisamos contar com o universo e esperar que ele conspire a nosso favor.
Nos relacionamentos e na profissão, há pessoas que escolheram e há pessoas que foram escolhidas.
E há, é claro, alguns sortudos que tiveram o privilégio de ser escolhidos pela pessoa e profissão que escolheram. 

Para exemplificar:

Se você tem dezesseis ou dezessete anos e resolve casar, seu relacionamento é avaliado como 'fadado ao fracasso' pela maior parte das pessoas, porque nesta idade, acreditam,  é difícil distinguir  paixão de amor e você pode estar entrando de cabeça numa relação que tem  prazo de validade - dezoito a trinta meses dizem os mais céticos. Depois disso, cessam  todas aquelas sensações provocadas pelo estado alterado do seu cérebro.  Neste momento do relacionamento você fica com o ônus e o bônus, quando não desaparece, diminui significativamente. 

Não obstante, estas mesmas pessoas exigem que você, nesta mesma idade, tenha clareza do curso que irá escolher para prestar vestibular. O Ensino Médio está acabando  - ou você já está cursando um pré vestibular  - e não pode ter dúvidas em relação ao curso que irá escolher.

Frequentemente não é o amor pela profissão que faz com você a escolha, pois você não a conhece intimamente. Talvez você se encante por ela, possivelmente mais por suas características atraentes do que por conhecê-la profundamente. 

Imaginemos um(a) jovem que escolhe um curso universitário aos dezesseis anos e que casa-se nesta mesma idade. Em ambos os casos os elementos internos dos quais disponibiliza para firmar-se ao fazer suas escolhas ainda são precários pois recém está saindo da adolescência - ou passando por ela - fase onde acontecem várias mudanças físicas, psicológicas e comportamentais. Está tudo em transição, tudo em 'ebulição'. Nesta fase podemos nos apaixonar por muitas pessoas e profissões.

Alguns jovens mais decididos dizem que desde crianças sabiam qual seria sua profissão. São como jovens prometidos para o casamento. A diferença é que eles mesmos se prometeram e estão em paz com isso. Mas não são a maioria. 

A grande maioria terá que casar com o curso, dormir e acordar com ele, com a responsabilidade de continuar com ele, de cumprir com suas obrigações para com ele, mesmo não estando pronta para isso. 

Percebem que este mesmo exemplo se aplica aos relacionamentos afetivos nessa faixa etária?

É interessante! Você concorda que é jovem demais para casar quando está cursando o Ensino Médio.  Mas  você casa, nesta idade, com o curso universitário, por exemplo.

Estamos sempre fazendo escolhas. Meu alerta é para a qualidade das escolhas que fazemos, que dependerá, em alguns casos, da nossa maturidade para faze-las.

Mesmo que nós, adultos, ao observarmos nossos filhos ou alunos, tenhamos consciência que são jovens demais para estas escolha, não temos muito o que fazer para ajudá-los. 

Somente a vivencia poderá transformá-los em sujeitos de suas vidas, autores de sua história, responsáveis pelas consequências de todas as escolhas que fizeram e que ainda farão.

A vida validará, ou não, estas escolhas.

Foi assim conosco não é mesmo?

Assim será com nossos filhos, assim será com nossos alunos.

Se não temos escolha a não ser aceitar o que a vida nos impõe  talvez estejamos olhando para o destino.

Em todas as situações de vida que tivermos mais de uma alternativa estaremos fazendo uma escolha.

Feitas as escolhas, a vida que se delineará para nós  será pura e simplesmente resultante delas.

Não adianta culpar o destino quando você pode escolher de novo. E de novo.. E de novo a cada dia.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 21/04/2018 - 18:27Atualizado em 21/04/2018 - 18:29

Síndrome de Burnout, um nome difícil para um diagnóstico relativamente simples: esgotamento profissional. Acomete principalmente  a pessoa que tem como característica o desejo de ser o melhor naquilo que faz e que está sempre em busca de um alto grau de desempenho. Mas, não vou me ater ao conceito, vou exemplificar.

 

Você acordava, vestia a roupa adequada para os compromissos do dia, tomava seu café da manhã e saía em direção ao trabalho. 

Os dias eram cheios e, em alguns deles, você 'esquecia' o horário de almoço. 

Eram tantas coisas para fazer que, de repente, você se dava conta que não tinha conseguido um tempinho nem para 'fazer xixi'. 

Um refrigerante e um pacote de salgadinhos foi o máximo que você comeu em muitos dos seus dias naquele trabalho. 

Você tinha um horário combinado para voltar para sua casa e, todos os dias, quando este horário se aproximava olhava para o relógio e pensava consigo mesmo: -Precisarei ficar até mais tarde outra vez. 

Você chegou a comentar com alguns colegas que sentia-se 'adrenalizado'. Esta parecia a explicação mais plausível  para o que acontecia com você, que oscilava entre adrenalizado e morto-vivo (um zumbi de tão cansado). Só podiam ser descargas de adrenalina  que o levavam adiante. Descargas estas desencadeadas pelo desejo de acertar, mostrar serviço, atingir sua meta, de agradar. Ou desencadeadas pelo medo de errar, de passar por incompetente, de fracassar, de cair na antipatia do chefe. 

O que mais explicaria a necessidade cada vez menor de sono, seu pé pisando no acelerador de forma inconsequente no trajeto para o trabalho, pular as refeições principais, esquecer de compromissos pessoais, chegar em casa exaurido, sem ânimo para conviver com as pessoas que você mais ama, sem forças para cuidar de si mesmo com a gentileza que merece e, ainda assim, acordar pronto para mais um dia deste? 

Mas você nem pensava, funcionava num moto contínuo, cientificamente inexplicável. Você nuca refletiu, não se ocupou em compreender. 

Até que parou. 

Parou sem desejar parar. 

Você foi ao trabalho naquele dia, chegou antes do horário e, provavelmente, sairia depois, pensou. 

Se houve algo de diferente foi que você se deu conta disso - e de algum modo, de todo o resto. 

Você percebeu que ainda não havia amanhecido totalmente quando chegou - era horário de verão. 

Pensou que, talvez, pudesse aproveitar o resto do dia com sua família porque se havia uma vantagem nessa época era o fato de que anoitecia mais tarde. 

Mas  aquele dia não passava. 

Você não sentiu a adrenalina e ficou difícil  trabalhar assim.  

Todas as atividades que tinha para realizar se tornaram muito complexas. 

Você começou a se questionar. 

O que você estava fazendo ali? Por que tinha se ariscado tanto naquelas estradas? Há quanto tempo não via seus amigos? Qual fora a última vez que ligara pra seus pais? 

Se deu conta, incrédulo, de que não ficara para a festa de casamento de sua irmã porque estava cansado demais. 

De repente nada mais fazia sentido. 

Então você não conseguiu mais pensar. Você só conseguia sentir. 

E tudo o que queria era ir para sua casa. 

Estava catatônico e seu chefe perguntou o que estava acontecendo. 

Você lhe disse que queria ir embora. 

Você foi. 

E não voltou mais. Ou, ficou sem a menor vontade de ficar e, pior, sem energia alguma para realizar seu trabalho.

Este é um exemplo de como a Síndrome de Bournout pode se processar.

 

Agora, pergunto a quem se identificou ou identificou alguém nesse relato:

Se você pudesse diminuir sua carga horária diária ou semanal, a quantidade de trabalho que leva para casa, suas atividades profissionais no fim de semana, o tempo que passa em aviões, carros, metrôs e ônibus em função de seu trabalho, você realmente diminuiria?

São frequentes as queixas de pessoas cansadas e estressadas com o tempo que precisam dedicar ao trabalho, com os prazos e as metas a cumprir, com os trajetos que precisam fazer para buscar suas encomendas ou fazer suas entregas. 

Quando estamos imersos no trabalho, seja ele qual for, não percebemos que entramos em uma espiral, nem sempre ascendente. 

Muitas vezes, todos os nossos esforços, nossas energias, o melhor de nós, são canalizados para atingirmos bons resultados profissionais. 

Quanto mais nos empenhamos, mais enxergamos tarefas a executar, correções a fazer, objetivos a conquistar. 

Se está bom, achamos que pode ficar melhor. Se está ótimo, desejamos a excelência. Passamos a funcionar como ratos da caixa de Skinner, temos reforços positivos para comportamentos esperados, seja um aumento de salário ou reconhecimento profissional. O mundo do trabalho, porém,  não é uma caixa e nós não somos ratos. Por mais que nos esforcemos, nem sempre obtemos os resultados desejados.

Algumas pessoas verbalizam seu cansaço. Outras o evidenciam através de seu olhar, expressão facial, postura, distrações e - por que não dizer? - de suas somatizações.

Como doem nossas cabeças. Como queimam nossos estômagos. Quantas alergias surgem em nossa pele.  Como facilmente cai a resistência de nossos corpos. Quantas inflamações. Quantas "ites". 

Há muito se sabe que o corpo fala. Mas você o ouve? Você se permite ouvi-lo? 

Muitos simplesmente não conseguem parar. Não podem, talvez. Precisam se manter ocupados e trabalhar arduamente para não se deparar consigo mesmo. Para não ter que enfrentar seus fantasmas, medos, problemas, sua solidão.

Nunca nos faltarão motivos para continuar um ritmo frenético de trabalho. 

Um padrão de vida que queremos manter ou melhorar. Filhos para criar. A manutenção do carro. O financiamento da casa. As prestações a pagar. Sonhos que somente com muito trabalho vamos conquistar. O amor pela profissão. O prazer que ela proporciona. 

Mas, é isto mesmo?

Nas redes sociais há uma comoção geral quando chega a sexta feira. Há os que fazem apologia à mesma, alardeando-a como uma carta de alforria. E há um movimento contrário que apregoa que aqueles que fazem o que gostam, esquecem o dia e não tem o que comemorar no fim da semana, afinal todo dia é dia de ser feliz.

Independentemente da sua resposta à pergunta do início deste texto, sempre haverá a hora de parar, seja por vontade própria ou necessidade. Às vezes, a própria Síndrome de Burnout leva a parar! É preciso estar pronto para isso. 

Precisamos aprender a ficar a sós e em silêncio, na companhia de nós mesmos. Porque este é o encontro que adiamos a vida inteira, com todas as coisas que inventamos para fazer.

Comecemos comemorando a sexta feira e o fim de semana. 

Mais do que isso, aproveitando-os para descansarmos e estarmos com que escolhermos. Mas, sobretudo, em nossa própria companhia.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 12/04/2018 - 21:37Atualizado em 16/04/2018 - 16:04

Nos últimos dias vimos a rivalidade elevada ao nível máximo nas discussões políticas entre brasileiros de lados opostos.
O senso comum sempre nos alertou para o fato de que não devíamos discutir política, assim como não devíamos discutir futebol e religião.
Porém, já estamos bem distantes da época em que "sobrevivíamos apesar de Brasilia" - como disse em uma de suas entrevistas o psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes.
Atualmente não conseguimos sobreviver sem fazer a nossa parte para mudar o que acontece em Brasilia. 
As discussões sobre politica estão acontecendo com frequência entre familiares, colegas de trabalho e amigos - mesmo que estejamos carentes de fontes confiáveis e seguras para fundamentar nossos argumentos e, embora, muitas vezes tenhamos que nos basear em informações de baixa qualidade ou ainda confiar em notícias sem que tenhamos como fazer os devidos questionamentos sobre as mesmas. Está aí a internet que não me deixa mentir!
Nas redes sociais não tememos fazer afirmações polêmicas pois estamos protegidos, olhando para a tela do computador ou celular e não nos olhos do nosso interlocutor. Torna-se fácil argumentar com informações fictícias, contra-argumentar com fake news e depois xingar, bloquear e/ou desfazer a amizade.
Nas redes sociais, o defensor de direita ou de esquerda encontra um território propício para entrar em rivalidade pois sua integridade física esta assegurada. É importante dizer, que o mesmo não se aplica necessariamente a sua integridade mental pois é cada vez maior o número de pessoas que deixam as redes temendo por sua sanidade. Estes são os mais sensíveis à fala do outro, que não resistem a tomar partido mas depois sofrem com as agressões verbais recebidas.
No bojo da rivalidade existente em nosso país vem crescendo o ódio que fere através de palavras ditas e não ditas - ou que não são mais permitidas nas redes sociais. 
Na vida real, sem a tela do computador como escudo de proteção, em suas casas ou fora delas, nas ruas, nas praças, nos locais de protesto, a rivalidade toma outra dimensão: delimita territórios, divide, segrega, separa inclusive pessoas que tem fortes vínculos afetivos. 
Os últimos dias no Brasil não nos ensinaram apenas sobre cidadania e justiça - ou a falta dela - ensinaram também como é torpe, tanto a vitória quanto a derrota, para quem não sabe competir. 
Para nós e nossos filhos, infelizmente, uma lição de NÃO saber ganhar e de NÃO saber perder. 
Esses últimos dias assemelharam-se ao final de um campeonato, em seu jogo decisivo que, lamentavelmente, torna-se violento.
Que tem torcida contra torcida, indo as vias de fato e que, mais muito mais do que a favor de seus times, querem acabar com o oponente.
Assemelharam-se em certa medida também aos conflitos que acontecem em nome da religião onde os fanáticos religiosos até matam e morrem em nome do que acreditam.
Na politica, assim como na religião e no futebol, a paixão pode cegar.
A cegueira passional tolhe o direito de expressão, seja lá o que for que queiramos expressar, entorpece o pensamento das pessoas a ponto de quererem homogenizar as falas numa tentativa inglória de homogenizar os diferentes pensamentos. 
Nós nunca pensaremos de modo igual ainda que tenhamos ideais semelhantes pois os caminhos para se chegar a um mesmo lugar podem ser muitos. 
Ao expressarmos nossos ideais políticos, muitos de nossos princípios e valores ficam expostos e essa é a liberdade de expressão a que todos nós temos direito. A rivalidade política vigente tenta nos roubar esse direito.
Está difícil acreditar que podemos ser apenas competidores de lados opostos em termos de politica mas com um objetivo em comum: fazer o Brasil dar certo. Porque um lado está simplesmente negando o outro, não há mais diálogo entre os diferentes lados, o que nos faz questionar: como um país pode dar certo com um povo rejeitando o diálogo e cultivando a rivalidade entre si? 
Tudo isso reflete nas relações...
Muito do que acontece nas relações nesse tempo de rivalidade politica é competição - a boa e velha competição para ver quem ganha. Todos nós competimos, alguns são mais ou menos competitivos mas, se analisarmos com sinceridade nossas relações familiares, no trabalho, relações de amizade, namoro, casamento, etc, perceberemos que a competitividade existe pelo menos em uma dessas relações, quando não em mais de uma ou, até mesmo em todas - no caso dos mais competitivos. Isso em si, não é bom nem ruim, pode ser importante pois nos localiza em relação ao outro e, tendo o outro como referência, competir com ele pode ser a mola propulsora para nos aproximarmos daquilo que desejamos. O problema reside no fato de que em nome da competição tornemos o outro um inimigo, um rival que precisa ser destruído para que nós possamos ganhar.
Tomando como verdade o fato de que a responsabilidade dos rumos políticos do Brasil é nossa - e isso significa dizer que precisamos vigiar constantemente nossas ações para não incorrermos nos mesmos erros dos políticos que criticamos - podemos competir pelas melhores ideias e propostas, seja nas ruas ou nas urnas, competição esta que terá efeito na nossa motivação por um país melhor e até no nosso desempenho em busca disso.
Mas seja na politica ou nos relacionamentos, para competir está faltando capacidade empática. Só a empatia pode quebrar os muros erguidos pela rivalidade. Empatia: a capacidade de se colocar no lugar do outro e tentar sentir o que ele sente, como ele sente, de que jeito ele sente. 
Só a empatia pode nos levar a autocrítica que pode nos devolver a capacidade de diálogo e nos fazer adicionar novamente aquele amigo excluído do Facebook durante o impeachment da ex-presidenta ou a prisão do ex-presidente.
Para quem prioriza os relacionamentos, fica a dica.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 03/04/2018 - 17:34

Na semana passada falamos sobre o Ninho Vazio.

Os filhos crescem e a gente envelhece.
E é justamente quando os filhos crescem e vão viver suas vidas ou, quem não tem filhos, entre 45 e 55 anos, que o envelhecimento se evidencia com mais intensidade.
Em algum momento todos nós, sem exceção, olhamos a imagem refletida no espelho e estranhamos. Como envelheci neste ultimo ano - nós pensamos - ignorando o fato de que envelhecer é um processo que acontece diariamente, sem pausa e sem trégua.

Depois de vinte anos sem ver o amigo, nos deparamos com ele no corredor do supermercado e, estupefatos, pensamos: - Nossa! Como ele envelheceu! 

Mas...O que esperávamos? Que rejuvenescesse ao longo das duas décadas? 

Provável e lamentavelmente sim, é o que esperamos.

Afinal, é este o apelo generalizado através de promessas milagrosas da indústria dos cosméticos, dos procedimentos estéticos e das intervenções cirúrgicas: rejuvenesça!

Assim como o nascimento, o crescimento e o amadurecimento, o envelhecimento faz parte da vida. 

É inevitável e, sob certo ponto de vista, um privilégio pois, morrer cedo é a unica alternativa para o envelhecer.
Porém, de uns tempo pra cá, esse é o ponto de vista de poucos. 
A sabedoria que sempre foi valorizada e associada aos mais velhos perdeu espaço e credibilidade para a jovialidade ou o frescor da juventude. 
Velho respeitado, hoje em dia, é o velho jovem de corpo, mente e espirito. 
A mulher velha, a que se permitiu envelhecer, via de regra é considerada desleixada ou, na melhor das hipóteses, é tida como uma mulher sem vaidade, o que muitas vezes leva a julgamentos do tipo:  - autoestima baixa, falta de amor próprio, descaso com aparência - até o cruel e taxativo: embarangou!
A verdade é que a ação do tempo em nós é implacável; rugas, flacidez, perda dos contornos, ganho de peso; tudo isso e muito mais é parte do pacote denominado ENVELHECER.
Depois do fotoshop e de todas as intervenções estéticas, desde as minimamente invasivas até as que nos quebram e sugam sem piedade, envelhecer tornou-se "opcional". Entre aspas a palavra opcional.
Obviamente a ideia de adiar os resultados do processo de envelhecimento pode ser muito sedutora, algumas pessoas até justificam dizendo que as oportunidades de trabalho aumentam assim como as chances de conseguir um novo parceiro. 
Mas a verdade é que viver é despedir-se.
Assim como nos despedimos de nossos filhos quando deixam nossos lares, ou como nos despedimos dos nossos pais quando deixam esse mundo, temos que nos despedir de nós mesmos...  um pouco a cada dia.
Quem chega aos cinquenta pensando, sentindo e vivendo como pensava, sentia e vivia aos vinte anos? 
Nossas conquistas, nossas perdas, nossas vitórias e nossas derrotas não nos permitirão o auto-engano. 
Por que o corpo deve aparentar vinte anos se ele abriga memórias de mais de quarenta anos de vida?
Por que o rosto deve aparentar no máximo trinta anos se as nossas lembranças tem registros de cinquenta anos de vida?
Porque sim, porque queremos, porque podemos, são respostas que denotam o poder das escolhas.
Podemos escolher adiar ao máximo o envelhecimento, aparentando ser mais jovens do que realmente somos por tempo indeterminado.
Assim como podemos, também, escolher envelhecer sem adiamentos.
Permitam-me falar sobre esta escolha: ENVELHECER. 
Particularmente, não quero parecer jovem. Não quero parecer irmã da minha filha. Não quero elogios comparativos que fazem com que uma das partes saia lesada. Na verdade, eu nem considero este tipo de referência elogiosa. Quero envelhecer, faço questão disso! Ainda que eu sinta falta de muitas coisas que ficaram para trás com a juventude, folgo em saber de todos os meus ganhos por ser uma mulher madura. 

Neste ano faço cinquenta anos.Eu nunca consegui imaginar como seria viver todos estes anos. Mas eu os vivi. E eles me trouxeram cabelos brancos, rugas e muitas outras mudanças no corpo. 
Eu tenho um carinho enorme por todas estas mudanças, talvez até um apego, para que, além de mim, outras pessoas também possam constatar o óbvio: eu estou envelhecendo. 
Isso é sobre o direito de permitir que o tempo deixe suas marcas em nós.
Não é fácil, há quem não saia de casa sem maquiagem ou com o botox vencido. 
Há quem diga que não é a mesma coisa encontrar conhecidos na rua depois que inventaram os filtros do instagram. Não apenas porque não querem ser vistos com todas as suas imperfeições mas, também, porque lhes custa ver o outro como é, sem a luz ideal, sem o angulo perfeito, sem retoques, sem filtros.
Quanto a mim estou curtindo esta fase da vida. Se tiver sorte, vocês me verão a cada ano um pouco mais velha. E eu gostaria de ter reconhecido meu direito a ter cinquenta anos na cabeça, na alma e no corpo. Especialmente no corpo. Estou envelhecendo e estou feliz por isso. 
Como já cantou Arnaldo Antunes: "Não quero morrer pois quero ver Como será que deve ser envelhecer Eu quero é viver pra ver qual é E dizer venha pra o que vai acontecer."

E eu te convido a, esporadicamente, dizer não aos mecanismos antienvelhecimento.
Não é fácil, mas pode ser extremamente libertador. 
É que em ultima análise, considerando os aspectos que comentei, esse é um ato de rebeldia contra a ditadura da beleza.
É uma desobediência. 
É dizer um NÃO entre todos os SIM que a gente precisa dizer.
E, talvez, este seja o NÃO que a gente está precisando dizer.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 27/03/2018 - 17:39Atualizado em 03/04/2018 - 16:01

Quem é pai ou mãe sabe...

A gente ainda nem aprendeu a lidar com aquelas lembranças da nossa infância que insistem em permanecer, mesmo contra nossa vontade e quando percebemos já estamos lidando com a infância dos nossos filhos.

Aí, vamos deixando de lado as lembranças e questões mal resolvidas da nossa infância e adolescência e tratamos de ser um bom pai/uma boa mãe pra acompanhar a infância e adolescência deles.

O tempo vai passando e, entre alegrias e tristezas, nossos filhos  vão crescendo e a gente vai amadurecendo, na marra algumas vezes.

Porque por mais que nós priorizemos a criação e educação de nossos filhos, a nossa existência continua a exigir de nós.

Exige equilíbrio ao mesmo tempo que exige certos malabarismos.  Exige serenidade ao mesmo tempo que exige firmeza.

Exige sabedoria e, as vezes, exige que a gente chute o balde mesmo.

Exige resiliência e as vezes exige renuncia, desistência.

A vida exige que a gente a curta mas pra isso ela nos exige exige trabalho.

Então vamos administrando nossas vidas com todas as suas exigências, mais as questões mal resolvidas que insistem em permear tudo isso e, paralelamente, administramos a vida dos nossos filhos.

Na prática é assim:

Nasce o primeiro dentinho enquanto  a gente está lá tentando ficar mais bonito...fazendo um clareamento dentário.

Dão os primeiros passos enquanto a gente está buscando coragem pra encarar os desafios da vida, CAMINHAR e seguir em frente

Vão ao primeiro dia na escolinha enquanto a gente decide se volta ou não ao trabalho.

Chega o dia da  formatura da pré escola e a gente tem a festa dos quinze anos de formados do ensino médio. No mesmo dia!

Enfim o primeiro dia de aula no colégio grandão, primeiro ano... e a gente revive toda a nossa história dentro daquele mesmo colégio ou outo semelhante.

Eles escolhem a profissão enquanto a gente está insatisfeito com o trabalho, querendo dar outro rumo a nossa vida profissional.

Eles vão para a faculdade enquanto isso a gente se questiona sobre o que realmente quer da vida.

Eles encontram o amor da sua vida enquanto a gente vive  uma crise no casamento.

Eles vão morar fora enquanto isso a gente ali... na eterna duvida sobre deixar ou não o Brasil.

Eles voltam e um tempo depois eles nos comunicam que vão sair de casa, querem morar sozinhos.

Então...

Enquanto vivem as descobertas da liberdade e independência, nós descobrimos por experiencia própria o que significa a síndrome do ninho vazio.

Nós que sempre nos queixamos de ter que renunciar as nossas próprias lembranças, inseguranças, traumas e questões mal resolvidas como pai e mãe, agora temos tempo e espaço de sobra pra isso.

Porque ninho vazio é isso, tempo e espaço de sobra... não precisamos mais nos ocupar com as questões dos nossos filhos.

E sem saber o que fazer com isso começamos a remexer em baús de lembranças e rever fotografias e relembrar a infância deles... e a nossa própria infância.

E em determinado momento as lembranças da infância deles se confundem com as nossas próprias lembranças de infância. Pensamos em como agimos com eles e quando percebemos estamos pensando como nossos pais agiam conosco

e, as vezes, ficamos chocados como nossos erros foram semelhantes ao que nossos pais cometeram quando éramos crianças.

Noutras vezes, é a lembrança da rebeldia deles que é inacreditavelmente igual a que nós mesmos vivemos na nossa adolescência.

No tempo e espaço do ninho vazio a gente passa o passado todinho a limpo, pelo menos na nossa cabeça.

E a gente teme que eles nos culpem por seus traumas  e inseguranças.

Mas sabemos que um dia nos verão com olhos de pais.

E então poderão nos perdoar e aceitar como somos, com nossos erros e acertos.

Até porque, ao menos é o que se espera, a essa altura da vida, adultos com filhos adultos, nós também já perdoamos nossos pais.

 

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