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Um olhar carinhoso para a procrastinação

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 18/01/2019 - 14:32Atualizado em 18/01/2019 - 14:50

Eu tinha um relógio de parede no qual, no lugar das horas, estavam desenhados doze diferentes passarinhos. A cada hora completa o passarinho correspondente aquela hora cantava três vezes. O relógio precisava de duas pilhas para funcionar e mais duas pilhas para os passarinhos cantarem. A cada canto de passarinho eu percebia que mais uma hora de mais um dia havia passado. Percebia que tinha cada vez menos tempo.  

Tinha dias que isto me fazia pensar:

- O tempo está passando e não estou fazendo nada de útil, nada de interessante com a minha vida. 

Quando pensava assim, sentia-me aflita. 

Muitas vezes, fragilizada por este pensamentos, procurava entre meus contatos aqueles que pudessem me ajudar a encontrar um emprego em caráter emergencial, que preenchesse todo meu tempo livre. Qualquer coisa que me livrasse da procrastinação.

Mandava currículos aleatoriamente para todas as vagas dos classificados. Foram tantas e tão distintas que eu poderia escrever um livro sobre isto.

Impressionante como os contatos e os anúncios não respondem a este tipo de desespero. Parece que sabem que não é o emprego qie estamos procurando. Parece que percebem que só desejamos nos sentir útil. E isso, infelizmente, não é requisito para contratação.

Para além das percepções dos contatos e recrutadores, está a minha minha percepção do favor que fazem ao não responderem a um pedido confuso em que pedimos para ser útil numa vaga de trabalho na qual logo estaremos sentindo a ausência de sentido.

Nos dias que passamos vendo o sol nascer, vendo o sol se pôr, os passarinhos - do meu antigo relógio ou das árvores - cantando, não estamos procrastinando como ousam dizer, estamos fazendo nosso trabalho de base que, acredito, é cuidar de nós mesmos e das pessoas e bichos que dependem de nós.

No final destes dias talvez nos sintamos procrastinadores e é ruím se sentir assim quando a gente não quer isso pra si. 

Mas querido leitor este sentimento perdura somente até percebermos o quanto já caminhamos, o quanto já lutamos - uma luta que sempre foi entre nós mesmos. 

E aí, se prestarmos atenção, se estivermos presentes, empenhados em nosso crescimento, veremos brotando pequenos raminhos de dentro de nós que irão nos sinalizar a direção certa.

O que você chamava de procrastinação era o tempo necessário para suas raízes encontrarem a água da qual precisavam. Era o tempo necesário para os novos brotos surgirem.

Somos seres humanos querido leitor, não temos compartimentos para pilhas que nos façam funcionar 'perfeitamente' como um relógio e ainda cantar como os passarinhos. 

Há dias em que nossa produção pode e deve se resumir a continuar caminhando. De preferência ouvindo o canto dos pássaros.

4oito

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