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Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 12/05/2018 - 23:15Atualizado em 12/05/2018 - 23:17

Hoje quero compartilhar uma descoberta que fiz na homenagem às mães da escola de minha filha caçula há uns anos atrás.

Quando vi minha foto projetada no telão pensei:

- Faltam filhos meus aí!

Na foto escolhida para a homenagem estávamos apenas eu e minha filha caçula. 

Que vacilo - pensei - tenho outros filhos. 

Mas mesmo que eu quisesse ver ali uma foto minha com todos os meus filhos não conseguiria. Porque não caberiam todos na foto.

Oficialmente, tenho duas filhas.

Mas são incontáveis os  filhos que adotei ao longo de minha vida.

Fui mãe de meus avós, mãe de meu pai e mãe de minha mãe.

Fui mãe de meu irmão e mãe de minhas irmãs.

Fui mãe de meus maridos e de meus "genrinhos", entre aspas, namoradinhos da minha filha.

Fui mãe de filhos de alguns namorados que tive.

Fui mãe de amigas e de amigos.

Fui mãe de primos e até de tios.

Fui mãe de meus sobrinhos.

Fui mãe de amigas das minhas filhas.

Fui mãe de filhas das minhas amigas.


Nenhuma destas mães biológicas me deu seu filho em adoção.

E nenhum destes filhos me pediu para que eu fosse sua mãe.

Alguns, possivelmente, nem queriam!

Mas nada pude - nem eles  poderiam - fazer para me impedir de adotá-los.

A maternidade era tudo o que eu tinha a lhes oferecer, por isso eu a oferecia.

Era o que eu sabia fazer: cuidar - do meu jeito.

Adotava e me mostrava super protetora e até meio possessiva - eis a prova de que não adotava para colher os louros da ação de adotar.

Alguns de meus filhos rebelaram-se, como era previsível. 

Outros esmeraram-se no papel de filho cuidando sempre para que eu estivesse feliz no papel de mãe.


Minha irmã caçula foi a primeira que 'adotei' conscientemente, tipo, sabendo que aquele papel que eu decidira desempenhar era papel de mãe.

Antes dela eu já me relacionava como mãe com muitas pessoas mas ainda não percebia isso.

Enquanto sua 'mãe' assumi, ainda na minha puberdade, sua criação e educação. Tomei para mim, como responsabilidade minha sabe? Não é fácil...

Dei-lhe todo o amor que tinha e ensinei tudo o que sabia.

Confesso que era pouco, assim como era pouca a minha maturidade.

Casei de véu e grinalda - grávida - com minha irmãzinha grudada em minhas pernas.

Como uma mãe canguru, que tem sua bolsa ocupada por outro filhote e diz para o maiorzinho:

- Não posso te levar na bolsa mas grude em minhas pernas e te levarei aonde eu for.

Ela entendeu o recado e grudou. 

Ficou ali durante toda a cerimônia do casamento. Ficou durante a festa. E ficou enquanto aguentou.

Durante minha gravidez ela dormia quando eu tinha sono e eu sentia sono quando ela dormia.

Uma simbiose, sem dúvida. 

Nossos instintos indicavam a direção, substituindo experiência e maturidade

Com o pouco de discernimento que a idade me permitiu, dias antes do parto conversei com minha filha enquanto acariciava a barriga:

- Tem uma criança aqui fora junto comigo te esperando. Ela é pequena, nasceu pouco antes de voce. Eu a amo muito e espero que a ames também.

Minha primeira filha nasceu na condição de primeira filha biológica de uma mãe que já tinha outros filhos. Um deles, sua tia.


Com o tempo percebi que não era possível fazer com que  todos os meus filhos se reconhecessem como irmãos.

Cada um deles com sua singularidade mostrou mais afinidade com uns  e menos com outros.

Ser mãe de muitos filhos não faz, necessariamente, com que todos sejam irmãos.

Mas nunca me senti menos mãe de nenhum deles por isso.


Muito tempo depois...Fui mãe novamente. 

De outra filha biológica.

E de muitos outros filhos que fui adotando pela vida.

Até que tornei-me mãe de mim mesma.

E hoje sou minha própria mãe. 

As mulheres que perderam sua mãe sabem a importância de nos tornarmos mãe de nós mesmas.


Quando digo que nasci para ser mãe não me refiro ao conceito tradicional da palavra mãe.

Não quero os méritos da mãe que é homenageada no segundo domingo de maio.

Nunca fui mãe em período integral.

Não sei o que é estar disponível vinte e quatro horas do dia para um filho. Preciso de um tempo pra mim.

Não sou uma mãe muito prendada.

Exerço outros papéis na vida - além do papel de mãe e não abro mão deles.

Se digo que nasci pra ser mãe e fui mãe desta gente toda é porque, para mim, ser mãe é ter a capacidade de ser feliz através da felicidade do filho. 

Sim! É  sofrer com seu sofrimento também. 

Mas ser mãe - inclusive de mim mesma - é, acima de tudo, encontrar um certo sentido pra vida no sentido que os filhos - todos os filhos - dão para suas próprias vidas.


Sob esse ponto de vista, talvez toda mulher tenha nascido para ser mãe.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 30/04/2018 - 19:19Atualizado em 30/04/2018 - 19:23

Não tínhamos nem completado uma década de vida e já nos questionavam: - O que você vai ser quando crescer?
Embora a pergunta nos direcionasse mais para as questões de ordem profissional já nos davam a entender que éramos nós que decidiríamos que tipo de vida íamos levar.
Rapidamente passa a infância, vem a adolescência e logo surge o vestibular ou a necessidade de trabalhar e ter independência financeira. 
Sem muita reflexão chega a hora de firmar compromisso com as pessoas que nos questionavam e, sobretudo, de firmar compromisso com nós mesmos. 
Chega a hora de 'provar' que nos mantivemos fiéis aos "sonhos de criança".
Ou, que temos outros sonhos agora, pelos quais trabalharemos.
Algumas vezes, mesmo que a resposta que dávamos à pergunta quando éramos crianças não corresponda mais ao que sentimos ou pensamos, nos mantemos fiel a ela na idade adulta.
Isto trás implicações e, em alguns casos, complicações pra vida que a gente leva.
Há pessoas que responderam 'certo' aos cinco ou seis anos de idade - a resposta que deram quando crianças, continua valendo agora que são adultos.
Há outras pessoas que reconheceram que a resposta que deram era válida tão somente para aquele momento da vida e hoje têm outras respostas para a mesma pergunta. 
E há pessoas que mesmo agora, na idade adulta, não responderam para si mesmas de forma consciente e almejam uma oportunidade de fazê-lo.
Você se inclui em alguma dessas condições?
Destino ou escolha? 
Como você vê os caminhos que o trouxeram até o atual cenário de sua vida profissional?
Escolhemos ou somos escolhidos?
Há teorias que nos levam a acreditar que nossa vida é fruto de nossas escolhas. 
Há outras teorias que tentam nos tirar o peso da responsabilidade sobre nossas escolhas, contrapondo-as a um universo de questões culturais, econômicas e sociais, no qual afundam.
Se não há argumento contra o fato de que 'de barriga vazia não conseguimos nem pensar direito', imagine quanto a fazer escolhas conscientes nesta condição.
Posto isto, se a necessidade básica é de alimentar-se e, se para tanto, é necessário um trabalho, o primeiro que aparecer é o que irá nos escolher.
De barriga cheia, no entanto, as possibilidades parecem ganhar outra dimensão. Entram em cena os quereres. Quero isto, não quero aquilo.
Se prestarmos muita atenção veremos que determinadas atividades nos acenam de leve, ao longe, nos dizendo sutilmente: eu escolho você.
A medida que nos aproximamos delas nos sentimos acolhidos e temos a sensação de que nos escolheram mesmo.
Mas ao analisarmos nossos passos, percebemos claramente o movimento que fizemos, descartando outros caminhos para seguir nesta direção.
É aí que surge novamente a questão: Escolhemos ou somos escolhidos?
Nas nossas caminhadas existenciais, aprendemos que as coisas não acontecem somente porque queremos que elas aconteçam, é necessário que nos empenhemos em torná-las realidade.
E em alguns casos, todo o nosso esforço não é suficiente e  precisamos contar com o universo e esperar que ele conspire a nosso favor.
Nos relacionamentos e na profissão, há pessoas que escolheram e há pessoas que foram escolhidas.
E há, é claro, alguns sortudos que tiveram o privilégio de ser escolhidos pela pessoa e profissão que escolheram. 

Para exemplificar:

Se você tem dezesseis ou dezessete anos e resolve casar, seu relacionamento é avaliado como 'fadado ao fracasso' pela maior parte das pessoas, porque nesta idade, acreditam,  é difícil distinguir  paixão de amor e você pode estar entrando de cabeça numa relação que tem  prazo de validade - dezoito a trinta meses dizem os mais céticos. Depois disso, cessam  todas aquelas sensações provocadas pelo estado alterado do seu cérebro.  Neste momento do relacionamento você fica com o ônus e o bônus, quando não desaparece, diminui significativamente. 

Não obstante, estas mesmas pessoas exigem que você, nesta mesma idade, tenha clareza do curso que irá escolher para prestar vestibular. O Ensino Médio está acabando  - ou você já está cursando um pré vestibular  - e não pode ter dúvidas em relação ao curso que irá escolher.

Frequentemente não é o amor pela profissão que faz com você a escolha, pois você não a conhece intimamente. Talvez você se encante por ela, possivelmente mais por suas características atraentes do que por conhecê-la profundamente. 

Imaginemos um(a) jovem que escolhe um curso universitário aos dezesseis anos e que casa-se nesta mesma idade. Em ambos os casos os elementos internos dos quais disponibiliza para firmar-se ao fazer suas escolhas ainda são precários pois recém está saindo da adolescência - ou passando por ela - fase onde acontecem várias mudanças físicas, psicológicas e comportamentais. Está tudo em transição, tudo em 'ebulição'. Nesta fase podemos nos apaixonar por muitas pessoas e profissões.

Alguns jovens mais decididos dizem que desde crianças sabiam qual seria sua profissão. São como jovens prometidos para o casamento. A diferença é que eles mesmos se prometeram e estão em paz com isso. Mas não são a maioria. 

A grande maioria terá que casar com o curso, dormir e acordar com ele, com a responsabilidade de continuar com ele, de cumprir com suas obrigações para com ele, mesmo não estando pronta para isso. 

Percebem que este mesmo exemplo se aplica aos relacionamentos afetivos nessa faixa etária?

É interessante! Você concorda que é jovem demais para casar quando está cursando o Ensino Médio.  Mas  você casa, nesta idade, com o curso universitário, por exemplo.

Estamos sempre fazendo escolhas. Meu alerta é para a qualidade das escolhas que fazemos, que dependerá, em alguns casos, da nossa maturidade para faze-las.

Mesmo que nós, adultos, ao observarmos nossos filhos ou alunos, tenhamos consciência que são jovens demais para estas escolha, não temos muito o que fazer para ajudá-los. 

Somente a vivencia poderá transformá-los em sujeitos de suas vidas, autores de sua história, responsáveis pelas consequências de todas as escolhas que fizeram e que ainda farão.

A vida validará, ou não, estas escolhas.

Foi assim conosco não é mesmo?

Assim será com nossos filhos, assim será com nossos alunos.

Se não temos escolha a não ser aceitar o que a vida nos impõe  talvez estejamos olhando para o destino.

Em todas as situações de vida que tivermos mais de uma alternativa estaremos fazendo uma escolha.

Feitas as escolhas, a vida que se delineará para nós  será pura e simplesmente resultante delas.

Não adianta culpar o destino quando você pode escolher de novo. E de novo.. E de novo a cada dia.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 21/04/2018 - 18:27Atualizado em 21/04/2018 - 18:29

Síndrome de Burnout, um nome difícil para um diagnóstico relativamente simples: esgotamento profissional. Acomete principalmente  a pessoa que tem como característica o desejo de ser o melhor naquilo que faz e que está sempre em busca de um alto grau de desempenho. Mas, não vou me ater ao conceito, vou exemplificar.

 

Você acordava, vestia a roupa adequada para os compromissos do dia, tomava seu café da manhã e saía em direção ao trabalho. 

Os dias eram cheios e, em alguns deles, você 'esquecia' o horário de almoço. 

Eram tantas coisas para fazer que, de repente, você se dava conta que não tinha conseguido um tempinho nem para 'fazer xixi'. 

Um refrigerante e um pacote de salgadinhos foi o máximo que você comeu em muitos dos seus dias naquele trabalho. 

Você tinha um horário combinado para voltar para sua casa e, todos os dias, quando este horário se aproximava olhava para o relógio e pensava consigo mesmo: -Precisarei ficar até mais tarde outra vez. 

Você chegou a comentar com alguns colegas que sentia-se 'adrenalizado'. Esta parecia a explicação mais plausível  para o que acontecia com você, que oscilava entre adrenalizado e morto-vivo (um zumbi de tão cansado). Só podiam ser descargas de adrenalina  que o levavam adiante. Descargas estas desencadeadas pelo desejo de acertar, mostrar serviço, atingir sua meta, de agradar. Ou desencadeadas pelo medo de errar, de passar por incompetente, de fracassar, de cair na antipatia do chefe. 

O que mais explicaria a necessidade cada vez menor de sono, seu pé pisando no acelerador de forma inconsequente no trajeto para o trabalho, pular as refeições principais, esquecer de compromissos pessoais, chegar em casa exaurido, sem ânimo para conviver com as pessoas que você mais ama, sem forças para cuidar de si mesmo com a gentileza que merece e, ainda assim, acordar pronto para mais um dia deste? 

Mas você nem pensava, funcionava num moto contínuo, cientificamente inexplicável. Você nuca refletiu, não se ocupou em compreender. 

Até que parou. 

Parou sem desejar parar. 

Você foi ao trabalho naquele dia, chegou antes do horário e, provavelmente, sairia depois, pensou. 

Se houve algo de diferente foi que você se deu conta disso - e de algum modo, de todo o resto. 

Você percebeu que ainda não havia amanhecido totalmente quando chegou - era horário de verão. 

Pensou que, talvez, pudesse aproveitar o resto do dia com sua família porque se havia uma vantagem nessa época era o fato de que anoitecia mais tarde. 

Mas  aquele dia não passava. 

Você não sentiu a adrenalina e ficou difícil  trabalhar assim.  

Todas as atividades que tinha para realizar se tornaram muito complexas. 

Você começou a se questionar. 

O que você estava fazendo ali? Por que tinha se ariscado tanto naquelas estradas? Há quanto tempo não via seus amigos? Qual fora a última vez que ligara pra seus pais? 

Se deu conta, incrédulo, de que não ficara para a festa de casamento de sua irmã porque estava cansado demais. 

De repente nada mais fazia sentido. 

Então você não conseguiu mais pensar. Você só conseguia sentir. 

E tudo o que queria era ir para sua casa. 

Estava catatônico e seu chefe perguntou o que estava acontecendo. 

Você lhe disse que queria ir embora. 

Você foi. 

E não voltou mais. Ou, ficou sem a menor vontade de ficar e, pior, sem energia alguma para realizar seu trabalho.

Este é um exemplo de como a Síndrome de Bournout pode se processar.

 

Agora, pergunto a quem se identificou ou identificou alguém nesse relato:

Se você pudesse diminuir sua carga horária diária ou semanal, a quantidade de trabalho que leva para casa, suas atividades profissionais no fim de semana, o tempo que passa em aviões, carros, metrôs e ônibus em função de seu trabalho, você realmente diminuiria?

São frequentes as queixas de pessoas cansadas e estressadas com o tempo que precisam dedicar ao trabalho, com os prazos e as metas a cumprir, com os trajetos que precisam fazer para buscar suas encomendas ou fazer suas entregas. 

Quando estamos imersos no trabalho, seja ele qual for, não percebemos que entramos em uma espiral, nem sempre ascendente. 

Muitas vezes, todos os nossos esforços, nossas energias, o melhor de nós, são canalizados para atingirmos bons resultados profissionais. 

Quanto mais nos empenhamos, mais enxergamos tarefas a executar, correções a fazer, objetivos a conquistar. 

Se está bom, achamos que pode ficar melhor. Se está ótimo, desejamos a excelência. Passamos a funcionar como ratos da caixa de Skinner, temos reforços positivos para comportamentos esperados, seja um aumento de salário ou reconhecimento profissional. O mundo do trabalho, porém,  não é uma caixa e nós não somos ratos. Por mais que nos esforcemos, nem sempre obtemos os resultados desejados.

Algumas pessoas verbalizam seu cansaço. Outras o evidenciam através de seu olhar, expressão facial, postura, distrações e - por que não dizer? - de suas somatizações.

Como doem nossas cabeças. Como queimam nossos estômagos. Quantas alergias surgem em nossa pele.  Como facilmente cai a resistência de nossos corpos. Quantas inflamações. Quantas "ites". 

Há muito se sabe que o corpo fala. Mas você o ouve? Você se permite ouvi-lo? 

Muitos simplesmente não conseguem parar. Não podem, talvez. Precisam se manter ocupados e trabalhar arduamente para não se deparar consigo mesmo. Para não ter que enfrentar seus fantasmas, medos, problemas, sua solidão.

Nunca nos faltarão motivos para continuar um ritmo frenético de trabalho. 

Um padrão de vida que queremos manter ou melhorar. Filhos para criar. A manutenção do carro. O financiamento da casa. As prestações a pagar. Sonhos que somente com muito trabalho vamos conquistar. O amor pela profissão. O prazer que ela proporciona. 

Mas, é isto mesmo?

Nas redes sociais há uma comoção geral quando chega a sexta feira. Há os que fazem apologia à mesma, alardeando-a como uma carta de alforria. E há um movimento contrário que apregoa que aqueles que fazem o que gostam, esquecem o dia e não tem o que comemorar no fim da semana, afinal todo dia é dia de ser feliz.

Independentemente da sua resposta à pergunta do início deste texto, sempre haverá a hora de parar, seja por vontade própria ou necessidade. Às vezes, a própria Síndrome de Burnout leva a parar! É preciso estar pronto para isso. 

Precisamos aprender a ficar a sós e em silêncio, na companhia de nós mesmos. Porque este é o encontro que adiamos a vida inteira, com todas as coisas que inventamos para fazer.

Comecemos comemorando a sexta feira e o fim de semana. 

Mais do que isso, aproveitando-os para descansarmos e estarmos com que escolhermos. Mas, sobretudo, em nossa própria companhia.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 12/04/2018 - 21:37Atualizado em 16/04/2018 - 16:04

Nos últimos dias vimos a rivalidade elevada ao nível máximo nas discussões políticas entre brasileiros de lados opostos.
O senso comum sempre nos alertou para o fato de que não devíamos discutir política, assim como não devíamos discutir futebol e religião.
Porém, já estamos bem distantes da época em que "sobrevivíamos apesar de Brasilia" - como disse em uma de suas entrevistas o psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes.
Atualmente não conseguimos sobreviver sem fazer a nossa parte para mudar o que acontece em Brasilia. 
As discussões sobre politica estão acontecendo com frequência entre familiares, colegas de trabalho e amigos - mesmo que estejamos carentes de fontes confiáveis e seguras para fundamentar nossos argumentos e, embora, muitas vezes tenhamos que nos basear em informações de baixa qualidade ou ainda confiar em notícias sem que tenhamos como fazer os devidos questionamentos sobre as mesmas. Está aí a internet que não me deixa mentir!
Nas redes sociais não tememos fazer afirmações polêmicas pois estamos protegidos, olhando para a tela do computador ou celular e não nos olhos do nosso interlocutor. Torna-se fácil argumentar com informações fictícias, contra-argumentar com fake news e depois xingar, bloquear e/ou desfazer a amizade.
Nas redes sociais, o defensor de direita ou de esquerda encontra um território propício para entrar em rivalidade pois sua integridade física esta assegurada. É importante dizer, que o mesmo não se aplica necessariamente a sua integridade mental pois é cada vez maior o número de pessoas que deixam as redes temendo por sua sanidade. Estes são os mais sensíveis à fala do outro, que não resistem a tomar partido mas depois sofrem com as agressões verbais recebidas.
No bojo da rivalidade existente em nosso país vem crescendo o ódio que fere através de palavras ditas e não ditas - ou que não são mais permitidas nas redes sociais. 
Na vida real, sem a tela do computador como escudo de proteção, em suas casas ou fora delas, nas ruas, nas praças, nos locais de protesto, a rivalidade toma outra dimensão: delimita territórios, divide, segrega, separa inclusive pessoas que tem fortes vínculos afetivos. 
Os últimos dias no Brasil não nos ensinaram apenas sobre cidadania e justiça - ou a falta dela - ensinaram também como é torpe, tanto a vitória quanto a derrota, para quem não sabe competir. 
Para nós e nossos filhos, infelizmente, uma lição de NÃO saber ganhar e de NÃO saber perder. 
Esses últimos dias assemelharam-se ao final de um campeonato, em seu jogo decisivo que, lamentavelmente, torna-se violento.
Que tem torcida contra torcida, indo as vias de fato e que, mais muito mais do que a favor de seus times, querem acabar com o oponente.
Assemelharam-se em certa medida também aos conflitos que acontecem em nome da religião onde os fanáticos religiosos até matam e morrem em nome do que acreditam.
Na politica, assim como na religião e no futebol, a paixão pode cegar.
A cegueira passional tolhe o direito de expressão, seja lá o que for que queiramos expressar, entorpece o pensamento das pessoas a ponto de quererem homogenizar as falas numa tentativa inglória de homogenizar os diferentes pensamentos. 
Nós nunca pensaremos de modo igual ainda que tenhamos ideais semelhantes pois os caminhos para se chegar a um mesmo lugar podem ser muitos. 
Ao expressarmos nossos ideais políticos, muitos de nossos princípios e valores ficam expostos e essa é a liberdade de expressão a que todos nós temos direito. A rivalidade política vigente tenta nos roubar esse direito.
Está difícil acreditar que podemos ser apenas competidores de lados opostos em termos de politica mas com um objetivo em comum: fazer o Brasil dar certo. Porque um lado está simplesmente negando o outro, não há mais diálogo entre os diferentes lados, o que nos faz questionar: como um país pode dar certo com um povo rejeitando o diálogo e cultivando a rivalidade entre si? 
Tudo isso reflete nas relações...
Muito do que acontece nas relações nesse tempo de rivalidade politica é competição - a boa e velha competição para ver quem ganha. Todos nós competimos, alguns são mais ou menos competitivos mas, se analisarmos com sinceridade nossas relações familiares, no trabalho, relações de amizade, namoro, casamento, etc, perceberemos que a competitividade existe pelo menos em uma dessas relações, quando não em mais de uma ou, até mesmo em todas - no caso dos mais competitivos. Isso em si, não é bom nem ruim, pode ser importante pois nos localiza em relação ao outro e, tendo o outro como referência, competir com ele pode ser a mola propulsora para nos aproximarmos daquilo que desejamos. O problema reside no fato de que em nome da competição tornemos o outro um inimigo, um rival que precisa ser destruído para que nós possamos ganhar.
Tomando como verdade o fato de que a responsabilidade dos rumos políticos do Brasil é nossa - e isso significa dizer que precisamos vigiar constantemente nossas ações para não incorrermos nos mesmos erros dos políticos que criticamos - podemos competir pelas melhores ideias e propostas, seja nas ruas ou nas urnas, competição esta que terá efeito na nossa motivação por um país melhor e até no nosso desempenho em busca disso.
Mas seja na politica ou nos relacionamentos, para competir está faltando capacidade empática. Só a empatia pode quebrar os muros erguidos pela rivalidade. Empatia: a capacidade de se colocar no lugar do outro e tentar sentir o que ele sente, como ele sente, de que jeito ele sente. 
Só a empatia pode nos levar a autocrítica que pode nos devolver a capacidade de diálogo e nos fazer adicionar novamente aquele amigo excluído do Facebook durante o impeachment da ex-presidenta ou a prisão do ex-presidente.
Para quem prioriza os relacionamentos, fica a dica.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 03/04/2018 - 17:34

Na semana passada falamos sobre o Ninho Vazio.

Os filhos crescem e a gente envelhece.
E é justamente quando os filhos crescem e vão viver suas vidas ou, quem não tem filhos, entre 45 e 55 anos, que o envelhecimento se evidencia com mais intensidade.
Em algum momento todos nós, sem exceção, olhamos a imagem refletida no espelho e estranhamos. Como envelheci neste ultimo ano - nós pensamos - ignorando o fato de que envelhecer é um processo que acontece diariamente, sem pausa e sem trégua.

Depois de vinte anos sem ver o amigo, nos deparamos com ele no corredor do supermercado e, estupefatos, pensamos: - Nossa! Como ele envelheceu! 

Mas...O que esperávamos? Que rejuvenescesse ao longo das duas décadas? 

Provável e lamentavelmente sim, é o que esperamos.

Afinal, é este o apelo generalizado através de promessas milagrosas da indústria dos cosméticos, dos procedimentos estéticos e das intervenções cirúrgicas: rejuvenesça!

Assim como o nascimento, o crescimento e o amadurecimento, o envelhecimento faz parte da vida. 

É inevitável e, sob certo ponto de vista, um privilégio pois, morrer cedo é a unica alternativa para o envelhecer.
Porém, de uns tempo pra cá, esse é o ponto de vista de poucos. 
A sabedoria que sempre foi valorizada e associada aos mais velhos perdeu espaço e credibilidade para a jovialidade ou o frescor da juventude. 
Velho respeitado, hoje em dia, é o velho jovem de corpo, mente e espirito. 
A mulher velha, a que se permitiu envelhecer, via de regra é considerada desleixada ou, na melhor das hipóteses, é tida como uma mulher sem vaidade, o que muitas vezes leva a julgamentos do tipo:  - autoestima baixa, falta de amor próprio, descaso com aparência - até o cruel e taxativo: embarangou!
A verdade é que a ação do tempo em nós é implacável; rugas, flacidez, perda dos contornos, ganho de peso; tudo isso e muito mais é parte do pacote denominado ENVELHECER.
Depois do fotoshop e de todas as intervenções estéticas, desde as minimamente invasivas até as que nos quebram e sugam sem piedade, envelhecer tornou-se "opcional". Entre aspas a palavra opcional.
Obviamente a ideia de adiar os resultados do processo de envelhecimento pode ser muito sedutora, algumas pessoas até justificam dizendo que as oportunidades de trabalho aumentam assim como as chances de conseguir um novo parceiro. 
Mas a verdade é que viver é despedir-se.
Assim como nos despedimos de nossos filhos quando deixam nossos lares, ou como nos despedimos dos nossos pais quando deixam esse mundo, temos que nos despedir de nós mesmos...  um pouco a cada dia.
Quem chega aos cinquenta pensando, sentindo e vivendo como pensava, sentia e vivia aos vinte anos? 
Nossas conquistas, nossas perdas, nossas vitórias e nossas derrotas não nos permitirão o auto-engano. 
Por que o corpo deve aparentar vinte anos se ele abriga memórias de mais de quarenta anos de vida?
Por que o rosto deve aparentar no máximo trinta anos se as nossas lembranças tem registros de cinquenta anos de vida?
Porque sim, porque queremos, porque podemos, são respostas que denotam o poder das escolhas.
Podemos escolher adiar ao máximo o envelhecimento, aparentando ser mais jovens do que realmente somos por tempo indeterminado.
Assim como podemos, também, escolher envelhecer sem adiamentos.
Permitam-me falar sobre esta escolha: ENVELHECER. 
Particularmente, não quero parecer jovem. Não quero parecer irmã da minha filha. Não quero elogios comparativos que fazem com que uma das partes saia lesada. Na verdade, eu nem considero este tipo de referência elogiosa. Quero envelhecer, faço questão disso! Ainda que eu sinta falta de muitas coisas que ficaram para trás com a juventude, folgo em saber de todos os meus ganhos por ser uma mulher madura. 

Neste ano faço cinquenta anos.Eu nunca consegui imaginar como seria viver todos estes anos. Mas eu os vivi. E eles me trouxeram cabelos brancos, rugas e muitas outras mudanças no corpo. 
Eu tenho um carinho enorme por todas estas mudanças, talvez até um apego, para que, além de mim, outras pessoas também possam constatar o óbvio: eu estou envelhecendo. 
Isso é sobre o direito de permitir que o tempo deixe suas marcas em nós.
Não é fácil, há quem não saia de casa sem maquiagem ou com o botox vencido. 
Há quem diga que não é a mesma coisa encontrar conhecidos na rua depois que inventaram os filtros do instagram. Não apenas porque não querem ser vistos com todas as suas imperfeições mas, também, porque lhes custa ver o outro como é, sem a luz ideal, sem o angulo perfeito, sem retoques, sem filtros.
Quanto a mim estou curtindo esta fase da vida. Se tiver sorte, vocês me verão a cada ano um pouco mais velha. E eu gostaria de ter reconhecido meu direito a ter cinquenta anos na cabeça, na alma e no corpo. Especialmente no corpo. Estou envelhecendo e estou feliz por isso. 
Como já cantou Arnaldo Antunes: "Não quero morrer pois quero ver Como será que deve ser envelhecer Eu quero é viver pra ver qual é E dizer venha pra o que vai acontecer."

E eu te convido a, esporadicamente, dizer não aos mecanismos antienvelhecimento.
Não é fácil, mas pode ser extremamente libertador. 
É que em ultima análise, considerando os aspectos que comentei, esse é um ato de rebeldia contra a ditadura da beleza.
É uma desobediência. 
É dizer um NÃO entre todos os SIM que a gente precisa dizer.
E, talvez, este seja o NÃO que a gente está precisando dizer.

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 27/03/2018 - 17:39Atualizado em 03/04/2018 - 16:01

Quem é pai ou mãe sabe...

A gente ainda nem aprendeu a lidar com aquelas lembranças da nossa infância que insistem em permanecer, mesmo contra nossa vontade e quando percebemos já estamos lidando com a infância dos nossos filhos.

Aí, vamos deixando de lado as lembranças e questões mal resolvidas da nossa infância e adolescência e tratamos de ser um bom pai/uma boa mãe pra acompanhar a infância e adolescência deles.

O tempo vai passando e, entre alegrias e tristezas, nossos filhos  vão crescendo e a gente vai amadurecendo, na marra algumas vezes.

Porque por mais que nós priorizemos a criação e educação de nossos filhos, a nossa existência continua a exigir de nós.

Exige equilíbrio ao mesmo tempo que exige certos malabarismos.  Exige serenidade ao mesmo tempo que exige firmeza.

Exige sabedoria e, as vezes, exige que a gente chute o balde mesmo.

Exige resiliência e as vezes exige renuncia, desistência.

A vida exige que a gente a curta mas pra isso ela nos exige exige trabalho.

Então vamos administrando nossas vidas com todas as suas exigências, mais as questões mal resolvidas que insistem em permear tudo isso e, paralelamente, administramos a vida dos nossos filhos.

Na prática é assim:

Nasce o primeiro dentinho enquanto  a gente está lá tentando ficar mais bonito...fazendo um clareamento dentário.

Dão os primeiros passos enquanto a gente está buscando coragem pra encarar os desafios da vida, CAMINHAR e seguir em frente

Vão ao primeiro dia na escolinha enquanto a gente decide se volta ou não ao trabalho.

Chega o dia da  formatura da pré escola e a gente tem a festa dos quinze anos de formados do ensino médio. No mesmo dia!

Enfim o primeiro dia de aula no colégio grandão, primeiro ano... e a gente revive toda a nossa história dentro daquele mesmo colégio ou outo semelhante.

Eles escolhem a profissão enquanto a gente está insatisfeito com o trabalho, querendo dar outro rumo a nossa vida profissional.

Eles vão para a faculdade enquanto isso a gente se questiona sobre o que realmente quer da vida.

Eles encontram o amor da sua vida enquanto a gente vive  uma crise no casamento.

Eles vão morar fora enquanto isso a gente ali... na eterna duvida sobre deixar ou não o Brasil.

Eles voltam e um tempo depois eles nos comunicam que vão sair de casa, querem morar sozinhos.

Então...

Enquanto vivem as descobertas da liberdade e independência, nós descobrimos por experiencia própria o que significa a síndrome do ninho vazio.

Nós que sempre nos queixamos de ter que renunciar as nossas próprias lembranças, inseguranças, traumas e questões mal resolvidas como pai e mãe, agora temos tempo e espaço de sobra pra isso.

Porque ninho vazio é isso, tempo e espaço de sobra... não precisamos mais nos ocupar com as questões dos nossos filhos.

E sem saber o que fazer com isso começamos a remexer em baús de lembranças e rever fotografias e relembrar a infância deles... e a nossa própria infância.

E em determinado momento as lembranças da infância deles se confundem com as nossas próprias lembranças de infância. Pensamos em como agimos com eles e quando percebemos estamos pensando como nossos pais agiam conosco

e, as vezes, ficamos chocados como nossos erros foram semelhantes ao que nossos pais cometeram quando éramos crianças.

Noutras vezes, é a lembrança da rebeldia deles que é inacreditavelmente igual a que nós mesmos vivemos na nossa adolescência.

No tempo e espaço do ninho vazio a gente passa o passado todinho a limpo, pelo menos na nossa cabeça.

E a gente teme que eles nos culpem por seus traumas  e inseguranças.

Mas sabemos que um dia nos verão com olhos de pais.

E então poderão nos perdoar e aceitar como somos, com nossos erros e acertos.

Até porque, ao menos é o que se espera, a essa altura da vida, adultos com filhos adultos, nós também já perdoamos nossos pais.

 

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