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Só eu que não tenho um dom?

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 30/01/2019 - 19:24Atualizado em 30/01/2019 - 19:32

Conversávamos sobre dons - talentos que considerávamos inatos.

A roda de conversa era pequena e rapidamente identificávamos em nós mesmas e nas demais o dom que se destacava.

Porém, havia uma de nós que não falara e da qual ninguém falara também.

Até que ela se manifestou:

-  Acho que só eu não tenho um dom.

Rapidamente, incomodadas por aquela afirmação, nos pusemos a convencê-la do contrário. 

Mas ela estava convicta.

Nada do que dizíamos a seu respeito representava-lhe um dom.

Quando, unânimes, lhe dissemos que o trabalho que realizava era um grande dom, ela nos respondeu:

- Não se refiram ao que faço diariamente como trabalho remunerado. Falem do dom revelado nas coisas que faço por puro prazer ou porque manifesta-se forte e naturalmente em mim. 

Estava desafiando-nos a indicar-lhe uma vocação? 

Talvez.

Não soubemos o que dizer-lhe naquele momento.

Mas para sua sorte - ou azar - eu a conheço desde que nasceu e nossa diferença de idade permite-me recordar claramente de toda sua infância.

Falar daquela menina brincando, sonhando, fazendo o que gostava de fazer me pareceu a resposta.

.

Era uma menina que adorava descobrir. A descoberta a deixava feliz.

Perdi aquela menina de vista várias vezes quando ela embrenhava-se nas casas e quintais desconhecidos, os quais vistávamos pela primeira vez. Quando eu a encontrava, ela já conhecia todos os cômodos da casa, todas as árvores do quintal.  E eu a encontrava feliz.

Eu a perdia de vista muitas vezes porque era fascinada pelo íntimo e privado. Interessava-lhe, mais do que minha companhia, descobrir onde ficavam os quartos dos fundos, os banheiros, as gavetas, os  livros e tudo o que não deveria mexer. Tudo ela escarafunchava pelo simples prazer da descoberta. Voltava após suas descobertas com o rosto feliz.

Sempre esteve entre os maiores aventureiros com os quais convivi. Os meninos da vizinhança a tinham como uma mascote. Carregavam-na junto com eles para a partida de taco, para as peladas,  para os circuitos de bicicross. E de lá voltava feliz.

Nas trilhas, em montanhas ou desfiladeiros, partia com os primeiros e voltava com os últimos. Levei alguns sustos com sua demora em voltar. Por vontade própria ou levada por alguém, esteve em lugares nos quais eu, bem mais velha do que ela, nunca estive. Partia e voltava feliz.

Era muito atenta a muitas coisas ao mesmo tempo.  Atenta e sorridente. Sempre com o olhar feliz.

Permitia que a irmã a maquiasse e produzisse inteira para ser fotografada como boneca. E na sequencia seguia para o campinho de futebol com seu irmão. Tinha uma versatilidade admirável. E transitava feliz entre cenários contrastantes.

Não se deixou intimidar por sua própria timidez. Sempre precisou de amigos e, quando não tinha, ela os criava. Por um bom tempo convivi com ela e quatro de seus amigos imaginários: Pipa, Páqua, Cícero e Biguá. Ela dava-lhes tanta vida que existiram até para mim. Para onde íamos seus quatro amigos imaginários iam juntos. E ela seguia feliz.

Dona de uma energia contagiante, mesclava sensibilidade e entusiasmo. Era sensível e amorosa. Mas nunca 'sentimentalóide' nem 'melosa' - como ela mesma fez questão de afirmar anos depois.

Onde estivesse, naquilo que estivesse fazendo; entregava-se, era inteira. Cantava alto. Ria muito. Corria. Pulava. Fugia do que a deixava infeliz. 


Naquele dia na roda de conversa, os dons dos quais falávamos e que julgávamos ter, nada mais eram que aspirações, desejos e sonhos de criança.  Coisas que não nos furtávamos de vivenciar mesmo depois de adultas. 


Relembrando a infância daquela menina e contrapondo-a a sua vida de adulta não tive dúvidas em, posteriormente, lhe afirmar: o seu dom era extrair alegria de todas as suas vivências. 

 

E você querido leitor, qual é o seu dom?

4oito

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