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* as opiniões expressas neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do 4oito
Por Henrique Packter 21/03/2022 - 06:45

Às vezes é bom ler a bula dos medicamentos receitados e que vamos utilizar.

Dona ROSE é minha cliente desde os tempos em que seu marido era gerente de banco em pequeno município do sul catarinense. Tinha um casal de filhos e a filha, que era estrábica, também consultava comigo.

Mais tarde, marido já falecido, passa a residir em Florianópolis, visitando-me quase que anualmente, exceto por esse período pandêmico. Como se recorda, atendo clientes em Floripa dois dias por semana.

Na última consulta ainda em 2019, durante a anamnese, relatou queixas que despertaram minha curiosidade de médico. Retorna agora, esfriada o auge da onda covídica, ainda com as mesmas queixas. Pergunto-lhe dos remédios que utiliza. Desfia então, longa relação de drogas:

- Uso DIOVAN, RECONTER, MANIVASC, ALDACTONE, ILUDRAL, CONCOR, PROMESTIENO.

- E o que a senhora sente ou tem, mesmo com os medicamentos que utiliza, além deste sinal que é um cisto palpebral no olho direito?

Dona Rose abre sua bolsinha e de lá retira amassada folha, cheia de garatujas, que passa a consultar.

- Tenho alergia cutânea (prurido, coceira), rush, urticária, às vezes com febre, dor nas juntas, dor muscular, ínguas, sintomas de gripe; manchas vermelhas-arroxeadas na pele, sinais de inflamação nas veias, sobretudo nas pernas. Já operei as varizes, mas dor, ardume nas pernas, continua. Dizem que é vasculite. Tenho também sangramentos anormais, hematomas.

- Pois dona Rose, tudo que a senhora falou consta nas complicações do DIOVAN, medicamento utilizado para tratamento de pressão alta, insuficiência cardíaca e pós infarto do miocárdio.

- Já tive episódios de arritmia cardíaca, observados no eletrocardiograma. Para isso, uso RECONTER, mas andei lendo por aí que não devo tomar RECONTER se estiver em uso de medicamentos para tratar arritmia cardíaca ou que podem afetar o ritmo cardíaco.

- E quanto ao MANIVASC?

- Uso, embora sofra de problemas coronarianos e no ventrículo esquerdo. Tenho também problemas de intolerância a alguns tipos de açúcar (como, lactose). Parece que Manivasc não combina com esse meu problema...

- Usa a senhora ALDACTONE? Ele produz cistos palpebrais como esse que está pendurado aí na pálpebra superior do seu olho direito. ALDACTONE origina neoplasmas benignos, malignos e não específicos (incluindo cistos e pólipos nas pálpebras); neoplasma benigno de mama. Pode acarretar leucopenia (baixa do número de glóbulos brancos, incluindo agranulocitose), e baixo número de plaquetas. Tenho excesso de potássio no sangue, e sei que tudo isso pode ser consequência do ALDACTONE.

Tenho dor e aumento das mamas, distúrbios menstruais, mal-estar, sonolência, cansaço, cefaleia, fraqueza, fadiga, perda de apetite, depressão, hostilidade, agressividade, insônia, nervosismo, irritabilidade. Tudo isso não é nada perto do que me aconteceu após começar uso de ILUDRAL. Tive   convulsão, distúrbio do equilíbrio, tontura, tremores, vertigem (sentindo estar rodando), tosse, dor abdominal, diarreia, indigestão, vômito, náusea.

Tenho Rush (prurido, erupção na pele), eczema, aumento de peso, instabilidade emocional/mudança de humor, agitação. Amnésia (perda de memória), coordenação anormal (impedimento dos movimentos coordenados), distúrbio de atenção (perda de concentração), prejuízo de memória. Tive às vezes diplopia (visão dupla), visão borrada.

Mialgia (dores musculares), infecções, distúrbios de personalidade, pensamentos anormais, hiperatividade, número reduzido das células do sangue e plaquetas, redução acentuada de granulócitos (um tipo de glóbulo branco), baixa taxa de sódio no sangue. Em outras vezes tive perda de peso.

Fui encaminhada ao psiquiatra por distúrbios psicóticos, alterações do comportamento, alucinação, ira, delírio, ansiedade, confusão, pânico! Tudo por conta dos remédios! Com ILUDRAL tive sensação de formigamento, passei por movimentos repetitivos involuntários contínuos, uniformes, lentos e rápidos, letargia, andar estranho, agravamento das crises epilépticas.

- Este medicamento parece que ataca o fígado...

- Nem lhe conto! Tive teste anormal da função hepática, quase falência hepática, hepatite, perda de cabelo, pancreatite, dano renal agudo. Precisei usar CONCOR e meu médico quis saber se tenho diabetes ou doenças cardíacas como perturbações do ritmo cardíaco, problemas do fígado ou rins, problemas menos graves de circulação sanguínea nos membros. Concor é medicamento a ser evitado em pacientes com doenças obstrutivas pulmonares, a menos que existam razões clínicas relevantes para seu uso. Isso tudo, para evitar complicações. Também Psoríase ou histórico de psoríase (doença da pele em que aparecem manchas vermelhas, frequentemente com escamas de cor prateada); doenças da tiroide -, pode haver surgimento ou piora. O doutor queria saber se eu estava para ser submetida a terapia de dessensibilização (vacinas para alergias), pois Concor® pode aumentar a probabilidade de ter reação alérgica ou que essa reação seja mais grave; anestesia (por exemplo, para cirurgia): Concor® pode influenciar o modo como seu organismo reage a estas situações.

Por Henrique Packter 15/03/2022 - 16:43 Atualizado em 15/03/2022 - 16:43

CAÇANDO NA SERRA

Nos anos 60 e 70  muitas personalidades criciumenses, nas épocas em que a prática da caça a animais dos altiplanos era permitida, subiam em caravanas a Serra do Rio do Rastro para embrenhar-se nos matos e matas em busca do prazer trazido pelo esporte de reis. O percurso era  sempre o mesmo e as personagens também. Entre os mais assíduos caçadores vou destacar o médico Dino Gorini e o juiz Francisco May Filho.

O ROTEIRO

Criciúma a Lauro Muller = 51km

Lauro Muller a Bom Jardim da Serra = 35km

Bom Jardim da Serra a São Joaquim = 46km

Descer (ou subir) a Serra do Rio do Rastro sempre foi uma aventura. O trecho ultrassinuoso da SC-438, com 284 curvas, fica entre Lauro Müller e Bom Jardim da Serra de 23 km. A partir de Lauro Müller, os primeiros 16 km são asfaltados. Nos outros 7 km (total 23km), em concreto, a emoção é outra: subidas íngremes e curvas de 180°. Há vários mirantes para admirar o visual.

São Joaquim é próxima das cidades de Bom Jardim da Serra (46 km), Urubici (60 km) e Urupema (78 km). Bom Jardim 1232ms, São Joaquim 1354ms. Com 2.993,80 m de altitude o Pico da Neblina é o ponto mais alto do Brasil.

A serra do Rio do Rastro localiza-se no município de Lauro Müller, 220m de altitude, alcançando mais de 1421 metros de altitude em apenas 23 km. O ponto mais elevado, próximo da sua descida a sudeste, é o morro da Ronda, possibilita o acesso pela rodovia, a sul (cerca de 500 m da SC-438) que leva ao interior de Bom Jardim da Serra, junto aos Aparados da Serra e tem 1507 m de altitude. Dele, avista-se o ponto mais elevado do RS (Monte Negro com 1398 m), dias claros, sempre olhando ao S. Ao N-NW, avista-se um dos três pontos mais elevados de SC, o Morro da Igreja com 1822 m.

A rodovia SC-390 tem subidas íngremes e curvas fechadas. Coberta pela mata Atlântica, fauna diversificada, com felinos de pequeno, médio e grande portes, fauna de macacos, quatis, pacas, mãos-peladas, tatus, tamanduás e iraras. Tem avifauna de águias chilenas, tiês-sangue, tucanos, araras, papagaios. A rodovia SC-390 que atravessa a Serra do Rio do Rastro é a Carretera Asombrosa (Estrada Espetacular) de revista espanhola.

O DIFÍCIL CENÁRIO ECONÔMICO SERRANO DA ÉPOCA

Época difícil, araucárias em desaparição, serrarias  minguando, população serrana defende-se como pode. Economia chega a  extremos. Mesas para refeições têm gavetas onde a família esconde os pratos, mal apontava na estrada possível visita. Compadre Onofre vai visitar compadre Honorato. Pratos são escondidos nas respectivas gavetas, a visita deixando-se ficar. Chega hora de dormir. Tradicional bacia d´água quente é levada ao quarto da visita para que, descalçadas as botas e meias grossas, os pés pudessem ser lavados. Compadre-visita, atônito, parece não saber o que fazer:

- Compadre, não vai lavar os pés para dormir?

- Num fará mal lavar os pés em  jejum?     

Por Henrique Packter 07/03/2022 - 06:30

Carlos Pinto Sampaio (24.3.1894) desde a década de 20 residia em Criciúma vindo de Tubarão, era casado com Ladislava Angulski. 

JOÃO BALESTRO herdou a Farmácia Sampaio, em plena Praça Nereu Ramos; impossível lugar mais central em Criciúma.  Nascido em Guaporé, RS, 6.11.1922, Balestro era filho de Vitório e de Judite Boratieri. Casou com Wolynira (Volly) Sampaio, filha de Carlos Pinto Sampaio e Ladislava Angulski (Dona Ladi), que se apresentava como Oficial de Farmácia.

No dia 5 de Setembro é comemorado o Dia do Oficial de Farmácia.

SURGIMENTO DA PROFISSÃO
Na época das boticas, Medicina e Farmácia eram tidas como uma só profissão, ou seja, não havia distinção entre boticários e médicos. 
Somente após reformulação no curso de ensino médico (1832), foi criado o curso farmacêutico, vinculado às faculdades de medicina do RJ e Bahia.

Depois, por decreto (1857), boticas passaram a ser chamadas de Farmácias.

Por fim, no século 18 houve a separação da Medicina e da Farmácia, possibilitando então a separação das profissões.

O QUE FAZ UM OFICIAL DE FARMÁCIA?
O oficial de farmácia pode atuar como responsável técnico em drogarias e também como auxiliar do farmacêutico em farmácias.

É preciso diferenciar farmácias de drogarias. Farmácias são autorizadas a manipular e formular medicamentos, já drogarias apenas comercializam esses medicamentos, já embalados e fechados sem qualquer manipulação.

No caso das Farmácias, o responsável técnico seria o Farmacêutico, que atua na produção dos medicamentos. Dessa forma, os oficiais de farmácia atuam como auxiliares, mas não atuam diretamente na manipulação dos remédios.

Já no caso das Drogarias, nas quais não há manipulação ou produção dos medicamentos, os oficiais de farmácia podem atuar como responsáveis técnicos, inclusive no atendimento aos clientes.

COMO TORNAR-SE UM OFICIAL DE FARMÁCIA?

É necessário ter formação especializada na área. Há escolas aprovadas e certificadas por órgãos federais que oferecem cursos para esta formação profissional. Após a certificação, basta inscrever-se no Conselho Regional de Farmácia, que autorizará o Oficial de Farmácia a exercer a profissão, cadastrando-o na região desejada.

VOLTANDO À VACA FRIA       

João Balestro e Volly tiveram dois filhos:  Carlos João e Rita de Cássia, esta casada com Júlio César da Silva Mandelli.

Carlos João (1949 e cedo falecido), filho de João Balestro, durante bom tempo foi tabagista inveterado e sofreu de asma em criança.

Outros filhos de Carlos Pinto Sampaio foram Vítor Luiz  Angulski Sampaio (14.11.1934-13.9.1993), bioquímico, casado com Maria Walewska Sampaio e Vânio Carlos, farmacêutico, casado com Odila Arns Sampaio. Impressiona o número de familiares de Carlos Sampaio e de Balestro dedicados à profissão farmacêutica. Volly, casada com João Balestro, era irmã de Vânio Carlos.

  

25.9.2013, Dia Internacional do Farmacêutico

Diário Oficial da União. Com a nova regulamentação, farmacêuticos vão poder receitar, por exemplo, analgésicos, medicamentos tópicos e fitoterápicos.

Para o presidente do Conselho Regional de Farmácia do Estado de SP (CRF-SP), Pedro Menegasso, a medida vai formalizar o que já era hábito. A partir da data em epígrafe, profissionais da categoria em todo o país vão poder receitar medicamentos que não exigem prescrição médica. A resolução do Conselho Federal de Farmácia (CFF) foi publicada no Diário Oficial da União. A partir do Dia Internacional do Farmacêutico, profissionais da categoria em todo o país vão poder receitar medicamentos que não exigem prescrição médica. A resolução do Conselho Federal de Farmácia (CFF) publicada no Diário Oficial da União, regulamenta o que farmacêuticos vão poder receitar. Farmácias estão obrigadas a ter um farmacêutico.

Remendos feitos por Dilma Rousseff à Lei do Ato Médico preveem que o ato de prescrever tratamentos não é exclusiva para formados em Medicina!

Todo medicamento oferece riscos. O farmacêutico, teoricamente, é o profissional que melhor pode orientar os clientes, é seu campo de estudo.

MAIS NOVIDADES NA SEARA DAS FARMÁCIAS E DROGARIAS

Para o presidente do Conselho Regional de Farmácia do Estado de SP, Pedro Menegasso, a medida formalizará o que era usual. Para o primeiro-secretário do Conselho Federal de Medicina (CFM), Desiré Callegari, a lei que regulamenta a profissão do farmacêutico não prevê o diagnóstico de doenças e a prescrição de tratamentos.

O OFÍCIO DE JOÃO BALESTRO EM CRICIÚMA

JOÃO BALESTRO era a primeira opção em se tratando de assistência médica. Não era raro observar-se filas de pacientes diante de seu concorrido estabelecimento. O cliente  dizia o que sentia e, ambos, tateavam em busca de um diagnóstico e tratamento. A clientela era variada, de operários das minas de carvão e suas  famílias a mineradores e até a médicos, dizia-se a boca pequena.

É quando se instala ao lado da Igreja São José na Praça Nereu Ramos, um cearense vendendo suas vistosas e coloridas redes, obras-primas do artesanato das gentes das praias de Iracema. Na época, ainda  sem calçadão, circulavam ali caminhões carregados de carvão mineral e de pirita, especialmente na lateral da igreja que dá para a rua Getúlio Vargas. A poeira era muita e olhos mais sensíveis lacrimejavam copiosamente. O cearense vem ao meu consultório com os olhos em situação lastimável: avermelhados, remelados. Procurava limpar os olhos esfregando-os com algo parecido com um lenço, de cor indefinida.

Imediatamente tirei o lenço de suas mãos jogando-o na lixeira. Ele chegou a esboçar um movimento para salvá-lo, mas já era tarde. Contou sua história na qual avultava como principal responsável por sua desdita oftalmológia a poeira  levantada por veículos automotores. Fiz ver que a situação melhoraria em muito trocando seu local de trabalho, coisa imediatamente recusada: o ponto, ao lado da Igreja, era o melhor da cidade. Nem pensar. Pegou a receita e saiu às pressas para o trabalho. Passam-se os dias e, num sábado à tarde, estando eu sozinho em casa, toca a campainha. Vou espiar quem seria, através da cortina, sem dar-me a conhecer. É o cearense vendendo seu produto agora de casa em casa. Vou até ele.

Conversa vai, conversa vem, compro uma rede que ainda tenho, e, ao cabo de demoradas negociações acertamos o preço justo da laboriosa compra. Ao final delas, pergunto casualmente como estão seus olhos.

Arregala os olhos, reconhecendo-me.

-É o doutor que me atendeu?

Fiz que sim e ele continuou:

-  O remédio que o doutor me deu era pura porcaria. Eu pingava nos olhos e não sentia nada. Joguei fora e procurei o doutor Balestro.Ele me deu um remédio que, quando eu pingava, os olhos ardiam de subir paredes. Aquele remédio é que era bom: ele bulia com a doença.

Conclusão minha: remédio bom é o que bole com a doença!

Por Henrique Packter 01/03/2022 - 06:55 Atualizado em 01/03/2022 - 07:05

Segundo Kant todo conhecimento vem da experiência.

PESSOA ATENDIDA NA EMERGÊNCIA COM DORES INTENSAS                        

Relato popular no meio médico, dá conta de cliente que procura atendimento de emergência mostrando que tocar qualquer parte do próprio corpo com o indicador da mão direita, despertava dores atrozes. Sentia dores no corpo todo. O médico avalia com cuidado a situação e faz o diagnóstico: fratura de ossos do indicador da mão direita.

UMA HISTÓRIA DE LUIZ FERNANDO DA FONSECA GYRÃO

Cirurgião-geral, nasceu em 1932 em Niterói, RJ, falecendo em Criciúma, 1983. A esposa Emília é filha do falecido general José Lopes Bragança. Pai de 6 filhos, Mariza é casada com o arquiteto Décio Gomes Góes, ex-prefeito de Criciúma e do Balneário Rincão. Nei, é médico. Trabalhou em Criciúma desde 1967 no Hospital São José.

É bom não se deixar enganar pelas aparências. Luiz Fernando da Fonseca Gyrão, bom e leal amigo, contava que um jovem residente de hospital-escola, enviado para examinar e informar da situação de um acidentado, volta rápido com a informação:

- Tá ótimo! Tá até rindo!

O professor vai dar uma espiada, por via das dúvidas. Era fato, estava rindo sim. Mas o riso, era o conhecido riso sardônico, do tétano.

UMA HISTÓRIA DO FILÓSOFO CLÍNICO LÚCIO PACKTER                                                 

Estava eu, boca da noite, trabalhando em meu consultório quando Nestor, então zelador do prédio de consultórios médicos no qual ainda labuto em Criciúma, entrou em minha sala de exames e anunciou à sua maneira:

- PIPINO, doutor. Chegou uma moça que ficou cega de repente. Atendemo’ ou mandamo’ para o Pronto Socorro?  Tem mais: saíram de casa tão ligeiro que nem DICUMENTO têm.

Parei um instante para pensar. Ainda tinha vários pacientes para ver. Só se....

Lembrei-me que Lúcio meu filho estava em Criciúma para passar alguns dias. Resolvi chamá-lo. Já era tempo de tirar a febre desta tal de Filosofia Clínica, pensei. Juntos, Lúcio e eu, ouvimos o início da história.

Era mulher, aí pelos 35 anos de idade. Fora à discoteca com o namorado. Se desentenderam, voltara sozinha para casa e mal pusera o pé na soleira da porta, PRONTO, ficara cega! Trazida pela mãe, deixei Filósofo Clínico, recém-cega e mãe numa das salas do consultório e fui tratar da vida na sala ao lado. Encerrado meu trabalho diário retornei ao local no qual deveriam estar o Lúcio, cliente e mãe. O local estava deserto. Desci para a portaria do prédio onde Nestor fazia um pequeno e inflamado comício para pequena multidão entre atenta e sonolenta.

Eram taxistas do ponto de automóveis que servia a um tempo hospital e prédio de consultórios. Também um que outro médico retardatário e alguns passantes da rua ouviam. Enquanto descia as escadas do 1o andar podia ouvir trechos da arenga:

- O homem   é milagroso.....chegou cega..... o pai é fichinha perto dele.....não levou meia hora.....parece que é professor em Porto Alegre, mas já morou em São Paulo e no estrangeiro....  As vozes se calaram respeitosas quando passei em busca do carro e depois, deferentes pelo filho que produzi:

- ‘noite!

Passados alguns meses, era Sábado e eu estava em casa. Toca o telefone:

- Doutor, quem fala é a mãe da moça que seu filho atendeu faz uns tempos e que ficou cega de repente. O senhor lembra?

Lembrava. Ela continuou:

- Pois é, ela voltou a ficar cega hoje. De novo, barbaridade! Informei:

- Sinto muito, mas meu filho Lúcio não está em Criciúma. Só sua mãe, Deus, e talvez a porta da geladeira saibam de seu paradeiro.

- Não carece não, doutor. Só queria dizer prá ele que eu fiz tudo igual como ele fez da primeira vez e ela já ficou boa! 

Por Henrique Packter 25/02/2022 - 12:15

Carnaval é uma das festas populares mais conhecidas no mundo ocidental, sendo a maior festividade do Brasil. O Carnaval transformou-se na principal festa popular brasileira a partir da década de 1930 e, atualmente, conta com os blocos de rua e as escolas de samba que desfilam nas ruas  dos grandes centros do país. O desfile das escolas de samba foi oficializado por volta de 1967. É acompanhado de folguedos populares promovidos habitualmente nos três dias anteriores ao início da Quaresma. Mas, a folia carnavalesca se apresenta com características distintas nos diferentes lugares em que se popularizou. Destaca-se o desfile carnavalesco, este fazendo parte do chamado Carnaval de rua, em oposição a um Carnaval fechado, realizado em clubes.

Para muitos, o carnaval teria uma origem obscura, talvez com feição religiosa.

Entre os anos de 1900-1901, as práticas carnavalescas passaram a ter maior repercussão no Brasil. Surgiam nesse momento as assim chamadas Músicas de Carnaval, de grande sucesso: Não vai, não vai e Adeus carnaval, de autores desconhecidos.

Elas  vão desempenhar grande papel na área da atração turística nacional e internacional.

Apesar do forte secularismo presente no Carnaval, a festa é tradicionalmente ligada ao catolicismo, uma vez que sua celebração antecede a Quaresma. Os festejos relativos ao  Carnaval remontam à Antiguidade.

Carnaval vem da expressão latina carnis levale, significando “retirar a carne”, sentido relacionado ao jejum, obedecido durante a Quaresma e também ao controle dos prazeres da carne.

Para alguns, Carnaval seria festa cristã, sua origem tendo relação direta com o jejum quaresmal. Mas, na Babilônia, duas festas possivelmente originaram o que conhecemos como Carnaval. As Sacéias, celebração em que prisioneiro assumia, durante alguns dias, a figura do rei, vestindo-se  e  alimentando-se  como tal. Ao final, o prisioneiro era chicoteado e depois justiçado.

Outro rito, agora realizado pelo rei no período do ano novo na Mesopotâmia, ocorria no templo do deus Marduk. Então, o rei perdia seus emblemas de poder, sendo surrado diante da estátua de Marduk. Essa humilhação demonstrava a submissão do rei à divindade. Em seguida, ele reassumia o trono.

Comum nas duas festas e ligado ao Carnaval era o caráter de subversão de papéis sociais: a transformação temporária do prisioneiro em rei e a humilhação do rei frente ao seu deus. A subversão de papéis sociais no Carnaval, os homens vestindo-se de mulheres e outras práticas que tais, decorria dessa tradição mesopotâmica.

Associação entre o Carnaval e as orgias pode ainda relacionar-se com as festas de origem greco-romana, como os bacanais (festas dionisíacas gregas). Dedicadas ao deus do vinho, Baco (ou Dionísio, para os gregos), marcados pela embriaguez e entrega aos prazeres da carne.

Havia ainda, em Roma, a Saturnália (dezembro) e a Lupercália (fevereiro). As festas duravam dias, com comidas, bebidas e danças. Os papéis sociais também eram invertidos temporariamente, com os escravos colocando-se nos locais de seus senhores, e estes colocando-se no papel de escravos.

Cristianismo e Carnaval

Essas festas eram, claro, celebrações pagãs muito populares, na antiguidade. A Igreja Católica procurou dar às festas sentido mais cristão. Durante a Alta Idade Média, foi criada a Quaresma — período de 40 dias antes da Páscoa caracterizado pelo jejum. Mais tarde as festividades realizadas pelo povo foram concentradas nesse período.

Carnaval na Europa medieval e moderna

O Carnaval medieval era marcado por festas, banquetes e brincadeiras.

Durante os carnavais medievais, homens jovens fantasiavam-se de mulheres, saíam às ruas e aos campos. Durante o Renascimento, nas cidades italianas, surgia a commedia dell'arte, teatros improvisados muito populares. Em Florença, canções foram criadas para acompanhar os desfiles, que contavam ainda com carros decorados, os trionfi. Em Roma e Veneza, os participantes usavam a bauta, capa com capuz negro que encobria ombros e cabeça, além de chapéus de três pontas e máscara branca.

Na Itália renascentista era comum a realização de bailes de máscara durante o Carnaval.

As festas da Antiguidade eram regidas pela intenção de virar o mundo de cabeça para baixo. Era inversão proposital da ordem, com as restrições das vidas das pessoas abolidas e os papéis que existiam naquela sociedade, invertidos.

Já na descoberta do Brasil, houve iniciativas de impor o controle sobre as festas carnavalescas no continente, reação aos conflitos religiosos europeus da época, e forma de impor controle social. Ou pelo conservadorismo vigente que buscava demonizar as festas populares.

Carnaval no Brasil

O Carnaval chegou ao Brasil durante a colonização e transformou-se na maior festa popular do país.

A história do Carnaval no Brasil iniciou-se no período colonial com o entrudo, brincadeira de origem portuguesa, praticada na colônia pelos escravos. Nela, as pessoas ganhavam as ruas sujando umas às outras jogando lama, urina. O entrudo foi proibido em 1841, mas continuou até bem pouco.

Depois surgem os cordões e ranchos, as festas de salão, os corsos, e as escolas de samba. Afoxés, frevos e maracatus passam a fazer parte da tradição cultural carnavalesca brasileira. Marchinhas, sambas e outros gêneros musicais foram incorporados à maior manifestação cultural do Brasil.

É notório que há um crescimento turístico durante o carnaval, mas também, grande crescimento cultural das práticas carnavalescas, onde se percebe não só o aparecimento das escolas de Samba em 1930, como os grandes bailes de carnavais, as festas de rua que ocorrem até  hoje no nordeste brasileiro (com o Frevo e suas passeatas pelas ruas, com os foliões fantasiados); as marchas carnavalescas com Chiquinha Gonzaga a partir de 1902, com a música Abre alas.

O carnaval teve grandes nomes e movimentos que lutaram pela sua realização. Dentre os grandes nomes, se destaca a esposa de Getúlio Vargas, dona  Darcy Vargas, que organizou grande baile a fantasias em 1932 com grupo de personalidades ligadas ao governo. Foi O Primeiro Baile de Gala no Teatro Municipal, que perduraram até 1975.

Festas/brincadeiras e folguedos

Hoje, quais são as festas populares de expressão em Criciúma?

Atualmente, o município festeja três festas: A FESTA DAS ETNIAS (de 1989), o CARNAVAL e a FESTA DE SANTA BÁRBARA. Encontramos também outras festas de caráter religioso em várias localidades. No centro da cidade, a festa de São José realizada em março e a festa da Rota da Imigração, em julho, na comunidade de Morro Albino. O Festival Internacional de Coros apresenta-se como outro evento oficial.

A Festa das Etnias, de 1989, começou como iniciativa do Lions e Rotary objetivando angariar fundos para entidades filantrópicas. A ideia era de Ademar Costa, criando a Festa da Primavera.

Carnaval em Criciúma

Esta comemoração tem tudo a ver com a Sociedade Recreativa Mampituba e sua  história. Já o Carnaval de Rua, descontinuado durante o governo municipal de Altair Guidi, reviveu com o prefeito Eduardo Pinho Moreira, através da Fundação Cultural de Criciúma, organizadora do evento, no final dos anos 90.                                                      

Bailes de carnaval começaram a fazer parte da programação anual do Mampituba na década de 1930. No princípio, os foliões festejavam por quatro noites, sendo a guerra de confetes o momento mais aguardado da festa

A Sociedade Recreativa Mampituba surgiu do Mampituba Foot Ball Club, em 18.05.1924. Liderado pelo jovem Abílio Paulo, reuniu 52 pessoas de Criciúma e região. Mampituba foi o nome escolhido. No início, o futebol era a principal modalidade praticada no clube, porém, com o passar do tempo e o aumento do número de associados, novos esportes foram implantados.

Por Henrique Packter 20/02/2022 - 13:52 Atualizado em 20/02/2022 - 13:53

Penso na morte como ela, ciosa, pensa mim. Todo dia, digo e repito, tem alguém conhecido que nos deixou. Leio o pouco que entendo da difícil arte do obituário, na qual os britânicos ainda detêm medalha de ouro, constatando, na companhia fiel de minhas mazelas que ela ainda nivela desigualdades. Continuemos a verter nossas lágrimas às ocultas, pois importante não é a morte, é o que ela nos tira

LEITURA DE LIVROS INFLUENCIANDO A ESCOLHA PROFISSIONAL

Considero 2 livros  responsáveis pela escolha da Medicina como minha atividade profissonal para a vida: a leitura de O LIVRO DE SAN MICHELE de Axel Münthe e de A CIDADELA de A.  J. CRONIN (1937), médico escocês, morto aos 84 anos em 1981.

A CIDADELA

Desde que li A CIDADELA, aí pelos 15 anos de idade, o exercício da Medicina tornou-se meu objetivo maior, uma obsessão. O livro de Cronin influenciou gerações a estudar Medicina. Ele e seu alter ego, ANDREW MASON, ecoam no livro o drama das escolhas éticas na prática da Medicina e são hoje (talvez por isso), as mais célebres das pessoas esquecidas. Quem lembra deles? Num mundo invadido pela banalidade e pelo virtual, é preciso lê-los com filtros próprios e raciocínio singular.

Cronin narra a história (quase autobiográfica) de jovem médico iniciando sua vida profissional em cidade carvoeira de Gales do Sul, anos 30. Siderurgias e minas de carvão atraiam, então, grande número de imigrantes, especialmente para os vales a norte de Cardiff, hoje a capital do país. Mason dedica-se intensamente ao trabalho onde a morte era protagonista diária pelas desumanas condições de trabalho e de vida dos mineiros e suas famílias, os casos de febre tifoide se multiplicando. Profissional honesto, mas ambicioso, casa-se com a professorinha que o auxilia na investigação da pneumoconiose, patologia respiratória comum nos operários das minas, além de pneumonias e gastroenterites.

Cidadela é drama coletivo comunitário mineiro e -, de casal, buscando sobreviver com dignidade nesse meio. Depois, eles partirão para Londres onde convivem com sua poderosa classe médica, dedicada ao tratamento dos mais ricos. Não era difícil enriquecer em Londres exercendo atividade médica. Injeções inócuas e quase inofensivas de água destilada, regiamente pagas por doentes sem doença, doentes imaginários. Ele se envolverá nestes esquemas de dinheiro fácil, deixando de lado escrúpulos e princípios. Mas, A CIDADELA permanece imutável em seus valores morais.

EPISÓDIO FUNDAMENTAL

O jovem médico Andrew Mason chega à aldeia mineira para trabalhar; é seu primeiro emprego de médico vindo de família pobre. Anda da estação ferroviária até a pensão, pontos extremos da única rua da aldeia. Presencia tentativa de remoção de doente com problemas mentais a sanatório, depósito sanitário para entes humanos. A remoção equivalia a sentença de morte coletiva familiar. Internado, o paciente não era medicado, alimentado ou vestido. Abandonado, à própria sorte, logo morreria. Sua família teria o mesmo fim, dizimada pela fome.

Mulher e filhos do mineiro choram e agarram-se desesperadamente a ele na tentativa de impedir a remoção. Os menores abraçam-se aos joelhos e pernas do pai. Andrew Mason vai saber do que se trata, sendo informado que o trabalhador tinha enlouquecido.

Aproxima-se para ver melhor. OBSERVA,  INSPECIONA-O a curta distância. 

Terminada a INSPEÇÃO declara que ele não está louco, na verdade tem hipotireoidismo; com medicação adequada, ingerindo iodo, logo ficará bem!
O QUE MASON VIU?

Um homem cansado (ar de grande cansaço), esgotado, rosto inchado, disforme, calvo, manchas na pele seca, obeso (evidente e exagerado ganho de peso). Hipotireoidianos se mexem menos, armazenam gorduras, ganham peso.  O hormônio tireoidiano controla os níveis de energia. Baixo nível de hormônio tireoidiano faz fígado, músculo, tecidos adiposos não queimarem calorias. Até em repouso queimamos calorias, deixando-nos aquecidos. Hipotireoidismo traz alergias cutâneas, rubor ou inchaço. 

Na vila, médicos expõem seus nomes na recepção de diminuto ambulatório, em pequenas placas munidas de uma espécie de gancho. Neste gancho, mineiros colocam as plaquetas, indicando a escolha de médico para sua família. Grande número de fichas indica prestígio e tamanho da clínica.

Como Mason chegou ao diagnóstico apenas pela inspeção do operário? Em Medicina, diagnóstico é parte do atendimento médico voltada à identificação das doenças. Médicos analisam conjunto de dados formado a partir da inspeção, anamnese (histórico clínico), sinais e sintomas, exames físicos e complementares (laboratoriais, de imagem, traçados gráficos). A base da elaboração do diagnóstico médico é a consulta médica, hoje apoiada por crescente número de técnicas complementares.

A TIREOIDE

A TIREOIDE participa do metabolismo e fornecimento de energia para o funcionamento corporal, desenvolvimento normal dos tecidos do cérebro, regulamento do batimento cardíaco e do ciclo menstrual.

Sintomas de doença tireoidiana: inapetência, cansaço, queda de cabelo, dificuldade para perder peso.

SINAIS E SINTOMAS INDICATIVOS DE ALTERAÇÃO DA TIREOIDE:

·         Dificuldade para emagrecer ou ganho de peso fácil e rápido; Inchaço;
·         Cansaço excessivo; Fraqueza;
·         Aumento do apetite;
·         Queda de cabelo, pele seca e unhas frágeis;
·         Alteração do ciclo menstrual;
·         Alteração dos batimentos cardíacos.

Valores hormonais tireoidianos acima do valor de referência: hipertireoidismo; já valores mais baixos: hipotireoidismo.

O IODO é indispensável para que a tireoide possa sintetizar e liberar na circulação dois hormônios: Tiroxina (T4) e Triiodotironina (T3). O consumo de sal iodado, agora obrigatório por decreto-lei, obrigou empresas a acrescentar iodo ao sal para ajudar a evitar os males da tireoide.

Desde 1995 (faz 27 anos), o Programa Nacional de Sal Iodado funciona para toda a população. Sem o iodo a população pode apresentar distúrbios como bócio; crianças com deficiência congênita de tireoide: causas de surdo-mudez, e debilidade mental.

Falta de iodo  (Hipotireoidismo) leva a declínio mental com repetição de ano escolar. Ingere-se iodo pelo sal iodado e alimentos: repolho, carnes defumadas, embutidos, frios, enlatados e frutas enlatadas, conservas, molho de soja, peixes, frutos do mar, algas, gema de ovo, maionese, laticínios, pães industrializados, cereais em caixas, agrião, aipo, couve de Bruxelas.

Já no Hipertireoidismo, excesso de iodo na alimentação redunda em hiperatividade da tireoide. O desequilíbrio eleva a concentração dos hormônios e aumenta a velocidade do metabolismo orgânico.

HIPERTIREOIDIANOS e HIPOTIREOIDIANOS do mundo: uni-vos!

Por Henrique Packter 11/02/2022 - 09:04 Atualizado em 11/02/2022 - 10:27

Morreu em Criciúma em 4 de fevereiro deste ano, meu amigo Labienno Cavalvanti. Ele era ex-funcionário da CSN e faleceu aos 89 anos. A morte de Labienno repercutiu intensamente em toda a cidade onde era figura extremamente estimada.

Nascido em 12/08/1932 em Braço do Norte, era filho de Pedro Cavalcanti e Carolina Antunes. Foi conterrâneo e contemporâneo do grande advogado e político catarinense Adhemar Paladini Ghisi, ex-ministro e ex-presidente do TCU (24/12/1930  — Lisboa, 2/06/2008).

Quando falávamos de nossos respectivos municípios natais, LABIENNO dizia:

-É COMPLICADO! PRÁ COMEÇAR, SOU DE COLAÇÓPOLIS!

Colaçópolis foi antigo nome de Braço do Norte.

Sobre Colaçópolis e a vida de Labienno

Somente em 1870, com a chegada de colonos alemães, levados a São Ludgero pelo Padre Guilherme Röher, teve início o desenvolvimento de Braço do Norte. Estes colonizadores, emigrados para o Brasil em 1860, achavam-se anteriormente fixados nas localidades catarinenses de Anitápolis, Salto e Capivari. Todavia, por julgarem desfavoráveis aquelas regiões, conseguiram do Imperador D. Pedro II, através do Padre Röher, a doação de outras glebas, com maiores possibilidades de colonização, as quais se achavam situadas onde hoje se encontram São Ludgero, Rio Fortuna, São José, Armazém e Vargem do Cedro.

Foi a vinda de sessenta famílias de colonos alemães, a maioria delas estabelecidas no núcleo de São Ludgero, que impulsionou o desenvolvimento da localidade. Incalculáveis os obstáculos que tiveram que ser vencidos por estes imigrantes alemães. Basta citar que, sendo em sua maior parte católicos, apenas uma vez por ano recebiam assistência religiosa.

Distrito criado com a denominação de Braço do Norte, decreto estadual de 17/05/1892, subordinado de Tubarão, ainda em 1911, em divisão administrativa, o distrito de Braço do Norte figura no município de Tubarão.

Lei municipal de 21/06/1958, desmembra do município de Braço Forte o distrito de Rio Fortuna, elevado à categoria de município em agosto de 1922.

Tinha algumas frases de predileção que repetia com uma certa alegria, como uma do Barão de Itararé: de onde menos se espera, daí  é que não sai nada mesmo.

Colaçópolis tem o nome alterado para Braço do Norte por lei municipal de 26/06/1928. Por um triz, Labienno e Adhemar Paladini Ghisi não nascem em Colaçópolis!

Labienno foi casado por 59 anos com Benedita Garcia Cavalcanti, agente do futuro INPS em Criciúma, sucessor do IAPETEC, a partir de 1966, com a unificação dos IAPs. Foram eles pais de Maria Carolina, Marilúcia Garcia Cavalcanti, Labieno José, de Miriam Regina Garcia Cavalcanti (juíza de Direito) e Micheline. Labienno era orgulhoso avô de oito netos, sempre citados e elogiados no decorrer das consultas médicas. Aposentou-se como técnico em contabilidade da Companhia Siderúrgica Nacional.

Foi meu cliente desde seus 32 anos, em 1964. Era dotado de um bom humor natural, realçado por discreta gagueira. Em 06/07/1998 e depois em 03/07/2000, operei-o de catarata em ambos os olhos. Em 2006, comunicou-me com grande orgulho da filha, juíza de direito em Forquilhinha.

Toda a vida Labienno e Benedita lutaram contra problemas circulatórios, pressão arterial elevada, obstrução de vasos e ela acabou por ser acometida de infarto do miocárdio. Nesse particular Labienno travou luta acirrada, tenaz, contra teimosa obstrução de carótida comum direita. Seu último exame em minha clínica foi a 21/02/2020 e, de dona Benedita, foi em 08/01/2007.

Tinha algumas frases de predileção que repetia com uma certa alegria, como uma do Barão de Itararé: de onde menos se espera, daí  é que não sai nada mesmo.

O sepultamento de Labienno foi realizado no Cemitério Municipal do bairro São Luiz, em Criciúma.

 

Ouça no Programa Adelor Lessa: 

Por Henrique Packter 04/02/2022 - 09:28 Atualizado em 04/02/2022 - 09:29

Morre em Florianópolis aos quase 90 anos este médico formado na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná (FMUFPR) em 1959. Foi meu colega da turma que também formou ZILDA ARNS NEUMANN e WALDYR MENDES ARCOVERDE, este ex-ministro da Saúde. Nesta mesma turma médica despontaram LINO LIMA LENZ, professor da UNI-RIO na cadeira de Urologia e falecido neste mês de janeiro que passou, no Rio de Janeiro. Era natural de São Francisco de do Sul. Esta mesma turma médica formou também AFONSO ANTONIUK e CORIOLANO CALDAS SILVEIRA MOTTA, professores aposentados na FMUFPR, o primeiro na cadeira de Neurocirurgia. SÉRGIO LUIZ FRANCALACCI, natural de Tubarão é professor aposentado da cadeira de NEFROLOGIA na UFSC e dirigiu o setor de hemodiálise do Hospital de Caridade em Florianópolis. A Associação Catarinense de Medicina divulgou nota de pesar, destacando sua atuação profissional, o pioneirismo no ensino e assistência em nefrologia, a dedicação ao magistério por mais de 30 anos e as pesquisas realizadas no setor.

Tinha a nota o seguinte teor:

“A Associação Catarinense de Medicina (ACM) comunica com profundo pesar o falecimento do nefrologista SÉRGIO LUIZ FRANCALACCI, aos 88 anos, ocorrido em 7.07.2021 Florianópolis. Nascido em Tubarão, foi pioneiro na implantação da Nefrologia em SC. Formou-se em 1959, pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), e realizou especialização no Hospital de Servidores do Estado do RJ. Em 1962, publicou o primeiro trabalho nacional sobre diálise peritoneal e foi incentivador de vários serviços na especialidade, como a terapia renal substitutiva e o tratamento de insuficiência renal crônica, em todo o estado. A atividade docente foi uma de suas paixões, a qual se dedicou por quase 30 anos, como professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Foi criador e chefe do Serviço de Nefrologia do Hospital Governador Celso Ramos e terminou suas atividades como médico no Hospital de Caridade. Participou de diversas diretorias da ACM e integrou o Conselho de Administração da então Unicred Florianópolis. Praticante de esportes, criou o Departamento Médico do Avaí Futebol Clube, sendo seu primeiro diretor. Por fim, foi membro titular da Academia de Medicina do Estado de Santa Catarina (Acamesc), desde 1996.

Por tudo isso, foi respeitado e admirado pelos que acompanharam sua trajetória, pela grande capacidade, pela defesa da ética profissional e expressivo saber científico. Deixa um exemplo de vida dedicada à medicina e grande saudade aos familiares, amigos e colegas, a quem a Diretoria da ACM registra sua solidariedade e homenagem.”

Nossa Turma de Medicina notabilizou-se pelo número de  professores que legou à história da Medicina Brasileira.  Nossos ex-colegas, ANTÔNIO PELISON e ANTONIO CARLOS SPRENGER lecionaram CLÍNICA CIRÚRGICA e WILSON CIDRAL, lecionou OTOLOGIA, todos na Federal do Paraná. Já MÁXIMO GONZALES DONOSO lecionou CIRUGIA PLÁSTICA na Faculdade Estadual de Medicina de Londrina, PR. INGEBORG CHRISTA LAUN foi chefe do Serviço de Endocrinologia do Hospital do IPASE no RJ e professora desta cadeira na Faculdade de Medicina de Petrópolis, RJ.

Outra colega nossa, ÉLIA GOMES, natural de Florianópolis, pediatra em SP, era orientadora e professora na USP. Padre JOSÉ  RAUL MATTE, abnegado médico e padre, dedicou sua vida a cuidar dos índios da  Amazônia brasileira. Já falecido, doava parte de seu modesto aposento de dois salários mínimos a esta obra que abraçou e à qual serviu em jornadas com voluntários, buscando aldeias de indígenas ao longo do Rio Negro, entregando-lhes vestuários, alimentos, medicamentos e concertos de música de solos de flauta-doce. “Nunca tive plateia mais atenta e respeitosa”, dizia. NEON DE MELLO E OLIVEIRA foi outro colega nosso a dedicar-se ao ensino em São José do Rio Preto, onde ocupou a cadeira de OTTORINOLARINGOLOGIA. Já JOAQUIM DE PAULA BARRETO FONSECA, anestesista de especialidade, não só lecionou, mas também criou a Faculdade de Medicina da UNICAMP em Campinas, SP. Há outros, cujas vidas abordarei em outra ocasião, se Deus quiser.                                                                                                                             

E quanto a EGÍDIO MARTORANO NETO, PAI DO CIRURGIÃO PLÁSTICO EGÍDIO MARTORANO FILHO?

Sempre fomos muito ligados, embora nos últimos anos tenhamos nos afastado por questões de trabalho. Egídio nasceu em 25.10.1932, em São Joaquim/SC. Filho de Domingos Martorano e de Alzina Vieira Martorano, seu antepassado, Domingo Martorano (1841-1923), natural de Casteluccio, Basilicata, Itália, filho de Egídio e de Mariana Gioia, foi pioneiro da colonização italiana em São Joaquim (1880).

Meu colega, Egídio Martorano Neto, ex-Deputado estadual, cursou o ginasial e o colegial no Colégio Catarinense, em Florianópolis/SC. Formado em Medicina pela Universidade Federal do Paraná, especializou-se em Clínica Geral e Cirurgia Geral, em Porto Alegre/RS. 

Casou com Leda M. Couto Martorano e é pai de Egídio Martorano Filho (conhecido cirurgião-plástico em Florianópolis), Simone, Fabrício e Fabiano.

Elegeu-se duas vezes Prefeito de São Joaquim, em 1966 e em 1972. A iniciativa de atrair japoneses, instalados em SP, para São Joaquim  afim de dedicar-se ao plantio e cultivo de maçãs é atribuída a Egídio, quando prefeito, datando da década de 70. As florestas de Araucária estavam dizimadas pelas serrarias que funcionavam 24 horas por dia;  urgia substituir esta cultura de terra arrasada por outra que trouxesse empregos, respeitando e preservando  o meio ambiente.

Foi Diretor do Hospital Coração de Jesus de São Joaquim, Chefe da Unidade Sanitária no mesmo município, médico da Companhia de Águas e Saneamento do Estado de Santa Catarina (CASAN) e Diretor-Presidente da CLINIMED, Florianópolis.

Nas eleições de 1978, concorreu ao cargo de Deputado Estadual pela Aliança Renovadora Nacional (ARENA), elegendo-se com 12.392 votos, tomando posse à 9ª Legislatura (1979-1983).

Em 1979, dirigiu a Divisão Hospitalar da Secretaria da Saúde do Estado de Santa Catarina e em 1981, exerceu as funções de Vice-Governador do Estado (14 a 23 de julho e de 28 de agosto a 21 de setembro).

Buscou por mais duas vezes a reeleição a Deputado Estadual no Parlamento catarinense, sem reeleger-se. Em 1982, pelo Partido Democrático Social (PDS), obteve 14.256 votos e, em 1986, pelo Partido da Frente Liberal (PFL), obteve 3.777 votos. EGÍDIO e  JORGE KONDER BORNHAUSEN sempre foram ligados por amizade pessoal além do vínculo marcante estabelecido por política partidária.

Pai  amoroso, marido dedicado, profissional correto, EGÍDIO deixa lacuna difícil de ser preenchida e grande pesar em todos nós que o admirávamos e por quem nutríamos  amizade inabalável. Vai com Deus, amigo Egídio, até breve!

Por Henrique Packter 31/01/2022 - 09:09 Atualizado em 31/01/2022 - 09:09

Morre em Florianópolis aos quase 90 anos este médico formado na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná (FMUFPR) em 1959. Foi meu colega da turma que também formou ZILDA ARNS NEUMANN e WALDYR MENDES ARCOVERDE, este ex-ministro da Saúde. Nesta mesma turma médica despontaram LINO LIMA LENZ, professor da UERJ na cadeira de Urologia e falecido neste mês de janeiro que passou, no Rio de Janeiro. Era natural de São Francisco de do Sul. Esta mesma turma médica formou também AFONSO ANTONIUK e CORIOLANO CALDAS SILVEIRA MOTTA, professores aposentados na FMUFPR, o primeiro na cadeira de Neurocirurgia.

Esta Turma de Medicina notabilizou-se pelo número de  professores que legou à história da Medicina Brasileira.  Nossos ex-colegas, ANTÔNIO PELISON e ANTONIO CARLOS SPRENGER lecionaram CLÍNICA CIRÚRGICA e WILSON CIDRAL, lecionou OTOLOGIA, todos na Federal do Paraná. Já MÁXIMO GONZALES DONOSO lecionou CIRUGIA PLÁSTICA na Faculdade Estadual de Medicina de Londrina, PR. INGEBORG CHRISTA LAUN foi chefe do Serviço de Endocrinologia do Hospital do IPASE no RJ e professora desta cadeira na Faculdade de Medicina de Petrópolis, RJ.

Outros colegas nossos, ÉLIA GOMES, natural de Florianópolis, pediatra em SP, era orientadora e professora na USP. Padre JOSÉ  RAUL MATTE, abnegado médico e padre, dedicou sua vida a cuidar dos índios da  Amazônia brasileira. Já falecido, doava parte de seu modesto aposento de dois salários mínimos a esta obra que abraçou e à qual serviu em jornadas com voluntários, buscando aldeias de indígenas ao longo do Rio Negro, entregando-lhes vestuários, alimentos, medicamentos e concertos de música de solos de flauta-doce. “Nunca tive plateia mais atenta e respeitosa”, dizia. NEON DE MELLO E OLIVEIRA foi outro colega nosso a dedicar-se ao ensino em São José do Rio Preto, onde ocupou a cadeira de OTTORINOLARINGOLOGIA. Já JOAQUIM DE PAULA BARRETO FONSECA, anestesista de especialidade, não só lecionou, mas também criou a Faculdade de Medicina da UNICAMP em Campinas, SP. Há outros, cujas vidas abordarei em outra ocasião, se Deus quiser. 

E quanto a EGÍDIO MARTORANO NETO, PAI DO CIRURGIÃO PLÁSTICO EGÍDIO MARTORANO FILHO?

Sempre fomos muito ligados, embora nos últimos anos tenhamos nos afastado por questões de trabalho. Egídio nasceu em 25.10.1932, em São Joaquim/SC. Filho de Domingos Martorano e de Alzina Vieira Martorano, seu antepassado, Domingo Martorano (1841-1923), natural de Casteluccio, Basilicata, Itália, filho de Egídio e de Mariana Gioia, foi pioneiro da colonização italiana em São Joaquim (1880).

Meu colega, Egídio Martorano Neto, ex-Deputado estadual, cursou o ginasial e o colegial no Colégio Catarinense, em Florianópolis/SC, formando-se em Medicina pela Universidade Federal do Paraná, especializando-se em Clínica Geral e Cirurgia Geral, em Porto Alegre/RS.

Casou com Leda M. Couto Martorano e é pai de Egídio Martorano Filho (conhecido médico cirurgião-plástico), Simone, Fabrício e Fabiano.

Elegeu-se duas vezes Prefeito de São Joaquim, em 1966 e em 1972. A iniciativa de atrair japoneses, instalados em SP, para São Joaquim  afim de dedicar-se ao plantio e cultivo de maçãs é atribuída a Egídio, quando prefeito. As florestas de Araucária estavam dizimadas pelas serrarias que funcionavam 24 horas por dia,  urgia substituir esta cultura de terra arrasada por outra que trouxesse empregos, respeitando e preservando  o meio ambiente.

Foi Diretor do Hospital Coração de Jesus de São Joaquim, Chefe da Unidade Sanitária no mesmo município, médico da Companhia de Águas e Saneamento do Estado de Santa Catarina (CASAN) e Diretor-Presidente da CLINIMED, Florianópolis.

Nas eleições de 1978, concorreu ao cargo de Deputado Estadual pela Aliança Renovadora Nacional (ARENA), elegendo-se com 12.392 votos, tomando posse à 9ª Legislatura (1979-1983).

Em 1979, dirigiu a Divisão Hospitalar da Secretaria da Saúde do Estado de Santa Catarina e em 1981, exerceu as funções de Vice-Governador do Estado (14 a 23 de julho e de 28 de agosto a 21 de setembro).

Buscou por duas vezes a reeleição de Deputado Estadual no Parlamento catarinense, mas não se elegeu. Em 1982, pelo Partido Democrático Social (PDS), obteve 14.256 votos e, em 1986, pelo Partido da Frente Liberal (PFL), obteve 3.777 votos. EGÍDIO e  JORGE KONDER BORNHAUSEN sempre foram ligados por amizade pessoal e político-partidária marcante.

Pai amoroso, marido dedicado, profissional correto, EGÍDIO deixa lacuna difícil de ser preenchida e grande pesar em todos nós que o admirávamos e por quem nutríamos  amizade inabalável. Vai com Deus, amigo Egídio, até breve!

Por Henrique Packter 24/01/2022 - 09:25 Atualizado em 24/01/2022 - 09:28

Sartori envelhecia. Beirava os 80 anos. Nova guerra ensanguentava a humanidade. Forte como velha árvore, conservava plena lucidez de espírito,mas sofria duas modificações opostas: no trato com os homens, a bondade e a tolerância cada vez mais se sublimavam; na análise política, extremava-se cada vez mais. Passou, dessa época em diante, a atender quase que exclusivamente à clientela que não podia pagar. Fornecia medicamentos a quase todos esses clientes, amostras sobretudo. Se alguém de melhores posses o procurasse, mandava consultar médico mais jovem “que conhecia a medicina mais moderna”. Assaltado por profundo ceticismo terapêutico passa a receitar chás da medicina popular, ervas que conheceu em seu contato com os selvícolas.

- Essas – dizia – pelo menos não fazem mal ao paciente. Já anos antes correra o boato de que não enxergava bem e que, por isso, operava mal. Operava de óculos! Era o maior argumento dos concorrentes. Estava, então, em plena posse de sua técnica. Esse juízo abalou profundamente o rijo lutador.

O artista atingido em sua sensibilidade! Talvez aí a explicação de seu triunfo como cirurgião: não ser um mecânico de bisturi, mas artista sensível, vivendo sua obra. Fazia com prazer a cirurgia reconstrutora e tinha quase aversão à cirurgia destruidora, às amputações e mutilações obrigtórias!

No pequeno consultório entra em manhã de inverno um cliente. muitos anos fora tratado, com a família, gratuitamente por Sartori. Não podia mesmo pagar àquele tempo. Enriqueceu com herança inesperada. Endinheirado agora, procura o velho médico.

- Vim aqui, doutor, para lhe pedir um conselho e não para consulta.  Como o senhor vê, já posso pagar. Quero me tratar agora  com o Prof. Miguel Couto, no Rio. Antes eu não podia ir. O senhor bem sabe... Vim aqui ainda incomodá-lo porque o senhor é viajado e poderá dar-me umas informações.

Ao antigo cliente gratuito não ocorrera, nem por sombras, pagar o trabalho atrasado do médico. É dos mais estranhos hábitos, esse de se retribuir geralmente todos os serviços, menos o do médico. Talvez isso provenha do fim do século 19, em que o médico da família tratava-a de graça e dela recebia seu sustento cotidiano. Ou então do tempo em que a Medicina era exercida por escravos.

Sartori consultou papéis, tomou algumas notas: - O senhor primeiro tomará um auto até o porto. Depois pegará vapor até o Rio. Lá esperará uns 10 dias até poder consultar o professor. Pagará os cem mil réis  da consulta e ele lhe pedirá exames. Daí um semana o senhor voltará para saber que deve continuar o tratamento da sífilis que o senhor herdou do bisavô, do avô e do pai. Mas, para isso, caro cliente agradecido, já que seu antigo médico não serve mais para nada, o senhor (esticou então o braço indicando incisivo), comece saindo por aquela porta ali.

O FIM

Ia alta a madrugada. O frio do inverno lageano penetrava pelas frinchas das janelas. Batem à porta de Sartori. Batem mais. Ele já há tempo não atendia mais chamados. A preta velha estava doente, muito doente. Lá longe, no Banhado. Era pobre. Não podia pagar médico. Ele se levanta e vai. Voltou com calafrios. Depois veio a febre e a pneumonia. Os remédios não surtem efeito. E saiu para a grande viagem, poucos dias depois, na madrugada fria, quando a Estrela D’alva brilhava escandolasamente no céu azul escuro.

Morre em 12.7.1945 da pneumonia que contraiu. Seu enterro preito de todas as classes sociais, especialmente das mais modestas, teve caixão, por expressa vontade sua, carregado por membros da comunidade negra e dos pobres da cidade.

Seus contemporâneos não chegaram a reconhecer-lhe o valor. Não passava, para grande parte da população, de um excêntrico. O povo, porém, o adorava. Pediu que fosse enterrado em caixão de tábuas nuas, carregado pelos negros que tanto admirava, em lugar desconhecido, sem barulho, no meio da mata. Não lhe fizeram esta última vontade. Seu enterro foi consagração popular. Jornais teceram vastos necrológios. Foi perpetuado em bronze que reproduz com perfeição sua fisionomia austera e boa.

Assim, morre esse mestre da cirurgia, vivendo incógnito numa cidadezinha, esponteamente isolado dos grandes centros, onde, certamente, se imporia pela força dos conhecimentos, grandeza de caráter e perfeição técnica. Alguém em visita ao busto do Mestre ouviu comentarem com simplicidade:

-Está igualzinho. Até aquelas verruguinhas!

(Baseado em REVELAÇÕES DE UM MÉDICO, 2ª edição, Editora 

Por Henrique Packter 18/01/2022 - 19:39 Atualizado em 18/01/2022 - 19:41

Cesar Sartori não limitou sua atuação médica a Lages e Urussanga. Generoso, aventureiro, humanitário atendia os índios, deslocando-se para as lonjuras de Chapecó.

Antonio Selistre de Campos foi nomeado pelo governo catarinense como inspetor escolar em Lages de1912 a 1913, no Grupo Escolar Vidal Ramos; é quando conhece Sartori.

No jornal A Voz de Chapecó artigos do Juiz de Direito Antônio Selistre de Campos, chamam a atenção sobre os Kaingáng e para o tema saúde dos indígenas. Cesar Sartori vai de Lages/SC, a cavalo, até o oeste catarinense para atendê-los. Índios morriam em penúria à mingua de recursos. Dizem-lhe: o mal que os vai dizimando é a febre, uma espécie de tifo. 

Pensava solucionar o problema destinando parcela de qualquer verba, para que alguns médicos, funcionários públicos do Departamentos de Saúde (no Sul, Centro o Norte do País), com gratificação especial, visitassem os toldos indígenas. Ao menos em tempos de surtos epidêmicos.

A febre, uma espécie de tifo referida por Antônio Selistre de Campos, foi doença contraída pós-contato, para a qual os indígenas não tinham adquirido imunidade. Porém, atendimento não vinha dos órgãos oficiais o acolhimento vinha pela medicina tradicional das ervas, conhecida e praticada pelos indígenas, e por alguns não-indígenas.  O curandeiro Ricardo nessa emergência dolorosa de sofrimento e desamparo trazia conforto aos morituros. Humilde curandeiro, Ricardo, preto, velho, analfabeto, era mais pobre do que os índios, que se iam extinguindo, na indigência. Morador do sertão, léguas longe dos enfermos, condenados à morte, nesse transe irremediável, lhes traz a solidariedade de ser humano, nessa última esperança de medicação ilusória.

Antônio Selistre de Campos critica o Serviço de Proteção aos Índios/SPI, que, depois de 1930 não é mais dirigido pelo Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, e sim por funcionários públicos admitidos pelo Departamento Administrativo do Serviço Público/DASP.

Em 10.03.1941, sob o título Índios IV, Antonio Selistre de Campos informava no jornal sobre a visita do Dr. Cesar Sartori fornecendo pequena biografia do médico italiano. Sartori contava então 80 anos! Há mais de quarenta anos residia em Lages. Estimado e acatado dado seu espírito humanitário e competência de cientista já visitara índios em Go, Pa, MS, PR, RS. Visitou toldos de Jacu e Banhado Grande.

Escreve ao Dr. Roquete Pinto (médico, escritor, radialista, antropologista), mostrando a condição de vida dos índios. Escreve também ao General Rondon e ao Presidente do país, pedindo a criação de assistência medica permanente aos índios brasileiros. Sobretudo para combater moléstias endêmicas e epidêmicas, que os vitimam há quatrocentos anos.

Selistre de Campos afirma ser certo que em Chapecó, cidade, sede de município importante, até há dois anos atrás (1939) não havia médico ou farmacêutico.

A 20.04.1941, em Índios, Antônio Selistre de Campos: o Posto precisa cumprir sua finalidade, isto é, a proteção dos Índios. Que se consiga ao menos, periodicamente, ida de médico aos toldos (...), pois, a permanência efetiva de um clinico, como sugere, por espírito de humanidade, o Dr. Cesar Sartori, é ideal quase irrealizável.

Quatro anos depois o problema persistia; em 06.04.1945, Selistre de Campos reclama em carta ao encarregado do posto, Francisco Siqueira Fortes, a persistência do problema. Em 1948, três anos depois, (...) Selistre de Campos publica artigo relatando a precariedade do atendimento à saúde e sobre duas mortes de índios idosos: Os Índios estão morrendo.

Fundado em 1939, o jornal de Chapecó circulava aos domingos na cidade e região. A última edição localizada do jornal foi de dezembro de 1957.

Selistre de Campos nasceu em Sto. Antônio da Patrulha/RS (1881); muda-se para POA /RS, onde cursa a Faculdade de Direito (1904). Formado em 1909, foi Juiz Estadual na comarca de Campos Novos/SC (1914). Após 1931 assume em definitivo a comarca de Chapecó. Falece a 05.12.1957 de pneumonia. Kaigángs levam o caixão acompanhando a pé o cortejo fúnebre.

Por Henrique Packter 07/01/2022 - 08:55 Atualizado em 07/01/2022 - 08:55

Deixa casa e consultório, bengala de junco ao ombro, chapéu Borsalino de grande aba larga e gravatinha branca de tope, habitualmente usada.  E lá se ia, bamboleando o corpo grandalhão, gingar de marinheiro, olhos semicerrados, pequenos, vivos, perdidos muitas vezes em elocubrações. César Avila  já estava pronto e lá se ia, rua 15 de novembro acima, rumo ao hospital, o velho convento de pedras. Seis e meia da manhã e já se preparavam na sala pequena, onde o sol ensaiava entrar pela janela.

Seu escovar era um dilúvio de espuma e água. Antes, pince nez a cavaleiro no nariz, tesoura em punho, cortava as próprias unhas e examinava as de seus assistentes. Está ali com as calças arregaçadas até o meio das canelas. A lavagem das mãos durava os longos 15 minutos clássicos.

Sartori sempre cumpriu escrupulosamente, com rigor fanático os detalhes mínimos da técnica. Era intransigentemente exigente em relação à lavagem das mãos e à desinfecção do campo operatório, a assepsia e a antissepsia. Ao executar uma cesariana seu jeito desengonçado se transfigura na cirurgia. A cabeça irradia autoridade e aquelas mãos que pareciam pesadas, adejam leves, manejando o bisturi. É um artista operando. A calma que vem da segurança em si. O entusiasmo jovem não diminuiu, mesmo tendo Sartori emagrecido pela velhice, a face sulcada de rugas. Um homem consciente da responsabilidade do ato cirúrgico.

A sala de operações era um Templo onde se ciciava. Mas, se algo não corresse bem, pobre do assistente ou da enfermeira.

Deus romano tonitroante acordava numa tempestade de palavras e palavrões, mistura de italiano e português, blasfemando em duas ou mais línguas...

Terminado o ato cirúrgico, passava a tempestade, era o primeiro a cumprimentar a todos e a pedir críticas. Jamais atingiu a autossuficiência e, por isso, sempre foi moço.  Tinha a tortura da perfeição. Na véspera relera a familiar anatomia topográfica daquela operação,   tão sua conhecida e tantas vezes praticada. Hábil escultor, sabia que estava esculpindo o frágil material que é o corpo humano, sempre um grande risco. Era, a um tempo, mestre-parteiro, grande clínico, grande cirurgião, grande coração.

César Sartori e César Ávila voltam para casa, sempre conversando. E, nessa volta param cinco a seis vezes. Parados, ele bate no ombro do interlocutor para sublinhar o raciocínio. Parados alguns minutos várias vezes no calor da conversa, a volta do hospital dura, assim, perto de uma hora.

Para, bate no ombro e diz: -“Hóstia! Veja a inteligência do Povo. Puseram apelido de bicho numa porção de gente. Quando sonham com um desses, jogam no bicho correspondente. Sturgo é o cachorro. Caetano é o pavão.  E eu, diga-me: com que bicho sou parecido? Olha! Sou o urso. O urso do polo. E sou parecido mesmo”.

Na casa almoçam a imbatível culinária, cardápio de dois mundos, responsável por sua obesidade. Macarrão de vários tipos. Salada de feijão branco e alho. Fumegantes assados. Paca, perdiz, polenta. Tudo regado a vinho.

Com gesto autoritário, dedo em riste, exigia repetissem várias vezes a taça de vinho ou o copo de cerveja: “Semel in anno insanire potes.” (Uma vez por ano podes ficar maluco, diziam os latinos). Beba “que te fa bene”.  E assim, várias vezes por mês seguiam o preceito anual dos latinos. Café, vermute. Depois dormia religiosamente a sesta. Dona Senhorinha e Matilde preparavam-lhe o almoço e cuidavam de seu sono reparador pós-prandial.

O Consultório

Três degraus. Corredor estreito. Na porta o horário de anúncio de jornal: Consultório Dr. César Sartori, médico, operador e parteiro. Entrava-se por uma porta ao lado. O consultório de Sartori era peça pequena e modesta em sua residência particular. Um esqueleto humano completo a um canto, pendurado na parede. Dois grandes armários com livros.

Mesas pequenas lembravam um museu. Havia, entre outras coisas, queixada de piranha do interior do Mato Grosso, minérios de ouro colhidos por suas próprias mãos nas galerias de Morro Velho, arcos e flexas de muitas tribos, dois crânios de indígenas e outros, de animais. Um grande couro de jibóia contornava a peça, paralelo ao teto. Antigos recortes de jornais e de revistas nas janelas de vidro dos armários: Stalin, a Passionária, Plutarco, Luiz Carlos Prestes, fotos de crianças, colegas, amigos.

E livros: bíblias e livros comunistas ao lado de manuais de cirurgia e de obras de Biologia. Tudo lido. Tudo anotado. Em outra peça, seu arquivo. Eram de contas que quase nunca mandava e ficavam ali à inútil espera de pagamento com tudo em ordem, dia e hora do atendimento. Algumas pitorescas. Esquecera o primeiro nome do paciente e especificara como lembrete:”Santos (o sem orelha) 10 injeções de 914 semanalmente de 2.6.1925 a 4 de agosto".

Ali examina doentes com cuidado e técnica, aflorando o diagnóstico acima dos sintomas, com aquele sexto sentido que dá ao clínico a intuição da doença, qualidade nele hipertrofiada. Depois das consultas, estuda, escreve. À noitinha sai e visita amigos; ao pé da lareira transborda o formidável causeur. Penosamente, surge, caleidoscopicamente, suas aventuras pelos caminhos do mundo.

Profissão de fé

Orador de mão cheia, assim sintetizou num discurso de saudação, sua vinda a Lages:

“Deixa que tudo isso te diga, um médico do interior, que chega aqui, vindo de Urussanga, consumindo 8 dias a cavalo, 41 anos atrás. Médico que cobria distâncias imensas em transportes muitas vezes incômodos, sem horas de descanso, escalando montes em noites de temporal, enfrentando as mais duras intempéries pelas caladas da noite, sem repouso para o físico e sem tréguas para o espírito. Transportado no lombo das mulas, ao frio, ao vento, à neve.  Esperando na noite negra, que baixasse a água do rio para poder vadeá-lo. Dormindo ao relento ou no catre duro, tendo travesseiro como única roupa, onde, uma vez, estava escrito:” Duma bem e viva a República.” O dramático, o trágico, o cômico, tudo misturado. Precisava ser enciclopédia viva, um improvisador, médico e enfermeiro, parteiro e dentista; muita vez batizei crianças agonizantes. Fiz minha primeira operação cesárea em Lages, no quarto da paciente, assistido por Hermelino Ribeiro e Antônio Amorim".

Antifascista

Levanta-se num banquete pedindo a palavra para condenar a invasão da Abissínia pelas tropas de Mussolini. Na guerra de 14 vai à Itália. Ainda não naturalizado brasileiro dirige parte de um hospital e não aceita remuneração ou posto de oficial. Sartori levava a extremos sua ética profissional. Por princípio, adversário de qualquer guerra, não queria tirar proveito daquela.

Sofreu o que a Itália sofria com o domínio de Mussolini. Recalcou suas tendências políticas, denunciado que foi por colega cônsul italiano, como antifascista. Tinha familiares na Itália e suas atitudes, no Brasil, podiam vir a prejudicá-los, comprometê-los. Recebe carta de um parente, catedrático em Milão, o professor Colosi, enviada clandestinamente da Suiça, em pleno período fascista: “...Caríssimo tio, não sublinhe nada em suas cartas. Não escreva a palavra LIBERDADE. Não fale nem na Democracia brasileira. Evite tudo isso. Poderemos sofrer muito!” Um a um seus parentes vão morrendo.

Por Henrique Packter 27/12/2021 - 08:40 Atualizado em 27/12/2021 - 08:42

CÉSAR SARTORI foi deputado socialista na Itália pelo Partido Socialista Libertário, rebelando-se contra o absolutismo capitalista. Sua popularidade vem com a oratória diferenciada e contundente. Caricaturas nos jornais mostram-no exageradamente magro, recurvo, guarda-chuva em punho. O distintivo de CESAR SARTORI era a mão segurando archote.


Anotava fatos das viagens em cadernos, do preço dos hotéis a roupas adquiridas. Um resumo histórico e político acompanhava as anotações. Membro de uma comissão de métodos, vai a Lourdes averiguar oficialmente os milagres do Santuário. Estudou o Espiritismo. Viu as quedas do Niágara e do Zambeze.

 
Lia as revistas médicas para buscar depois, na fonte, com os criadores, técnicas que o interessavam.

Aprendeu com Carlo Forlanini, na Itália, a aplicar o pneumotórax artificial, com Emil Theodor Kocher na Alemanha a extirpar o bócio. Conheceu Friedrich Schauta (da histerectomia vaginal), Jean Louis Faure (cirurgião ginecologista), Victor Pauchet (autor de Infância, Gênero e Sexualidade e da Maternidade Pauchet), Serge Voronoff (dos xenoimplantes glandulares), Camille Flamarion (astrônomo, pesquisador psíquico espírita -, queria tornar a religião científica e a ciência religiosa).

CÉSAR SARTORI tinha curiosidade pelo homem e seus costumes. Estudava o Negro e o Índio, aos quais dedicava grande afeto.  Procurava, acabando por conhecer, celebridades em todos os ramos do conhecimento humano. Correspondia-se com JOSÉ INGENIEROS (Giuseppe Ingenieri), a quem conhecia pessoalmente. Ingenieros foi um dos grandes heróis intelectuais da minha geração, a geração que se formou nas décadas de 1950-1960 em Curitiba e que julgava indispensável a leitura de seu bestseller  O HOMEM MEDÍOCRE.

José Ingenieros (Giuseppe Ingenieri), Palermo, 24.04.1877 — Buenos Aires, 31.10.1925,  completou sua formação acadêmica, seus  estudos científicos nas universidades de Paris, Genebra, Lausane e Heidelberg. Farmacêutico (1897), médico (1900), psiquiatra, psicólogo, escritor, docente, filósofo e sociólogo ítalo-argentino, escreveu Evolução das ideias argentinas, marco histórico da Argentina como nação.

A Academia Nacional de Medicina Argentina premiou Ingenieros por Simulación de la locura (sequência da tese editada em livro, 1903). Nomeado Jefe de la Clínica de Enfermedades Nerviosas de la Facultad de Medicina da Universidade de Buenos Aires, Membro e depois diretor da Cátedra de Neurología de José María Ramos Mejía, no Servicio de Observación de Alienados de la Policía de la Capital.

Ingenieros também dirigiu os arquivos de Psiquiatria e Criminologia e assumiu o cargo do Instituto de Criminologia da Penitenciaria Nacional de Buenos Aires (1902-1903). Foi Conferencista Itinerante  em universidades européias e Catedrático de Psicologia Experimental na Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad de Buenos Aires (1904), fundou a Sociedad de Psicología (1908). Presidente da Sociedade Médica Argentina e Delegado Argentino do Congresso Científico Internacional de Buenos Aires (1909).

Seus ensaios sociológicos, El Hombre Mediocre, Al margen de la ciencia, Hacia una moral sin dogmas, Las Fuerzas Morales, Evolución de las ideas argentinas e Los tiempos nuevos -, ensaios críticos e políticos impactaram o ensino universitário argentino e a juventude latinoamericana.

Dirigiu seu jornal bimestral Seminario de Filosofía, mesclando a paixão pela ciência com uma ética social acentuada. Na Reforma Universitária foi eleito Vicedecano da Facultade de Filosofia e Letras, com amplo apoio do movimento estudantil (1918).

Em 1919 Ingenieros renunciou a todos os cargos docentes iniciando (até 1920), luta política, participando ativamente em favor do grupo comunista-progressista Claridad. Promoveu a formação da Unión Latinoamericana (1922), organismo de luta contra o imperialismo. A poucos meses de sua morte, criou o jornal mensal Renovación, contra o imperialismo, assinando com os pseudônimos Julio Barreda Lynch e Raúl H. Cisneros (1925).

Com o tempo discordou das posturas do socialismo de Estado, passando a colaborar com jornais anarquistas; chegou a ser abertamente simpatizante do anarquismo. Morreu a 31.10.1925, aos 48 anos.

INGENIEROS e SARTORI foram amigos próximos e as ideias político-econômicas de ambos eram extremamente afinadas.

Por Henrique Packter 21/12/2021 - 07:38 Atualizado em 21/12/2021 - 07:40

Trecho de correspondência que endereçou ao governo italiano: "Que coisa entendeis por uma nação, Senhor Ministro? É a massa dos infelizes? Plantamos e ceifamos o trigo, mas nunca provamos pão branco.  Cultivamos a videira, mas não bebemos o vinho. Criamos animais, mas não comemos a carne.  Apesar disso, vós nos aconselhais a não abandonarmos a nossa pátria?  Mas é uma pátria a terra em que não se consegue viver do próprio trabalho?"


1. O INÍCIO

CÉSAR SARTORI chegou em Lages pelos idos de 1905 em busca de saúde e sustento aos 40 anos, vindo de Urussanga a cavalo. Portador de tuberculose era médico de certa notabilidade na Itália. Trouxe livros de cirurgia, anatomia, filosofia, política, literatura, poesia. de Malatesta (anarquista: a propriedade é sempre um roubo), Schopenhauer (o pessimista), Voltaire e Dante. Roupas eram poucas e o resto eram os ferros para cirurgia.


De 1911 a 1916 é a guerra do Contestado.

De família de intelectuais e médicos nascera em Chiampo formando-se em Medicina em Pádua, Patavinae Universitatis, das mais antigas do mundo. (Chiampo, região do Vêneto, província de Vicenza).

Frequentou cursos de História (da Arte, das Religiões, da Música, História Natural, Interpretação da História, Biologia, Zoologia, Botânica). Sua biblioteca, inteiramente desaparecida, contaria com dez mil volumes. Homem de muitos livros, dizia de si mesmo.

Formado em Medicina foi médico de bordo por 2 anos, conhecendo o mundo. Atravessou o Saara, quase foi devorado por um leão nas cercanias de Zanzibar. Perdeu-se no Cairo. Conhecia a Terra Santa que visitara várias vezes, empunhando a Bíblia para estudar a vida de Cristo in loco.

Com Darwin nas mãos foi à Ilha da Páscoa; vagou pelos Andes e pelos desertos do México. Na Guatemala conheceu o quetzal, pássaro que se suicida em cativeiro e tem mancha de sangue no peito porque protegeu o herói nacional com o próprio corpo.

Chamava o Brasil de Terra da Promissão: ”Esta terra nova, cuja geografia se modifica ainda nas mudanças telúricas será o paraíso da Humanidade. O resto do mundo está velho ou conquistado. Este já é hoje melhor país para viver, onde existe o povo mais bondoso e mais inteligente. Esta Terra, minha segunda Pátria, vai ser o maior País do Mundo Moderno”.

Divulgou nosso país em conferências no exterior e publicou em português e italiano: “PER ASPERA AD ASTRA. GOYAZ, MATO GROSSO, PARAGUAY, FIUMI ARAGUAYA, GARÇAS, AQUIDAUANA, DIAMANTI, MORALITÁ E CRIMINALITÁ DI PELLI-ROSSE”.

2. EM URUSSANGA

Lei nº 10 de 10.01.1903- cria o imposto de Assistência Médica para fixar um médico na sede do município em Urussanga.  Cesare Sartori radicado em Lages, desde 1902 assistia esporadicamente a população da cidade. César Ávila assegura que CESAR SARTORI chegara em Lages em 1906; parece que a data deva ser recuada para 1905, talvez antes. Em 1904 Cesare Sartori é substituído em Urussanga pelo Dr. Francisco Buzzio.

 

O Hospital Nossa Senhora dos Prazeres em Lages é de 17.4.1900.

Dos italianos vindos para SC 95% eram do norte da Itália, do Vêneto e Lombardia. Os primeiros (e poucos) imigrantes italianos para o estado (1836), eram da Sardenha, fundando a colônia de Nova Itália (atual São João Batista). A partir de 1875 ocorre maior número de assentados italianos no estado e são criadas suas primeiras colônias: Rio dos Cedros, Rodeio, Ascurra e Apiúna, todas  no entorno da colônia alemã de Blumenau. Imigrantes do Trentino fundaram Nova Trento, e Porto Franco (hoje Botuverá, em 1876). Os italianos das primeiras colônias vinham majoritariamente da Lombardia e do Trentino,  pertencentes ao Império Austro-Húngaro.

Nos anos seguintes o sul catarinense foi o principal foco de colonização italiana em SC. Nesta região foram fundadas Azambuja (1877), Urussanga (1878), Criciúma (1880), a colônia mista de Grão-Pará (1882), o núcleo Presidente Rocha (hoje Treze de Maio, 1887), os núcleos de Nova Veneza, Nova Belluno (hoje Siderópolis) e Nova Treviso (hoje Treviso, 1891) e Acioli de Vasconcelos (hoje Cocal do Sul, 1892). No sul do estado os imigrantes vinham principalmente do Vêneto e se dedicaram ao desenvolvimento da agricultura e à mineração do carvão. A chegada de italianos ao estado praticamente termina em 1895, quando número reduzido de colonos chega para colonizar Rio Jordão, no sul. Isto, devido à guerra civil (a Revolução Federalista) e pela decisão governamental que deixava a imigração subsidiada a cargo dos estados.

Notícias de trabalho semi-escravo chegaram à Itália, e o governo italiano passa a dificultar a imigração para o Brasil, promulgando o Decreto Prinetti (março de 1902), proibindo os subsídios da viagem. Entre 1904 e 1913, a entrada de italianos no Brasil foi cerca de 40% da década anterior (de 537,8 mil para 196,5 mil). Entre 1887 e 1903 a média anual de entradas de italianos no Brasil foi de 58 mil. Entre 1903 e 1908, esta média caiu para 19 mil por ano. SARTORI deve ter chegado ao Brasil entre 1887 e 1903.

3. O HOMEM

Sempre combateu os mais poderosos, o capitalista, o nobre, a coroa, o clero.  Cuspiu no Rei que desfilava numa carruagem e lhe atirou a bengala. Preso, a perseguição aumentou. Pobre e doente escolhe o Brasil para morar: “Escolhi o Brasil porque era a terra de Anita Garibaldi”.

Estudava com carinho o Negro e o Índio. Deputado socialista pelo Partido Socialista Libertário italiano, rebelou-se contra o absolutismo capitalista. Bom orador, tornou-se popular. Caricaturas nos jornais mostravam-no exageradamente magro, recurvo, de guarda-chuva em punho.  Seu distintivo era a mão segurando um archote.

Membro de uma comissão de métodos, vai a Lourdes estudar oficialmente os milagres do Santuário. Estudou o Espiritismo. Viu as quedas do Niágara e do Zambeze. Anotava fatos de suas viagens em cadernos. Do preço dos hotéis a roupas adquiridas. Um resumo histórico e político acompanhava as anotações. Lia as revistas médicas para buscar depois, na fonte, com o criador, as técnicas que o interessavam. Aprendeu na Itália com Forlanini a aplicar o pneumotórax artificial, com Kocher na Alemanha a extirpar o bócio. Conheceu Schauta, Jean Louis Faure, Pauchet, Voronoff, Flamarion.

Tinha curiosidade pelo homem e seus costumes. Procurava e, acabou por conhecer, celebridades em todos os ramos do conhecimento humano. Mantinha correspondência com JOSÉ INGENIEROS (GIUSEPPE INGENIERI) que conhecia pessoalmente.

Por Henrique Packter 13/12/2021 - 08:23 Atualizado em 13/12/2021 - 08:25

De passagem pela Villa de Nossa Senhora dos Prazeres da Fronteira do Certam das Lagens, que já encurtou seu longo e gracioso nome para Lages, simplesmente, não deixe de procurar a central Praça João Ribeiro para admirar o busto do médico CESAR SARTORI, uma das figuras mais emblemáticas da Medicina mundial em todos os tempos. Na cidade há também rua que leva seu nome.

O busto tem uma placa: ”Dr. Cesar Sartori nascido aos 15 dias do mês de fevereiro de 1867 em Vicenza (Itália) e falecido aos 12 dias do mês de julho de 1945 em Lajes que foi a pátria amada do seu grande e nobre coração”.

Foi biografado, entre outros, por CESAR ÁVILA, outro notável médico lageano, nascido por suas mãos, de quem ganhou o nome e herdou descomunal conhecimento médico. 
Descreveu Sartori, xará e partejador como “magro, já um pouco curvado, alto, nariz adunco, surgindo em Lages com a roupa que trouxera da Itália, os mesmos sapatos pesados europeus, vindo de Urussanga a cavalo, onde foi o primeiro médico”.

Entre Urussanga e Lages, cidades catarinenses, está a imperdível estrada da serra do Rio do Rastro, mais de 250 curvas fechadas em 8 quilômetros de um caminho estreito. O fm do caminho está a 1 400 metros de altitude, em Bom Jardim da Serra.

O INÍCIO

CÉSAR SARTORI chega em Lages lá por 1905 em busca de saúde e cura para sua tuberculose pulmonar e sustento, aos 40 anos, vindo a cavalo de Urussanga. César Sartori em Lages (1903) e Otto Feuerschuette em Tubarão (1910), chegam em datas próximas. Paulo Carneiro, colega de turma de Cesar Ávila, chegará na Laguna em 1930. O Hospital Nossa Sra. dos Prazeres, de Lages, é de 17.4.1900.

Cesar Sartori nasceu em Vicenza, Itália (1867) e vem a falecer em Lages (1945). Toda sua bagagem coubera em dois cargueiros com bruacas. Poucas roupas, muitos livros e ferros de cirurgia. Tratados cirúrgicos e de anatomia, livros de filosofia, política, literatura e poesia. Trazia, entre outros, Malatesta (o anarquista), Schopenhauer (o pessimista), ao lado de Voltaire e Dante. Sua biblioteca, inteiramente desaparecida, chegaria a contar com dez mil volumes. Homem de muitos livros, dizia de si mesmo.

Otto Feuerschuette, natural de Tubarão, seu segundo médico, nasceu a 09.04.1881, teria 24 anos na chegada de Sartori a Lages. Cesar Ávila, nasce na época de sua chegada: “nasci um prematuro de menos de dois quilos”.

- Vai morrer. Batizem! Procurem uma caixa de sapatos para enterrá-lo -, sentencia Cesar Sartori.

Azafamado vem o padre. Batiza-o, o médico como padrinho. Sartori, anticlerical ferrenho, botou todo o veneno de sua descrença nesta cerimônia.

- Ponham meu nome porque vai morrer. Chamem-no de César. Meu nome e do imperador romano:

- Como é muito pequeno incrivelmente pequeno, batizem-no de César Augusto; César, o grande!

Havia o problema da alimentação.

- O que vamos dar pro menino?

Sartori pensa um pouco:

- Agora, uma colher de vinho do Porto. Como vai morrer, aproveitará uma das melhores coisas da vida. Depois ... não precisará de mais nada...

Foi a primeira experiência de César Ávila sobre a falibilidade do prognóstico. Não morreu. Os pais tiveram trabalho insano para conseguir ama de leite. Mamou numa Índia depois de ter mamado numa cabra. Herdou de ambas a tendência nômade que o fez nunca parar num mesmo lugar ...

O anarquista Cesar Sartori nasceu a 15.2.1867 em Chiampo, região do Vêneto, província de Vicenza, Itália, em família de intelectuais e médicos. Médico pela Patavinae Universitatis, em Pádua, das mais antigas faculdades do mundo, frequentou cursos de História da Arte, das Religiões, da Música, História Natural, Interpretação da História, Biologia, Zoologia, Botânica.

Em 1891, 24 anos, estudante universitário, milita no Partido Revolucionário Anarquista-Socialista, organização que pretendia unir as forças libertárias num único movimento insurrecional. Essa militância no movimento libertário implicará em perseguição e prisões. Seguidor de Enrico Malatesta (anarquista: a propriedade é sempre um roubo), e de Andrea Costa, era apaixonado pela filosofia (Schopenhauer, o pessimista), literatura (Voltaire) e poesia (Dante). Em 1893 gradua-se em Medicina e adquire certa notabilidade médica. 

Foi assistente de Bassini, considerado o maior cirurgião da época, criador do método clássico da cirurgia de hérnia inguinal. Era a última década do século 19. No começo do século trabalha com César Lombroso, interessa-se pela criminologia e pela biotipologia.

Em 1902 busca trabalho, saúde e liberdade -, emigra para o Brasil, instalando-se em Urussanga/SC.  Portador de tuberculose, o clima de Urussanga não lhe foi favorável.  Estabelece-se definitivamente (1903) na altitude de Lages, onde monta consultório. A 1º.5.1908, 113 anos atrás, graças a ele, Lages celebra pela vez primeira o 1º de maio..

Por Henrique Packter 03/12/2021 - 07:51 Atualizado em 03/12/2021 - 07:56

Atleta no Grêmio, DINO praticava futebol. Depois caçará perdizes. MAURÍCIO FERNANDO PEREGRINO DA SILVA, que trabalhou por longos anos em Orleans e hoje aposentado reside no Pio Corrêa em Criciúma, conheceu DINO GORINI. Ao saber onde residia, dele ouviu:

- Pio Corrêa? Olha, ali muita perdiz cacei! 

Subia a serra da Rocinha até São José dos Ausentes, onde caçava em terras de Mosa Valim. Mantinha ao menos seis cães perdigueiros em Veneza enquanto caçou.

Término das férias escolares DINO me ligava para saber se eu viajaria a Porto Alegre, onde minha noiva FRIDA residia. Assim, levei e trouxe do Portinho BRIGITTE, MÉROPE, SEMIRAMIS e BERENICE algumas vezes. Três meninas mais uma secretária, sardinhas em lata no banco traseiro de meu Fusca 1960.

Os ônibus alcançavam Porto Alegre após longo e trepidante trajeto com a bagagem transportada sobre os veículos, coberta por lona, os passageiros sendo frequentemente convocados para empurrá-los quando atolavam na areia da praia. Alguns passageiros levavam gaiolas com animais para obsequiar parentes da metrópole gaúcha. Além de encarar viagem pela praia, de Arroio do Silva a Torres, a travessia dos rios Araranguá e Mampituba (este na divisa dos dois estados), exigia o concurso de balsas.

O JOGO DA MORA

Teria surgido dentro dos presídios. Sem objetos para apostar os presos usavam as mãos. O jogo, popular em Veneza, exige movimentos e raciocínio ágeis ao estender os dedos e mover as mãos, consistindo em acertar a soma dos dedos que os envolvidos na disputa venham a expor sobre a mesa. É um alternar de encolhe e abre e fecha e bate, enquanto se ouve pronunciar números de zero a dez: muta, uno (un), due (du, un per un, un per uno), tre (trrr), quatro, cinque (sinque ), sei (ces), sete, oto, nove, dieci (diese, ou tuta).

PARA PORTO ALEGRE

Havia uma escala técnica em Terra de Areia, lugarejo com meia dúzia de casas e um botequim, cujas condições de higiene eram terríveis, para dizer o mínimo. O odor de urina e fezes era sentido já na rua. Almas sensíveis desistiam de entrar para aliviar-se, utilizando moitas e árvores para este propósito. Adentrando as instalações do estabelecimento, conhecia-se obra do inspirado autor das garatujas na porta do que o proprietário denominara pomposamente WC:

Terra de Areia, oh terra bem diferente,

Em vez da gente cagar nas patentes são elas que cagam na gente. 

Quando iniciei minha atividade médica em Criciúma, a cidade dispunha, na área de serviços prestados por BIOQUIMICOS, de ERNESTO LACOMBE FILHO, JOSÉ ALFREDO BEIRÃO  e VICTOR LUIZ ANGULSKI SAMPAIO. WALMOR de LUCA e CARLOS HENRIQUE UBATUBA LIENERT viriam logo depois.

ERNESTO LACOMBE nasceu em Cruz Alta, 15.3.1907, filho do coronel que comandava as tropas gaúchas e catarinense e tomavam o sul catarinense em favor do movimento que conduziria GETÚLIO VARGAS ao poder, numa revolução de menos de 30 dias. Irmão do médico ÂNGELO LACOMBE, udenista de 4 costados que trabalhou sua honrada medicina em Criciúma até aposentar-se e gozar o ócio com dignidade em Florianópolis, pelo  resto da vida.

ERNESTO foi proprietário da Farmácia Confiança e do Laboratório de análises Confiança. Participou da fundação da Banda Musical Cruzeiro do Sul e foi membro da maçonaria, falecendo em 27.8.1973, quase 50 anos atrás.

Costumava andar com um punhal na gorda cintura e cumprimentava:

- Como vai essa bizarria?

VICTOR LUIZ ANGULSKI SAMPAIO, nasceu em Criciúma, 14.11.1934.  Casado com Valesca Viegas Sampaio teve 7 filhos: Vítor Luiz, Maria Valesca,  Thaís, Denise, Maria Júlia, Vânia e Wladis. Não era ligado aos hospitais da cidade e tinha seu laboratório na Praça Nereu Ramos quase ao lado da Casa da Cultura. Era filho da lendária senhora LADISLAVA ANGULSKI e irmão de VÂNIO CARLOS ANGULSKI SAMPAIO. LADISLAVA, viúva em 1940, assumiu a direção da conhecidíssima FARMÁCIA SAMPAIO. Víctor  faleceu em 13.9.1993, aos 58 anos. A esposa também é falecida.

MÁRCIO BURIGO Graduação em Farmácia pela UFRS (1962), especialização em Farmácia pela University of Texas System(1972), especialização em Química Clínica pelo Keio University(1967), pela University of North Carolina System(1979), pela University of Virginia 1977) e pela University of Houston System(1980); especialização em Energia Nuclear pelo Comissão Nacional de Energia Nuclear(1976), e por aí vai.

É professor titular da Universidade Luterana do Brasil, do Laboratório Bioquímico Criciúma Ltda., do Hospital Femina e do Laboratórios Unidos de Pesquisas Clínicas Ltda.

O Laboratório Búrigo recentemente dominou os diz-que-diz-que da região com a notícia de que estaria sendo negociado com a UNIMED. Perguntado a respeito,  MÁRCIO teria dito que um termo de confidenciabilidade estabelecido entre as partes, impedia-o de informar ou comentar a notícia...   Desta maneira, o negócio concretizou-se e a UNIMED convocou reunião de seus cooperados que bateu o martelo em mais esta aquisição.

O apetite da atual administração da Cooperativa médica UNIMED é algo INÉDITO em nossa região e já está tomando de assalto o vale do Araranguá. A UNIMED já comandava as atividades médicas no São João Batista e agora abocanha o Laboratório Búrigo mais suas unidades espalhadas pelo sul catarinense..

Por Henrique Packter 29/11/2021 - 08:40 Atualizado em 29/11/2021 - 08:41

Hoje em dia é quase impossível submeter-se a consulta médica sem que tenhamos de ir a um dos laboratórios de análises clínicas da cidade, voLtar ao médico e assim complementar o elaborado diagnóstico do doutor.

Pude acompanhar a evolução neste setor de nossa Medicina, chegado em Criciúma que sou, em 1959. Para se ter uma ideia é o ano em que nasceu o jornalista José Adelor Lessa, proprietário da SOM MAIOR. DINO GORINI, médico em Nova Veneza pode ser considerado um pioneiro na arte da Bioquímica.

O médico DINO GORINI nasceu em Pavia (Itália), 28.10.1909 faleceu em 31.7.1988 no Brasil. Ginecologista e Obstetra, acabou médico generalista num interior carente de médicos. DINO atendia a quem quer que o procurasse sem questionar se seria remunerado ou não. Com qualquer tempo subia a serra para atendimentos emergenciais.

“Seu Estevão vá encilhar o zaino que vou atender um chamado lá no Costão da Serra”.

Na época o chefe de família detinha o poder de decisão e DINO, tuteado pelos filhos, dispensara-os de beija-mão e pedidos de bênção. Saudava a soltura de gases: “trompa del cullo sanita  del corpo”.

Discussão de qualquer assunto encerrava-se quando dizia “punto e basta”. Dona AUGUSTA adorava argumentar a propósito de tudo e a propósito de nada. Nestas ocasiões dizia “va bene AUGUSTA, Mussolini a sempre raggione”.

DINO, bem-sucedido financeiramente, foi Conselheiro e diretor presidente da Companhia Carbonífera São Marcos. A 3.10.1958, vereador mais votado, foi presidente da Câmara Municipal de Veneza. Um dos fundadores do Rotary Clube de Criciúma e Governador do Distrito 465 (1977/1978). Maçom na Loja Presidente Roosevelt, foi Venerável e representante da Grande L a.    oja do Grande Oriente da Itália para o estado de SC. Presidiu a Comissão Organizadora dos Festejos do Centenário de Criciúma (1980). Cidadão Honorário de Criciúma (1977) e de Nova Veneza (1983). Há um Memorial Dino Gorini no Paço Municipal e também uma Unidade de Pronto Atendimento na Próspera com seu nome. Em 25.9.2003 o Círculo Ítalo-Brasileiro de Florianópolis, instituiu o prêmio “DOUTOR DINO GORINI Distinção e Reconhecimento Preservação da Memória Catarinense”. Objetiva reverenciar a memória dos imigrantes italianos agraciando personalidades ilustres que colaboraram/colaboram com a comunidade ítalo-brasileira.

SAPOS

Sapos machos (amarelos) eram utilizados nos testes de gravidez em humanas. O método Galli-Mainini consistia em injetar urina da suposta grávida em sapo macho. As fêmeas eram escuras com manchas, a garotada empenhava-se na captura de anuros machos atrás de alguns trocados.

No escuro da noite, sem lanternas nem velas a meninada acertava sempre nunca trazendo sapos fêmeas. DINO queria saber como nunca se enganavam.

- É fácil doutor, olha só o jeitão dele!

A LUA DE TODOS NÓS

Um colono mandou um dos filhos estudar na Itália. Antevia o grande retorno em conhecimentos que ele traria para todos. Mas, as contas não param de chegar obrigando o velho pai a se desfazer de vários campos num total de sete. Volta o jovem luminar. À noite, conversam no jardim, o velho colono na expectativa das pérolas de sabedoria trazidas da milenar agricultura  romana.

- Papá, questa luna que io vedo è la stessa que ci vedeva in Itália?

O velho, coça a cabeça de ralos cabelos brancos:

- Puori i miei sete campi! (Pobre dos meus sete campos!).

JECA TATU E DINO GORINI

DINO considerava a verminose um dos maiores flagelos brasileiros. Recebia e examinava no seu microscópio monocular amostras de fezes trazidas em caixas de fósforos pelos clientes.

E o paciente que enviou suas fezes numa latinha de fermento quase vazia? DINO abriu-a cautelosamente, distanciando-se do recipiente. Sua salvação. Segundo BRIGITTE, feito um foguete a merda foi para o espaço. E uma pesada lata recebida com considerável material para exame? Quanto tempo teria despendido o paciente para acumular tudo aquilo?

DINO foi pioneiro no implemento de medidas preventivas e tratamento da parasitose intestinal em nosso meio, mas ainda hoje o problema é sério no mundo todo. Grave problema de saúde pública, verminose é doença decorrente da pobreza.  Segundo a OMS há 1 bilhão de infestados por Lombriga, entre 200 a 500 milhões por Giardia (5% em países desenvolvidos e 40% nos outros países). Entamoeba histolytica acomete 500 milhões. 1 bilhão e meio têm anemia por verminose.

Ascaris lumbricoides e Trichuris trichiura têm prevalência elevada em comunidades cuja atividade produtiva é agrícola (contato frequente com o solo). Ancilóstomas predominam onde a atividade básica é o cultivo de arroz em área inundada. Em localidades de criação de gado predominam Trichostrongylus sp. e Taenia saginata.

A irrigação de solos áridos cria microambiente que permitem a sobrevivência das larvas.

Mineiros de carvão do subsolo em países de clima temperado ou frio, cujo solo submetido a temperaturas baixas não permitiria a sobrevida das larvas, sofreram epidemias de ancilostomíase. A precariedade das condições higiênicas e microambientes úmidos e aquecidos favorecem essas larvas. Diminuição na prevalência de verminoses decorre de melhoria das condições de vida e elevação dos níveis de escolaridade populacional.

DINO certamente enfrentou casos graves de pacientes com obstrução intestinal por lombriga, necrose amebiana hepática, balantidíase fulminante, tricuríase e estrongiloidíase generalizada. Ações governamentais preventivas teriam salvo e ainda poderão salvar vidas.

Vermífugos combatem Verminoses (a opção de DINO), expulsando o verme pela evacuação, sem matá-los. Vermicidas matam os vermes. Eficientes vermífugos naturais: alho cru, farinha de semente de abóbora, suco de chicória, chá da casca do abacate, chá de folhas e sementes de erva doce, infusão de hortelã-pimenta e losna, óleo de mamona (óleo de rícino) ...

Nas férias escolares, a prole GORINI ganhava, querendo ou não, uma dose de óleo de rícino goela abaixo, liberando toda uma variedade de parasitas de seu zoológico pessoal. Priminhos da prole em visita também participavam do compulsório tratamento coletivo.

Por Henrique Packter 17/11/2021 - 12:11 Atualizado em 17/11/2021 - 12:12

Militar por vocação, herança e necessidade (Eduardo Bueno), ascendeu na tropa pela bravura em combate, determinação e comportamento irrepreensível. Herói da Guerra do Paraguai e do cerco de Montevidéu, Comandante das Armas do RS e presidente provisório daquela Província, participou da Praieira ou Revolta Praieira,  movimento liberal e federalista em Pernambuco entre 1848 e 1850, cuja derrota representou demonstração de força do reinado de D. Pedro II (1840-1889).

De forma global, inscreveu-se no contexto das revoluções liberais, socialistas e nacionalistas que varreram a Europa no período, incluindo a Revolução de 1848 na França promotora da extinção do absolutismo no país.

Em nível local sofreu influência das ideias liberais, da falta de autonomia provincial.  Marcada pelo repúdio à monarquia, com manifestações a favor da independência política, da república e por reformismo radical. Havia ainda a histórica rivalidade com os portugueses, que dominavam o comércio na província. Principais causas da Rebelião Praieira:

Predomínio do latifúndio;
dependência e marginalização do pequeno agricultor;
encarecimento dos gêneros de primeira necessidade;
papel monopolizador dos comerciantes portugueses;
êxodo rural;
crise na economia pernambucana.

A REVOLTA
Causa imediata foi a destituição, por D. Pedro II, do Presidente da Província Antônio Pinto Chicorro da Gama, representante dos liberais. A substituição deste liberal pelo ex-regente Araújo Lima, extremamente conservador, foi o estopim para o início da revolução, que já acumulava insatisfação com a política imperial e dificuldades pelo declínio da economia açucareira.

Os rebeldes queriam alterar a Constituição brasileira de 1824, visando a efetiva liberdade de imprensa (limitada, extinguia artigos que ferissem a família real ou a moral e os bons costumes), a extinção do cargo vitalício de Senador, voto livre e universal, garantia de trabalho, nacionalização do comércio varejista das mãos dos portugueses.

Setores radicais do Partido Liberal pernambucano reunidos em torno do jornal Diário Novo, na Rua da Praia, Recife, conhecidos como praieiros – condenaram a destituição de Chichorro da Gama, interpretando esse gesto como mais uma arbitrariedade imperial (abril 1848).

COMEÇA REVOLTA CONTRA O NOVO GOVERNO DA PROVÍNCIA

Inicia em Olinda, a 7.11.1848, sob a liderança do general José Inácio de Abreu e Lima. O presidente nomeado da Província, Herculano Ferreira Pena, foi afastado e o movimento espalhou-se rapidamente por toda a Zona da Mata de Pernambuco.

Rebelião realizada por etapas, tomando características próprias a cada período, os amotinados dirigiram-se para o norte procurando a área de influência de senhores de engenho liberais, como Manuel Pereira de Morais. Ocuparam, sucessivamente, duas cidades, depois de enfrentar os legalistas. Depois do combate de Muçupinho, em que o governo teve uma vitória pouco expressiva, eles se dirigiram para Nazaré da Mata, que foi ocupada, a 12 de novembro, por Joaquim Gonçalves Guerra, influente senhor de engenho do vale do Siriji.

Em 1º.01.1849, os revoltosos lançaram seu programa, documento denominado, modestamente, Manifesto ao Mundo, de conteúdo social Liberal. Supostamente escrito pelo jornalista Borges da Fonseca, o manifesto defendia:

Voto livre e universal do povo brasileiro;
plena e absoluta liberdade de imprensa;
trabalho, como garantia da vida para o cidadão brasileiro;
comércio a retalho só para os cidadãos brasileiros;
inteira e efetiva independência dos poderes constituídos;
reforma do Poder Judiciário, de forma a assegurar as garantias dos direitos individuais dos cidadãos;
extinção da lei do juro convencional;
extinção do sistema de recrutamento militar então vigente.
Recebendo a adesão da população urbana que vivia em extrema pobreza, pequenos arrendatários, boiadeiros, mascates e negros libertos, os praieiros marcharam sobre o Recife em fevereiro de 1849 com quase 2,5 mil combatentes, mas foram rechaçados. Marcharam em três Divisões, uma comandada por João Inácio de Ribeiro Roma, a segunda por Bernardo Câmara e a terceira por Pedro Ivo Veloso da Silveira.

REPRESSÃO
A província foi pacificada pelo novo presidente, Manuel Vieira Tosta, auxiliado pelo Brigadeiro José Joaquim Coelho, novo Comandante das Armas. Derrotadas em dois combates, os líderes das forças rebeldes, pertencentes à classe dominante, foram detidos e julgados apenas em 28.11.1851, quando os ânimos na província já tinham serenado e o governo imperial pôde lhes conceder anistia. Voltaram, assim, aos seus cargos públicos e a comandar seus engenhos. Por outro lado, os rebeldes das camadas sociais menos privilegiadas - rendeiros, trabalhadores e outros - não tiveram direito a julgamento, sofreram recrutamento forçado ou foram anistiados por intervenção de seus superiores para retornarem ao trabalho, exceto aqueles sumariamente fuzilados durante e logo após os combates.

RESULTADOS
Com o fim da Praieira, no início de 1850, iniciou-se outra parte do Segundo Reinado, um período de tranquilidade política, fruto do parlamentarismo e da política da conciliação implantados por D. Pedro II, e da prosperidade trazida pelo café.

QUANTO A DEODORO

Envolvido por Júlio de Castilhos, torna-se amigo também de Ramiro Barcelos e Assis Brasil, todos republicanos. Transferido, desterrado do RS para o então inóspito Mato Grosso em janeiro de 1887, em agosto de 1889 vê o Cel. Cunha Matos, seu inimigo assumir o governo de Mato Grosso. Era uma coronel mandando  num marechal! Algo tão espantoso que somente 130 anos depois voltaria a ocorrer quando um capitão-presidente mandaria num general vice-presidente! Outro inimigo de Deodoro logo assumiria  o governo do RS: Gaspar Silveira Martins.  

Em 13.9.1889, a 63 dias de dar o golpe republicano,  escreveu "o único sustentáculo do nosso Brasil é a monarquia; se mal com ela, pior sem ela". Deodoro estava adoentado e passou todo mês de outubro de 1889 acamado.  Benjamin Constant atraiu-o para a causa republicana. Ainda hesitava em aderir quando é informado que Dom Pedro II escolhera Gaspar Silveira Martins para presidente do Conselho de Ministros no lugar  do Visconde  de Ouro Preto.

Pronto! Decide-se imediatamente e à noite, em sua residência, após chamar Quintino Bocaiúva, Aristides Lobo e Benjamin Constant falou: "Digam ao povo que a República está feita". Aristides Lobo era jurista, jornalista republicano, abolicionista. Na tarde de XV de novembro escrevera em sua coluna CARTAS DO RIO, no DIÁRIO POPULAR:

"Eu quisera poder dar a esta data a denominação seguinte: 15 de Novembro, primeiro ano de República; mas não posso infelizmente fazê-lo. O que se fez é um degrau, talvez nem tanto, para o advento da grande era. Em todo o caso, o que está feito, pode ser muito, se os homens que vão tomar a responsabilidade do poder tiverem juízo, patriotismo e sincero amor à liberdade.
Como trabalho de saneamento, a obra é edificante. Por ora, a cor do Governo é puramente militar, e deverá ser assim. O fato foi deles, deles só, porque a colaboração do elemento civil foi quase nula. O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava.
Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada. Era um fenômeno digno de ver-se.
O entusiasmo veio depois, veio mesmo lentamente, quebrando o enleio dos espíritos. Estamos em presença de um esboço, rude, incompleto, completamente amorfo".

Estaria na hora de voltar à monarquia? 

Por Henrique Packter 08/11/2021 - 08:53 Atualizado em 08/11/2021 - 08:55

Nas semanas passadas falamos de José (JUCA) Tarquínio Balsini, falecido quase simultaneamente ao ingresso no HSJ, de Boris e de João Kantovitz, este recém-falecido.

As coisas que relato têm o sentido de homenagem a esses médicos, além de Thomaz Reis Mello, Arthur do Souto Goulart, pescadores pescados antes do tempo, pioneiros, trazendo o benefício da Medicina de grandes centros. JOÃO, aprendeu a arte Ortopédica com HEINZ RÜCKER e MÁRIO BRAGA DE ABREU, professores de Ortopedia/Traumatologia e Clínica Cirúrgica na Federal do Paraná, em Curitiba, respectivamente.

Quando ALEXANDRE HERCULANO DE FREITAS, um dos primeiros odontólogos da cidade faleceu no Hospital da Laguna, pelo trauma crâneoencefálico (TCE) produzido por acidente rodoviário próximo a Imbituba, quase no mesmo local em que viria a morrer, muitos anos depois DIOMÍCIO FREITAS, trabalhava em Criciúma nosso primeiro Ortopedista, OTÁVIO ROBERTO CARNEIRO RILA, hoje aposentado em Florianópolis.

O óbito de Alexandre, após uma noite de cuidados meus e de RILA, assistidos por PAULO CARNEIRO, um dos maiores médicos que a Laguna e o Estado já abrigaram, fui à praia do Mar Grosso. Era 1963 e os ventos políticos começavam a soprar fortes. Na orla, nem tanto. Fazia algumas poucas horas, um monomotor aterrissava na areia da praia do Gi trazendo DAVID LUIZ BOIANOVSKY e NELSON VENTURELLA ASPESI, neurocirurgião em Porto Alegre. O pediatra DAVID LUIZ BOIANOVSKY fora buscá-lo diante da gravidade das lesões cerebrais que ALEXANDRE HERCULANO sofrera e pelas quais morreria na mesa de cirurgia do Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus dos Passos da Laguna.

Na praia, pus-me a pensar. Estava formado há 3 anos e já contabilizava perdas expressivas pelas mortes de familiares e amigos. A vida é breve, a ocasião fugaz, a experiência é vacilante e o julgamento é difícil, já dissera Hipócrates, mestre de um amanhã que nunca chegava.

Uma espécie de folhagem, espojando-se na água mal amanhecida do céu recém-lavado, trazida por uma onda mais forte, acomodou-se entre as pedras e a areia. Leve aragem, canção do vento aprisionado, varava as folhagens. Mão em pala protegendo os olhos, mirava o sol longínquo, o sol surgente. Recuando para um dia perdido na memória, relembrava miúdas aventuras do dia-a-dia morno e cinza. Já nuvens pretas, carregadas, corriam do sul, velozes e túrgidas, encobriam estrelas arredias e a pálida lua, sumidouras e a pálida lua. Mas, lá em cima, sol pleno se anunciava.

Foi isso que escrevi naquele mesmo dia ao chegar em Criciúma.  (CONT)

Por Henrique Packter 01/11/2021 - 10:20 Atualizado em 01/11/2021 - 10:21

Boris nasceu em 3.9.1941 em Santa Maria, RS e fez toda sua formação lá mesmo. Estudou no Colégio Marista e na Faculdade Federal de Medicina de Santa Maria, onde se formou em 1966. Em 1967 já estava em Criciúma, onde labutou até 1972; hoje reside e trabalha em Porto Alegre. Logo se fez notar pela habilidade na remoção de corpos estranhos bronco-esofágicos, área até então desassistida, sem nenhum profissional a atendê-la em todo sul e oeste do estado catarinense e norte do RS.

Pendurou num quadro, logo na entrada da clínica os objetos aspirados e por ele retirados laboriosamente com o aparelho de Chevalier-Jackson. Muito importante foi a contribuição trazida por Boris. Aprendi com ele a manipular o instrumento para remoção de corpos estranhos de brônquios e esôfago. Em troca ensinei a ele o que sabia de Oftalmologia.

MORRE EM CRICIÚMA O ORTOPEDISTA E TRAUMATOLOGISTA JOÃO APARECIDO KANTOVITZ

Serviu a cidade e o Estado por mais de 50 anos. JOÃO nasceu em Rio Claro, SP, em 23.11.1937 e faleceu em Criciúma a 23.8.2018. Chegou em 1965, praticamente na mesma data da chegada de Boris. Era homem de muitos instrumentos. Médico, granjeou respeito de todos através de sua arte na profissão. Operou atletas de toda as partes sempre exitosamente. Músico, compôs com a Turma da Seresta que se exibia especialmente nas rádios da cidade. Jovem, era hábil jogador de futebol. Devo a ele a recuperação de minha saúde, vítima que fui em 2006 de acidente automobilístico na parte não duplicada da BR101, localidade de Bentos, na Laguna.

Casado com Elohá, João deixou dois filhos, Paulo César de Jesus e Júlio César e uma neta.   

VIDA E MORTE DE JOSÉ BALSINI, O JUCA BALSINI

BORIS chegou a Criciúma dias após o falecimento de JOSÉ TARQUÍNIO BALSINI, nascido a 7.9.1905 em Joinville, filho de Tarquínio e Lúcia Moro Balsini. Casado com Carmem Mattos Balsini, o casal teve três filhos: o engenheiro Claudio (casado com Vera Regina Kastrup), o advogado Clóvis (casado com Maria Helena Luz) e Sônia (casada com o advogado Adhemar Paladini Ghisi, muitas vezes deputado federal por SC, depois Ministro e Presidente do Tribunal de Contas da União). Clovis e Adhemar são falecidos.

BALSINI, cidadão honorário de Criciúma em 11.9.1961, foi diretor-clínico do HSJ, da sua criação em 1936 até 13.2.1966, data de seu falecimento.

1965 é a data de formatura de BORIS, na Faculdade Federal de Medicina de Santa Maria. Esta faculdade federal também formou Júlio Manfredini, Portiuncola Caesar Augustus Gorini, a anestesista Mari Sandra de Brito Petry e Gervani Bittencourt Bueno, diretor da CRIOX, Medicina Hiperbárica e Tratamento de Feridas. Martinho Ghizzo, de Araranguá, formou-se lá, também.
 
Sergio Luiz Bortoluzzi (um ele dois zes, como sempre informa), não estudou Medicina em Santa Maria por detalhe. Inscreveu-se ele para o vestibular em Porto Alegre e também em Santa Maria. Por uma questão de calendário foi a Porto Alegre realizar o exame. Sem saber o resultado das provas, embarca no trem da Viação Férrea do RS  para Santa Maria. Estando prestando prova, bem sentado, surge um funcionário da Faculdade de Medicina de Santa Maria com telegrama nas mãos para um tal de Sergio Luiz Bortoluzzi. É autorizado a abrir o documento e lê-lo. Assim soube, aplaudido pelos vestibulandos presentes, que fora aprovado em Porto Alegre. Levanta-se, cumprimenta a todos e retira-se para nunca mais voltar.   
BALSINI era médico dotado de raro senso prático e operava com grande habilidade. Na minha chegada à cidade, DIFTERIA grassava na região, colhendo elevado tributo em vidas de crianças. Balsini ensinava: há dois tipos de difteria a branca e a azul. Na azul, a criança está morrendo por asfixia. Dê soro e faça uma traqueostomia. Na branca, a criança está intoxicada profundamente, em toxemia, não adianta fazer nada.

Chegando OLAVO DE ASSIS SARTORI, a cidade se resumia a casario de pé direito insignificante, espremida entre a Estação de Estrada de Ferro (onde está o Buraco do Prefeito), e o HSJ.

Do lado de lá dos trilhos havia o Cemitério, onde hoje está o BISTEK, e, pouca coisa mais. Chegando Sartori, Balsini dividiu a cidade quase salomonicamente em duas freguesias: os chamados para atendimento médico pra lá dos trilhos, eram de Sartori, os restantes, eram de Balsini...

Coube a Balsini operar de apendicite o magérrimo Raimundo Jorge Peres. Convalescente, Peres decide descansar alguns dias em Uberaba, MG, sua cidade natal. Foi e voltou acompanhado do irmão gêmeo de quem ninguém suspeitava a existência. Mas, o irmão, ao contrário de Peres, era gordíssimo. Resolvem divertir-se às custas de Balsini que costumava gaguejar quando colocado em situação embaraçosa. Pois foi o que aconteceu quando Balsini vê entrar em seu consultório no HSJ um estranhíssimo personagem, que a exemplo de Roberto Jefferson só viajava de avião se adquirisse duas passagens, dois assentos.

- Me-eu Deus! C-a-a-alma... Devagar, s-s-senta aí, Peres...

JOSÉ BALSINI fumava e teve câncer de pulmão, operado em SP pelo Prof. Zerbini em 1965.

Ele me procurou no meu consultório do HSJ em 22.10.1965, meses após a cirurgia. Queixava-se de vermelhidão e dor no olho direito. Dona Carmem telefonou previamente, alertando-me a respeito do comportamento de Balsini diante das doenças próprias que já o tinham afligido. Quando da operação do pulmão em São Paulo, na Beneficência Portuguesa, Zerbini, mesmo sem ainda ter botado os olhos no exame anatomopatológico já sabia que estava diante de um quadro de tumor maligno de pulmão. Foi advertido por familiares de Balsini para nada revelar ao paciente que já ameaçara jogar-se do 10º andar do prédio caso seus temores a respeito da natureza da doença se concretizassem.

Melhorando, Balsini ganha autorização para andar ao longo do corredor do 10º andar. A ideia não foi das melhores. Caminhando com a lentidão exigida por seu estado de saúde, passa pelo Posto de Enfermagem, vê e apanha seu prontuário. Nele, está apenso o laudo do Patologista que não deixava qualquer dúvida: era câncer de pulmão em estado avançado.

Balsini desespera-se e Zerbini é chamado:

- De jeito nenhum Balsini! Eu fiz tua cirurgia, tirei teu pulmão e sei que o que tinhas era, talvez, antigo processo pulmonar, talvez uma tuberculose ou pneumonia mal curada. Este laudo não tem nada a ver! Vou imediatamente saber a que se deve esta troca infeliz.

Assim, Balsini, cirurgião experiente e competente deixou-se ludibriar porque isto é da natureza humana. Nós simplesmente não queremos ter doenças graves e aceitamos estas bondades obsequiosas dos nossos médicos.

Chegado à cidade, logo vem ao meu consultório:

- Henrique, imagina que na Beneficência Portuguesa, talvez o maior hospital brasileiro e da América Latina cometeram este engano comigo. Na Beneficência Portuguesa! Nós aqui, estamos absolvidos de qualquer engano que venhamos a cometer!

Examinei-o. Tinha extensa metástase ocular ocupando quase todo o olho, a partir de sua metade inferior. Na amígdala esquerda também havia metástase.

Balsini perguntou minha opinião sobre consultar o grande Oftalmologista HILTON ROCHA em Belo Horizonte. Aprovei a ideia. Afinal, eu tinha menos de cinco anos na cidade e não queria ficar conhecido ad eternum como o doutor que removera o olho do mais célebre médico da região. A única coisa a fazer era a remoção do olho e da amígdala e isso, com resultados extremamente duvidosos. Balsini retornou de BH antes do Natal. Fizera fotocoagulação com Hilton Rocha; irradiação da amígdala e antiblásticos em SP. Mas, as dores oculares eram insuportáveis por Glaucoma, devido ao tumor metastático intraocular. Fiel ao meu pensamento expresso logo ali acima, fui a Torres no RS, onde veraneava o Prof. ALFREDO SCHERMANN, tio de Paulete, futura esposa de Boris. Coube a ele remover o olho direito de Balsini que faleceria em 1966 aos 60 anos.

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