Ir para o Conteúdo da página Ir para o Menu da página
Carregando Dados...
* as opiniões expressas neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do 4oito
Por Henrique Packter 18/01/2022 - 19:39 Atualizado em 18/01/2022 - 19:41

Cesar Sartori não limitou sua atuação médica a Lages e Urussanga. Generoso, aventureiro, humanitário atendia os índios, deslocando-se para as lonjuras de Chapecó.

Antonio Selistre de Campos foi nomeado pelo governo catarinense como inspetor escolar em Lages de1912 a 1913, no Grupo Escolar Vidal Ramos; é quando conhece Sartori.

No jornal A Voz de Chapecó artigos do Juiz de Direito Antônio Selistre de Campos, chamam a atenção sobre os Kaingáng e para o tema saúde dos indígenas. Cesar Sartori vai de Lages/SC, a cavalo, até o oeste catarinense para atendê-los. Índios morriam em penúria à mingua de recursos. Dizem-lhe: o mal que os vai dizimando é a febre, uma espécie de tifo. 

Pensava solucionar o problema destinando parcela de qualquer verba, para que alguns médicos, funcionários públicos do Departamentos de Saúde (no Sul, Centro o Norte do País), com gratificação especial, visitassem os toldos indígenas. Ao menos em tempos de surtos epidêmicos.

A febre, uma espécie de tifo referida por Antônio Selistre de Campos, foi doença contraída pós-contato, para a qual os indígenas não tinham adquirido imunidade. Porém, atendimento não vinha dos órgãos oficiais o acolhimento vinha pela medicina tradicional das ervas, conhecida e praticada pelos indígenas, e por alguns não-indígenas.  O curandeiro Ricardo nessa emergência dolorosa de sofrimento e desamparo trazia conforto aos morituros. Humilde curandeiro, Ricardo, preto, velho, analfabeto, era mais pobre do que os índios, que se iam extinguindo, na indigência. Morador do sertão, léguas longe dos enfermos, condenados à morte, nesse transe irremediável, lhes traz a solidariedade de ser humano, nessa última esperança de medicação ilusória.

Antônio Selistre de Campos critica o Serviço de Proteção aos Índios/SPI, que, depois de 1930 não é mais dirigido pelo Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, e sim por funcionários públicos admitidos pelo Departamento Administrativo do Serviço Público/DASP.

Em 10.03.1941, sob o título Índios IV, Antonio Selistre de Campos informava no jornal sobre a visita do Dr. Cesar Sartori fornecendo pequena biografia do médico italiano. Sartori contava então 80 anos! Há mais de quarenta anos residia em Lages. Estimado e acatado dado seu espírito humanitário e competência de cientista já visitara índios em Go, Pa, MS, PR, RS. Visitou toldos de Jacu e Banhado Grande.

Escreve ao Dr. Roquete Pinto (médico, escritor, radialista, antropologista), mostrando a condição de vida dos índios. Escreve também ao General Rondon e ao Presidente do país, pedindo a criação de assistência medica permanente aos índios brasileiros. Sobretudo para combater moléstias endêmicas e epidêmicas, que os vitimam há quatrocentos anos.

Selistre de Campos afirma ser certo que em Chapecó, cidade, sede de município importante, até há dois anos atrás (1939) não havia médico ou farmacêutico.

A 20.04.1941, em Índios, Antônio Selistre de Campos: o Posto precisa cumprir sua finalidade, isto é, a proteção dos Índios. Que se consiga ao menos, periodicamente, ida de médico aos toldos (...), pois, a permanência efetiva de um clinico, como sugere, por espírito de humanidade, o Dr. Cesar Sartori, é ideal quase irrealizável.

Quatro anos depois o problema persistia; em 06.04.1945, Selistre de Campos reclama em carta ao encarregado do posto, Francisco Siqueira Fortes, a persistência do problema. Em 1948, três anos depois, (...) Selistre de Campos publica artigo relatando a precariedade do atendimento à saúde e sobre duas mortes de índios idosos: Os Índios estão morrendo.

Fundado em 1939, o jornal de Chapecó circulava aos domingos na cidade e região. A última edição localizada do jornal foi de dezembro de 1957.

Selistre de Campos nasceu em Sto. Antônio da Patrulha/RS (1881); muda-se para POA /RS, onde cursa a Faculdade de Direito (1904). Formado em 1909, foi Juiz Estadual na comarca de Campos Novos/SC (1914). Após 1931 assume em definitivo a comarca de Chapecó. Falece a 05.12.1957 de pneumonia. Kaigángs levam o caixão acompanhando a pé o cortejo fúnebre.

Por Henrique Packter 07/01/2022 - 08:55 Atualizado em 07/01/2022 - 08:55

Deixa casa e consultório, bengala de junco ao ombro, chapéu Borsalino de grande aba larga e gravatinha branca de tope, habitualmente usada.  E lá se ia, bamboleando o corpo grandalhão, gingar de marinheiro, olhos semicerrados, pequenos, vivos, perdidos muitas vezes em elocubrações. César Avila  já estava pronto e lá se ia, rua 15 de novembro acima, rumo ao hospital, o velho convento de pedras. Seis e meia da manhã e já se preparavam na sala pequena, onde o sol ensaiava entrar pela janela.

Seu escovar era um dilúvio de espuma e água. Antes, pince nez a cavaleiro no nariz, tesoura em punho, cortava as próprias unhas e examinava as de seus assistentes. Está ali com as calças arregaçadas até o meio das canelas. A lavagem das mãos durava os longos 15 minutos clássicos.

Sartori sempre cumpriu escrupulosamente, com rigor fanático os detalhes mínimos da técnica. Era intransigentemente exigente em relação à lavagem das mãos e à desinfecção do campo operatório, a assepsia e a antissepsia. Ao executar uma cesariana seu jeito desengonçado se transfigura na cirurgia. A cabeça irradia autoridade e aquelas mãos que pareciam pesadas, adejam leves, manejando o bisturi. É um artista operando. A calma que vem da segurança em si. O entusiasmo jovem não diminuiu, mesmo tendo Sartori emagrecido pela velhice, a face sulcada de rugas. Um homem consciente da responsabilidade do ato cirúrgico.

A sala de operações era um Templo onde se ciciava. Mas, se algo não corresse bem, pobre do assistente ou da enfermeira.

Deus romano tonitroante acordava numa tempestade de palavras e palavrões, mistura de italiano e português, blasfemando em duas ou mais línguas...

Terminado o ato cirúrgico, passava a tempestade, era o primeiro a cumprimentar a todos e a pedir críticas. Jamais atingiu a autossuficiência e, por isso, sempre foi moço.  Tinha a tortura da perfeição. Na véspera relera a familiar anatomia topográfica daquela operação,   tão sua conhecida e tantas vezes praticada. Hábil escultor, sabia que estava esculpindo o frágil material que é o corpo humano, sempre um grande risco. Era, a um tempo, mestre-parteiro, grande clínico, grande cirurgião, grande coração.

César Sartori e César Ávila voltam para casa, sempre conversando. E, nessa volta param cinco a seis vezes. Parados, ele bate no ombro do interlocutor para sublinhar o raciocínio. Parados alguns minutos várias vezes no calor da conversa, a volta do hospital dura, assim, perto de uma hora.

Para, bate no ombro e diz: -“Hóstia! Veja a inteligência do Povo. Puseram apelido de bicho numa porção de gente. Quando sonham com um desses, jogam no bicho correspondente. Sturgo é o cachorro. Caetano é o pavão.  E eu, diga-me: com que bicho sou parecido? Olha! Sou o urso. O urso do polo. E sou parecido mesmo”.

Na casa almoçam a imbatível culinária, cardápio de dois mundos, responsável por sua obesidade. Macarrão de vários tipos. Salada de feijão branco e alho. Fumegantes assados. Paca, perdiz, polenta. Tudo regado a vinho.

Com gesto autoritário, dedo em riste, exigia repetissem várias vezes a taça de vinho ou o copo de cerveja: “Semel in anno insanire potes.” (Uma vez por ano podes ficar maluco, diziam os latinos). Beba “que te fa bene”.  E assim, várias vezes por mês seguiam o preceito anual dos latinos. Café, vermute. Depois dormia religiosamente a sesta. Dona Senhorinha e Matilde preparavam-lhe o almoço e cuidavam de seu sono reparador pós-prandial.

O Consultório

Três degraus. Corredor estreito. Na porta o horário de anúncio de jornal: Consultório Dr. César Sartori, médico, operador e parteiro. Entrava-se por uma porta ao lado. O consultório de Sartori era peça pequena e modesta em sua residência particular. Um esqueleto humano completo a um canto, pendurado na parede. Dois grandes armários com livros.

Mesas pequenas lembravam um museu. Havia, entre outras coisas, queixada de piranha do interior do Mato Grosso, minérios de ouro colhidos por suas próprias mãos nas galerias de Morro Velho, arcos e flexas de muitas tribos, dois crânios de indígenas e outros, de animais. Um grande couro de jibóia contornava a peça, paralelo ao teto. Antigos recortes de jornais e de revistas nas janelas de vidro dos armários: Stalin, a Passionária, Plutarco, Luiz Carlos Prestes, fotos de crianças, colegas, amigos.

E livros: bíblias e livros comunistas ao lado de manuais de cirurgia e de obras de Biologia. Tudo lido. Tudo anotado. Em outra peça, seu arquivo. Eram de contas que quase nunca mandava e ficavam ali à inútil espera de pagamento com tudo em ordem, dia e hora do atendimento. Algumas pitorescas. Esquecera o primeiro nome do paciente e especificara como lembrete:”Santos (o sem orelha) 10 injeções de 914 semanalmente de 2.6.1925 a 4 de agosto".

Ali examina doentes com cuidado e técnica, aflorando o diagnóstico acima dos sintomas, com aquele sexto sentido que dá ao clínico a intuição da doença, qualidade nele hipertrofiada. Depois das consultas, estuda, escreve. À noitinha sai e visita amigos; ao pé da lareira transborda o formidável causeur. Penosamente, surge, caleidoscopicamente, suas aventuras pelos caminhos do mundo.

Profissão de fé

Orador de mão cheia, assim sintetizou num discurso de saudação, sua vinda a Lages:

“Deixa que tudo isso te diga, um médico do interior, que chega aqui, vindo de Urussanga, consumindo 8 dias a cavalo, 41 anos atrás. Médico que cobria distâncias imensas em transportes muitas vezes incômodos, sem horas de descanso, escalando montes em noites de temporal, enfrentando as mais duras intempéries pelas caladas da noite, sem repouso para o físico e sem tréguas para o espírito. Transportado no lombo das mulas, ao frio, ao vento, à neve.  Esperando na noite negra, que baixasse a água do rio para poder vadeá-lo. Dormindo ao relento ou no catre duro, tendo travesseiro como única roupa, onde, uma vez, estava escrito:” Duma bem e viva a República.” O dramático, o trágico, o cômico, tudo misturado. Precisava ser enciclopédia viva, um improvisador, médico e enfermeiro, parteiro e dentista; muita vez batizei crianças agonizantes. Fiz minha primeira operação cesárea em Lages, no quarto da paciente, assistido por Hermelino Ribeiro e Antônio Amorim".

Antifascista

Levanta-se num banquete pedindo a palavra para condenar a invasão da Abissínia pelas tropas de Mussolini. Na guerra de 14 vai à Itália. Ainda não naturalizado brasileiro dirige parte de um hospital e não aceita remuneração ou posto de oficial. Sartori levava a extremos sua ética profissional. Por princípio, adversário de qualquer guerra, não queria tirar proveito daquela.

Sofreu o que a Itália sofria com o domínio de Mussolini. Recalcou suas tendências políticas, denunciado que foi por colega cônsul italiano, como antifascista. Tinha familiares na Itália e suas atitudes, no Brasil, podiam vir a prejudicá-los, comprometê-los. Recebe carta de um parente, catedrático em Milão, o professor Colosi, enviada clandestinamente da Suiça, em pleno período fascista: “...Caríssimo tio, não sublinhe nada em suas cartas. Não escreva a palavra LIBERDADE. Não fale nem na Democracia brasileira. Evite tudo isso. Poderemos sofrer muito!” Um a um seus parentes vão morrendo.

Por Henrique Packter 27/12/2021 - 08:40 Atualizado em 27/12/2021 - 08:42

CÉSAR SARTORI foi deputado socialista na Itália pelo Partido Socialista Libertário, rebelando-se contra o absolutismo capitalista. Sua popularidade vem com a oratória diferenciada e contundente. Caricaturas nos jornais mostram-no exageradamente magro, recurvo, guarda-chuva em punho. O distintivo de CESAR SARTORI era a mão segurando archote.


Anotava fatos das viagens em cadernos, do preço dos hotéis a roupas adquiridas. Um resumo histórico e político acompanhava as anotações. Membro de uma comissão de métodos, vai a Lourdes averiguar oficialmente os milagres do Santuário. Estudou o Espiritismo. Viu as quedas do Niágara e do Zambeze.

 
Lia as revistas médicas para buscar depois, na fonte, com os criadores, técnicas que o interessavam.

Aprendeu com Carlo Forlanini, na Itália, a aplicar o pneumotórax artificial, com Emil Theodor Kocher na Alemanha a extirpar o bócio. Conheceu Friedrich Schauta (da histerectomia vaginal), Jean Louis Faure (cirurgião ginecologista), Victor Pauchet (autor de Infância, Gênero e Sexualidade e da Maternidade Pauchet), Serge Voronoff (dos xenoimplantes glandulares), Camille Flamarion (astrônomo, pesquisador psíquico espírita -, queria tornar a religião científica e a ciência religiosa).

CÉSAR SARTORI tinha curiosidade pelo homem e seus costumes. Estudava o Negro e o Índio, aos quais dedicava grande afeto.  Procurava, acabando por conhecer, celebridades em todos os ramos do conhecimento humano. Correspondia-se com JOSÉ INGENIEROS (Giuseppe Ingenieri), a quem conhecia pessoalmente. Ingenieros foi um dos grandes heróis intelectuais da minha geração, a geração que se formou nas décadas de 1950-1960 em Curitiba e que julgava indispensável a leitura de seu bestseller  O HOMEM MEDÍOCRE.

José Ingenieros (Giuseppe Ingenieri), Palermo, 24.04.1877 — Buenos Aires, 31.10.1925,  completou sua formação acadêmica, seus  estudos científicos nas universidades de Paris, Genebra, Lausane e Heidelberg. Farmacêutico (1897), médico (1900), psiquiatra, psicólogo, escritor, docente, filósofo e sociólogo ítalo-argentino, escreveu Evolução das ideias argentinas, marco histórico da Argentina como nação.

A Academia Nacional de Medicina Argentina premiou Ingenieros por Simulación de la locura (sequência da tese editada em livro, 1903). Nomeado Jefe de la Clínica de Enfermedades Nerviosas de la Facultad de Medicina da Universidade de Buenos Aires, Membro e depois diretor da Cátedra de Neurología de José María Ramos Mejía, no Servicio de Observación de Alienados de la Policía de la Capital.

Ingenieros também dirigiu os arquivos de Psiquiatria e Criminologia e assumiu o cargo do Instituto de Criminologia da Penitenciaria Nacional de Buenos Aires (1902-1903). Foi Conferencista Itinerante  em universidades européias e Catedrático de Psicologia Experimental na Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad de Buenos Aires (1904), fundou a Sociedad de Psicología (1908). Presidente da Sociedade Médica Argentina e Delegado Argentino do Congresso Científico Internacional de Buenos Aires (1909).

Seus ensaios sociológicos, El Hombre Mediocre, Al margen de la ciencia, Hacia una moral sin dogmas, Las Fuerzas Morales, Evolución de las ideas argentinas e Los tiempos nuevos -, ensaios críticos e políticos impactaram o ensino universitário argentino e a juventude latinoamericana.

Dirigiu seu jornal bimestral Seminario de Filosofía, mesclando a paixão pela ciência com uma ética social acentuada. Na Reforma Universitária foi eleito Vicedecano da Facultade de Filosofia e Letras, com amplo apoio do movimento estudantil (1918).

Em 1919 Ingenieros renunciou a todos os cargos docentes iniciando (até 1920), luta política, participando ativamente em favor do grupo comunista-progressista Claridad. Promoveu a formação da Unión Latinoamericana (1922), organismo de luta contra o imperialismo. A poucos meses de sua morte, criou o jornal mensal Renovación, contra o imperialismo, assinando com os pseudônimos Julio Barreda Lynch e Raúl H. Cisneros (1925).

Com o tempo discordou das posturas do socialismo de Estado, passando a colaborar com jornais anarquistas; chegou a ser abertamente simpatizante do anarquismo. Morreu a 31.10.1925, aos 48 anos.

INGENIEROS e SARTORI foram amigos próximos e as ideias político-econômicas de ambos eram extremamente afinadas.

Por Henrique Packter 21/12/2021 - 07:38 Atualizado em 21/12/2021 - 07:40

Trecho de correspondência que endereçou ao governo italiano: "Que coisa entendeis por uma nação, Senhor Ministro? É a massa dos infelizes? Plantamos e ceifamos o trigo, mas nunca provamos pão branco.  Cultivamos a videira, mas não bebemos o vinho. Criamos animais, mas não comemos a carne.  Apesar disso, vós nos aconselhais a não abandonarmos a nossa pátria?  Mas é uma pátria a terra em que não se consegue viver do próprio trabalho?"


1. O INÍCIO

CÉSAR SARTORI chegou em Lages pelos idos de 1905 em busca de saúde e sustento aos 40 anos, vindo de Urussanga a cavalo. Portador de tuberculose era médico de certa notabilidade na Itália. Trouxe livros de cirurgia, anatomia, filosofia, política, literatura, poesia. de Malatesta (anarquista: a propriedade é sempre um roubo), Schopenhauer (o pessimista), Voltaire e Dante. Roupas eram poucas e o resto eram os ferros para cirurgia.


De 1911 a 1916 é a guerra do Contestado.

De família de intelectuais e médicos nascera em Chiampo formando-se em Medicina em Pádua, Patavinae Universitatis, das mais antigas do mundo. (Chiampo, região do Vêneto, província de Vicenza).

Frequentou cursos de História (da Arte, das Religiões, da Música, História Natural, Interpretação da História, Biologia, Zoologia, Botânica). Sua biblioteca, inteiramente desaparecida, contaria com dez mil volumes. Homem de muitos livros, dizia de si mesmo.

Formado em Medicina foi médico de bordo por 2 anos, conhecendo o mundo. Atravessou o Saara, quase foi devorado por um leão nas cercanias de Zanzibar. Perdeu-se no Cairo. Conhecia a Terra Santa que visitara várias vezes, empunhando a Bíblia para estudar a vida de Cristo in loco.

Com Darwin nas mãos foi à Ilha da Páscoa; vagou pelos Andes e pelos desertos do México. Na Guatemala conheceu o quetzal, pássaro que se suicida em cativeiro e tem mancha de sangue no peito porque protegeu o herói nacional com o próprio corpo.

Chamava o Brasil de Terra da Promissão: ”Esta terra nova, cuja geografia se modifica ainda nas mudanças telúricas será o paraíso da Humanidade. O resto do mundo está velho ou conquistado. Este já é hoje melhor país para viver, onde existe o povo mais bondoso e mais inteligente. Esta Terra, minha segunda Pátria, vai ser o maior País do Mundo Moderno”.

Divulgou nosso país em conferências no exterior e publicou em português e italiano: “PER ASPERA AD ASTRA. GOYAZ, MATO GROSSO, PARAGUAY, FIUMI ARAGUAYA, GARÇAS, AQUIDAUANA, DIAMANTI, MORALITÁ E CRIMINALITÁ DI PELLI-ROSSE”.

2. EM URUSSANGA

Lei nº 10 de 10.01.1903- cria o imposto de Assistência Médica para fixar um médico na sede do município em Urussanga.  Cesare Sartori radicado em Lages, desde 1902 assistia esporadicamente a população da cidade. César Ávila assegura que CESAR SARTORI chegara em Lages em 1906; parece que a data deva ser recuada para 1905, talvez antes. Em 1904 Cesare Sartori é substituído em Urussanga pelo Dr. Francisco Buzzio.

 

O Hospital Nossa Senhora dos Prazeres em Lages é de 17.4.1900.

Dos italianos vindos para SC 95% eram do norte da Itália, do Vêneto e Lombardia. Os primeiros (e poucos) imigrantes italianos para o estado (1836), eram da Sardenha, fundando a colônia de Nova Itália (atual São João Batista). A partir de 1875 ocorre maior número de assentados italianos no estado e são criadas suas primeiras colônias: Rio dos Cedros, Rodeio, Ascurra e Apiúna, todas  no entorno da colônia alemã de Blumenau. Imigrantes do Trentino fundaram Nova Trento, e Porto Franco (hoje Botuverá, em 1876). Os italianos das primeiras colônias vinham majoritariamente da Lombardia e do Trentino,  pertencentes ao Império Austro-Húngaro.

Nos anos seguintes o sul catarinense foi o principal foco de colonização italiana em SC. Nesta região foram fundadas Azambuja (1877), Urussanga (1878), Criciúma (1880), a colônia mista de Grão-Pará (1882), o núcleo Presidente Rocha (hoje Treze de Maio, 1887), os núcleos de Nova Veneza, Nova Belluno (hoje Siderópolis) e Nova Treviso (hoje Treviso, 1891) e Acioli de Vasconcelos (hoje Cocal do Sul, 1892). No sul do estado os imigrantes vinham principalmente do Vêneto e se dedicaram ao desenvolvimento da agricultura e à mineração do carvão. A chegada de italianos ao estado praticamente termina em 1895, quando número reduzido de colonos chega para colonizar Rio Jordão, no sul. Isto, devido à guerra civil (a Revolução Federalista) e pela decisão governamental que deixava a imigração subsidiada a cargo dos estados.

Notícias de trabalho semi-escravo chegaram à Itália, e o governo italiano passa a dificultar a imigração para o Brasil, promulgando o Decreto Prinetti (março de 1902), proibindo os subsídios da viagem. Entre 1904 e 1913, a entrada de italianos no Brasil foi cerca de 40% da década anterior (de 537,8 mil para 196,5 mil). Entre 1887 e 1903 a média anual de entradas de italianos no Brasil foi de 58 mil. Entre 1903 e 1908, esta média caiu para 19 mil por ano. SARTORI deve ter chegado ao Brasil entre 1887 e 1903.

3. O HOMEM

Sempre combateu os mais poderosos, o capitalista, o nobre, a coroa, o clero.  Cuspiu no Rei que desfilava numa carruagem e lhe atirou a bengala. Preso, a perseguição aumentou. Pobre e doente escolhe o Brasil para morar: “Escolhi o Brasil porque era a terra de Anita Garibaldi”.

Estudava com carinho o Negro e o Índio. Deputado socialista pelo Partido Socialista Libertário italiano, rebelou-se contra o absolutismo capitalista. Bom orador, tornou-se popular. Caricaturas nos jornais mostravam-no exageradamente magro, recurvo, de guarda-chuva em punho.  Seu distintivo era a mão segurando um archote.

Membro de uma comissão de métodos, vai a Lourdes estudar oficialmente os milagres do Santuário. Estudou o Espiritismo. Viu as quedas do Niágara e do Zambeze. Anotava fatos de suas viagens em cadernos. Do preço dos hotéis a roupas adquiridas. Um resumo histórico e político acompanhava as anotações. Lia as revistas médicas para buscar depois, na fonte, com o criador, as técnicas que o interessavam. Aprendeu na Itália com Forlanini a aplicar o pneumotórax artificial, com Kocher na Alemanha a extirpar o bócio. Conheceu Schauta, Jean Louis Faure, Pauchet, Voronoff, Flamarion.

Tinha curiosidade pelo homem e seus costumes. Procurava e, acabou por conhecer, celebridades em todos os ramos do conhecimento humano. Mantinha correspondência com JOSÉ INGENIEROS (GIUSEPPE INGENIERI) que conhecia pessoalmente.

Por Henrique Packter 13/12/2021 - 08:23 Atualizado em 13/12/2021 - 08:25

De passagem pela Villa de Nossa Senhora dos Prazeres da Fronteira do Certam das Lagens, que já encurtou seu longo e gracioso nome para Lages, simplesmente, não deixe de procurar a central Praça João Ribeiro para admirar o busto do médico CESAR SARTORI, uma das figuras mais emblemáticas da Medicina mundial em todos os tempos. Na cidade há também rua que leva seu nome.

O busto tem uma placa: ”Dr. Cesar Sartori nascido aos 15 dias do mês de fevereiro de 1867 em Vicenza (Itália) e falecido aos 12 dias do mês de julho de 1945 em Lajes que foi a pátria amada do seu grande e nobre coração”.

Foi biografado, entre outros, por CESAR ÁVILA, outro notável médico lageano, nascido por suas mãos, de quem ganhou o nome e herdou descomunal conhecimento médico. 
Descreveu Sartori, xará e partejador como “magro, já um pouco curvado, alto, nariz adunco, surgindo em Lages com a roupa que trouxera da Itália, os mesmos sapatos pesados europeus, vindo de Urussanga a cavalo, onde foi o primeiro médico”.

Entre Urussanga e Lages, cidades catarinenses, está a imperdível estrada da serra do Rio do Rastro, mais de 250 curvas fechadas em 8 quilômetros de um caminho estreito. O fm do caminho está a 1 400 metros de altitude, em Bom Jardim da Serra.

O INÍCIO

CÉSAR SARTORI chega em Lages lá por 1905 em busca de saúde e cura para sua tuberculose pulmonar e sustento, aos 40 anos, vindo a cavalo de Urussanga. César Sartori em Lages (1903) e Otto Feuerschuette em Tubarão (1910), chegam em datas próximas. Paulo Carneiro, colega de turma de Cesar Ávila, chegará na Laguna em 1930. O Hospital Nossa Sra. dos Prazeres, de Lages, é de 17.4.1900.

Cesar Sartori nasceu em Vicenza, Itália (1867) e vem a falecer em Lages (1945). Toda sua bagagem coubera em dois cargueiros com bruacas. Poucas roupas, muitos livros e ferros de cirurgia. Tratados cirúrgicos e de anatomia, livros de filosofia, política, literatura e poesia. Trazia, entre outros, Malatesta (o anarquista), Schopenhauer (o pessimista), ao lado de Voltaire e Dante. Sua biblioteca, inteiramente desaparecida, chegaria a contar com dez mil volumes. Homem de muitos livros, dizia de si mesmo.

Otto Feuerschuette, natural de Tubarão, seu segundo médico, nasceu a 09.04.1881, teria 24 anos na chegada de Sartori a Lages. Cesar Ávila, nasce na época de sua chegada: “nasci um prematuro de menos de dois quilos”.

- Vai morrer. Batizem! Procurem uma caixa de sapatos para enterrá-lo -, sentencia Cesar Sartori.

Azafamado vem o padre. Batiza-o, o médico como padrinho. Sartori, anticlerical ferrenho, botou todo o veneno de sua descrença nesta cerimônia.

- Ponham meu nome porque vai morrer. Chamem-no de César. Meu nome e do imperador romano:

- Como é muito pequeno incrivelmente pequeno, batizem-no de César Augusto; César, o grande!

Havia o problema da alimentação.

- O que vamos dar pro menino?

Sartori pensa um pouco:

- Agora, uma colher de vinho do Porto. Como vai morrer, aproveitará uma das melhores coisas da vida. Depois ... não precisará de mais nada...

Foi a primeira experiência de César Ávila sobre a falibilidade do prognóstico. Não morreu. Os pais tiveram trabalho insano para conseguir ama de leite. Mamou numa Índia depois de ter mamado numa cabra. Herdou de ambas a tendência nômade que o fez nunca parar num mesmo lugar ...

O anarquista Cesar Sartori nasceu a 15.2.1867 em Chiampo, região do Vêneto, província de Vicenza, Itália, em família de intelectuais e médicos. Médico pela Patavinae Universitatis, em Pádua, das mais antigas faculdades do mundo, frequentou cursos de História da Arte, das Religiões, da Música, História Natural, Interpretação da História, Biologia, Zoologia, Botânica.

Em 1891, 24 anos, estudante universitário, milita no Partido Revolucionário Anarquista-Socialista, organização que pretendia unir as forças libertárias num único movimento insurrecional. Essa militância no movimento libertário implicará em perseguição e prisões. Seguidor de Enrico Malatesta (anarquista: a propriedade é sempre um roubo), e de Andrea Costa, era apaixonado pela filosofia (Schopenhauer, o pessimista), literatura (Voltaire) e poesia (Dante). Em 1893 gradua-se em Medicina e adquire certa notabilidade médica. 

Foi assistente de Bassini, considerado o maior cirurgião da época, criador do método clássico da cirurgia de hérnia inguinal. Era a última década do século 19. No começo do século trabalha com César Lombroso, interessa-se pela criminologia e pela biotipologia.

Em 1902 busca trabalho, saúde e liberdade -, emigra para o Brasil, instalando-se em Urussanga/SC.  Portador de tuberculose, o clima de Urussanga não lhe foi favorável.  Estabelece-se definitivamente (1903) na altitude de Lages, onde monta consultório. A 1º.5.1908, 113 anos atrás, graças a ele, Lages celebra pela vez primeira o 1º de maio..

Por Henrique Packter 03/12/2021 - 07:51 Atualizado em 03/12/2021 - 07:56

Atleta no Grêmio, DINO praticava futebol. Depois caçará perdizes. MAURÍCIO FERNANDO PEREGRINO DA SILVA, que trabalhou por longos anos em Orleans e hoje aposentado reside no Pio Corrêa em Criciúma, conheceu DINO GORINI. Ao saber onde residia, dele ouviu:

- Pio Corrêa? Olha, ali muita perdiz cacei! 

Subia a serra da Rocinha até São José dos Ausentes, onde caçava em terras de Mosa Valim. Mantinha ao menos seis cães perdigueiros em Veneza enquanto caçou.

Término das férias escolares DINO me ligava para saber se eu viajaria a Porto Alegre, onde minha noiva FRIDA residia. Assim, levei e trouxe do Portinho BRIGITTE, MÉROPE, SEMIRAMIS e BERENICE algumas vezes. Três meninas mais uma secretária, sardinhas em lata no banco traseiro de meu Fusca 1960.

Os ônibus alcançavam Porto Alegre após longo e trepidante trajeto com a bagagem transportada sobre os veículos, coberta por lona, os passageiros sendo frequentemente convocados para empurrá-los quando atolavam na areia da praia. Alguns passageiros levavam gaiolas com animais para obsequiar parentes da metrópole gaúcha. Além de encarar viagem pela praia, de Arroio do Silva a Torres, a travessia dos rios Araranguá e Mampituba (este na divisa dos dois estados), exigia o concurso de balsas.

O JOGO DA MORA

Teria surgido dentro dos presídios. Sem objetos para apostar os presos usavam as mãos. O jogo, popular em Veneza, exige movimentos e raciocínio ágeis ao estender os dedos e mover as mãos, consistindo em acertar a soma dos dedos que os envolvidos na disputa venham a expor sobre a mesa. É um alternar de encolhe e abre e fecha e bate, enquanto se ouve pronunciar números de zero a dez: muta, uno (un), due (du, un per un, un per uno), tre (trrr), quatro, cinque (sinque ), sei (ces), sete, oto, nove, dieci (diese, ou tuta).

PARA PORTO ALEGRE

Havia uma escala técnica em Terra de Areia, lugarejo com meia dúzia de casas e um botequim, cujas condições de higiene eram terríveis, para dizer o mínimo. O odor de urina e fezes era sentido já na rua. Almas sensíveis desistiam de entrar para aliviar-se, utilizando moitas e árvores para este propósito. Adentrando as instalações do estabelecimento, conhecia-se obra do inspirado autor das garatujas na porta do que o proprietário denominara pomposamente WC:

Terra de Areia, oh terra bem diferente,

Em vez da gente cagar nas patentes são elas que cagam na gente. 

Quando iniciei minha atividade médica em Criciúma, a cidade dispunha, na área de serviços prestados por BIOQUIMICOS, de ERNESTO LACOMBE FILHO, JOSÉ ALFREDO BEIRÃO  e VICTOR LUIZ ANGULSKI SAMPAIO. WALMOR de LUCA e CARLOS HENRIQUE UBATUBA LIENERT viriam logo depois.

ERNESTO LACOMBE nasceu em Cruz Alta, 15.3.1907, filho do coronel que comandava as tropas gaúchas e catarinense e tomavam o sul catarinense em favor do movimento que conduziria GETÚLIO VARGAS ao poder, numa revolução de menos de 30 dias. Irmão do médico ÂNGELO LACOMBE, udenista de 4 costados que trabalhou sua honrada medicina em Criciúma até aposentar-se e gozar o ócio com dignidade em Florianópolis, pelo  resto da vida.

ERNESTO foi proprietário da Farmácia Confiança e do Laboratório de análises Confiança. Participou da fundação da Banda Musical Cruzeiro do Sul e foi membro da maçonaria, falecendo em 27.8.1973, quase 50 anos atrás.

Costumava andar com um punhal na gorda cintura e cumprimentava:

- Como vai essa bizarria?

VICTOR LUIZ ANGULSKI SAMPAIO, nasceu em Criciúma, 14.11.1934.  Casado com Valesca Viegas Sampaio teve 7 filhos: Vítor Luiz, Maria Valesca,  Thaís, Denise, Maria Júlia, Vânia e Wladis. Não era ligado aos hospitais da cidade e tinha seu laboratório na Praça Nereu Ramos quase ao lado da Casa da Cultura. Era filho da lendária senhora LADISLAVA ANGULSKI e irmão de VÂNIO CARLOS ANGULSKI SAMPAIO. LADISLAVA, viúva em 1940, assumiu a direção da conhecidíssima FARMÁCIA SAMPAIO. Víctor  faleceu em 13.9.1993, aos 58 anos. A esposa também é falecida.

MÁRCIO BURIGO Graduação em Farmácia pela UFRS (1962), especialização em Farmácia pela University of Texas System(1972), especialização em Química Clínica pelo Keio University(1967), pela University of North Carolina System(1979), pela University of Virginia 1977) e pela University of Houston System(1980); especialização em Energia Nuclear pelo Comissão Nacional de Energia Nuclear(1976), e por aí vai.

É professor titular da Universidade Luterana do Brasil, do Laboratório Bioquímico Criciúma Ltda., do Hospital Femina e do Laboratórios Unidos de Pesquisas Clínicas Ltda.

O Laboratório Búrigo recentemente dominou os diz-que-diz-que da região com a notícia de que estaria sendo negociado com a UNIMED. Perguntado a respeito,  MÁRCIO teria dito que um termo de confidenciabilidade estabelecido entre as partes, impedia-o de informar ou comentar a notícia...   Desta maneira, o negócio concretizou-se e a UNIMED convocou reunião de seus cooperados que bateu o martelo em mais esta aquisição.

O apetite da atual administração da Cooperativa médica UNIMED é algo INÉDITO em nossa região e já está tomando de assalto o vale do Araranguá. A UNIMED já comandava as atividades médicas no São João Batista e agora abocanha o Laboratório Búrigo mais suas unidades espalhadas pelo sul catarinense..

Por Henrique Packter 29/11/2021 - 08:40 Atualizado em 29/11/2021 - 08:41

Hoje em dia é quase impossível submeter-se a consulta médica sem que tenhamos de ir a um dos laboratórios de análises clínicas da cidade, voLtar ao médico e assim complementar o elaborado diagnóstico do doutor.

Pude acompanhar a evolução neste setor de nossa Medicina, chegado em Criciúma que sou, em 1959. Para se ter uma ideia é o ano em que nasceu o jornalista José Adelor Lessa, proprietário da SOM MAIOR. DINO GORINI, médico em Nova Veneza pode ser considerado um pioneiro na arte da Bioquímica.

O médico DINO GORINI nasceu em Pavia (Itália), 28.10.1909 faleceu em 31.7.1988 no Brasil. Ginecologista e Obstetra, acabou médico generalista num interior carente de médicos. DINO atendia a quem quer que o procurasse sem questionar se seria remunerado ou não. Com qualquer tempo subia a serra para atendimentos emergenciais.

“Seu Estevão vá encilhar o zaino que vou atender um chamado lá no Costão da Serra”.

Na época o chefe de família detinha o poder de decisão e DINO, tuteado pelos filhos, dispensara-os de beija-mão e pedidos de bênção. Saudava a soltura de gases: “trompa del cullo sanita  del corpo”.

Discussão de qualquer assunto encerrava-se quando dizia “punto e basta”. Dona AUGUSTA adorava argumentar a propósito de tudo e a propósito de nada. Nestas ocasiões dizia “va bene AUGUSTA, Mussolini a sempre raggione”.

DINO, bem-sucedido financeiramente, foi Conselheiro e diretor presidente da Companhia Carbonífera São Marcos. A 3.10.1958, vereador mais votado, foi presidente da Câmara Municipal de Veneza. Um dos fundadores do Rotary Clube de Criciúma e Governador do Distrito 465 (1977/1978). Maçom na Loja Presidente Roosevelt, foi Venerável e representante da Grande L a.    oja do Grande Oriente da Itália para o estado de SC. Presidiu a Comissão Organizadora dos Festejos do Centenário de Criciúma (1980). Cidadão Honorário de Criciúma (1977) e de Nova Veneza (1983). Há um Memorial Dino Gorini no Paço Municipal e também uma Unidade de Pronto Atendimento na Próspera com seu nome. Em 25.9.2003 o Círculo Ítalo-Brasileiro de Florianópolis, instituiu o prêmio “DOUTOR DINO GORINI Distinção e Reconhecimento Preservação da Memória Catarinense”. Objetiva reverenciar a memória dos imigrantes italianos agraciando personalidades ilustres que colaboraram/colaboram com a comunidade ítalo-brasileira.

SAPOS

Sapos machos (amarelos) eram utilizados nos testes de gravidez em humanas. O método Galli-Mainini consistia em injetar urina da suposta grávida em sapo macho. As fêmeas eram escuras com manchas, a garotada empenhava-se na captura de anuros machos atrás de alguns trocados.

No escuro da noite, sem lanternas nem velas a meninada acertava sempre nunca trazendo sapos fêmeas. DINO queria saber como nunca se enganavam.

- É fácil doutor, olha só o jeitão dele!

A LUA DE TODOS NÓS

Um colono mandou um dos filhos estudar na Itália. Antevia o grande retorno em conhecimentos que ele traria para todos. Mas, as contas não param de chegar obrigando o velho pai a se desfazer de vários campos num total de sete. Volta o jovem luminar. À noite, conversam no jardim, o velho colono na expectativa das pérolas de sabedoria trazidas da milenar agricultura  romana.

- Papá, questa luna que io vedo è la stessa que ci vedeva in Itália?

O velho, coça a cabeça de ralos cabelos brancos:

- Puori i miei sete campi! (Pobre dos meus sete campos!).

JECA TATU E DINO GORINI

DINO considerava a verminose um dos maiores flagelos brasileiros. Recebia e examinava no seu microscópio monocular amostras de fezes trazidas em caixas de fósforos pelos clientes.

E o paciente que enviou suas fezes numa latinha de fermento quase vazia? DINO abriu-a cautelosamente, distanciando-se do recipiente. Sua salvação. Segundo BRIGITTE, feito um foguete a merda foi para o espaço. E uma pesada lata recebida com considerável material para exame? Quanto tempo teria despendido o paciente para acumular tudo aquilo?

DINO foi pioneiro no implemento de medidas preventivas e tratamento da parasitose intestinal em nosso meio, mas ainda hoje o problema é sério no mundo todo. Grave problema de saúde pública, verminose é doença decorrente da pobreza.  Segundo a OMS há 1 bilhão de infestados por Lombriga, entre 200 a 500 milhões por Giardia (5% em países desenvolvidos e 40% nos outros países). Entamoeba histolytica acomete 500 milhões. 1 bilhão e meio têm anemia por verminose.

Ascaris lumbricoides e Trichuris trichiura têm prevalência elevada em comunidades cuja atividade produtiva é agrícola (contato frequente com o solo). Ancilóstomas predominam onde a atividade básica é o cultivo de arroz em área inundada. Em localidades de criação de gado predominam Trichostrongylus sp. e Taenia saginata.

A irrigação de solos áridos cria microambiente que permitem a sobrevivência das larvas.

Mineiros de carvão do subsolo em países de clima temperado ou frio, cujo solo submetido a temperaturas baixas não permitiria a sobrevida das larvas, sofreram epidemias de ancilostomíase. A precariedade das condições higiênicas e microambientes úmidos e aquecidos favorecem essas larvas. Diminuição na prevalência de verminoses decorre de melhoria das condições de vida e elevação dos níveis de escolaridade populacional.

DINO certamente enfrentou casos graves de pacientes com obstrução intestinal por lombriga, necrose amebiana hepática, balantidíase fulminante, tricuríase e estrongiloidíase generalizada. Ações governamentais preventivas teriam salvo e ainda poderão salvar vidas.

Vermífugos combatem Verminoses (a opção de DINO), expulsando o verme pela evacuação, sem matá-los. Vermicidas matam os vermes. Eficientes vermífugos naturais: alho cru, farinha de semente de abóbora, suco de chicória, chá da casca do abacate, chá de folhas e sementes de erva doce, infusão de hortelã-pimenta e losna, óleo de mamona (óleo de rícino) ...

Nas férias escolares, a prole GORINI ganhava, querendo ou não, uma dose de óleo de rícino goela abaixo, liberando toda uma variedade de parasitas de seu zoológico pessoal. Priminhos da prole em visita também participavam do compulsório tratamento coletivo.

Por Henrique Packter 17/11/2021 - 12:11 Atualizado em 17/11/2021 - 12:12

Militar por vocação, herança e necessidade (Eduardo Bueno), ascendeu na tropa pela bravura em combate, determinação e comportamento irrepreensível. Herói da Guerra do Paraguai e do cerco de Montevidéu, Comandante das Armas do RS e presidente provisório daquela Província, participou da Praieira ou Revolta Praieira,  movimento liberal e federalista em Pernambuco entre 1848 e 1850, cuja derrota representou demonstração de força do reinado de D. Pedro II (1840-1889).

De forma global, inscreveu-se no contexto das revoluções liberais, socialistas e nacionalistas que varreram a Europa no período, incluindo a Revolução de 1848 na França promotora da extinção do absolutismo no país.

Em nível local sofreu influência das ideias liberais, da falta de autonomia provincial.  Marcada pelo repúdio à monarquia, com manifestações a favor da independência política, da república e por reformismo radical. Havia ainda a histórica rivalidade com os portugueses, que dominavam o comércio na província. Principais causas da Rebelião Praieira:

Predomínio do latifúndio;
dependência e marginalização do pequeno agricultor;
encarecimento dos gêneros de primeira necessidade;
papel monopolizador dos comerciantes portugueses;
êxodo rural;
crise na economia pernambucana.

A REVOLTA
Causa imediata foi a destituição, por D. Pedro II, do Presidente da Província Antônio Pinto Chicorro da Gama, representante dos liberais. A substituição deste liberal pelo ex-regente Araújo Lima, extremamente conservador, foi o estopim para o início da revolução, que já acumulava insatisfação com a política imperial e dificuldades pelo declínio da economia açucareira.

Os rebeldes queriam alterar a Constituição brasileira de 1824, visando a efetiva liberdade de imprensa (limitada, extinguia artigos que ferissem a família real ou a moral e os bons costumes), a extinção do cargo vitalício de Senador, voto livre e universal, garantia de trabalho, nacionalização do comércio varejista das mãos dos portugueses.

Setores radicais do Partido Liberal pernambucano reunidos em torno do jornal Diário Novo, na Rua da Praia, Recife, conhecidos como praieiros – condenaram a destituição de Chichorro da Gama, interpretando esse gesto como mais uma arbitrariedade imperial (abril 1848).

COMEÇA REVOLTA CONTRA O NOVO GOVERNO DA PROVÍNCIA

Inicia em Olinda, a 7.11.1848, sob a liderança do general José Inácio de Abreu e Lima. O presidente nomeado da Província, Herculano Ferreira Pena, foi afastado e o movimento espalhou-se rapidamente por toda a Zona da Mata de Pernambuco.

Rebelião realizada por etapas, tomando características próprias a cada período, os amotinados dirigiram-se para o norte procurando a área de influência de senhores de engenho liberais, como Manuel Pereira de Morais. Ocuparam, sucessivamente, duas cidades, depois de enfrentar os legalistas. Depois do combate de Muçupinho, em que o governo teve uma vitória pouco expressiva, eles se dirigiram para Nazaré da Mata, que foi ocupada, a 12 de novembro, por Joaquim Gonçalves Guerra, influente senhor de engenho do vale do Siriji.

Em 1º.01.1849, os revoltosos lançaram seu programa, documento denominado, modestamente, Manifesto ao Mundo, de conteúdo social Liberal. Supostamente escrito pelo jornalista Borges da Fonseca, o manifesto defendia:

Voto livre e universal do povo brasileiro;
plena e absoluta liberdade de imprensa;
trabalho, como garantia da vida para o cidadão brasileiro;
comércio a retalho só para os cidadãos brasileiros;
inteira e efetiva independência dos poderes constituídos;
reforma do Poder Judiciário, de forma a assegurar as garantias dos direitos individuais dos cidadãos;
extinção da lei do juro convencional;
extinção do sistema de recrutamento militar então vigente.
Recebendo a adesão da população urbana que vivia em extrema pobreza, pequenos arrendatários, boiadeiros, mascates e negros libertos, os praieiros marcharam sobre o Recife em fevereiro de 1849 com quase 2,5 mil combatentes, mas foram rechaçados. Marcharam em três Divisões, uma comandada por João Inácio de Ribeiro Roma, a segunda por Bernardo Câmara e a terceira por Pedro Ivo Veloso da Silveira.

REPRESSÃO
A província foi pacificada pelo novo presidente, Manuel Vieira Tosta, auxiliado pelo Brigadeiro José Joaquim Coelho, novo Comandante das Armas. Derrotadas em dois combates, os líderes das forças rebeldes, pertencentes à classe dominante, foram detidos e julgados apenas em 28.11.1851, quando os ânimos na província já tinham serenado e o governo imperial pôde lhes conceder anistia. Voltaram, assim, aos seus cargos públicos e a comandar seus engenhos. Por outro lado, os rebeldes das camadas sociais menos privilegiadas - rendeiros, trabalhadores e outros - não tiveram direito a julgamento, sofreram recrutamento forçado ou foram anistiados por intervenção de seus superiores para retornarem ao trabalho, exceto aqueles sumariamente fuzilados durante e logo após os combates.

RESULTADOS
Com o fim da Praieira, no início de 1850, iniciou-se outra parte do Segundo Reinado, um período de tranquilidade política, fruto do parlamentarismo e da política da conciliação implantados por D. Pedro II, e da prosperidade trazida pelo café.

QUANTO A DEODORO

Envolvido por Júlio de Castilhos, torna-se amigo também de Ramiro Barcelos e Assis Brasil, todos republicanos. Transferido, desterrado do RS para o então inóspito Mato Grosso em janeiro de 1887, em agosto de 1889 vê o Cel. Cunha Matos, seu inimigo assumir o governo de Mato Grosso. Era uma coronel mandando  num marechal! Algo tão espantoso que somente 130 anos depois voltaria a ocorrer quando um capitão-presidente mandaria num general vice-presidente! Outro inimigo de Deodoro logo assumiria  o governo do RS: Gaspar Silveira Martins.  

Em 13.9.1889, a 63 dias de dar o golpe republicano,  escreveu "o único sustentáculo do nosso Brasil é a monarquia; se mal com ela, pior sem ela". Deodoro estava adoentado e passou todo mês de outubro de 1889 acamado.  Benjamin Constant atraiu-o para a causa republicana. Ainda hesitava em aderir quando é informado que Dom Pedro II escolhera Gaspar Silveira Martins para presidente do Conselho de Ministros no lugar  do Visconde  de Ouro Preto.

Pronto! Decide-se imediatamente e à noite, em sua residência, após chamar Quintino Bocaiúva, Aristides Lobo e Benjamin Constant falou: "Digam ao povo que a República está feita". Aristides Lobo era jurista, jornalista republicano, abolicionista. Na tarde de XV de novembro escrevera em sua coluna CARTAS DO RIO, no DIÁRIO POPULAR:

"Eu quisera poder dar a esta data a denominação seguinte: 15 de Novembro, primeiro ano de República; mas não posso infelizmente fazê-lo. O que se fez é um degrau, talvez nem tanto, para o advento da grande era. Em todo o caso, o que está feito, pode ser muito, se os homens que vão tomar a responsabilidade do poder tiverem juízo, patriotismo e sincero amor à liberdade.
Como trabalho de saneamento, a obra é edificante. Por ora, a cor do Governo é puramente militar, e deverá ser assim. O fato foi deles, deles só, porque a colaboração do elemento civil foi quase nula. O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava.
Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada. Era um fenômeno digno de ver-se.
O entusiasmo veio depois, veio mesmo lentamente, quebrando o enleio dos espíritos. Estamos em presença de um esboço, rude, incompleto, completamente amorfo".

Estaria na hora de voltar à monarquia? 

Por Henrique Packter 08/11/2021 - 08:53 Atualizado em 08/11/2021 - 08:55

Nas semanas passadas falamos de José (JUCA) Tarquínio Balsini, falecido quase simultaneamente ao ingresso no HSJ, de Boris e de João Kantovitz, este recém-falecido.

As coisas que relato têm o sentido de homenagem a esses médicos, além de Thomaz Reis Mello, Arthur do Souto Goulart, pescadores pescados antes do tempo, pioneiros, trazendo o benefício da Medicina de grandes centros. JOÃO, aprendeu a arte Ortopédica com HEINZ RÜCKER e MÁRIO BRAGA DE ABREU, professores de Ortopedia/Traumatologia e Clínica Cirúrgica na Federal do Paraná, em Curitiba, respectivamente.

Quando ALEXANDRE HERCULANO DE FREITAS, um dos primeiros odontólogos da cidade faleceu no Hospital da Laguna, pelo trauma crâneoencefálico (TCE) produzido por acidente rodoviário próximo a Imbituba, quase no mesmo local em que viria a morrer, muitos anos depois DIOMÍCIO FREITAS, trabalhava em Criciúma nosso primeiro Ortopedista, OTÁVIO ROBERTO CARNEIRO RILA, hoje aposentado em Florianópolis.

O óbito de Alexandre, após uma noite de cuidados meus e de RILA, assistidos por PAULO CARNEIRO, um dos maiores médicos que a Laguna e o Estado já abrigaram, fui à praia do Mar Grosso. Era 1963 e os ventos políticos começavam a soprar fortes. Na orla, nem tanto. Fazia algumas poucas horas, um monomotor aterrissava na areia da praia do Gi trazendo DAVID LUIZ BOIANOVSKY e NELSON VENTURELLA ASPESI, neurocirurgião em Porto Alegre. O pediatra DAVID LUIZ BOIANOVSKY fora buscá-lo diante da gravidade das lesões cerebrais que ALEXANDRE HERCULANO sofrera e pelas quais morreria na mesa de cirurgia do Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus dos Passos da Laguna.

Na praia, pus-me a pensar. Estava formado há 3 anos e já contabilizava perdas expressivas pelas mortes de familiares e amigos. A vida é breve, a ocasião fugaz, a experiência é vacilante e o julgamento é difícil, já dissera Hipócrates, mestre de um amanhã que nunca chegava.

Uma espécie de folhagem, espojando-se na água mal amanhecida do céu recém-lavado, trazida por uma onda mais forte, acomodou-se entre as pedras e a areia. Leve aragem, canção do vento aprisionado, varava as folhagens. Mão em pala protegendo os olhos, mirava o sol longínquo, o sol surgente. Recuando para um dia perdido na memória, relembrava miúdas aventuras do dia-a-dia morno e cinza. Já nuvens pretas, carregadas, corriam do sul, velozes e túrgidas, encobriam estrelas arredias e a pálida lua, sumidouras e a pálida lua. Mas, lá em cima, sol pleno se anunciava.

Foi isso que escrevi naquele mesmo dia ao chegar em Criciúma.  (CONT)

Por Henrique Packter 01/11/2021 - 10:20 Atualizado em 01/11/2021 - 10:21

Boris nasceu em 3.9.1941 em Santa Maria, RS e fez toda sua formação lá mesmo. Estudou no Colégio Marista e na Faculdade Federal de Medicina de Santa Maria, onde se formou em 1966. Em 1967 já estava em Criciúma, onde labutou até 1972; hoje reside e trabalha em Porto Alegre. Logo se fez notar pela habilidade na remoção de corpos estranhos bronco-esofágicos, área até então desassistida, sem nenhum profissional a atendê-la em todo sul e oeste do estado catarinense e norte do RS.

Pendurou num quadro, logo na entrada da clínica os objetos aspirados e por ele retirados laboriosamente com o aparelho de Chevalier-Jackson. Muito importante foi a contribuição trazida por Boris. Aprendi com ele a manipular o instrumento para remoção de corpos estranhos de brônquios e esôfago. Em troca ensinei a ele o que sabia de Oftalmologia.

MORRE EM CRICIÚMA O ORTOPEDISTA E TRAUMATOLOGISTA JOÃO APARECIDO KANTOVITZ

Serviu a cidade e o Estado por mais de 50 anos. JOÃO nasceu em Rio Claro, SP, em 23.11.1937 e faleceu em Criciúma a 23.8.2018. Chegou em 1965, praticamente na mesma data da chegada de Boris. Era homem de muitos instrumentos. Médico, granjeou respeito de todos através de sua arte na profissão. Operou atletas de toda as partes sempre exitosamente. Músico, compôs com a Turma da Seresta que se exibia especialmente nas rádios da cidade. Jovem, era hábil jogador de futebol. Devo a ele a recuperação de minha saúde, vítima que fui em 2006 de acidente automobilístico na parte não duplicada da BR101, localidade de Bentos, na Laguna.

Casado com Elohá, João deixou dois filhos, Paulo César de Jesus e Júlio César e uma neta.   

VIDA E MORTE DE JOSÉ BALSINI, O JUCA BALSINI

BORIS chegou a Criciúma dias após o falecimento de JOSÉ TARQUÍNIO BALSINI, nascido a 7.9.1905 em Joinville, filho de Tarquínio e Lúcia Moro Balsini. Casado com Carmem Mattos Balsini, o casal teve três filhos: o engenheiro Claudio (casado com Vera Regina Kastrup), o advogado Clóvis (casado com Maria Helena Luz) e Sônia (casada com o advogado Adhemar Paladini Ghisi, muitas vezes deputado federal por SC, depois Ministro e Presidente do Tribunal de Contas da União). Clovis e Adhemar são falecidos.

BALSINI, cidadão honorário de Criciúma em 11.9.1961, foi diretor-clínico do HSJ, da sua criação em 1936 até 13.2.1966, data de seu falecimento.

1965 é a data de formatura de BORIS, na Faculdade Federal de Medicina de Santa Maria. Esta faculdade federal também formou Júlio Manfredini, Portiuncola Caesar Augustus Gorini, a anestesista Mari Sandra de Brito Petry e Gervani Bittencourt Bueno, diretor da CRIOX, Medicina Hiperbárica e Tratamento de Feridas. Martinho Ghizzo, de Araranguá, formou-se lá, também.
 
Sergio Luiz Bortoluzzi (um ele dois zes, como sempre informa), não estudou Medicina em Santa Maria por detalhe. Inscreveu-se ele para o vestibular em Porto Alegre e também em Santa Maria. Por uma questão de calendário foi a Porto Alegre realizar o exame. Sem saber o resultado das provas, embarca no trem da Viação Férrea do RS  para Santa Maria. Estando prestando prova, bem sentado, surge um funcionário da Faculdade de Medicina de Santa Maria com telegrama nas mãos para um tal de Sergio Luiz Bortoluzzi. É autorizado a abrir o documento e lê-lo. Assim soube, aplaudido pelos vestibulandos presentes, que fora aprovado em Porto Alegre. Levanta-se, cumprimenta a todos e retira-se para nunca mais voltar.   
BALSINI era médico dotado de raro senso prático e operava com grande habilidade. Na minha chegada à cidade, DIFTERIA grassava na região, colhendo elevado tributo em vidas de crianças. Balsini ensinava: há dois tipos de difteria a branca e a azul. Na azul, a criança está morrendo por asfixia. Dê soro e faça uma traqueostomia. Na branca, a criança está intoxicada profundamente, em toxemia, não adianta fazer nada.

Chegando OLAVO DE ASSIS SARTORI, a cidade se resumia a casario de pé direito insignificante, espremida entre a Estação de Estrada de Ferro (onde está o Buraco do Prefeito), e o HSJ.

Do lado de lá dos trilhos havia o Cemitério, onde hoje está o BISTEK, e, pouca coisa mais. Chegando Sartori, Balsini dividiu a cidade quase salomonicamente em duas freguesias: os chamados para atendimento médico pra lá dos trilhos, eram de Sartori, os restantes, eram de Balsini...

Coube a Balsini operar de apendicite o magérrimo Raimundo Jorge Peres. Convalescente, Peres decide descansar alguns dias em Uberaba, MG, sua cidade natal. Foi e voltou acompanhado do irmão gêmeo de quem ninguém suspeitava a existência. Mas, o irmão, ao contrário de Peres, era gordíssimo. Resolvem divertir-se às custas de Balsini que costumava gaguejar quando colocado em situação embaraçosa. Pois foi o que aconteceu quando Balsini vê entrar em seu consultório no HSJ um estranhíssimo personagem, que a exemplo de Roberto Jefferson só viajava de avião se adquirisse duas passagens, dois assentos.

- Me-eu Deus! C-a-a-alma... Devagar, s-s-senta aí, Peres...

JOSÉ BALSINI fumava e teve câncer de pulmão, operado em SP pelo Prof. Zerbini em 1965.

Ele me procurou no meu consultório do HSJ em 22.10.1965, meses após a cirurgia. Queixava-se de vermelhidão e dor no olho direito. Dona Carmem telefonou previamente, alertando-me a respeito do comportamento de Balsini diante das doenças próprias que já o tinham afligido. Quando da operação do pulmão em São Paulo, na Beneficência Portuguesa, Zerbini, mesmo sem ainda ter botado os olhos no exame anatomopatológico já sabia que estava diante de um quadro de tumor maligno de pulmão. Foi advertido por familiares de Balsini para nada revelar ao paciente que já ameaçara jogar-se do 10º andar do prédio caso seus temores a respeito da natureza da doença se concretizassem.

Melhorando, Balsini ganha autorização para andar ao longo do corredor do 10º andar. A ideia não foi das melhores. Caminhando com a lentidão exigida por seu estado de saúde, passa pelo Posto de Enfermagem, vê e apanha seu prontuário. Nele, está apenso o laudo do Patologista que não deixava qualquer dúvida: era câncer de pulmão em estado avançado.

Balsini desespera-se e Zerbini é chamado:

- De jeito nenhum Balsini! Eu fiz tua cirurgia, tirei teu pulmão e sei que o que tinhas era, talvez, antigo processo pulmonar, talvez uma tuberculose ou pneumonia mal curada. Este laudo não tem nada a ver! Vou imediatamente saber a que se deve esta troca infeliz.

Assim, Balsini, cirurgião experiente e competente deixou-se ludibriar porque isto é da natureza humana. Nós simplesmente não queremos ter doenças graves e aceitamos estas bondades obsequiosas dos nossos médicos.

Chegado à cidade, logo vem ao meu consultório:

- Henrique, imagina que na Beneficência Portuguesa, talvez o maior hospital brasileiro e da América Latina cometeram este engano comigo. Na Beneficência Portuguesa! Nós aqui, estamos absolvidos de qualquer engano que venhamos a cometer!

Examinei-o. Tinha extensa metástase ocular ocupando quase todo o olho, a partir de sua metade inferior. Na amígdala esquerda também havia metástase.

Balsini perguntou minha opinião sobre consultar o grande Oftalmologista HILTON ROCHA em Belo Horizonte. Aprovei a ideia. Afinal, eu tinha menos de cinco anos na cidade e não queria ficar conhecido ad eternum como o doutor que removera o olho do mais célebre médico da região. A única coisa a fazer era a remoção do olho e da amígdala e isso, com resultados extremamente duvidosos. Balsini retornou de BH antes do Natal. Fizera fotocoagulação com Hilton Rocha; irradiação da amígdala e antiblásticos em SP. Mas, as dores oculares eram insuportáveis por Glaucoma, devido ao tumor metastático intraocular. Fiel ao meu pensamento expresso logo ali acima, fui a Torres no RS, onde veraneava o Prof. ALFREDO SCHERMANN, tio de Paulete, futura esposa de Boris. Coube a ele remover o olho direito de Balsini que faleceria em 1966 aos 60 anos.

Por Henrique Packter 25/10/2021 - 12:10 Atualizado em 25/10/2021 - 12:11

BORIS, durante muitos dias teve motivos para relembrar e falar do encontro com PAULO CARNEIRO. Saiu dele, do encontro, com a alma gratificada pelos causos ouvidos. Entre outros, aquele do Padre Osny Rosenbrock, nomeado por PIO XII para ser vigário da Paróquia da Laguna, substituindo a Dom Gregório Warmeling, recém nomeado bispo de Joinville. O padre Rosenbrock era, até então, coadjutor do padre Estanislau Cizeski, em Criciúma. Com grande entusiasmo e devoção ensaiava a celebração de sua primeira missa.

BREVE HISTÓRIA DA IGREJA MATRIZ

Final do século 17 e início do 18, Laguna passa a receber imigrantes açorianos, a cidade já ostentando aspecto de vila, com suas casinhas de taipa e pilão e uma capela, tendo ao lado uma igreja, construção de 1696, 325 anos atrás.

Primeira preocupação do desbravador Domingos de Brito Peixoto, devoto de Santo Antônio de Pádua, é a Igreja Matriz de Santo Antonio dos Anjos, construída por ordem do bandeirante e fundador de Laguna, apenas uma capelinha de pau a pique. Consagrada a Santo Antônio dos Anjos, padroeiro da cidade,  o corpo da igreja edificada em 1735 tem estilo barroco, com quatro altares laterais folheados a ouro e a Capela do Santíssimo, talvez o mais belo altar da arquitetura religiosa catarinense. A Igreja Matriz (na época Paroquial), concluída em estilo toscano, viu serem fundadas em 1753, a Irmandade do Santíssimo Sacramento e Santo Antônio dos Anjos da Laguna. Mas, oficialmente, conclui sua formação em 1815, segundo livros no Arquivo do Tombo da Matriz.

Santo Antônio ocupa o altar mor da Igreja, entalhado em 1803. As torres são mais novas, de 1894. O relógio foi colocado em 1935.

A igreja passou por muitas reformas. Uma na década de 70 (entre 1971 e 1973), pelo artista e entalhador João Rodrigues e outra entre janeiro de 2000 a abril de 2003. A igreja abriga a valiosa tela de Nossa Senhora da Conceição, de Victor Meirelles, pincelada em Roma, 1856. Reabriu em 2003, exibindo relíquia de Santo Antônio: pedaço da pele do santo, vindo da Itália!

Escolhendo como padroeiro Santo Antônio, a Paróquia obteve junto ao Vaticano pequena porção dos restos mortais do santo, uma fração da língua, acomodada num relicário com inscrição em Latim: “Ex Cute S. Antonii Pat.” (A pele de Santo Antônio de Pádua, ou Lisboa). Um dos santos mais populares da Igreja Católica, parece ter nascido em Lisboa (1195), falecendo a 13.6.1231 em Pádua, Itália.

Fernando de Bulhões (nome de batismo do santo), ingressou muito jovem como noviço na Ordem dos Cônegos Regrantes de Santo Agostinho, mosteiro de São Vicente de Fora, Lisboa; residiu depois no Mosteiro de Santa Cruz, Coimbra.

O martírio de cinco franciscanos decapitados em Marrocos (1220), e a vinda dos seus restos mortais para Coimbra, fazem Fernando trocar a Regra de Santo Agostinho pela Ordem de São Francisco, recolhendo-se no Eremitério dos Olivais, adotando Antônio como nome.

Em 1221 embarcou para o norte africano em ação evangelizadora, retornando por problemas de saúde.  Na viagem de regresso uma tempestade arrasta a embarcação até a costa da Sicília, Itália, onde Antonio se notabilizaria como teólogo e pregador.

Em Pádua escreveu os Sermões Dominicais e Festivos (53 sermões, além das pregações feitas naquela localidade), deslocando-se e evangelizando, em parte da Itália e sul da França.

Faleceu em Pádua,1231. Canonizado ano seguinte, no mais rápido processo de canonização da Igreja Católica, seus restos mortais jazem na Basílica de Pádua, construída em sua memória.

Quando contei essa história a Satírio Venéreo, nefando incréu, depois asilado e exilado nos contrafortes da Serra do Rio do Rastro, perguntou com aquele seu meio-sorriso de deboche:

- Pois é, pros gaúchos, gente papuda, deram um pedaço da língua do santo. E pra nóis, da Laguna?  

UMA ESTREIA
Em cenário do altar de grandiosidade histórica e religiosa, estimulado pela maciça presença dos fiéis lotando a Igreja Matriz, padre Osny preparava-se para pronunciar sua homilia. Eis senão, quando, na veemência de inflamada oratória, pelo ímpeto com que a pronunciava, sua dentadura mais palavras e perdigotos se projetaram sobre os fiéis. Angustiado, lábios tremebundos e emurchecidos, persignou-se. Um garoto devolveu-lhe discretamente o esquivo acessório bucal retomando o caminho. Meu amigo, PADRE MANOEL ODORICO, por longos anos pároco na Igreja Nossa Senhora da Salete, da Próspera, Criciúma, conhece outro caso semelhante, também ocorrido com religioso, mas na praia do Rincão e durante uma pescaria. Neste último caso, parece que a perda foi total...  (cont)
 

Por Henrique Packter 18/10/2021 - 12:31 Atualizado em 18/10/2021 - 12:33

MAURÍCIO FERNANDO PEREGRINO DA SILVA, nasceu no RJ cidade onde fez todos os seus estudos. Colou grau em Medicina pela atual UniRio em 1968. Há uma diferença a favor de Boris de dois anos falando-se de iniciar a vida profissional, Boris em Criciúma, Maurício em Orleans.   Especialista em Clínica Médica, Maurício atuou também em Cirurgia Geral e  no antigo INPS foi aprovado em concurso público como obstetra. Realizou mais de mil e duzentos partos. Trabalhou inicialmente em Orleans cidade onde EMIR BORTOLUZZI DE SOUZA era o único médico.

O distrito de Orleans do Sul, criado em 2.10.1888 englobava a área de mineração requerida pelo do Visconde de Barbacena e Pindotiba, na época denominada Raposa, a rigor a primeira região habitada.

Resultado de um trabalho das lideranças locais e políticos de Tubarão, liderados pelo Deputado Acácio Moreira, foi criado o município em 30.8.1913. Era composto dos distritos da sede, Lauro Müller, Grão-Pará e Palmeiras. A grafia do nome do município passou a Orleans e Distrito de Palmeiras para Pindotiba. Em 1970, voltou a grafia original de Orleans. O Distrito de Lauro Müller foi emancipado em 5.10.56, Grão-Pará em 21.6.58 e finalmente uma parte de São Ludgero transformada em município em 14.6.63.

Boris era amigo de Emir e dele recebeu convite para trabalhar em Orleans uma vez por semana, no Hospital Santa Otília.  Lá ia ele toda quarta feira atender a população da região. Este atendimento facilitava a vida dos orleanenses no sentido de não afastá-los para a cidade grande, afastando-os da lavoura, tão necessitada destes braços. 

A 4.10.1938 nascia o hospital de Orleans   com o nome de Hospital   Municipal Henrique Lage, pela colaboração prestada pelo político, proprietário da Empresa Mineradora Carvoeira de Lauro Muller. Homenagem também devida pela participação ativa na obra dos engenheiros e seus funcionários Reinaldo Schmithausen, Walter Weterli, Márcio Machado Portela, Wilson Gonçalves e Nestor Gigueira. José de Lerner Rodrigues  e Antônio Dib Mussi são os primeiros médicos.

A inauguração ocorre em 15.01.1939. Segundo boatos, nesse dia, ao visitar obras da ponte sobre o rio Tubarão, na chegada de Urussanga, o interventor Nereu Ramos  sabe do nome já escolhido para o hospital. Não gostou nem um pouco e pergunta pelo nome da padroeira do município.

Santa Otília, é a resposta. Discursa, então: ‘Estamos em Orleans para visitar as obras desta ponte e também estaremos inaugurando o Hospital Munipal Santa Otília, cujo  nome é dado em homenagem à Santa Padroeira desta paróquia”.  Mais que depressa, o prefeito José Antunes Mattos determina aos fiscais da prefeitura Hugo Clauman e Gastão Cordini dirigirem-se ao hospital para retirar a placa com o nome Henrique Lage. (Orleans 2000 – História e Desenvolvimento. Jucely Lottin. Pág. 167, 1998).

Mais tarde, Maurício muda para Criciúma onde trabalhou por doze anos, cinco horas por dia no Pronto Socorro do Hospital São João Batista. É cidadão honorário de Criciúma e Juiz no Tribunal Arbitral da cidade, onde atua em processos médicos. Também escreveu Verdades e Mentiras Sobre Médicos (2001), seu primeiro livro.

No Verdades e Mentiras Sobre Doenças há dois capítulos que me chamaram a atenção. O primeiro Boca, Faringe, Traqueia, Esôfago, Laringe (pág. 136) e Sinusite (pág. 186). São dois artigos que têm tudo a ver com a especialidade que Boris exercia em Criciúma e me fizeram lembrar de episódios vivenciados por nós. Maurício Peregrino faz uma pesquisa primorosa dos assuntos que aborda.

Ensina o que é faringe. Você já teve faringite? Pois é a inflamação da faringe, que é o que você vê quando abre a boca e enxerga lá no fundo aquele tecido avermelhado (orofaringe), ensina Maurício. Pra cima há uma cavidade que na verdade constitui os fundos das narinas, território onde estão as adenoides, responsáveis por aquela ronqueira das crianças (rinofaringe). Mais pra baixo está o laringe (laringofaringe), órgão da voz. Laringe e rinofaringe só são vistos com equipamentos. A laringe tem dois canais, um conectado com o estômago e o outro ligado ao pulmão. A faringe tem uma válvula (glote) que impede aos alimentos sólidos ou líquidos cair na árvore respiratória, via traqueia. Por este mecanismo alimentos e líquidos são remetidos para a via digestiva, o esôfago.

Chegando ar na faringe a válvula tapa o esôfago e o ar entra na traqueia e brônquios. Quer dizer, o tubo da frente é para passagem do ar, para a respiração e o tubo de trás é para a alimentação. Taqueia na frente, esôfago atrás. Maurício adverte para nunca dar de beber a pessoa inconsciente. O mecanismo de válvula estando inoperante você pode matar por sufocação essa pessoa que vai receber o líquido na traqueia!

Maurício acha que estamos mal construídos. Deveríamos sim, ter a boca no lugar do nariz e vice-versa. Desta forma, o ar da respiração, entrando pelo nariz (abaixo, no lugar da boca), cairia direitinho no primeiro tubo (da respiração) e o alimento, entrando pela boca, mais acima, cairia no tubo de traz evitando problemas de trânsito e a pessoa inconsciente poderia receber água para beber, sem risco de sufocação.

Também já se poderia acrescentar a essa alteração pelo menos colocar mais um olho, na nuca, talvez também aumentar o número de braços, com inegáveis vantagens para o PIB do país.

Esta interessante notícia do Maurício traz-me à lembrança uma outra, de Ruy Castro. Ele leu em algum local que cientistas japoneses estariam criando rãs sem cabeça. A nota acrescentava que o processo poderia ser estendido aos humanos. Todos nós entendemos a vantagem de criar rãs sem cabeça: o intelecto não é uma das maiores características das rãs. Pensar na economia de tempo para os restaurantes que aproveitam delas apenas as pernas, e à milanesa. Mas, para que criar seres humanos sem cabeça? Já existe por aí milhões de criaturas para quem ela não serve pra nada, exceto usar um boné ao contrário.

Humanos sem cabeça parece que serviriam apenas como doadores de órgãos. É de pensar, que indivíduos destituídos de cabeça estariam condenados a nunca participar de magnas comemorações como ver o Internacional sagrar-se campeão brasileiro algo que talvez vá ocorrer inda agora, neste ano. Também estarão condenados a jamais ver a Juliana Paes desfilando na Mangueira.

Por Henrique Packter 11/10/2021 - 12:43 Atualizado em 11/10/2021 - 12:44

BORIS destacava-se na prática de basquete à qual se dedicava assim-assim. Em 1953, 12 anos de idade, passa a treinar no time do Colégio Marista em Santa Maria. Forte e alto para a idade, logo era apontado como grande promessa. Logo suas atuações atraem os olhares do Flamengo do RJ que excursionava pelo RS.  Seu técnico, TOGO  RENAN SOARES, o KANELA, vai pedir a nosso pai consentimento para levar Boris. Ele residiria na concentração do time no RJ e estudaria em ótimas escolas. Ouviu poucas e boas de meu pai e foi posto solenemente e sem qualquer cerimônia no olho da rua. Acabou aí a promissora carreira esportiva cestobolística de Boris, mas não seu interesse pelo basquete. Em 1966 iniciava-se na carreira médica e nossa seleção de futebol estava na Inglaterra para disputar, talvez, sua pior Copa do Mundo. Isto, se a gente esquecer aquela partida dos oito gols. O mascote, leão Willie, da Copa de 1966, é a primeira mascote de Mundial da Fifa, primeira Copa a ter replays dos principais lances das partidas exibidas na Tv.

Na convocação de 43 atletas para a Copa, dirigente da CBD reclamou que o Corinthians quase não tivera atletas convocados. Sugeriu convocar o zagueiro Ditão. Ao datilografar os nomes, colocaram outro Ditão, o do Flamengo. A comissão técnica resolveu deixar por isso mesmo.

Tostão foi convocado para a Copa de 1966 que marcou a despedida de Garrincha da seleção. O Cruzeiro de Tostão detonou o Santos de Pelé na final da Taça Brasil de 66. A dupla TOSTÃO e DITÃO seria notícia, três anos mais tarde, em 1969.

Em partida no Pacaembu pelo Robertão (24.9.1969), o Cruzeiro buscava  vaga do grupo A, na segunda fase da competição, contra Corinthians e Internacional. Pela quinta rodada, o Cruzeiro vai a SP pegar o Timão.

Corinthians ganhou de 2x0 e o Cruzeiro ainda teve sério desfalque. O zagueiro corintiano Ditão (o mesmo da convocação equivocada) chutou com violência. A bola atingiu o olho esquerdo de Tostão, que saiu de campo ensanguentado. Teve descolamento de retina e passou semanas entre consultas e exames até ser encaminhado para cirurgia em Houston, EUA, pelo oftalmologista brasileiro Roberto Abdalla Moura. Sem Tostão, o Cruzeiro obtém a vaga para a segunda fase, mas perde o título para o Palmeiras, campeão do Robertão 1969.

Por razões políticas, Saldanha, o JOÃO-SEM-MEDO, lá do Alegrete, saiu do comando da Seleção dando lugar a Zagallo, por artes de Médici. O Velho Lobo vê às vésperas da Copa, Tostão juntar-se a um dos melhores times que o planeta já viu, ganhador da Copa do Mundo de 1970 no México. Entre outros o time contava com Carlos Alberto Torres, Piazza, Clodoaldo, Jairzinho (Furacão da Copa), Rivelino (a patada atômica), Pelé (o atleta do século), Gerson. Edu, jogador mais jovem a integrar a seleção brasileira numa Copa, convocado ponta-esquerda do Santos, 16 anos, não entrou em nenhuma partida.

Zebra histórica em 1966: Coreia do Norte elimina a  Itália. Copa que inicia com o roubo da Taça Jules Rimet, exibida no Central Hall, de Westminter, em 20.3.1966. Foi afanada sem nenhuma violência, sem quebrar vidros da vitrine onde se encontrava ou tocar nos selos em exposição no mesmo local.

A notícia correu mundo. Peritos da Scotland Yard investigaram o crime, mas, quem salvou a pátria foi o cachorro Pickles, que achou a taça no subúrbio londrino. 

Atletas da Seleção Inglesa receberam menos de mil libras pelo título mundial de 1966. Na Copa, Vicente, o marcador português de Pelé, caçou-o até alijá-lo da partida. Entrevistado pelo jornal inglês Sunday Telegraph, finda a disputa, Pelé declarou estar desgostoso com a violência, e que aquela seria sua última Copa do Mundo. Felizmente a promessa foi esquecida e o Rei conquistou o tricampeonato mundial em 70. 

Manga foi o goleiro da canarinho 66. Mas, estava pouco inspirado e Garrincha estava no fim. Em entrevista, Manga contou de seu início no esporte, em times do interior de Pernambuco. O coronel, dono do time, a cada eleição vinha à concentração com os envelopes da votação prontinhos. Não queria que os craques passassem trabalho. Bastava colocar tudo no envelope oficial. Manga, em determinada eleição  pergunta se pode olhar em quem estava votando. O coronel:

- Manga! Você não sabe que o voto é secreto?!

TUDO BEM, E QUANTO AO BASQUETE?

Só em 1965 as entidades, Confederação Brasileira de Desportos (CDB) e Confederação Brasileira de Basketball (CBB)  se uniram e desde então passaram a organizar a Taça Brasil de Basquete, o primeiro Campeonato Brasileiro de Basquete oficial. Como os títulos do Flamengo foram conquistados no período de cisão entre CBD e CBB, eles não são reconhecidos pela última.

Em 1947 a coordenação técnica do Flamengo, RJ, estava a cargo de Togo Renan Soares, o Kanela, hoje nome de dois ginásios do clube. O novo técnico revoluciona a história do basquete rubro-negro, acabando com o jejum de títulos. Em 1948 e 1949, o Flamengo foi bicampeão estadual. Em 1951, Gilberto Cardoso presidente, o Flamengo entra na década de ouro do basquete rubro-negro. De 1951 a 1960, o Flamengo sagrou-se decacampeão carioca. Durante esses 10 anos, foram 193 vitórias e quatro derrotas. Atletas que fizeram nome na época: Mário Jorge, Algodão, Gedeão, Alfredo La Motta, Godinho, Guguta, Waldir Boccardo, Fernando Brobró (campeão mundial em 1959 e 1963), Arthur, Zé Mário, Tião Gimenez e Ardelum.

Essa geração do Flamengo ganhou ainda três torneios brasileiros organizados pela CBD em 1949, 1951 e 1953. Assim como o de 1934, estes títulos não são reconhecidos como títulos oficiais do Campeonato Brasileiro de Basquete.

O Flamengo foi o primeiro clube brasileiro a conquistar um título internacional no basquete, o Campeonato Sul-Americano de Clubes, Campeões de Basquete Masculino de 1953, realizado em Antofagasta, Chile, o Rubro-negro terminando em primeiro lugar, juntamente com o Santa Fé (Argentina) e o Olimpia (Paraguai).

O basquete masculino do Flamengo volta a conquistar títulos cariocas em 1962, 64, 75, 77, 82, 84, 85, 86, 90, 94, 95, 96, 98, 99 e 2002. Atualmente, o Flamengo é pentadecacampeão estadual, com os títulos de todos os anos entre 2005 e 2020 (em 2017 não houve campeonato). Entre os anos de 1999 e 2003, o grande nome do basquete flamenguista foi Oscar Schmidt, o mão santa.

Por Henrique Packter 04/10/2021 - 08:58 Atualizado em 04/10/2021 - 08:59

Boris tinha piadas de predileção que contava repetidas vezes, rindo todas as vezes com o mesmo prazer. Durante muito tempo repetiu piada sobre a Rainha da Inglaterra, a interminável Rainha Isabel II ou Elizabeth II, que ouvi à exaustão.

Alexandra Mary Elizabete, Rainha do Reino Unido e de quinze outros estados independentes, os Reinos da Comunidade de Nações, além de chefe da Commonwealth, formada por 53 estados, nasceu em 21.4.1926. Conta hoje 95 anos. Viúva desde este ano da graça de 2021, foi casada desde 1947 com Filipe, Duque de Edimburgo. O pai ascendeu ao trono em 1936 como Jorge VI, depois da abdicação do irmão Eduardo VIII, passando ela a ser a herdeira presuntiva da coroa. Isabel assumiu deveres públicos durante a Segunda Guerra Mundial, servindo no Serviço Territorial Auxiliar.

Morto o pai em fevereiro de 1952, Isabel ascendeu ao trono aos 25 anos. Sua coroação, primeira a ser televisada, ocorreu em 1953. Um ano depois eu ingressaria na Faculdade de Medicina. Mãe de quatro filhos, não é preciso ir longe para perceber a criatura extraordinária que é e sua importância, cheia de simbolismo, mantendo a integridade do Reino Unido. Elisabeth carece apenas de costureiro (a) mais sensato.

Também é Governadora Suprema da Igreja da Inglaterra e, em alguns de seus reinos, possui ainda o título de Defensora da Fé. Ao ascender ao trono em 6.2.1952, Isabel tornou-se Chefe da Comunidade Britânica e rainha de sete países independentes: Canadá, Austrália, Reino Unido, Nova Zelândia, África do Sul, Paquistão e Ceilão. Entre 1956 e 1992 o número de reinos variou porque certos territórios ganharam independência e outros tornaram-se repúblicas. Atualmente, além dos quatro primeiros estados mencionados, Isabel é rainha de 15 estados:  Jamaica, Barbados, Bahamas, Granada, Papua-Nova Guiné, Ilhas Salomão, Tuvalu, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Belize, Antígua e Barbuda e São Cristóvão e Nevis. É mole?

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
O Reino Unido entrou na Segunda Guerra Mundial em setembro de 1939. Durante a guerra, Londres foi alvo frequente de bombardeios aéreos e muitas crianças londrinas foram evacuadas. Contudo, levar as duas princesas para o Canadá, foi rejeitado pela rainha: "As crianças não vão sem mim. Eu não vou partir sem o Rei. E o Rei nunca partirá". 

WINSTON CHURCHILL era uma figura frequente em Palácio. A futura Rainha ouviu o relato que o notável primeiro-ministro fez do torpedeamento de um navio cargueiro australiano por submarino alemão, na costa africana:

- Foi lamentável! Do navio restou apenas uma porta com as minhas iniciais!

CASAMENTO
Isabel encontrou o príncipe Filipe da Grécia e Dinamarca, seu futuro marido, em 1934 e depois em 1937. Primos em segundo grau, depois de mais um encontro em julho de 1939 no Real Colégio Naval de Dartmouth, Isabel – então com treze anos de idade – e Filipe, passaram a trocar cartas. Noivaram em 9.7.1947.

O casamento não ocorreu sem contratempos: Filipe era um estrangeiro pelado (apesar de cidadão britânico que havia servido na Marinha Real durante a Segunda Guerra Mundial) e tinha irmãs casadas com nobres alemães e ligações nazistas.  Algumas biografias posteriores da mãe de Isabel relatam que ela inicialmente era contra a união. Chamava Filipe de O Huno. Porém, mais tarde contou ao biógrafo Tim Heald que o príncipe era um cavalheiro inglês.

Antes do casamento, Filipe renunciou a seus títulos gregos e dinamarqueses, converteu-se da ortodoxia grega para o anglicanismo e adotou o estilo Tenente Filipe Mountbatten, tomando o sobrenome da família britânica da mãe.]Pouco antes do casamento, tornou-se Duque de Edimburgo e recebeu tratamento de Sua Alteza Real. Isabel e Filipe se casaram na Abadia de Westminster em 20.11.1947.

Foi durante a II Guerra que a jovem futura Rainha apareceu para o mundo. Ela ainda pilotaria pesados veículos para transporte de feridos e doentes. Aproveitava tais ocasiões para visitar soldados feridos. Numa dessas ocasiões, adentra barraca ocupada por 8 soldados: 7 deitados barriga para baixo e 1 deitado barriga para cima. Curiosa, aproxima-se e faz as mesmas perguntas a cada um deles. Inicia por aqueles com a barriga para baixo:

- Por que razão está aqui, soldado?

- Estou aqui para tratar hemorroidas, princesa.

- Como é o tratamento?

- O doutor vem todo o dia e faz uma limpeza com escovinha embebida em azul de metileno no... na região.

-E qual é seu maior desejo?

- É ficar curado para servir a Vossa Majestade!

As respostas foram as mesmas em todos as sete macas. Chega, enfim ao último soldado, este deitado de barriga para cima:

- Por que razão está aqui, soldado?

- Estou aqui para tratar amigdalite, princesa.

=E, como é o tratamento?

- O doutor vem todo dia e faz uma embrocação na garganta com escovinha embebida em azul de metileno.

-E qual é seu maior desejo?

-É ter uma escovinha só para mim!

 (Cont)

Por Henrique Packter 28/09/2021 - 08:30 Atualizado em 28/09/2021 - 08:32

Há 3 anos, em 25.8.2018 morria em Criciúma o ORTOPEDISTA E TRAUMATOLOGISTA JOÃO APARECIDO KANTOVITZ.

A cidade acordou naquele dia com a notícia da morte do profissional médico que serviu a cidade e o Estado por mais de 50 anos. JOÃO nasceu em Rio Claro, SP, em 23.11.1937. Chegou a Criciúma em 1965, praticamente na mesma data da chegada de Boris. Era homem de muitos instrumentos. Médico, granjeou respeito de todos através de sua arte na profissão. Operou atletas de toda as partes sempre buscando o melhor para seus pacientes. Músico, participou da Turma da Seresta que se exibia especialmente nas rádios da cidade. Jovem, foi hábil jogador de futebol. Devo a ele a recuperação de minha saúde, vítima que fui em 2006 de acidente automobilístico na parte não duplicada da BR101, localidade de Bentos, na Laguna.

Casado com Elohá, João deixou dois filhos, Paulo César de Jesus e Júlio César, além de uma neta. 

AINDA ALEXANDRE HERCULANO DE FREITAS 

Quando ALEXANDRE HERCULANO DE FREITAS, um dos primeiros odontólogos de Criciúma faleceu no Hospital da Laguna, por trauma crâneoencefálico produzido por acidente rodoviário próximo a Imbituba, quase no mesmo local em que viria a morrer muitos anos depois DIOMÍCIO FREITAS, trabalhava em Criciúma nosso primeiro Ortopedista, OTÁVIO ROBERTO CARNEIRO RILA, hoje aposentado e residindo em Florianópolis.

Após o óbito de Alexandre, ocorrido depois de uma noite de cuidados meus e de RILA, assistidos de tempos em tempos por PAULO CARNEIRO, dos maiores médicos que a Laguna e o Estado já abrigaram, retornei à Praia do Mar Grosso.  ALEXANDRE morreria em 1963 quando os ventos políticos sopravam forte. Na orla, nem tanto. Domingo, dia de sua morte, algumas poucas horas após o amanhecer, um monomotor aterrissara na praia trazendo DAVID LUIZ BOIANOVSKY e NELSON VENTURELLA ASPESI, este neurocirurgião em Porto Alegre. BOIANOVSKY fora buscá-lo diante da gravidade das lesões cerebrais que ALEXANDRE HERCULANO sofrera e das quais morreria na mesa de cirurgia do Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus dos Passos da Laguna.

Eu estava formado há 3 anos e já contabilizava perdas consideráveis pelas mortes de familiares e amigos. A vida é breve, a ocasião fugaz, a experiência é vacilante e o julgamento é difícil, já dissera Hipócrates, mestre de um amanhã que nunca chega. Nossa vida se orienta por uma antevisão do futuro e um retrospecto das tradições.

Uma espécie de folhagem, espojando-se na água mal amanhecida do céu recém-lavado, trazida por uma onda mais forte acomodou-se entre as pedras e a areia. Leve aragem, canção do vento aprisionado, varava as folhagens. Mão em pala protegendo os olhos, mirava o sol longínquo, o sol surgente. Recuando para um dia perdido na memória, relembrava miúdas aventuras do dia-a-dia morno e cinza. Já nuvens pretas, carregadas, corriam do sul, velozes e túrgidas, encobrindo sumidouras estrelas arredias e a pálida lua. Mas, lá em cima, sol pleno se anunciava.

Foi isso que escrevi naquele mesmo dia ao chegar em Criciúma.

MANSO DE CANGA

Boris e eu atendíamos um paciente em nosso antigo consultório no HSJ, ele mal chegado de Santa Maria. Eram muitos os clientes da serra catarinense que nos procuravam, especialmente de Bom Jardim e de São Joaquim. Era de ver com que destemor os habitantes da serra, às vezes com tempo cachorro (como diziam), desciam por leito da estrada coalhado de imensas pedras que jorravam a miúde das alturas. Cachoeiras repentinas despejavam suas águas diretamente sobre os veículos. O concreto viria bem mais tarde, com Espiridião Amin.

Quando seu Eleutério entrou na sala de exames, logo sentimos o drama. Era alto, imenso. As roupas que usava para proteção contra o frio e chuva faziam-no maior ainda.

-Buenas!

- Buenas, seu Eleutério!

Depois das perguntas iniciais sobre sua saúde e antecedentes mórbidos, trocas de gentilezas, informações sobre quem nos recomendara, estado de saúde de conhecidos e colegas, a inevitável pergunta sobre o Frescal joaquinense no espeto, do Viterbo e de seu fiel assador, seu Nascimento. Aí, então, começava o exame. Mas, não sem antes uma indagação:

- Ainda que mal pergunte que coisa o senhor anda fazendo aqui em Criciúma, com esse tempo?

Quem já foi a Oftalmologista lembra daquele equipamento em que o paciente apoia queixo e encosta a testa tendo a visão deslumbrada por forte facho de luz. É a lâmpada de fenda, valioso instrumento para exame biomicroscópico do olho. Não havia jeito de seu Eleutério acomodar-se na máquina, como ele dizia. Boris ao ver a dificuldade toda correu a auxiliar. Debalde, o tamanho do cliente era obstáculo e tanto. Depois de bom tempo e de tentativas sem conta, fronte suada, seu Luiz admitiu:

- Os doutores me desculpem, mas é que não sou muito manso de canga...  

(CONTINUA BORIS PAKTER PRÓXIMA SEMANA)

Por Henrique Packter 22/09/2021 - 08:00

O médico MAURÍCIO FERNANDO PEREGRINO DA SILVA, nasceu no RJ cidade onde fez todos os seus estudos. Colou grau em Medicina pela atual UniRio em 1968. Há uma diferença a favor de Boris de dois anos falando-se de iniciar a vida profissional, Boris em Criciúma, Maurício em Orleans.  Especializado  em Clínica Médica, atuando também em Cirurgia Geral, Maurício, no antigo INPS foi aprovado em concurso público como obstetra. Realizou mais de mil e duzentos partos. Trabalhou inicialmente em Orleans cidade onde EMIR BORTOLUZZI DE SOUZA era o único médico.

O distrito de Orleans do Sul, criado em 2.10.1888 englobava a área de mineração requerida pelo do Visconde de Barbacena e Pindotiba, na época denominada Raposa, a rigor a primeira região habitada.

Resultado de trabalho das lideranças locais e políticos de Tubarão, liderados pelo Deputado Acácio Moreira, foi criado o município em 30.8.1913. Era composto dos distritos da Sede, Lauro Müller, Grão-Pará e Palmeiras. A grafia do nome do município passou a Orleans e Distrito de Palmeiras para Pindotiba. Em 1970, voltou a grafia original de Orleans. O Distrito de Lauro Müller foi emancipado em 5.10.56, Grão-Pará em 21.6.58 e finalmente uma parte de São Ludgero transformada em município em 14.6.63.

BORIS ATENDE EM ORLEANS

Boris era amigo de Emir e dele recebeu convite para trabalhar em Orleans uma vez por semana, no Hospital Santa Otília.  Lá ia ele toda quarta feira atender a população da região. Este atendimento facilitava a vida dos orleanenses no sentido de não afastá-los para a cidade grande, afastando-os da lavoura, tão necessitada destes braços. 

A 4.10.1938 nascia o hospital de Orleans. Após exame e parecer da comissão técnica, passou a diretoria a denominá-lo HOSPITAL MUNICIPAL HENRIQUE LAGE, pela colaboração prestada pelo político que era o dono na Empresa Mineradora Carvoeira de Lauro Muller. A homenagem também se devia pela participação ativa desde o início da obra dos engenheiros da referida Empresa Reinardo Schmithausen, Walter Weterli, Marcio Machado Portela, Wilson Gonçalves e Nestor Gigueira.

O hospital inicia seu funcionamento com os médicos José de Lerner Rodrigues e Antônio Dib Mussi. A inauguração somente ocorreu em 15.01.1939. Foi nesse dia, segundo boatos, que, ao visitar as obras da ponte sobre o Rio Tubarão, na chegada de Urussanga, o Interventor Nereu Ramos, tomou conhecimento do nome já escolhido para o hospital. Não gostou e perguntou pelo nome da padroeira do município.

Ao discursar disse: "Estamos aqui em Orleans para visitar as obras desta ponte e também estaremos inaugurando o Hospital Municipal Santa Otília, cujo nome é dado em homenagem a Santa Padroeira desta paróquia." Mais que depressa o Prefeito José Antunes Matos determinou aos fiscais da prefeitura Hugo Claumann e Gastão Cordini que fossem rapidamente ao hospital e retirassem a placa com o nome Henrique Lage. (Orleans 2000 - História e Desenvolvimento. Jucely Lottin. Pág. 167.1998).

Mais tarde, Maurício muda para Criciúma onde trabalhou por doze anos, cinco horas por dia no Pronto Socorro do Hospital São João Batista. É cidadão honorário de Criciúma e Juiz no Tribunal Arbitral de Criciúma, onde atua em processos médicos. Arranjou tempo para escreveu Verdades e Mentiras Sobre Médicos (2001), seu primeiro livro.

No Verdades e Mentiras Sobre Doenças há dois capítulos que chamam atenção. O primeiro Boca, Faringe, Traqueia, Esôfago, Laringe (pág. 136) e o segundo Sinusite (pág. 186). São dois artigos que têm tudo a ver com a especialidade que Boris exercia em Criciúma e me fizeram lembrar de episódios vivenciados por nós. Maurício Peregrino faz uma pesquisa primorosa dos assuntos que aborda.

Ensina o que é faringe. Você já teve faringite? Pois é a inflamação da faringe, que é o que você vê quando abre a boca e enxerga lá no fundo aquele tecido avermelhado (orofaringe), ensina Maurício. Pra cima há uma cavidade que na verdade constitui os fundos das narinas, território onde estão as adenoides, responsáveis por aquela ronqueira das crianças (rinofaringe). Mais pra baixo está o laringe (laringofaringe), órgão da voz. Laringe e rinofaringe só são vistos com equipamentos. O laringe tem dois canais um conectado com o estômago e o outro ligado ao pulmão. O faringe tem uma válvula (glote) que impede aos alimentos sólidos ou líquidos cair na árvore respiratória, via traqueia. Por este mecanismo alimentos e líquidos são remetidos para a via digestiva, o esôfago.

Chegando ar na faringe a válvula tapa o esôfago e o ar entra na traqueia e brônquios. Quer dizer, o tubo da frente é para passagem do ar, para a respiração e o tubo de trás é para a alimentação. Traqueia na frente, esôfago atrás. Maurício adverte para nunca dar de beber a pessoa inconsciente. O mecanismo de válvula estando inoperante você pode matar por sufocação essa pessoa que vai receber o líquido na traqueia!

A DESCONTRUÇÃO DO SER HUMANO

Maurício acha que estamos mal construídos. Deveríamos sim, ter a boca no lugar do nariz e vice-versa. Desta forma, o ar da respiração, entrando pelo nariz (abaixo, no lugar da boca), cairia direitinho no primeiro tubo (da respiração) e o alimento, entrando pela boca, mais acima, cairia no tubo de traz evitando problemas de trânsito e a pessoa inconsciente poderia receber água para beber, sem risco de sufocação.

Também já se poderia acrescentar a essa alteração pelo menos colocar mais um olho, na nuca, talvez também aumentar o número de braços, com inegáveis vantagens para o PIB do país.

Esta interessante notícia do Maurício traz-me à lembrança uma outra, de Ruy Castro. Ele leu em algum local que cientistas japoneses estariam criando rãs sem cabeça. A nota acrescentava que o processo poderia ser estendido aos humanos. Todos nós entendemos a vantagem de criar rãs sem cabeça: o intelecto não é uma das maiores características das rãs. Pensar na economia de tempo para os restaurantes que aproveitam delas apenas as pernas, e à milanesa. Mas, para que criar seres humanos sem cabeça? Já existe por aí milhões de criaturas para quem ela não serve pra nada, exceto usar um boné ao contrário.

Humanos sem cabeça parece que serviriam apenas como doadores de órgãos. É de pensar, que indivíduos destituídos de cabeça estariam condenados a nunca participar de magnas comemorações como ver o Internacional sagrar-se campeão brasileiro algo que vai ocorrer inda agora, com Aguirre, neste ano. Também estarão condenados a jamais ver a Juliana Paes desfilando na Mangueira.  

Maurício discorre com o mesmo brilho quando fala sobre sinusite. Sinusite era e ainda é sinônimo de dor de cabeça. Pessoas vinham já com diagnóstico mais ou menos elaborado, graças às vizinhas, comadres, farmacêuticos. Avultavam os diagnósticos de calor de figo, entidade abrangente englobando todos os problemas digestivos e mais algumas mazelas esotéricas.

Tinha o mal da terra, a espinhela caída, a dor no vazio, a ideia fraca,  chia, senozite, xaqueca, a papeira, a doença do gato (pela sua forma de transmissão), a barriga d’água, desarranjo, quebranto (mau olhado), algueiro, campainha caída, febre cesão, difruço, dor nas cadeiras, dor no espinhaço, estombo, dor nos quarto, dordói, empachado, estopor, fastio, gastura, impinge, enquizila, morroidia, nó nas tripa, quarto arriado, pereba, tirissa, vazamento, esquentamento, cobreiro, intupido, andaço, quebradeira.

Maurício ensina que sinusite passou a ser sinônimo de dor de cabeça. Radiografias se sucediam, ora para diagnóstico, ora para ver como estava a situação. Certos ossos do crâneo são dotados de cavidade, conhecida como SEIO. Sinusite é uma inflamação da mucosa, pele fina que reveste essas cavidades, esses SEIOS. Temos essa pelezinha em muitos locais do corpo. Por isso, mucosa gástrica, intestinal, bucal...     

Daí sinusite frontal, maxilar, esfenoidal dependendo do seio afetado. Podemos também ter uma pansinusite, no caso de todos os seios estarem inflamados/infectados a um tempo.  A dor da sinusite piora quando se apanha sol ou quando a gente se abaixa.  Com grande propriedade, Maurício encerra o capítulo aconselhando que se você sofre de dor de cabeça constante ou episódica vá ao médico. Obtenha dele diagnóstico de certeza garantindo que você tem mesmo sinusite. Obtido o diagnóstico, trate a doença, até certificar-se de que está mesmo curado. A cura não assegura imunidade e a sinusite pode voltar a qualquer momento, após uma gripe ou um simples resfriado. Cuide-se.

O livro de Maurício Peregrino, na sua simplicidade, engenhosidade e grande trabalho de pesquisa – didático e esclarecedor - é daqueles que é bom ter nas mãos para eventual consulta.

HISTÓRIAS COM BORIS

O jornalista Luiz Antônio Soares, dotado de permanente inquietação profissional, já escreveu que povo sem história é povo sem alma. Vai às últimas consequências quando se trata de advogar princípios, valores, convicções -, segundo Moacir Pereira que ainda acrescenta: é um jornalista competente punido em sua própria terra pela inveja dos medíocres.

Pois, Soares escreveu e publicou livro no qual conta dois episódios também vivenciados por Boris. Levei meu irmão a Laguna para conhecer Paulo Carneiro, um dos monstros sagrados da Medicina e da Política catarinense em todos os tempos. Voltou da velha Laguna, e não podia ser diferente, impressionadíssimo. O próprio Paulo contou-lhe a história do talho, envolvendo modesto pescador artesanal que o procurou após muitos anos de ausência.

- Meu filho, que feridas feias em tuas pernas! Quem foi o açougueiro que te tratou?

O pescador acusava médico de outra paróquia para onde se mudara havia muitos anos. Também aproveitou para reclamar dos remédios que não adiantavam de nada e das pomadas que aliviavam a comichão e não as pustemas.

Paulo Carneiro enquanto examina o pescador recrimina a inabilidade e a falta de conhecimento do outro médico. Um carniceiro, disse.

- E esse talho aqui, meu Deus?

- Isso, foi aquela operação du apêndice qui u sinhô dotô feis daquela veis, não si lembra?

- Claro, pelo menos este está bem feito!  

BORIS continua próxima semana...

Por Henrique Packter 17/09/2021 - 13:14 Atualizado em 17/09/2021 - 13:16

Boris chegara pouco antes a Criciúma e logo fazia história corrigindo cirurgicamente lábios leporinos e fissuras palatinas, sendo o primeiro em nosso meio a realizá-las. Boris foi também o primeiro a usar microscópio em cirurgias de ouvido no sul catarinense.

Desde sua chegada, determinado segmento populacional teve dificuldade em assimilar seu nome. De modo geral era chamado de Dr. Borges. Com o tempo, passou a ser conhecido e reconhecido no sul catarinense. Entre outras coisas, participou, organizou e presidiu de 30.10.1970 a 02.11.1970, a 1° Jornada Catarinense de ORL e Broncoesofagologia em conjunto com 1° Jornada Catarinense de Pediatria, cujo Presidente foi David Boianowski.  Esses acontecimentos médicos foram realizados em Criciúma. Na Jornada de ORL participaram, ministrando cursos, os professores Rudolf Lang (PUC/RS), Ivo Kuhl (URGS), Israel Schermann (URGS), Nicanor Letti (Anatomia de ouvido na URGS) e Reinaldo Coser (UFSM). Os profissionais da área em nossa região sabem de quem falo quando enuncio estes nomes, monstros sagrados da especialidade, no Brasil da época.

Boris presidiu (1971/1973), o departamento ORL e Broncoesofagologia da Associação Catarinense de Medicina.

Em programa de rádio sobre Medicina, Boris entrevistava médicos da cidade, na década de 70 (Drs. Luiz Fernando da Fonseca Girão, Sergio Alice, João Kantovitz, Everaldo Sabatini ...). Este programa pioneiro era semanalmente transmitido pela Rádio Eldorado.

A FORMATURA DE BORIS EM 1965, SANTA MARIA,RS.

Era verão e verão tórrido em Santa Maria, cidade que sabia ser quente, como quase nenhuma. A cerimônia de colação de grau seria no Cine Glória. Fui à cerimônia com meus pais mais a parentada e amigos da família. Frida esperava nosso terceiro filho, Bruno e ficou na residência de meus pais, na Rua do Acampamento O cinema lotado, gente que não acabava mais procurando entrar, frente ao cinema. Havia um local, próximo à bilheteria, vazio de pessoas exceto por um fumante, homem alto ar de desânimo, exatamente no centro do vazio. Aproximei-me para reconhecer Paulo Devanier Lauda, formado em Medicina (1954, Curitiba), ano do meu ingresso, lá mesmo, no Curso Médico. Lauda foi o orador da Turma 1954 e não menos que brilhante. Tinha um irmão mais jovem, Jorge Derly Lauda, anestesista, também formado em Curitiba. Paulo foi Vice-presidente da UNE e presidente do Diretório Nilo Cairo dos estudantes de Medicina. Quando ingressei, a Faculdade estava em reforma. Fizemos o exame vestibular em meio a poeira, barulheira, imprecações de operários e nossas, para indignação das colegas.

O discurso do orador de Turma carecia ser aprovado pelo Reitor e Lauda submetera o seu a esse procedimento obrigatório. No palco do Cine Ópera, avenida João Pessoa de Curitiba, a cidade toda lotando o cinema, Lauda tira o discurso do bolso interno do paletó. Entre seus colegas formandos, Antonio Osny Preuss (depois professor de Ortopedia), Cid Gomes (de Florianópolis e irmão de minha colega Elia Gomes), Felix do Rego Almeida (especialista em cirurgia da mão), Jayme Benjamim Guelmann (herdeiro da indústria de móveis e criador do curso pré-vestibular), João Eduardo Oliveira Irion (radiologista em Santa Maria), Lauro de Castro Beltrão (professor de anatomia), Lourenço Cianci Filho (médico em Criciúma, construiu o Hospital São João Batista), Octávio Augusto da Silveira (filho de nosso professor de Neurologia, natural de Tupanciretan), Paulo Franco de Oliveira (cardiologista).

Prestes a iniciar a leitura do discurso, Lauda volta a guardá-lo no bolso e falou sem auxílio do documento escrito.  Felicitou o Reitor Flávio Suplicy Lacerda, que compunha a mesa das autoridades, pelos esforços que sua gestão fizera para embelezar a Praça Santos Andrade, situada em frente ao prédio da Reitoria (!). Incitou-o a fazer o mesmo com o interior da faculdade, dotando-a de equipamentos de cuja ausência tanto nos ressentíamos.

Suplicy era ladino e saiu-se bem. Já fora jovem, disse no seu discurso. Entendia desses arroubos juvenis. Mas, aquele não era nem o momento nem o local apropriado para críticas. O momento era de celebração. Dos felizes pais presenciarem o coroamento dos esforços de tantos anos. Suplicy sabia das coisas.

Paulo era Dermatologista e foi professor universitário.

PRÓXIMA SEMANA:  CONTINUA BORIS PAKTER...

Por Henrique Packter 13/09/2021 - 08:02 Atualizado em 13/09/2021 - 08:03

BORIS chegou a Criciúma dias após o falecimento do médico JOSÉ (JUCA) TARQUÍNIO BALSINI, nascido a 7.9.1905 em Joinville, filho de Tarquínio e Lúcia Moro Balsini. Casado com Carmem Mattos Balsini, JUCA foi pai de três filhos: o engenheiro Claudio (casado com Vera Regina Kastrup), o advogado Clóvis (casado com Maria Helena Luz) e Sônia (casada com o advogado tubaronense Adhemar Paladini Ghisi, muitas vezes deputado federal por SC, depois Ministro e Presidente do Tribunal de Contas da União). Clovis e Adhemar são falecidos.

BALSINI, cidadão honorário de Criciúma em 11.9.1961, foi diretor-clínico do HSJ, da sua criação em 1936 até 13.2.1966, data de seu falecimento.

1965 é a data de formatura de BORIS, na Faculdade Federal de Medicina de Santa Maria. Esta faculdade federal também formou Júlio Manfredini, Portiuncola Caesar Augustus Gorini, a anestesista Mari Sandra de Brito Petry e Gervani Bittencourt Bueno, diretor da CRIOX, Medicina Hiperbárica e Tratamento de Feridas. Martinho Ghizzo, de Araranguá, também lá se formou, entre outros.
BALSINI era médico dotado de raro senso prático e operava com rara habilidade. Na minha chegada à cidade (1960), DIFTERIA grassava na região, colhendo elevado tributo em vidas, mormente de crianças. Balsini ensinava: há dois tipos de difteria a branca e a azul. Na azul, a criança está morrendo por asfixia. Dê soro e faça uma traqueostomia. Na branca, a criança está profundamente  intoxicada, em toxemia, não adianta fazer nada.

Chegando OLAVO DE ASSIS SARTORI, a cidade se resumia a casario de pé direito insignificante, espremida entre a Estação de Estrada de Ferro (onde está o Buraco do Prefeito), e o HSJ. Do lado de lá dos trilhos havia o Cemitério, onde hoje está o SUPERMERCADO BISTEK, e, pouca coisa mais. Chegando Sartori, Balsini dividiu a cidade quase salomonicamente em duas freguesias: os chamados para atendimento médico pra lá dos trilhos, eram de Sartori, os restantes, eram de Balsini...

Coube a Balsini operar de apendicite o magérrimo Raimundo Jorge Peres. Convalescente, Peres decide descansar alguns dias em Uberaba, MG, sua cidade natal. Foi e voltou acompanhado do irmão gêmeo de quem ninguém suspeitava a existência. Mas, o irmão, ao contrário de Peres, era gordíssimo. Resolvem divertir-se às custas de Balsini que costumava gaguejar quando colocado em situação embaraçosa. Pois foi o que aconteceu quando Balsini vê entrar em seu consultório no HSJ um estranhíssimo personagem, que a exemplo do antes obeso Roberto Jefferson, só viajava de avião se adquirisse duas passagens, dois assentos contíguos.

- Me-eu Deus! C-a-a-alma... Devagar, s-s-senta aí, Peres...

JOSÉ BALSINI, contemporâneo de Sílvio Ferraro, primeiro médico em Criciúma, fumava e teve câncer de pulmão, operado em SP pelo Prof. Euríclides de Jesus Zerbini em 1965. Procurou-me em 22.10.1965, meses após a cirurgia queixando-se de vermelhidão e dor no olho direito. Dona Carmem telefonou previamente, alertando-me a respeito do comportamento de Balsini diante das suas doenças. Quando da operação do pulmão em São Paulo, na Beneficência Portuguesa, Zerbini, mesmo sem ainda ter botado os olhos no exame anatomopatológico já sabia que estava diante de um tumor maligno de pulmão em estágio avançado. Foi advertido por familiares de Balsini para nada revelar ao paciente que já ameaçara jogar-se do 10º andar do prédio caso seus temores a respeito da natureza da doença se concretizassem.

Melhorando, ainda internado em São Paulo, Balsini ganha autorização para andar ao longo do corredor do andar onde estava hospitalizado. A ideia não foi das melhores. Caminhando com a lentidão exigida por seu estado de saúde, passa pelo Posto de Enfermagem e apanha seu prontuário. Nele, está apenso o laudo do Patologista que não deixava qualquer dúvida: era câncer de pulmão.

Balsini desespera-se e Zerbini é chamado:

- De jeito nenhum Balsini! Eu fiz tua cirurgia, tirei teu pulmão e sei que o que tinhas era, talvez, antigo processo pulmonar, talvez uma tuberculose ou pneumonia mal curada. Este laudo não tem nada a ver! Vou imediatamente saber a que se deve esta troca infeliz.

Assim, Balsini, cirurgião experiente e competente deixou-se ludibriar porque isto é da natureza humana. Nós simplesmente não queremos ter doenças graves e aceitamos estas bondades obsequiosas dos nossos médicos.

Juca Balsini vem ao meu consultório:

- Henrique, imagina que na Beneficência Portuguesa, talvez o maior hospital brasileiro e da América Latina cometeram este engano comigo. Na Beneficência Portuguesa! Nós aqui, estamos de antemão absolvidos de qualquer engano que venhamos a cometer!

Examinei-o. Tinha extensa metástase ocular ocupando quase todo o olho, a partir de sua metade inferior. Na amígdala esquerda também havia metástase.

Balsini perguntou minha opinião sobre consultar o grande Oftalmologista HILTON ROCHA em Belo Horizonte. Aprovei a ideia. Afinal, eu tinha menos de cinco anos de prática médica na cidade e não queria ficar conhecido ad eternum como o doutor que removera o olho do mais célebre médico da região. A única coisa a fazer era a remoção do olho e da amígdala e isso, com resultados extremamente duvidosos. Balsini retornou de BH antes do Natal. Fizera fotocoagulação ocular com Hilton Rocha e irradiação da amígdala mais antiblásticos em SP. Mas, as dores oculares eram insuportáveis por Glaucoma agudo, devido ao tumor metastático intraocular. Fiel ao meu pensamento expresso logo ali acima, fui a Torres no RS, onde veraneava o Prof. ALFREDO SCHERMANN, tio de Paulete, futura esposa de Boris. Coube a ele vir a Criciúma e remover o olho direito de Balsini que faleceu em 1966 aos 60 anos.

Por Henrique Packter 08/09/2021 - 08:55 Atualizado em 08/09/2021 - 08:56

Casado com Paulete Canter, tiveram três filhos: Ernane, Marcelo e Renato. Marcelo é analista do Banco Central do Brasil. Renato é professor no Instituto de Física da URGS, RS. Paulete é sobrinha de dois monstros-sagrados da Medicina gaúcha: Alfredo (Oftalmologista) e Israel Schermann (ORL), ambos já falecidos. (Uma das teses de doutorado de Renato: Efeitos de raios de Larmor finitos nas instabilidades por temperatura iônica anisotrópica em plasmas inomogêneos de alto beta !). O Físico criciumense Renato Pakter é casado com a Oftalmologista gaúcha Helena Messinger, aprovada em primeiro lugar (16.11.2017) no concurso para provimento de cargo na carreira de magistério superior da UFRGS. Desde março de 2008 o serviço de oftalmologia iniciou o programa de residência médica.

No Serviço de Oftalmologia  do HNS da CONCEIÇÃO a Dra. Helena Messinger Pakter é coordenadora de Oftalmologia e Preceptora do Setor de Glaucoma.

ISRAEL E ALFREDO SCHERMANN

Médico havia mais de seis décadas, Israel Schermann nasceu em Santa Maria (1920) e morreu em agosto de 2010 aos 90 anos, em POA. Filho de imigrantes judeus russos, graduou-se em Medicina pela Universidade Federal do RS (UFRGS-POA) em 1944. Clinicou por alguns anos no interior do RS, retornando à capital em 1950. Fui por ele amigdalectomizado em 1965.

Otorrinolaringologista, especializado em Buenos Aires e Montevidéu, foi professor e chefe do Departamento de Otorrinolaringologia da UFRGS, onde se aposentou. Positiva unanimidade  nos quesitos caráter, competência e respeito às pessoas, era estimado por todos.  Flora (casamento de 56 anos), duas filhas e quatro netos, sobreviveram a Israel. Já aposentado, era dado a comentários jocosos, alguns referindo-se a ele mesmo. Tinha o hábito de levantar cedo. Dizia: acordava cedo para ficar mais tempo sem fazer nada... Ou: se o sol não vier até 11 horas levanto no escuro mesmo.

Alfredo Schermann, primeiro oftalmologista do Hospital Banco de Olhos de POA, fundado por Lydia Moschetti, em 22.3.1956 e doado à Congregação das Irmãs Filhas do Sagrado Coração de Jesus, em 14.9.1957. Com endereço na Rua Pinheiro Machado, 148, Moinhos de Vento, POA, construção acanhada, não atendia às suas necessidades, tornando-se urgente construir nova sede.  Eram três quartos para atendimento de pacientes, inexistindo centro cirúrgico.

Lídia Moschetti, doou-o à Congregação, solicitando de imediato ao Prefeito Leonel de Moura Brizola, a concessão de terreno para que fosse construída a Clínica do Banco de Olhos. Brizola prometeu auxiliá-la.

Em 1958 chegam vários subsídios para construção e manutenção da obra.

Em abril de 1960, Madre Nicolina Corvata recebeu de Aloisio Brixner e outro, doação de terreno em POA, bairro Vila Ipiranga.

Assentada a pedra fundamental da futura Clínica Oftalmológica do Banco de Olhos (02.7.1960), somente em junho de 1962 se inicia a construção do novo prédio. Obra em andamento, Lydia Moschetti envia Alfredo Schermann a Nova Iorque para aprender a arte do Transplante de Córnea com o célebre catalão Ramón Castroviejo.

Ao lado das Irmãs Filhas do Sagrado Coração de Jesus, Lydia Moschetti, sempre ardorosa, e empreendedora,  graças a doações, em 14.9.1970 inaugurou solenemente o novo prédio do Hospital Banco de Olhos de POA.

Talvez o maior nome no mundo em Transplantes de Córnea nesta época, o catalão Ramón Castroviejo doutorou-se em Medicina na Universidade de Madrid. Lá trabalha 4 anos, transferindo-se para lecionar em Chicago, abrindo depois sua própria clínica. Trabalhou ainda na Clínica Mayo.

Naturalizou-se estadunidense em 1936. Já trabalhava na Universidade, onde permaneceu até 1952. Nesse mesmo ano, nomeado catedrático na Universidade de Nova York, lá permanece até aposentar-se em 1975. Nessa Universidade Alfredo Schermann trabalhou com Castroviejo.

LEGADO DE RAMÓN CASTROVIEJO
 
Precursor na Espanha dos bancos de olhos, suas contribuições no campo dos transplantes, asseguraram a ele, fama universal.
O primeiro transplante de córnea tecnicamente bem sucedido é de 1905, por Edward Zirm, e se manteve claro por mais de 1 ano. O transplante penetrante de córnea, dependendo da patologia prévia, apresenta 90% de chance de se manter transparente. O Serviço de Oftalmologia da Santa Casa de POA (ISCMPA) realiza transplantes de córnea desde 1938. Doações de córnea tornaram-se mais frequentes a partir do início da década de 90, motivadas pela Central de Transplantes do RS, responsável pela captação e distribuição de órgãos doados no estado.

 RECONHECIMENTO

Quando escrevi sobre o pneumologista criciumense CELSO MENEZES, coloquei que, na sua avaliação, meu irmão BORIS PAKTER (formado em1966, UFMSM), JOSÉ DARCI SILVESTRE (1974, PUC-POA) e eu, constituímos o primeiro grupo médico a trabalhar dentro do conceito de Clínica, no sul do estado. Trabalhávamos no mesmo consultório no HSJ, mal desconfiando de nosso pioneirismo laboral regional conjunto. Nosso primo DAVID GROISMAN RASKIN, hoje Oftalmologista em Campinas, também juntou-se a nós.

O QUE BORIS FEZ PELA REGIÃO

Boris nascido a 3.9.1941 em Santa Maria, RS, fez toda sua formação lá mesmo. Estudou no Colégio Marista e na FMUFSM, formando-se em 1966. Em 1967 já estava em Criciúma. Logo se fez notar pela habilidade na remoção de corpos estranhos bronco-esofágicos, área até então desassistida, sem nenhum profissional a atendê-la em todo sul de SC.

Pendurou num quadro, logo à entrada da clínica, objetos aspirados e por ele retirados laboriosamente com aparelho de Chevalier-Jackson. Da maior importância foi esta contribuição trazida por Boris. Aprendi com ele a manipular o instrumento para remoção de corpos estranhos de brônquios e esôfago. Em troca ensinei a ele o que sabia de Oftalmologia.

Na próxima semana: de como Alfredo Schermann veio a Criciúma operar José Tarquínio Balsini;  continua BORIS PAKTER, primeiro broncoesofagologista em Criciúma.

Por Henrique Packter 02/09/2021 - 11:37 Atualizado em 02/09/2021 - 11:40

Uma questão de nomes próprios

Observando os nomes lá em cima, parece que um engano foi cometido: afinal é Pakter ou Packter?

Como acontecia com regular frequência na época, os assoberbados cartórios de então cometiam equívocos que acompanhavam as pessoas pela vida. Na verdade, o sobrenome do escriba e seus descendentes é que padece de erro. Paciência, há coisas piores. Por muitos anos atendi pacientes em Criciúma com nomes bizarros, inacreditáveis. Havia um Satírio Venéreo que residia lá pelos lados da Próspera. Um outro chamava-se Cetiva qualquer-coisa, sendo Cetiva nome de popular medicamento à base de Vitamina C. Por pouco o Sr. Motes não foi batizado (como era intenção dos felizes e alienados pais) com o nome do absorvente feminino, então, grande novidade.

Foi por obra e arte de algum obscuro cartório santa-mariense, que Boris e eu somos irmãos com sobrenomes diferentes. Já nossa irmã, Dorinha, é Pakter, como os pais e o irmão caçula.

Lembro de nossa meninice, as coisas difíceis, o dinheiro escasso, lá em casa, na Santa Maria da Boca do Monte. Nosso pai lutava como podia para suprir nossas mais notórias e elementares necessidades de sobrevivência. Todos faziam sacrifícios. A roupa de nosso pai por artes estilísticas do prêt-à-porter de mamãe transmudava-se em roupas minhas e finalmente, depois de regular uso, de Boris. Dona Geni, nossa mãe, falava em distribuição irmãmente das roupas paternas.

Por isso, nada a estranhar quando Boris chega a Criciúma em 1967 (eu chegara em 1960) e diante da minha oferta de distribuir irmãmente o produto de nosso trabalho, reagiu:

- Irmãmente coisa nenhuma, cinquenta por cento para cada um!

UMA QUESTÃO DE SOBRENOMES

Thomas Reis Mello, nosso colega no HSJ conhecia um Clerq Kent da Silva, morador de Jacaré, quarto distrito de Torres, RS. Explicava-se o estranho personagem:

- Parece que meu avô morreu disso...

Não poucos problemas nossos sobrenomes nos trouxeram. No vestibular para o Curso de Medicina, permitiram que eu a ele me submetesse, condicionalmente. Na minha certidão os sobrenomes dos pais estavam corretos, mas não o meu.

Fui chamado à secretaria da Faculdade duas vezes, eu acho, até que o problema parece que foi esquecido. Ou sanado, não sei bem.

Na fuga da Inquisição, muitos judeus e muçulmanos que viviam em Portugal e Espanha nos séculos 15 e 16 converteram-se ao catolicismo. Também alteravam seus sobrenomes para coisas da natureza, como Leão, Carneiro e Pinheiro – embora essas nomenclaturas não sejam exclusividade deles. (Fernando Carneiro, Chico Pinheiro e Leão Júnior, aquele do MATTE LEÃO em Curitiba, são nomes bastante suspeitos).

Silva é o sobrenome mais popular no Brasil, mas a maior família com laços consanguíneos é a dos Cavalcanti, de Pernambuco. Por lá, reza a lenda que “ou se é Cavalcanti, ou se é Cavalgado”.

Isso nos leva ao Brasil-Colônia do bispo Sardinha, devorado pelos índios. O sacerdote português, Dom Pedro Fernandes Sardinha, ou Pero Sardinha, (Évora, 1496/Capitania de Pernambuco, 1556), primeiro bispo do Brasil, chegou a Salvador da Bahia em 25.2.1551  aos 55 anos. Sardinha tomou posse em 22.6.1552 e renunciou à função em 2.6. 1556.

A 16.7.1556,  capturado pelos índios caetés no litoral sul de Alagoas —, e, mesmo indicando por acenos que era importante prelado dos portugueses e sacerdote consagrado a Deus, que se vingaria dos excessos cometidos contra ele, foi abatido com uma maça e devorado com seus companheiros.

Dom Pedro Fernandes Sardinha foi sucedido na Sé Primacial do Brasil por Dom Pedro Leitão (1519-1573). Portanto, Pedro Leitão sucedeu a Pedro Sardinha.

Para os índios canibais que viviam na época do Brasil colônia, sobrenome era uma questão de aquisição: eles iam agregando os nomes das pessoas que devoravam! Canibais nasciam com apenas um nome e iam colecionando outros ao longo da vida – a quantidade era motivo de orgulho e semostração.

A família imperial brasileira sempre teve nomes quilométricos, D. Pedro I tinha uma porção. Querem ver? Contem bem: Pedro de Alcântara, Francisco, Antônio, Carlos, Xavier, de Paula, Miguel, Rafael, Joaquim, José, Gonzaga, Pascoal, Cipriano, Serafim. São 14!

Tudo homenagem aos antepassados próximos.  4.280 (CONTINUA).

1 2 3 4 5 6 7 8

Copyright © 2021.
Todos os direitos reservados ao Portal 4oito