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* as opiniões expressas neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do 4oito
Por Dr. Renato Matos 13/07/2020 - 12:43

O tradicional Dicionário Oxford há algum tempo vem escolhendo a ”palavra do ano”. Em 2019 a eleita foi “emergência climática”. O termo teve um aumento de cem vezes na quantidade de usos, saindo de uma "relativa obscuridade para se tornar um dos termos mais proeminentes — e mais debatidos — de 2019”. Este ano não será necessária muita pesquisa – está fácil o para coronavírus. Mas existem outras palavras fundamentais: testes moleculares e sorológicos, isolamento e quarentena. Apesar de não terem impacto a ponto de virarem celebridade de dicionário, são fundamentais para que possamos nos proteger.

Primeiro, e de novo, os testes. O teste para diagnóstico, que diz se você está ou não doente é o PCR. Testes sorológicos, que medem os anticorpos, positivam apenas dias depois. Quando o tempo para que sejam adotadas medidas eficazes de isolamento já passou. 

Isolamento deve ser feito por quem está doente. Quarentena, para quem tem ou teve contato com o doente. 

Não é firula de linguagem. As medidas a serem adotadas são diferentes. E as pessoas não estão se dando conta disso, usam 14 dias como um número que resolve qualquer situação. Estas determinações são as preconizadas pelo Centro de Controle de Doenças Infecciosas dos EUA e pela OMS, publicadas por esta última em 27 de maio passado, substituindo a de 12 de janeiro – as informações mudaram.

Primeiro, isolamento para pacientes sintomáticos: 10 dias após o início dos sintomas, mais PELO MENOS 3 dias adicionais sem sintomas – sem febre (não usando antitérmicos evidentemente) e sem sintomas respiratórios.

Vamos usar o dia 1º de agosto como exemplo, fica mais fácil. Você iniciou com sintomas neste dia - e melhorou em seguida. Terminará seu isolamento – e o risco de contaminar outras pessoas – dia 13. Dez dias após o início dos sintomas, mais os 3 dias de margem de segurança. 

Agora, se os seus sintomas permanecem por 20 dias – mantem períodos febris ou continua tossindo – a conta muda. 20 dias + 3 dias. Você só deverá sair do isolamento no dia 24. 

Evidentemente existem dificuldades para aplicar este critério. Conversando diariamente com pacientes infectados pelo coronavírus, muitas vezes não conseguimos determinar a data precisa do início dos sintomas. “Comecei com febre ontem, mas não estava me sentindo bem, com cefaleia e dores no corpo há alguns dias”. Também o término: “a febre cedeu, mas continuo não me sentindo bem, ainda com tosse”. 

Na dúvida, erre para mais. Ou converse com seu médico/profissional de saúde que está lhe acompanhando. Mas como ter certeza de que não vou contaminar mais ninguém? Dois testes de PCR negativos com intervalo mínimo de 24 horas. No momento, impraticável no nosso meio. 

Amanhã continuamos.

Por Dr. Renato Matos 10/07/2020 - 19:05 Atualizado em 10/07/2020 - 19:16

Talvez seja uma comparação pouco criativa, mas penso que cabe. Há poucos anos vivemos uma intensa polêmica quanto ao direito de os pacientes com câncer terem acesso a fosfoetanolamina, substância desenvolvida a partir do óleo de mamona.

Desenvolvida em fins de 1980, virou polêmica em 2015 quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA - proibiu sua comercialização por falta de qualquer evidência mostrada em estudos clínicos adequados. 

Seguiu-se uma intensa cobertura jornalística e discussão pública, que culminou com a assinatura pela presidente (a) Dilma Rousseff, em março de 2016, de projeto encaminhado por 26 deputados, um dos quais Jair Bolsonaro. Direita e esquerda caminhando juntos para que o povo brasileiro tivesse acesso à “pílula do câncer”, uma vitória da esperança, como salientado na época.

Essa lei foi rapidamente derrubada pelo STF como inconstitucional. Estudos posteriores mostraram que realmente esta droga não era efetiva contra “todos os tipos de câncer” – a única evidência encontrada de melhora foi em câncer de pele – de ratos.

A fama adquirida na época fez com que, apesar de não vendida como tratamento, possa ser comercializada como suplemento alimentar – R$ 1.140 o frasco – nas redes de lojas virtuais.

E a Ivermectina?

Descoberta em 1975 e no mercado desde 1981 – há 40 anos - é aprovada pela ANVISA e considerada medicamento essencial pela Organização Mundial da Saúde. As indicações formais são infestações por piolhos, sarna, ascaridíase – nossa lombriga – e outras verminoses.

Como chegou no coronavírus? 

Pesquisadores de Melbourne, Austrália, avaliaram a atividade antiviral da Ivermectina em relação à SARS-CoV-2. Infectaram células cultivadas em laboratório e em seguida adicionaram o medicamento – e parte significativa dos vírus morreram após 48 horas. O próprio líder do estudo, Dr. Kylie Wagstaff, chama a atenção que era um estudo experimental, in vitro. 

Importante mostrar que a Ivermectina também demonstrou ser eficaz IN VITRO contra uma ampla gama de vírus em laboratório, incluindo os HIV, Dengue, Influenza e Zika. Alguém já ouvir falar em tratamento destas doenças com Ivermectina?

Artigo publicado no site medRvix, associado ao British Medical Journal e a Universidade de Yale, no dia 22 de maio, estuda as doses que seriam necessárias em humanos para atingir as concentrações usadas no estudo in vitro – e verificaram que são dezenas de vezes superiores as doses recomendadas – provavelmente inatingíveis, em suas palavras. E muito tóxicas.

Quem acessar hoje o PubMed, maior portal de busca de artigos científicos na área médica do mundo, e colocar as palavras coronavírus e tratamento, receberá 12.755 citações. Quem digitar coronavírus e Ivermectina, apenas 22 resultados – o que mostra a importância dada pela classe científica a este tratamento.

Frederico Fernandes, um dos melhores pneumologistas da nova geração, atual presidente da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia, postou há pouco no seu Twitter: “Prescrever um remédio porque tenho fé e que é melhor do que nada, não é medicina. É curandeirismo”. 

Mas qual o real risco do uso da Ivermectina? 

Tomar pensando estar protegido do coronavírus. Ou que, se ficar doente, que existe um medicamento eficaz.E deixar de tomar aquelas impopulares medidas que sabemos funcionar. Caso recebesse um diagnóstico de câncer, hoje aceitaria que seu tratamento fosse feito com a fosfoetanolamina?

Por Dr. Renato Matos 08/07/2020 - 12:00 Atualizado em 08/07/2020 - 12:08

No último domingo voltamos a assistir corridas de fórmula 1. Apesar da falta do Galvão Bueno – alguns devem ter gostado - passou uma impressão de que estamos voltando ao “normal”. Para que esta corrida acontecesse foram tomadas medidas rigorosas de segurança. Às já conhecidas – afastamento físico, higienização frequente das mãos e uso de máscaras – foram acrescentados testes frequentes. Todos os envolvidos foram testados antes de saírem de seus países, ao chegarem ao paddock e depois a cada 5 dias. 

Este protocolo é um pouco menos exigente do que o anunciado por Ross Brawn, o engenheiro e atual diretor-esportivo da Fórmula 1, que em maio revelou a intenção da categoria providenciar testes a cada dois dias. Nesta primeira etapa foram feitos cerca de 4 mil testes, ao custo de pouco mais de 200.000 euros. Nenhum positivo, informaram.

Mas que testes?

Existem basicamente duas categorias de testes para detecção do coronavírus. O teste molecular, que detecta a presença do vírus – o PCR - e os testes sorológicos, que detectam a presença de anticorpos. Esses são proteínas produzidas por determinadas células de defesa do nosso sistema imunológico para frear a multiplicação do vírus.

O teste do PCR, aquele do “cotonete” pode ser feito a partir do primeiro dia dos sintomas, idealmente a partir do terceiro dia – e permanece positivo por aproximadamente 10 dias. Mesmo pessoas assintomáticas, estando infectadas, podem ter o teste positivo.

Já os testes sorológicos, conhecidos por testes rápidos, por dependerem da resposta imunológica, só positivam vários dias depois. O laboratório Fleury, um dos mais respeitados do país, em seu site, recomenda que o teste seja feito pelo menos 10 dias após o início dos sintomas. Idealmente 14 dias.

Resumindo, o teste molecular, o PCR, é para firmar o diagnóstico, aquele que permite que medidas médicas e de isolamento possam ser tomadas em tempo. Este é nosso o padrão ouro. Já os testes sorológicos, segundo a própria ANVISA, podem auxiliar no mapeamento da população que já foi infectada, mas NÃO têm função de diagnóstico. Seu papel seria avaliar a prevalência da doença na comunidade, auxiliando os gestores a se posicionarem corretamente.

Sempre considerar que todos os testes, moleculares e sorológicos, apresentam um número considerável de falsos negativos e falsos positivos. Aí um bom médico, juntado as informações clínicas, contexto epidemiológico e outros exames, pode ajudar. Ir no laboratório por sua conta, fazer o exame sorológico e tentar interpretar sozinho o seu resultado, pode levar a medidas desastrosas. Para você, seus familiares ou funcionários da sua empresa. 

E, como vimos nos jornais, a imagem dos pilotos de F1 fazendo cara feia enquanto o cotonete era introduzido em suas narinas, não deixa dúvidas - estão utilizando o teste correto, o PCR. 

E por que aqui não fazer logo o teste de PCR em todos os suspeitos?

Enquanto os testes sorológicos são realizados em equipamentos mais simples, que quase todos os laboratórios possuem, o PCR exige máquinas e reagentes mais sofisticados. Em centros maiores são liberados em aproximadamente 24 horas e tem aproximadamente o mesmo custo dos exames sorológicos.

Aqui no estado, com exceção de alguns poucos laboratórios, os exames a nível privado são encaminhados para laboratórios de referência – e aí o resultado demora dias para ser liberado, não permitindo que medidas rápidas sejam adotadas. Ou para o LACEN, laboratório que dá suporte a rede pública. Problema: os testes são coletados apenas naqueles casos mais graves ou já internados. No site do governo do estado, ao lado dos 393 óbitos, verificamos que existiam 4.804 exames aguardando liberação.

Então, como proteger seus funcionários e sua família? 

No atual contexto, na presença de sintomas gripais, febre, cefaleia, perda de olfato ou paladar, considere o caso como positivo para Covid – e tome as medidas adequadas de isolamento.

Nota do editor:

 

O médico Renato Matos, uma das referências da pneumologia em Criciúma e região, vem colaborando com a Rádio Som Maior e o 4oito com extrema frequência desde o início da pandemia de Covid-19, com diversos esclarecimentos ao nosso público ouvinte e leitor. O convidamos para reforçar essa oferta de conteúdo com os textos, em forma de artigo, que passamos a publicar nesse espaço. Boas vindas ao dr. Renato Matos!

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