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* as opiniões expressas neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do 4oito

Envelhecer

Por Grayce Guglielmi Balod 03/04/2018 - 17:34

Na semana passada falamos sobre o Ninho Vazio.

Os filhos crescem e a gente envelhece.
E é justamente quando os filhos crescem e vão viver suas vidas ou, quem não tem filhos, entre 45 e 55 anos, que o envelhecimento se evidencia com mais intensidade.
Em algum momento todos nós, sem exceção, olhamos a imagem refletida no espelho e estranhamos. Como envelheci neste ultimo ano - nós pensamos - ignorando o fato de que envelhecer é um processo que acontece diariamente, sem pausa e sem trégua.

Depois de vinte anos sem ver o amigo, nos deparamos com ele no corredor do supermercado e, estupefatos, pensamos: - Nossa! Como ele envelheceu! 

Mas...O que esperávamos? Que rejuvenescesse ao longo das duas décadas? 

Provável e lamentavelmente sim, é o que esperamos.

Afinal, é este o apelo generalizado através de promessas milagrosas da indústria dos cosméticos, dos procedimentos estéticos e das intervenções cirúrgicas: rejuvenesça!

Assim como o nascimento, o crescimento e o amadurecimento, o envelhecimento faz parte da vida. 

É inevitável e, sob certo ponto de vista, um privilégio pois, morrer cedo é a unica alternativa para o envelhecer.
Porém, de uns tempo pra cá, esse é o ponto de vista de poucos. 
A sabedoria que sempre foi valorizada e associada aos mais velhos perdeu espaço e credibilidade para a jovialidade ou o frescor da juventude. 
Velho respeitado, hoje em dia, é o velho jovem de corpo, mente e espirito. 
A mulher velha, a que se permitiu envelhecer, via de regra é considerada desleixada ou, na melhor das hipóteses, é tida como uma mulher sem vaidade, o que muitas vezes leva a julgamentos do tipo:  - autoestima baixa, falta de amor próprio, descaso com aparência - até o cruel e taxativo: embarangou!
A verdade é que a ação do tempo em nós é implacável; rugas, flacidez, perda dos contornos, ganho de peso; tudo isso e muito mais é parte do pacote denominado ENVELHECER.
Depois do fotoshop e de todas as intervenções estéticas, desde as minimamente invasivas até as que nos quebram e sugam sem piedade, envelhecer tornou-se "opcional". Entre aspas a palavra opcional.
Obviamente a ideia de adiar os resultados do processo de envelhecimento pode ser muito sedutora, algumas pessoas até justificam dizendo que as oportunidades de trabalho aumentam assim como as chances de conseguir um novo parceiro. 
Mas a verdade é que viver é despedir-se.
Assim como nos despedimos de nossos filhos quando deixam nossos lares, ou como nos despedimos dos nossos pais quando deixam esse mundo, temos que nos despedir de nós mesmos...  um pouco a cada dia.
Quem chega aos cinquenta pensando, sentindo e vivendo como pensava, sentia e vivia aos vinte anos? 
Nossas conquistas, nossas perdas, nossas vitórias e nossas derrotas não nos permitirão o auto-engano. 
Por que o corpo deve aparentar vinte anos se ele abriga memórias de mais de quarenta anos de vida?
Por que o rosto deve aparentar no máximo trinta anos se as nossas lembranças tem registros de cinquenta anos de vida?
Porque sim, porque queremos, porque podemos, são respostas que denotam o poder das escolhas.
Podemos escolher adiar ao máximo o envelhecimento, aparentando ser mais jovens do que realmente somos por tempo indeterminado.
Assim como podemos, também, escolher envelhecer sem adiamentos.
Permitam-me falar sobre esta escolha: ENVELHECER. 
Particularmente, não quero parecer jovem. Não quero parecer irmã da minha filha. Não quero elogios comparativos que fazem com que uma das partes saia lesada. Na verdade, eu nem considero este tipo de referência elogiosa. Quero envelhecer, faço questão disso! Ainda que eu sinta falta de muitas coisas que ficaram para trás com a juventude, folgo em saber de todos os meus ganhos por ser uma mulher madura. 

Neste ano faço cinquenta anos.Eu nunca consegui imaginar como seria viver todos estes anos. Mas eu os vivi. E eles me trouxeram cabelos brancos, rugas e muitas outras mudanças no corpo. 
Eu tenho um carinho enorme por todas estas mudanças, talvez até um apego, para que, além de mim, outras pessoas também possam constatar o óbvio: eu estou envelhecendo. 
Isso é sobre o direito de permitir que o tempo deixe suas marcas em nós.
Não é fácil, há quem não saia de casa sem maquiagem ou com o botox vencido. 
Há quem diga que não é a mesma coisa encontrar conhecidos na rua depois que inventaram os filtros do instagram. Não apenas porque não querem ser vistos com todas as suas imperfeições mas, também, porque lhes custa ver o outro como é, sem a luz ideal, sem o angulo perfeito, sem retoques, sem filtros.
Quanto a mim estou curtindo esta fase da vida. Se tiver sorte, vocês me verão a cada ano um pouco mais velha. E eu gostaria de ter reconhecido meu direito a ter cinquenta anos na cabeça, na alma e no corpo. Especialmente no corpo. Estou envelhecendo e estou feliz por isso. 
Como já cantou Arnaldo Antunes: "Não quero morrer pois quero ver Como será que deve ser envelhecer Eu quero é viver pra ver qual é E dizer venha pra o que vai acontecer."

E eu te convido a, esporadicamente, dizer não aos mecanismos antienvelhecimento.
Não é fácil, mas pode ser extremamente libertador. 
É que em ultima análise, considerando os aspectos que comentei, esse é um ato de rebeldia contra a ditadura da beleza.
É uma desobediência. 
É dizer um NÃO entre todos os SIM que a gente precisa dizer.
E, talvez, este seja o NÃO que a gente está precisando dizer.

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