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Essa tal Síndrome de Burnout

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 21/04/2018 - 18:27Atualizado em 21/04/2018 - 18:29

Síndrome de Burnout, um nome difícil para um diagnóstico relativamente simples: esgotamento profissional. Acomete principalmente  a pessoa que tem como característica o desejo de ser o melhor naquilo que faz e que está sempre em busca de um alto grau de desempenho. Mas, não vou me ater ao conceito, vou exemplificar.

 

Você acordava, vestia a roupa adequada para os compromissos do dia, tomava seu café da manhã e saía em direção ao trabalho. 

Os dias eram cheios e, em alguns deles, você 'esquecia' o horário de almoço. 

Eram tantas coisas para fazer que, de repente, você se dava conta que não tinha conseguido um tempinho nem para 'fazer xixi'. 

Um refrigerante e um pacote de salgadinhos foi o máximo que você comeu em muitos dos seus dias naquele trabalho. 

Você tinha um horário combinado para voltar para sua casa e, todos os dias, quando este horário se aproximava olhava para o relógio e pensava consigo mesmo: -Precisarei ficar até mais tarde outra vez. 

Você chegou a comentar com alguns colegas que sentia-se 'adrenalizado'. Esta parecia a explicação mais plausível  para o que acontecia com você, que oscilava entre adrenalizado e morto-vivo (um zumbi de tão cansado). Só podiam ser descargas de adrenalina  que o levavam adiante. Descargas estas desencadeadas pelo desejo de acertar, mostrar serviço, atingir sua meta, de agradar. Ou desencadeadas pelo medo de errar, de passar por incompetente, de fracassar, de cair na antipatia do chefe. 

O que mais explicaria a necessidade cada vez menor de sono, seu pé pisando no acelerador de forma inconsequente no trajeto para o trabalho, pular as refeições principais, esquecer de compromissos pessoais, chegar em casa exaurido, sem ânimo para conviver com as pessoas que você mais ama, sem forças para cuidar de si mesmo com a gentileza que merece e, ainda assim, acordar pronto para mais um dia deste? 

Mas você nem pensava, funcionava num moto contínuo, cientificamente inexplicável. Você nuca refletiu, não se ocupou em compreender. 

Até que parou. 

Parou sem desejar parar. 

Você foi ao trabalho naquele dia, chegou antes do horário e, provavelmente, sairia depois, pensou. 

Se houve algo de diferente foi que você se deu conta disso - e de algum modo, de todo o resto. 

Você percebeu que ainda não havia amanhecido totalmente quando chegou - era horário de verão. 

Pensou que, talvez, pudesse aproveitar o resto do dia com sua família porque se havia uma vantagem nessa época era o fato de que anoitecia mais tarde. 

Mas  aquele dia não passava. 

Você não sentiu a adrenalina e ficou difícil  trabalhar assim.  

Todas as atividades que tinha para realizar se tornaram muito complexas. 

Você começou a se questionar. 

O que você estava fazendo ali? Por que tinha se ariscado tanto naquelas estradas? Há quanto tempo não via seus amigos? Qual fora a última vez que ligara pra seus pais? 

Se deu conta, incrédulo, de que não ficara para a festa de casamento de sua irmã porque estava cansado demais. 

De repente nada mais fazia sentido. 

Então você não conseguiu mais pensar. Você só conseguia sentir. 

E tudo o que queria era ir para sua casa. 

Estava catatônico e seu chefe perguntou o que estava acontecendo. 

Você lhe disse que queria ir embora. 

Você foi. 

E não voltou mais. Ou, ficou sem a menor vontade de ficar e, pior, sem energia alguma para realizar seu trabalho.

Este é um exemplo de como a Síndrome de Bournout pode se processar.

 

Agora, pergunto a quem se identificou ou identificou alguém nesse relato:

Se você pudesse diminuir sua carga horária diária ou semanal, a quantidade de trabalho que leva para casa, suas atividades profissionais no fim de semana, o tempo que passa em aviões, carros, metrôs e ônibus em função de seu trabalho, você realmente diminuiria?

São frequentes as queixas de pessoas cansadas e estressadas com o tempo que precisam dedicar ao trabalho, com os prazos e as metas a cumprir, com os trajetos que precisam fazer para buscar suas encomendas ou fazer suas entregas. 

Quando estamos imersos no trabalho, seja ele qual for, não percebemos que entramos em uma espiral, nem sempre ascendente. 

Muitas vezes, todos os nossos esforços, nossas energias, o melhor de nós, são canalizados para atingirmos bons resultados profissionais. 

Quanto mais nos empenhamos, mais enxergamos tarefas a executar, correções a fazer, objetivos a conquistar. 

Se está bom, achamos que pode ficar melhor. Se está ótimo, desejamos a excelência. Passamos a funcionar como ratos da caixa de Skinner, temos reforços positivos para comportamentos esperados, seja um aumento de salário ou reconhecimento profissional. O mundo do trabalho, porém,  não é uma caixa e nós não somos ratos. Por mais que nos esforcemos, nem sempre obtemos os resultados desejados.

Algumas pessoas verbalizam seu cansaço. Outras o evidenciam através de seu olhar, expressão facial, postura, distrações e - por que não dizer? - de suas somatizações.

Como doem nossas cabeças. Como queimam nossos estômagos. Quantas alergias surgem em nossa pele.  Como facilmente cai a resistência de nossos corpos. Quantas inflamações. Quantas "ites". 

Há muito se sabe que o corpo fala. Mas você o ouve? Você se permite ouvi-lo? 

Muitos simplesmente não conseguem parar. Não podem, talvez. Precisam se manter ocupados e trabalhar arduamente para não se deparar consigo mesmo. Para não ter que enfrentar seus fantasmas, medos, problemas, sua solidão.

Nunca nos faltarão motivos para continuar um ritmo frenético de trabalho. 

Um padrão de vida que queremos manter ou melhorar. Filhos para criar. A manutenção do carro. O financiamento da casa. As prestações a pagar. Sonhos que somente com muito trabalho vamos conquistar. O amor pela profissão. O prazer que ela proporciona. 

Mas, é isto mesmo?

Nas redes sociais há uma comoção geral quando chega a sexta feira. Há os que fazem apologia à mesma, alardeando-a como uma carta de alforria. E há um movimento contrário que apregoa que aqueles que fazem o que gostam, esquecem o dia e não tem o que comemorar no fim da semana, afinal todo dia é dia de ser feliz.

Independentemente da sua resposta à pergunta do início deste texto, sempre haverá a hora de parar, seja por vontade própria ou necessidade. Às vezes, a própria Síndrome de Burnout leva a parar! É preciso estar pronto para isso. 

Precisamos aprender a ficar a sós e em silêncio, na companhia de nós mesmos. Porque este é o encontro que adiamos a vida inteira, com todas as coisas que inventamos para fazer.

Comecemos comemorando a sexta feira e o fim de semana. 

Mais do que isso, aproveitando-os para descansarmos e estarmos com que escolhermos. Mas, sobretudo, em nossa própria companhia.

4oito

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