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DEIXE AQUI SEU PALPITE PARA O JOGO DO CRICIÚMA!
* as opiniões expressas neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do 4oito
Por Henrique Packter 31/12/2024 - 13:17 Atualizado em 31/12/2024 - 13:19

Publicado em 1940, na ressaca da Primeira Guerra, o poema reflete um mundo ainda abalado diante do terror do fascismo.

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,

Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido

(mal vivido talvez ou sem sentido)

para você ganhar um ano

não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,

mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;

novo

até no coração das coisas menos percebidas

(a começar pelo seu interior)

novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,

mas com ele se come, se passeia,

se ama, se compreende, se trabalha,

você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,

não precisa expedir nem receber mensagens

(planta recebe mensagens?

passa telegramas?)

 

Não precisa

fazer lista de boas intenções

para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar arrependido

pelas besteiras consumadas

nem parvamente acreditar

que por decreto de esperança

a partir de janeiro as coisas mudem

e seja tudo claridade, recompensa,

justiça entre os homens e as nações,

liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,

direitos respeitados, começando

pelo direito augusto de viver.

 

Para ganhar um Ano Novo

que mereça este nome,

você, meu caro, tem de merecê-lo,

tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,

mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo

cochila e espera desde sempre.

 

O  sujeito lírico parece falar diretamente com o seu leitor ("você"). Procurando aconselhá-lo, partilhar sua sabedoria, formula neste seus votos de transformação para o novo ano. Começa recomendando que este seja realmente um ano diferente dos anteriores (tempo "mal vivido", "sem sentido"). Para isso, é necessário buscar uma mudança real, que vá além da aparência, que gere um futuro novo.

Prossegue, afirmando que a transformação deve estar presente nas pequenas coisas, tendo origem no interior de cada um, nas suas atitudes. Para isso, é preciso cuidar de si mesmo, relaxar, se compreender e evoluir, sem precisar de luxo, distrações ou companhia. Na segunda estrofe, consola seu leitor, determinando que não vale a pena se arrepender de tudo o que fez, nem acreditar que um novo ano será a solução mágica e instantânea para todos os problemas.

Pelo contrário, tem que merecer o ano que chega, tomar a decisão "consciente" de mudar a si mesmo e, com muito esforço, mudar a sua realidade.

Por Henrique Packter 09/01/2025 - 14:10 Atualizado em 09/01/2025 - 14:16

Você já teve a impressão de que seu chefe, seu representante político, seu padre-confessor ou seus colegas de trabalho estão ficando menos inteligentes a cada ano?

Pior que isso: que essa onda está afetando inclusive você? Que o mundo está cada vez mais difícil de entender? Se você está se sentindo cada vez menos inteligente, fique tranquilo, estamos todos emburrecendo a passos largos. O conhecimento humano aumenta explosivamente. Antigamente, dizia-se que o conhecimento humano dobrava a cada dezoito meses. Hoje, parece que ele dobra a cada nove. Embora coletivamente o mundo esteja ficando mais inteligente, individualmente estamos ficando cada vez mais burros.

Antigamente, você precisava entender de mecânica para dirigir um carro. Hoje, os computadores são foolproof (à prova de idiota), graças a Deus! É justamente por isso que sobrevivemos. Equipamentos incorporam conhecimento, e muitas vezes tomam decisões por nós. É a sobrevivência dos menos inteligentes.

Se você ler três livros por mês, dos 20 aos 50 anos, serão 1.000 livros lidos numa vida, que nem chegam perto dos 40.000 publicados todo ano, só no Brasil. Comparado com os 40 milhões de livros catalogados mundo afora, mais 4 bilhões de home pages na internet, teses de doutorado, artigos e documentos espalhados por aí, talvez seu conhecimento não passe de 0,0000000000025% do total existente. Há intelectual que acha que tem o direito de mudar o mundo só porque já leu 5.000 livros. É muita arrogância. A ideia de intelectuais superesclarecidos governando nações, hoje não faz o menor sentido, é até perigosa.

Como sobreviver num mundo onde cada um de nós só poderá almejar saber 0,0000000000025% do conhecimento humano ou até menos? O segredo é cada um se esforçar para saber 100% de um pequeno nicho, uma parcelinha do conhecimento humano.

Não basta mais tirar a nota mínima 5 e achar que um diploma vai resolver sua vida. Não basta mais saber 90% de uma única matéria acadêmica. Você precisará saber 100% de algo que seja útil para os outros. Vai ter de ser o maior especialista do mundo num assunto e vender o que sabe fazer bem aos demais miniespecialistas do planeta, e vice-versa.

Quantos alunos se formam especialistas em coisa alguma? Infelizmente, as universidades atualmente formam generalistas, porque é bem mais barato do que formar especialistas.

Só que generalista sem uma especialidade não arruma o primeiro emprego. Faculdades oferecem basicamente o mesmo curso todo ano, obedecendo a um mesmo currículo, chamado de mínimo. Não é à toa que há tanto desemprego.

Antigamente, superespecialistas poderiam morrer de fome por falta de mercado. Hoje, a globalização permite mercados cada vez maiores.

O segredo daqui para a frente é ignorar uma série de leituras, publicações e jornais que você lia anteriormente. Curiosamente, você vai ter de se tornar um ignorante, alguém que deliberadamente ignora milhares de informações para se concentrar na sua especialidade. O segredo não é mais ser um intelectual que sabe um pouquinho de tudo, mas ser um ignorante que sabe tudo sobre um pouquinho.

Por Henrique Packter 13/01/2025 - 13:39 Atualizado em 13/01/2025 - 13:43

Nasceu na granja do avô em Monte Bonito, Pelotas RS 08-11-1901, hoje município Manoel Alves da Conceição (homenagem a seu futuro sogro). Meirelles veio a falecer em 07-12-1975, 74 anos, em Porto Alegre (RS).

O sobrenome Meireles tem origem toponímica  (geográfica), e vem da quinta de Meireles, em Trás-os-Montes, norte de Portugal.

A origem do nome estaria no baixo-latim (Villa) Maiorelli, que significa "a quinta de Maiorelo" e  encontra-se na Galizia como Merelle..

O primeiro portador do sobrenome foi dom João Rodrigues de Chacim, senhor da quinta de Meireles, que o repassou ao filho Nuno de Meireles.

Algumas personalidades com o sobrenome Meireles são:

• Victor Meirelles (1832-1903), pintor

• Cecília Meireles (1901-64), escritora

Significado do nome Meirelles

Esse sobrenome é nome de uma quinta localizada em Trás-os-Montes, na região norte de Portugal.  Meireles significa "aquele que provém da quinta de Meireles". É possível que alguma família o tenha usado como apelido, que depois se transformou em sobrenome.

A origem também poderia estar na família judia Sashim que, no auge da perseguição aos judeus europeus se refugiou num vale, no interior de Portugal.

Então, originário da região norte de Portugal, hoje é encontrado em todo o mundo, especialmente em países lusófonos como o Brasil, Moçambique, Angola...

Outros acreditam que família Meireles vem de família Meira a qual vem de Pedro de Novaes (o velho), rico homem de el-rei D.Sancho II.

Meireles (Meirelles?) Vem da onde, mesmo?

Sendo seu pai militar, durante a infância e juventude residiu sucessivamente em Alegrete, Bagé, Rio Grande e Uruguaiana, RS. Formou-se em 1927 em Medicina na faculdade da atual Universidade Federal do RJ, Praia Vermelha. Graduado, clinicou em Paraisópolis (MG), transferindo-se logo após casar-se com uma prima, neta do irmão de sua avó paterna, para Rio Pardo, RS. Ali exerceu a Medicina (clínica geral), organizou o hospital local, fundou clube de futebol (América) e clube de tênis que funcionava na sua casa.

Em 1932 transferiu-se para o RJ onde se especializou em pediatria no curso do professor Carlos Abreu. Em 17.02.1934 chega a Santa Maria, RS, instalando-se inicialmente no Hotel Leon, onde passou a exercer a medicina pediátrica e foi também médico da Caixa de Aposentadoria e Pensões dos Ferroviários, Inspetor de Ensino, presidente da Sociedade de Medicina, assistente da Delegacia de Saúde, professor da Faculdade de Farmácia e da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Santa Maria, da Escola de Enfermagem e médico do Posto de Puericultura da Legião Brasileira de Assistência.

Foi prefeito de Santa Maria de 15.01.1942 até 24.03.1947, quando renunciou ao cargo. Fora nomeado pelo Interventor, marechal Cordeiro de Farias e confirmado pelos que lhe sucederam no governo do Estado. Em 15.05.1964 foi eleito pela Câmara de Vereadores para o mesmo posto, ocupado até 18.12.1964, quando renunciou. Em 25.05.1947 elegeu-se diretor médico do Hospital de Caridade Dr. Astrogildo de Azevedo, cargo exercido até 23.03.1961. Foi Secretário da Fazenda (RS), de 20.01.1965 a 08.05.1965.

Morou em Santa Maria de 17.02.1934 a 25.01.1965. Durante esse período manteve diário encerrado com as seguintes palavras: “25 janeiro 1965 - Afasto-me de Santa Maria às 16 horas, com pesar e, porque não registrar, Nice e eu, chorando deixamos a nossa casa e assim Santa Maria, após 30 anos, 11 meses e 10 dias, de alegrias, vitórias e muito pouco aborrecimento. Obrigado, Terra querida”. Deixou instruções para seu enterro, “um pouco de terra da casa de número 1599 da rua dos Andradas, em Santa Maria” (obtida por seu fraternal amigo Dr. Francisco Alvares Pereira), colocada sobre sua cabeça. Está sepultado no Cemitério da Irmandade Arcanjo São Miguel e Almas, Porto Alegre, RS.

Bonito, não? Meu endereço em Criciúma era Lauro Müller, 696, onde Frida e eu vivemos 59 anos com muitas alegrias, vitórias e muito pouco aborrecimento.

 

Por Henrique Packter 20/01/2025 - 18:05

Em primeiro lugar as pessoas não estão tão interessadas em mim como sempre imaginei. Sempre fiquei surpreso com as festividades promovidas pelos vendedores de livros didáticos de Medicina. Logo após o vestibular fui entrevistado várias vezes pelas rádios e jornais locais pelo meu 16º lugar no vestibular. Em todos as entrevistas o repórter buscava saber e enaltecer minha escolha de livros. Eles, os livros, naturalmente, eram da editora que os livreiros representavam.

Em segundo lugar nem todo mundo tem de gostar de mim. Afinal, nem eu gosto de todo o mundo. Fiz amizades e grandes inimizades durante minha vida. Muitas inimizades que conquistei eram de pessoas que nem cheguei a conhecer. Eram inimizades gratuitas e despontavam logo aos primeiros encontros.

Em terceiro lugar se formos honestos de forma brutal, a maior parte do que fazemos é para nós mesmos. Imprescindível parar de se preocupar com o que os outros pensam e fazer apenas aquilo que nosso coração almeja. Ser honesto da maneira habitual já é mais do que suficiente. O professor oftalmologista Sugar, após curso de cirurgia da catarata no Hospital dos Servidores, RJ, foi acompanhar nossas cirurgias. Eu era residente e operei catarata com o Dr. Fernando Machado, das Alagoas. A presença do professor fez com que os cirurgiões se excedessem em brilhos durante a cirurgia. A certa altura, Sugar chegou-se ao meu ouvido e disse:

- Don’t be too ambicious! (Não seja muito ambicioso!).

Esta parece ser uma boa norma de vida.

Por Henrique Packter 05/02/2025 - 16:11 Atualizado em 05/02/2025 - 16:13

Que Sartori, um de nossos mais antigos médicos, era botafoguense de quatro costados, não se discute. Que, em razão disso, odiava o Flamengo e outros times de cores dessemelhantes ao alvinegro, também não padece discussão.

O FLAMENGO EM 1981

Na final da Libertadores de 1981 a torcida rubro-negra brasileira preparava-se para mais um sucesso do time carioca no torneio continental.

Mas, lembrando da emocionante decisão vencida pelo supertime de Zico, fica a dúvida: afinal, que fim levou o Cobreloa, clube chileno que era uma das grandes potências do Chile e do continente - e que vendeu caro esse título para o time brasileiro?

Quando ficou claro que o título de Campeão da Libertadores seria decidido pelo Flamengo do Rio de Janeiro contra o desconhecido Cobreloa do Chile, imprensamos Sartori contra as paredes do vestiário do centro cirúrgico do Hospital São José de Criciúma:

- Sartori, agora não tem jeito. Afinal, chegou o dia, vais torcer pelo Flamengo, claro, nesses jogos.

A resposta veio instantânea:

- Sou Cobreloa desde pequenininho!

PATROCÍNIO ESTATAL

O Cobreloa, fundado em 1977 é clube relativamente jovem, criado pela Codelco (Corporación Nacional del Cobre de Chile), empresa estatal chilena de mineração de cobre. Já pensou? Recebendo muito dinheiro via patrocínio do governo, o clube do deserto do Atacama rapidamente tornou-se potência local e depois continental

No mesmo 1977, ano de fundação, vem o acesso à elite do Chile. Três anos depois, 1980, as "Raposas do Deserto" conquistaram pela primeira vez a liga nacional, classificando-se para a Libertadores. Na temporada seguinte, Cobreloa chega à final do torneio da Conmebol, sendo derrotado pelo Flamengo na melhor de três na final.

O dinheiro da Codelco seguiu jorrando e o clube laranja alcançou novamente a final da Libertadores em 1982, perdendo para o consagrado Peñarol, do Uruguai.

De 1980 a 90, até a metade dos anos 2000, as "Raposas" seguiram como potência futebolística, sempre apoiada no cofre-forte da mineradora. Foram oito títulos chilenos conquistados: 1980, 82, 85, 88, 92, 2003 Apertura, 2003 Clausura e 2004 Clausura), além de uma semifinal de Libertadores (1987) e uma Copa do Chile (1986).

Porém, as coisas mudam drasticamente em 2011...

FIM DO DINHEIRO DA MINERAÇÃO

Até 2011, a Codelco depositava algo como US$ 1,5 (R$ 6,21 milhões em dólares americanos), anualmente, nas contas do Cobreloa, fazendo a equipe nadar de braçada no futebol chileno. Mas, naquele ano, a estatal muda seu contrato com o clube, reduzindo escalonadamente seus investimentos até 2017, quando encerrou de vez o patrocínio.

E, como o time laranja nunca se estruturou para viver vida sem os recursos governamentais, o clube desce ladeira abaixo.

Em 2015, as "Raposas", rebaixadas para a 2ª divisão chilena, têm direito a pontos perdidos no tapetão por escalar irregularmente o treinador (acredite se quiser) - O episódio envolvendo o técnico Alejandro Hisis ficou conhecido como "Caso Hisis". Em 2016, antes do final do contrato com a Codelco, divulgou-se que o time estava insolvente, correndo sério risco de falir e sumir.

Era o fim?

VIDA DURA NA SEGUNDONA

Desde a queda, o Cobreloa nunca mais retornou à 1ª divisão chilena. Porém, por conta da gestão responsável de recursos do presidente Walter Aguilera, as "Raposas" conseguem subsistir, sem risco de falir.

Hoje, o Cobreloa tem elenco bem jovem, média de idade de 24,4 anos,  formado em boa parte por revelações das categorias de base, misturados a alguns veteranos. Todo o plantel atual da agremiação vale 3,78 milhões de euros (R$ 17,27 milhões), praticamente 20% do atacante Gabigol, avaliado em 18 milhões de euros (R$ 82,25 milhões).

Hoje, as "Raposas" (5º lugar da Primera B, zona de playoffs), disputa o acesso à elite. (Playoffs: série de jogos para indicar o vencedor entre times que empataram num campeonato ou torneio). Com apenas 39 pontos, o lugar não está garantido, sendo a distância atual para o 11º colocado, o Deportes Santa Cruz, de apenas 2 pontos. Presidente Walter Aguilera  esperançoso de recolocar a equipe na 1ª divisão do Chile. Ele revelou que conversa com o Codelco para retomar o patrocínio da estatal -, porém com números diferentes e reduzidos daqueles do passado.

"(...), aprendemos a viver sem a Codelco", finalizou.

BOTAFOGO e FLAMENGO em 1981

Quando o juiz apitou o final de jogo, Zico praguejou. Braços erguidos, tinha sangue  no nariz e no rosto resultado de jogada desleal do chileno Mário Soto, Cobreloa. Em contrabalança tinha também dois gols no placar do estádio Centenário de Montevidéu e o título da Taça Libertadores da América de 1981. Na segunda-feira, 23.11.1981 há 43 anos, o Flamengo conquistava seu primeiro torneio mundial. Torneios eram, então, marcados pela truculência dos rivais, que jogavam pouca bola, mas batiam muito. Um clima de vale-tudo.

Foi até melhor que o Flamengo não ganhasse em Santiago. Naquele clima hostil era possível que não tivesse saído vivo de lá. O time ficou em estado de choque.

Anselmo foi escoltado por policiais, após expulsão na final de 1981, sendo o torneio decidido em três confrontos. No primeiro, o Flamengo venceu o Cobreloa por 2 a 1, no Maracanã. No segundo, os adversários ganharam por 1 a 0, em Santiago. A terceira partida, de desempate, foi realizada na capital do Uruguai, onde,o rubro-negro disputaria mais uma final da Libertadores, contra o Palmeiras.

O jogo em Santiago foi o mais tétrico. Na época, o Chile era governado pelo ditador-general Augusto Pinochet e o clima reinante na capital era de tensão nacionalista extremada, quando o time rubro-negro aterrizou. Chilenos em peso queriam a vitória a qualquer preço, o gramado cercado por soldados com metralhadoras e pastores alemães treinados para atacar. No campo as regras pareciam não existir. Jogando com uma pedra na mão, Mário Soto nocauteou Adílio e Lico; este precisou de pontos na testa no intervalo e não retornou para o segundo tempo.

Na Libertadores, o sanguinário Mario Soto recebeu cartão vermelho na final de 1981 na Libertadores.

- Sabe lá o que é olhar para os lados e ver o Adílio cheio de sangue, o Lico com o rosto deformado? Na beira do gramado, Isaias, nosso massagista, quase é preso pelos soldados. Aquilo não foi jogo de futebol, foi uma carnificina. Futebol é o que jogamos aqui. Em matéria de futebol, nosso time não perde para o deles de jeito nenhum. Nem se jogar sem goleiro.

No confronto em Montevideo, chilenos continuaram agredindo, mas flamenguistas já revidavam. Aos 35 minutos do primeiro tempo, Andrade entrou deslealmente em Jimenez e foi expulso. No segundo tempo, Mario Soto deu uma pancada em Tita, mas, minutos antes de terminar o jogo, Paulo Cesar Carpegiani colocou em campo o zagueiro Anselmo para lesionar o camisa 4 do Cobreloa. Ele socou tão forte que teve de enfaixar a mão. Soto perdeu dois dentes. Os dois foram expulsos. Anselmo, conduzido pela polícia.

O GLOBO

- Vocês viram aquele covardão do Mário Soto? Deu em mim sem bola, deu no Tita, deu em uma porção de gente. Bem fez o Anselmo. Aquele soco não foi só dele. Foi um soco coletivo, de todo o time, naquele valentão de meia tigela. Esse tal de Soto não joga nada - disse Zico no vestiário. - Viram como eles ficaram tontos em determinados momentos? Mais tontos do que se tivessem levado um soco. Futebol é isto. Futebol brasileiro é arte, não pancadaria. Por isso, temos o melhor futebol do mundo e vamos agora ganhar o Campeonato Mundial Interclubes no Japão.

Naquela noite, o Rio não dormiu. Chão da cidade coberto de papel picado, bares lotados e carros buzinando para todos os lados. O time voltou no dia seguinte para o Rio, festou durante o voo. Peu puxava o coro, enquanto Zico batucava nas mesas do avião. Júnior, Nunes e Tita se exibiam nos reco-recos. Todos cantavam sambas clássicos até o comandante anunciar a descida para o Galeão, quando todos passaram a cantar o hino rubro-negro. No aeroporto, foram recebidos por mais de três mil torcedores em festa.

OS TIMES BRASILEIROS

Flamengo, 1981:

Raul; Leandro, Marinho, Mozer, Júnior; Adílio, Andrade, Zico, Tita; Nunes e Lico. técnico: Paulo César Carpeggiani.

Botafogo, 1981(!):

Perivaldo, Gaúcho Lima, Gaúcho, Rocha, Paulo Sérgio e Zé Eduardo. Ziza, Mendonça, Marcelo, Ademir Lobo e Gerson. Técnico Paulinho Almeida.

É o fim. FIM

Por Henrique Packter 10/02/2025 - 13:24 Atualizado em 10/02/2025 - 13:28

Criciúma perdeu, com o falecimento de dona Zulcema, uma das mulheres mais marcantes da sua história. Faleceu Dona Zulcema Póvoas Carneiro aos 100 anos de idade. Ela completou seu centenário em 23 de novembro 2019. Professora, ela foi fundadora da primeira escola particular de Criciúma, em 1941.

Dona Zulcema nasceu em Florianópolis em 22.11.1919, vindo a falecer cem anos depois em 19.12.2019.

Zulcema era filha de Agenor Mamede Póvoas e Ernestina Lemos Póvoas. Casou-se com Mário da Cunha Carneiro, filho de Jorge da Cunha Carneiro e Vitória Búrigo Carneiro.

Era mãe de 4 filhas: Zurene (casada com Vilson Sônego), Kátia (casada com Clodomir José Crippa), Maria Ernestina (casada com Dr. Celso Thadeu Menezes) e Sílvia Regina (casada com Reinaldo Stuart Júnior).

Professora normalista, desembarca em Criciúma em 1941. Passa a lecionar no Grupo Escolar Professor Lapagesse e em 1942 funda o Curso Particular Póvoas Carneiro, do qual foi diretora e professora  até sua extinção em 1962. Dirigiu os grupos escolares Professor Lapagesse, Humberto de Campos e Heriberto Hülse.

Foi Inspetora Regional de Educação da 4ª Região Escolar (Criciúma, Urussanga, Içara, Siderópolis, Nova Veneza e Morro da Fumaça). Presidiu o Centro Cultural José de Alencar em Criciúma.

Aposentada como diretora do Serviço de Arquivos do Tribunal Regional do Trabalho, instituição para a qual serviu através de concurso público, em 02.08.1994 é Cidadã Honorária de nossa cidade.

ONDE JOSÉ ADELOR LESSA E DONA ZULCEMA PÓVOAS CARNEIRO SE ENCONTRAM 

José Adelor Lessa relembra seu início como jornalista em Criciúma, vindo de Araranguá, fazendo cobertura de uma eleição do Sindicato dos Mineiros de Rio Maina. Este sindicato era uma espécie de sindicato teleguiado, acoimado de pelego e que existia porque interessava à classe patronal sua existência. Assim, estabelecia uma espécie de contrabalanço com o sindicato na cidade de Criciúma, sem vinculação de dependência com a classe mineradora patronal. Esta eleição, como as outras do mesmo sindicato eram marcadas por troca de votos e urnas para favorecer a chapa patronal. 

Lessa escreveu sobre tudo o que ocorreu na eleição, como era de seu costume. Porém, intuindo da periculosidade de divulgar eleição sindical em Criciúma, onde nervos e cafeteiras ferviam, procurou esconder sua condição de jornalista. 

Vai daí e ele peticiona para obter seu registro como jornalista. Registro de classe era concedido sem qualquer restrição, delonga ou demora, porém, na vez de sair o registro de Lessa, as coisas foram diferentes e o bendito registro não saia. Foram muitas as vezes que viajou a Florianópolis atrás do documento. 

A coisa não andava e calha ele viajar a Florianópolis justo em dia de feriado facultativo. Não havia vivalma no prédio, exceto por uma senhora que se acerca de Lessa e quer saber o que ele deseja naquela repartição em dia de meio-feriado. Faz perguntas, manifesta solidariedade quando sabe tratar-se de criciumense postiço, como ela. Dá-lhe água, cafezinho... 

E, só assim o registro profissional saiu. Era juiz togado do Ministério do Trabalho o Dr. Airton Minoggio do Nascimento. Teve ele nomeação em 21.08.1984 e posse em 10.09.1984, nomeado que fora em 1984. Dr. Airton Minoggio do Nascimento  foi nomeado para exercer o cargo de juiz togado daquele Tribunal do Trabalho, em vaga destinada ao Ministério Público da União, pela aposentadoria do juiz Dirceu de Vasconcelos Horta.

Airton Minogio fez questão de entregar pessoalmente o documento, assinalando que Lessa devia o recebimento do seu registro graças à Professora Zulcema Póvoas Carneiro.

A FORMATURA NA ESCOLA PARA FORMAÇÃO EM TÉCNICOS DE ENFERMAGEM

Dona Zulcema estudou na escola de enfermagem do Hospital São José, Criciúma, escola que hoje conta 54 anos e forma Técnicos em Enfermagem. Ela já não era tão jovem assim, mas o entusiasmo era o de uma garotinha. Titulada, passam-se alguns anos e um dos genros, filho do Dr. Celso Menezes,  decide estudar Medicina, em Buenos Aires. Lá, bastava apresentar alguns poucos documentos e, sem vestibular, sem mais nada, você já estava estudando para ser médico. Dona Zulcema decide acompanhar o neto e acaba se matriculando juntamente com o menino e se constitui em pouco tempo em grande atração no país do Prata. Uma celebridade. Era entrevistada nos canais de TV, rádio, nos jornais e revistas. Os jornais disputavam-na para entrevistas, palpites, para propagandas ou o que fosse.Apontada nas ruas e no comércio, Zulcema brilhou em toda a linha.

Infelizmente, o que é bom dura pouco e eis que chega o inverno platino e com ele uma afecção crônica de brônquios que obriga nossa heroína a abandonar os estudos, nos quais, diga-se de passagem, ela estava se saindo muito bem.

DONA ZULCEMA CEM ANOS DEPOIS

Zulcema retorna a Criciúma e o sonho de tronar-se médica é abandonado para todo o sempre. Os jornais amanhecem, certo dia, abrindo manchetes: 

“Criciúma perde dona Zulcema Povoas Carneiro” e “Professora, foi uma das fundadoras da primeira escola particular da cidade”.

“Criciúma acaba de perder uma das mulheres mais marcantes da sua história. Faleceu Dona Zulcema Póvoas Carneiroagora, faz pouco, aos 100 anos de idade. Ela completou centenário de existência mês passado, dia 23 de novembro. Professora, ela foi fundadora da primeira escola particular de Criciúma, em 1941 (19.12.2019)”

Por Henrique Packter 18/02/2025 - 08:56

Criciúma, cem anos em 2025
Fundação em 06/01/1880
1892, 12 anos depois, distrito de Araranguá
1914, capital brasileira do carvão
04 de novembro de 1925: A emancipação

Colegas centenaristas: Jornal O Globo, Corrida rústica de Rua São Silvestre, General Motors. Nascem Inesita Barroso, Tony Curtis, Paul Newman e a Marvada Pinga. John Baird, engenheiro escocês, realiza a primeira transmissão televisiva de objeto em movimento. Seu sistema de 240 linhas de varrimento mecânico foi adotado de modo experimental pela BBC até ser substituído pelo sistema de 405 linhas da Marconi. 1925: é feriado pela 1ª vez no Brasil. O presidente Artur da Silva Bernardes decreta 1º de maio feriado nacional, sancionando a resolução legislativa e brasileiros (do comércio, da indústria e banco) já podem gozar 15 dias de férias ao ano.

A maior empresa automobilística norte-americana, a General Motors, inaugura fábrica em São Paulo e começa fabricando 25 carros por dia. No Rio, Irineu Marinho, funda jornal O Globo a 29 de julho. Em São Paulo, começa a circular o Jornal da Tarde. Encontro da Coluna Paulista com a Coluna Prestes e em 10.06.1925 Prestes assume a chefia do estado-maior tornando-se líder das forças rebeldes, a Coluna Prestes. O astrônomo americano, Edwin Hubble, anuncia a descoberta de galáxias fora da Via Láctea. O pianista Art Gillham, na Colúmbia, realiza a primeira gravação elétrica do som. Surge a canção Chuá, Chuá (“E a fonte a cantá/ chuá, chuá / e a água a corrê/chuê, chuê…”), fácil de cantar, motivo de su a popularidade. Foi o maior sucesso do maestro gaúcho Pedro de Sá Pereira. Letra de Ari Pavão, lançada no Teatro Recreio, na revista Comidas, Meu Santo, Rio de Janeiro, 1925. Em 31.12.1925 foi realizada a 1ª Corrida de São Silvestre, em São Paulo, somente entre brasileiros. Em 1945 estrangeiros passariam a competir. Após assistir às Olimpíadas de 1924, o jornalista Casper Líbero criou a rústica. É inaugurada a sede do Senado Federal do Brasil, o Palácio Monroe, centro do RJ. O primeiro campeonato sul-americano de futebol, disputado pelas seleções da Argentina, Brasil e Paraguai é vencido pela primeira.

OS FILMES DE 1925

1. O Encouraçado Potekim (1925) · Grigori Aleksandrov
2. Em Busca do Ouro (1925) · Charles Chaplin
3. O Grande Desfile (1925) · King Vidor

O AUTOR DA MARVADA PINGA, MÚSICA DE 1925

Nome completo: Ochelcis Aguiar Laureano

Nascimento:  1º.05.1909, Votorantim, São Paulo
Morte, São Carlos,16.01.1996 (86 anos)
Local de morte: São Carlos, São Paulo

Gênero(s): Sertanejo

Ocupação: Cantor, compositor, violeiro

Ochelcis Aguiar Laureano (Sorocaba, Rio Acima, depois Votorantim, 1º.05.1909 — São Carlos, 16.01.1996); violeiro, poeta, cantor e compositor brasileiro.

Chuá, chuá foi o maior sucesso do maestro Pedro de Sá Pereira. Esta modinha, enquanto composição original, teve letra de Ari Pavão e foi lançada no Teatro Recreio, na revista Comidas, Meu Santo, no Rio de Janeiro, em 1925.

BIOGRAFIA

Ochelsis Aguiar Laureano foi casado com Maria Augusta Soares Laureano e teve seis filhos, três homens, já falecidos, e três mulheres, Marcis, Judith e Glaucia. Desde pequeno, tocava viola e fazia repentes e canções sertanejas. Como artista sertanejo, atuou em programas de rádio e shows artísticos de 1920 a 1942.  Formou as duplas “Irmãos Laureano”, “Laureano e Soares”, “Laureano e Mariano”, entre outras.

Escreveu poemas como “Capim Teimoso”, “Lenço Preto” e “O Barranco” além de músicas de sucesso como “Roseira Branca”, “O Balão Subiu”, “A Caçada”, “É Mió num Casá”, “Meu Sertão” e “Marvada Pinga”.

Em 1942, após 7 anos, contados desde 1925, Laureano estudou música tornando-se professor de canto orfeônico e de educação musical. ASSIM, A MARVADA PINGA É ANTERIOR A 1942. Laureano foi amigo pessoal e aluno do maestro Heitor Villa-Lobos.

Em 1948 passa a lecionar em várias cidades (Passo Fundo, Presidente Prudente, Caraguatatuba, Jundiaí, Santos e Bauru), onde ministrou aulas em diversas instituições por 14 anos e, em 10.09.1984 foi agraciado com o título de cidadão bauruense.

Laureano morreu aos 86 anos, a 16.01.1996, em São Carlos, cidade onde morou por quatro anos.

DADOS ARTÍSTICOS

Professor de música, estudou canto coral com Villa-Lobos. Tornou-se evangélico passando a viajar pelo país ensaiando corais das igrejas. Um dos seus grandes sucessos como compositor foi a moda de viola "Moda da Pinga", também conhecida como "Festança no Tietê", gravada em 1937 por Raul Torres. A canção foi posteriormente regravada por Inezita Barroso (1953), conhecendo ainda diversas outras regravações, entre as quais uma de Pena Branca e Xavantinho (1980). Formou dupla com diversos parceiros. A primeira com Soares, uma das pioneiras formadas no rastro de FÉ da Turma Caipira de Cornélio Pires, da qual fizeram parte.

Em 1931, lançou com Soares, "Desafio", seu primeiro disco e a moda de viola "Casamento", ambas de autoria da dupla. Com Soares gravou 14 discos em 78 rpm, interpretando entre outras as modas de viola "Valentia de voluntário" e "A mulher e o relógio", ambas de sua autoria. Participou com Cobrinha, Mariano e Arnaldo Meirelles do Quarteto da Saudade. Em 1938, sua valsa "Harmônica chorosa" foi gravada por Arnaldo Meirelles ao acordeom. No mesmo ano, gravou, com seus irmãos, a moda de viola "O crime do restaurante chinês", de sua autoria e com o Capitão Furtado e Dulce Malheiros as imitações "Amanhecer no sertão", dele e Ariovaldo Pires.

Em 1941, a dupla Nhá Zefa e Nhô Pai lançou, de sua autoria, a toada "Sonho de matuto". Foi parceiro de Ariovaldo Pires, com quem trabalhou no programa "Repouso", na Rádio Tupi. "Destinos iguais", outro grande sucesso, gravado entre outros por Chitãozinho e Xororó, Duo Glacial, Inezita Barroso, Marcelo Costa e Tonico e Tinoco. Formou dupla com Mariano em 1945, fazendo sucesso com a toada "Destinos iguais", dele e Ariovaldo Pires, lançada no mesmo ano. Com Mariano gravou ao todo três discos, interpretando entre outras a moda de viola "Lola Mariana" e o recortado "Boiadeiro folgado", ambas de Mariano. Em 1978, Craveiro e Cravinho gravaram de sua autoria e Ariovaldo Pires a toada "O sonho do matuto". Foi considerado um dos maiores violeiros dos anos 1930 e 1940. Em 1980 teve as composições "Deixei de ser carreiro", com Mariano e "Destinos iguais", com Ariovaldo Pires, gravadas por Rolando Boldrin no disco "Giro a giro", lançado pela Continental.

Em 1993, Rolando Boldrin regravou pela RGE sua "Moda da pinga (Marvada pinga)" no CD "Disco da moda".

LITERATURA EM 1925

25.02 - É fundada a Biblioteca Mário de Andrade, na cidade de São Paulo, Brasil.

Livros de 1925

O Grande Gatsby - F. Scott Fitzgerald

O Processo - Franz Kafka

Mein Kampf - Adolf Hitler

Nascimentos

Data Nome - Profissão Nacionalidade

14 de Junho - Dalton Trevisan Brasil                           

3 de Outubro - Gore Vidal, EUA

PRÊMIOS LITERÁRIOS

Nobel de Literatura - George Bernard Shaw.

George Bernard Shaw (Dublin, 26.07.1856 – Ayot St Lawrence, 02.11.1950), dramaturgo, romancista, contista, ensaísta e jornalista irlandês. Cofundador da London School of Economics, também autor de comédias satíricas de espírito irreverente e inconformista.

Shaw impacientava-se quando percebia exploração da classe trabalhadora. Socialista, escreveu folhetos e discursos  para o Socialismo, tornando-se orador dedicado à promoção de suas causas, que incluem ganhos e direitos iguais para homens e mulheres, aliviar os abusos contra a classe trabalhadora, rescindir a propriedade privada de terras produtivas e promover estilos de vida saudáveis. Em pouco tempo, era ativo na política local, no London County Council.

Ele e o cantor Bob Dylan foram os únicos a terem obtido um Nobel de Literatura (1925) e um Óscar (1938), recusando-os. Shaw por suas contribuições para a literatura e por seu trabalho no filme Pygmalion (adaptação de sua peça de mesmo nome). Shaw quis recusar o Nobel porque não tinha gosto por honrarias públicas. Mas, acabou aceitando, a pedido da esposa que considerava aquele Nobel homenagem à Irlanda. Contudo, rejeitou o dinheiro, pedindo que os fundos fossem usados para financiar traduções de livros suecos para o inglês.

VIDA E OBRA

Placa no local onde nasceu em 1856, em Dublin na Irlanda: "Bernard Shaw, autor de muitas peças, nasceu nesta casa em 26 de julho de 1856".

Filho de George Carr Shaw (1814-1885), e Elizabeth Lucinda Gurly (1830-1913), cantora profissional, nasceu numa tradicional mas empobrecida família protestante. De início foi instruído por um tio, e, aos 16 anos empregou-se num escritório. Adquiriu amplo conhecimento artístico graças à mãe, Lucinda Elizabeth Gurly Shaw, e às frequentes visitas à Galeria Nacional da Irlanda. Decidido a tornar-se escritor, transferiu residência para Londres em 1876, porém, por mais de dez anos, seus romances foram recusados por todos os editores da cidade, assim como a maior parte dos artigos enviados à imprensa. Tornou-se vegetariano, fervoroso defensor do socialismo, orador brilhante, polemista. Fez as primeiras tentativas como dramaturgo.

Em 1885, conseguiu trabalho fixo na imprensa e, durante quase uma década, escreveu resenhas literárias, críticas de arte e colunas musicais. Sua atividade literária, em especial a produção teatral, foi sequência de sucessos; destacou-se também na crítica literária, teatral e musical, na criação de panfletos e ensaios sobre assuntos políticos, econômicos e sociais. Foi, ainda, prolífico epistológrafo. Como crítico de teatro da Saturday Review (1895), atacou insistentemente a pobreza qualitativa e artística da produção teatral vitoriana.

Durante a Primeira Guerra Mundial, interrompeu sua produção teatral e publicou polêmico panfleto, Common Sense About the War, no qual considerava o Reino Unido, os aliados e os alemães igualmente culpados e reivindicava negociações de paz.

Recusou o Nobel de Literatura de 1925 e, em suas últimas peças, intensificou as pesquisas com a linguagem não-realista, simbolista e tragicômica. Por cinco anos deixou de escrever para o teatro e dedicou-se ao preparo e publicação da edição de suas obras escolhidas (1930-1938), e a tratado político. Sua correspondência também foi publicada, destacando-se a troca de cartas com o escritor H. G. Wells.

Faleceu em 02.11.1950. Seu corpo e o corpo da esposa foram cremados, as cinzas misturadas e lançadas no jardim de sua casa ao longo da estátua de Joana d'Arc em Shaw's Corner, Hertfordshire, Inglaterra.

George Bernard Shaw (Socialista) e Winston Spencer Churchill (Conservador) tratavam-se desrespeitosamente mas era evidente que os dois reconheciam as grandes qualidades que ambos ostentavam. Bernard Shaw teria peça de teatro de sua autoria representada em Londres. Remete, então, dois ingressos para Churchill acompanhados de recado: venha assistir à peça e traga um amigo, caso ainda tenha algum. Churchill respondeu quase imediatamente que, infelizmente, não poderia assistir à estreia da peça por haver assumido compromissos políticos inadiáveis para a data. Mas, iria, claro a uma segunda exibição da peça, caso houvesse uma segunda apresentação. 

Por Henrique Packter 24/02/2025 - 11:32 Atualizado em 24/02/2025 - 14:24

Há homens que são escritores e fazem livros que são verdadeiras casas e ficam. Mas, o cronista de jornal é como o cigano que toda a noite arma sua tenda e pela manhã a desmonta e vai.

 

Há casos lindos de amor por toda a vida, já me falaram, já vi. Mas, não entendo bem por que falamos de casos assim com uma ponta de pena   (Eles são tão unidos, coitados). De certo modo é mesmo muito bonito, consola ver. Porém, como certas telas, a gente deve olhar de uma certa distância.

 

As eleições ainda estão longe mas não se fala em outra coisa nas colunas dos jornais. O governador já anda fazendo alianças e distribuindo cargos para vencer novamente nas próximas eleições.

 

Lembro do meu amigo Romeu Lopes de Carvalho, o Romeu Penicilina, zeloso funcionário do IAPTEC e enfermeiro, na vida civil, sempiterno candidato a vereador e que conseguiu (uma única vez) eleger-se em Criciúma.

 

Romeu Penicilina, véspera de eleições, ao encontrar um incauto eleeitor na área de sua jurisdição, a grande Póspera,  onde reinava  o PTB de Vânio Faracco.

 

Romeu se exercitava, fazia contas:" Veja o vereador João Aderbal Agostinho da Silva. Chegou à Câmara entre 1967 e 70. Foi vereador na época em que não se ganhava salários para exercer a função. Fora eleito pela Arena na disputa de 1966 com 1,3 mil votos. “Foi o segundo mais votado, quase 10% da cidade, poucos votos atrás do seu Algemiro Manique Barreto, o mais votado”.

 

Romeu continuava "Com qualquer 500, mil votos eu me elejo. Só entre colegas do IAPTEC contei seguros 200 votos. Sou Presidente da Banda Musical Cruzeiro do Sul, só aí são 100 votos. Sou presidente da Associação Ciclistas de Criciúma, só aí são mais 200 votos, Um total de . E a presidência da Escola de Samba Vila Isabel? São, garantidos, outros 200 votos Os mais antigos vão lembrar-se dos desfiles de bicicletas adornadas com as cores pátrias, sua responsabilidade nos desfiles de 7 de setembro.

 

Exatava-se, agredindo inconscientemente o eleitor com o cotovelo direito golpeando várias vezes a barriga eleitoral:

 

- E os curativos, as injeções feitas no gratis (fazia com dois dedos a simulação de uma faixa, como no manto sagrado do Vasco da Gama, RJ), isso não conta? (Ajeitava com os ombros a camisa debaixo de um casaco que nunca deixava de usar).Demonstrava aqui irritação com a ingratidão do eleitorado.    

 

Vereador com mandato de 1970-1972, era vice-presidente do legislativo. Foi suplente de deputado federal. Desenvolveu intensa atividade social, sobretudo em inúmeros eventos de caráter esportivo.  também fundou e foi  presidente da Associação Ciclistas de Criciúma e presidente da Escola de Samba Vila Isabel. Os mais antigos vão lembrar-se dos desfiles de bicicletas adornadas com as cores pátrias, sua responsabilidade nos desfiles de 7 de setembro. 

 

 

ROMEU PINICILINA, natural de Itajaí, 29.12.1921, era filho de José Lopes de Carvalho e de Etelvina Ramos de Carvalho, casou-se com Carmezinda (Carmem) Freitas de Carvalho: o casal não teve filhos. Funcionário autárquico do IAPETEC de Criciúma, onde executou as funções de enfermagem ambulatorial, incorporado depois ao INAMPS, era dotado de zelo e capacidade invulgares.

 

Romeu Pinicilina era personagem menor do folclore criciumense, mas não menos importante. Filiado ao PTB tentava galgar os degraus da política pela Câmara de Vereadores.

 

ROMEU LOPES DE CARVALHO, O ROMEU PENICILINA. ENFERMEIRO, MEMBRO DO DIRETÓRIO DO PTB, CICLISTA                        

 

OS COMEÇOS. FICHA DE ATENDIMENTOS EM OFTALMOLOGIA

 

Conheci ROMEU LOPES de CARVALHO, o Romeu Pinicilina, atendendo-o profissionalmente em 08.9.1960, quando ele contava 38 anos de idade. Natural de Itajaí, agora residia em Criciúma. Tinha pterígios internos . Voltou a consulta em 29.3.1962.  Era míope de -2.00 graus.  Tinha pressão arterial e ocular normais. Ainda consultou em 20.1.1967, 08.1.1969, 11.2.1976, 8.1.1969, 11.2.1976, 17.10.1979, 11.1.1983, 23.3.1983 quando remove seu pterígio interno no OE.  Os pontos são removidos em 29.3. 1983. Tinha queixa de estafa em 13.3.1990.  A PA sobe e chega a 14x10.  Em 29.10.1992, aos 71 anos de idade  seu último exame em minha clínica já apresentando um catarata em AO e com PA normalizada.

 

 

1945, ANO ZERO

 

Nesse ano, morre o presidente dos EUA, Franklin Delano Roosevelt, por AVC. Assume seu cargo o vice-presidente Harry Truman. 08.5.1945 é o dia da vitória na Europa, dia em que a Alemanha nazista rendeu-se incondicionalmente às forças aliadas. A 6 e 9 de agosto Hiroshima e Nagasaki são bombardeadas com armas nucleares. A Segunda Guerra Mundial vai terminar a 2.9.1945 com a vitória dos aliados. A 24 de outubro a ONU é fundada e a 29 de outubro Getúlio Vargas é deposto da presidência do Brasil, finda o Estado Novo. Aporelly, o Barão de Itararé se regozija. Eterna vítima da violência da polícia política carioca, em seu box de trabalho no Jornal A Manhã (sua coluna chamava-se A Manha), pendurara aviso:

 

- Entre sem bater! 

 

Quando HENRIQUE DAURO MARTIGNAGO  retorna a Criciúma, início dos anos 60, a cidade está em efervescência, exatamente o ambiente que sua personalidade inquieta requeria. Imagino-o apresentando armas ao chegar:

 

- Quem mandava aqui?

 

BRASIL, PAÍS SEM MEMÓRIA. O IMBECIL COLETIVO

 

Noutros países o passado integra o presente; mesmo vilões como GUEVARA ganham investigadores e admiração. Na Argentina há verdadeira disputa em torno de personagens enterrados, embalsamados e de seus ossos – o caso de Perón. No Brasil essas coisas não são levadas muito a sério e há ossos ilustres perdidos por aí.

 

A vida de ROMEU LOPES DE CARVALHO, vivida em Criciúma, é tanto mais notável por se passar num momento decisivo de nosso desenvolvimento, quando todos grandes protagonistas de nossa história já aqui estavam e contracenaram com nosso singular personagem. Às vezes, ler registros daquela Criciúma exige visão ampla e estômago forte. A indústria carvoeira, suas semelhanças e estranhamentos com todo o resto; seus sindicatos, empresários e mineiros, políticos, religiosos, comerciantes, médicos, engenheiros, contadores, jornalistas -, estranho, cruel e impiedoso mundo de negócios em que tudo precisava estar em seu devido lugar sob pena de catástrofe. 

Historiadores sabem que o passado não é um campo imóvel de contornos definidos. As interpretações históricas favorecem a ampliação do conhecimento possibilitando conhecer os fatos tal como eles realmente ocorreram. A análise do passado não nos obriga à ingestão de pratos feitos, quase sempre indigestos. Assassinos da memória parecem não ter dúvidas a respeito do caminho percorrido e a percorrer. Para ficar numa só voz crítica, vinda do universo religioso, Leonardo Boff disse a respeito:

 

 

- Quem tem tanta certeza não pode ter misericórdia. Não pode entender e respeitar a convicção alheia – condição indispensável da vida democrática.

 

AS LARANJAS DE ROMEU PINICILINA

 

Nos anos 55 era intensa a movimentação no sentido de vacinar o maior número de pessoas contra a PARALISIA INFANTIL. Romeu ideou treinar voluntários para aplicação da vacina de JONAS SALK, que era injetável. Para tanto aplicava água em seringas, injetadas numa laranja.

 

Passa-se o tempo e a Próspera reclama que as vacinas do Romeu não funcionam, o índice de morbidade e de mortos é o mesmo. Romeu vai verificar o que havia: os voluntários continuavam a injetar a vacina, desta vez ainda na laranja!  

 

Por Henrique Packter 03/03/2025 - 13:25 Atualizado em 03/03/2025 - 13:27

NUR NA ESCURIDÃO, livro com o qual SALIM MIGUEL conquistou o PRÊMIO MACHADO DE ASSIS da ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, representa uma luz na História da Imigração árabe no Brasil. Mas, NUR é também o nome dado à ursinha polar, primeira da espécie nascida na América Latina, e no Aquário de SP, indagorinha, em novembro de 2024,  quando é apresentada ao público. Desde o nascimento  esteve num espaço isolado com a mãe, a ursa polar Aurora. Batizada como Nur, em imagens divulgadas pelo Aquário, ela aparece rolando pela área destinada aos ursos polares. Ela corre, explora o espaço e brinca no gelo.

Vinda ao mundo em 17.11.2024, desde o nascimento estava numa espécie de toca com a mãe - a ursa polar Aurora. Ia esquecendo de informar que Nur é filha de Aurora com Peregrino - dois ursos polares nascidos na Rússia e que vivem faz 10 anos em São Paulo.

O nascimento da bebê foi gravado por câmeras que ficam na área dos animais no Aquário. Em imagens divulgadas pela instituição é possível ver o animal nascendo sem pelos .Após o parto, a mãe lambe e depois deita a ursinha no seu corpo, provavelmente para aquece-la. Segundo veterinários do Aquário, o primeiro ano de vida de um urso polar, em especial as primeiras horas, representa período crítico para sua sobrevivência. Por serem frágeis, os filhotes precisam de atenção 24 horas/dia e também monitoramento diário para se intervir, caso exista algum problema.

GESTAÇÃO

Segundo o Aquário, a suspeita da gravidez de Aurora surgiu da observação atenta da equipe às mudanças no comportamento da ursa. Ela começou a passar mais tempo na toca, parecia mais cansada e reduziu a interação com Peregrino. "A separação entre fêmea e macho, no contexto da reprodução de ursos polares, é um comportamento crucial e natural. Na natureza, ursos polares são animais solitários, com exceção do período de acasalamento. Após a cópula, o macho não desempenha nenhum papel nos cuidados com a prole. A fêmea, por sua vez, afasta-se dos machos, buscando um local seguro para construir sua toca e dar à luz", afirmou o Aquário. O macho por perto seria um fator de estresse, vejam só.

ISSO, COM RELAÇÃO À NOSSA URSINHA POLAR NUR. E QUANTO A SALIM MIGUEL, TALVEZ O MAIOR ESCRITOR CATARINENSE?

A imigração árabe de sírios e libaneses no Brasil teve início no final do século 19 e início do século 20, sendo tema de grande relevância histórica e cultural. Estes imigrantes enfrentaram enormes desafios ao se estabelecerem num país com cultura, crenças e língua diferentes. Milhares de famílias de libaneses desembarcaram no Brasil e grande parte desses imigrantes eram cristãos. Somente no século 20, com a derrocada do Império Otomano  (1918), a imigração de libaneses não cristãos (judeus e muçulmanos) passou a ser mais significativa. Aqui chegando, já na primeira etapa, compreendendo os anos de 1880 a 1938, desembarcavam ou no porto de Santos (SP) ou do RJ, estabelecendo-se  tanto aí como partiam para Minas Gerais, Goiás, Amazonas e Sul do Brasil.

Esses imigrantes muito contribuíram para o crescimento econômico brasileiro, também chamando a atenção para uma cultura distante da Europa, até então a grande referência para a formação do nosso cenário cultural. Quantos vieram? Não há como precisar, pois o censo nacional não permite registro da identidade étnica, apenas a racial. Mas, faz pouco, a Câmara de Comércio Árabe Brasileira encomendou pesquisa ao Ibope Inteligência para se aproximar dos números dessa imigração, uma vez que em pesquisas empíricas os números poderiam variar de 3 a 16 milhões de descendentes.  Concluiu-se que a população árabe no Brasil pode variar de 9,50 a 13,70 milhões de pessoas, ou 6% da população br asileira. Essa diáspora se destaca no cenário nacional, pela sua contribuição para a formação cultural e pela crescente presença de seus descendentes na política e na literatura.

as, como classificá-los? Não havia uma  característica identitária definida, não eram brancos europeus, asiáticos, muito menos negros. A identidade étnica-racial, consequência da falta desta identidade, representa na literatura produzida no país por autores brasileiros, o estereótipo do imigrante árabe. É disso que NUR trata.

RESUMO

No centenário de nascimento do escritor líbano-Biguaçu Salim Miguel, analisemos  a história da imigração libanesa no Brasil a partir do  romance NUR NA ESCURIDÃO e a partir do personagem José Miguel, o pai, quando crescentes desafios e dilemas do personagem ressoam com a experiência humana.  

Em 2024 celebramos o centenário da publicação do Manifesto da Poesia Pau-Brasil e o nascimento do escritor líbano-brasileiro SALIM MIGUEL, radicado desde sempre em Florianópolis. Data oportuna para considerarmos a formação da nossa identidade. O Manifesto da Poesia Pau-Brasil é divisor de águas do Modernismo, segundo o próprio autor, Oswald de Andrade, o qual   articula o projeto da construção da identidade da cultura brasileira. Desconsagrando a cultura imposta pela colonização, busca a nacionalidade pela recuperação e valorização de nossas raízes étnicas híbridas. Já as comemorações e celebrações do centenário de nascimento  de Salim Miguel, permitem refletir sob re Nur na Escuridão (1999), na medida em que ele fornece testemunho da assimilação e integração de uma família de imigrantes no Brasil.

Machado de Assis, ícone da literatura brasileira, tratando em suas crônicas destes imigrantes já esboça um Orientalismo Tropical, na medida em que a visão estereotipada do cotidiano desse imigrante não é apresentada negativamente, mas de forma positiva e com o refinado humor machadiano. No século 20 Jorge Amado e Oswald de Andrade seguem o modelo.  Autores descendentes da Diáspora só viriam a partir da segunda metade do século 20. Com a fixação dos imigrantes no Brasil e sua inserção em diferentes segmentos da vida cultural brasileira, o século 20 colocaria os descendentes dos primeiros imigrantes no protagonismo da produção literária brasileira, na medida em que pro duzem literatura com tomada de consciência de sua identidade, reproduzindo suas angústias e questionamentos.  Além de Salim Miguel há Raduan Nassar em Lavoura Arcaica (1975), narrada do ponto de vista do imigrante, e que expõe a história da imigração e os conflitos existenciais que envolvem diaspóricos e seus descendentes. Milton Hatoum (1989) publica obra-prima da literatura brasileira contemporânea, Relatos de um Certo Oriente, romance que se destaca por sua poética narrativa, densidade temática e habilidade em retratar as complexidades das relações familiares, bem como as tensões sociais e culturais vividas pela família de libaneses estabelecida em Manaus. Hatoum  mistura passado e presente, revelando as intricadas relações entre os membros da família. Contada através de múltiplas vozes , oferece perspectivas para a compreensão dos personagens e suas motivações.

O líbano-Biguaçu Salim Miguel, também autor filho da diáspora, tem no romance NUR NA ESCURUDÃO (1999) a história da imigração árabe no Brasil através da inserção da família Miguel na sociedade, mas que poderia ser de qualquer outra família sírio-libanesa . Nascido no norte do Líbano, no vilarejo de Kfarsaroun,  distrito de Khoura (1924), Salim Miguel e sua família chegam ao Brasil quando ele contava três anos de idade. Foi um dos líderes do Grupo Sul, movimento artístico e literário que levou o modernismo para SC,  transformando o ambiente cultural local nas décadas de 1940 e 1950. Também atuou como jornalista, tinha livraria, foi um dos editores da revista literária Ficção no RJ.  Com Cruz e Sousa são os mais importante escritores de SC. De 1983 a 1996, ocupou cargos de chefia na Editora da UFSC e na fundação cultural de Florianópolis.

Em 1999, o romance autobiográfico Nur na Escuridão ganha os prêmios de melhor romance da Associação Paulista de Críticos de Arte  e da Nona Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo. Em 2009, Salim Miguel  ganha o Prêmio Machado de Assis concedido pela Academia Brasileira de Letras. 

Yussef/José Miguel, personagem central, representa as lutas e triunfos enfrentados pelos imigrantes libaneses no Brasil. “Nur na escuridão” trata da adaptação do imigrante libanês, especialmente através da trajetória do personagem principal, José Miguel ou Yussef Miguel, pai do autor. Essa trajetória oferece um vislumbre dos desafios de forjar uma nova vida num ambiente desconhecido. Questiona-se deveria ter imigrado? No livro trata das maneiras pelas quais a cultura libanesa se transforma na realidade brasileira.

Nur  significa luz em português, a primeira  palavra aprendida por Yussef, a luz que ele procurara lançar para compreender toda a sua trajetória de vida, a luz que se enfraquece quando “o pai agoniza”, a luz que   o narrador tenta manter acesa enquanto a mão paterna vai se soltando da mão do filho na derradeira despedida: “ A mão do pai solta-se da mão do filho, tomba mole.”

A cena inicial do romance retrata a chegada da família ao Cais do Porto do RJ na Praça Mauá, 1927. A travessia do oceano durou pouco mais de um mês desde Beirute. Yussef Miguel começava a gravar na memória as últimas imagem de seu país, o Líbano, o Mar Mediterrâneo atuando, assim,  como fronteira para a família, o fim e o início.  A família Miguel era uma das inúmeras famílias que no Brasil aportavam durante a segunda onda migratória, entre as duas guerras mundiais. Destinos como Austrália e EUA tornaram-se de difícil acesso para os imigrantes, por conta das cotas migratórias. Passam eles a imigrar para a América Latina. Entre 1920 e 1926, a instalação do Mandato Francês no Oriente Médio, causou grande instabilidade na r egião, resultando na retomada do fluxo migratório que havia perdido força com a Primeira Guerra. O destino para as Américas era invariavelmente reorientado, fosse pela imposição de cotas migratórios por países como os EUA, fosse pelo atraso na emissão de vistos nos portos europeus para os árabes, na medida em que não havia representação diplomática brasileira no Líbano e na Síria. 

A família Miguel pretendia partir para os EUA, mas cotas para os orientais se esgotaram. Decidiram então, entrar no país pelo México: “(…)Optam pelos EUA.  Embora exista outro empecilho: a cota para orientais está esgotada. Terão que se aventurar, entrar, como tantos, pelo México, de contrabando”. Porém, os planos mudariam: Yussef apresenta infecção ocular que, mesmo tratada não cede, e o visto para o México é negado definitivamente:

“Um dia Yussef chega em casa transtornado. Desaba numa banqueta, esconde o rosto entre as mãos. Tamina, sua mulher, interrompe o que fazia, aproxima-se, preocupada. E ouve o que lhe é transmitido aos trancos: negado o visto para o México.” Decidem-se pela América do Sul como destino. Havia os irmãos de Yussef no Brasil e o pai dela na Argentina. Após mais de um mês de viagem,  como outros imigrantes, desembarcavam no RJ e depois de tentativas frustradas de  lá se estabelecerem,  seguem para o sul do Brasil, para SC; as cidades de São Pedro de Alcântara,  Biguaçu e  Florianópolis receberiam a família Miguel. 

Grandes mudanças ocorrem na vida do patriarca Yussef/José Miguel, que navega entre as expectativas de sua cultura de origem e as demandas da sociedade brasileira. Vive jornada marcada por sucessos e fracassos, momentos de conflito e de integração, todos eles contribuindo para compreensão maior da experiência imigrante. Distante das obras produzidas por aqueles que não pertenciam à cultura oriental,  a história dos árabes no Brasil é resgatada em  Nur na escuridão.”

No passado desta família, sem espaço para sobreviver em sua terra natal e com esperança de enriquecer na “América”, parte para uma “nova pátria”. Imigrantes árabes, eram aceitos no Brasil, dando o primeiro passo integrando-se na sociedade local pela via econômica, mascateando pelo interior. Recorrendo à ideia de pioneirismo presente na figura histórica do bandeirante paulista, a participação cultural e econômica dos sírio-libaneses das grandes levas migratórias foi legitimada pela sociedade brasileira que ao absorvê-los culturalmente, concedia ao mascate árabe título de “bandeirante oriental”, forjando-lhes cidadania concebida pela sua contribuição econômica:

O segundo passo para a legitimação do imigrante no cenário nacional seria sua absorção e assimilação da cultura local. A coexistência cultural entre brancos, negros e índios traçou um perfil particular na cultura brasileira, formando-se aqui uma estrutura culturalmente plural. Com isso, a aculturação ou assimilação dos imigrantes transcorria aparentemente pacífica e naturalmente, porém, nada impedia que um traço étnico da identidade dos imigrantes persistisse, por mais que estivessem integrados na “nova pátria.” Como aconteceu com a maior parte dos imigrantes que vieram para o Brasil, a absorção e assimilação da cultura brasileira fora quase integral. No caso do patriarca da família Miguel, seu nome foi sendo alterna do conforme assimilava os hábitos da nova terra.

“Ao longo do romance, várias alusões são feitas à maneira pela qual Yussef é chamado, traço identitário revelador da posição que seu interlocutor adota na relação. No capítulo inicial, quando Yussef fala a outros libaneses na igreja ortodoxa do RJ, o narrador sublinha que seu nome pode variar: "E tu Yussef (ou José, dependendo do perguntador […]) » (p. 21), « (na igreja o pai volta a ser Yussef) » (p. 23). É em São Pedro de Alcântara que começa a deformação de seu nome para o equivalente em língua portuguesa (Yussef/Josef – p. 98). Ao longo do tempo, os epítetos se multiplicam: seu José, seu Zé, seu Zé Miguel, seu Miguel, seu Zé Gringo, seu Zé Turco, Zé Turco. At&eac ute; Tamina acaba por interpelá-lo de diferentes maneiras: Yussef, José, e por um nome híbrido, Yusé (p. 181). No entanto, quando ela está preocupada, é em sua língua materna que ela o chama: "(às vezes, entre eles, na intimidade, quando está preocupada, é Yussef)" (p. 123), "a mãe, mais prática, preocupada, costuma repetir: José, precisas cobrar (…) um horror as dificuldades, a fome, a miséria, onde vamos parar, Yussef?" (p. 125).

A riqueza de Nur na escuridão arrasta o leitor para uma reflexão sobre as relações entre imigrantes e a “nova pátria”, lança um olhar crítico sobre o passado daqueles que acreditaram na prosperidade de um país totalmente adverso ao deles. Recorrendo a um texto literário, como a narrativa de Salim Miguel, é possível reviver e compreender a história não só dos imigrantes árabes no Brasil, mas de todos aqueles que abandonaram seu país em busca de “nur” (luz) para sua sobrevivência.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para compreender a inserção do imigrante árabe no Brasil e como se configura sua representação na literatura no  âmbito  dos  Estudos da Imigração no Brasil e tendo como motivação o centenário do escritor Salim Miguel, atentemos como procedeu a inserção do imigrante no Brasil. Nur da Escuridão insere-se  numa  linha  para reflexão acerca da produção literária dos “filhos da Diáspora” iniciada pela segunda geração de descendentes dos primeiros imigrantes bem como, em momento mais recente, compreender  os desafios vividos pelas ondas de deslocados pelo mundo.

 Na medida em que os filhos desta diáspora conquistavam espaços nos campos político, econômico e cultural do país, no  âmbito  da  História e da Crítica Literária,  atentemos  para  o romance em questão para que possamos compreender os encontros do Brasil com o Oriente Médio ao serem dadas múltiplas vozes para as narrativas que compõem o cenário literário nacional e o sentimento que afeta os imigrantes que voluntária ou involuntariamente deslocam-se para o exílio. Nesta análise, então, não poderíamos passar distante da reflexão de Edward Said sobre a experiência do exílio, vista por ele como complexa e multifacetada, como nos é apresentada a partir do personagem Yussef/José M iguel. As narrativas dos “filhos da diáspora” representadas aqui pelo romance de Salim Miguel desafiam as narrativas dominantes que tendem a reduzir o imigrante a figura sem voz, sem poder, ou ainda e talvez pior, estereotipada.

Em última análise, “ Nur na Escuridão” mergulha nas águas turbulentas da travessia da diáspora as questões identitárias, apresentando visão emocionante sobre a experiência humana. Salim Miguel se consolida como um dos principais escritores da literatura brasileira contemporânea, oferecendo narrativa rica e envolvente despertando reflexão profunda sobre as complexidades da vida e da identidade. Assim, em tempos em que os deslocamentos parecem ser o único meio para a preservação do humano  e que paradoxalmente aumentam os muros para impedi-los, “Nur, na Escuridão”, é convite para refletir sobre as complexidades do processo de adaptação, e como isso impacta a identidade e experiência do imigrante seja ela em qualquer tempo.

 

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