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* as opiniões expressas neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do 4oito

O Jornal da Manhã teria feito 37 anos

Denis Luciano
Por Denis Luciano 26/08/2020 - 11:15Atualizado em 26/08/2020 - 11:46

Era o dia 25 de agosto de 1983. Na esteira do antigo Correio do Sudeste, e se propondo a ser o grande jornal de Criciúma e do sul catarinense - como foi por um bom tempo - o Jornal da Manhã passava a circular. E vinha imponente, com investimentos, tendo à frente o casal João Pedro e Zuleide Herrmann. Com times e mais times de jornalistas de peso ao longo das décadas, usufruiu de confortável liderança no mercado por pares e pares de anos.

Porém, começou um vigoroso declínio nos anos 2000. A crise se acentuou na década atual. De voos em céu de brigadeiro por mais de duas décadas, com faturamentos polpudos e liderança editorial incontestável, viu a ponta ser ameaçada até acabar destronado há pouco mais de uma década pelo A Tribuna e, na sequência, pelo Diário de Notícias, dois que atualmente formam um só, o Tribuna de Notícias.

O JM esteve presente em grandes momentos da história da região. O futebol sempre foi conferido de perto

Em uma das grandes fases que viveu, teve o nosso diretor aqui da Som Maior e 4oito, jornalista Adelor Lessa, como cabeça pensante, líder na administração e no conteúdo. O JM viu surgirem e desaparecerem concorrentes, sem sofrer arranhões. Pelo contrário, vendo circulação crescer e arrecadação, idem.

Em 1996, uma das grandes fases do Jornal da Manhã, tempos de liderança incontestável. Era um dos jornais de maior circulação de Santa Catarina

Porém, a aguda crise financeira, uma série de problemas administrativos e a natural perda de bons valores para a concorrência foram, pouco a pouco, fazendo ruir o JM, que ainda lutou bravamente nos últimos anos. 

Uma das várias passagens de Zuleide Herrmann pelo JM que ela fundou com o marido João Pedro em 1983

Em um cenário com três jornais a partir de 2010, quando o Diário de Notícias, do empresário Edson da Soler, entrou em circulação, e com já nesta época o A Tribuna - descendente do velho Tribuna Criciumense, de 1955 - despontando, o JM teve dificuldades para encontrar espaço no mercado. A publicidade começou a minguar, os adversários apareciam cada vez mais bem estruturados, melhor equipados e com as contas sob controle, e o Jornal da Manhã dava claros sinais de cansaço. Àquela altura, se algum dos periódicos criciumenses deveria sair de cena por questões de sobrevivência, cada dia mais parecida que era o JM o fadado a esse destino.

Por vários anos, inclusive até depois de fechar, o JM manteve essa mídia externa em um outdoor na Rua Rui Barbosa
Foto: Denis Luciano / Arquivo

Mas, claro, o leitor acaba sendo o último a saber quando uma crise dessa corrói um veículo. Até as últimas semanas, as evidentes dificuldades eram mais visíveis para quem efetivamente vivia o mercado. Seja os ex-funcionários, a essa altura credores de uma massa quase falida que se tornaria inviável, seja os funcionários de então, acossados pelos problemas.

Tempos de acirrada rivalidade com o A Tribuna, em 2010

Houve dois momentos em que o Jornal da Manhã poderia ter mudado de mãos na história recente, antes do fechar das portas. Ainda quando a crise era muito mais interna que pública, eram recorrentes as sondagens externas. Houve uma bem adiantada negociação para que a então RBS adquirisse o JM e fizesse dele a sua marca impressa na região. O acordo fez água. Anos depois, na última sobrevida do Jornal da Manhã, o empresário Henrique Salvaro o levou para sua sede de comunicações, na Próspera, ao lado da Rádio Eldorado, e ali o matutino operou por algum tempo, na expectativa de uma adição de recursos e de uma compra pelo Grupo Salvaro, o que por fim não aconteceu.

A antiga sede do JM na Rua 15 de Novembro, no Centro

Seguindo nas mãos do empresário Augusto Cancelier, seu superintendente até o fechamento, o Jornal da Manhã partiu para sua última sede, uma sala no Centro, não muito longe do andar inteiro que ocupou por anos a fio na Rua 15 de Novembro, um prédio que encontra-se até hoje vazio, desde a saída do JM daquele espaço por questões econômicas - sim, a esse tempo já faltava dinheiro para pagar o aluguel -, isso lá por 2016. No fim do mesmo ano, migrou da Próspera para o último endereço onde, um semestre depois, mandaria à gráfica sua última edição.

Mesmo nos últimos tempos, o JM não descansou de investigar e levantar os importantes debates do cotidiano

Foi em 10 de maio de 2017 que o JM saiu às ruas pela última vez. Era a sua edição de número 9.871. Estaria hoje já com mais de 10 mil edições publicadas. Vivia o seu ano 33, fechou pouco mais de três meses antes do trigésimo quarto aniversário. Nesta terça-feira teria completado 37 anos, se circulando estivesse.

A notícia que o JM não deu no impresso: a sua saída de circulação / Reprodução / Twitter
Em agosto de 2015, no penúltimo aniversário do JM em circulação, fizemos essa capa. Fui o editor do dia, e colocamos na capa a dona Beverly Godoy Costa, nome histórico do jornalismo local e do próprio JM, ao lado do então prefeito Márcio Búrigo, cortando o bolo / Instagram / Reprodução

Quando do fechamento, o diretor era Milton Carvalho. Ele avisava ao mercado que se tratava de uma suspensão, que poderia ser breve, conforme os encaminhamentos dados. Não houve como retornar. Os investidores não apareceram, as dívidas se acumularam e já faz mais de três anos que o Jornal da Manhã ficou no passado, como consulta de acervo histórico. E que acervo! Foram grandes e premiadas reportagens, de equipes fantásticas, de editores de alto nível, repórteres qualificados, fotógrafos primorosos, diagramadores habilidosos, colunistas super bem informados e articulados... enfim, uma lacuna importante ficou aberta na história de Criciúma com a extinção do Jornal da Manhã.

JM das várias editorias em suas edições diárias
Representamos o JM na cobertura do impeachment da presidente Dilma em Brasília, em 2016 / Instagram / Reprodução

É muito difícil prever o retorno do JM. Quase impossível. Eu, como colunista que fui em quatro períodos diferentes, e penúltimo editor-chefe da história do JM, não acredito, sinceramente, no retorno. O cenário é outro. Os jornais impressos precisavam se reinventar, e os que não se reinventaram em tempo, naufragaram. Que o diga o Diário Catarinense, grande título do estado, que virou digital fruto do custo do papel. Aqui temos o Tribuna de Notícias, como nosso principal representante da mídia impressa, fazendo seu bom trabalho mas sem concorrente local. É o que o mercado acolhe e permite.

A última capa do JM, em 10 de maio de 2017

Que o acervo do JM esteja bem guardado, em bom lugar. As futuras gerações merecem e precisam saber das coisas de Criciúma e região de 1983 a 2017 pelas linhas sempre bem colocadas do saudoso JM.

4oito

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