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Tancredo & Joviano & Evaldo Machado dos Santos (1 de 3)

Por Henrique Packter 23/05/2023 - 09:15 Atualizado em 23/05/2023 - 09:27

João Figueiredo ainda no poder, Tancredo mostrava-se alerta com lição aprendida de Vargas: “No Brasil, não basta vencer a eleição, é preciso ganhar a posse!” Exibia uma inteligência que podia ser alegre e erudição que podia ser agradável.
 
Político marcante da história brasileira, passando pelo governo Vargas, pelo Parlamento após o primeiro golpe contra Jango, foi quadro central do MDB e, finalmente, por eleição indireta durante o processo de abertura após quase 40 dias de agonia, e comoção nacional, Tancredo Neves morreu em 21.04.1985, um domingo, sem assumir o cargo para o qual fora eleito.
 
Eleição e morte de Tancredo Neves

Derrotada a emenda Dante de Oliveira, líderes peemedebistas, mais parcelas do PDS se articularam na Aliança Democrática para disputar em 15.01.1985, as eleições para presidente da República no Colégio Eleitoral. Candidato daquela frente partidária, Tancredo Neves vence (480 votos contra 180) o candidato governista Paulo Maluf. A eleição indireta de Tancredo Neves foi recebida com entusiasmo pela maioria do povo. Seria ele, finalmente, o primeiro presidente civil do país após mais de 20 anos. Presidente eleito, Tancredo jamais assumiu o governo. Véspera da sua posse, foi internado no Hospital de Base, Brasília, com fortes dores abdominais. Seu vice, José Sarney, assumiu a Presidência dia seguinte, 15.03.1985. 
 
Equipe e estrutura

O jornalismo da Globo cobriu amplamente doença e padecimentos de Tancredo Neves. O planejamento da edição especial do Jornal Nacional mobilizou quase todo o jornalismo da emissora. Em 12 de abril, frente ao agravamento da saúde de Tancredo, Luís Edgar de Andrade, chefe de redação, é nomeado como responsável pelo esquema de colocação do JN especial no ar. Era sua incumbência escalar as equipes de plantão (chefes e subchefes dos estúdios, redatores, produtores, apresentadores e entrevistadores), checar as escalas do Centro de Produção de Notícias, toda a estrutura da Divisão de Operação e da Engenharia. Deveria também controlar os turnos de plantão, realizar testes de prontidão nos e stúdio do RJ, SP e Brasília. Os testes eram completos, indo desde a leitura das primeiras páginas do script até conferir as matérias nos equipamentos de VT. 
 
Participaram da cobertura 15 repórteres: André Luiz Azevedo, Carlos Tramontina, Caco Barcellos, Carlos Dorneles, Tonico Ferreira, Ana Terra, Leila Cordeiro, Sandra Moreyra, Neide Duarte, Leonel Da Mata, Fernanda Esteves, Valéria Sffeir, Geraldo Canali, Álvaro Pereira e Pedro Rogério, entre outros. O repórter Carlos Nascimento destacou-se por entrar ao vivo no Jornal Nacional e narrar longos textos de improviso, sem erro. A equipe contou com a ajuda de profissionais da Divisão de Esportes e de emissoras afiliadas à Globo. 
 
Todos trabalharam intensamente durante o período em que Tancredo Neves ficou internado. Tonico Ferreira achava, no final, que “a gente ia morrer junto com ele de tão cansados que ficávamos. Fui dormir pensando que no dia seguinte ia fazer a cobertura da posse. Estava tudo preparado: as divisões de matérias, quem iria fazer o quê. E à noite fomos informados que o homem tinha ido para o Hospital de Base! Uma parte da equipe ficou cobrindo a doença do Tancredo e outra cobriu a posse do Sarney. Depois, Tancredo foi transferido de Brasília para o INCOR em SP. Nós ficamos uma eternidade, na frente daquele hospital. A Globo pontificou com importantes entradas ao vivo, do Tramontina e do Nascimento, que comunicavam diariamente todo o noticiário com detalhes sobre qual antibi&ó e;tico Tancredo estava tomando. Foi bem difícil e dramática aquela cobertura: o povo ali na frente, o país parado. Cobertura inesquecível pelo lado triste e pelo cansativo.” (Tonico Ferreira).
 
A música Coração de Estudante, autoria de Wagner Tiso originalmente para homenagear outro mineiro, Teotônio Vilella, famosa na voz de Milton Nascimento, tornou-se uma espécie de hino patriótico, louvação a Tancredo Neves.
 
Isabela Assumpção concordava: “A gente tinha escalas para ficar na frente do Incor. Um repórter ia rendendo o outro por horário. Lembro que peguei um turno que começava à meia-noite indo até de manhã. Durante dias, fiquei nesse turno. Dava até para cochilar um pouco no carro. Os técnicos das UPJs (Unidades Portáteis de Jornalismo) ficavam acordados; acontecendo algo eles avisavam.” Apesar do cansaço, o trabalho foi de grande aprendizado para os jornalistas (Carlos Tramontina): “Período em que vivemos importante experiência, o país acompanhando tudo que ocorria na porta do Incor e nós evoluíndo profissionalmente. Aprendemos como falar sobre coisas técnicas de maneira simples, compreendidas pela população. Pess oas esperavam nossos telejornais para saber dos níveis de potássio e creatinina no organismo presidencial. Assuntos e termos médicos passaram a fazer parte do dia-a-dia das pessoas.”
 
Enterrado Tancredo, Luís Edgar de Andrade escreve à redação agradecendo a colaboração dos profissionais, realizando verdadeiro mutirão de telejornalismo: “Merecem cumprimento especial àqueles que, repetidamente, dobraram o expediente, trabalhando 12, 14 e até 16 horas por dia, sacrifícando lazer e convívio familiar, varando madrugadas, script na mão e os que passaram noites editando nas ilhas do ENG.”
 
O sofrimento de Tancredo Neves

Jornal Nacional exibiu matérias sobre a doença de Tancredo Neves desde 14/3, além de boletins ao vivo sobre seu estado de saúde. A princípio, essas matérias dividiam espaço com outras sobre a implantação da Nova República. Aos poucos, a saúde do presidente ocupou praticamente todo o noticiário. Vivemos clima de comoção nacional, acompanhando a agonia de Tancredo, desde a transferência de emergência para SP até a série de sete operações a que foi submetido. Contínuas manifestações de solidariedade da população em frente ao Instituto do Coração, SP, davam ar mais dramático aos fatos. O país passou semanas aguardando pelos boletins sobre a saúde do presidente, l idos diariamente pelo jornalista Antônio Britto, que deixara o cargo de editor-regional da Globo de Brasília e assumira o de porta-voz da Presidência. Naquele período, o JN contava sempre com a entrada de um repórter – em geral, Carlos Nascimento – direto do hospital. O último bloco do noticiário, de 15 minutos, era dedicado integralmente ao assunto. Carlos Nascimento atualizava as informações sobre o estado de saúde de Tancredo, do Instituto do Coração, em SP.
 
Em 21/4 após 39 dias de agonia, Tancredo Neves morreu no Instituto do Coração, vítima de infecção generalizada. O comunicado oficial do falecimento, domingo, às 22h30, por Antônio Britto, foi notícia dada no Fantástico. Carlos Tramontina, no hospital, deu ao vivo a informação. Logo após o Fantástico, foi ao ar Jornal Nacional especial apresentado por Sérgio Chapelin, com quatro horas de duração. Foram exibidos retrospectiva dos fatos, desde a eleição de Tancredo no Colégio Eleitoral até sua morte, e resumo da sua trajetória política, mostrando sua atuação como ministro da Justiça de Getúlio Vargas e como primeiro-ministro em 1961-62, a eleição para o governo de Min as Gerais em 1982 e sua decisiva participação na campanha das diretas.
 
Entrevistas foram realizadas, algumas delas no estúdio da Globo, RJ, com políticos e personalidades, como o sociólogo Gilberto Freyre. O historiador Raimundo Faoro falou ao repórter Paulo Henrique Amorim sobre questões legais relativas à permanência do vice José Sarney como presidente. Sobre esse assunto, o professor de direito constitucional Célio Borja foi entrevistado por Leda Nagle e pelo telefone, a repórter também conversou com o jurista Afonso Arinos. Artistas e personalidades de diferentes áreas prestaram depoimentos e homenagens a Tancredo Neves. Fafá de Belém inovou cantando o Hino Nacional com acompanhamento apenas de piano, com arranjo e andamento diferentes do usual. Videocharge de Chico Caruso mostrou rosto de Tancredo numa bola de gás subindo aos céus. Terminada a edição especial do JN, a Globo continuou apresentando plantões com informações sobre a repercussão da morte de Tancredo.

Parte 1 de 3 I Texto continua na próxima semana...

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