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Tarifaço e o "Robin Hood às avessas"

O cashback forçado de Trump pode até resolver o problema, mas não de todos

Por Arthur Lessa 14/04/2026 - 05:10

Na próxima segunda-feira, dia 20, a alfândega americana começa a devolver dinheiro.

A CBP, que é o órgão que controla as fronteiras e o comércio nos Estados Unidos, está colocando de pé um sistema novo para processar os reembolsos das tarifas de importação que Trump impôs em 2025 via IEEPA, a lei de poderes econômicos de emergência. São mais de 330 mil empresas americanas elegíveis, mais de 53 milhões de registros de entrada de mercadorias, e uma conta que gira em torno de US$ 120 a US$ 166 bilhões para ser devolvida.

O motivo do reembolso é simples: a Suprema Corte americana decidiu, em fevereiro deste ano, que as tarifas eram ilegais. O presidente não tinha autorização legal para colocá-las da forma como fez. Fim de papo. O governo cobrou um pedágio que a lei não permitia e agora tem que devolver.

Até aqui, tudo bem. Justiça funcionando, sistema se corrigindo.

Mas quando eu fui analisar esse caso com mais calma, da imposição das tarifas lá em 2025 até esse reembolso que começa agora, uma coisa ficou muito clara pra mim.

O ciclo não fecha para todo mundo.

Pensa comigo. Quando as tarifas entraram em vigor, as empresas americanas que importavam produtos do exterior passaram a pagar mais caro na alfândega. O que elas fizeram? Foram até os fornecedores estrangeiros, brasileiros, vietnamitas, mexicanos, europeus, e disseram: "ou você baixa o preço, ou eu compro de outro lugar." E boa parte desses fornecedores, que dependem do mercado americano para sobreviver, cedeu. Comprimiu margem. Aceitou menos. Porque não tinha muita escolha.

Aí a Suprema Corte derruba as tarifas. O governo americano devolve o dinheiro para as empresas americanas. Essas empresas embolsam o cashback.

E os fornecedores estrangeiros? Ficam com as margens que aceitaram durante esse período. Sem reembolso, sem compensação, sem volta. O que foi renegociado, foi renegociado.

O efeito líquido desse processo todo é uma transferência de renda do resto do mundo para empresas americanas, com o aparato legal e aduaneiro dos Estados Unidos funcionando como intermediário. Um Robin Hood às avessas: em vez de tirar dos ricos para dar aos pobres, tirou dos fornecedores menores, de economias mais vulneráveis, para dar às empresas do país mais rico do planeta. Não importa se foi planejado assim ou se foi um efeito colateral de uma política que depois se revelou ilegal. O resultado é o mesmo.

Economistas chamam isso de manipulação dos termos de troca. Um país grande o suficiente para influenciar preços globais usa tarifas para pressionar fornecedores a baixarem preços, capturando valor que antes ficava fora. O que é novo aqui é que o mecanismo veio embrulhado numa decisão judicial, o que dá uma aparência de encerramento limpo. O governo errou, o governo corrigiu. Só que a correção alcança apenas metade do problema.

A tarifa entrou como política. Saiu como ilegal. Mas no meio do caminho renegociou contratos, comprimiu margens de fornecedores estrangeiros e redistribuiu renda para empresas americanas. O reembolso fecha o ciclo para os americanos. Para o resto do mundo, o ciclo não fecha.

Se isso foi intencional ou não é uma pergunta para historiadores. O que importa para você, como empresário ou investidor, é que essa assimetria é real, é mensurável e pode se repetir.

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