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Infância não é competição: notas sobre o desenvolvimento infantil

Ananda Figueiredo
Por Ananda Figueiredo 22/03/2018 - 12:00Atualizado em 22/03/2018 - 14:26

Ontem foi o Dia Internacional da Síndrome de Down e, como a data tem como princípio promover discussões e conscientização sobre a trissomia do 21, a programação da rádio, os telejornais, enfim, por toda parte, vimos informações e respostas às principais dúvidas da população geral – e isso é ótimo!

Enquanto lia e ouvia, dois aspectos comuns chamaram minha atenção: O primeiro deles, o respeito à diferença. O segundo ponto, a preocupação com a capacidade funcional e a procura por certezas de um desenvolvimento cognitivo e motor “adequados à idade”. Como ontem vocês ouviram as respostas de profissionais especialistas e que atuam diretamente com pessoas com síndrome de down, não vou respondê-las. O que quero trazer para a discussão é que, salvas as proporções, as perguntas e preocupações com relação ao desenvolvimento das crianças que não possuem trissomia do 21 são praticamente as mesmas.

Quando atendo crianças no consultório, a primeira sessão é sempre com os familiares responsáveis. E aí, independente do quadro clínico, costumamos ter dois momentos: o primeiro, em que, sem que eu pergunte, ressaltam tudo aquilo que consideram que a criança está à frente da sua idade; e um segundo momento, em que questionam o que seu filho deveria ser capaz de fazer e ainda não faz. Ontem mesmo ouvi a pergunta: “o que uma criança deve saber fazer aos quatro anos de idade?” E vou responder a vocês da mesma forma que respondi àquela mãe e àquele pai:

Uma criança de 2, 3, 4, 5 anos ou mais deve saber que está segura e como manter-se a salvo em lugares públicos e quando houverem pessoas que ela não conhece. Ela deve saber brincar, ser vilã, ser mamãe, ser médica, ser o que quiser. Deve saber que o mundo é mágico e que ela é mais ainda. Uma criança deve saber que é inteligente, capaz, maravilhosa e amada incondicionalmente. Fim.

Tendo dito isto, quero acrescentar o que nós, mães, tias, avós, pais, padrinhos, precisamos saber:

Que cada criança aprende a andar, falar, ler e fazer cálculos a seu próprio ritmo, e que isso não tem qualquer influência na forma como irá andar, falar, ler ou fazer cálculos na vida adulta. Nós, adultos, precisamos saber que ser a criança mais inteligente ou a mais estudiosa da turma nunca significou ser a mais feliz, nem mesmo o adulto mais bem sucedido no futuro. Estamos tão obstinados em garantir a nossos filhos e filhas todas as “oportunidades” que acabamos lhes oferecendo vidas com múltiplas atividades e cheias de tensão, tais como as nossas próprias vidas (inclusive, vidas das quais reclamamos e, com frequência, nos fazem adoecer). Nós precisamos saber que uma das melhores coisas que podemos oferecer a nossos filhos é uma infância simples e despreocupada. Precisamos saber que nossos filhos precisam de algo completamente alcançável: precisam de nós.

Vivemos um tempo em que revistas voltadas à maternidade nos ensinam a pôr na agenda minutos diários para ficarmos com os filhos e a reservarmos um sábado por mês para eles. Eu não sei para vocês, mas para mim isso é completamente absurdo! Estamos ausentes – este é um fato. Como compensação e em uma tentativa de acalentar nossa culpa, criamos uma competição entre nós adultos, mas que têm nas crianças os peões do tabuleiro. E, assim, aquele respeito à diferença do qual falamos lá no começo do texto fica absurdamente restrito aos programas de rádio e aos escritos do jornal, circunscritos a datas bem específicas como a de ontem e os quais compartilhamos rapidamente em nossas redes sociais. Em casa, ah não, em casa a diferença só é bem vinda se for para vencer.

Infância não é competição porque filho não pode ser troféu ;)

 

Este foi o tema do quadro Fica a Dica do Jornal das Nove de hoje. Se você quiser ouvir, aqui está o Podcast - o quadro inicia aos 41minutos.

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