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Padre Paulo Petruzzelli e a tolerância

Por Henrique Packter 21/08/2023 - 10:55 Atualizado em 21/08/2023 - 10:58

Imagino que o que vem a seguir é de minha autoria; se não é inteiramente escrita por mim, grande parte é. O artigo estava entre meus guardados e acabou sendo resgatado por meu filho Bruno, engenheiro civil e filósofo clínico que, em boa hora, foi dar uma espiada na salinha que denomino pomposamente de biblioteca e encontrou o artigo.

O que vem escrito é uma singela homenagem ao Padre PAULO PETRUZZELLI, italiano nascido em Cassano Murge, em 5.1.1920. Ingressou no Seminário Rogacionista aos 13 anos. Sagrou-se sacerdote em Roma, 19.7.1947 e dedicou seus primeiros anos de sacerdócio aos meninos órfãos de Messina, Sicília. Chegou ao Brasil  em 1º.8.1951 iniciando seu apostolado em Bauru (SP), onde dirigiu a CASA DO GAROTO, confiada pela prefeitura local à Congregação Rogacionista. Transferido para Criciúma aqui chega em 24.5.1954 na condição de DIRETOR DO BAIRRO DA JUVENTUDE, cargo que ocupou por dez anos. Ao lado do Bairro construiu Igreja Paroquial dedicada a Nossa Senhora das Graças, construindo também o Seminário Rogacionista Pio XII. Frequentava o sacrossanto CAFÉ SÃO PAULO, tomando placidamente seu cafezinho numa das mesas, cercado de amigos e admiradores. Às vezes aceitava um cigarro, depois largado displicentemente no pires. Era uma figura fantástica, notável, atraindo todos os olhares e todos os ouvidos. Queixa frequente na época era a rigidez de outra grande expressão da Igreja católica entre nós, o PADRE ESTANISLAU CIZESKI. Em se tratando de casamento, não abria mão: só aceitava casar católicos, exigência  essa estendida às testemunhas. O jeito era casar lá no Pinheirinho com Padre Paulo.

- Padre Estanislau não quer casar sua filha na Igreja Matriz São José porque você é maçon, comunista e ateu?

- Leva lá na minha igreja que eu caso. Uma das testemunhas é muçulmana? Não faz mal, leva lá que eu caso. É tudo filho de Deus!

O bom padre Manoel lá na Igreja da Próspera tinha a mesma postura.

Padre Paulo Petruzzelli sai de Criciúma e retorna a  Bauru onde trabalha por mais 2 anos.

Eleito Conselheiro Geral da Congregação Rogacionista volta a Roma, onde permanece por 6  anos. Terminado seu mandato, vem a Criciúma na qualidade de Pároco da Paróquia de Nossa Senhora das Graças. A 26.6.1981 viaja aos EUA como Representante da Missão Rogacionista na América do Norte. Foi sucedido em Criciúma pelo Padre Mário Labarbutta. Padre Paulo Petruzzelli faleceu em Sanger, Condado de Fresno, Califórnia, EUA, em 31.3.1985.   

A INFLUÊNCIA DA TOLERÂNCIA ou NÃO HÁ O QUE NÃO HAJA

O ensino da teoria da evolução nas escolas dos EUA sempre foi assunto tratado com a máxima discrição. Darwin, estudado numa escola secundária do interior naquele país, dava cadeia no filme O VENTO SERÁ TUA HERANÇA, dirigido por Stanley Krammer com dois dos maiores atores cinematográficos de todos os tempos: Spencer Tracy e Frederich March. Alguém aí lembra deles? Em 1925 o filme mostra criacionistas opondo-se à teoria da evolução porque esta contradizia a interpretação literal bíblica do Gênesis. Professores de Ciência faziam insinuações sobre a inexistência de Deus e alguns acreditavam na teoria de um projetista inteligente que explicava o sentido da evolução.      

Seria possível demonstrar haver sentido no mundo ou que exista por trás de tudo um projetista inteligente? Também não é possível mostrar a inexistência de Deus.

Hoje, a polêmica está limitada a alguns estados norte-americanos mais conservadores. No resto do país e quase no mundo inteiro que vale a pena, religião e ciência são campos paralelos que fazem perguntas e oferecem respostas a problemas que são diferentes e não em oposição.

Os EUA são uma federação de seitas, etnias e raças fundamentalistas. Democracia e liberdade de expressão resultam de um equilíbrio tenso entre grupos igualmente poderosos com princípios rígidos e inegociáveis. Daí os americanos serem adeptos do Pragmatismo ou do Relativismo, únicas orientações possíveis num país congestionado de verdades irreconciliáveis onde não há espaço para a mentira, motivo para levar o presidente Nixon ao impeachment ou condenar alguém na Corte. A tolerância (do latim tolerare, suportar), é necessária entre ideias que não são apenas diferentes, mas contraditórias. Evolucionismo e Religião são temas diferentes que se opõem apenas quando discutem a existência de Deus, que não é tema da ciência. Religiosos e Cientistas são indiferentes uns aos outros. Já o convívio entre judeus, cristãos e muçulmanos demanda enorme tolerância. Disputam o amor do mesmo Deus, discordam sobre o verdadeiro Messias, usam o mesmo Livro.

Jerusalém, cidade do Templo de Salomão em que Jesus foi crucificado e Maomé subiu aos céus é o centro da discórdia. Acho que todos ainda lembram das charges sobre Maomé na imprensa dinamarquesa que geraram protestos e mortes. Na França foi necessário criar lei para criminalizar a negação do holocausto. A liberdade de expressão levada ao limite constitui ameaça à liberdade de expressão.   No Brasil, a tolerância expressa-se em nosso sincretismo religioso que coloca mães de santo e de terreiros dos rituais afros do candomblé na missa das oito. Brancos e até um presidente branco brasileiro dizem ter um pé na senzala.  Árabes e judeus falam o mesmo dialeto varejista e até casam entre si. Somos pragmáticos, não convivemos com verdades ´rígidas. Seríamos um país admirável se tanta tolerância não fosse apenas fruto de indiferença.

A verdade verde-amarela, mais flexível, convive bem com contradições, exceto no campo belicoso das paixões clubistas.

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