Ir para o Conteúdo da página Ir para o Menu da página
Carregando Dados...
4
* as opiniões expressas neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do 4oito

Orides Barbosa, o Tico

Henrique Packter
Por Henrique Packter 20/07/2021 - 07:52Atualizado em 20/07/2021 - 07:53

Trazido para Criciúma e internado no Hospital São José logo após o acidente de mina, é submetido imediatamente a cirurgia em ambos os olhos e que estavam perfurados. A situação era muito grave. Depois de alguns dias em observação os médicos Henrique e Boris Packter, comunicaram que ele estava se recuperando, porém, tivera seus olhos seriamente danificados,  deixando-o parcialmente cego, com muito pouca visão e apenas num dos olhos.

Foi um ano bastante difícil para Orides e Vânia, ele no hospital e ela indo e vindo de Guatá a Criciúma, dividindo o tempo entre os filhos e o marido. Os filhos ficavam com os avós, revezando-se entre o ramo materno e paterno e às vezes também tios eram convocados para participar do rodízio familiar. Vânia daquela vida tranquila, entre bordados e costuras, precisou aprender a dirigir e também cuidar das contas, antes ao encargo do Tico. Eles, mais que nunca, estavam unidos neste período e encontraram apoio em pessoas amigas e solidárias e se inseriram muito bem na nova comunidade.

Em primeiro lugar, Orides apegava-se, como é natural, à figura de seus médicos oftalmologistas que seguiriam Orides por grande período de sua vida. Em primeiro lugar o Dr. Henrique Packter, que segundo o testemunho de Orides, havia costurado seus olhos como uma bola de futebol! Um médico que muito acreditava na evolução da medicina e tinha esperanças em fazê-lo voltar a ver. Chegou a leva-lo a muitos congressos de medicina, para obter aprovação de respeitáveis colegas seus para a conduta adotada neste difícil caso. Nasce daí especial amizade entre Orides e sua família e seus médicos. O terceiro filho de Orides e a Vânia ganhou o nome de Luiz Henrique: Luiz (nome de seu amigo, companheiro de infortúnio, ambos acidentados na mesma explosão no interior da mina).

O segundo nome, Henrique, em homenagem ao Dr. Henrique Packter. Após praticamente um ano de hospital, precisavam quase semanalmente descolocar-se a Criciúma, para exames constantes do Orides. Desta forma pensaram numa estratégia melhor. As crianças cresciam, iriam precisar de um centro maior onde estudar; eles sempre quiseram que os filhos estudassem. Em 1979 transferem residência para Criciúma, ano em que a cidade completava 100 anos da sua colonização.

De uma localidade pequena, onde todos se conhecem, viram-se diante de uma nova realidade. Fazer novos vizinhos, novas amizades. Mas para pessoas abertas e simpáticas iguais a eles, não foi muito difícil. Em pouco tempo estavam adaptados e inseridos na aberta e amstosa sociedade criciumense. Após 15 anos na cidade de Criciúma nasceram outros dois filhos, Gilnei e Jeferson, com intervalo de um ano e 10 meses.

Orides e seu médico oftalmologista brincavam a respeito.

-  “Orides, mas tu não vês?” Ao que este respondia com ar maroto:

- “Mas não precisa!”.

Já eram passados tantos anos, desde 1973, quando ocorreu o acidente que eles se permitiam dialogar tão informalmente. Afinal, eram visitas semanais, quinzenais, às vezes ficando até o final do expediente.  Muita vez davam carona para o doutor Henrique, que morava e ainda mora pertinho do hospital. Foram também quatorze cirurgias, na tentativa de recuperar a visão do Orides, por último um transplante de córnea, com êxito relativo.

Mas, Orides não se abatia.  Numa conversa particular com a filha, ele afirmou  não se sentir menos pessoa, estava bem. Era feliz. Conseguiu, juntamente com Vânia, formar uma linda família, em meio a tantas dificuldades e provações que a vida colocou nos seus caminhos. Nunca perdeu o bom humor, paciência, caridade, amor pelos outros, coração hospitaleiro, misericordioso. Faltam adjetivos para elogiá-lo. No bairro onde moravam, a Vânia está reside. Orides ficava muitas vezes, nas manhãs de inverno, tomando sol. Jovens mães que precisavam ir ao supermercado, pediam para deixar os filhos pequenos ali com ele. Isso, porque Orides tinha o dom de contar histórias aos pequenos. A família, os amigos, nunca os deixaram de lado, fosse nos natais ou aniversários.  Ele era um dezembrino.

4oito

Deixe seu comentário