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O que Boris fez pela região

Por Henrique Packter 01/11/2021 - 10:20 Atualizado em 01/11/2021 - 10:21

Boris nasceu em 3.9.1941 em Santa Maria, RS e fez toda sua formação lá mesmo. Estudou no Colégio Marista e na Faculdade Federal de Medicina de Santa Maria, onde se formou em 1966. Em 1967 já estava em Criciúma, onde labutou até 1972; hoje reside e trabalha em Porto Alegre. Logo se fez notar pela habilidade na remoção de corpos estranhos bronco-esofágicos, área até então desassistida, sem nenhum profissional a atendê-la em todo sul e oeste do estado catarinense e norte do RS.

Pendurou num quadro, logo na entrada da clínica os objetos aspirados e por ele retirados laboriosamente com o aparelho de Chevalier-Jackson. Muito importante foi a contribuição trazida por Boris. Aprendi com ele a manipular o instrumento para remoção de corpos estranhos de brônquios e esôfago. Em troca ensinei a ele o que sabia de Oftalmologia.

MORRE EM CRICIÚMA O ORTOPEDISTA E TRAUMATOLOGISTA JOÃO APARECIDO KANTOVITZ

Serviu a cidade e o Estado por mais de 50 anos. JOÃO nasceu em Rio Claro, SP, em 23.11.1937 e faleceu em Criciúma a 23.8.2018. Chegou em 1965, praticamente na mesma data da chegada de Boris. Era homem de muitos instrumentos. Médico, granjeou respeito de todos através de sua arte na profissão. Operou atletas de toda as partes sempre exitosamente. Músico, compôs com a Turma da Seresta que se exibia especialmente nas rádios da cidade. Jovem, era hábil jogador de futebol. Devo a ele a recuperação de minha saúde, vítima que fui em 2006 de acidente automobilístico na parte não duplicada da BR101, localidade de Bentos, na Laguna.

Casado com Elohá, João deixou dois filhos, Paulo César de Jesus e Júlio César e uma neta.   

VIDA E MORTE DE JOSÉ BALSINI, O JUCA BALSINI

BORIS chegou a Criciúma dias após o falecimento de JOSÉ TARQUÍNIO BALSINI, nascido a 7.9.1905 em Joinville, filho de Tarquínio e Lúcia Moro Balsini. Casado com Carmem Mattos Balsini, o casal teve três filhos: o engenheiro Claudio (casado com Vera Regina Kastrup), o advogado Clóvis (casado com Maria Helena Luz) e Sônia (casada com o advogado Adhemar Paladini Ghisi, muitas vezes deputado federal por SC, depois Ministro e Presidente do Tribunal de Contas da União). Clovis e Adhemar são falecidos.

BALSINI, cidadão honorário de Criciúma em 11.9.1961, foi diretor-clínico do HSJ, da sua criação em 1936 até 13.2.1966, data de seu falecimento.

1965 é a data de formatura de BORIS, na Faculdade Federal de Medicina de Santa Maria. Esta faculdade federal também formou Júlio Manfredini, Portiuncola Caesar Augustus Gorini, a anestesista Mari Sandra de Brito Petry e Gervani Bittencourt Bueno, diretor da CRIOX, Medicina Hiperbárica e Tratamento de Feridas. Martinho Ghizzo, de Araranguá, formou-se lá, também.
 
Sergio Luiz Bortoluzzi (um ele dois zes, como sempre informa), não estudou Medicina em Santa Maria por detalhe. Inscreveu-se ele para o vestibular em Porto Alegre e também em Santa Maria. Por uma questão de calendário foi a Porto Alegre realizar o exame. Sem saber o resultado das provas, embarca no trem da Viação Férrea do RS  para Santa Maria. Estando prestando prova, bem sentado, surge um funcionário da Faculdade de Medicina de Santa Maria com telegrama nas mãos para um tal de Sergio Luiz Bortoluzzi. É autorizado a abrir o documento e lê-lo. Assim soube, aplaudido pelos vestibulandos presentes, que fora aprovado em Porto Alegre. Levanta-se, cumprimenta a todos e retira-se para nunca mais voltar.   
BALSINI era médico dotado de raro senso prático e operava com grande habilidade. Na minha chegada à cidade, DIFTERIA grassava na região, colhendo elevado tributo em vidas de crianças. Balsini ensinava: há dois tipos de difteria a branca e a azul. Na azul, a criança está morrendo por asfixia. Dê soro e faça uma traqueostomia. Na branca, a criança está intoxicada profundamente, em toxemia, não adianta fazer nada.

Chegando OLAVO DE ASSIS SARTORI, a cidade se resumia a casario de pé direito insignificante, espremida entre a Estação de Estrada de Ferro (onde está o Buraco do Prefeito), e o HSJ.

Do lado de lá dos trilhos havia o Cemitério, onde hoje está o BISTEK, e, pouca coisa mais. Chegando Sartori, Balsini dividiu a cidade quase salomonicamente em duas freguesias: os chamados para atendimento médico pra lá dos trilhos, eram de Sartori, os restantes, eram de Balsini...

Coube a Balsini operar de apendicite o magérrimo Raimundo Jorge Peres. Convalescente, Peres decide descansar alguns dias em Uberaba, MG, sua cidade natal. Foi e voltou acompanhado do irmão gêmeo de quem ninguém suspeitava a existência. Mas, o irmão, ao contrário de Peres, era gordíssimo. Resolvem divertir-se às custas de Balsini que costumava gaguejar quando colocado em situação embaraçosa. Pois foi o que aconteceu quando Balsini vê entrar em seu consultório no HSJ um estranhíssimo personagem, que a exemplo de Roberto Jefferson só viajava de avião se adquirisse duas passagens, dois assentos.

- Me-eu Deus! C-a-a-alma... Devagar, s-s-senta aí, Peres...

JOSÉ BALSINI fumava e teve câncer de pulmão, operado em SP pelo Prof. Zerbini em 1965.

Ele me procurou no meu consultório do HSJ em 22.10.1965, meses após a cirurgia. Queixava-se de vermelhidão e dor no olho direito. Dona Carmem telefonou previamente, alertando-me a respeito do comportamento de Balsini diante das doenças próprias que já o tinham afligido. Quando da operação do pulmão em São Paulo, na Beneficência Portuguesa, Zerbini, mesmo sem ainda ter botado os olhos no exame anatomopatológico já sabia que estava diante de um quadro de tumor maligno de pulmão. Foi advertido por familiares de Balsini para nada revelar ao paciente que já ameaçara jogar-se do 10º andar do prédio caso seus temores a respeito da natureza da doença se concretizassem.

Melhorando, Balsini ganha autorização para andar ao longo do corredor do 10º andar. A ideia não foi das melhores. Caminhando com a lentidão exigida por seu estado de saúde, passa pelo Posto de Enfermagem, vê e apanha seu prontuário. Nele, está apenso o laudo do Patologista que não deixava qualquer dúvida: era câncer de pulmão em estado avançado.

Balsini desespera-se e Zerbini é chamado:

- De jeito nenhum Balsini! Eu fiz tua cirurgia, tirei teu pulmão e sei que o que tinhas era, talvez, antigo processo pulmonar, talvez uma tuberculose ou pneumonia mal curada. Este laudo não tem nada a ver! Vou imediatamente saber a que se deve esta troca infeliz.

Assim, Balsini, cirurgião experiente e competente deixou-se ludibriar porque isto é da natureza humana. Nós simplesmente não queremos ter doenças graves e aceitamos estas bondades obsequiosas dos nossos médicos.

Chegado à cidade, logo vem ao meu consultório:

- Henrique, imagina que na Beneficência Portuguesa, talvez o maior hospital brasileiro e da América Latina cometeram este engano comigo. Na Beneficência Portuguesa! Nós aqui, estamos absolvidos de qualquer engano que venhamos a cometer!

Examinei-o. Tinha extensa metástase ocular ocupando quase todo o olho, a partir de sua metade inferior. Na amígdala esquerda também havia metástase.

Balsini perguntou minha opinião sobre consultar o grande Oftalmologista HILTON ROCHA em Belo Horizonte. Aprovei a ideia. Afinal, eu tinha menos de cinco anos na cidade e não queria ficar conhecido ad eternum como o doutor que removera o olho do mais célebre médico da região. A única coisa a fazer era a remoção do olho e da amígdala e isso, com resultados extremamente duvidosos. Balsini retornou de BH antes do Natal. Fizera fotocoagulação com Hilton Rocha; irradiação da amígdala e antiblásticos em SP. Mas, as dores oculares eram insuportáveis por Glaucoma, devido ao tumor metastático intraocular. Fiel ao meu pensamento expresso logo ali acima, fui a Torres no RS, onde veraneava o Prof. ALFREDO SCHERMANN, tio de Paulete, futura esposa de Boris. Coube a ele remover o olho direito de Balsini que faleceria em 1966 aos 60 anos.

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