Ir para o Conteúdo da página Ir para o Menu da página
Carregando Dados...
DEIXE AQUI SEU PALPITE PARA O JOGO DO CRICIÚMA!
* as opiniões expressas neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do 4oito
Por Artur Fabro 10/08/2026 - 07:00 Atualizado em 10/08/2026 - 10:12

Na quarta-feira passada, último dia do prazo das convenções, Flávio Bolsonaro (PL) encerrou a novela mais arrastada desta pré-campanha e anunciou seu vice. Depois de semanas prometendo uma mulher, de preferência de outro partido, para ampliar seu alcance entre o eleitorado feminino, terminou com Alfredo Gaspar (PL), deputado federal e ex-procurador-geral de Justiça de Alagoas. Esta decisão sela a candidatura do Partido Liberal à Presidência da República em chapa pura e sem coligação, como se esperava que ocorresse, apesar das tentativas de última hora de trazer Republicanos e Podemos.

Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar no evento que os confirmou como candidatos a presidente e vice. Crédito: Vittor Sales 

A imprensa nacional tratou o episódio como costuma tratar a escolha dos vices, ou seja, somente como uma questão de nome. Proponho outra análise. A vaga de vice é o ponto sensível em que o sistema político brasileiro apresenta uma de suas contradições.

Na semana passada, abordei nesta coluna o conceito de presidencialismo de coalizão, que o cientista político brasileiro Sérgio Abranches formulou em 1988. Retomo uma parte do que escrevi: “O argumento é que o Brasil combina, de forma rara, presidencialismo, representação proporcional e multipartidarismo, e o resultado é que nenhum presidente jamais teve maioria própria no Congresso. Governar aqui significa, necessariamente, construir coalizão, que não se confunde com a coligação eleitoral, mas dificilmente se forma sem ela”. A coligação eleitoral, como também argumentei na semana anterior, é o primeiro movimento dessa coalizão de governo, pois quem embarca numa candidatura em agosto já calcula com quem vai negociar em janeiro.

Dito isto, a vaga de vice precisa cumprir, ao mesmo tempo, duas funções que puxam em direções opostas.

Como instrumento de coalizão, ela pede um nome respeitado, parceiro, com partido robusto, bancada e capilaridade. Quanto mais forte, mais sólida a aliança e mais tranquila a governabilidade. Por essa lógica, convém buscar o vice mais poderoso possível.

Como cargo constitucional, porém, esse mesmo vice forte se torna um risco, porque a própria Constituição de 1988 o esvazia. O artigo 79 diz o seguinte: “Substituirá o Presidente, no caso de impedimento, e suceder-lhe-á, no de vaga, o Vice-Presidente”. Parágrafo único: “O Vice-Presidente da República, além de outras atribuições que lhe forem conferidas por lei complementar, auxiliará o Presidente, sempre que por ele convocado para missões especiais.” Ou seja, função própria nenhuma, apenas as que o titular quiser e quando quiser.

Isto nos leva a crer que o vice é um subordinado estranho: depende do titular para ter o que fazer, já que só exerce funções delegadas, mas não depende dele para existir politicamente, porque chegou ao cargo pelo mesmo voto e carrega base própria. O titular pode esvaziá-lo de atribuições; não pode retirá-lo da chapa nem da linha sucessória.

Guardado esse critério, vejamos as, até agora, duas chapas mais competitivas de 2026 a nível nacional e em Santa Catarina.

Lula (PT) e Geraldo Alckmin (PSB) repetem a chapa vitoriosa de 2022. À primeira vista, Alckmin é vice de peso, ex-governador do maior estado e duas vezes candidato à Presidência. A particularidade está em outro lugar: ele deixou o PSDB que ajudou a fundar e filiou-se ao PSB, não comandando nem a bancada nem a máquina do partido. Lula encontra nele um vice forte na imagem, fraco na estrutura, e por isso institucionalmente seguro.

Geraldo Alckmin (PSB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) repetem chapa para reeleição em 2026
Lula e Geraldo Alckmin na convenção que os confirmou como candidatos a presidente e vice. Crédito: Ricardo Stuckert

Já Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar fecharam a parceria no apagar das luzes do calendário eleitoral. Gaspar parece ser um correligionário competente, ex-procurador-geral de Alagoas, mas sem base nacional própria. Pela mesma régua que faz de Alckmin um vice seguro para Lula, Gaspar é um vice seguro para Flávio, só que aqui a segurança institucional coincide com a fraqueza da coligação. Onde Lula pôde se dar ao luxo de um vice sem base porque já tem coalizão, Flávio tem um vice sem base porque não conseguiu (ou não quis) formá-la. Somente o tempo dirá quais serão as vantagens eleitorais de se ter um vice como Gaspar, já que, ao contrário de Alckmin, que exerce o cargo desde 2022, ele nunca foi vice-presidente. O fato de Gaspar vir de um estado do Nordeste (onde Lula lidera as pesquisas e Flávio precisa melhorar) e ter sido relator da CPMI do INSS também pesa politicamente a seu favor, principalmente se considerarmos que ele utilizará sua experiência na CPMI para questionar com mais propriedade o governo Lula.

O tabuleiro estadual reproduz em partes o argumento anterior, mas com algumas ressalvas.

Jorginho Mello (PL) e Adriano Silva (Novo) são um exemplo curioso das vantagens da coligação. O governador trocou a vice atual, Marilisa Boehm, do próprio PL, pelo ex-prefeito de Joinville, o maior colégio eleitoral do estado, e filiado ao Novo. O Novo está longe de ser considerado um grande partido em Santa Catarina (onde tem um deputado estadual, um federal e um punhado de prefeitos e vereadores), mas a estratégia do governador, que possui nove siglas em sua coligação, aparenta ter sido a de buscar um nome jovem, bem avaliado e de um colégio eleitoral grande, ainda que, como na análise feita sobre Alckmin e Gaspar, não possua poder suficiente, à primeira vista, para ameaçá-lo no futuro.

Image #0
Jorginho Mello e Adriano Silva na convenção que os confirmou como candidatos a governador e vice. Crédito: ND Mais

Com João Rodrigues (PSD) e Carlos Chiodini (MDB), ambos de partidos considerados do centrão, a lógica da coligação é mais tradicional, no sentido de que as vagas de vice e senado foram claramente utilizadas pelo PSD para consolidar a aliança com MDB e União Progressista, aliás, uma aliança inédita em Santa Catarina. Chiodini é um político de carreira reconhecido no MDB estadual e nacional, possuindo vida política própria e não dependendo de Rodrigues caso ambos sejam eleitos. Nesse aspecto, a tese do vice fraco politicamente e forte na imagem não é tão presente aqui, mas sim um vice forte no aspecto partidário e que dá sustentação a uma coligação até então difícil de se realizar.

“Vamos vencer essa eleição”, garante candidato a vice de João Rodrigues ao Governo de SC
João Rodrigues e Carlos Chiodini na convenção que os confirmou como candidatos a governador e vice. Crédito: Jornal Razão/Reprodução

De todo o processo eleitoral que desembocará em outubro, o vice é a peça que o eleitor menos escolhe. Um cargo sem tarefa definida, escolhido por cálculo mais que por vontade popular. O eleitor decide o seu voto pelo primeiro nome da chapa; deveria, porém, olhar com mais atenção para quem aparece na segunda linha.  

Por Artur Fabro 03/08/2026 - 07:00 Atualizado em 03/08/2026 - 13:25

O PT oficializou neste domingo a candidatura de Lula à reeleição, com Alckmin de novo na vice. A coligação reúne sete legendas: a Federação Brasil da Esperança, que junta PT, PV e PCdoB; a Federação PSOL-Rede; e mais dois partidos, PSB e PDT. Do outro lado, o cenário é o inverso. Com a aparente recusa da Federação União Progressista e as incertezas que ainda rondam Republicanos e Podemos (que podem mudar de ideia até a próxima quarta-feira, 05/08, prazo final de realização das convenções), Flávio Bolsonaro chega ao início de agosto isolado e sem vice definido, apoiado oficialmente apenas pelo PL.

Lula discursa na convenção do PT. Ao fundo, o palanque paulista da coligação: Fernando Haddad (PT) ao governo, Márcio França (PSB) na vice e Marina Silva (Rede) ao Senado. Crédito: Brasil de Fato/Reprodução.​​​​​

Desde as eleições de 2002, excetuando a de 2018, os candidatos vencedores sempre contaram com três ou mais partidos antes do primeiro turno: Lula com cinco partidos em 2002 e três em 2006; Dilma com dez em 2010 e nove em 2014; Bolsonaro com dois em 2018; Lula com nove em 2022. Em quatro das últimas seis eleições o vencedor tinha uma coligação maior que a do candidato derrotado; em 2014 houve empate, com nove partidos de cada lado, e 2018 foi a única inversão (lembrando o leitor que, de 2002 a 2022, todas as eleições presidenciais foram para o segundo turno).

A vantagem de uma ampla coligação para cargos majoritários é notável na história recente do país. Com isso, não se afirma que há um nexo causal direto entre grandes coligações e vitórias, isto é, não basta somente possuir uma coligação maior que a do adversário para vencê-lo. Todavia, candidatos competitivos e vencedores geralmente formam grandes blocos partidários.

Comecemos pelo mais óbvio: o tempo de propaganda no rádio e na televisão é distribuído conforme o número de deputados federais eleitos pelos partidos que compõem cada coligação. Coligar-se é literalmente acumular minutos valiosos de propaganda eleitoral gratuita. Some-se a isso o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (Fundão), distribuído às legendas segundo critério semelhante de representação: coligar-se permite somar esses recursos em torno de uma mesma candidatura.

Um dos efeitos mais profundos dessa vantagem tem a ver com a capilaridade territorial dos partidos. O Brasil elege o presidente com voto nacional e organiza a política em 27 unidades federadas. Nenhum candidato presidencial tem estrutura própria em 5.570 municípios. Quem tem são os diretórios estaduais e municipais dos partidos, com prefeitos, vereadores, deputados estaduais, deputados federais, senadores e governadores. Sem o palanque estadual, um candidato a presidente pode continuar tendo seu tempo de propaganda eleitoral e sua atuação nas redes sociais, contudo provavelmente perderá o contato com um importante contingente de eleitores espalhados pelo imenso território brasileiro. Com as expectativas de que, repetindo 2022, as eleições deste ano também sejam apertadas, qualquer novo grupo de eleitores conquistado pode fazer a diferença.

Em 2018, Jair Bolsonaro estava praticamente sozinho porque ninguém apostaria num deputado do baixo clero, ainda mais filiado a um partido de pouquíssima expressão, o PSL, e coligado com o também nanico PRTB de Levy Fidelix, que indicou o general Mourão como candidato a vice. Essa aliança dava a Bolsonaro 8 segundos de televisão e, mesmo assim, excepcionalmente, dado também o contexto da época (impeachment recente de Dilma Rousseff, Operação Lava Jato no auge, prisão de Lula etc.), foi o bastante para vencer Fernando Haddad (PT). Agora, Flávio ainda está sozinho porque os partidos olharam, avaliaram e, até o momento, não foram convencidos de seu projeto. A situação de Flávio só não é pior porque o PL detém a maior bancada da Câmara Federal, o que lhe garante 4min20s no horário eleitoral, contra 5min32s de Lula, além de uma forte capilaridade estadual e municipal construída durante os anos em que seu pai foi presidente e tentou a reeleição. Como já dito, esse diagnóstico não significa que Flávio perderá as eleições; significa que, se vencer, terá de construir em janeiro, no Congresso, a coalizão de governo que não conseguiu formar em agosto, nas convenções.

 

Flávio Bolsonaro oficializa candidatura ao lado de Milei e sem Michelle, e  promete subir a rampa do Planalto em 2027 com Jair Bolsonaro - BBC News  Brasil
Flávio Bolsonaro ao lado de Javier Milei, na convenção do PL que oficializou sua candidatura à Presidência, ainda sem vice definido e sem coligação fechada. Crédito: Nelson ALMEIDA / AFP via Getty Images.

Assim, a coligação eleitoral vale, sobretudo, pelo que antecipa. O cientista político brasileiro Sérgio Abranches descreveu essa lógica em 1988, no artigo Presidencialismo de coalizão: o dilema institucional brasileiro, publicado na revista Dados. Foi ali que nasceu a expressão "presidencialismo de coalizão", provavelmente a mais citada da ciência política brasileira. O argumento é que o Brasil combina, de forma rara, presidencialismo, representação proporcional e multipartidarismo, e o resultado é que nenhum presidente jamais teve maioria própria no Congresso. Governar aqui significa, necessariamente, construir coalizão, que não se confunde com a coligação eleitoral, mas dificilmente se forma sem ela. Os partidos sabem disso melhor que ninguém. Quando um bloco se recusa a embarcar em uma candidatura, não está apenas se poupando de uma derrota em outubro; está calculando com quem preferirá negociar em janeiro.

Por Artur Fabro 27/07/2026 - 07:00 Atualizado em 29/07/2026 - 10:28

De 20/07 a 05/08, partidos e federações estão autorizados a realizar suas convenções, nos termos do art. 8º da Lei nº 9.504/1997; a ata de cada encontro deve ser transmitida à Justiça Eleitoral até o dia seguinte ao da realização, o pedido de registro das candidaturas vai até 15/08, a propaganda eleitoral começa em 16/08. Convém recordar ao eleitor o que se decide nas convenções partidárias: a chapa majoritária (presidente e vice, na convenção nacional; governador e vice, senadores e respectivos suplentes, na estadual); a coligação, que desde a Emenda Constitucional nº 97/2017 só é admitida nas disputas majoritárias; e a nominata proporcional (deputados estaduais e federais), que cada partido ou federação apresenta isoladamente, limitada a 100% das vagas em disputa mais uma, o que significa, em Santa Catarina, 17 nomes à Câmara dos Deputados e 41 à Assembleia Legislativa.

Nada obriga, porém, a fechar a chapa de uma só vez, pois o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) admite que a escolha de candidaturas e a deliberação sobre coligações se façam em etapas, de modo que o nome do vice pode ser definido depois da convenção que homologa o cabeça de chapa, desde que o conjunto esteja completo no pedido de registro, em 15/08. Duas disposições completam o quadro: as federações, diferentemente das coligações, deliberam de forma unificada e permanecem associadas por prazo que não pode ser inferior a quatro anos; e, desde a Emenda Constitucional nº 52/2006, não há verticalização, ou seja, o alinhamento nacional não obriga o diretório estadual, razão pela qual um mesmo partido pode integrar, em Brasília e em Florianópolis, campos adversários.

Este registro é importante; a pergunta que ele não responde, no entanto, é a seguinte: por que uma das etapas mais decisivas do processo eleitoral é justamente a menos disputada publicamente? Escolhi dois cientistas políticos, um norte-americano e um francês, que podem nos ajudar a compreender a lógica das convenções partidárias.

Elmer Eric Schattschneider (1892–1971), que foi presidente da Associação Americana de Ciência Política (APSA), dedicou-se a demonstrar que a democracia moderna é impensável fora dos partidos. É de Governo partidário (1942), um de seus livros mais relevantes, a proposição que melhor organiza o problema aqui discutido: quem controla as indicações é o dono do partido (no original do autor, "owner of the party"; na prática política brasileira, equivale à figura do presidente do partido) porque a natureza do procedimento de indicação determina a natureza do próprio partido. Programas partidários podem ser escritos por assessores, discursos podem ser adaptados ao público; as indicações das candidaturas, não, ou, mais exatamente, só podem ser desfeitas por quem as fez, nas hipóteses em que a lei admite a substituição e dentro de prazos que se esgotam antes da votação. Um partido que perdeu o controle sobre quem indica já perdeu o controle sobre o que é, ainda que conserve a sigla, o programa e o fundo partidário.

Bernard Manin (1951–2024), cientista político francês e autor de Os princípios do governo representativo (1995), oferece o complemento necessário. Ele parte de uma ideia que já foi óbvia e hoje soa estranha: por muito tempo, o sorteio era considerado o método democrático, e a eleição, o método aristocrático. No sorteio, qualquer um pode ser escolhido; na eleição, votamos em quem consideramos melhor que os demais de alguma forma (mais preparado, mais conhecido, mais confiável). Por isso o eleito é sempre alguém que se destaca da multidão que o elegeu. O sistema representativo que herdamos junta as duas coisas: é democrático porque todos votam, e é aristocrático porque o voto, por natureza, seleciona os que se destacam. E a convenção partidária acrescenta um segundo filtro, anterior a esse: ela decide quem poderá ser escolhido. O eleitor manda na hora de escolher; não manda na hora de definir entre quem vai escolher. Ao eleitor catarinense caberá, em outubro, decidir entre sete ou oito candidaturas ao governo; nenhuma delas foi formulada por ele, e todas foram fixadas em reuniões cujo quórum raramente ultrapassa algumas dezenas de dirigentes.

Dessa forma, a convenção não delibera; ratifica o que a direção partidária decidiu antes. Está aí o incômodo de descrevê-la como momento de democracia interna, e o erro de descartá-la como formalidade sem sentido, já que é a formalidade que produz o efeito jurídico e fecha, ao menos momentaneamente, o campo das possibilidades.

Por Artur Fabro 20/07/2026 - 07:00 Atualizado em 26/07/2026 - 18:51

Há pouco mais de um século, em janeiro de 1919, no contexto da Revolução Alemã, Max Weber (1864-1920), um intelectual, jurista e economista alemão, considerado um dos fundadores da Sociologia, subiu a uma tribuna em Munique para falar a estudantes sobre a "política como vocação". Do discurso saiu uma distinção conceitual interessante: há uma ética da convicção, de quem se entrega a uma causa e compreende o mundo a partir dela; e uma ética da responsabilidade, de quem não se pergunta apenas se o ato é justo, mas também pelo que ele provavelmente vai provocar. O político, sob essa perspectiva, vive dessa tensão, precisa da paixão de quem acredita e da frieza de quem enxerga as coisas como são.

Imagem do rosto de Max Weber em preto e branco

Em outra conferência célebre, sobre a "ciência como vocação", Weber advertia que a tarefa de quem analisa não é ser um profeta ou demagogo, e sim oferecer clareza. Se pudermos aplicar esses raciocínios à leitura das eleições, a lição se torna ainda mais exigente, isto é, não cabe àquele que trata da política como ciência dizer em quem se deve votar, nem comemorar ou lamentar um resultado; cabe, isto sim, distinguir o que um número diz do que ele apenas parece dizer, devolvendo ao leitor as perguntas na forma mais honesta possível.

É por isso que a ciência política não se confunde com a crônica política, por mais que uma se alimente da outra. A crônica narra o episódio, a declaração de ontem, a briga da semana, quem subiu e quem caiu. A ciência política pergunta o que, naquele episódio, é passageiro e o que é estrutural. Nesta coluna, ficamos com a ciência política.

Duas pesquisas saíram nos últimos dias e servem bem ao exercício aqui proposto.

Na quarta-feira da semana passada (15/07), a Genial/Quaest divulgou seu último levantamento nacional, com 2.004 entrevistas presenciais realizadas entre 10 e 13 de julho e margem de erro de dois pontos. Lula (PT) lidera o primeiro turno e vence todos os cenários de segundo turno. Em relação a quatro desses cenários de segundo turno, contra quatro adversários distintos — Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) —, Lula aparece com exatamente o mesmo número: 45%. O que muda de cenário para cenário é apenas o tamanho do adversário (de 33% a 37%) e a fatia que sobra em branco, nulo ou indecisão (de 14% a 18%).

Esses dados podem significar que a disputa de segundo turno, hoje, não é tanto uma escolha entre dois candidatos quanto um julgamento sobre um só. O teto e o piso de Lula estão fixados por aquilo que os eleitores já conhecem dele. A tarefa do adversário, nesse quadro, aparenta ser conseguir reunir sob a bandeira do "antipetismo"/"antilulismo" o eleitorado que rejeita o presidente. É o que a literatura da ciência política tende a chamar de "voto retrospectivo", ou seja, quando há um incumbente forte, o eleitorado tende a transformar a eleição num sim ou não ao governo.

A Quaest também perguntou o que dá mais medo: a reeleição de Lula ou a volta dos Bolsonaro. A volta dos Bolsonaro assusta 46%; a reeleição de Lula, 38%. Em março, havia quase um empate (43% a 42%); de lá para cá, o medo dos Bolsonaro abriu vantagem. Repare em um detalhe, caro leitor: o campo que mais teme os Bolsonaro é maior do que o que mais teme Lula, praticamente na mesma proporção em que Lula abre vantagem no segundo turno contra Flávio (45% a 37%). A eleição de 2026, ao menos por ora, segue o caminho de quem assusta menos o eleitor, e não o das qualidades/inspirações que os candidatos hipoteticamente transmitem.

Há ainda um enigma que vale a pena expor, porque desmente uma intuição comum. Pela primeira vez em treze meses, a aprovação de Lula superou a desaprovação: 48% a 47%. O enigma é que ela acontece enquanto 43% dos brasileiros ainda dizem que a economia, possivelmente um dos indicadores mais relevantes levados em conta pelos eleitores comuns quando decidem o voto, piorou nos últimos doze meses, contra apenas 20% que acham que melhorou. Como se aprova mais um governo cuja economia a maioria julga pior? Um terço dos entrevistados (32%) diz ter sido diretamente beneficiado pela isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais. Assim, a percepção difusa do eleitor comum sobre "a economia", quando confrontada com benefícios concretos e localizados, cede diante deles; a gratidão real que esses benefícios produzem é suficiente para melhorar a aprovação.

Em Santa Catarina, o IPC, contratado pela Associação Catarinense de Jornais (ACJ), trouxe governo e Senado no mesmo campo (9 a 13 de julho, 1.050 entrevistas presenciais, margem de três pontos), mas soltou os números em dias diferentes. Para o governo, a fotografia é nítida: em cenário de primeiro turno, Jorginho Mello (PL) lidera com folga, 53,3% na estimulada, contra 26,2% de João Rodrigues (PSD), seu principal adversário. A novidade da série recente é o crescimento de João Rodrigues como polo de oposição ao governador.

O que merece mais atenção, para mim, nessa pesquisa, é o Senado. Em 2026, cada eleitor catarinense votará em dois nomes para o Senado. Esse fato altera a análise dos números, e a pesquisa do IPC permite ver o porquê, se olharmos a diferença entre o primeiro e o segundo voto: Carlos Bolsonaro (PL) é a primeira escolha de 27,4%, mas despenca para 11,1% no segundo voto; Caroline de Toni (PL) é apenas a quarta colocada no primeiro voto (14,4%), disparando para a liderança isolada no segundo (24,6%); Esperidião Amin (PP) é o mais equilibrado dos três (17,8% no primeiro voto e 16,3% no segundo voto). No fim das contas, a soma do primeiro e do segundo votos quase coloca os três em um empate técnico, com Décio Lima (PT) e Antídio Lunelli (MDB) correndo por fora.

Uma análise possível sobre a corrida para o Senado em Santa Catarina: o PL tem dois candidatos competitivos e parece só conseguir as duas vagas se convencer o próprio eleitor a usar os dois votos em seus dois nomes. O risco está no comportamento provável do eleitor bolsonarista: se ele der o primeiro voto a Carlos e, no segundo, não repetir na legenda, o PL desperdiça parte de sua força e pode perder a segunda vaga. Amin (PP) é quem mais tende a se beneficiar dessa dispersão, por ser forte no segundo voto e disputar o mesmo campo de direita, mas, num quadro em que os três primeiros colocados quase empatam e Décio Lima ronda os 30%, a vaga que escapa ao PL não está necessariamente destinada a um único adversário.

De Brasília a Florianópolis, as duas pesquisas contam uma história parecida: o eleitor decide por razões próprias (medo, gratidão, cálculo individual do voto etc.) e é da soma dessas razões, nem sempre coerente, que emerge o resultado.
 

Por Artur Fabro 13/07/2026 - 09:00 Atualizado em 13/07/2026 - 19:44

O ano de 2026 é de eleição geral no Brasil. Em outubro o país escolhe presidente, governadores, senadores e deputados federais e estaduais, e a essa altura pesquisas, coligações e discursos de campanha já disputam espaço na atenção pública, muitas vezes gerando mais ruído do que compreensão. As convenções partidárias, que oficializam candidaturas e coligações, começam já na semana que vem. É para ajudar o leitor do 4oito a transformar esse ruído em compreensão que esta coluna começa hoje.

Meu nome é Artur Fabro, sou doutor em Sociologia e Ciência Política pela UFSC e professor do curso de Direito da UNESC. A proposta deste espaço é simples: tratar as eleições com o rigor da ciência política, mas na linguagem do dia a dia. Isso significa, de um lado, comentar pesquisas eleitorais, movimentos de candidaturas e disputas em torno do sistema eleitoral à medida que acontecem. De outro, significa recorrer sempre que possível a conceitos e análises da ciência política, sem pressupor que o leitor tenha formação na área.

Um compromisso que vale a pena declarar logo na estreia, esta coluna não defenderá nenhum partido ou candidato em específico. O interesse aqui é compreender mecanismos, comportamento eleitoral, a lógica das coligações, o funcionamento do sistema de votação etc. Concordar ou discordar das conclusões aqui expressas faz parte do jogo democrático.

Agradeço ao Adelor Lessa pelo convite e espero que todos tenham uma ótima leitura.

P.S.: Exceto hoje, a coluna será publicada toda segunda-feira, às 7h.

« »

Copyright © 2026.
Todos os direitos reservados ao Portal 4oito