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* as opiniões expressas neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do 4oito
Por Artur Fabro 26/10/2026 - 10:16 Atualizado em 28/10/2026 - 16:33

Lula foi reeleito ontem, em segundo turno, com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro.

Sobre essa eleição histórica, trago algumas considerações que vejo como relevantes.

Paradigmas quebrados

  • Pela primeira vez desde a redemocratização, quem terminou o primeiro turno em segundo lugar venceu a eleição presidencial.
  • Lula também se torna o primeiro presidente eleito quatro vezes pelo voto popular.
  • Se cumprir o mandato, somará 16 anos no cargo, mais do que qualquer outro presidente eleito democraticamente.
  • Lula completa 81 anos nesta terça-feira (27) e será o presidente mais velho a tomar posse, superando o próprio recorde de 2023.
  • Lula teve 64,26 milhões de votos, a maior votação da história, superando os 60,3 milhões que ele mesmo havia recebido em 2022.
  • Pela primeira vez, uma decisão judicial estendeu a votação no país inteiro, embora só nas seções que ainda estavam abertas.
  • A abstenção caiu de 21,08% para 19,21% entre os turnos, a menor taxa num segundo turno desde 2006. A queda, de 1,87 ponto percentual, foi a maior entre dois turnos desde a redemocratização.
  • Levando em conta a série histórica do Datafolha desde 1998, Lula também se reelegeu com a avaliação de governo mais baixa entre os presidentes reeleitos. Na penúltima pesquisa (a de véspera não trouxe esse dado, pelo menos nao consegui achar) antes do segundo turno, ele chegou a somente 36% de ótimo/bom.

Como Lula virou

Entre um turno e outro, Lula ganhou 10,4 milhões de votos, e Flávio, 3,7 milhões. Cerca de 14 milhões de votos estavam em disputa:

  • 9,3 milhões de eleitores de Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e dos demais candidatos;
  • cerca de 3 milhões de eleitores a mais nas urnas, com a queda da abstenção;
  • cerca de 1,8 milhão de votos brancos e nulos a menos que no primeiro turno.

Lula ficou com quase três quartos desse saldo.

No mapa, a virada não veio só do Nordeste. A vantagem se deslocou 6,7 milhões de votos, de Flávio +2,2 milhões para Lula +4,4 milhões. O Nordeste respondeu por 2,6 milhões dessa mudança, e o Sudeste, por 2,9 milhões. Foi no Sudeste, aliás, que Lula mais ganhou votos: 4,8 milhões a mais que no primeiro turno.

Região

Lula: ganho entre os turnos

Flávio: ganho entre os turnos

Vantagem no 1º turno

Vantagem no 2º turno

Sudeste

+4,80 milhões

+1,94 milhão

Flávio +5,66 milhões

Flávio +2,81 milhões

Nordeste

+2,96 milhões

+398 mil

Lula +11,10 milhões

Lula +13,65 milhões

Sul

+1,33 milhão

+867 mil

Flávio +5,04 milhões

Flávio +4,58 milhões

Centro-Oeste

+771 mil

+470 mil

Flávio +2,17 milhões

Flávio +1,87 milhão

Norte

+474 mil

+14 mil

Flávio +459 mil

Lula +1.079 votos

São Paulo foi onde Lula mais cresceu: 2,6 milhões de votos a mais que no primeiro turno. Ele perdeu no estado, mas a vantagem de Flávio caiu de 3,4 milhões para 2,0 milhões. Minas foi o único estado que trocou de lado: Flávio venceu por 589 mil votos no primeiro turno, e Lula ganhou por 109 mil no segundo.

O Norte também mudou de lado. Flávio vencia a região por 459 mil votos no primeiro turno, e Lula terminou o segundo à frente por 1.079 votos.

Lula melhorou seu percentual nas 27 unidades da federação. A maior alta foi em Goiás, estado de Caiado, onde passou de 31,06% para 40,34%. Dos municípios em que Flávio liderava, 211 passaram para Lula, e só um fez o caminho inverso.

Em Santa Catarina, Flávio teve 69,42% e venceu em 289 dos 295 municípios. Ainda assim, Lula também subiu no estado, de 25,04% para 30,58%.

O que os números agregados não mostram é o caminho de cada eleitor. Antes do segundo turno, era praticamente consensual que os eleitores dos candidatos derrotados (a chamada terceira via), no conjunto, pendiam para Flávio. Entretanto, podemos supor que a migração favoreceu Lula muito mais do que as pesquisas indicavam, ou que parte de quem votou em Flávio no primeiro turno não repetiu o voto, seja por ter se abstido ou votado branco/nulo, seja por ter votado em Lula. Provavelmente, as duas coisas aconteceram.

Os “erros” das pesquisas

As pesquisas erraram nos dois turnos, e em direções opostas. No primeiro, os grandes institutos mostravam Lula à frente. No segundo, das 12 pesquisas divulgadas nos dois dias anteriores à eleição, 10 apontavam Flávio na frente. Somente duas delas, Vox Brasil e Colectta, colocavam Lula à frente. Eis alguns números das pesquisas e a distância do resultado final: 

Pesquisa (23 e 24/10)

Lula

Flávio

Distância do resultado

Vox Brasil

50,6%

49,4%

1,2 ponto

Colectta

50,3%

49,7%

1,5 ponto

BTG/Nexus

49,5%

50,5%

2,3 pontos

AtlasIntel/Bloomberg

49,2%

50,8%

2,6 pontos

Datafolha

49%

51%

2,8 pontos

Quaest

49%

51%

2,8 pontos

Pesquisa mede intenção num momento, não prevê resultado, e quase todas tratavam a disputa como empate técnico. Mas Datafolha, Quaest e AtlasIntel ficaram fora da própria margem de erro, e os grandes institutos erraram todos para o mesmo lado, o que sugere um problema de método.

No primeiro turno, a explicação mais citada é o voto útil. Caiado, Cury e Renan somavam 10% dos válidos no último Datafolha e terminaram com 7,3%, enquanto Flávio teve 5 pontos a mais do que o previsto.

No segundo turno, sem terceira via, o desafio era outro: saber quem iria votar. A abstenção caiu quase dois pontos, e quem voltou às urnas parece ter votado mais em Lula. O Datafolha apontava o contrário: entre os eleitores mais propensos a votar, Flávio tinha 52% a 48%.

Para Andrei Roman, CEO da AtlasIntel, Datafolha e Quaest usaram “modelos errôneos de eleitor provável”. Ele sugere ainda que os grandes institutos, sob a ameaça de uma CPI das pesquisas, tiveram “medo de subestimar Flávio Bolsonaro”. E admitiu um erro da própria Atlas.

O mecanismo da virada, curiosamente, apareceu em uma pesquisa da Quaest. Felipe Nunes, diretor da Quaest, apontava os eleitores que votaram em branco, anularam ou se abstiveram no primeiro turno como a principal chance de Lula, como ocorreu com Dilma Rousseff em 2014. A pesquisa do instituto, no entanto, não captou esse movimento. Ainda assim, a mesma Quaest tinha apontado, na rodada divulgada em 21 de outubro, uma queda vertiginosa na rejeição de Lula, de 53% para 47% em uma semana, o que a deixou abaixo dos 52% de Flávio. Mostrou também que o medo da volta dos Bolsonaro ao poder subiu de 43% para 44% e passou a superar o temor de um novo governo Lula, que caiu de 43% para 42%.

Os desafios do quarto governo

O maior desafio de Lula será governar com um Congresso mais à direita. O PL elegeu 121 deputados e deve ter 29 senadores. A federação do PT terá 88 deputados, e o PT, 10 senadores.

  • Maioria no Congresso: Lula dependerá de União Brasil (46 deputados), PSD (43), PP (41), Republicanos (41) e MDB (36), e esse apoio costuma custar cargos e emendas. No Senado, o PL fica a quatro votos dos 33 necessários para barrar sozinho uma emenda constitucional.
  • Contas públicas: a dívida bruta chegou a 82,9% do PIB, mais de 10 pontos acima do início do governo, e o déficit primário está perto de 0,5% do PIB. A equipe de Lula promete um ajuste gradual de cerca de 2 pontos do PIB, menos do que analistas consideram necessário para estabilizar a dívida.
  • Promessas caras: a campanha prometeu reajuste do Bolsa Família, tarifa zero no transporte municipal aos fins de semana, nova rodada do Desenrola e o Pé-de-Meia Universitário. O governo também terá de regulamentar a jornada de 40 horas semanais, aprovada em outubro.
  • Juros e inflação: a Selic está em 13,75%, e a inflação de 12 meses (4,6% até setembro) segue acima do teto da meta.
  • Segurança pública: a violência foi a principal preocupação do eleitor durante a campanha. A PEC da Segurança e o ministério prometidos dependem de acordo com governadores, vários deles de oposição.
  • Legitimidade e STF: Lula começa o mandato com o adversário pedindo a anulação da eleição. A decisão de Zanin deve alimentar no Congresso as propostas de limitar decisões monocráticas e os pedidos de impeachment de ministros do Supremo.
  • Sucessão: Lula não poderá concorrer em 2030 e terá de preparar um herdeiro enquanto governa um país dividido quase ao meio.

A reorganização do bolsonarismo e da direita 

O bolsonarismo perdeu a Presidência, mas sai da eleição maior no Congresso e com quase metade do eleitorado. Os 59,8 milhões de votos de Flávio são a maior votação de um candidato derrotado na história, acima dos 58,2 milhões de Jair Bolsonaro em 2022. Somados às maiores bancadas da Câmara e do Senado, fazem do PL o centro da oposição.

Jair Bolsonaro cumpre pena de 27 anos pela tentativa de golpe, e sua saída da prisão depende de uma revisão criminal no STF, já que a reeleição de Lula afasta a hipótese de indulto. Eduardo, condenado por coação, vive nos Estados Unidos, e Michelle, que em junho acusou Flávio de maltratá-la, ficou fora da campanha dele e se elegeu senadora pelo DF. Carlos se elegeu senador por SC, e Jair Renan, Deputado Federal pelo mesmo estado.

Flávio escolheu contestar o resultado. No domingo à noite, disse ser “impossível reconhecer o resultado das eleições” e anunciou que pedirá a anulação do pleito por causa da decisão de Zanin de estender o horário de votação. A estratégia mantém a base mobilizada, mas tem pontos fracos. A própria campanha de Flávio pediu ao TSE a prorrogação da votação em municípios de cinco estados. E uma vantagem de 4,4 milhões de votos torna difícil demonstrar o prejuízo que a lei exige para anular votos.

Fora da família, quem ganha espaço é Tarcísio de Freitas. Reeleito no primeiro turno em São Paulo, ele passa a ser visto como o candidato natural da direita em 2030. Atrás dele vem uma geração mais jovem, como Nikolas Ferreira, o deputado mais votado do país, que só poderá concorrer à Presidência em 2034.

A direita terá de escolher entre dois caminhos. Um é o da contestação, que repete 2022 e mantém o sobrenome Bolsonaro no centro, mesmo após duas derrotas seguidas. O outro é o de uma oposição institucional, que aposta no peso conquistado no Congresso e nos estados, e aí o protagonismo da família Bolsonaro será colocado em xeque.

 

Por Artur Fabro 19/10/2026 - 07:00 Atualizado em 19/10/2026 - 15:42

Foi preciso esperar até a última semana da campanha para ver Lula e Flávio Bolsonaro frente a frente. Durante todo o primeiro turno, os dois líderes das pesquisas fugiram dos debates. O único realizado na TV, pela Band, em 23 de agosto, reuniu Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury; Romeu Zema desistiu horas antes.

A Globo cancelou o seu, previsto para 1º de outubro: Lula já havia decidido não ir, e Flávio desistiu horas antes, acusando o TSE de "censura". A Record e o consórcio de veículos também desmarcaram os seus, no primeiro e no segundo turno, por falta de confirmação ou por "incompatibilidade de agendas".

Os embates da noite

O formato do debate da Band previa dois blocos de confronto direto, o primeiro e o terceiro, com tema livre e tempo administrado pelos próprios candidatos. No primeiro, cada um dispunha de um banco de 15 minutos para usar como quisesse. Pessoalmente, considero essa parte do formato exagerada e culpada pela quantidade de análises posteriores que consideraram o debate muito raso e, em certas partes, beirando a baixaria.

Mesmo assim, selecionei quatro momentos que considerei relevantes: dois pelo conteúdo, nos quais houve apresentação de propostas, e dois pela repercussão, entre os mais polêmicos da noite.

Pelo conteúdo

  • Na segurança pública, tema da primeira pergunta dos mediadores, que citava as 40.775 mortes violentas do ano anterior, Flávio prometeu classificar PCC, CV e milícias como organizações narcoterroristas: “Vou declarar guerra ao narcoterrorista”. Também defendeu penas mais duras e a criação de mais de 500 mil vagas em presídios. Lula defendeu a atuação conjunta de União, estados e municípios e a criação de um Ministério da Segurança Pública, cobrou de Flávio apoio à PEC da Segurança e citou a lei antifacção aprovada em seu governo.
  • Na saúde, Flávio anunciou Claudio Lottenberg, ex-presidente do Hospital Albert Einstein, como futuro ministro e prometeu “padrão Einstein no SUS”, com prontuário eletrônico único, telemedicina e inteligência artificial para reduzir as filas. Lula perguntou se a proposta significava privatizar o sistema e lembrou os 716 mil mortos da pandemia. Flávio reconheceu que “a saúde não foi uma área que tivemos o melhor resultado” no governo do pai e lembrou que a vacina tomada por Lula foi comprada por Bolsonaro.

Pela repercussão

  • Questionado por Lula sobre a defesa de um policial militar acusado de matar uma criança de cinco anos, Flávio respondeu citando o voto nos presídios, onde votam presos provisórios: “Quase 100% dos presos perigosos votaram em você”. Lula rebateu com uma referência a Jair Bolsonaro, que cumpre em prisão domiciliar a pena de 27 anos e 3 meses pela trama golpista: “Que vote 100%, até teu pai”.
  • Em outro momento, Lula perguntou onde seria feito o “tesouraço”, o corte de gastos proposto por Flávio. “Nas suas viagens com a Janja. R$ 7 milhões que você já gastou com a Janja”, respondeu o senador. Lula o chamou de “malandro carioca, que finge que não finge e mente descaradamente”; no bloco seguinte, Flávio se solidarizou com os moradores do Rio “que foram chamados de malandros”.

O tabuleiro, pra mim, continua o mesmo

Um debate só vira fato novo quando tem potencial para mexer com dois grupos: os que ainda estão indecisos, um contingente aparentemente pequeno, pelo que mostram as últimas pesquisas, e os que pensam em se abster no segundo turno, cerca de 20% a 21% do eleitorado nas últimas eleições presidenciais. 

Esses eleitores dificilmente se movem com uma troca de acusações como a que vimos ontem. O mais provável é que debates como esse reforcem a sensação de que nenhum dos dois candidatos merece o voto.

Debates raramente decidem eleições no Brasil; a exceção sempre lembrada é 1989, quando a edição do último confronto entre Collor e Lula, exibida no Jornal Nacional, ficou marcada como decisiva. Sem um episódio dessa magnitude, o debate da Band só confirmou o que as pesquisas já mostravam: uma eleição decidida mais pela rejeição ao adversário do que pela adesão ao próprio candidato.

Por ora

A não ser que as pesquisas desta semana nos mostrem o contrário sobre os efeitos do debate de ontem, resta-nos o debate da Globo, na sexta-feira (23), logo depois do Jornal Nacional. Tradicionalmente o de maior audiência, será também o último antes da votação.

Até lá, fato novo, se houver, tende a continuar vindo das frentes que já conhecemos: o escândalo do Banco Master, as investigações em curso e as decisões do STF.

 

Por Artur Fabro 13/10/2026 - 08:00

A guerra e os seus aliados

No capítulo XV de O Príncipe, Nicolau Maquiavel avisa que prefere ir atrás da "verdade efetiva da coisa" a imaginar, como tantos antes dele, repúblicas e principados que nunca existiram. A razão: "há tamanha distância entre como se vive e como se deveria viver" que quem troca o que se faz pelo que se deveria fazer "aprende antes a sua ruína do que a sua preservação". Três capítulos adiante, vem o conselho: que o príncipe trate de vencer e manter o Estado, e os meios "serão sempre julgados honrosos e por todos louvados". A fórmula "os fins justificam os meios", que Maquiavel nunca escreveu, é a versão "traduzida" dessa passagem.

Os realistas (autores que analisam a política como ela é, e não como deveria ser) que vieram depois de Maquiavel disseram o mesmo de outras formas. Carl von Clausewitz (general prussiano do início do século XIX, autor do clássico Da Guerra) definiu a guerra como "a continuação da política por outros meios". Otto von Bismarck (chanceler que conduziu a unificação da Alemanha, em 1871) chamou a política de "arte do possível". Lord Palmerston (então ministro das Relações Exteriores e, depois, primeiro-ministro do Reino Unido) resumiu a lógica das alianças no Parlamento britânico, em 1848: “Não temos aliados eternos nem inimigos perpétuos. Nossos interesses é que são eternos e perpétuos.”

Na guerra, os aliados não se escolhem por afinidade, mas por interesse. A eleição é o momento em que a política democrática mais se parece com a guerra. Há data marcada, um vencedor, um derrotado e nenhum meio-termo.

Nada de novo sob o sol

Em 2002, depois de três derrotas consecutivas para a Presidência da República, Lula assinou a "Carta ao Povo Brasileiro", prometendo respeitar contratos, e escolheu como vice o empresário José Alencar, do Partido Liberal. O PL já era presidido por Valdemar Costa Neto, o mesmo que hoje comanda o partido de Flávio Bolsonaro.

Em 2022, Lula foi buscar Geraldo Alckmin, o adversário que derrotara no segundo turno de 2006. A campanha daquele ano foi dura. No debate da Band, Lula lembrou que “foram o PSDB e o PFL que privatizaram o país” e acusou o próprio Alckmin de ter acabado de privatizar uma empresa de transmissão de energia em São Paulo. A antipatia era recíproca. Em 2017, Alckmin dizia que Lula, “depois de ter quebrado o Brasil”, queria “voltar à cena do crime”. Cinco anos depois, deixou o PSDB, filiou-se ao PSB e virou vice de Lula.

Jair Bolsonaro fez o caminho inverso, com a mesma lógica. Em 2018, na convenção do PSL, o general Augusto Heleno cantou "se gritar pega centrão, não fica um, meu irmão". Três anos depois, Ciro Nogueira, do PP, comandava a Casa Civil, e o próprio Bolsonaro se filiava ao PL de Valdemar para disputar a reeleição.

Os fiadores

O primeiro turno deixou três candidatos com votos para emprestar: Augusto Cury (Avante), terceiro colocado, teve 3,4 milhões de votos (2,89%); Renan Santos (Missão), 2,67 milhões (2,24%); e Ronaldo Caiado (PSD), 2,60 milhões (2,18%). Cada um escolheu um tipo de pragmatismo. Aqui não incluo Romeu Zema (Novo), já que, apesar de o seu partido ter tido desempenho acima do esperado nas eleições para deputado e senador, sua candidatura à Presidência obteve apenas 326.488 votos (0,27%).

Caiado foi o mais rápido. Na noite da eleição, disse que manteria a coerência e que só falaria depois de conversar com Gilberto Kassab, presidente do PSD; dois dias depois, já estava com Flávio. Cury negociou; em setembro, dizia que Flávio teria de "provar que não é corrupto" para ter o seu apoio; na quinta-feira passada, anunciou o voto depois que o candidato assinou uma carta de compromissos em educação, saúde, BNDES e proteção às mulheres. 

Renan recusou apoio oficial da Missão a qualquer um dos dois: "Flávio é bandido. Lula é bandido", disse, sem recomendar voto.

Para ficar mais claro para o leitor, os apoios mais relevantes para o 2º turno podem ser organizados de acordo com a seguinte tabela:

Quem

Posição no 2º turno

 

Augusto Cury (Avante), 3º lugar

Flávio. 

PS.: não encontrei nada sobre o Avante declarar apoio formal a algum candidato.

 

Renan Santos (Missão), 4º lugar

Nenhum.

 

Ronaldo Caiado (PSD), 5º lugar

Flávio.

PS.: sendo uma decisão pessoal do candidato, o PSD ficou neutro.

 

União Brasil e PP

Flávio.

 

Republicanos

Flávio.

 

Podemos

Flávio.

 

MDB

Liberado

PS.: algumas liderenças nacionais do partido, como o ex-presidente Michel Temer, declararam apoio a Flávio.

 

PSD

Neutro.

 

PSDB

Neutro.

 

Quase ninguém mudou de lado por convicção. Partidos neutros no primeiro turno descobriram afinidades com Flávio depois que ele terminou na frente. 

A neutralidade também libera cada cacique para ficar com o vencedor no seu estado, como Hugo Motta (Republicanos), presidente da Câmara, e Lucas Ribeiro (PP), governador eleito da Paraíba, que fizeram campanha com Lula no primeiro turno; agora seus partidos fecharam com Flávio.

Por mais que as pesquisas tentem medir esse movimento, o eleitor, por sua vez, não obedece cegamente à orientação do seu candidato, derrotado no 1º turno, na hora de votar no 2º. Como escrevi no texto da semana passada, o apoio da cúpula partidária não transfere votos automaticamente.

Toda aliança cobra o seu preço depois da vitória. Parte da cobrança virá nas eleições municipais de 2028. 

 

Por Artur Fabro 05/10/2026 - 09:55 Atualizado em 05/10/2026 - 11:47

Um primeiro turno não previsto

Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente de Lula (PT) no primeiro turno da eleição presidencial, realizado ontem. Com 100% das urnas apuradas, o senador teve 47,03% dos votos válidos (56,1 milhões), contra 45,16% do presidente (53,9 milhões), uma diferença de 2,2 milhões de votos. Os demais candidatos, somados, ficaram com 7,81% (9,3 milhões de votos). Ou seja, mais uma vez a terceira via não vingou e foi incapaz de desarticular a polarização entre bolsonarismo e lulismo.

Dos 158,7 milhões de eleitores aptos, 33,4 milhões não foram às urnas, uma abstenção de 21,08%, a maior desde 1998. Entre os que compareceram, os votos brancos (1,84%) e nulos (2,93%) somaram cerca de 6 milhões. Ao todo, mais de 39 milhões de eleitores não escolheram nenhum candidato.

Em 2022, foi Lula quem saiu do primeiro turno na liderança, com 48,43% contra 43,20% de Jair Bolsonaro. Agora a situação se inverte. Pela segunda vez desde que a reeleição foi permitida, um presidente candidato a novo mandato termina o primeiro turno atrás do desafiante; a primeira foi justamente a de Jair Bolsonaro, quatro anos atrás.

Lula chega ao segundo turno, marcado para 25 de outubro, na posição de quem precisa virar o jogo, algo que nunca ocorreu na história das eleições presidenciais brasileiras. Flávio sai fortalecido, com uma votação que poucos institutos de pesquisa conseguiram captar.

A ressaca de Lula

O dado mais revelador do domingo não é o voto de Lula, mas o de Flávio. Na véspera, a Quaest, um dos institutos que mais se aproximaram do resultado, registrava 46% dos votos válidos para o presidente e 45% para o senador. Lula terminou com 45,16%, praticamente o que a pesquisa lhe atribuía.

Quem cresceu foi Flávio. Ele fez cerca de dois pontos a mais do que a Quaest indicava, praticamente no limite da margem de erro, o que mostra que havia uma tendência no ar. A urna apenas completou o movimento.

A ressaca do governo é a de quem descobriu o próprio teto de votos. Para chegar a 50% mais um, Lula precisa de quase cinco pontos além do que teve no primeiro turno. E os votos que sobraram, menos de 8% dos válidos, foram em boa parte para candidatos que disputaram o eleitorado de oposição ao governo, como Caiado, Zema e Renan Santos.

Flávio venceu em 15 estados e no Distrito Federal, contra 11 de Lula, e virou Minas Gerais e Tocantins, que o petista havia levado em 2022. Minas tem peso especial: desde 1989, todo candidato que venceu ali também venceu a Presidência. A vantagem de Lula no estado, de 49,7 mil votos em 2022, virou uma desvantagem de quase 600 mil.

No Nordeste, Lula venceu nos nove estados da região, mas com proporção menor do que em 2022 em todos eles. No Piauí, caiu de 74,2% para cerca de 71%; na Bahia, de 69,7% para 66,1%; no Ceará, de 65,9% para 63,2%.

A expectativa de Flávio

Do outro lado, a conta é mais confortável. Com 47,03%, Flávio precisa de cerca de três pontos para vencer. E, como dito, o estoque de votos disponível está, em boa parte, no campo da direita.

Há também um compromisso prévio. Em junho, Caiado relatou que ele, Zema e Flávio haviam reforçado, num encontro em Belo Horizonte, a tese de unidade no segundo turno para derrotar o PT; o próprio senador fez declaração semelhante. Se esse acordo se confirmar nos próximos dias, a oposição entra no segundo turno somando forças, e o governo, procurando aliados.

Os primeiros sinais vieram ainda no domingo à noite. Zema declarou que estará contra o PT onde quer que o partido esteja no segundo turno, embora sem citar o nome de Flávio. Augusto Cury foi na direção oposta e anunciou que deixará a política, descartando apoiar qualquer candidato. Caiado e Renan Santos aparentemente liberaram seus eleitores. Resta saber se, mesmo sem anúncios oficiais, algum deles acabará entrando na campanha de Flávio por outros caminhos.

Um alerta precisa ser feito: voto não se transfere em bloco. Parte do eleitorado de Caiado, Zema, Renan Santos e Augusto Cury pode anular, faltar ou até migrar para Lula. Flávio carrega, além disso, o desgaste do caso Banco Master, que o ligou a Daniel Vorcaro. Lula, por sua vez, também tem pontos fracos que podem ser mais explorados na campanha do segundo turno. Ainda assim, o balanço parece indicar uma migração maior de votos para Flávio.

O Congresso que sai das urnas: uma terceira onda bolsonarista (2018, 2022 e 2026)

O resultado mais duradouro de domingo está no Congresso Nacional. O PL elegeu 121 deputados federais, contra 99 em 2022, a maior bancada de um único partido desde a Constituição de 1988, e abriu mais de 30 cadeiras de vantagem sobre a federação liderada pelo PT.

No Senado, o movimento foi o mesmo. O partido elegeu 19 senadores e deve chegar a 28 das 81 cadeiras a partir de 2027. Isso é mais do que o recorde de 27 senadores que o antigo PMDB passou a ter após a eleição de 1998. Em Santa Catarina, no Distrito Federal, em Mato Grosso do Sul e em Rondônia, o PL ficou com as duas vagas em disputa.

Nenhum partido terá maioria sozinho, e o centro (PSD, Republicanos, MDB e a federação União Progressista) seguirá decisivo para qualquer governo. Mas o peso relativo mudou. Se reeleito, Lula terá de governar com o maior partido da Câmara e do Senado na oposição. Se eleito, Flávio começa o mandato com a maior bancada própria de que um presidente já dispôs desde 1988.

O PL também ganhou um argumento de governabilidade que não tinha na véspera; o PT, por sua vez, pode apresentar a reeleição de Lula como contrapeso a um Congresso inclinado à direita. Qual dessas leituras vai convencer o eleitor indeciso pode ser uma das chaves para compreender o segundo turno.

Santa Catarina: consolidação da hegemonia do PL

Se no país a disputa ficou aberta, em Santa Catarina ela praticamente não existiu. Flávio teve 66,65% dos votos válidos no estado, e o PL venceu em todas as frentes. Jorginho Mello foi reeleito no primeiro turno com 68,98% (2,94 milhões de votos), a maior votação em primeiro turno da história do estado, tendo Adriano Silva (Novo) como vice.

No Senado, Carol De Toni (PL, 2,69 milhões de votos) e Carlos Bolsonaro (PL, 2,04 milhões) ficaram com as duas vagas e ultrapassaram o recorde de votos de Luiz Henrique da Silveira em 2010, que fez 1,78 milhões. Somados a Jorge Seif, eleito em 2022, darão ao PL as três cadeiras catarinenses a partir de 2027.

Nas proporcionais, mais recordes caíram. A criciumense Júlia Zanatta (PL) fez 560.223 votos para deputada federal, mais que o dobro da marca anterior (os 227.632 votos de Carol De Toni em 2022). Ana Campagnolo (PL) chegou a 387.523 votos para a Alesc, quase o dobro do próprio recorde de 2022 (196.571). O partido elegeu 7 dos 16 deputados federais e 16 dos 40 estaduais.

O que esperar de 25 de outubro

Parece-me que Lula precisa de três movimentos para tentar uma virada inédita sobre Flávio: estancar a erosão no Nordeste, recuperar Minas e buscar o eleitor que votou em Caiado, Zema, Renan Santos ou Cury, ou que ficou em casa. O caminho mais provável da campanha é transformar a disputa num referendo sobre o bolsonarismo, apostando na rejeição ao sobrenome do adversário.

Flávio precisa, sobretudo, evitar novos escândalos e consolidar o voto da terceira via derrotada. 

O resultado virá do povo, mas o recado já foi dado ontem.

 

 

Por Artur Fabro 28/09/2026 - 07:00

Na semana passada, tratei de três duplas de uma vez: Samara Martins e Laís Chaud, Hertz Dias e Marcus Sodré, Rui Costa Pimenta e Bruno Pedreiro. Hoje fecho a série "Os palanques da eleição de 2026 em Santa Catarina" com Ralf Zimmer, o único dos oito candidatos ao governo catarinense sem um presidenciável correspondente, pelo menos de sua federação partidária.

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

Parte 5

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Quem é Ralf Zimmer?

Ralf Guimarães Zimmer Júnior nasceu em Chapecó, no Oeste catarinense, em 28 de maio de 1979. Tem 47 anos, é formado em Direito e pós-graduado em Gestão Pública. Começou a advogar em 2005 e foi assessor de juiz no Tribunal de Justiça de Santa Catarina em 2006 e entre 2009 e 2011. Entrou na Defensoria Pública do Estado em 2013 e chefiou a instituição como defensor público-geral entre 2016 e 2018. Depois presidiu a associação estadual dos defensores públicos, entre 2018 e 2019, e hoje é doutorando em Ciências Sociais e Econômicas pela Universidade de Lisboa. Preside em Santa Catarina o Partido Renovação Democrática (PRD), nascido em 2022 da fusão entre o Patriota e o PTB, e concorre pela federação Renovação Solidária, formada por PRD e Solidariedade.

Seu nome ganhou projeção estadual em 2020: em 13 de janeiro daquele ano, ele protocolou na Alesc uma denúncia por crime de responsabilidade contra o governador Carlos Moisés (à época no PSL), a vice Daniela Reinehr (à época sem partido) e o então secretário de Administração, Jorge Tasca. A base do pedido era a equiparação salarial entre os procuradores do Estado e os da Assembleia. O pedido chegou a ser arquivado, mas foi resgatado quando a relação entre Moisés e a Assembleia, então presidida por Júlio Garcia (PSD), azedou. Em outubro de 2020, o Tribunal Especial de Julgamento absolveu Daniela e afastou Moisés do cargo. Depois da reconciliação entre o governador e Júlio Garcia, porém, os deputados que integravam o tribunal mudaram de voto, e Moisés foi absolvido em novembro.

Ralf Zimmer no debate da SCC SBT. Crédito: Reprodução SCC SBT. 

E o presidenciável?
Em 5 de agosto, último dia de convenções, a federação da qual Ralf faz parte decidiu, em sua convenção nacional, não apoiar ninguém na disputa pelo Planalto. A justificativa oficial foi o ambiente de forte polarização, e a nota acrescentava que apoio formal sem espaço para diálogo e influência não atende aos interesses da legenda. Paulinho da Força, presidente do Solidariedade, já tinha antecipado a posição semanas antes, dizendo que o partido não apoiaria nem Lula nem Flávio Bolsonaro e reclamando da falta de interlocução com as duas campanhas.

A neutralidade, no entanto, deixou cada diretório livre para escolher seu palanque, e Zimmer usou essa liberdade. No início de setembro, em sabatina do Grupo ND, declarou voto em Augusto Cury (Avante), a quem chamou de "pessoa limpa", contra dois adversários que, segundo ele, estão polarizados e cercados de suspeitas. A declaração veio no auge de Cury, que acabara de chegar a 10% na Quaest e se tornara o primeiro, além de Lula e Flávio, a alcançar dois dígitos. Tudo indica que Zimmer tentou embarcar nesse bom momento.

Análise do desempenho eleitoral
A trajetória eleitoral de Ralf é modesta. Em 2018, disputou uma vaga de deputado federal e fez 2.596 votos. Em 2022, concorreu ao governo pelo PROS, somou 3.828 votos e ficou pelo caminho no 1º turno. Esta é, portanto, sua segunda tentativa de chegar à Casa d'Agronômica. Agora ele concorre pelo PRD e o vice é o advogado Carlos Bordin, do Solidariedade. Ao Senado, a federação lançou o advogado Jeferson Rocha, também do PRD. 

Em Santa Catarina, os números de Zimmer são os mais baixos da disputa. Na Quaest divulgada na quinta-feira (24), ele aparece com 0% no cenário estimulado. No Neokemp, que ouviu eleitores em 10 e 11 de setembro, tem 0,6%, e na AtlasIntel, de 4 a 9 de setembro, 0,4%. O Real Time Big Data nem abre o nome separadamente: Zimmer, Laís Chaud e Bruno Pedreiro, juntos, somam 1%. Repito o alerta de sempre: pesquisas de institutos diferentes não são diretamente comparáveis entre si, e a leitura serve para indicar tendência dentro de cada série.

O que essa candidatura está disputando
Nas últimas semanas, fiz a mesma pergunta a candidaturas pequenas e encontrei respostas diferentes. O Missão queria cláusula de barreira e sobrevivência. UP, PSTU e PCO queriam palanque no sentido literal, para vocalizar uma visão de mundo. O caso de Zimmer combina um pouco das duas coisas.

Há, primeiro, um paradoxo: com 0% na Quaest, Zimmer esteve no mesmo palco dos favoritos. Ele dividiu o debate do SCC SBT de 21 de setembro com Gelson Merísio, João Rodrigues e Jorginho Mello, enquanto nomes com mais intenção de voto, como Marcelo Brigadeiro, ficaram de fora. A explicação está na lei eleitoral, não nas pesquisas. As emissoras são obrigadas a convidar os candidatos de partidos com pelo menos cinco parlamentares no Congresso Nacional, e a federação, somada, tem nove deputados federais.

Segundo, há a disputa proporcional. Para cumprir a cláusula de desempenho, a federação precisa eleger ao menos 13 deputados federais, distribuídos em pelo menos um terço das unidades da federação, ou obter 2,5% dos votos válidos para a Câmara, com no mínimo 1,5% em cada uma delas. Uma candidatura a governador, mesmo sem chance, dá rosto à legenda e ajuda a sustentar as chapas de deputado. Como Zimmer preside o PRD catarinense, esse cálculo passa diretamente por ele.

Terceiro, há o projeto pessoal. Com duas candidaturas ao governo e uma à Câmara, Zimmer vem construindo um nome à base de exposição, no mesmo tipo de cálculo de médio prazo que já apareceu nesta série.

O fim da série
Obrigado a quem acompanhou a série até aqui. No domingo, dia 4, é a vez do eleitor.

Volto no dia 5 com uma análise do primeiro turno.

 

 

 

Por Artur Fabro 21/09/2026 - 07:00

Na semana passada, tratei de Renan Santos e Marcelo Brigadeiro. Hoje é a vez da parte 5 da nossa série "Os palanques da eleição de 2026 em Santa Catarina", com três duplas de uma vez: Samara Martins e Laís Chaud, Hertz Dias e Marcus Sodré, Rui Costa Pimenta e Bruno Pedreiro. Como hoje são três duplas, uma nota sobre o texto: em cada uma delas o presidenciável vem primeiro e, recuado logo abaixo, o candidato ao governo de Santa Catarina que lhe corresponde.

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

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Quem é Samara Martins?

Samara Martins da Silva Feitosa nasceu em Belo Horizonte em 31 de agosto de 1987. Tem 38 anos, é cirurgiã-dentista formada pela UFRN e atua no SUS em Parnamirim, no Rio Grande do Norte, onde vive. É a mais jovem entre os treze candidatos à Presidência neste ano e a única mulher na disputa, estando filiada ao partido Unidade Popular (UP).

Sua trajetória começou no movimento estudantil secundarista em Belo Horizonte, passou pela União da Juventude Rebelião e, em 2015, pela diretoria de mulheres da UNE. Participou da construção da Unidade Popular desde a coleta de assinaturas para a legalização da legenda, registrada no TSE em 2019, e exerce a primeira vice-presidência nacional do partido. Atua também no Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) e coordena a Frente Negra Revolucionária.

Disputou sua primeira eleição em 2020, como candidata a vereadora em Natal. Em 2022, foi candidata a vice na chapa de Leonardo Péricles, a primeira composta integralmente por pessoas negras na história do país, que somou 53.519 votos, ou 0,05% do total.

A candidatura foi oficializada em 26 de julho de 2026, em convenção nacional na Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo. A chapa é inteiramente feminina, e a vice é Raquel Brício, guarda-portuária e sindicalista paraense. O programa é declaradamente socialista e anticapitalista, com ênfase em fim da escala 6x1, aumento expressivo do salário mínimo, reforma agrária popular e controle estatal de setores estratégicos.

Quem é Laís Chaud?

Laís Paganelli Chaud nasceu em Piracicaba, no interior de São Paulo, e tem 31 anos. É psicóloga, mestre em Psicologia, trabalhadora da saúde na rede pública estadual catarinense e preside o diretório da Unidade Popular em Florianópolis. Como Samara, veio do movimento estudantil e do MLB.

Esta é sua primeira candidatura a qualquer cargo. A vice é Nathália Tarses Gomes de Melo, também da UP. Laís é a única mulher entre os oito candidatos ao governo de Santa Catarina neste ano, e declarou à Justiça Eleitoral patrimônio de R$ 518,45, o menor de toda a disputa estadual.

Ao Senado, a UP lançou duas candidatas: Ana Lúcia Machado e Marlene Soccas. O segundo nome interessa particularmente ao leitor do Sul do estado: lagunense de 91 anos radicada em Criciúma, cirurgiã-dentista aposentada e graduada em História pela Unesc em 2010, Marlene foi presa e torturada durante a ditadura, ajudou a fundar em Criciúma o Centro de Defesa dos Direitos Humanos e a subseção local do Comitê Brasileiro pela Anistia. É a candidata mais velha ao Senado em todo o país nesta eleição.

Quem é Hertz Dias?

Hertz da Conceição Dias nasceu em São José de Ribamar, na região metropolitana de São Luís, em 20 de outubro de 1970. Tem 55 anos, é professor de História da rede pública maranhense, com mestrado em Educação, e também rapper e ativista do movimento negro.

Milita no Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) desde 2010 e esta é sua quinta disputa consecutiva. Foi candidato a vice-governador do Maranhão em 2010, a vice-presidente em 2018 na chapa de Vera Lúcia (25.625 votos), à prefeitura de São Luís em 2020 (2.173 votos) e ao governo do Maranhão em 2022 (5.191 votos). Nunca foi eleito.

A candidatura foi oficializada em convenção nacional em São Paulo, em 31 de julho de 2026, em chapa pura, com a professora e dirigente sindical mineira Vanessa Portugal como vice. O programa combina fim da escala 6x1 sem redução salarial, revogação das reformas trabalhista e previdenciária, isenção de Imposto de Renda para assalariados, desmilitarização das polícias e descriminalização das drogas.

Quem é Marcus Sodré?

Marcus Alexandre Sodré, o "Professor Marcus Sodré", nasceu em Cubatão (SP) e tem 54 anos. Leciona História na rede estadual catarinense e é dirigente sindical na área da educação, base histórica do PSTU no estado.

É o único dos três candidatos catarinenses de hoje com histórico eleitoral no estado: disputou a prefeitura de Itajaí em 2004 e, em outras ocasiões, uma cadeira de deputado estadual, sem se eleger em nenhuma delas. É a primeira vez que concorre ao governo. A vice é a professora da rede pública Tatiane Pasdiora, a "Professora Taty", também do PSTU.

Ao Senado, o PSTU catarinense lançou dois nomes, Joaninha de Oliveira e Marcos Dorval, nenhum deles com mandato eletivo anterior.

Quem é Rui Costa Pimenta?

Rui Costa Pimenta nasceu em São Paulo em 25 de junho de 1957. Tem 69 anos, é jornalista, edita o jornal Causa Operária e apresenta na internet o programa Análise Política Semanal.

É o mais experiente dos candidatos desta edição, e também o mais antigo na política institucional: participou da fundação do PT, em 1980, e da CUT, rompendo com o petismo na primeira metade dos anos 1990. Em 1995, liderou o lançamento do Partido da Causa Operária, que preside desde então.

Concorreu à Presidência em 2002, 2006, 2010 e 2014. Na última, somou pouco mais de 12 mil votos, 0,01% do total.

A convenção do PCO foi virtual e ocorreu em 5 de agosto, último dia do prazo legal, com lançamento público em 8 de agosto, na Casa de Portugal, em São Paulo. O vice é Antônio Carlos Silva, professor de matemática da rede estadual paulista, de 63 anos. O discurso é explicitamente marxista e antissistema, com ênfase na crítica ao imperialismo e na defesa da revolução socialista.

Quem é Brunno Pedreiro?

Brunno Andrade Dias, o "Bruno Pedreiro", nasceu em São Paulo e tem 40 anos. É operário da construção civil.

Disputou a prefeitura de Florianópolis em 2024, sem se eleger, e agora concorre ao governo do estado. O vice é Flávio Amaral, também do PCO.

Ao Senado, o PCO tem uma única candidata em Santa Catarina: Carol.

Análise do desempenho eleitoral

No plano nacional, nenhum dos três aparece com percentual próprio nas pesquisas mais recentes. Quando os institutos os incluem, é dentro de um bloco de "outros" que reúne seis candidaturas e soma cerca de 2%, sem que nenhuma alcance 1% isoladamente.

Em Santa Catarina, o quadro é um pouco menos apertado. Na pesquisa mais recente, do Real Time Big Data, divulgada no dia 17,  Marcus Sodré está com 1%, e o conjunto dos demais candidatos soma 1%. O Neokemp, que ouviu eleitores em 10 e 11 de setembro, é o levantamento que abre separadamente os três nomes de hoje: Laís Chaud com 0,8%, Sodré com 0,6% e Bruno Pedreiro com 0,5%. Repito o alerta que já fiz aqui: pesquisas de institutos diferentes não são diretamente comparáveis entre si, e a leitura serve para indicar tendência dentro de cada série.

O que essas candidaturas estão disputando

Na semana passada, perguntei o que a candidatura do Missão estava disputando, e a resposta era razoavelmente clara: cláusula de barreira, Fundo Partidário, tempo de rádio e TV, sobrevivência para as próximas eleições. Hoje a pergunta é a mesma, mas a resposta, não. UP, PSTU e PCO sabem que seria muito difícil cruzar barreira alguma. Não há, no horizonte, cenário em que qualquer um dos três eleja uma bancada forte.

  • A Unidade Popular é a que mais se aproxima de uma estratégia de crescimento. Lançou dezessete candidaturas a governos estaduais, doze delas encabeçadas por mulheres, e aposta na visibilidade de ter a única mulher na corrida presidencial. É um cálculo de médio prazo, parecido com o do Missão, mas sem o dinheiro e sem a máquina de redes sociais.
  • O PSTU joga outro jogo. Tanto Hertz quanto Sodré são professores da rede pública e dirigentes sindicais da educação. O histórico de Hertz, com cinco disputas e nenhuma vitória, mostra que o partido não mede sucesso por cadeiras conquistadas.
  • O PCO vai ainda mais longe. Rui Costa Pimenta disputa sua quinta eleição presidencial três décadas depois de fundar o partido, tendo obtido 0,01% dos votos na última tentativa. Para uma organização dessa tradição, a eleição nunca foi caminho para o poder, e sim um palanque no sentido literal da palavra, servindo para vocalizar sua visão de mundo.

Uma curiosidade em relação aos candidatos a governador: os três nasceram fora do estado (Laís em Piracicaba, Sodré em Cubatão, Pedreiro na capital paulista). Isso é um indício de como é fraca, em Santa Catarina, a estrutura organizada da esquerda à esquerda do PT, num estado onde a direita e o bolsonarismo são fortíssimos.

Na semana que vem, fecho a série com Ralf Zimmer.

Por Artur Fabro 14/09/2026 - 07:00 Atualizado em 20/09/2026 - 18:14

Na semana passada, tratei de Ronaldo Caiado e João Rodrigues. Hoje é a vez da parte 4 da nossa série "Os palanques da eleição de 2026 em Santa Catarina", com Renan Santos e Marcelo Brigadeiro.

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Prezado leitor do 4oito, antes de prosseguir para a análise de hoje, trago aqui uma sugestão: dois cientistas políticos amigos meus criaram uma "calculadora de afinidade eleitoral" chamada Populus. Ela é online, gratuita e funciona da seguinte maneira: você participa de um simulador de mandato, distribuindo 100 fichas entre 29 eixos de políticas públicas conforme suas prioridades, e a ferramenta cruza essa agenda com a dos candidatos à Presidência e ao governo do seu estado, gerando um ranking de afinidade.

Não é recomendação de voto, e sim ferramenta de educação cívica. Vale a visita: populus.com.br

 

Quem é Renan Santos?

Renan Antônio Ferreira dos Santos nasceu em São Paulo, em 14 de fevereiro de 1984. Tem 42 anos e ingressou no curso de Direito da USP, mas não concluiu a graduação, abandonando a faculdade para trabalhar com o pai. Filiou-se ao PSDB em 2010, mas rompeu com o partido em 2015. Sua projeção nacional começou em 2014, com a cofundação do Movimento Brasil Livre (MBL), que ganhou destaque nacional ao organizar manifestações em defesa da Operação Lava-Jato e, depois, em favor do impeachment de Dilma Rousseff, concretizado em 2016. Em 2018, o MBL apoiou Jair Bolsonaro no segundo turno contra Fernando Haddad, apesar de divergências internas. A relação se deteriorou ao longo do governo Bolsonaro e o movimento migrou para a oposição, chegando a defender o impeachment do então presidente.

Renan nunca disputou cargo eletivo. Ao lado de aliados do MBL, articulou a criação de um partido próprio, o Missão, homologado pelo TSE no fim de 2025. Em 20 de julho de 2026, o partido antecipou a convenção nacional para oficializar sua candidatura à Presidência, em chapa pura, sem coligações, como Flávio e Caiado. Em agosto lançou o plano de governo "O Futuro é Glorioso", resumo do chamado "Livro Amarelo" (identificado pelo próprio Renan de "doutrina" do partido Missão), com propostas como combate às facções criminosas sob a lógica do "Direito Penal do Inimigo", "desfavelização", fusão de municípios e alterações no programa Bolsa Família.

O vice é o tenente-coronel da reserva Aroldo Medina, 62 anos, da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, que já disputou, sem êxito, a prefeitura de Canoas, o governo do Rio Grande do Sul, uma cadeira de deputado estadual e a Câmara de Vereadores de Porto Alegre, nunca tendo exercido mandato eletivo. Medina esteve, em dezembro de 2022, no acampamento montado em frente ao QG do Exército em Brasília (acampamento este que pedia intervenção militar após a derrota de Jair Bolsonaro para Lula), fato que voltou à tona após seu anúncio como vice.

O discurso de Renan mira simultaneamente Lula e Flávio Bolsonaro, buscando ocupar um espaço de "terceira via" (assim como Caiado) à margem da polarização entre petismo e bolsonarismo. Sua campanha aposta fortemente em redes sociais e financiamento coletivo, já que o Missão, por ser um partido novo e sem bancada, quase não recebe recursos do Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha.

Análise do desempenho eleitoral recente de Renan Santos

Estreante em disputas eleitorais, Renan chegou a se consolidar em terceiro lugar nas pesquisas nacionais de primeiro turno ao longo do primeiro semestre, à frente de nomes muito mais conhecidos, como Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Porém, a ascensão do escritor Augusto Cury (Avante) no fim de agosto (o mesmo movimento que, como registrei na parte 3, atingiu a candidatura de Caiado) empurrou Renan para a quarta posição, quando não para a quinta.

No BTG/Nexus de 31 de agosto, Cury saltou para 11% e Renan ficou com 3%, atrás também de Caiado, com 5%. Na rodada de 8 de setembro do mesmo instituto, Renan subiu para 4%, mas empatado com Caiado e ainda bem atrás de Cury, que aparece com 9%. A Quaest de 7 de setembro registrou Cury com 8% e Renan com 3%, empatado com Caiado. O AtlasIntel, instituto que historicamente o mede mais alto, mostrou em 11 de setembro Renan com 6,5%, praticamente empatado com Cury (6,6%). Lembrando, como já registrei aqui, que pesquisas de institutos diferentes não são diretamente comparáveis entre si; a comparação serve para indicar tendência dentro de cada série, não entre elas.

Nas simulações recentes de segundo turno contra Lula, Renan perde em todas as pesquisas com uma diferença maior que aquelas de Caiado, Zema e Cury.

 

Quem é Marcelo Brigadeiro?

Marcelo Marcel Franco José da Silva, o Marcelo Brigadeiro, nasceu no Rio de Janeiro em 4 de maio de 1982. Tem 44 anos, é formado em Medicina Veterinária e Educação Física, e construiu carreira como lutador de MMA. Mudou-se para Santa Catarina há quase 20 anos e hoje mora em Balneário Camboriú.

Participou da fundação do hoje extinto PSL em Santa Catarina, o mesmo partido que elegeu Carlos Moisés ao governo do estado e Jair Bolsonaro à Presidência em 2018, mas se afastou do grupo, desapontado com os rumos da legenda. Em cargos públicos, ocupou apenas a diretoria de Esportes da Fundação Catarinense de Esporte (Fesporte), na gestão de Carlos Moisés, entre 2020 e 2022. Ligado ao MBL, retomou a militância com a criação do partido Missão.

Sua candidatura ao governo de Santa Catarina foi homologada em 23 de julho de 2026, em convenção virtual, também em chapa pura. É sua primeira disputa a qualquer cargo eletivo. O vice é o coronel Marcelo Rodrigues, 54 anos, formado na Academia Militar das Agulhas Negras, escolhido para representar o Oeste catarinense na chapa. Na mesma convenção, o partido definiu o empresário e influenciador Túlio de Amorim Pfuetzenreiter como candidato único ao Senado, fechando a chapa majoritária. Brigadeiro também se porta como um candidato de "terceira via", tanto no sentido ideológico (não ser nem bolsonarista nem lulista) quanto no sentido da disputa específica de Santa Catarina, em que Jorginho Mello (PL) aparece isolado na liderança e João Rodrigues (PSD) e Gelson Merísio (PSB) disputam a segunda colocação.

Análise do desempenho eleitoral recente de Marcelo Brigadeiro

Também estreante, Brigadeiro segue na faixa mais baixa da disputa, mas melhorou entre agosto e setembro. Na Quaest/NSC de 20 a 23 de agosto, tinha apenas 1% no cenário estimulado, empatado com Laís Chaud (UP) e Bruno Pedreiro (PCO), atrás de Jorginho Mello (50%), João Rodrigues (17%), Gelson Merísio (4%) e Marcus Sodré (2%). Já na AtlasIntel realizada de 4 a 9 de setembro, ele aparece com 2,9%, na quarta colocação, agora à frente de Marcus Sodré (1,1%), Laís Chaud (0,8%) e Ralf Zimmer (0,4%).

 

Renan e Brigadeiro estreiam juntos em eleições. Ambos chegam à disputa pela mesma porta: o MBL.

Há, porém, uma pergunta que os números do Missão em Santa Catarina tornam inevitável: o que, exatamente, essa candidatura está disputando? Brigadeiro praticamente não tem chance de vencer, nem de forçar segundo turno. Renan também dificilmente chegará ao Planalto. 

Partidos novos, no Brasil, raramente nascem para ganhar a primeira eleição que disputam, e sim para sobreviver e tentar crescer na seguinte. E sobreviver, no nosso sistema, significa coisas bem concretas: superar a cláusula de barreira, garantir acesso ao Fundo Partidário, ao tempo de rádio e TV etc. Não por acaso, Renan abriu mão dos cerca de R$ 3 milhões do Fundo Eleitoral que lhe caberiam, com o dinheiro sendo redirecionado para outras candidaturas do partido, visando declaradamente eleger o mínimo de deputados federais necessário para cruzar a barreira.

Vista assim, a candidatura de Brigadeiro cumpre uma função que não aparece nas pesquisas de governador. Ela dá ao Missão palanque estadual e um rosto para vincular os candidatos proporcionais do partido em Santa Catarina.

Na próxima semana, será a vez de Samara Martins e Laís Chaud, Hertz Dias e Marcus Sodré, e Rui Costa Pimenta e Bruno Pedreiro.

Por Artur Fabro 08/09/2026 - 07:00 Atualizado em 08/09/2026 - 15:33

Na semana passada, tratei de Flávio Bolsonaro e Jorginho Mello. Hoje é a vez da parte 3 da nossa série "Os palanques da eleição de 2026 em Santa Catarina", com Ronaldo Caiado e João Rodrigues. 

Parte 1

Parte 2

Ronaldo Caiado e João Rodrigues. Crédito: Júlia Venâncio/g1 

 

Quem é Ronaldo Caiado?

Ronaldo Ramos Caiado nasceu em Anápolis, Goiás, em 25 de setembro de 1949. Tem 76 anos, é médico ortopedista e produtor rural, e integra uma das famílias politicamente mais tradicionais do Centro-Oeste brasileiro.

Sua projeção nacional começou por presidir, entre 1986 e 1989, a União Democrática Ruralista (UDR), entidade criada para organizar proprietários rurais contra as propostas de reforma agrária em debate na Constituinte. Estreou nas urnas em 1989, candidato à Presidência pelo antigo PSD, legenda sem relação com o partido atual de mesmo nome. Terminou em décimo lugar entre 22 candidatos. No segundo turno, apoiou Fernando Collor.

Em 1990 elegeu-se deputado federal por Goiás com a maior votação do estado naquele pleito. Em 2014 chegou ao Senado, onde liderou o partido Democratas e participou das articulações que resultaram no impeachment de Dilma Rousseff.

 Em 2018, aos 69 anos, elegeu-se governador de Goiás em primeiro turno, reelegendo-se em 2022.

É candidato à Presidência pelo atual PSD, com Gilberto Kassab, presidente nacional da legenda, como vice. Concorre em chapa pura, assim como Flávio Bolsonaro.

A escolha do PSD ocorreu em 30 de março, após disputa interna: o governador do Paraná Ratinho Júnior havia sido tratado por meses como o presidenciável natural da sigla e desistiu; restaram Caiado e Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, que se apresentava como alternativa de centro à polarização. A cúpula partidária optou por Caiado sob o argumento, declarado por Kassab, de que ele teria melhores condições de levar o partido ao segundo turno. 

Análise do desempenho eleitoral recente de Ronaldo Caiado

O histórico de Caiado é de duas fases nitidamente distintas.

Na primeira, ele é candidato competitivo apenas em eleições proporcionais. Entre 1990 e 2010, sucessivos mandatos de deputado federal, sempre com votação expressiva em Goiás; na segunda, a partir de 2014, torna-se competitivo também nas eleições majoritárias: senador, governador em primeiro turno e reeleito. 

Em 1989 obteve cerca de 489 mil votos, 0,72% dos válidos, para a Presidência da República. Na sua primeira eleição para deputado federal por Goiás fez aproximadamente 98 mil votos. Em 1994 disputou o governo de Goiás e ficou em terceiro lugar. Voltou à Câmara em 1998 e reelegeu-se em 2002, 2006 e 2010. Em 2014 chegou ao Senado com cerca de 1,28 milhão de votos, 47,57% dos válidos, onde liderou o Democratas. Em 2018 elegeu-se governador de Goiás em primeiro turno, com 59,73% dos válidos e cerca de 1,77 milhão de votos, contra 16,17% de Daniel Vilela (MDB). Em 2022 reelegeu-se com 51,81% e 1.806.892 votos, contra 25,20% de Gustavo Mendanha (Patriota), desta vez tendo Vilela como vice. 

Nas pesquisas nacionais das últimas semanas, Caiado desabou. Tinha 5% no Datafolha divulgado em 21 de agosto. Manteve os mesmos 5% na Nexus/BTG e caiu para 3,3% na AtlasIntel, ambas divulgadas em 31 de agosto. Chegou a apenas 1% na Quaest de 2 de setembro (lembrando que as pesquisas possuem metodologias diferentes; aqui comparamos os números somente para demonstrar o padrão da queda). O movimento coincide com a ascensão do escritor Augusto Cury como um novo nome da "terceira via". 

Entretanto, nas simulações de segundo turno contra Lula, Caiado continua pontuando na casa dos 40%, ou seja, ainda pode ser considerado competitivo. Se compararmos o desempenho de Caiado com o de Flávio no segundo turno contra Lula nas últimas pesquisas, encontraremos números muito parecidos, fator que ajuda a manter o espírito da campanha vivo. 

 

Quem é João Rodrigues?

João Rodrigues nasceu em São Valentim, no Rio Grande do Sul, em 23 de março de 1967. Tem 59 anos e construiu toda a carreira pública no Oeste catarinense. É empresário e comunicador e trabalhou como radialista na Rádio Centro-Oeste de Pinhalzinho entre 1988 e 2000.

Sua trajetória eleitoral é longa e quase inteiramente municipal. Elegeu-se vice-prefeito de Pinhalzinho em 1996 e prefeito da cidade em 2000, ambas pelo PFL. Em 2002 elegeu-se deputado estadual, também pelo PFL, e em 2004 deixou a Assembleia para disputar a Prefeitura de Chapecó, onde venceu pela mesma legenda e se reelegeu em 2008, já pelo Democratas. Em 2010 renunciou à prefeitura para disputar a Câmara dos Deputados, onde se elegeu e foi reeleito em 2014. Licenciou-se do mandato em diferentes momentos para comandar a Secretaria de Estado da Agricultura e da Pesca de Santa Catarina. Filiou-se ao PSD nos primeiros meses de 2011, logo após a criação do partido, e nele permanece desde então

Em 2018 foi novamente eleito deputado federal, mas não chegou a assumir, teve o registro indeferido com base na Lei da Ficha Limpa, em razão de condenação por dispensa irregular de licitação no período em que fora vice-prefeito de Pinhalzinho. Chegou a ser preso naquele ano. Em 2020, o Superior Tribunal de Justiça suspendeu os efeitos da decisão e ele voltou a ser elegível, mas sem recuperar o mandato perdido.

Ainda em 2020 voltou a Chapecó e elegeu-se prefeito pela terceira vez, reelegendo-se em 2024 para o quarto mandato à frente da cidade. Renunciou em abril deste ano para disputar o governo do Estado pela primeira vez.

Sua candidatura foi homologada em agosto, em convenção realizada na Assembleia Legislativa. Concorre pela coligação "Santa Catarina Acima de Tudo", formada por PSD, MDB e a Federação União Progressista, que reúne União Brasil e Progressistas. O vice é Carlos Chiodini, deputado federal e presidente estadual do MDB, e a chapa ao Senado é formada por Esperidião Amin (PP) e Antídio Lunelli (MDB). É a primeira vez na história de Santa Catarina que MDB e Progressistas estão juntos em uma coligação para a disputa do governo do estado. 

Análise do desempenho eleitoral recente de João Rodrigues

João Rodrigues é um candidato municipal de desempenho excepcional; entretanto, talvez o seu maior desafio enquanto candidato a governador seja justamente extrapolar a sua base de apoio, que é identificada como bastante regionalizada. 

Elegeu-se prefeito em 2020 com 50.467 votos, 47,66% dos válidos, e reelegeu-se em 2024 com 99.320 votos e 83,01%, uma das maiores votações proporcionais registradas em cidades daquele porte no Brasil. Nas eleições para a Câmara, o desempenho também foi alto: 134.558 votos em 2010 e 221.409 em 2014, sendo o segundo mais votado de Santa Catarina naquele pleito. 

As últimas pesquisas o mantêm em segundo lugar, ainda sem expectativa de que consiga levar a disputa para o segundo turno (já que, se calcularmos os votos válidos, em todas as pesquisas divulgadas até agora Jorginho Mello venceria no primeiro turno com certa folga). A Quaest, encomendada pela NSC, apurou 50% para Jorginho Mello e 17% para João Rodrigues no cenário estimulado de primeiro turno; em um hipotético cenário de segundo turno, o atual governador faria 56% a 24%. 

 

Nas partes 1 e 2, os palanques catarinenses eram evidentes e assumidos desde cedo. Merísio foi escolhido pela aliança que reúne o PT à esquerda; Jorginho Mello acompanhou Flávio Bolsonaro em agenda no estado ainda em maio, com entrega de "passaporte simbólico" em ato público.

O caso de João Rodrigues foi outro. Durante meses da pré-campanha, ele silenciou sobre Caiado. A imprensa registrou o fato com clareza, pois, quando Ratinho Júnior ainda figurava como possível presidenciável do PSD, havia entusiasmo; com a desistência do paranaense e a escolha de Caiado, veio, inicialmente, o silêncio. A dúvida cercava João Rodrigues. Ou ele daria palanque a Caiado, que claramente não era sua primeira escolha, ou migraria na prática para Flávio Bolsonaro, contrariando o PSD. João ficou com a primeira opção, pelo menos por enquanto.

Em um estado bolsonarista como é SC, o palanque de um candidato a eleição majoritária que disputa o mesmo eleitorado conservador sem o sobrenome Bolsonaro é bastante difícil, tanto que o próprio João Rodrigues, que se dizia/diz bolsonarista, teve que mudar o discurso; Caiado também mudou, mas talvez tenha demorado demais. A última pesquisa Quaest é cristalina quanto a isso: em SC, apenas 1% dos entrevistados enxergavam que João Rodrigues era o candidato de Flávio Bolsonaro (e, portanto, do bolsonarismo) no estado. 

João Rodrigues precisa dos votos que hoje estão com Jorginho Mello. E Caiado, para o eleitor catarinense, é a lembrança de que ele não é um Bolsonaro. 

Na próxima semana, será a vez de Renan Santos e Marcelo Brigadeiro.

 

Por Artur Fabro 31/08/2026 - 07:00 Atualizado em 31/08/2026 - 13:34

Na semana passada, tratei de Lula e Gelson Merísio. Hoje é a vez da parte 2 da nossa série "Os palanques da eleição de 2026 em Santa Catarina", com Flávio Bolsonaro e Jorginho Mello. 

Jorginho e Flávio. Crédito: YouTube Flávio Bolsonaro/Reprodução

Quem é Flávio Bolsonaro?

Flávio Nantes Bolsonaro nasceu em Resende, no sul fluminense, em 30 de abril de 1981. Tem 45 anos, é advogado e empresário. É o filho mais velho de Jair Bolsonaro e de Rogéria Nantes Braga, primeira mulher do ex-presidente. É irmão de Carlos Bolsonaro (PL), hoje candidato ao Senado por Santa Catarina, e do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, e meio-irmão de Jair Renan (PL). Michelle Bolsonaro (PL), terceira mulher do pai, é sua madrasta.

Sua trajetória política é inteiramente carioca e começa cedo. Elegeu-se deputado estadual pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) em 2002, aos 21 anos, e reelegeu-se em 2006, 2010 e 2014, somando quatro mandatos consecutivos. Em 2018, elegeu-se senador, com mandato que vai até 2027. Passou por sete legendas ao longo do percurso: PP, PFL, PSC, PSL, Republicanos, Patriota e, desde 2021, PL. 

É candidato à Presidência pelo PL na eleição de 2026, com o deputado federal Alfredo Gaspar (PL) como vice. A candidatura foi oficializada em convenção nacional em São Paulo, com a presença do presidente argentino Javier Milei. Concorre sem coligação, em chapa pura.

A candidatura de Flávio não emergiu de prévias, nem de pesquisas nem de disputa interna. Foi indicado pelo pai em dezembro do ano passado, em anúncio feito por rede social, preterindo o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), preferido do centrão e do mercado, que optou por disputar a reeleição.

Análise do desempenho eleitoral recente de Flávio Bolsonaro

Flávio construiu o início de sua carreira em eleições proporcionais. Como dito, foram quatro mandatos consecutivos de deputado estadual na ALERJ, um resultado sólido, mas obtido num tipo de disputa que, no caso dele, foi vencida a partir de um eleitorado que o sobrenome já mobilizava na Zona Oeste e nos redutos militares e policiais do Rio.

Em disputas majoritárias, o histórico é mais curto e tem duas entradas opostas. Em 2016, foi candidato à Prefeitura do Rio e terminou em quarto lugar. Em 2018 elegeu-se senador pelo Rio de Janeiro, então pelo PSL, com 4.380.418 votos, ou 31,36% dos válidos, vencendo Arolde de Oliveira (PSD), o ex-prefeito Cesar Maia (DEM), o então senador Lindbergh Farias (PT), que tentava a reeleição, e o deputado federal Chico Alencar (PSOL), nomes tradicionais da política fluminense.

Repare, leitor, na distância entre os dois resultados, separados por apenas dois anos. Entre 2016 e 2018 não houve mudança de trajetória pessoal de Flávio, o que houve foi a candidatura presidencial do pai, que o alçou a um cargo de maior relevância.


Quem é Jorginho Mello?

Jorginho dos Santos Mello nasceu em Ibicaré, no Meio-Oeste catarinense, em 15 de julho de 1956. Tem 70 anos e mudou-se ainda criança para Herval d'Oeste. É formado em Estudos Sociais pela Unoesc e em Direito e Administração pela UniSul. Foi registrado em cartório já com o diminutivo.

Começou como vereador em Herval d'Oeste, ainda muito jovem, e depois ingressou por concurso no antigo Banco do Estado de Santa Catarina (BESC), onde permaneceu por quase duas décadas e chegou à diretoria.

Voltou à política em 1994, elegendo-se deputado estadual. Cumpriu quatro mandatos consecutivos na ALESC, entre 1995 e 2010, presidiu a Casa em 2009 e, nessa condição, assumiu interinamente o governo do Estado. Elegeu-se deputado federal em 2010, pelo PSDB, e reelegeu-se em 2014. Em 2018 conquistou uma das vagas ao Senado e tornou-se vice-líder do governo Bolsonaro no Congresso. Em 2022 foi eleito governador e renunciou ao Senado, sendo substituído pela suplente Ivete da Silveira (MDB). É o presidente estadual do PL.

Disputa a reeleição pela coligação "Fé no Trabalho e Pé na Tábua". O vice é Adriano Silva (Novo), ex-prefeito de Joinville, e a chapa ao Senado é formada por Carlos Bolsonaro (PL) e Caroline De Toni (PL). Além do PL, integram a aliança Podemos, Novo, Republicanos, a Federação PSDB/Cidadania, Democracia Cristã, Avante e Agir.

Análise do desempenho eleitoral recente de Jorginho Mello

Jorginho Mello nunca perdeu uma eleição.

Ele ocupou quase todos os cargos eletivos possíveis da política catarinense: vereador, deputado estadual, deputado federal, senador e governador. Isso resulta em mais de cinquenta anos de vida pública. 

Em 2022, Jorginho terminou o primeiro turno com 38,61% dos votos válidos, contra 17,42% de Décio Lima (PT). No segundo turno fez 70,64%, cerca de 2,98 milhões de votos, contra 29,3% do petista. Foi o maior percentual obtido por um governador eleito no Brasil naquele ano e o maior já obtido por um governador em Santa Catarina. Jorginho saltou de 38,61% para 70,64% entre um turno e outro, um acréscimo de 32 pontos. Nenhum candidato constrói isso sozinho em três semanas. O que ocorreu foi a consolidação, no segundo turno, de todo o campo que se opunha ao PT num estado que, no mesmo dia, deu 69,27% a Jair Bolsonaro.

Note, leitor, que os porcentuais de Jorginho e Jair em 2022 em Santa Catarina são praticamente idênticos: 70,64% e 69,27%. Jorginho, assim como Flávio em 2018, ascendeu pela onda bolsonarista, porém, na segunda ocorrência dela.

Até agora, todas as pesquisas divulgadas mantêm Jorginho na liderança folgada e apontam vitória em primeiro turno, inclusive com uma intenção maior que a de Flávio no estado (que na Quaest aparece com 45% no primeiro turno), o que sugere que talvez seja o filho de Bolsonaro quem precise mais de Jorginho neste momento, e não o contrário.


Na semana passada, Merísio aparecia como a parte mais fraca de uma chapa cuja candidatura nacional é competitiva. Aqui é o contrário: o palanque catarinense é mais forte do que a candidatura apoiada nacionalmente. Flávio Bolsonaro disputa a Presidência sem coligação. Jorginho Mello disputa a reeleição com oito partidos.

Em 2022, foi Bolsonaro quem puxou Jorginho em Santa Catarina. Em 2026, o PL catarinense precisa que o fluxo se inverta, que o governador puxe o presidenciável. Não é impossível, mas é o movimento mais difícil da engenharia eleitoral, e é sobre ele que a campanha do PL no estado terá de trabalhar.

Na próxima semana, será a vez de Ronaldo Caiado e João Rodrigues.

Por Artur Fabro 24/08/2026 - 07:00 Atualizado em 13/09/2026 - 21:10

Prezado leitor do 4oito, começo hoje uma série semanal que vai até a véspera do primeiro turno. Ela chamar-se-á “Os palanques da eleição de 2026 em Santa Catarina”. A cada semana analiso um candidato à Presidência da República e o candidato ao governo de Santa Catarina que lhe corresponde, quer por pertencerem ao mesmo partido, quer porque a coligação estadual sustenta aquela candidatura nacional.

A ordem adotada segue as intenções de voto para a Presidência, e não para o governo do estado. Tomo como referência cinco institutos de maior circulação nacional, Quaest, Atlas, Datafolha, Nexus e Ideia, considerando o levantamento mais recente divulgado até a data de hoje, sempre no cenário estimulado de primeiro turno, e ordeno os presidenciáveis pela média dessas leituras. Presidenciáveis sem candidato próprio ao governo de Santa Catarina ficam de fora, mas candidatos a governador que não possuem candidato à Presidência correspondente entram. As candidaturas que os institutos não medem individualmente, por virem agregadas na faixa dos que não pontuam, dividem um único texto.

Este será o calendário:

24 de agosto — Lula (PT) e Gelson Merísio (PSB)

31 de agosto — Flávio Bolsonaro (PL) e Jorginho Mello (PL)

8 de setembro (7 de setembro, segunda-feira, é feriado) — Ronaldo Caiado (PSD) e João Rodrigues (PSD)

14 de setembro — Renan Santos (Missão) e Marcelo Brigadeiro (Missão)

21 de setembro — Samara Martins (UP) e Laís Chaud (UP); Hertz Dias (PSTU) e Marcus Sodré (PSTU); Rui Costa Pimenta (PCO) e Bruno Pedreiro (PCO)

28 de setembro — Ralf Zimmer (PRD), sem chapa presidencial correspondente

PS.: cada texto sobre os presidenciáveis e candidatos a governador terá dois tópicos-guia: (1) Quem é o candidato? e (2) Análise do desempenho eleitoral recente do candidato.


Lula e Merísio. Crédito: Divulgação/4oito

Quem é Luiz Inácio Lula da Silva?

Lula nasceu em Caetés, no agreste de Pernambuco, em 1945, e migrou ainda criança para o interior paulista com a família. Formou-se torneiro mecânico no SENAI e foi trabalhar nas metalúrgicas do ABC. Sua vida pública começa no sindicalismo: presidiu o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema e conduziu as greves de 1978 a 1980, que são o marco de reorganização do movimento operário brasileiro sob a ditadura. Em 1980 esteve entre os fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), no qual está filiado até hoje.

Foi deputado federal constituinte entre 1987 e 1991 e presidente da República de 2003 a 2010. Condenado na Operação Lava Jato, cumpriu 580 dias de prisão entre 2018 e 2019. As condenações foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal em 2021, por incompetência do juízo de Curitiba, o que lhe devolveu os direitos políticos.

Voltou à Presidência em 2023, aos 77 anos, com Geraldo Alckmin (PSB) de vice, e disputa agora um quarto mandato, aos 80, novamente com Alckmin de vice e uma ampla coligação, formada por sete partidos: a Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV), a Federação PSOL/Rede, o PSB e o PDT. Esta coligação foi batizada de "O Brasil pronto pra mais". 

Análise do desempenho eleitoral recente de Lula

Lula perdeu bastante antes de ganhar. Suas principais derrotas são a disputa pelo governo de São Paulo em 1982 e três eleições presidenciais consecutivas (1989 para Fernando Collor (PRN), 1994 e 1998 para Fernando Henrique Cardoso (PSDB)). Venceu em 2002 e reelegeu-se em 2006, nas duas vezes em segundo turno. Em 2018 teve a candidatura barrada, sendo Fernando Haddad (PT) seu substituto, que perde para Jair Bolsonaro (então no PSL). Em 2022 venceu Jair Bolsonaro (agora no PL), com 50,90% dos votos válidos, a margem mais estreita de uma eleição presidencial brasileira desde a redemocratização.

Em Santa Catarina, o petista vem de duas eleições ruins. Em 2018, com a candidatura barrada e Haddad no lugar, o PT tocou o fundo do poço catarinense: 24,08% dos votos válidos no segundo turno, contra 75,92% de Jair Bolsonaro. Em 2022, já com Lula de volta à cabeça de chapa, houve recuperação, mas modesta: 29,54% no primeiro turno e 30,73% no segundo, contra 69,27% de Jair Bolsonaro.

Uma curiosidade: em 2002, contra José Serra (PSDB), Santa Catarina deu a Lula 56,6% dos votos válidos no primeiro turno, a maior votação proporcional que o petista obteve em todo o país naquele ano, e 64,1% no segundo, a segunda maior. A explicação que os analistas costumam oferecer é a de que aquela foi uma eleição de baixa polarização ideológica, decidida por voto econômico ao fim do segundo mandato de FHC. Se a leitura estiver correta, a diferença de 2002 para 2018 e 2022 não significa uma conversão coletiva do eleitorado catarinense ao antipetismo, e sim a chegada de um alinhamento ideológico que em 2002 simplesmente não organizava o voto. O catarinense passou a votar por outro critério.


Quem é Gelson Merísio?

Nasceu em Xaxim, no Oeste catarinense, em 1966, e mudou-se para a vizinha Xanxerê em 1972. É administrador de empresas formado pela Unoesc e trabalhou na indústria cerâmica antes de entrar na vida pública.

Sua trajetória começa no associativismo empresarial. Aos 21 anos presidiu a Associação Empresarial de Xanxerê e, mais tarde, a FACISC. Passou pela administração estadual como diretor financeiro da CASAN entre 1999 e 2001 e presidiu o conselho deliberativo do Sebrae catarinense entre 1999 e 2002. Foi vereador de Xanxerê de 1989 a 1992 e presidiu a Câmara Municipal.

Chegou à Assembleia Legislativa pela suplência em 2005, pelo PFL, na vaga deixada por João Rodrigues, então também no PFL, eleito prefeito de Chapecó no ano anterior. Foi o adversário de hoje que lhe abriu a porta para a política estadual.

Presidiu a ALESC de 2010 a 2012 e de 2015 a 2016, e nessa condição assumiu interinamente o governo do Estado por seis dias. Depois de se lançar candidato a governador pelo PSD e perder no segundo turno para Carlos Moisés (PSL) em 2018, afastou-se da vida pública e passou a atuar como conselheiro de administração no grupo JBS. Foi essa atuação que o aproximou do grupo político de Lula. Em março deste ano deixou o Solidariedade e filiou-se ao PSB.

É por ele que Lula tem palanque em Santa Catarina. Merísio encabeça a coligação "Coragem para mudar", que reúne PSB, PDT, a Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) e a Federação PSOL/Rede, com Ângela Albino (PDT) como vice e Décio Lima (PT) e Afrânio Boppré (PSOL) ao Senado. Essa coligação só existe porque o PT abriu mão de candidatura própria, já que Décio Lima, que era pré-candidato ao governo, retirou o nome para apoiar Merísio e disputar o Senado.

Análise do desempenho eleitoral recente de Merísio

Merísio nunca deixou de conquistar mandato proporcional e nunca ganhou uma majoritária estadual. Elegeu-se vereador de Xanxerê em 1988, aos 22 anos, e atuou em quatro legislaturas na ALESC. Sua marca é a votação de 2014 para deputado estadual, 119.280 votos, histórica para o cargo no estado.

Em 2018, quando seu nome era considerado natural para a disputa do governo, Merísio terminou o primeiro turno na frente com 31,12% dos votos válidos, contra 29,74% de Carlos Moisés, um coronel dos bombeiros que nunca havia ocupado cargo eletivo e era desconhecido da população. No segundo turno, Moisés fez 71,09% e Merísio, 28,91%. Repare, leitor, que Merísio manteve praticamente a mesma votação proporcional entre um turno e outro; quem se moveu foi o adversário, que mais que dobrou a sua. Não houve rejeição a Merísio, houve adesão a outra coisa, e essa outra coisa foi a onda que o PSL trazia junto com Bolsonaro. O próprio Merísio atribuiu o resultado à verticalização da eleição estadual, isto é, a onda Bolsonaro não foi somente nacional.

Vale acrescentar que Merísio chega a 2026 num patamar bem abaixo daquele de 2018. Todas as pesquisas que saíram até agora, dos mais diversos institutos, o colocam atrás de Jorginho Mello (PL) e João Rodrigues (PSD).


Por fim, o candidato que hoje encabeça o palanque de Lula em Santa Catarina construiu trinta anos de carreira na centro-direita e chegou a declarar voto em Bolsonaro em 2018. Cabe ler isso como reorientação política criticável, sim, mas genuína e bastante comum entre os políticos brasileiros. O obstáculo de Merísio em 2026, porém, não está no passado, está no rótulo de candidato de Lula num estado que deu a Bolsonaro quase 70% dos votos há quatro anos. Cabe a ele transpô-lo.

Na próxima semana, será a vez de Flávio Bolsonaro e Jorginho Mello.

 

Por Artur Fabro 17/08/2026 - 07:00 Atualizado em 23/08/2026 - 22:46

Encerrado o prazo de registro anteontem (15/08) e liberada a propaganda desde ontem (16/08), restam 48 dias até 04/10, data do primeiro turno das eleições. O fechamento das candidaturas permite uma primeira leitura do que a Região Carbonífera colocou em campo.

O alvo do texto de hoje, caro leitor, são as eleições para cargos proporcionais na AMREC.

Com a proibição das coligações proporcionais começando a valer nas eleições municipais de 2020, a antiga estratégia de inflar as nominatas para encorpar o quociente partidário está perdendo força. Ao disputarem isolados, os partidos tendem a priorizar listas mais enxutas, compostas por candidatos com bases eleitorais consolidadas e votos fidelizados. Esse cenário é amplificado pelas federações partidárias e pelas fusões forçadas pela cláusula de desempenho. O efeito se acumula: menos legendas aptas a competir geram um volume menor de candidaturas. A expectativa é que a AMREC siga essa predisposição nacional, embora a real proporção do enxugamento regional dependa da homologação final dos registros pelo Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina.

As listas encolheram e ficaram mais competitivas.

Chamo de competitivo o candidato que chega à campanha com base política já formada, seja pelo voto obtido em cargo eletivo, proporcional (vereador, deputado estadual, deputado federal) ou majoritário (prefeito, senador, governador, presidente da República), seja pela exposição acumulada num cargo comissionado de peso (secretário municipal ou estadual, delegado-geral da Polícia Civil, ministro de Estado). Por esse critério, a AMREC concentra hoje um número expressivo de candidatos competitivos aos cargos proporcionais.

Na disputa pela Câmara dos Deputados, quatro parlamentares de peso buscam a recondução: Júlia Zanatta (PL) obteve 111.588 votos em 2022; Daniel Freitas (PL), 108.001; Geovania de Sá (PSDB) somou 84.454 e chegou a Brasília pela primeira suplência da Federação PSDB-Cidadania, assumindo quando Carmen Zanotto (Cidadania) foi para o governo do Estado e, posteriormente, para a prefeitura de Lages; Ricardo Guidi (PSD) fez 74.066 e depois migrou para o PL, tentando vencer a prefeitura de Criciúma em 2024, eleição que perdeu para o atual prefeito Vaguinho (PSD). A eles se junta Julio Garcia (PSD), presidente da Assembleia Legislativa, que abriu mão do cargo de deputado estadual que ocupou com 49.958 votos e passa a disputar vaga de federal. Um quinto nome completa a lista, com mandato proporcional em curso numa escala menor: a vereadora de Criciúma Giovana Mondardo (PCdoB), que tentará pela segunda vez entrar na Câmara, sendo a primeira quando ficou na 2ª suplência da Federação PT-PCdoB-PV em 2022, com 38.862 votos.

Há um sinal nessa série histórica para a eleição de deputado federal que merece atenção. Em 2018, Daniel Freitas fez 142.571 votos e foi o segundo deputado federal mais votado de Santa Catarina; Geovania de Sá, hoje no Republicanos, teve 101.937, e Ricardo Guidi, 61.830. Quatro anos depois, Freitas recuou para 108.001 e Geovania para 84.454, ao passo que Guidi subiu para 74.066. Júlia Zanatta não disputou o pleito de 2018 e estreou em 2022 com 111.588 votos, a maior votação da região naquela eleição. Os dois nomes que ocupavam o topo perderam juntos mais de 52 mil votos exatamente na eleição em que uma candidatura nova, de perfil próximo ao deles, apareceu com mais de 111 mil.

Na Assembleia, Jessé Lopes (PL, 55.013 votos) e Rodrigo Minotto (PDT, 28.685 votos) tentam a reeleição. Ao lado deles concorrem o ex-prefeito de Criciúma e ex-deputado estadual Clésio Salvaro (PSD) e o ex-secretário de saúde de Criciúma Acélio Casagrande (Republicanos), além do ex-delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina Ulisses Gabriel (PL) e de Jorge Koch (MDB), ex-prefeito de Orleans.

Um cenário com candidatos mais fortes oferece ao eleitor da AMREC opções de maior peso, o que parece favorecer a representação regional. Entretanto, esses candidatos disputam um mesmo estoque de votos, vindo de um eleitorado cujas preferências políticas a maioria deles também comunga. A região pode chegar ao primeiro turno com uma das listas de candidatos mais competitivas de sua história recente e sair dele com uma bancada menor do que a atual.

 

Por Artur Fabro 10/08/2026 - 07:00 Atualizado em 13/09/2026 - 21:11

Na quarta-feira passada, último dia do prazo das convenções, Flávio Bolsonaro (PL) encerrou a novela mais arrastada desta pré-campanha e anunciou seu vice. Depois de semanas prometendo uma mulher, de preferência de outro partido, para ampliar seu alcance entre o eleitorado feminino, terminou com Alfredo Gaspar (PL), deputado federal e ex-procurador-geral de Justiça de Alagoas. Esta decisão sela a candidatura do Partido Liberal à Presidência da República em chapa pura e sem coligação, como se esperava que ocorresse, apesar das tentativas de última hora de trazer Republicanos e Podemos.

Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar no evento que os confirmou como candidatos a presidente e vice. Crédito: Vittor Sales 

A imprensa nacional tratou o episódio como costuma tratar a escolha dos vices, ou seja, somente como uma questão de nome. Proponho outra análise. A vaga de vice é o ponto sensível em que o sistema político brasileiro apresenta uma de suas contradições.

Na semana passada, abordei nesta coluna o conceito de presidencialismo de coalizão, que o cientista político brasileiro Sérgio Abranches formulou em 1988. Retomo uma parte do que escrevi: “O argumento é que o Brasil combina, de forma rara, presidencialismo, representação proporcional e multipartidarismo, e o resultado é que nenhum presidente jamais teve maioria própria no Congresso. Governar aqui significa, necessariamente, construir coalizão, que não se confunde com a coligação eleitoral, mas dificilmente se forma sem ela”. A coligação eleitoral, como também argumentei na semana anterior, é o primeiro movimento dessa coalizão de governo, pois quem embarca numa candidatura em agosto já calcula com quem vai negociar em janeiro.

Dito isto, a vaga de vice precisa cumprir, ao mesmo tempo, duas funções que puxam em direções opostas.

Como instrumento de coalizão, ela pede um nome respeitado, parceiro, com partido robusto, bancada e capilaridade. Quanto mais forte, mais sólida a aliança e mais tranquila a governabilidade. Por essa lógica, convém buscar o vice mais poderoso possível.

Como cargo constitucional, porém, esse mesmo vice forte se torna um risco, porque a própria Constituição de 1988 o esvazia. O artigo 79 diz o seguinte: “Substituirá o Presidente, no caso de impedimento, e suceder-lhe-á, no de vaga, o Vice-Presidente”. Parágrafo único: “O Vice-Presidente da República, além de outras atribuições que lhe forem conferidas por lei complementar, auxiliará o Presidente, sempre que por ele convocado para missões especiais.” Ou seja, função própria nenhuma, apenas as que o titular quiser e quando quiser.

Isto nos leva a crer que o vice é um subordinado estranho: depende do titular para ter o que fazer, já que só exerce funções delegadas, mas não depende dele para existir politicamente, porque chegou ao cargo pelo mesmo voto e carrega base própria. O titular pode esvaziá-lo de atribuições; não pode retirá-lo da chapa nem da linha sucessória.

Guardado esse critério, vejamos as, até agora, duas chapas mais competitivas de 2026 a nível nacional e em Santa Catarina.

Lula (PT) e Geraldo Alckmin (PSB) repetem a chapa vitoriosa de 2022. À primeira vista, Alckmin é vice de peso, ex-governador do maior estado e duas vezes candidato à Presidência. A particularidade está em outro lugar: ele deixou o PSDB que ajudou a fundar e filiou-se ao PSB, não comandando nem a bancada nem a máquina do partido. Lula encontra nele um vice forte na imagem, fraco na estrutura, e por isso institucionalmente seguro.

Geraldo Alckmin (PSB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) repetem chapa para reeleição em 2026
Lula e Geraldo Alckmin na convenção que os confirmou como candidatos a presidente e vice. Crédito: Ricardo Stuckert

Já Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar fecharam a parceria no apagar das luzes do calendário eleitoral. Gaspar parece ser um correligionário competente, ex-procurador-geral de Alagoas, mas sem base nacional própria. Pela mesma régua que faz de Alckmin um vice seguro para Lula, Gaspar é um vice seguro para Flávio, só que aqui a segurança institucional coincide com a fraqueza da coligação. Onde Lula pôde se dar ao luxo de um vice sem base porque já tem coalizão, Flávio tem um vice sem base porque não conseguiu (ou não quis) formá-la. Somente o tempo dirá quais serão as vantagens eleitorais de se ter um vice como Gaspar, já que, ao contrário de Alckmin, que exerce o cargo desde 2022, ele nunca foi vice-presidente. O fato de Gaspar vir de um estado do Nordeste (onde Lula lidera as pesquisas e Flávio precisa melhorar) e ter sido relator da CPMI do INSS também pesa politicamente a seu favor, principalmente se considerarmos que ele utilizará sua experiência na CPMI para questionar com mais propriedade o governo Lula.

O tabuleiro estadual reproduz em partes o argumento anterior, mas com algumas ressalvas.

Jorginho Mello (PL) e Adriano Silva (Novo) são um exemplo curioso das vantagens da coligação. O governador trocou a vice atual, Marilisa Boehm, do próprio PL, pelo ex-prefeito de Joinville, o maior colégio eleitoral do estado, e filiado ao Novo. O Novo está longe de ser considerado um grande partido em Santa Catarina (onde tem um deputado estadual, um federal e um punhado de prefeitos e vereadores), mas a estratégia do governador, que possui nove siglas em sua coligação, aparenta ter sido a de buscar um nome jovem, bem avaliado e de um colégio eleitoral grande, ainda que, como na análise feita sobre Alckmin e Gaspar, não possua poder suficiente, à primeira vista, para ameaçá-lo no futuro.

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Jorginho Mello e Adriano Silva na convenção que os confirmou como candidatos a governador e vice. Crédito: ND Mais

Com João Rodrigues (PSD) e Carlos Chiodini (MDB), ambos de partidos considerados do centrão, a lógica da coligação é mais tradicional, no sentido de que as vagas de vice e senado foram claramente utilizadas pelo PSD para consolidar a aliança com MDB e União Progressista, aliás, uma aliança inédita em Santa Catarina. Chiodini é um político de carreira reconhecido no MDB estadual e nacional, possuindo vida política própria e não dependendo de Rodrigues caso ambos sejam eleitos. Nesse aspecto, a tese do vice fraco politicamente e forte na imagem não é tão presente aqui, mas sim um vice forte no aspecto partidário e que dá sustentação a uma coligação até então difícil de se realizar.

“Vamos vencer essa eleição”, garante candidato a vice de João Rodrigues ao Governo de SC
João Rodrigues e Carlos Chiodini na convenção que os confirmou como candidatos a governador e vice. Crédito: Jornal Razão/Reprodução

De todo o processo eleitoral que desembocará em outubro, o vice é a peça que o eleitor menos escolhe. Um cargo sem tarefa definida, escolhido por cálculo mais que por vontade popular. O eleitor decide o seu voto pelo primeiro nome da chapa; deveria, porém, olhar com mais atenção para quem aparece na segunda linha.  

Por Artur Fabro 03/08/2026 - 07:00 Atualizado em 03/08/2026 - 13:25

O PT oficializou neste domingo a candidatura de Lula à reeleição, com Alckmin de novo na vice. A coligação reúne sete legendas: a Federação Brasil da Esperança, que junta PT, PV e PCdoB; a Federação PSOL-Rede; e mais dois partidos, PSB e PDT. Do outro lado, o cenário é o inverso. Com a aparente recusa da Federação União Progressista e as incertezas que ainda rondam Republicanos e Podemos (que podem mudar de ideia até a próxima quarta-feira, 05/08, prazo final de realização das convenções), Flávio Bolsonaro chega ao início de agosto isolado e sem vice definido, apoiado oficialmente apenas pelo PL.

Lula discursa na convenção do PT. Ao fundo, o palanque paulista da coligação: Fernando Haddad (PT) ao governo, Márcio França (PSB) na vice e Marina Silva (Rede) ao Senado. Crédito: Brasil de Fato/Reprodução.​​​​​

Desde as eleições de 2002, excetuando a de 2018, os candidatos vencedores sempre contaram com três ou mais partidos antes do primeiro turno: Lula com cinco partidos em 2002 e três em 2006; Dilma com dez em 2010 e nove em 2014; Bolsonaro com dois em 2018; Lula com nove em 2022. Em quatro das últimas seis eleições o vencedor tinha uma coligação maior que a do candidato derrotado; em 2014 houve empate, com nove partidos de cada lado, e 2018 foi a única inversão (lembrando o leitor que, de 2002 a 2022, todas as eleições presidenciais foram para o segundo turno).

A vantagem de uma ampla coligação para cargos majoritários é notável na história recente do país. Com isso, não se afirma que há um nexo causal direto entre grandes coligações e vitórias, isto é, não basta somente possuir uma coligação maior que a do adversário para vencê-lo. Todavia, candidatos competitivos e vencedores geralmente formam grandes blocos partidários.

Comecemos pelo mais óbvio: o tempo de propaganda no rádio e na televisão é distribuído conforme o número de deputados federais eleitos pelos partidos que compõem cada coligação. Coligar-se é literalmente acumular minutos valiosos de propaganda eleitoral gratuita. Some-se a isso o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (Fundão), distribuído às legendas segundo critério semelhante de representação: coligar-se permite somar esses recursos em torno de uma mesma candidatura.

Um dos efeitos mais profundos dessa vantagem tem a ver com a capilaridade territorial dos partidos. O Brasil elege o presidente com voto nacional e organiza a política em 27 unidades federadas. Nenhum candidato presidencial tem estrutura própria em 5.570 municípios. Quem tem são os diretórios estaduais e municipais dos partidos, com prefeitos, vereadores, deputados estaduais, deputados federais, senadores e governadores. Sem o palanque estadual, um candidato a presidente pode continuar tendo seu tempo de propaganda eleitoral e sua atuação nas redes sociais, contudo provavelmente perderá o contato com um importante contingente de eleitores espalhados pelo imenso território brasileiro. Com as expectativas de que, repetindo 2022, as eleições deste ano também sejam apertadas, qualquer novo grupo de eleitores conquistado pode fazer a diferença.

Em 2018, Jair Bolsonaro estava praticamente sozinho porque ninguém apostaria num deputado do baixo clero, ainda mais filiado a um partido de pouquíssima expressão, o PSL, e coligado com o também nanico PRTB de Levy Fidelix, que indicou o general Mourão como candidato a vice. Essa aliança dava a Bolsonaro 8 segundos de televisão e, mesmo assim, excepcionalmente, dado também o contexto da época (impeachment recente de Dilma Rousseff, Operação Lava Jato no auge, prisão de Lula etc.), foi o bastante para vencer Fernando Haddad (PT). Agora, Flávio ainda está sozinho porque os partidos olharam, avaliaram e, até o momento, não foram convencidos de seu projeto. A situação de Flávio só não é pior porque o PL detém a maior bancada da Câmara Federal, o que lhe garante 4min20s no horário eleitoral, contra 5min32s de Lula, além de uma forte capilaridade estadual e municipal construída durante os anos em que seu pai foi presidente e tentou a reeleição. Como já dito, esse diagnóstico não significa que Flávio perderá as eleições; significa que, se vencer, terá de construir em janeiro, no Congresso, a coalizão de governo que não conseguiu formar em agosto, nas convenções.

 

Flávio Bolsonaro oficializa candidatura ao lado de Milei e sem Michelle, e  promete subir a rampa do Planalto em 2027 com Jair Bolsonaro - BBC News  Brasil
Flávio Bolsonaro ao lado de Javier Milei, na convenção do PL que oficializou sua candidatura à Presidência, ainda sem vice definido e sem coligação fechada. Crédito: Nelson ALMEIDA / AFP via Getty Images.

Assim, a coligação eleitoral vale, sobretudo, pelo que antecipa. O cientista político brasileiro Sérgio Abranches descreveu essa lógica em 1988, no artigo Presidencialismo de coalizão: o dilema institucional brasileiro, publicado na revista Dados. Foi ali que nasceu a expressão "presidencialismo de coalizão", provavelmente a mais citada da ciência política brasileira. O argumento é que o Brasil combina, de forma rara, presidencialismo, representação proporcional e multipartidarismo, e o resultado é que nenhum presidente jamais teve maioria própria no Congresso. Governar aqui significa, necessariamente, construir coalizão, que não se confunde com a coligação eleitoral, mas dificilmente se forma sem ela. Os partidos sabem disso melhor que ninguém. Quando um bloco se recusa a embarcar em uma candidatura, não está apenas se poupando de uma derrota em outubro; está calculando com quem preferirá negociar em janeiro.

Por Artur Fabro 27/07/2026 - 07:00 Atualizado em 29/07/2026 - 10:28

De 20/07 a 05/08, partidos e federações estão autorizados a realizar suas convenções, nos termos do art. 8º da Lei nº 9.504/1997; a ata de cada encontro deve ser transmitida à Justiça Eleitoral até o dia seguinte ao da realização, o pedido de registro das candidaturas vai até 15/08, a propaganda eleitoral começa em 16/08. Convém recordar ao eleitor o que se decide nas convenções partidárias: a chapa majoritária (presidente e vice, na convenção nacional; governador e vice, senadores e respectivos suplentes, na estadual); a coligação, que desde a Emenda Constitucional nº 97/2017 só é admitida nas disputas majoritárias; e a nominata proporcional (deputados estaduais e federais), que cada partido ou federação apresenta isoladamente, limitada a 100% das vagas em disputa mais uma, o que significa, em Santa Catarina, 17 nomes à Câmara dos Deputados e 41 à Assembleia Legislativa.

Nada obriga, porém, a fechar a chapa de uma só vez, pois o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) admite que a escolha de candidaturas e a deliberação sobre coligações se façam em etapas, de modo que o nome do vice pode ser definido depois da convenção que homologa o cabeça de chapa, desde que o conjunto esteja completo no pedido de registro, em 15/08. Duas disposições completam o quadro: as federações, diferentemente das coligações, deliberam de forma unificada e permanecem associadas por prazo que não pode ser inferior a quatro anos; e, desde a Emenda Constitucional nº 52/2006, não há verticalização, ou seja, o alinhamento nacional não obriga o diretório estadual, razão pela qual um mesmo partido pode integrar, em Brasília e em Florianópolis, campos adversários.

Este registro é importante; a pergunta que ele não responde, no entanto, é a seguinte: por que uma das etapas mais decisivas do processo eleitoral é justamente a menos disputada publicamente? Escolhi dois cientistas políticos, um norte-americano e um francês, que podem nos ajudar a compreender a lógica das convenções partidárias.

Elmer Eric Schattschneider (1892–1971), que foi presidente da Associação Americana de Ciência Política (APSA), dedicou-se a demonstrar que a democracia moderna é impensável fora dos partidos. É de Governo partidário (1942), um de seus livros mais relevantes, a proposição que melhor organiza o problema aqui discutido: quem controla as indicações é o dono do partido (no original do autor, "owner of the party"; na prática política brasileira, equivale à figura do presidente do partido) porque a natureza do procedimento de indicação determina a natureza do próprio partido. Programas partidários podem ser escritos por assessores, discursos podem ser adaptados ao público; as indicações das candidaturas, não, ou, mais exatamente, só podem ser desfeitas por quem as fez, nas hipóteses em que a lei admite a substituição e dentro de prazos que se esgotam antes da votação. Um partido que perdeu o controle sobre quem indica já perdeu o controle sobre o que é, ainda que conserve a sigla, o programa e o fundo partidário.

Bernard Manin (1951–2024), cientista político francês e autor de Os princípios do governo representativo (1995), oferece o complemento necessário. Ele parte de uma ideia que já foi óbvia e hoje soa estranha: por muito tempo, o sorteio era considerado o método democrático, e a eleição, o método aristocrático. No sorteio, qualquer um pode ser escolhido; na eleição, votamos em quem consideramos melhor que os demais de alguma forma (mais preparado, mais conhecido, mais confiável). Por isso o eleito é sempre alguém que se destaca da multidão que o elegeu. O sistema representativo que herdamos junta as duas coisas: é democrático porque todos votam, e é aristocrático porque o voto, por natureza, seleciona os que se destacam. E a convenção partidária acrescenta um segundo filtro, anterior a esse: ela decide quem poderá ser escolhido. O eleitor manda na hora de escolher; não manda na hora de definir entre quem vai escolher. Ao eleitor catarinense caberá, em outubro, decidir entre sete ou oito candidaturas ao governo; nenhuma delas foi formulada por ele, e todas foram fixadas em reuniões cujo quórum raramente ultrapassa algumas dezenas de dirigentes.

Dessa forma, a convenção não delibera; ratifica o que a direção partidária decidiu antes. Está aí o incômodo de descrevê-la como momento de democracia interna, e o erro de descartá-la como formalidade sem sentido, já que é a formalidade que produz o efeito jurídico e fecha, ao menos momentaneamente, o campo das possibilidades.

Por Artur Fabro 20/07/2026 - 07:00 Atualizado em 26/07/2026 - 18:51

Há pouco mais de um século, em janeiro de 1919, no contexto da Revolução Alemã, Max Weber (1864-1920), um intelectual, jurista e economista alemão, considerado um dos fundadores da Sociologia, subiu a uma tribuna em Munique para falar a estudantes sobre a "política como vocação". Do discurso saiu uma distinção conceitual interessante: há uma ética da convicção, de quem se entrega a uma causa e compreende o mundo a partir dela; e uma ética da responsabilidade, de quem não se pergunta apenas se o ato é justo, mas também pelo que ele provavelmente vai provocar. O político, sob essa perspectiva, vive dessa tensão, precisa da paixão de quem acredita e da frieza de quem enxerga as coisas como são.

Imagem do rosto de Max Weber em preto e branco

Em outra conferência célebre, sobre a "ciência como vocação", Weber advertia que a tarefa de quem analisa não é ser um profeta ou demagogo, e sim oferecer clareza. Se pudermos aplicar esses raciocínios à leitura das eleições, a lição se torna ainda mais exigente, isto é, não cabe àquele que trata da política como ciência dizer em quem se deve votar, nem comemorar ou lamentar um resultado; cabe, isto sim, distinguir o que um número diz do que ele apenas parece dizer, devolvendo ao leitor as perguntas na forma mais honesta possível.

É por isso que a ciência política não se confunde com a crônica política, por mais que uma se alimente da outra. A crônica narra o episódio, a declaração de ontem, a briga da semana, quem subiu e quem caiu. A ciência política pergunta o que, naquele episódio, é passageiro e o que é estrutural. Nesta coluna, ficamos com a ciência política.

Duas pesquisas saíram nos últimos dias e servem bem ao exercício aqui proposto.

Na quarta-feira da semana passada (15/07), a Genial/Quaest divulgou seu último levantamento nacional, com 2.004 entrevistas presenciais realizadas entre 10 e 13 de julho e margem de erro de dois pontos. Lula (PT) lidera o primeiro turno e vence todos os cenários de segundo turno. Em relação a quatro desses cenários de segundo turno, contra quatro adversários distintos — Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) —, Lula aparece com exatamente o mesmo número: 45%. O que muda de cenário para cenário é apenas o tamanho do adversário (de 33% a 37%) e a fatia que sobra em branco, nulo ou indecisão (de 14% a 18%).

Esses dados podem significar que a disputa de segundo turno, hoje, não é tanto uma escolha entre dois candidatos quanto um julgamento sobre um só. O teto e o piso de Lula estão fixados por aquilo que os eleitores já conhecem dele. A tarefa do adversário, nesse quadro, aparenta ser conseguir reunir sob a bandeira do "antipetismo"/"antilulismo" o eleitorado que rejeita o presidente. É o que a literatura da ciência política tende a chamar de "voto retrospectivo", ou seja, quando há um incumbente forte, o eleitorado tende a transformar a eleição num sim ou não ao governo.

A Quaest também perguntou o que dá mais medo: a reeleição de Lula ou a volta dos Bolsonaro. A volta dos Bolsonaro assusta 46%; a reeleição de Lula, 38%. Em março, havia quase um empate (43% a 42%); de lá para cá, o medo dos Bolsonaro abriu vantagem. Repare em um detalhe, caro leitor: o campo que mais teme os Bolsonaro é maior do que o que mais teme Lula, praticamente na mesma proporção em que Lula abre vantagem no segundo turno contra Flávio (45% a 37%). A eleição de 2026, ao menos por ora, segue o caminho de quem assusta menos o eleitor, e não o das qualidades/inspirações que os candidatos hipoteticamente transmitem.

Há ainda um enigma que vale a pena expor, porque desmente uma intuição comum. Pela primeira vez em treze meses, a aprovação de Lula superou a desaprovação: 48% a 47%. O enigma é que ela acontece enquanto 43% dos brasileiros ainda dizem que a economia, possivelmente um dos indicadores mais relevantes levados em conta pelos eleitores comuns quando decidem o voto, piorou nos últimos doze meses, contra apenas 20% que acham que melhorou. Como se aprova mais um governo cuja economia a maioria julga pior? Um terço dos entrevistados (32%) diz ter sido diretamente beneficiado pela isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais. Assim, a percepção difusa do eleitor comum sobre "a economia", quando confrontada com benefícios concretos e localizados, cede diante deles; a gratidão real que esses benefícios produzem é suficiente para melhorar a aprovação.

Em Santa Catarina, o IPC, contratado pela Associação Catarinense de Jornais (ACJ), trouxe governo e Senado no mesmo campo (9 a 13 de julho, 1.050 entrevistas presenciais, margem de três pontos), mas soltou os números em dias diferentes. Para o governo, a fotografia é nítida: em cenário de primeiro turno, Jorginho Mello (PL) lidera com folga, 53,3% na estimulada, contra 26,2% de João Rodrigues (PSD), seu principal adversário. A novidade da série recente é o crescimento de João Rodrigues como polo de oposição ao governador.

O que merece mais atenção, para mim, nessa pesquisa, é o Senado. Em 2026, cada eleitor catarinense votará em dois nomes para o Senado. Esse fato altera a análise dos números, e a pesquisa do IPC permite ver o porquê, se olharmos a diferença entre o primeiro e o segundo voto: Carlos Bolsonaro (PL) é a primeira escolha de 27,4%, mas despenca para 11,1% no segundo voto; Caroline de Toni (PL) é apenas a quarta colocada no primeiro voto (14,4%), disparando para a liderança isolada no segundo (24,6%); Esperidião Amin (PP) é o mais equilibrado dos três (17,8% no primeiro voto e 16,3% no segundo voto). No fim das contas, a soma do primeiro e do segundo votos quase coloca os três em um empate técnico, com Décio Lima (PT) e Antídio Lunelli (MDB) correndo por fora.

Uma análise possível sobre a corrida para o Senado em Santa Catarina: o PL tem dois candidatos competitivos e parece só conseguir as duas vagas se convencer o próprio eleitor a usar os dois votos em seus dois nomes. O risco está no comportamento provável do eleitor bolsonarista: se ele der o primeiro voto a Carlos e, no segundo, não repetir na legenda, o PL desperdiça parte de sua força e pode perder a segunda vaga. Amin (PP) é quem mais tende a se beneficiar dessa dispersão, por ser forte no segundo voto e disputar o mesmo campo de direita, mas, num quadro em que os três primeiros colocados quase empatam e Décio Lima ronda os 30%, a vaga que escapa ao PL não está necessariamente destinada a um único adversário.

De Brasília a Florianópolis, as duas pesquisas contam uma história parecida: o eleitor decide por razões próprias (medo, gratidão, cálculo individual do voto etc.) e é da soma dessas razões, nem sempre coerente, que emerge o resultado.
 

Por Artur Fabro 13/07/2026 - 09:00 Atualizado em 13/07/2026 - 19:44

O ano de 2026 é de eleição geral no Brasil. Em outubro o país escolhe presidente, governadores, senadores e deputados federais e estaduais, e a essa altura pesquisas, coligações e discursos de campanha já disputam espaço na atenção pública, muitas vezes gerando mais ruído do que compreensão. As convenções partidárias, que oficializam candidaturas e coligações, começam já na semana que vem. É para ajudar o leitor do 4oito a transformar esse ruído em compreensão que esta coluna começa hoje.

Meu nome é Artur Fabro, sou doutor em Sociologia e Ciência Política pela UFSC e professor do curso de Direito da UNESC. A proposta deste espaço é simples: tratar as eleições com o rigor da ciência política, mas na linguagem do dia a dia. Isso significa, de um lado, comentar pesquisas eleitorais, movimentos de candidaturas e disputas em torno do sistema eleitoral à medida que acontecem. De outro, significa recorrer sempre que possível a conceitos e análises da ciência política, sem pressupor que o leitor tenha formação na área.

Um compromisso que vale a pena declarar logo na estreia, esta coluna não defenderá nenhum partido ou candidato em específico. O interesse aqui é compreender mecanismos, comportamento eleitoral, a lógica das coligações, o funcionamento do sistema de votação etc. Concordar ou discordar das conclusões aqui expressas faz parte do jogo democrático.

Agradeço ao Adelor Lessa pelo convite e espero que todos tenham uma ótima leitura.

P.S.: Exceto hoje, a coluna será publicada toda segunda-feira, às 7h.

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