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LUIZ FERNANDO DA FONSECA GYRÃO

Por Henrique Packter 23/10/2023 - 09:28 Atualizado em 23/10/2023 - 09:51

Manuel Bandeira publicou vasta obra até a morte, em contos, poesias, traduções e críticas literárias. No segundo dia da Semana de Arte Moderna, seu poema Os Sapos foi lido por Ronald Carvalho.

A CAMÕES, poema de Manuel Banxdeira

Quando n’alma pesar de tua raça

A névoa da apagada e vil tristeza,

Busque ela sempre a glória que não passa,

Em teu poema de heroísmo e de beleza.

Gênio purificado na desgraça,

Tu resumiste em ti toda a grandeza:

Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça

O amor da grande pátria portuguesa.

 E enquanto o fero canto ecoar na mente

Da estirpe que em perigos sublimados

Plantou a cruz em cada continente,

 Não morrerá, sem poetas nem soldados,

A língua em que cantaste rudemente

As armas e os barões assinalados.

Academia Brasileira de Letras
Na Academia Brasileira de Letras (ABL), Manuel Bandeira foi o terceiro ocupante da Cadeira 24, eleito em 29.8.1940.  Sua trajetória laboral destaca atuação como professor de Literatura Universal no Externato do Colégio Pedro II, 1938. Foi também professor de Literatura Hispano-Americana (1942 a 1956)​, da Faculdade Nacional de Filosofia, onde se aposentou. Faleceu no RJ, aos 82 anos, em 13.10.1968, vítima de hemorragia gástrica.

Pneumotórax, poema de Manuel Bandeira
Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos. A vida inteira que podia ter sido e que não foi. Tosse, tosse, tosse. Mandou chamar o médico:

- Diga trinta e três.

-Trinta e três… trinta e três… trinta e três…

- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

-  Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

(Comentário: tango argentino só na hora da morte...)

Vou-me Embora pra Pasárgada, poema de Manuel Bandeira
Vou-me embora pra Passárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Passárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Passárgada

Em Passárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Passárgada.

GYRÃO, SÍLVIO DAMIANI BÚRIGO, IVO NESRALLA: PIONEIROS EM CIURGIA CARDÍACA

O Dr. Sérgio Hertel Alice, primeiro patologista da região, foi especializar-se em 1970 no Hospital dos Servidores (IPASE) no RJ, estimulado por Gyrão. Sérgio trabalhava em Siderópolis juntamente com Gyrão na CSN.

Uma das primeiras cirurgias de coração em SC e no Brasil, senão a primeira, deve-se a Gyrão e Sérgio Alice, rivalizando com Nesralla no RS. Sérgio Alice  sempre foi muito forte pela prática de esportes. Vinha, certo dia, para o Hospital São José quando presenciou o término de acalorada discussão entre funcionário da Caixa Econômica e um popular, em plena via pública. A contenda findou com o popular empunhando uma arma branca e apunhalando o funcionário da Caixa. Ferimento na área do coração fazia com que o sangue jorrasse no ritmo cardíaco: uma sístole um esguicho. Sem hesitar, Sérgio apanha o corpo do homem ferido e carrega-o para o Centro Cirúrgico do Hospital São José, onde Gyrão e o urologista Sílvio Búrigo terminavam o atendimento de outra emergência. Sem mais delongas o ferimento é exposto, anestesista - que se preparava para deixar o Centro Cirúrgico - é reconvocado, Gyrão e Sílvio Búrigo calçam luvas sem escovar-se (pela premência do atendimento) e a sutura da brecha no coração é realizada.

O paciente fica internado alguns dias e restabelece-se miraculosamente.

O grande progresso médico verificado com a admissão de Gyrão no corpo clínico hospitalar, deve-se ao seu temperamento generoso e ao seu desejo de evoluir, medicamente falando. Foi, graças a Gyrão que as lacunas então existentes no corpo clínico hospitalar foram sendo eliminadas porque ele convidava médicos de especialidades não existentes na cidade para aqui trabalhar e encaminhava, não raro trazendo clientes pelo braço ao novo especialista. Ele e Emília eram cristãos praticantes.

DRAMA COMUM A MUITOS CIRURGIÕES

Muito sofreu pelo desfecho de caso de paciente que operou e que veio a falecer. Os filhos da paciente falecida montaram ronda em torno de sua casa, impedindo-o de trabalhar ao mesmo tempo em que proferiram ameaças contra Gyrão. Eu estava em viagem participando do Congresso Médico de Oftalmologia. Era inverno e inverno muito frio. Mal eu chegara e já era intimado a correr à casa do Gyrão localizada na Praça do Congresso. Fui até lá, altas horas de noite gélida. General Bragança, olhos muito claros, perscrutadores, fitavam-me demonstrando decepção, desesperança talvez. Perguntei se tinham procurado pelo Dr. Ernani Palma Ribeiro, juiz da Comarca. Não tinham. Propus-me a procurá-lo no dia seguinte. Fui e ele marcou visita, no Rio Maina, à família enlutada, naquele mesmo dia. Sua atuação foi decisiva resolvendo o problema e demonstrando grande coragem. Acompanhei-o na condição de motorista.

IVO NESRALLA

Pioneiro em transplantes cardíacos no RS, Ivo Nesralla morreu aos 82 anos. O falecimento do ex-presidente do Instituto de Cardiologia e da Orquestra Sinfônica de POA foi às 10h30min de quarta-feira, 16.12.2020.

Nesralla foi presidente do Instituto de Cardiologia e fundador da Fundação Universitária de Cardiologia do RS. Pioneiro em transplante cardíacos no RS é referência em cirurgia cardiovascular em toda a América Latina, Ivo Abrahão Nesralla morreu em Porto Alegre de parada cardíaca. Estava em casa e chegou a ser socorrido no Hospital Moinhos de Vento, mas veio a falecer.

Além de ter sido fundador, cirurgião e presidente do Instituto de Cardiologia - Fundação Universitária de Cardiologia (IC-FUC), também presidiu a Bienal de Artes Visuais do Mercosul por anos e a OSPA, Orquestra Sinfônica de POA, durante 23 anos.

O primeiro transplante de coração feito no RS, liderado por Ivo Nesralla

Nesralla tinha paixão por música clássica e enquanto operava corações, dentro da sala de cirurgia, escutava Johann Sebastian Bach em fita cassete, no número 395 da Avenida Princesa Isabel. Embalado pelas sinfonias de Bach, foi responsável por nova era de transplantes cardíacos no país. 

Foi Nesralla quem retomou esse tipo de cirurgia no Brasil — houve pausa no procedimento em razão de problemas da rejeição do órgão. Fez o primeiro transplante de coração no RS (1984), o quarto do Brasil. O cirurgião cardiovascular Paulo Prates, 80 anos, estava com ele. 

— Ele foi um pioneiro em tudo, numa época muito difícil. Impressionava nele o espírito corajoso: a verdadeira coragem de quem tem medos e os enfrenta — destaca. 

Formado em 1962 pela UFRGS, Nesralla fez, oito anos depois, a primeira operação de ponte de safena no RS (1970). Foi também uma das primeiras no Brasil. 

Em 1973, Nesralla empregou pela primeira vez no país a técnica da hipotermia profunda para cirurgias cardíacas, e implantou o primeiro coração artificial na América Latina em 1999. Em 2.000 realizou a primeira cirurgia robótica cardíaca da América Latina. Chamado de professor até por colegas, foi docente titular de cirurgia cardíaca da UFRGS. Foi também membro titular das academias Sul-Riograndense e Nacional de Medicina. Nesralla recebeu a Comenda da Ordem do Mérito Cultural das mãos do presidente da República, Fernando Henrique Cardoso (2001), e, em 2015, a Medalha do Mérito Farroupilha, distinção máxima da Assembleia Legislativa gaúcha. 

Presidente da Ospa por 23 anos

Nersralla presidiu a Fundação OSPA em dois períodos (1983 a 1991 e de 2003 a 2018).  O maestro Evandro Matté teve seu ingresso referendado na orquestra, como trompetista, por Nersalla há 30 anos. Foi uma das principais vozes contra o projeto de extinção da Fundação Ospa; lutou pela construção da sede da orquestra.

— Ele deixa como mensagem a importância da cultura para nossa sociedade. Quando visitava outros Estados, repetia a frase do Erico Verissimo para se apresentar: "eu venho de uma cidade que tem uma orquestra sinfônica". 

Atual presidente da Fundação OSPA, Luis Roberto Andrade Ponte, afirma que Nesralla "foi um apaixonado pela OSPA e pela música de concerto" e que "durante os 23 anos em que esteve à frente da Fundação, dedicou-se intensamente a consolidar a orquestra como uma das mais importantes do nosso país". Ivo deixou a mulher, Paulita, os filhos Ivo, Carlos e Paula (também cirurgiã cardíaca), e netos.

HISTÓRIAS DE GYRÃO

1.     “Uma estrela é um pedaço de luz no Universo perdido, é poeira de sol no infinito escondido, é a paz verdadeira, é esperança de amor”. De um escrito de Girão.

2.     Certo dia´, enquanto cursava o segundo ano de residência em Clínica Cirúrgica em Niterói, Gyrão precisa se ausentar para tratar de assuntos pessoais. Pede a um residente do primeiro ano que cuide de paciente seu, internado em enfermaria. Insiste em que faça esta observação médica e que a inicie naquele mesmo instante. Com certa relutância o residente vai. Volta para informar:

- Ele está ótimo! Não precisa se preocupar! Está até sorrindo!

Gyrão, intrigado, vai ver o que está havendo. Não dá outra: tratava-se do riso sardônico que denuncia o tétano! 
 

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