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Dácio Fausto Pereira dos Santos - Terceira Crônica de Natal

Meu colega de turma, urologista em São José do Rio Preto, SP, já falecido, enviou-me no natal de 2010 esse texto do qual provavelmente é o autor.
Henrique Packter
Por Henrique Packter 28/12/2019 - 11:50Atualizado em 30/12/2019 - 11:51

Em 22 de dezembro de 2010 o banco errou no pagamento de algumas contas. Uma tarde perdida conversando com gravações que, só sabiam me deixar aguardando impotente em hold.  A vizinha do lado bateu na minha porta, muito educada (trabalhava no Bradesco, é ruiva natural e feiosa), para avisar que, na noite de terça-feira, vai dar uma recepção e que procuraria bimbalhar o mais baixo possível. Sim...  

Todos os escribas que leio, bons ou maus, já cometeram sua crônica de Natal. Alguns são reincidentes, fazem uma crônica a cada Natal, muitas vezes a mesma crônica. Mas, nos dias apressados de hoje, diminui o número daqueles que a fazem, talvez porque minguem as maneiras de tratar do assunto com um mínimo de criatividade.

Já fiz do Natal uma metáfora moderna: a manjedoura símbolo da origem humilde de um justiceiro social e José e Maria como despossuídos (os primeiros sem-teto), perseguidos pelos poderosos do dia, como ainda hoje.

Também já apelei para a crítica política indireta: os três reis magos chegam à manjedoura trazendo só mirra e incenso porque tiveram que passar por Brasília onde o ouro sumiu.

Já pensei em descrever a cena na manjedoura do ponto de vista dos animais, estarrecidos e incapazes de compreender o que ocorria, a grandeza do momento histórico que viviam.

Acho que minha intenção era divagar sobre a neutralidade do mundo diante (ou atrás, apenas serve de cenário), dos dramas humanos, e a futilidade destes em contraste com a vasta indiferença das coisas. Ou algo parecido. Mas, em respeito à data, minha crônica de

Natal deste ano, inscreve-se na categoria reminiscências com ilações já muito usadas.

Sempre houve árvore de Natal em casa, desde os pinheirinhos da época dos móveis escandinavos, que era como denominávamos os caixotes de bacalhau norueguês trazidos do mercado e que viravam mesas e estantes. Depois, acometidos de consciência ecológica, trocamos o pinheiro de verdade por um sintético, todo decorado, com modesta estrela na ponta, onde, no Natal de 2006, luziu retrato do Gabiru, autor do gol que deu o campeonato do mundo ao Internacional, passe do Fernandão.

Minha avó era religiosa, nosso Natal nem tanto. Às vezes havia em casa, no jantar da véspera, amigos judeus e islâmicos, sem falar nos agnósticos, como eu haveria de me tornar, O Natal nos fornecia símbolos de muito mais coisas, coisas mais importantes do que questões de fé. Estávamos juntos, nos gostávamos, isso é o que celebrávamos todos os anos. E nada mais distante de especulações teológicas do que Dedé rondando a árvore, tentativa de adivinhar quais dos presentes eram seus.

Não é absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento e aperfeiçoamento do homem, um dia o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações tediosas e supliciantes. Seria bom.

Nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, das fronteiras iranianas às fronteiras israelenses, sem esquecer fronteiras de Gaza; sem fronteiras. Governos e oposições, neutros, super e subdesenvolvidos, bichos, plantas, entrarão em regime de fraternidade. 
 

4oito

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