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César Sartori, pioneiro médico em Urussanga

Por Henrique Packter 18/01/2022 - 19:39 Atualizado em 18/01/2022 - 19:41

Cesar Sartori não limitou sua atuação médica a Lages e Urussanga. Generoso, aventureiro, humanitário atendia os índios, deslocando-se para as lonjuras de Chapecó.

Antonio Selistre de Campos foi nomeado pelo governo catarinense como inspetor escolar em Lages de1912 a 1913, no Grupo Escolar Vidal Ramos; é quando conhece Sartori.

No jornal A Voz de Chapecó artigos do Juiz de Direito Antônio Selistre de Campos, chamam a atenção sobre os Kaingáng e para o tema saúde dos indígenas. Cesar Sartori vai de Lages/SC, a cavalo, até o oeste catarinense para atendê-los. Índios morriam em penúria à mingua de recursos. Dizem-lhe: o mal que os vai dizimando é a febre, uma espécie de tifo. 

Pensava solucionar o problema destinando parcela de qualquer verba, para que alguns médicos, funcionários públicos do Departamentos de Saúde (no Sul, Centro o Norte do País), com gratificação especial, visitassem os toldos indígenas. Ao menos em tempos de surtos epidêmicos.

A febre, uma espécie de tifo referida por Antônio Selistre de Campos, foi doença contraída pós-contato, para a qual os indígenas não tinham adquirido imunidade. Porém, atendimento não vinha dos órgãos oficiais o acolhimento vinha pela medicina tradicional das ervas, conhecida e praticada pelos indígenas, e por alguns não-indígenas.  O curandeiro Ricardo nessa emergência dolorosa de sofrimento e desamparo trazia conforto aos morituros. Humilde curandeiro, Ricardo, preto, velho, analfabeto, era mais pobre do que os índios, que se iam extinguindo, na indigência. Morador do sertão, léguas longe dos enfermos, condenados à morte, nesse transe irremediável, lhes traz a solidariedade de ser humano, nessa última esperança de medicação ilusória.

Antônio Selistre de Campos critica o Serviço de Proteção aos Índios/SPI, que, depois de 1930 não é mais dirigido pelo Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, e sim por funcionários públicos admitidos pelo Departamento Administrativo do Serviço Público/DASP.

Em 10.03.1941, sob o título Índios IV, Antonio Selistre de Campos informava no jornal sobre a visita do Dr. Cesar Sartori fornecendo pequena biografia do médico italiano. Sartori contava então 80 anos! Há mais de quarenta anos residia em Lages. Estimado e acatado dado seu espírito humanitário e competência de cientista já visitara índios em Go, Pa, MS, PR, RS. Visitou toldos de Jacu e Banhado Grande.

Escreve ao Dr. Roquete Pinto (médico, escritor, radialista, antropologista), mostrando a condição de vida dos índios. Escreve também ao General Rondon e ao Presidente do país, pedindo a criação de assistência medica permanente aos índios brasileiros. Sobretudo para combater moléstias endêmicas e epidêmicas, que os vitimam há quatrocentos anos.

Selistre de Campos afirma ser certo que em Chapecó, cidade, sede de município importante, até há dois anos atrás (1939) não havia médico ou farmacêutico.

A 20.04.1941, em Índios, Antônio Selistre de Campos: o Posto precisa cumprir sua finalidade, isto é, a proteção dos Índios. Que se consiga ao menos, periodicamente, ida de médico aos toldos (...), pois, a permanência efetiva de um clinico, como sugere, por espírito de humanidade, o Dr. Cesar Sartori, é ideal quase irrealizável.

Quatro anos depois o problema persistia; em 06.04.1945, Selistre de Campos reclama em carta ao encarregado do posto, Francisco Siqueira Fortes, a persistência do problema. Em 1948, três anos depois, (...) Selistre de Campos publica artigo relatando a precariedade do atendimento à saúde e sobre duas mortes de índios idosos: Os Índios estão morrendo.

Fundado em 1939, o jornal de Chapecó circulava aos domingos na cidade e região. A última edição localizada do jornal foi de dezembro de 1957.

Selistre de Campos nasceu em Sto. Antônio da Patrulha/RS (1881); muda-se para POA /RS, onde cursa a Faculdade de Direito (1904). Formado em 1909, foi Juiz Estadual na comarca de Campos Novos/SC (1914). Após 1931 assume em definitivo a comarca de Chapecó. Falece a 05.12.1957 de pneumonia. Kaigángs levam o caixão acompanhando a pé o cortejo fúnebre.

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