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A Guerra do Pente, Curitiba, dezembro 1959

Henrique Packter
Por Henrique Packter 05/01/2021 - 09:01

Lupion governador, deu início a uma campanha (seu talão vale um milhão) para aumentar a arrecadação tributária e combater a sonegação fiscal. Os contribuintes deveriam juntar notas fiscais no valor de 3 mil cruzeiros e trocar por um talão que dava direito ao sorteio de um milhão de cruzeiros.

A 8.12.1959, a poucos dias  de minha formatura no Curso de Medicina, na mesma cidade de Curitiba, o subtenente da Polícia Militar, Haroldo Tavares, entrou no Bazar Centenário, na Praça Tiradentes, para comprar um pente. Escolheu um, achou caro o preço de 15 cruzeiros, reclama, mas paga e exige a nota fiscal.

O proprietário, o sírio Hermede Najar, não quer dar a nota exigida, os dois discutem e se atracam. Como logo vai se ver, Najar tinha o QI de uma ostra de porte médio. Segundo algumas testemunhas, outros dois sírios ajudam Hermede na agressão ao militar que sai da briga com a perna quebrada. Do lado de fora da loja, populares que a tudo assistiram, revoltam-se; vaiam e atiram pedras. Por precaução, o comerciante baixa as portas de aço de seu estabelecimento. Outras pessoas, a maioria nas filas de ônibus, engrossam o movimento. O tumulto ganha força, a porta de aço é arrombada e a loja, depredada.

A partir daquele momento, em correrias, a massa humana começa um quebra-quebra geral. Diversas lojas vizinhas são atacadas expandindo-se a revolta para as ruas 15 de novembro, Marechal Floriano e Marechal Deodoro e para as praças Osório e Rui Barbosa. Lojas, residências e até carrinhos de pipoca não escapam da ira popular. 120 lojas de comerciantes conhecidos como turcos, mas na verdade árabes, judeus, italianos, e até brasileiros experimentam a fúria de uma população descontrolada. Nem órgãos públicos como a COAP (Comissão de Abastecimento e Preços) a DFDG (Delegacia de Falsificações e Defraudações em Geral), a Chefatura de Polícia, a Biblioteca Pública, as sedes do IPASE e do IAPC escaparam ao vandalismo.  A Polícia Militar põe as tropas na rua. Os policiais atacam a cacetadas, bombas de gás lacrimogêneo e tiros. A população revida com pedradas e pauladas. Há mais de 50 feridos, entre eles o chefe de polícia Alfredo Pinheiro Jr e o comissário Eudes Brandão.

A polícia não consegue controlar a situação. Várias pessoas são presas e uma multidão se reúne em frente à chefatura de polícia, tentando soltar os presos. A muito custo é contida. Bombeiros são convocados a auxiliar para conter os ânimos. O povo corta as mangueiras dos carros-pipas para evitar os jatos d'água. A trégua vem com o cair da noite. A população vai dormir e, no dia seguinte, recomeça o tumulto.

Diante da gravidade da situação, o Exército entra em ação, colocando tanques de guerra nas ruas e esvazia o movimento. Pelotões de soldados armados com baionetas e metralhadoras sob o comando do capitão José Olavo de Castro (Polícia do Exército) e do general Oromar Osório impõem medidas drásticas para conter a rebelião: bares fecham às 20 horas, pontos de ônibus são transferidos de local, aglomerações são proibidas.  O Arcebispo, D. Manoel da Silva Delboeux, conclamou a população a retornar ao seu cotidiano de trabalho, sensatez e paz. Clamou contra a "tragédia triste do vandalismo", contra a "baderna predatória".

Este episódio encerrou a campanha seu tostão vale um milhão. Melhor não haver campanha nenhuma do que suportar os elevados prejuízos de uma revolta popular, prejuízos muitas vezes irrecuperáveis. 

4oito

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