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* as opiniões expressas neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do 4oito

Charlie Munger: o Oráculo do Oráculo de Omaha

Ao olhar onde chegou Warren Buffett, veremos Charlie Munger
Por Arthur Lessa 30/11/2023 - 13:20 Atualizado em 30/11/2023 - 14:49

Quando se pensa em uma referência como investidor de longo prazo no mundo, Warren Buffett é o primeiro nome que surge na cabeça dos entusiastas do mercado financeiro. Acontece que, como acontece com frequência, por décadas Buffett contou com um braço-direito que teve participação indiscutível do caminho trilhado pelo chamado Oráculo de Omaha. Este era Charles Thomas Munger, mais conhecido como Charlie Munger, que faleceu no último dia 28, aos 99 anos.

Como é John Watson para Sherlock Holmes, servindo de contraponto e "forçando" a reavaliação do protagonista sobre as próprias convicções, Munger contava com admiração intelectual de Buffett e, assim, era ouvido quando alertava que, apesar dos grandes e frequentes sucessos anteriores, é possível que seja necessário mudar o modus operandi, o jeito de fazer as coisas. Esse papel de Munger como conselheiro, quase um Oráculo do Oráculo, foi descrito pelo próprio Buffet no capítulo "Charlie me endireitou", publicado na carta anual aos acionistas da Berkshire Hathaway de 2014.

Como homenagem a Munger, transcrevo abaixo parte desse texto. Vale ressaltar antes que, por muitos anos, antes do episódio relatado abaixo, Warren Buffett teve como estratégia de investimento a busca por cigar butts, ou bitucas de charuto, que tem foco em operações de curto prazo e consiste em "apostar" em empresas subvalorizadas e em situação complicada de gestão para, em caso de boa valorização, vender com lucro. O nome vem da ideia de que essas empresas são como bitucas de charuto jogadas pela rua e, se você procurar bem, algumas ainda pode render boas baforadas.

Minha estratégia de “bituca de charuto” funcionou muito bem enquanto eu administrava pequenas quantias. Na verdade, as muitas dúzias de baforadas gratuitas que obtive na década de 1950 fizeram daquela década, de longe, a melhor da minha vida, tanto em termos relativo quanto absoluto, no desempenho dos investimentos.

[...]

Foi preciso que Charlie Munger quebrasse minha mania de “bitucas de charuto” e estabelecesse o rumo para construir um negócio que pudesse combinar tamanho enorme com lucros satisfatórios. Charlie cresceu a algumas centenas de metros de onde moro agora e como um jovem havia trabalhado, como eu, na mercearia do meu avô. No entanto, foi em 1959 que conheci Charlie, há muito depois de ele deixar Omaha para fazer de Los Angeles seu lar. Eu tinha então 28 anos e ele 35. O médico de Omaha que nos apresentou previu que nos daríamos bem - e assim foi.

Se você participou de nossas reuniões anuais, sabe que Charlie tem um brilho abrangente, uma prodigiosa memória, e algumas opiniões firmes. Eu também não sou exatamente insosso e às vezes não concordamos. Em 56 anos, no entanto, nunca tivemos uma discussão. Quando discordamos, Charlie geralmente termina a conversa dizendo: “Warren, pense bem e você concordará comigo porque você é inteligente e eu estou certo”.

O que a maioria de vocês não sabe sobre Charlie é que a arquitetura está entre suas paixões. Embora ele tenha começado sua carreira como advogado (com seu tempo cobrado a US$ 15 por hora), Charlie ganhou seu primeiro dinheiro de verdade por volta dos 30 anos projetando e construindo cinco apartamentos perto de Los Angeles. Ao mesmo tempo, ele projetou a casa que vive hoje – cerca de 55 anos depois. (Como eu, Charlie não pode ser movido se estiver feliz onde está). Recentemente, Charlie projetou grandes complexos de dormitórios em Stanford e na Universidade de Michigan e hoje, aos 91 anos, está trabalhando em outro grande projeto.

Do meu ponto de vista, porém, o feito arquitetônico mais importante de Charlie foi o desenho atual da Berkshire. O plano que ele me deu foi simples: “esqueça o que você sabe sobre comprar negócios justos por preços maravilhosos; em vez disso, compre negócios maravilhosos a preços justos”.

Mudar meu comportamento não é uma tarefa fácil (pergunte à minha família). Eu tive um sucesso razoável sem esse raciocínio de Charlie, então por que eu deveria ouvir um advogado que nunca passou um dia na escola de administração (quando – aham – eu tinha frequentado três). Mas Charlie nunca se cansava de repetir para mim suas máximas sobre negócios e investimentos, e sua lógica era irrefutável. Consequentemente, a Berkshire foi construída de acordo com o modelo de Charlie. Meu papel tem sido o de empreiteiro geral, com os CEOs das subsidiárias da Berkshire fazendo o verdadeiro trabalho como subcontratados.

O ano de 1972 foi um ponto de virada para a Berkshire (embora não sem um ocasional deslize da minha parte - lembre-se da minha compra da Waumbec em 1975). Tivemos então a oportunidade de comprar See’s Candy pela Blue Chip Stamps, uma empresa na qual Charlie, eu e a Berkshire tínhamos participação relevante e que mais tarde foi incorporada pela Berkshire.

A See's era uma lendária fabricante e varejista de chocolates embalados da Costa Oeste, que lucrava anualmente cerca de US$ 4 milhões antes de impostos, utilizando apenas US$ 8 milhões de ativos tangíveis líquidos. Além disso, a empresa tinha um enorme ativo que não aparecia no seu balanço: uma vantagem competitiva ampla e duradoura que lhe conferia um significativo poder de precificação. Era praticamente certo que essa força proporcionaria grandes ganhos em lucros à See ao longo do tempo. Melhor ainda, isso se materializaria apenas com pequenos investimentos incrementais. Em outras palavras, seria de se esperar que See’s jorrasse dinheiro nas próximas décadas.

A família que controlava a See’s queria US$ 30 milhões para o negócio, e Charlie disse com razão que valia muito a pena. Mas eu não queria pagar mais de US$ 25 milhões e não fiquei muito entusiasmado mesmo com esse valor. (Um preço que era três vezes os ativos tangíveis líquidos me fez engolir em seco). Minha cautela equivocada poderia ter afundado uma maravilhosa compra. Mas, felizmente, os vendedores decidiram aceitar a nossa oferta de US$ 25 milhões.

Até o momento, a See’s faturou US$ 1,9 bilhões antes de impostos, tendo o seu crescimento exigido um investimento adicional de apenas US$ 40 milhões. A See's conseguiu, assim, distribuir enormes somas que ajudaram a Berkshire a comprar outras empresas que, por sua vez, produziram eles próprios grandes lucros distribuíveis. (Imagine a criação de coelhos). Além disso, observando a See’s em ação, ganhei uma educação empresarial sobre o valor de marcas poderosas que abriu meus olhos para muitos outros investimentos lucrativos.

No restante do relato, Buffett descreve outros investimentos mal sucedidos na história da Berkshire Hathaway e, para encerrar o capítulo, como um epitáfio da parceria de décadas, escreve sigelamente: Escutar Charlie valeu a pena

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