Trabalhadores catarinenses estão pedindo para ser demitidos com o objetivo de sacar o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e usar o dinheiro para pagar dívidas acumuladas com apostas online.
Os relatos chegaram à Superintendência Regional do Trabalho em Santa Catarina e acenderam o alerta do órgão para os impactos das bets e de outros jogos digitais no ambiente de trabalho.
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Segundo o superintendente regional do Trabalho em Santa Catarina, Valmor de Paula, os casos não estão concentrados em uma única região. A Superintendência, em Florianópolis, tem recebido relatos de endividamento, problemas familiares e consequências no trabalho provocadas pelo uso excessivo das plataformas de apostas.
“Tem trabalhador pedindo para ser demitido para poder sacar o Fundo de Garantia e pagar dívidas. Outros estão se afastando do trabalho por conta de depressão causada pela situação criada pelo acúmulo de dívidas e pelas consequências no relacionamento familiar”, relatou.
Valmor afirma que também há trabalhadores que querem deixar o emprego para interromper o pagamento de parcelas de empréstimos consignados. “É assustador, muito, muito preocupante”, resumiu.
Ministério prepara projeto
Diante dos relatos, o Ministério do Trabalho e Emprego em Santa Catarina prepara um projeto para enfrentar os efeitos das apostas online entre os trabalhadores. A iniciativa deve reunir sindicatos, empresas e entidades representativas.
De acordo com Valmor de Paula, técnicos da Superintendência já vêm avaliando e diagnosticando a dimensão do problema. A proposta é desenvolver ações de prevenção, considerando os impactos financeiros e também as consequências nas relações familiares e profissionais.
A previsão é que o projeto seja lançado oficialmente até o fim de setembro ou nos primeiros dias de outubro.
Apostas fazem parte da rotina de 17% dos brasileiros
O alerta ocorre em um cenário de expansão das apostas online no país. Um levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) aponta que 17% da população economicamente ativa brasileira já possui algum envolvimento com apostas online.
Segundo a pesquisa, o apostador brasileiro tem, em média, 35 anos e é majoritariamente homem. Entre os entrevistados, 37% afirmam gastar R$ 100 ou mais por mês com apostas.
A busca por ganhos rápidos aparece como principal motivação, citada por 39% dos apostadores. Outros 32% apontam a diversão, enquanto 20% associam as apostas à ideia de investimento.
Busca por dinheiro rápido preocupa
O estudo também identificou diferentes perfis de apostadores. Entre eles estão pessoas que enxergam na aposta uma possibilidade de mudar rapidamente de vida e aquelas que recorrem à prática em momentos de dificuldade financeira, na tentativa de conseguir dinheiro para necessidades imediatas.
O consultor de investimentos Arthur Lessa analisou o levantamento durante o programa 60 Minutos, e chamou atenção para a associação entre apostas e investimentos.
“As pessoas deixavam de investir para apostar e muitas vezes colocando na mesma caixa mental de ‘eu não vou investir para aumentar o meu patrimônio, eu vou apostar para aumentar o patrimônio’”, explicou.
Impactos ultrapassam a vida financeira
Os relatos recebidos pela Superintendência mostram que as consequências das apostas podem ultrapassar o endividamento. Segundo o órgão, já há casos envolvendo problemas familiares, afastamentos do trabalho e sofrimento emocional.
A preocupação do Ministério do Trabalho é que esse impacto também chegue ao ambiente profissional. Por isso, a proposta em elaboração pretende envolver trabalhadores, empresas e sindicatos na criação de medidas de prevenção e orientação.
A expectativa é que o projeto seja apresentado nas próximas semanas, com ações voltadas à compreensão e ao enfrentamento dos efeitos das apostas online na vida dos trabalhadores e de suas famílias.
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