Lula foi reeleito ontem, em segundo turno, com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro.
Sobre essa eleição histórica, trago algumas considerações que vejo como relevantes.
Paradigmas quebrados
- Pela primeira vez desde a redemocratização, quem terminou o primeiro turno em segundo lugar venceu a eleição presidencial.
- Lula também se torna o primeiro presidente eleito quatro vezes pelo voto popular.
- Se cumprir o mandato, somará 16 anos no cargo, mais do que qualquer outro presidente eleito democraticamente.
- Lula completa 81 anos nesta terça-feira (27) e será o presidente mais velho a tomar posse, superando o próprio recorde de 2023.
- Lula teve 64,26 milhões de votos, a maior votação da história, superando os 60,3 milhões que ele mesmo havia recebido em 2022.
- Pela primeira vez, uma decisão judicial estendeu a votação no país inteiro, embora só nas seções que ainda estavam abertas.
- A abstenção caiu de 21,08% para 19,21% entre os turnos, a menor taxa num segundo turno desde 2006. A queda, de 1,87 ponto percentual, foi a maior entre dois turnos desde a redemocratização.
- Levando em conta a série histórica do Datafolha desde 1998, Lula também se reelegeu com a avaliação de governo mais baixa entre os presidentes reeleitos. Na última pesquisa antes do segundo turno, ele chegou a somente 36% de ótimo/bom.
Como Lula virou
Entre um turno e outro, Lula ganhou 10,4 milhões de votos, e Flávio, 3,7 milhões. Cerca de 14 milhões de votos estavam em disputa:
- 9,3 milhões de eleitores de Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e dos demais candidatos;
- cerca de 3 milhões de eleitores a mais nas urnas, com a queda da abstenção;
- cerca de 1,8 milhão de votos brancos e nulos a menos que no primeiro turno.
Lula ficou com quase três quartos desse saldo.
No mapa, a virada não veio só do Nordeste. A vantagem se deslocou 6,7 milhões de votos, de Flávio +2,2 milhões para Lula +4,4 milhões. O Nordeste respondeu por 2,6 milhões dessa mudança, e o Sudeste, por 2,9 milhões. Foi no Sudeste, aliás, que Lula mais ganhou votos: 4,8 milhões a mais que no primeiro turno.
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Região |
Lula: ganho entre os turnos |
Flávio: ganho entre os turnos |
Vantagem no 1º turno |
Vantagem no 2º turno |
|---|---|---|---|---|
|
Sudeste |
+4,80 milhões |
+1,94 milhão |
Flávio +5,66 milhões |
Flávio +2,81 milhões |
|
Nordeste |
+2,96 milhões |
+398 mil |
Lula +11,10 milhões |
Lula +13,65 milhões |
|
Sul |
+1,33 milhão |
+867 mil |
Flávio +5,04 milhões |
Flávio +4,58 milhões |
|
Centro-Oeste |
+771 mil |
+470 mil |
Flávio +2,17 milhões |
Flávio +1,87 milhão |
|
Norte |
+474 mil |
+14 mil |
Flávio +459 mil |
Lula +1.079 votos |
São Paulo foi onde Lula mais cresceu: 2,6 milhões de votos a mais que no primeiro turno. Ele perdeu no estado, mas a vantagem de Flávio caiu de 3,4 milhões para 2,0 milhões. Minas foi o único estado que trocou de lado: Flávio venceu por 589 mil votos no primeiro turno, e Lula ganhou por 109 mil no segundo.
O Norte também mudou de lado. Flávio vencia a região por 459 mil votos no primeiro turno, e Lula terminou o segundo à frente por 1.079 votos.
Lula melhorou seu percentual nas 27 unidades da federação. A maior alta foi em Goiás, estado de Caiado, onde passou de 31,06% para 40,34%. Dos municípios em que Flávio liderava, 211 passaram para Lula, e só um fez o caminho inverso.
Em Santa Catarina, Flávio teve 69,42% e venceu em 289 dos 295 municípios. Ainda assim, Lula também subiu no estado, de 25,04% para 30,58%.
O que os números agregados não mostram é o caminho de cada eleitor. Antes do segundo turno, era praticamente consensual que os eleitores dos candidatos derrotados (a chamada terceira via), no conjunto, pendiam para Flávio. Entretanto, podemos supor que a migração favoreceu Lula muito mais do que as pesquisas indicavam, ou que parte de quem votou em Flávio no primeiro turno não repetiu o voto, seja por ter se abstido, seja por ter votado em Lula. Provavelmente, as duas coisas aconteceram.
Os “erros” das pesquisas
As pesquisas erraram nos dois turnos, e em direções opostas. No primeiro, os grandes institutos mostravam Lula à frente. Na véspera, o Datafolha dava a ele 45% dos válidos, contra 42% de Flávio, que terminou em primeiro. No segundo, das 12 pesquisas divulgadas na véspera, 10 apontavam Flávio na frente. Somente duas delas, Vox Brasil e Colectta, colocavam Lula à frente. Eis alguns números das pesquisas e a distância do resultado final:
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Pesquisa (23 e 24/10) |
Lula |
Flávio |
Distância do resultado |
|---|---|---|---|
|
Vox Brasil |
50,6% |
49,4% |
1,2 ponto |
|
Colectta |
50,3% |
49,7% |
1,5 ponto |
|
BTG/Nexus |
49,5% |
50,5% |
2,3 pontos |
|
AtlasIntel/Bloomberg |
49,2% |
50,8% |
2,6 pontos |
|
Datafolha |
49% |
51% |
2,8 pontos |
|
Quaest |
49% |
51% |
2,8 pontos |
Pesquisa mede intenção num momento, não prevê resultado, e quase todas tratavam a disputa como empate técnico. Mas Datafolha, Quaest e AtlasIntel ficaram fora da própria margem de erro, e os grandes institutos erraram todos para o mesmo lado, o que sugere um problema de método.
No primeiro turno, a explicação mais citada é o voto útil. Caiado, Cury e Renan somavam 10% dos válidos no último Datafolha e terminaram com 7,3%, enquanto Flávio teve 5 pontos a mais do que o previsto.
No segundo turno, sem terceira via, o desafio era outro: saber quem iria votar. A abstenção caiu quase dois pontos, e quem voltou às urnas parece ter votado mais em Lula. O Datafolha apontava o contrário: entre os eleitores mais propensos a votar, Flávio tinha 52% a 48%.
Para Andrei Roman, CEO da AtlasIntel, Datafolha e Quaest usaram “modelos errôneos de eleitor provável”. Ele sugere ainda que os grandes institutos, sob a ameaça de uma CPI das pesquisas, tiveram “medo de subestimar Flávio Bolsonaro”. E admitiu um erro da própria Atlas.
O mecanismo da virada, curiosamente, tinha sido descrito antes da eleição. Felipe Nunes, diretor da Quaest, apontava os eleitores que votaram em branco, anularam ou se abstiveram no primeiro turno como a principal chance de Lula, como ocorreu com Dilma Rousseff em 2014. A pesquisa do instituto, no entanto, não captou esse movimento. Ainda assim, a mesma Quaest tinha apontado, na rodada divulgada em 21 de outubro, uma queda vertiginosa na rejeição de Lula, de 53% para 47% em uma semana, o que a deixou abaixo dos 52% de Flávio. Mostrou também que o medo da volta dos Bolsonaro ao poder subiu de 43% para 44% e passou a superar o temor de um novo governo Lula, que caiu de 43% para 42%.
Os desafios do quarto governo
O maior desafio de Lula será governar com um Congresso mais à direita. O PL elegeu 121 deputados e deve ter 29 senadores. A federação do PT terá 88 deputados, e o PT, 10 senadores.
- Maioria no Congresso: Lula dependerá de União Brasil (46 deputados), PSD (43), PP (41), Republicanos (41) e MDB (36), e esse apoio costuma custar cargos e emendas. No Senado, o PL fica a quatro votos dos 33 necessários para barrar sozinho uma emenda constitucional.
- Contas públicas: a dívida bruta chegou a 82,9% do PIB, mais de 10 pontos acima do início do governo, e o déficit primário está perto de 0,5% do PIB. A equipe de Lula promete um ajuste gradual de cerca de 2 pontos do PIB, menos do que analistas consideram necessário para estabilizar a dívida.
- Promessas caras: a campanha prometeu reajuste do Bolsa Família, tarifa zero no transporte municipal aos fins de semana, nova rodada do Desenrola e o Pé-de-Meia Universitário. O governo também terá de regulamentar a jornada de 40 horas semanais, aprovada em outubro.
- Juros e inflação: a Selic está em 13,75%, e a inflação de 12 meses (4,6% até setembro) segue acima do teto da meta.
- Segurança pública: a violência foi a principal preocupação do eleitor durante a campanha. A PEC da Segurança e o ministério prometidos dependem de acordo com governadores, vários deles de oposição.
- Legitimidade e STF: Lula começa o mandato com o adversário pedindo a anulação da eleição. A decisão de Zanin deve alimentar no Congresso as propostas de limitar decisões monocráticas e os pedidos de impeachment de ministros do Supremo.
- Sucessão: Lula não poderá concorrer em 2030 e terá de preparar um herdeiro enquanto governa um país dividido quase ao meio.
A reorganização do bolsonarismo e da direita
O bolsonarismo perdeu a Presidência, mas sai da eleição maior no Congresso e com quase metade do eleitorado. Os 59,8 milhões de votos de Flávio são a maior votação de um candidato derrotado na história, acima dos 58,2 milhões de Jair Bolsonaro em 2022. Somados às maiores bancadas da Câmara e do Senado, fazem do PL o centro da oposição.
Jair Bolsonaro cumpre pena de 27 anos pela tentativa de golpe, e sua saída da prisão depende de uma revisão criminal no STF, já que a reeleição de Lula afasta a hipótese de indulto. Eduardo, condenado por coação, vive nos Estados Unidos, e Michelle, que em junho acusou Flávio de maltratá-la, ficou fora da campanha dele e se elegeu senadora pelo DF. Carlos se elegeu senador por SC, e Jair Renan, Deputado Federal pelo mesmo estado.
Flávio escolheu contestar o resultado. No domingo à noite, disse ser “impossível reconhecer o resultado das eleições” e anunciou que pedirá a anulação do pleito por causa da decisão de Zanin de estender o horário de votação. A estratégia mantém a base mobilizada, mas tem pontos fracos. A própria campanha de Flávio pediu ao TSE a prorrogação da votação em municípios de cinco estados. E uma vantagem de 4,4 milhões de votos torna difícil demonstrar o prejuízo que a lei exige para anular votos.
Fora da família, quem ganha espaço é Tarcísio de Freitas. Reeleito no primeiro turno em São Paulo, ele passa a ser visto como o candidato natural da direita em 2030. Atrás dele vem uma geração mais jovem, como Nikolas Ferreira, o deputado mais votado do país, que só poderá concorrer à Presidência em 2034.
A direita terá de escolher entre dois caminhos. Um é o da contestação, que repete 2022 e mantém o sobrenome Bolsonaro no centro, mesmo após duas derrotas seguidas. O outro é o de uma oposição institucional, que aposta no peso conquistado no Congresso e nos estados, e aí o protagonismo da família Bolsonaro será colocado em xeque.
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