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Selic na marra? Consultores alertam para dólar alto e volta da inflação

Proposta de André Lara Resende levaria juro para 5,5% e consultores veem risco de dólar alto

Por José Demathé Criciúma, SC, 04/11/2026 - 16:30 Atualizado há meio minuto
Arthur Lessa e Guilherme Barbosa, da API Capital, no quadro Invista-se | Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil/4oito
Arthur Lessa e Guilherme Barbosa, da API Capital, no quadro Invista-se | Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil/4oito

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Derrubar a Selic na marra, sem que a inflação ceda antes, poderia fazer o dólar disparar, encarecer os juros de longo prazo e trazer o descontrole da inflação. Essa é a avaliação dos consultores de investimentos Arthur Lessa e Guilherme Barbosa, da API Capital, no quadro Invista-se do programa 60 Minutos, da Rádio Som Maior.

O debate ganhou força depois da eleição, com a repercussão de um texto publicado em setembro pelo economista André Lara Resende, um dos pais do Plano Real. Ele propõe baixar a Selic dos atuais 13,75% para 7,5% ao ano em 12 meses. Depois disso, a taxa ficaria numa faixa entre a meta de inflação, de 3%, e o crescimento nominal da economia, estimado em 5,5%.

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O ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou que a proposta esteja em discussão no governo e disse que ela tem “várias deficiências”. O Comitê de Política Monetária (Copom) anuncia nesta quarta-feira (4) a nova decisão sobre os juros.

Dólar e juros longos subiriam

Para Barbosa, o problema é que o Banco Central controla só os juros de curto prazo. Os juros de longo prazo dependem do mercado, que reagiria com desconfiança. “Vou baixar a taxa de juros curto, que é o que está mais na mão do Banco Central, na marretada. Amanhã é 7%. Muito provavelmente o juro longo vai empinar, porque esse está na mão do mercado, e aí vai ter uma grande desconfiança. E muito provavelmente o dólar vai disparar.”

O consultor lembra que a economia não tem laboratório para testar hipóteses como a química e a física, porque depende do comportamento das pessoas. Sem como testar a ideia antes, ele acredita que a proposta não daria certo.

Remédio sem tratar a febre

Arthur Lessa compara a Selic a um remédio e a inflação à febre. Hoje, o Banco Central aumenta ou diminui a dose conforme a febre sobe ou cede. A proposta de Lara Resende fixaria a dose independentemente da febre.

“Quando tu baixa o remédio, a febre dispara. Diz o Lara Resende que é um repique, mas também não diz de quanto tempo é o repique. É um repique de um ano? É um repique de dez anos? É um repique que não volta?”, questiona.

Consultores avaliaram a proposta de cortar a Selic para 5,5% ao ano | Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil/4oito

Segundo ele, falta no texto a discussão sobre a causa da inflação, que envolve as contas públicas, a confiança no país, o dólar e os juros no exterior. Lessa cita o economista John Cochrane, autor da teoria usada como base por Lara Resende. Em resposta ao texto, Cochrane escreveu que a ideia só funciona se as pessoas confiarem que o governo vai usar o dinheiro economizado com juros para pagar a dívida.

“Os últimos governos que a gente viu não pensaram duas vezes de tomar medidas que gastavam dinheiro ou deixavam de arrecadar, por conta de medidas mais populistas, às vezes pré-campanha”, destaca.

Juros da dívida estão no centro do debate

O argumento de Lara Resende é que o peso das contas públicas está nos juros. No texto, ele aponta que a dívida federal custa em média 12,63% ao ano, enquanto a economia cresce cerca de 7% ao ano em termos nominais. Pelos dados mais recentes do Banco Central, o déficit primário do setor público, que não conta os juros, foi de 0,52% do Produto Interno Bruto (PIB) nos 12 meses até setembro. Com os juros, o déficit sobe para 9,51% do PIB.

“A tua renda cresce 7% ao ano e a tua dívida cresce 13%. Não precisa ser um gênio para perceber que esse negócio é explosivo”, resumiu Barbosa.

Meta de inflação pode estar irreal

Os dois consultores concordam que o debate tem um lado positivo, que é rediscutir a meta de inflação. Para Barbosa, a meta de 3% foi definida num mundo sem pandemia, sem a guerra entre Rússia e Ucrânia e sem os conflitos que hoje pressionam os preços. “Uma meta que você não bate é uma meta? Uma meta que você não está nem perto de bater é uma meta? Uma meta irrealista deixa de ser perseguida.”

Quadro Invista-se vai ao ar às quartas-feiras no programa 60 Minutos | Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil/4oito 

Lessa lembra que a meta foi de 4,5% entre 2005 e 2018, período que inclui o crescimento forte do país no começo dos anos 2000. A partir de 2019, caiu 0,25 ponto por ano até chegar a 3% em 2024, sem pausa nem durante a pandemia. Mesmo assim, ele não vê o corte forçado como saída. “Também não é puxar a Selic na força. É de novo puxar a ponta errada do cadarço.”

Cartão não ficaria mais barato na hora

Respondendo a uma ouvinte, Lessa explicou que uma queda brusca da Selic não baratearia o cartão de crédito de imediato. Os juros do cartão, cobrados só de quem atrasa a fatura, dependem mais do risco do empréstimo sem garantia do que da taxa básica.

No financiamento imobiliário, a redução também não vem sozinha. Lessa conta que, em 2020, conseguiu baixar os juros do financiamento da casa de mais de 11% para 8% ao ano depois de apresentar ao banco a proposta de um concorrente. Nas empresas, o efeito seria mais rápido, porque a maior parte das dívidas acompanha o CDI, que cai junto com a Selic. Com menos gasto com juros, sobra dinheiro para investir e contratar.

Confisco da poupança é boato

Os consultores também desmentiram boatos nas redes sociais de que haveria um novo confisco da poupança. Os rumores voltaram porque Lara Resende é apontado como autor da ideia do Plano Collor, o que ele nega. Segundo Lessa, não há nenhuma informação confiável sobre o tema, e hoje não existe brecha jurídica para isso.

Barbosa acrescenta que o país não vive hiperinflação, como em 1990, e que a dívida brasileira hoje é quase toda em reais. “Existe muito vendedor de susto na internet.”

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