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Câncer de pulmão: o que a cirurgia do Papa nos ensina sobre o diagnóstico precoce

Por Dr. Renato Matos 29/10/2026 - 18:04 Atualizado há quase um minuto
Câncer de pulmão: o que a cirurgia do Papa nos ensina sobre o diagnóstico precoce

Em outubro, o Papa Leão XIV passou por uma cirurgia para retirar um nódulo pulmonar descoberto em fase inicial durante exames recentes. A análise confirmou um adenocarcinoma, o tipo mais comum de câncer de pulmão. Como a lesão estava localizada, foi possível retirar apenas o lobo inferior do pulmão direito por videotoracoscopia, uma técnica minimamente invasiva. Quatro dias depois, ele recebeu alta.

O caso mostra bem por que o diagnóstico precoce importa. Encontrar o câncer antes dos sintomas aumenta as chances de tratamento curativo, com cirurgias menores e recuperação mais rápida.

Por que o diagnóstico precoce faz tanta diferença

O câncer de pulmão costuma ser silencioso no início. Quando aparecem tosse persistente, falta de ar, dor no peito ou escarro com sangue, a doença muitas vezes já está avançada.

Nos Estados Unidos, apenas cerca de 28% dos casos são diagnosticados em estágio localizado. Nesses pacientes, a sobrevida em cinco anos chega perto de 65%. Quando já há metástases à distância, ela cai para cerca de 10%.

O tabagismo responde por 80% a 85% dos casos, mas entre 10% e 20% acontecem em pessoas que nunca fumaram. Outros fatores também aumentam o risco: fumo passivo, poluição, radônio, fatores genéticos e exposições no trabalho. Entre elas estão o amianto e a sílica, presente na mineração de carvão, tão ligada à história de Criciúma e do sul catarinense. Por isso, sintomas respiratórios persistentes merecem avaliação em qualquer pessoa, fumante ou não.

Quem deve fazer o rastreamento com tomografia de baixa dose?

A recomendação da força-tarefa americana (USPSTF, 2021) é uma das mais usadas. Ela indica rastreamento anual para pessoas entre 50 e 80 anos, fumantes ou ex-fumantes, com pelo menos 20 maços-ano. Isso equivale, por exemplo, a um maço por dia durante 20 anos, ou dois maços por dia durante 10 anos.

Para ex-fumantes, a USPSTF mantém o limite de até 15 anos sem fumar. A American Cancer Society retirou essa restrição em 2023, porque o risco continua elevado mesmo depois de muitos anos sem cigarro.

O exame indicado é a tomografia de tórax de baixa dose, que usa bem menos radiação que a tomografia convencional. Nos estudos NLST e NELSON, ela reduziu a mortalidade por câncer de pulmão em 20% a 24%. A radiografia simples não serve para esse fim: identifica mal os nódulos pequenos e não reduziu a mortalidade nos estudos. Uma radiografia normal não substitui a tomografia.

No Brasil, ainda não existe um programa organizado de rastreamento no SUS. Por isso, a indicação deve ser discutida individualmente com o médico. Para quem nunca fumou, não há recomendação de rastreamento de rotina, e situações especiais são avaliadas caso a caso.

Um ponto essencial: o rastreamento não substitui parar de fumar, que continua sendo a forma mais eficaz de reduzir o risco.

Nódulo pulmonar: nem todo achado é câncer

A maioria dos nódulos encontrados nas tomografias é benigna. No estudo NLST, cerca de 96% dos exames positivos não eram câncer.

A avaliação considera tamanho, densidade, contornos e localização do nódulo. Considera também, principalmente, a comparação com exames anteriores, que mostra se ele está estável ou crescendo. Critérios bem estabelecidos, como o Lung-RADS e as recomendações da Fleischner Society, ajudam a decidir quais nódulos precisam só de acompanhamento e quais exigem investigação.

Por isso, interpretar bem a tomografia é tão importante quanto fazê-la. Quando o rastreamento é conduzido por profissionais experientes, de preferência em programas estruturados, evitam-se exames repetidos, biópsias e até cirurgias desnecessárias. O objetivo não é encontrar nódulos, e sim identificar cedo os cânceres que precisam de tratamento, com o menor risco possível para você.

Se você tem entre 50 e 80 anos e fuma ou já fumou, converse com um pneumologista sobre o rastreamento.

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