Pescadores catarinenses estão surpresos e revoltados com o encerramento da safra da tainha na modalidade arrasto de praia, técnica artesanal e tradicional no litoral de Santa Catarina. Neste ano, eles comemoravam uma supersafra e tinham a expectativa de realizar a melhor temporada dos últimos 50 anos.
O fim foi comunicado pelo Ministério da Pesca e Aquicultura nesse domingo (7), após a cota coletiva atingir 90% do limite autorizado para a temporada 2026. A medida, de caráter preventiva, está respaldada na Portaria Interministerial nº 51, de 27 de fevereiro de 2026, que fixou em 8.168 toneladas o limite máximo de captura para as regiões Sul e Sudeste do Brasil, um aumento de cerca de 20% em relação ao ano anterior.
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Em nota, o ministério informou que a decisão foi adotada com base nos dados de produção consolidados a partir das Declarações de Entrada de Tainha em Empresas Pesqueiras, registrada no Painel de Monitoramento da Temporada de Pesca da Tainha.
Apesar do incremento, pescadores da região entre Laguna e Passo de Torres afirmam que foram prejudicados pela medida. Adir Ivo Ramos, presidente do SindPesca (Sindicato dos Pescadores de Balneário Gaivota), diz que os pescadores estão indignados com a notícia.
“Estamos sem palavras. Estamos praticamente paralisados. Isso nos atingiu em cheio. Foi uma notícia muito ruim para nós, pescadores. Estávamos certos de que continuaríamos pescando, tem bastante peixe, mas com uma notícia dessas estamos sem palavras”, lamentou.
Super safra da tainha ficou pela metade
Desde o início da safra, em 1º de maio, as três parelhas das quais seu Adir participa capturaram 56 toneladas de tainha. A expectativa era chegar a 100 toneladas e, com isso, cobrir os custos e comemorar números superiores aos obtidos nos últimos anos. O preço médio do quilo comercializado pelos pescadores ficou entre R 9,50.
O presidente do sindicato justifica que as maiores capturas da temporada estiveram concentradas na região entre Imbituba e Florianópolis, enquanto ao sul há pescadores que nem “molharam as redes”. Adir explica que entre Laguna e Passo de Torres há uma dependência maior das condições marítimas e climáticas.
“A gente não matou um peixe exagerado igual a Florianópolis e Imbituba. Lá eles mataram muito porque pescam de outro jeito, com rede de milhão e picaré, então é complicado. Não é igual a nós, que dependemos muito do mar. De repente dá um vento sul e não conseguimos pescar. Eles pescam naquelas enseadas das pedras e lá o mar nunca fica ruim. Inventaram essa cota e agora o peixe vai ficar aqui e nós não vamos poder pegar”, reclama.
Centenas de famílias prejudicadas
Seu Adir afirma que na região de Laguna a Passo de Torres são 36 parelhas de canoa, que mobilizam cerca de 20 pessoas cada, ou seja, centenas de famílias foram afetadas somente no Sul.
Somando colônia de pescadores e sindicato, são cerca de 600 pescadores filiados só em Balneário Gaivota, todos participantes da safra. A suspensão também cancela a “safrinha” de verão, que vai até dezembro.
“Isso prejudicou quantas famílias na nossa região? Ficou muito ruim mesmo. Mandaram a gente recolher as canoas e, se pegarem na praia, mesmo sem pescar, vão apreender e multar. Santa Catarina e o Rio Grande do Sul estão ficando sem nada para o pescador. A nossa pesca pede socorro”, lamenta.
Pesca “saudável” e artesanal
A medida comunicada determina que as embarcações de arrasto de praia que estiverem em atividade de pesca no mar deverão realizar o último desembarque de tainha em até 24 horas após o encerramento da captura, contadas da publicação do comunicado no site oficial do ministério, ou seja, até às 15h26 desta segunda-feira.
“Após esse período, os pescadores e as pescadoras poderão retomar a atividade pesqueira para a captura das demais espécies previstas na respectiva modalidade de permissionamento, conforme disposto na Instrução Normativa Interministerial MPA/MMA nº 10, de 10 de junho de 2011”, estabelece o ministério.
O pescador sustenta que em suas equipes a pesca é realizada de forma totalmente artesanal e sustentável. Nem mesmo drones são usados para localizar os cardumes. A pesca com malha grossa, de 12 a 13 centímetros, é outro diferencial apontado por ele.
“Temos olheiros em cima do caminhão e quem olha o peixe é o olheiro. O peixe miúdo fica na água, a gente não pega o peixe miúdo. Tainha tem muita no mar, muita mesmo. Não está em extinção. Esses caras que estão fazendo essas pesquisas são tudo gente que não sabe nada de pesca e fazem leis que só prejudicam quem trabalha”, reclama.
Protesto e pedido formal ao ministério
Nesta segunda-feira (8), uma reunião está marcada às 9 horas para definir como serão as manifestações direcionadas formalmente ao Ministério da Pesca e Aquicultura, com pedido de liberação da pesca para a região sul de Santa Catarina.
As entidades representativas já contam com suporte jurídico para embasar o pedido e não está descartada a sugestão de ampliação da cota. Os pescadores ainda devem discutir a realização de uma manifestação pública, possivelmente em Jaguaruna ou Laguna.
“Vamos fazer uma manifestação bem forte. Está faltando os nossos governantes fazerem alguma coisa. Só falam, mas ninguém faz nada. Eles têm que fazer alguma coisa por nós”, argumenta.
O ministério determina ainda que as empresas pesqueiras reportem ao governo a quantidade de pescado retirada do mar.
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