Há pouco mais de um século, em janeiro de 1919, no contexto da Revolução Alemã, Max Weber (1864-1920), um intelectual, jurista e economista alemão, considerado um dos fundadores da Sociologia, subiu a uma tribuna em Munique para falar a estudantes sobre a "política como vocação". Do discurso saiu uma distinção conceitual interessante: há uma ética da convicção, de quem se entrega a uma causa e compreende o mundo a partir dela; e uma ética da responsabilidade, de quem não se pergunta apenas se o ato é justo, mas também pelo que ele provavelmente vai provocar. O político, sob essa perspectiva, vive dessa tensão, precisa da paixão de quem acredita e da frieza de quem enxerga as coisas como são.
Em outra conferência célebre, sobre a "ciência como vocação", Weber advertia que a tarefa de quem analisa não é ser um profeta ou demagogo, e sim oferecer clareza. Se pudermos aplicar esses raciocínios à leitura das eleições, a lição se torna ainda mais exigente, isto é, não cabe àquele que trata da política como ciência dizer em quem se deve votar, nem comemorar ou lamentar um resultado; cabe, isto sim, distinguir o que um número diz do que ele apenas parece dizer, devolvendo ao leitor as perguntas na forma mais honesta possível.
É por isso que a ciência política não se confunde com a crônica política, por mais que uma se alimente da outra. A crônica narra o episódio, a declaração de ontem, a briga da semana, quem subiu e quem caiu. A ciência política pergunta o que, naquele episódio, é passageiro e o que é estrutural. Nesta coluna, ficamos com a ciência política.
Duas pesquisas saíram nos últimos dias e servem bem ao exercício aqui proposto.
Na quarta-feira da semana passada (15/07), a Genial/Quaest divulgou seu último levantamento nacional, com 2.004 entrevistas presenciais realizadas entre 10 e 13 de julho e margem de erro de dois pontos. Lula (PT) lidera o primeiro turno e vence todos os cenários de segundo turno. Em relação a quatro desses cenários de segundo turno, contra quatro adversários distintos — Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (NOVO) e Renan Santos (MISSÃO) —, Lula aparece com exatamente o mesmo número: 45%. O que muda de cenário para cenário é apenas o tamanho do adversário (de 33% a 37%) e a fatia que sobra em branco, nulo ou indecisão (de 14% a 18%).
Esses dados podem significar que a disputa de segundo turno, hoje, não é tanto uma escolha entre dois candidatos quanto um julgamento sobre um só. O teto e o piso de Lula estão fixados por aquilo que os eleitores já conhecem dele. A tarefa do adversário, nesse quadro, aparenta ser conseguir reunir sob a bandeira do "antipetismo"/"antilulismo" o eleitorado que rejeita o presidente. É o que a literatura da ciência política tende a chamar de "voto retrospectivo", ou seja, quando há um incumbente forte, o eleitorado tende a transformar a eleição num sim ou não ao governo.
A Quaest também perguntou o que dá mais medo: a reeleição de Lula ou a volta dos Bolsonaro. A volta dos Bolsonaro assusta 46%; a reeleição de Lula, 38%. Em março, havia quase um empate (43% a 42%); de lá para cá, o medo dos Bolsonaro abriu vantagem. Repare em um detalhe, caro leitor: o campo que mais teme os Bolsonaro é maior do que o que mais teme Lula, praticamente na mesma proporção em que Lula abre vantagem no segundo turno contra Flávio (45% a 37%). A eleição de 2026, ao menos por ora, segue o caminho de quem assusta menos o eleitor, e não o das qualidades/inspirações que os candidatos hipoteticamente transmitem.
Há ainda um enigma que vale a pena expor, porque desmente uma intuição comum. Pela primeira vez em treze meses, a aprovação de Lula superou a desaprovação: 48% a 47%. O enigma é que ela acontece enquanto 43% dos brasileiros ainda dizem que a economia, possivelmente um dos indicadores mais relevantes levados em conta pelos eleitores comuns quando decidem o voto, piorou nos últimos doze meses, contra apenas 20% que acham que melhorou. Como se aprova mais um governo cuja economia a maioria julga pior? Um terço dos entrevistados (32%) diz ter sido diretamente beneficiado pela isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais. Assim, a percepção difusa do eleitor comum sobre "a economia", quando confrontada com benefícios concretos e localizados, cede diante deles; a gratidão real que esses benefícios produzem é suficiente para melhorar a aprovação.
Em Santa Catarina, o IPC, contratado pela Associação Catarinense de Jornais (ACJ), trouxe governo e Senado no mesmo campo (9 a 13 de julho, 1.050 entrevistas presenciais, margem de três pontos), mas soltou os números em dias diferentes. Para o governo, a fotografia é nítida: em cenário de primeiro turno, Jorginho Mello (PL) lidera com folga, 53,3% na estimulada, contra 26,2% de João Rodrigues (PSD), seu principal adversário. A novidade da série recente é o crescimento de João Rodrigues como polo de oposição ao governador.
O que merece mais atenção, para mim, nessa pesquisa, é o Senado. Em 2026, cada eleitor catarinense votará em dois nomes para o Senado. Esse fato altera a análise dos números, e a pesquisa do IPC permite ver o porquê, se olharmos a diferença entre o primeiro e o segundo voto: Carlos Bolsonaro (PL) é a primeira escolha de 27,4%, mas despenca para 11,1% no segundo voto; Caroline de Toni (PL) é apenas a quarta colocada no primeiro voto (14,4%), disparando para a liderança isolada no segundo (24,6%); Esperidião Amin (PP) é o mais equilibrado dos três (17,8% no primeiro voto e 16,3% no segundo voto). No fim das contas, a soma do primeiro e do segundo votos quase coloca os três em um empate técnico, com Décio Lima (PT) e Antídio Lunelli (MDB) correndo por fora.
Uma análise possível sobre a corrida para o Senado em Santa Catarina: o PL tem dois candidatos competitivos e parece só conseguir as duas vagas se convencer o próprio eleitor a usar os dois votos em seus dois nomes. O risco está no comportamento provável do eleitor bolsonarista: se ele der o primeiro voto a Carlos e, no segundo, não repetir na legenda, o PL desperdiça parte de sua força e pode perder a segunda vaga. Amin (PP) é quem mais tende a se beneficiar dessa dispersão, por ser forte no segundo voto e disputar o mesmo campo de direita, mas, num quadro em que os três primeiros colocados quase empatam e Décio Lima ronda os 30%, a vaga que escapa ao PL não está necessariamente destinada a um único adversário.
De Brasília a Florianópolis, as duas pesquisas contam uma história parecida: o eleitor decide por razões próprias (medo, gratidão, cálculo individual do voto etc.) e é da soma dessas razões, nem sempre coerente, que emerge o resultado.
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