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O poder do LUTO em nossas vidas

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 24/09/2018 - 16:32Atualizado em 24/09/2018 - 17:02

Para muitos  o luto é tragicômico.

Mas não precisa ser assim.

Isso só acontece quando nos descuidamos, quando subestimamos seu poder.

O luto dói porque é um processo onde a mudança é explícita.

Não há como negar, como disfarçar, nem como fugir dela.

O luto, comumente associado a MORTE é, na verdade, o processo de VIDA mais intenso pelo qual alguém pode passar.

O luto é o aprendizado vital de que nada permanece, tudo muda, inclusive o quê ou quem você mais ama nessa vida.

No dia a dia a gente finge que não vê. Finge que não sabe disso. 

Podemos passar anos convivendo com algo ou alguém que não é mais o que era e podemos seguir acreditando que tudo continua igual.

No luto não.

A ausência de quem partiu impõe o reconhecimento da mudança e transforma tudo e todos ao redor.

É como se retirassem toda a mobília de sua casa, deixando só as paredes, sem sua permissão. 

Você terá que começar de novo. 

Terá que repensar prioridades.

Terá que refletir se a máquina de lavar louça era realmente necessária. 

Se as paredes terão quadros desta vez. 

Se os móveis serão sob medida. 

Você terá, inclusive, que analisar considerando suas condições, se pode começar a mobiliar novamente agora ou se precisará viver um tempo com todo o espaço vazio ao seu redor.

E mesmo que você decida repor tudo exatamente do jeito que era imediatamente, você descobre que nada, nunca mais será como antes.

E quando a pessoa que morreu é alguem da sua família, alguem que você ama muito?

Se foi seu pai que morreu, você estranhará sua mãe. 

Se foi sua mãe, estranhará seu pai. 

Se foi seu filho, estranhará a si mesmo.

Seus irmãos se tornarão estranhamente humanos, algo para além de apenas seus irmãos.

Seus primos  lhe parecerão inalcançáveis. 

Seu namorado/marido não caberá mais no  papel de salvador.

Seus filhos ou sobrinhos crescerão e você tentará acompanhar mas será como  tentar acompanhar o movimento de uma montanha russa.

Você ficara tonto e confuso e, as vezes, sem forças.

Você se agarrará aos que ficaram e, sem que perceba, criará a expectativa de que sejam sua âncora de vida agora.

Então, ao menor movimento deles indicando mudanças, você se desespera. 

Como e porque motivo aconteceria de novo? 

Por que algo ou alguém ousaria sair da inercia agora?

Você não pode acompanhar, não suporta mais mudanças. 

Quer que a vida pare de girar tão rapidamente. 

Quer descer do carrossel. Não quer mais brincar!...

Mas, para quem quer aprender, o luto é o ensinamento mais profundo sobre o agora. 

Sobre a eternidade de um momento.

Você aprende que nada é. Tudo está. 

E você só supera o luto quando aprende que esse exato momento já não está mais.

 

A comédia do luto é querer assumir como suas, as características que são exclusivamente dele.

Você insiste em dizer: 

- Essa sou eu. Sempre tive dificuldade para dormir. Sempre gostei de ficar só.  Eu sempre esperei que nada mudasse.  Eu sou assim...

Mas era o seu orgulho que falava por você. 

É difícil admitir o quanto está doendo.

Admita o luto e ele quebra seu orgulho.

Nada é você. Você é nada. Você apenas está.

E, agora, está tentando compreender e aceitar seu papel na nova constituição familiar.

Está tentando se readaptar.

Está vivendo como se nada demais tivesse acontecido mas, o intervalo entre um riso e outro, parece não ter fim. 

E você não consegue, por mais que se esforce, costurar um momento ou um dia de sorriso no outro, as vezes, tão distante. 

Então você se sente uma farsa porque no sábado você sorriu e até gargalhou e, na segunda, você não tinha forças pra sair de sua cama.

Quem é você afinal? Aquela que ri, sorri e até gargalha? Ou aquela que não consegue levantar?

 

Na teoria o luto parece simples, calmo e até linear. 

Ouviu dizer que passaria por fases intituladas de negação, barganha, raiva, negociação e aceitação. 

Um período de vida instável porém previsível, com a aprovação de todos ao seu redor. 

Mais do que isso, com o carinho, a acolhida, o ombro amigo, o colo das pessoas que você quer bem. 

Talvez, alguém querido até chegasse em algum momento e lhe dissesse:

- Já chega! Vamos lá! Levanta! Vou te tirar de casa. Vamos caminhar, ver a vida lá fora. Reencontrar as belezas da vida e enxergar os milagres do amanhecer, do entardecer  e do anoitecer...
E o salvasse.

Mas não é assim que é.

O luto não tem começo, não tem meio e, se você descuidar, não terá fim.

E ele não é feito só de tristeza, 

Você não se torna um santo ou mártir, ao contrario, toda a sua fragilidade humana fica exacerbada e exposta. 

E você se magoa com tudo e todos porque torna tudo e todos seus devedores.

A vida lhe traiu, levou o que lhe era precioso e sagrado.

E você exige ser tratado com respeito por todos agora.

A sua posição é a de vitima e você acha legítimo estar nessa posição.

Até você aceitar que não é vitima de nada, afastará amigos, oportunidades de trabalho e todas as situações de vida que lhe trazem alegria genuína.

 

Querido leitor, no luto,  precisamos de alguém para nos lembrar que estas, talvez, fossem realmente características nossas mas que todas elas ficam acentuadas pela dor do luto.

Precisamos de alguém para nos lembrar que não podemos assumir o lugar de quem morreu, porque - Deus! - nunca ninguém no mundo poderá.

Precisamos de alguém para nos lembrar que não podemos evitar que as pessoas que amamos passem pelo que estão passando.

Precisamos de alguém para nos lembrar que cada pessoa que amamos viverá o luto à sua maneira e que é egoísmo nosso querer que seja diferente, só porque nós gostariamos que fosse.

Precisamos de alguém para nos  fazer entender que ainda dói e que se não pedirmos ajuda ninguém saberá que está doendo e portanto ninguém poderá nos ajudar.

Eu, psicóloga, precisei procurar outra psicóloga para compartilhar com ela todas aquelas duvidas em relação a Deus, céu, universo, vida após morte, galáxias, buracos negros, 'de onde viemos e para onde vamos' e blá, blá blá... dúvidas que assombram que está de luto.

Eu precisei ir até ela para pedir-lhe que me dissesse o que acontece depois que os nossos olhos fecham pela ultima vez. 

Hoje eu lhe diria:

-  Desculpe o pedido absurdo cara colega. E obrigada por não saber.  Obrigada, sobretudo, por lembrar-me que ninguém sabe. E fazer-me lembrar que FÉ é seguir vivendo, a despeito disso.

Querido leitor, desejo que você, no seu processo de luto, saiba reconhecer a hora de bucar ajuda. E desejo ainda mais  que a pessoa a quem você recorrer saiba conduzi-lo pelos caminhos da aceitação ajudando-o a reconhecer a tragicomédia do luto:  que a nossa insistência, beirando a loucura, em procurar respostas para perguntas que não temos, é apenas o nosso coração saudoso, ansiando por notícias do lado de lá.

4oito

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