Ir para o Conteúdo da página Ir para o Menu da página
Carregando Dados...

Considerações sobre a Inveja

Grayce Guglielmi Balod
Por Grayce Guglielmi Balod 02/08/2018 - 18:10Atualizado em 02/08/2018 - 18:20

Se todos os sentimentos são humanos, só não os sente quem não é.

Todo mundo sente. 

A intensidade com que sentimos é que pode variar - e muito - de pessoa para pessoa.

Há uma frase que se popularizou na internet e que diz mais ou menos assim: "Não tenho medo de pessoas invejosas, tenho nojo."

Nas primeiras vezes em que me deparei com esta frase fiquei pensando; como pode alguém se orgulhar por sentir nojo de pessoas porque estas sentem o que ela não sente? Ainda que estivesse fazendo referência ao fato de que não sente medo de pessoas invejosas, como pode alguém alardear com orgulho que sente nojo?   

Com o tempo, ao me deparar com a frase, já não era isto que eu pensava. Passei a me questionar: Como alguém se amedrontaria ou teria ojeriza a pessoas portadoras de um sentimento que ela desconhece ou que nunca experimentou na sua condição humana?

Sinceramente, respeito todos os sentimentos. Como disse o filósofo Publio Terencio, "nada do que é humano me é estranho". Não quero dizer com isso que sentimentos que causam mal a nós mesmos ou a outros devam ser cultivados ou alimentados. Não acho que a mágoa, a raiva, o ciúme, a inveja devam receber consideração especial. Mas também não creio que devam ser negados pois, quase sempre, dizem algo de nós para nós mesmos.

Somos parte de uma sociedade extremamente competitiva. Desde criança somos comparados. E sempre haverá alguém que é mais ou melhor do que nós em alguma coisa. Isto pode aparecer de forma objetiva - como por exemplo, o amigo que é mais alto e tem melhor desempenho no basquete - ou de forma subjetiva - quando por exemplo achamos que alguém é mais bonito ou melhor do que nós em tudo o que faz.

Nossas escolas fazem questão de divulgar o nome de seu aluno primeiro colocado no vestibular. Empresas divulgam nome e foto do funcionário destaque. A ditadura da beleza estabeleceu quem são os mais bonitos. A moda determina os mais bem vestidos. Até o que era para ser investimento em qualidade de vida virou uma disputa de quem é o mais magro, quem é campeão nos esportes ou quem se alimenta melhor. Nós somos preparados para invejar pois estabeleceu-se um padrão, todos devem querer as mesmas coisas. 

Há tanto mito em torno dos sentimentos que alguns sentem inveja de quem, supostamente, não tem inveja. E alguns acreditam piamente que não experimentam os chamados 'sentimentos inferiores'. Obviamente, numa sociedade assim, quando se está  numa condição favorável é possível que a pessoa não tenha olhos para seus próprios 'sentimentos inferiores' ou, até mesmo, que tais sentimentos não se manifestem com frequência. Mas em condições desfavoráveis é comum as pessoas  passarem a olhar para o que não tem ou não conseguem alcançar. A partir daí, facilmente, enxergam o que os outros tem e alcançam. Se neste momento sua autoeficácia não estiver suficientemente forte, podem sentir inveja. Não é o fim do mundo. Ela fará mais mal a quem sente do que a qualquer outra pessoa. A menos, é claro, que a pessoa canalize seus esforços para destruir o que o outro construiu. Mas aí é outra história.

Se somos capazes de amar também somos capazes de odiar. Na mesma intensidade que desejamos algo ou alguém, sentimos ciúmes. Se criamos expectativas nos relacionamentos, nos magoamos. Todas as pessoas que podem nos despertar sentimentos de profunda alegria, também podem nos deixar com raiva. Admiramos as pessoas quando estamos de bem com a vida e com nós mesmos na medida em que as invejamos quando nos sentimos mal.

O que fazemos com estes sentimentos é o que nos diferencia uns dos outros!

Quando prestamos atenção em nossos sentimentos temos a oportunidade de nos conhecer melhor. Este é um primeiro e importante passo para nos ajudarmos. 

E não há nada melhor para afugentar 'sentimentos inferiores' do que saber que podemos contar com nós mesmos.

4oito

Deixe seu comentário