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Vida e morte de José Balsini, o Juca Balsini

Henrique Packter
Por Henrique Packter 13/09/2021 - 08:02Atualizado em 13/09/2021 - 08:03

BORIS chegou a Criciúma dias após o falecimento do médico JOSÉ (JUCA) TARQUÍNIO BALSINI, nascido a 7.9.1905 em Joinville, filho de Tarquínio e Lúcia Moro Balsini. Casado com Carmem Mattos Balsini, JUCA foi pai de três filhos: o engenheiro Claudio (casado com Vera Regina Kastrup), o advogado Clóvis (casado com Maria Helena Luz) e Sônia (casada com o advogado tubaronense Adhemar Paladini Ghisi, muitas vezes deputado federal por SC, depois Ministro e Presidente do Tribunal de Contas da União). Clovis e Adhemar são falecidos.

BALSINI, cidadão honorário de Criciúma em 11.9.1961, foi diretor-clínico do HSJ, da sua criação em 1936 até 13.2.1966, data de seu falecimento.

1965 é a data de formatura de BORIS, na Faculdade Federal de Medicina de Santa Maria. Esta faculdade federal também formou Júlio Manfredini, Portiuncola Caesar Augustus Gorini, a anestesista Mari Sandra de Brito Petry e Gervani Bittencourt Bueno, diretor da CRIOX, Medicina Hiperbárica e Tratamento de Feridas. Martinho Ghizzo, de Araranguá, também lá se formou, entre outros.
BALSINI era médico dotado de raro senso prático e operava com rara habilidade. Na minha chegada à cidade (1960), DIFTERIA grassava na região, colhendo elevado tributo em vidas, mormente de crianças. Balsini ensinava: há dois tipos de difteria a branca e a azul. Na azul, a criança está morrendo por asfixia. Dê soro e faça uma traqueostomia. Na branca, a criança está profundamente  intoxicada, em toxemia, não adianta fazer nada.

Chegando OLAVO DE ASSIS SARTORI, a cidade se resumia a casario de pé direito insignificante, espremida entre a Estação de Estrada de Ferro (onde está o Buraco do Prefeito), e o HSJ. Do lado de lá dos trilhos havia o Cemitério, onde hoje está o SUPERMERCADO BISTEK, e, pouca coisa mais. Chegando Sartori, Balsini dividiu a cidade quase salomonicamente em duas freguesias: os chamados para atendimento médico pra lá dos trilhos, eram de Sartori, os restantes, eram de Balsini...

Coube a Balsini operar de apendicite o magérrimo Raimundo Jorge Peres. Convalescente, Peres decide descansar alguns dias em Uberaba, MG, sua cidade natal. Foi e voltou acompanhado do irmão gêmeo de quem ninguém suspeitava a existência. Mas, o irmão, ao contrário de Peres, era gordíssimo. Resolvem divertir-se às custas de Balsini que costumava gaguejar quando colocado em situação embaraçosa. Pois foi o que aconteceu quando Balsini vê entrar em seu consultório no HSJ um estranhíssimo personagem, que a exemplo do antes obeso Roberto Jefferson, só viajava de avião se adquirisse duas passagens, dois assentos contíguos.

- Me-eu Deus! C-a-a-alma... Devagar, s-s-senta aí, Peres...

JOSÉ BALSINI, contemporâneo de Sílvio Ferraro, primeiro médico em Criciúma, fumava e teve câncer de pulmão, operado em SP pelo Prof. Euríclides de Jesus Zerbini em 1965. Procurou-me em 22.10.1965, meses após a cirurgia queixando-se de vermelhidão e dor no olho direito. Dona Carmem telefonou previamente, alertando-me a respeito do comportamento de Balsini diante das suas doenças. Quando da operação do pulmão em São Paulo, na Beneficência Portuguesa, Zerbini, mesmo sem ainda ter botado os olhos no exame anatomopatológico já sabia que estava diante de um tumor maligno de pulmão em estágio avançado. Foi advertido por familiares de Balsini para nada revelar ao paciente que já ameaçara jogar-se do 10º andar do prédio caso seus temores a respeito da natureza da doença se concretizassem.

Melhorando, ainda internado em São Paulo, Balsini ganha autorização para andar ao longo do corredor do andar onde estava hospitalizado. A ideia não foi das melhores. Caminhando com a lentidão exigida por seu estado de saúde, passa pelo Posto de Enfermagem e apanha seu prontuário. Nele, está apenso o laudo do Patologista que não deixava qualquer dúvida: era câncer de pulmão.

Balsini desespera-se e Zerbini é chamado:

- De jeito nenhum Balsini! Eu fiz tua cirurgia, tirei teu pulmão e sei que o que tinhas era, talvez, antigo processo pulmonar, talvez uma tuberculose ou pneumonia mal curada. Este laudo não tem nada a ver! Vou imediatamente saber a que se deve esta troca infeliz.

Assim, Balsini, cirurgião experiente e competente deixou-se ludibriar porque isto é da natureza humana. Nós simplesmente não queremos ter doenças graves e aceitamos estas bondades obsequiosas dos nossos médicos.

Juca Balsini vem ao meu consultório:

- Henrique, imagina que na Beneficência Portuguesa, talvez o maior hospital brasileiro e da América Latina cometeram este engano comigo. Na Beneficência Portuguesa! Nós aqui, estamos de antemão absolvidos de qualquer engano que venhamos a cometer!

Examinei-o. Tinha extensa metástase ocular ocupando quase todo o olho, a partir de sua metade inferior. Na amígdala esquerda também havia metástase.

Balsini perguntou minha opinião sobre consultar o grande Oftalmologista HILTON ROCHA em Belo Horizonte. Aprovei a ideia. Afinal, eu tinha menos de cinco anos de prática médica na cidade e não queria ficar conhecido ad eternum como o doutor que removera o olho do mais célebre médico da região. A única coisa a fazer era a remoção do olho e da amígdala e isso, com resultados extremamente duvidosos. Balsini retornou de BH antes do Natal. Fizera fotocoagulação ocular com Hilton Rocha e irradiação da amígdala mais antiblásticos em SP. Mas, as dores oculares eram insuportáveis por Glaucoma agudo, devido ao tumor metastático intraocular. Fiel ao meu pensamento expresso logo ali acima, fui a Torres no RS, onde veraneava o Prof. ALFREDO SCHERMANN, tio de Paulete, futura esposa de Boris. Coube a ele vir a Criciúma e remover o olho direito de Balsini que faleceu em 1966 aos 60 anos.

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