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O abominável homem das neves: o fuzilamento

Henrique Packter
Por Henrique Packter 13/10/2020 - 07:57Atualizado em 13/10/2020 - 07:58

O Estado Menor joaquinense que aprisionara Chatô se pergunta:

- Aquele nanico queria se fazer passar pelo jornalista Assis Chateaubriand, dono de jornais e rádios, aliancista de primeira hora? Declarado espião, o julgamento e condenação  à morte acontecem ali mesmo! O pelotão de fuzilamento constituído de sete revolucionários, também foi sorteado na hora. Era um espião do governo, isso sim! Major Bibiano ainda acusou de covardia e dignos de também serem fuzilados as poucas vozes que pediam por cautela, por acalmar os ânimos, por aguardar um pouco antes de tomar tão drástica decisão. Chateaubriand inutilmente advogou em causa própria. Pediu que mandassem emissário a Bom Retiro, ouvir Gerôncio Thibes, ou ir a Florianópolis atrás de Rupp Júnior. Debalde. Ia morrer pelas armas da revolução que ajudara a desencadear.  

A reviravolta

E afinal, quem era Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello?

Chateaubriand ou Chatô, criou e dirigiu a maior cadeia de imprensa na históri do país, os Diários Associados: 34 jornais, 36 emissoras de rádio, 18 canais de televisão, uma agência de notícias, uma revista semanal (O Cruzeiro), uma mensal (A Cigarra), várias revistas infantis (a primeira O Guri, 1940, em quadrinhos), e a editora O Cruzeiro. Foi senador da república por  duas vezes, membro da Academia Brasileira de Letras, fundador do MASP, museu de assombroso acervo, criou a campanha Deem Asas Ao Brasil que doava aviões de treinamento para aeroclubes brasileiros, embaixador do Brasil na Inglaterra, autor de mais de 18 mil artigos de jornais. Cognominado de Bucaneiro Político pelo emprego nem sempre ético de seus veículos de comunicação.Este homem estava para ser fuzilado na obscura cidade de São Joaquim em SC, acusado de espionagem em   favor do governo Washington Luís, governo que combatia.

O fuzilamento

Chatô, verdade verdadeira, estava exausto e encostara-se no muro do fuzilamento. Viu, vagamente, alguém cochichar coisas nos ouvidos de Bibiano. Era alguém  da comunidade que vinha advertir Bibiano de que o  garoto César Martorano, agora agraciado com a patente de tenente revolucionário, representava O Jornal do RJ em São Joaquim. Este jornal era carro chefe do  jornalismo de Chateaubriand. Martorano angariava assinaturas para o jornal e eventualmente mandava notícias da cidade mais fria do  Brasil. Tinha carteira funcional para identificá-lo como membro da família dos Associados e a carteira estava assinada pelo verdadeiro Assis Chateaubriand. Findos os  cochichos Bibiano decide adiar a execução por uma hora e confina o infeliz prisioneiro a prisão na pensão do Apolinário. Dois praças armados levam Chatô algemado até o albergue. Apolinário decreta  que ninguém se hospeda na pensão sem registrar-se no competente livro de hóspedes. Entrega o grande livro negro a Chatô, mais caneta, tinteiro e mata-borrão. Com o indicador direito, unha quase limpa, aponta a linha a ser preenchida, como era de lei. Nome por extenso,  profissão, estado civil e assinatura. Assinado o tal livro, Bibiano carrega pressurosamente com o mesmo até a farmácia de Blayer onde César Martorano já o aguardava, carteirinha na mão. Tinha ela duas assinaturas: uma do gerente Orlando Ribeiro Dantas, já a de Chateaubriand era ilegível e infalsificável, montoeira de garranchos incompreensíveis. Bibiano detém-se  no exame e conferência das assinaturas, ao cabo do qual exame volta-se para a pequena multidão de pessoas aglomeradas na porta da botica, penitenciando-se: quase fuzilamos um inocente, o homem preso na pensão é mesmo o Dr.Assis Chateaubriand!

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