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O abominável homem das neves

Henrique Packter
Por Henrique Packter 23/09/2020 - 07:35

A trajetória dos Diários Associados começa em 1924 quando o jornalista Assis Chateaubriand contava 32 anos e adquire O Jornal, diário que circulava no RJ  desde 1919. Depois, com a aquisição de outras empresas de mídia impressa, rádio e TV o grupo se torna o mais importante do Brasil. Em 1925, compra o jornal paulista Diário da Noite. Em 1928, funda a empresa gráfica O Cruzeiro e, em 1934, adquire revista mensal A Cigarra. Em MG compra o jornal Estado de Minas (1929). Ainda em 1929 funda o Diário de São Paulo. Diário da Tarde nasce em 1931. Chatô criou ainda, no RJ, a Agência Meridional e a Rádio Tupi. A elas se juntariam a Rádio Tupi de SP  e a Rádio Educadora, rebatizada Rádio Tamoio, RJ.  A televisão vem em 1950 com a TV Tupi de SP, primeiro canal de TV da América Latina. Neste ano da graça de 2020 a TV brasileira comemora 70 anos de atividades.

Ícone da imprensa

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello o Chatô (4.10.1892-4.4.1968), foi jornalista, empresário, mecenas, político, advogado, professor de direito, escritor, empresário, diplomata e membro da Academia Brasileira de Letras.  Um dos homens públicos mais influentes do Brasil nas décadas de 40, 50 e 60, magnata das comunicações no Brasil, justamente esse homem estava prestes a ser fuzilado em São Joaquim, SC, em outubro de 1930. 

Dono dos Diários Associados, o maior conglomerado de mídia da América Latina, no seu auge contou com mais de cem jornais, emissoras de rádio e TV, revistas e agência telegráfica. Chegou a editar 34 jornais no país, além de possuir 36 estações de rádio, 18 de televisão, uma agência de notícias, várias revistas infantis e a Editora O Cruzeiro, com a revista semanal do mesmo nome, periódico de maior circulação na América Latina. Senador pela Paraíba e pelo Maranhão, renunciou a este último mandato quando designado embaixador em Londres por JK (1957-1960). Escreveu livros e tornou-se imortal da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira nº 37.

Odiado e temido, polêmico e controverso, Chateaubriand, o Cidadão Kane brasileiro, foi acusado de inescrupuloso, antiético, por supostamente chantagear empresas não anunciantes em seus veículos. Também por insultar empresários com inverdades, como aquelas assacadas contra o industrial Francisco Matarazzo Jr. Seu império parecia construído com base em interesses e compromissos políticos, incluindo proximidade turbulenta, mas proveitosa, com o Presidente Vargas.

Criador e fundador do Museu de Arte de SP com Pietro Maria Bardi (1947), em 4.10.1968, data da morte de Chateaubriand e trinta e oito anos após o episódio sobre o qual escrevo, Pietro Maria Bardi, pendurou três obras-primas na câmara ardente onde Chatô era velado: Banhista com o Cão Grifo, nu gigantesco de Renoir, o Retrato do Cardeal Cristófaro Madruzzo, de Ticiano, e Don Juan António Llorente, de Goya, majestoso retrato do secretário da Inquisição espanhola. Direção dos Associados considerou ofensiva tal exposição no velório (duas telas religiosas e um nu artístico). Exige a retirada das obras, mas Bardi bate o pé:

- Mas dottore, é minha última homenagem a Chatô. Nesta parede, estão as três coisas que ele mais amou na vida: o poder, a arte e mulher pelada. É a última frase do livro Chatô, o rei do Brasil, 695 páginas – que Fernando Moraes lembrou, ao ver o filme homônimo de Guilherme Fontes que retrata com humor e sarcasmo homem patologicamente obcecado pelo poder, mulheres.  e o sonho de construir museus para civilizar o Brasil. 

CHATÔ foi escrito baseado em entrevistas sobre Assis Chateaubriand.

4oito

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