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César Sartori, primeiro médico em Urussanga

Por Henrique Packter 21/12/2021 - 07:38 Atualizado em 21/12/2021 - 07:40

Trecho de correspondência que endereçou ao governo italiano: "Que coisa entendeis por uma nação, Senhor Ministro? É a massa dos infelizes? Plantamos e ceifamos o trigo, mas nunca provamos pão branco.  Cultivamos a videira, mas não bebemos o vinho. Criamos animais, mas não comemos a carne.  Apesar disso, vós nos aconselhais a não abandonarmos a nossa pátria?  Mas é uma pátria a terra em que não se consegue viver do próprio trabalho?"


1. O INÍCIO

CÉSAR SARTORI chegou em Lages pelos idos de 1905 em busca de saúde e sustento aos 40 anos, vindo de Urussanga a cavalo. Portador de tuberculose era médico de certa notabilidade na Itália. Trouxe livros de cirurgia, anatomia, filosofia, política, literatura, poesia. de Malatesta (anarquista: a propriedade é sempre um roubo), Schopenhauer (o pessimista), Voltaire e Dante. Roupas eram poucas e o resto eram os ferros para cirurgia.


De 1911 a 1916 é a guerra do Contestado.

De família de intelectuais e médicos nascera em Chiampo formando-se em Medicina em Pádua, Patavinae Universitatis, das mais antigas do mundo. (Chiampo, região do Vêneto, província de Vicenza).

Frequentou cursos de História (da Arte, das Religiões, da Música, História Natural, Interpretação da História, Biologia, Zoologia, Botânica). Sua biblioteca, inteiramente desaparecida, contaria com dez mil volumes. Homem de muitos livros, dizia de si mesmo.

Formado em Medicina foi médico de bordo por 2 anos, conhecendo o mundo. Atravessou o Saara, quase foi devorado por um leão nas cercanias de Zanzibar. Perdeu-se no Cairo. Conhecia a Terra Santa que visitara várias vezes, empunhando a Bíblia para estudar a vida de Cristo in loco.

Com Darwin nas mãos foi à Ilha da Páscoa; vagou pelos Andes e pelos desertos do México. Na Guatemala conheceu o quetzal, pássaro que se suicida em cativeiro e tem mancha de sangue no peito porque protegeu o herói nacional com o próprio corpo.

Chamava o Brasil de Terra da Promissão: ”Esta terra nova, cuja geografia se modifica ainda nas mudanças telúricas será o paraíso da Humanidade. O resto do mundo está velho ou conquistado. Este já é hoje melhor país para viver, onde existe o povo mais bondoso e mais inteligente. Esta Terra, minha segunda Pátria, vai ser o maior País do Mundo Moderno”.

Divulgou nosso país em conferências no exterior e publicou em português e italiano: “PER ASPERA AD ASTRA. GOYAZ, MATO GROSSO, PARAGUAY, FIUMI ARAGUAYA, GARÇAS, AQUIDAUANA, DIAMANTI, MORALITÁ E CRIMINALITÁ DI PELLI-ROSSE”.

2. EM URUSSANGA

Lei nº 10 de 10.01.1903- cria o imposto de Assistência Médica para fixar um médico na sede do município em Urussanga.  Cesare Sartori radicado em Lages, desde 1902 assistia esporadicamente a população da cidade. César Ávila assegura que CESAR SARTORI chegara em Lages em 1906; parece que a data deva ser recuada para 1905, talvez antes. Em 1904 Cesare Sartori é substituído em Urussanga pelo Dr. Francisco Buzzio.

 

O Hospital Nossa Senhora dos Prazeres em Lages é de 17.4.1900.

Dos italianos vindos para SC 95% eram do norte da Itália, do Vêneto e Lombardia. Os primeiros (e poucos) imigrantes italianos para o estado (1836), eram da Sardenha, fundando a colônia de Nova Itália (atual São João Batista). A partir de 1875 ocorre maior número de assentados italianos no estado e são criadas suas primeiras colônias: Rio dos Cedros, Rodeio, Ascurra e Apiúna, todas  no entorno da colônia alemã de Blumenau. Imigrantes do Trentino fundaram Nova Trento, e Porto Franco (hoje Botuverá, em 1876). Os italianos das primeiras colônias vinham majoritariamente da Lombardia e do Trentino,  pertencentes ao Império Austro-Húngaro.

Nos anos seguintes o sul catarinense foi o principal foco de colonização italiana em SC. Nesta região foram fundadas Azambuja (1877), Urussanga (1878), Criciúma (1880), a colônia mista de Grão-Pará (1882), o núcleo Presidente Rocha (hoje Treze de Maio, 1887), os núcleos de Nova Veneza, Nova Belluno (hoje Siderópolis) e Nova Treviso (hoje Treviso, 1891) e Acioli de Vasconcelos (hoje Cocal do Sul, 1892). No sul do estado os imigrantes vinham principalmente do Vêneto e se dedicaram ao desenvolvimento da agricultura e à mineração do carvão. A chegada de italianos ao estado praticamente termina em 1895, quando número reduzido de colonos chega para colonizar Rio Jordão, no sul. Isto, devido à guerra civil (a Revolução Federalista) e pela decisão governamental que deixava a imigração subsidiada a cargo dos estados.

Notícias de trabalho semi-escravo chegaram à Itália, e o governo italiano passa a dificultar a imigração para o Brasil, promulgando o Decreto Prinetti (março de 1902), proibindo os subsídios da viagem. Entre 1904 e 1913, a entrada de italianos no Brasil foi cerca de 40% da década anterior (de 537,8 mil para 196,5 mil). Entre 1887 e 1903 a média anual de entradas de italianos no Brasil foi de 58 mil. Entre 1903 e 1908, esta média caiu para 19 mil por ano. SARTORI deve ter chegado ao Brasil entre 1887 e 1903.

3. O HOMEM

Sempre combateu os mais poderosos, o capitalista, o nobre, a coroa, o clero.  Cuspiu no Rei que desfilava numa carruagem e lhe atirou a bengala. Preso, a perseguição aumentou. Pobre e doente escolhe o Brasil para morar: “Escolhi o Brasil porque era a terra de Anita Garibaldi”.

Estudava com carinho o Negro e o Índio. Deputado socialista pelo Partido Socialista Libertário italiano, rebelou-se contra o absolutismo capitalista. Bom orador, tornou-se popular. Caricaturas nos jornais mostravam-no exageradamente magro, recurvo, de guarda-chuva em punho.  Seu distintivo era a mão segurando um archote.

Membro de uma comissão de métodos, vai a Lourdes estudar oficialmente os milagres do Santuário. Estudou o Espiritismo. Viu as quedas do Niágara e do Zambeze. Anotava fatos de suas viagens em cadernos. Do preço dos hotéis a roupas adquiridas. Um resumo histórico e político acompanhava as anotações. Lia as revistas médicas para buscar depois, na fonte, com o criador, as técnicas que o interessavam. Aprendeu na Itália com Forlanini a aplicar o pneumotórax artificial, com Kocher na Alemanha a extirpar o bócio. Conheceu Schauta, Jean Louis Faure, Pauchet, Voronoff, Flamarion.

Tinha curiosidade pelo homem e seus costumes. Procurava e, acabou por conhecer, celebridades em todos os ramos do conhecimento humano. Mantinha correspondência com JOSÉ INGENIEROS (GIUSEPPE INGENIERI) que conhecia pessoalmente.

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