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Você realmente deveria empreender? Edu Camargo explica por que talvez não

Por Arthur Lessa Criciúma, SC, 29/08/2026 - 08:00
(Foto: Mart Production / Pexels)
(Foto: Mart Production / Pexels)

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Empreender é vendido como sinônimo de liberdade, sucesso e realização. Mas a jornada também pode custar dinheiro, saúde, tempo e relacionamentos. Em entrevista ao 60 Minutos, autor de “Por que você não deveria empreender?” mostra o que precisa ser levado em conta antes de abrir um negócio

Empreender ou não empreender? Para muita gente, a pergunta parece ter uma resposta óbvia: se existe um sonho, é preciso correr atrás dele. Mas Edu Camargo prefere complicar a questão.

Autor do livro Por que você não deveria empreender?, Camargo passou por seis empresas, atuou próximo de startups e hoje trabalha justamente ajudando pessoas a começar a empreender. A provocação do título, segundo ele, nasceu da necessidade de mostrar o lado que costuma ficar escondido nas histórias de sucesso.

“Eu vejo muita gente tratando o empreendedorismo como algo romântico”, explica. “É uma das melhores coisas do mundo, mas vem com alguns custos ocultos que a gente não fala porque não é sexy, porque não vende.”

Foi sobre esses custos — e sobre como se preparar para eles — que Arthur Lessa conversou com Edu Camargo no 60 Minutos.

O “muro da inércia” que mantém muita gente no emprego

Um dos conceitos centrais apresentados por Camargo é o chamado muro da inércia.

A ideia é simples: assim como aquilo que está parado tende a permanecer parado, também é difícil abandonar uma situação profissional confortável — mesmo quando existe a sensação de que seria possível fazer mais.

Salário, benefícios, home office e segurança criam uma zona de conforto que pode se transformar em uma espécie de armadilha.

Camargo chama isso de “algemas de ouro”.

O resultado é uma situação curiosa: a pessoa está insatisfeita, acredita que poderia construir algo próprio, mas ao mesmo tempo sente que não tem motivos suficientes para abandonar aquilo que já conquistou.

É nesse ponto que surge uma das principais provocações da entrevista: se você é tão bom a ponto de o mercado disputar o seu trabalho, por que não poderia usar parte dessa capacidade para construir o próprio projeto?

Não é preciso largar tudo para começar

Mas Camargo não defende que alguém peça demissão e se jogue imediatamente em um negócio.

Pelo contrário.

Uma das ideias mais práticas apresentadas na entrevista é a crítica à expressão “queimar os barcos”.

Para o empreendedor, é muito mais inteligente construir um barco melhor antes de abandonar o barco atual.

Ou seja: testar uma ideia, entender se existe demanda, começar a construir uma renda alternativa e validar o negócio antes de colocar toda a vida em risco.

“Eu não acho que as pessoas têm que largar o emprego para começar a empreender”, afirma.

E existe uma razão para isso: ser bom em alguma coisa não significa que exista um bom negócio esperando por você.

Ser bom não basta

Um profissional pode ser excelente fazendo aquilo que faz. Pode amar a atividade. Pode ter anos de experiência.

Nada disso garante que haverá clientes suficientes dispostos a pagar pelo produto ou serviço.

Para Camargo, um dos erros mais comuns é não separar aquilo que o empreendedor sabe fazer e gosta de fazer daquilo que o mercado realmente precisa.

É aí que entra uma das ideias mais importantes do livro: antes de pensar em gestão, custos ou crescimento, é preciso descobrir se existe uma oportunidade.

A melhor empresa do mundo não consegue resolver um problema que ninguém tem.

O método START

Para ajudar quem pretende iniciar essa jornada, Camargo criou o método START, que organiza cinco pontos que precisam ser avaliados antes e durante o empreendedorismo:

S — Saúde, física e mental;

T — Tesouraria, ou seja, o dinheiro disponível para sustentar a jornada;

A — Advisors, mentores e outras formas de ajuda;

R — Relacionamentos, especialmente a família e as pessoas próximas;

T — Tração, a resposta que o mercado dá ao negócio.

A proposta é olhar não apenas para a empresa, mas para o empreendedor que está por trás dela.

E Camargo usa a própria experiência para mostrar por que isso importa.

Em uma de suas jornadas, ele conta que terminou pré-diabético, teve arritmia e passou a acordar durante a noite com a cabeça tomada pelos problemas da empresa. Também admite que já começou um empreendimento sem estar financeiramente preparado.

A experiência mudou a forma como ele se prepara para empreender novamente.

“Estar pronto não é um sentimento”

Para quem vive adiando o início de um projeto porque acredita que ainda não chegou o momento certo, Camargo tem outra provocação:

“Estar pronto não é um sentimento, é uma decisão.”

Na visão dele, esperar sentir-se completamente preparado é uma forma de permanecer no muro da inércia.

Isso não significa agir de maneira irresponsável. Significa começar a se movimentar antes que uma demissão, um problema financeiro ou uma mudança na vida obrigue a pessoa a empreender às pressas.

E quando é hora de desistir?

Se começar não exige esperar o momento perfeito, também é preciso saber reconhecer quando um negócio não está funcionando.

Camargo aponta justamente os elementos do método START como sinais de alerta: saúde comprometida, dinheiro acabando, relacionamentos deteriorados ou falta de tração.

Se o cliente não recompra, não indica e não existe demanda consistente, talvez o problema não seja simplesmente de gestão.

Talvez seja a própria ideia.

Nesse caso, mudar de direção pode ser mais importante do que insistir.

O fracasso não é medalha

Outro ponto discutido na entrevista é a romantização do fracasso.

Para Camargo, não faz sentido transformar a derrota em troféu — assim como também não faz sentido acreditar apenas nas histórias de sucesso.

A falha faz parte do empreendedorismo. O importante é entender por que ela aconteceu.

O que deu errado por causa daquele momento específico? O que foi uma decisão ruim? O que provavelmente se repetiria em qualquer contexto?

“Eu não gosto da exaltação da falha como eu não gosto da exaltação do resultado”, resume.

É justamente essa visão menos romantizada que está por trás de Por que você não deveria empreender?.

A pergunta do título, no fim das contas, não é exatamente uma tentativa de convencer alguém a não empreender.

É um convite para fazer uma pergunta mais difícil: você está preparado para pagar o preço do sonho que está querendo realizar?

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