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Os palanques da eleição de 2026 em Santa Catarina: parte 1

Lula e Merísio

Por Artur Fabro 24/08/2026 - 07:00

Prezado leitor do 4oito, começo hoje uma série semanal que vai até a véspera do primeiro turno. Ela se chamará “Os palanques da eleição de 2026 em Santa Catarina”. A cada semana analiso um candidato à Presidência da República e o candidato ao governo de Santa Catarina que lhe corresponde, quer por pertencerem ao mesmo partido, quer porque a coligação estadual sustenta aquela candidatura nacional.

A ordem adotada segue as intenções de voto para a Presidência, e não para o governo do estado. Tomo como referência cinco institutos de maior circulação nacional, Quaest, Atlas, Datafolha, Nexus e Ideia, considerando o levantamento mais recente divulgado até a data de hoje, sempre no cenário estimulado de primeiro turno, e ordeno os presidenciáveis pela média dessas leituras. Presidenciáveis sem candidato próprio ao governo de Santa Catarina ficam de fora, mas candidatos a governador que não possuem candidato à Presidência correspondente entram. As candidaturas que os institutos não medem individualmente, por virem agregadas na faixa dos que não pontuam, dividem um único texto.

Este será o calendário:

24 de agosto — Lula (PT) e Gelson Merísio (PSB)

31 de agosto — Flávio Bolsonaro (PL) e Jorginho Mello (PL)

8 de setembro (7 de setembro, segunda-feira, é feriado) — Ronaldo Caiado (PSD) e João Rodrigues (PSD)

14 de setembro — Renan Santos (Missão) e Marcelo Brigadeiro (Missão)

21 de setembro — Samara Martins (UP) e Laís Chaud (UP); Hertz Dias (PSTU) e Marcus Sodré (PSTU); Rui Costa Pimenta (PCO) e Bruno Pedreiro (PCO)

28 de setembro — Ralf Zimmer (PRD), sem chapa presidencial correspondente

PS.: cada texto sobre os presidenciáveis e candidatos a governador terá dois tópicos-guia: (1) Quem é o candidato? e (2) Análise do desempenho eleitoral recente do candidato.


Lula e Merísio. Crédito: Divulgação/4oito

Quem é Luiz Inácio Lula da Silva?

Lula nasceu em Caetés, no agreste de Pernambuco, em 1945, e migrou ainda criança para o interior paulista com a família. Formou-se torneiro mecânico no SENAI e foi trabalhar nas metalúrgicas do ABC. Sua vida pública começa no sindicalismo: presidiu o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema e conduziu as greves de 1978 a 1980, que são o marco de reorganização do movimento operário brasileiro sob a ditadura. Em 1980 esteve entre os fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), no qual está filiado até hoje.

Foi deputado federal constituinte entre 1987 e 1991 e presidente da República de 2003 a 2010. Condenado na Operação Lava Jato, cumpriu 580 dias de prisão entre 2018 e 2019. As condenações foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal em 2021, por incompetência do juízo de Curitiba, o que lhe devolveu os direitos políticos.

Lula voltou à Presidência em 2023, aos 77 anos, com Geraldo Alckmin (PSB) de vice, e disputa agora um quarto mandato, aos 80, novamente com Alckmin de vice e uma ampla coligação, formada por sete partidos: a Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV), a Federação PSOL/Rede, o PSB e o PDT. Batizada de "O Brasil pronto pra mais". 

Análise do desempenho eleitoral recente de Lula

Lula perdeu bastante antes de ganhar. Suas principais derrotas são a disputa pelo governo de São Paulo em 1982 e três eleições presidenciais consecutivas (1989 para Fernando Collor, 1994 e 1998 para Fernando Henrique Cardoso). Venceu em 2002 e reelegeu-se em 2006, nas duas vezes em segundo turno. Em 2018 teve a candidatura barrada, sendo Fernando Haddad (PT) seu substituto. Em 2022 voltou a vencer, com 50,90% dos votos válidos, a margem mais estreita de uma eleição presidencial brasileira desde a redemocratização.

Em Santa Catarina, o petista vem de duas eleições ruins. Em 2018, com a candidatura barrada e Haddad no lugar, o PT tocou o fundo do poço catarinense: 24,08% dos votos válidos no segundo turno, contra 75,92% de Jair Bolsonaro (PL). Em 2022, já com Lula de volta à cabeça de chapa, houve recuperação, mas modesta: 29,54% no primeiro turno e 30,73% no segundo, contra 69,27% de Bolsonaro.

Uma curiosidade: em 2002, contra José Serra (PSDB), Santa Catarina deu a Lula 56,6% dos votos válidos no primeiro turno, a maior votação proporcional que o petista obteve em todo o país naquele ano, e 64,1% no segundo, a segunda maior. A explicação que os analistas costumam oferecer é a de que aquela foi uma eleição de baixa polarização ideológica, decidida por voto econômico ao fim do segundo mandato de FHC. Se a leitura estiver correta, a diferença de 2002 para 2018 e 2022 não significa uma conversão coletiva do eleitorado catarinense ao antipetismo, e sim a chegada de um alinhamento ideológico que em 2002 simplesmente não organizava o voto. O catarinense passou a votar por outro critério.


Quem é Gelson Merísio?

Nasceu em Xaxim, no Oeste catarinense, em 1966, e mudou-se para a vizinha Xanxerê em 1972. É administrador de empresas formado pela Unoesc e trabalhou na indústria cerâmica antes de entrar na vida pública.

Sua trajetória começa no associativismo empresarial. Aos 21 anos presidiu a Associação Empresarial de Xanxerê e, mais tarde, a FACISC. Passou pela administração estadual como diretor financeiro da CASAN entre 1999 e 2001 e presidiu o conselho deliberativo do Sebrae catarinense entre 1999 e 2002. Foi vereador de Xanxerê de 1989 a 1992 e presidiu a Câmara Municipal.

Chegou à Assembleia Legislativa pela suplência em 2005, pelo PFL, na vaga deixada por João Rodrigues, então também no PFL, eleito prefeito de Chapecó no ano anterior. Foi o adversário de hoje que lhe abriu a porta, e à época os dois eram do mesmo partido.

Presidiu a ALESC de 2010 a 2012 e de 2015 a 2016, e nessa condição assumiu interinamente o governo do Estado por seis dias, entre 28 de março e 2 de abril de 2010. Depois de se lançar candidato a governador pelo PSD e perder no segundo turno para Carlos Moisés (PSL) em 2018, afastou-se da vida pública e passou a atuar como conselheiro de administração no grupo JBS. Foi essa atuação que o aproximou do grupo político de Lula. Em março deste ano deixou o Solidariedade e filiou-se ao PSB.

É por ele que Lula tem palanque em Santa Catarina. Merísio encabeça a coligação "Coragem para mudar", que reúne PSB, PDT, a Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) e a Federação PSOL/Rede, com Ângela Albino (PDT) como vice e Décio Lima (PT) e Afrânio Boppré (PSOL) ao Senado. Essa coligação só existe porque o PT abriu mão de candidatura própria, já que Décio Lima, que era pré-candidato ao governo, retirou o nome para apoiar Merísio e disputar o Senado.

Análise do desempenho eleitoral recente de Merísio

Merísio nunca deixou de conquistar mandato proporcional e nunca ganhou uma majoritária estadual. Elegeu-se vereador de Xanxerê em 1988, aos 22 anos, e atuou em quatro legislaturas na ALESC, a primeira delas iniciada na suplência. Sua marca é a votação de 2014 para deputado estadual, 119.280 votos, histórica para o cargo no estado.

Em 2018, quando seu nome era considerado natural para a disputa do governo, Merísio terminou o primeiro turno na frente com 31,12% dos votos válidos, contra 29,74% de Carlos Moisés, um coronel dos bombeiros que nunca havia ocupado cargo eletivo e era desconhecido da população. No segundo turno, Moisés fez 71,09% e Merísio, 28,91%. Repare, leitor, que Merísio manteve praticamente a mesma votação proporcional entre um turno e outro; quem se moveu foi o adversário, que mais que dobrou a sua. Não houve rejeição a Merísio, houve adesão a outra coisa, e essa outra coisa foi a onda que o PSL trazia junto com Bolsonaro. O próprio Merísio atribuiu o resultado à verticalização da eleição estadual, isto é, a onda Bolsonaro não foi somente nacional.

Vale acrescentar que Merísio chega a 2026 num patamar bem abaixo daquele de 2018. Todas as pesquisas que saíram até agora, dos mais diversos institutos, o colocam atrás de Jorginho Mello (PL) e João Rodrigues (PSD).


Por fim, o candidato que hoje encabeça o palanque de Lula em Santa Catarina construiu trinta anos de carreira na centro-direita e chegou a declarar voto em Bolsonaro em 2018. Cabe ler isso como reorientação política criticável, sim, mas genuína e bastante comum entre os políticos brasileiros. O obstáculo de Merísio em 2026, porém, não está no passado, está no rótulo de candidato de Lula num estado que deu a Bolsonaro quase 70% dos votos há quatro anos. Cabe a ele transpô-lo.

Na próxima semana, será a vez de Flávio Bolsonaro e Jorginho Mello.

 

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