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Mestre com carinho: história de dedicação daqueles que vivem para ensinar

Duas histórias marcadas por trajetórias diferentes, resultando no mesmo amor
Letícia Ortolan
Por Letícia Ortolan Criciúma - SC, 16/10/2021 - 16:37Atualizado em 16/10/2021 - 16:40
Foto: Guilherme Hahn / Especial / 4oito
Foto: Guilherme Hahn / Especial / 4oito

Transbordar. No sentido figurado, significa ter em excesso ou estar repleto. Um sentimento que a pedagoga Bruna de Fátima Goulart Miot, de 33 anos, sente a cada tatuagem feita em homenagem aos seus alunos. A prática iniciada em 2016 já colecionou 15 desenhos no braço esquerdo da professora, que atualmente, o dedica inteiramente para isso. E, a cada “rabisco” feito, um conceito diferente. “Faz parte de um amor que eu não conseguia mais guardar apenas no coração”, salientou.

A professora efetiva na rede municipal de Criciúma e estadual de Santa Catarina, se formou na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc) em 2010. Dois anos depois, pôde praticar algo que projetava para sua vida há muitos anos: lecionar. Desde o primeiro dia, se viu apaixonada pelo que faz e junto dessa paixão, veio a certeza de ter escolhido seguir a profissão certa.

O contato direto com os alunos em sala de aula só aumentou a vontade de se dedicar ainda mais às crianças. Casada e sem pretensão de ser mãe, a professora afirma: "Minha maior dedicação é para elas”. Mesmo após nove anos da sua primeira turma do 5º ano do Ensino Fundamental, o vínculo com os atuais adolescentes é uma realidade. “Eu fui na formatura de ensino médio deles, chorei muito, sinto como se fossem os meus filhos crescendo”, disse Bruna.

O relacionamento com seus alunos vai muito além de ensinar conteúdos de estudos. Para a professora, é indispensável tentar contribuir de alguma forma com o presente e o futuro de cada um deles. Como por exemplo, o dia que presenteou uma aluna com um kit de higiene, após ela declarar em uma aula que não possuía condições financeiras para comprar itens básicos de uso diário. Além disso, busca ressaltar no dia a dia os valores humanos: respeito, honestidade, humildade, empatia, senso de justiça, educação, solidariedade e ética.

Com o passar dos anos, colecionando grandes histórias com seus alunos, Bruna sentiu vontade de expressar seu carinho de uma forma que fosse eternizada. Foi quando surgiu a ideia de fazer tatuagens no braço para representar cada turma. Já estando quatro anos na carreira profissional mas com o intuito de homenagear todos aqueles que haviam tido aula com ela, a professora entrou em contato com as turmas anteriores e as incluiu na proposta.

Por trás das tatuagens

O roteiro que já virou regra, é seguido à risca todos os anos: em dezembro, ao concluir as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs), previstas no Conselho Nacional de Educação (CNE), Bruna faz uma nova tatuagem. Por ser uma atitude diferente e até mesmo inédita de homenagear os alunos, chamou a atenção até mesmo do seu tatuador. Atualmente, ele aguarda ansioso para saber qual será o símbolo. 

No entanto, neste ano o mês precisou ser mudado. Em uma das escolas que trabalha, Eeb Barão do Rio Branco, em Urussanga, Bruna foi convidada a ser Assessora de Direção, onde dava aula para o 5º ano do Ensino Fundamental. Para não deixar de seguir a tradição, a tatuagem foi feita em julho, quando assumiu o novo cargo. Aproveitando a oportunidade, a professora também tatuou para a turma que dá aula em Criciúma, na Escola Municipal de Ensino Básico (EMEB) Carlos Giorini.

O desenho é escolhido em um consenso com a turma. Precisa remeter a uma lembrança do vínculo. Algumas turmas possuem até mesmo mais de uma tatuagem no braço da professora. É o caso da turma intitulada como “gatinhos”, que foram alunos de Bruna no 1º ano do Ensino Fundamental e quatro anos depois, no 5º ano. “Eles acham um máximo e até disputam para saber quem tem mais tatuagem no meu braço”, explicou a professora. 

Bruna idealiza integrar todas as tatuagens futuramente. Seu objetivo para quando finalizar a prática, é colorir novamente todos os desenhos e esfumar os espaços que sobrarão entre eles. “Vou continuar me tatuando em homenagem a eles até quando ter a minha última turma. Nem penso na hipótese de parar com essa proposta antes”, indagou.

Os significados de cada uma

1ª tatuagem: turma de 2012, da escola José do Patrocínio, localizada em Siderópolis. Trata-se de uma estrela que tem o objetivo de remeter a “estrela guia”.

2ª tatuagem: turma de 2014, da escola Barão do Rio Branco, em Urussanga. O desenho escolhido foi um passarinho, pois a professora chamava os alunos de “periquitinhos”, remetendo a um apelido carinhoso.

3ª tatuagem: turma de 2015 e 2016, da escola Barão do Rio Branco, em Urussanga. Durante o ano, os alunos haviam plantando girassóis e a tatuagem escolhida foi um desenho da flor. 

4ª tatuagem: turma de 2015, da escola Professor Lapagesse, em Criciúma. A professora havia trabalhado o livro Extraordinário com os alunos para representar a igualdade entre todos e por conta disso, foi escolhido o desenho do personagem da capa.

5ª tatuagem: turma de 2016, da escola Antonieta Quintanilha, em Urussanga. Um momento marcante entre a professora e os alunos foi uma atividade desenvolvida em uma hora, resultando na tatuagem de uma planta.

6ª tatuagem: turma de 2017, da escola Barão do Rio Branco, em Urussanga. Naquele ano os alunos fizeram uma apresentação com tema do livro O Gato Xadrez e o acordo foi um desenho de um gato. 

7ª tatuagem: turma de 2017, da escola Barão do Rio Branco, em Urussanga. A classe que tinha como destaque meninas super vaidosas, foi homenageada com a tatuagem de um laço. 

8ª tatuagem: turma de 2018, da escola Barão do Rio Branco, em Urussanga. A decoração da sala eram várias nuvens acompanhadas de chuvas de coração, exatamente como foi feita a tatuagem, intitulada como “chuva de amor”. 

9ª tatuagem: turma de 2018, da escola Maria de Lourdes Carneiro, em Criciúma. Na época, Bruna ficou responsável pela apresentação de cartas num evento sobre comunicação e por isso, o desenho escolhido representa uma carta. 

10ª tatuagem: turma de 2019, da escola Barão do Rio Branco, em Urussanga. Os alunos eram bastante agitados e por ideia deles, a tatuagem escolhida foi o símbolo de uma pimenta. 

11ª tatuagem: turma de 2019, da escola Maria de Lourdes Carneiro, em Criciúma. A classe fez uma apresentação com a música A Linda Rosa Juvenil e o desejo das crianças era o desenho de uma rosa. 

12ª tatuagem: turma de 2020, da escola Maria de Lourdes Carneiro, em Criciúma. A classe era representada pela palavra “alegria” e em virtude disso, a tatuagem é um emoji de sorriso.

13ª tatuagem: turma de 2020, da escola Maria de Lourdes Carneiro, em Criciúma. A tatuagem foi feita logo após proliferação da pandemia do coronavírus. Para representar o ano de aulas online, a tatuagem é o desenho de uma casa. 

14ª tatuagem: turma de 2021, da escola Carlos Gorini, em Criciúma. A tatuagem foi um panda, tema de toda a decoração da sala de aula dos alunos. 

15ª tatuagem: turma de 2021, da escola Barão do Rio Grande, em Urussanga. Bruna deu aula para a turma no 1º e 5º ano, nas duas vezes, a classe foi vencedora de uma gincana da festa junina e por este motivo, a tatuagem é o símbolo de um troféu com duas estrelas. 

Planos que foram modificados pelo preconceito 

Normélia Ondina Lalau de Farias. Este é o nome da professora de 62 anos que teve seus planos totalmente transformados diante do preconceito presente na sociedade. Mulher e negra, a atual coordenadora do curso de licenciaturas em Química da Universidade do Extremo Sul catarinense (Unesc), teve a sua admissão negada três vezes por meio de justificativas semelhantes. 

Normélia Ondina Lalau de Farias.

Sua primeira graduação foi no curso de química industrial, onde ingressou aos 16 anos. Após se formar, buscou ir atrás do seu sonho de trabalhar em fábricas da indústria, que veio como resultado: frustração. Todas as empresas tiveram a mesma atitude, olharam o seu currículo, entraram em contato alegando ser a profissional que procuravam e diante da entrevista de emprego, deram desculpas para não haver contratação.  

Na primeira vez, Normélia não entendeu tal atitude. Até que veio uma segunda e depois, uma terceira. “Na época, o quesito raça/cor não existia e nos documentos de currículos não era exigido colocar foto. Em uma das empresas, utilizaram como explicação de eu não ser admitida o fato de ser mulher e como eu já era mãe, ainda me perguntaram se eu tinha vontade de ter mais filhos”, explicou.

A busca pela reinvenção 

Criada por pais professores, Normélia sequer pensava em lecionar. Desde criança observava as dificuldades que sua mãe e seu pai passavam dentro da profissão, um dos grandes motivos pela vontade de ser professora só ter sido despertada após já estar dentro de uma sala de aula como educadora. 

A família de Normélia nunca a restringiu de ir em busca de seus sonhos. Muito pelo contrário, sempre deram grande apoio nas suas decisões. Mesmo assim, seu pai sempre salientava a ideia de ela ser professora. “Ele me perguntava se era a química industrial que eu queria, porque já enxergava o que iria acontecer lá na frente. Mas sobre ser professora, eu sempre disse que não queria, não tinha vontade alguma”, disse.

Diante dos obstáculos de se inserir no mercado de trabalho, especialmente na atuação que queria, Normélia foi em busca de alternativas. Em 1983, prestou prova de um concurso da Fundação Educacional de Santa Catarina (Fesc) para vagas de professores. Aprovada no teste, surgiu a oportunidade de lecionar no curso técnico do atual Centro de Educação Profissional (Cedup) Abílio Paulo, logo no ano seguinte.

Os primeiros meses de atuação foram marcados pela insegurança de ser inexperiente. Normélia lecionava para alunos até mesmo mais velhos que ela e durante muitos dias, ensaiou as aulas de frente para o espelho. Até que um dia, uma das empresas que negou sua contratação, entrou em contato com a coordenação do Cedup para firmar parceria, a fim de utilizar os equipamentos de ponta que a instituição oferecia. 

A oferta se concentrou em o Cedup disponibilizar profissionais para analisarem seus materias e como troca, teria vagas de estágio aos alunos do colégio. Naquele tempo, o pai de Normélia era o diretor do instituto e firmou o acordo, destinando os serviços à filha, que assinava seu nome em todos os trabalhos de análises químicas feitos. “Isso foi me deixando animada, tendo mais segurança e querendo estar cada vez mais naquele ambiente", indagou. E, por consequência disso, ficou mais próxima dos seus alunos.
 
Construindo uma certeza

Com o passar dos anos, Normélia foi tendo a certeza de que lecionar é uma profissão que a mantém viva e para aprimorar ainda mais os seus conhecimentos, iniciou sua formação em Química Pedagógica. “Me sentia uma professora incompleta e que precisava de algo a mais, fui buscar a parte didática e pedagógica para ter um entendimento melhor e mais amplo diante do trabalho com os alunos”, explica a professora.

Há 26 anos, quando já formada na sua segunda graduação, foi convidada para dar aula de química no Colégio Unesc. Trata-se da primeira vez que a Normélia deu aula em uma escola particular e do ensino médio. Para ela, foi um desafio porque era um público totalmente diferente, mas mesmo assim, aceitou o convite. Durante o período, buscou duas especializações, sendo elas em Química Avançada e Didática e Metodologia do Ensino Superior.

Após três anos lecionando para os adolescentes, Normélia recebeu outro convite da universidade. Desta vez, o desejo da instituição era que a professora também fizesse parte do quadro de educadores do ensino superior, no curso de Farmácia. “Eu imaginava que poderia chegar lá, mas não da forma que foi”, destaca. 

Em seguida, foi para a Engenharia Ambiental, Engenharia de Materiais, gestora do Colégio Unesc, coordenadora dos cursos técnicos do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) e em 2019, se desligou do ensino médio. 

Atualmente, Normelia é aposentada pela rede pública estadual e continua na Unesc atuando nos cursos de graduação. Trabalha com os cursos de engenharias, biomedicina e ciências biológicas e é coordenadora do Núcleo de Estudos Africanos, Afrobrasileiros e Indígenas. Além disso, foi desafiada a montar o curso de licenciatura em química pelo Uniedu, o qual teve início há um mês após a aprovação da Secretária de Educação de Santa Catarina. 

Questionada durante a entrevista sobre o que tem de projeto para os próximos anos, Normelia afirma “eu não me vejo sem ser professora”. Poder desmistificar a relação com a química e criar novas possibilidades em como ensinar, é encantador para a professora. "Lecionar na minha opinião é um ato de amor, um enorme desafio, é se doar e acreditar que é possível uma construção para ser melhor”, finalizou.