O empreendedorismo digital deixou de ser privilégio das grandes capitais. Em cidades do interior e de regiões distantes dos grandes centros econômicos, empreendedores estão encontrando no ambiente digital uma rota de acesso a mercados que antes exigiam estrutura física, capital elevado ou localização estratégica. Os dados nacionais confirmam essa tendência com clareza: em 2024, o Brasil registrou a abertura de 2,8 milhões de pequenos negócios nos oito primeiros meses do ano, e o faturamento das MPEs em vendas online saltou de R$ 5 bilhões para R$ 67 bilhões entre 2019 e 2024, alta de 1.240%, segundo o Sebrae. Esse movimento não é homogêneo, mas é real e crescente, inclusive para quem empreende fora do eixo Sul-Sudeste.
O Brasil no topo do empreendedorismo mundial: o que os dados dizem
O ponto de partida para entender as oportunidades digitais dos empreendedores regionais é o contexto nacional. Em 2024, a taxa de empreendedorismo no Brasil atingiu 33,4% da população adulta, o maior patamar dos últimos quatro anos, segundo o Monitor Global de Empreendedorismo (GEM 2024), pesquisa conduzida no país pelo Sebrae em parceria com a Associação Nacional de Estudos e Pesquisas em Empreendedorismo (Anegepe), com 2.000 adultos e 58 especialistas entrevistados. Com essa marca, o Brasil ocupa o terceiro lugar no ranking mundial de empreendedorismo entre 51 países analisados, atrás apenas de Catar (60,8%) e Jordânia (52,4%).
Isso representa aproximadamente 47 milhões de brasileiros envolvidos com algum tipo de negócio, formal ou informal. Entre eles, cresceu especialmente a proporção de empreendedores estabelecidos, aqueles com mais de 3,5 anos de operação, cujo indicador saltou de 8,7% em 2020 para 13,2% em 2024. Com isso, o Brasil avançou da oitava para a sexta posição no ranking global de empreendedores estabelecidos, ultrapassando Reino Unido, Itália e Estados Unidos, conforme o governo federal em comunicado de abril de 2025 referente à Política Nacional de MPEs.
No primeiro trimestre de 2025, o movimento se intensificou: foram abertos 1.407.010 novos CNPJs no período, dos quais 78% corresponderam a microempreendedores individuais (MEIs), com crescimento de 35% na comparação com o mesmo período de 2024, segundo o Sebrae com base em dados da Receita Federal. O setor de Serviços concentrou 63,7% das novas aberturas em março de 2025, seguido pelo Comércio (20,8%) e pela Indústria da Transformação (7,6%).
O peso real dos pequenos negócios na economia brasileira
Compreender por que a digitalização importa tanto para os empreendedores regionais exige entender o papel estrutural que os pequenos negócios já ocupam na economia. As micro e pequenas empresas respondem por 27% do PIB brasileiro, são responsáveis por 52% dos empregos com carteira assinada no setor privado e pagam 40% da massa salarial do país, segundo o Sebrae com base em metodologia da Fundação Getulio Vargas. Em 2024, as MPEs foram responsáveis por 1.222.972 dos empregos formais gerados no país, correspondendo a sete em cada dez vagas abertas, segundo análise do Sebrae com dados do CAGED/Ministério do Trabalho.
No estudo de participação das MPEs no PIB por estado, publicado pelo Sebrae em 2024, destacam-se Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso como os estados em que os pequenos negócios têm maior contribuição ao valor adicionado da economia regional. No mesmo período, as MPEs foram as únicas a registrar crescimento de produtividade entre 2018 e 2021 (alta de 4,1%), enquanto médias e grandes empresas apresentaram queda. Esses números indicam que apostar no pequeno negócio é, também, apostar em produtividade e resiliência econômica.
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Indicador |
Dado |
Fonte |
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Taxa de empreendedorismo no Brasil (2024) |
33,4% da população adulta |
GEM 2024 / Sebrae + Anegepe |
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Brasileiros envolvidos com algum negócio |
Aprox. 47 milhões |
GEM 2024 / Sebrae |
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Posição do Brasil no ranking mundial de empreendedorismo |
3º lugar (entre 51 países) |
GEM 2024 / Sebrae |
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Participação das MPEs no PIB |
27% (29,5% em 2017) |
Sebrae / FGV |
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Empregos formais gerados por MPEs em 2024 |
1.222.972 (7 em cada 10 vagas) |
Sebrae / CAGED (2024) |
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Faturamento de MPEs em vendas online (2024) |
R$ 67 bilhões (+1.240% vs. 2019) |
Sebrae (2025) |
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Novos CNPJs abertos no 1T2025 |
1.407.010 (78% MEIs) |
Sebrae / Receita Federal (abr/2025) |
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Taxa de sobrevivência das MPEs (2020-2024) |
89,1% |
Atlas dos Pequenos Negócios 2025 / Sebrae |
Fontes: GEM 2024 (Sebrae/Anegepe); Sebrae com base em CAGED, Receita Federal e FGV/IBGE; Atlas dos Pequenos Negócios 2025 (Sebrae). Nota: o dado de 29,5% para a participação das MPEs no PIB refere-se à edição de 2017 do estudo Sebrae/FGV; o valor de 27% refere-se à edição de 2011.
Os dados reunidos na tabela mostram uma trajetória consistente de crescimento e consolidação dos pequenos negócios brasileiros. O salto no faturamento digital de R$ 5 bilhões para R$ 67 bilhões em cinco anos é, talvez, o número mais revelador para o empreendedor regional: ele mostra que o comércio eletrônico já não é um canal secundário, mas uma rota principal de faturamento para quem soube integrá-lo ao negócio. A taxa de sobrevivência de 89,1% para as MPEs entre 2020 e 2024 também desfaz parte do pessimismo que cerca o tema: negócios estruturados tendem a durar.
Como o digital amplia o alcance de quem empreende fora dos grandes centros
A principal mudança que o ambiente digital traz para os empreendedores regionais é geográfica: um negócio localizado em uma cidade de médio ou pequeno porte pode vender para qualquer ponto do país ou do mundo, desde que tenha produto, logística e presença online minimamente estruturados. Antes, essa possibilidade era teoricamente existente, mas praticamente inacessível para quem não tinha capital para investir em distribuição física. As plataformas de marketplace democratizaram esse acesso.
Em 2025, o Sebrae auxiliou 728 mil empreendedores a ingressar ou se desenvolver no mercado digital, por meio de 42 eventos presenciais em todos os estados brasileiros, com foco em canais como Mercado Livre, Amazon e Shopee, além de ferramentas de conteúdo como Canva e TikTok. Desde 2021, o programa criou mais de 18.500 novas lojas virtuais, que geraram R$ 841,4 milhões em faturamento para pequenos negócios, segundo o Sebrae. Para o gestor de Mercado Digital do Sebrae Nacional, William Almeida, "o Sebrae constrói pontes onde antes existiam abismos" ao facilitar o acesso de empreendedores regionais a canais digitais de alcance nacional.
Redes sociais como canal primário de presença digital
A pesquisa TIC Empresas 2023, do Cetic.br/NIC.br (Centro Regional de Estudos sob os auspícios da UNESCO), revela com precisão como os pequenos negócios brasileiros utilizam os canais digitais: 74% das empresas adotaram WhatsApp ou Telegram como canal de negócio em 2023, ante 54% em 2019. O Instagram, TikTok e similares passaram de 44% para 71% de adoção no mesmo período. Já o LinkedIn mais que dobrou, de 15% para 30%. Esses dados da edição de 2024 da TIC Empresas confirmam a tendência: as redes sociais substituíram o website como ponto de entrada digital para a maioria dos pequenos negócios brasileiros.
O dado mais revelador, porém, é o do comércio online. Segundo o Cetic.br, 70% das empresas comercializaram produtos ou serviços pela internet em 2023, contra 57% em 2019, período pré-pandemia. Entre as pequenas empresas especificamente, o indicador passou de 57% (2019) para 74% (2021) e estabilizou em 71% em 2023, mantendo-se bem acima do patamar pré-digital. Essa estabilidade, segundo o gerente do Cetic.br Alexandre Barbosa, revela que "o impulso provocado pela pandemia não se refletiu necessariamente em uma maior presença online" via websites, mas consolidou as vendas pelo ambiente digital de forma permanente.
O Indicador de Maturidade Digital e onde estão as lacunas
A Pesquisa de Maturidade Digital dos Pequenos Negócios 2024, do Sebrae, avaliou 6.933 empreendimentos e apurou um Indicador de Maturidade Digital (IMD) médio de 35 pontos em uma escala de 0 a 80. As empresas de pequeno porte (EPPs) lideram em maturidade digital, enquanto os microempreendedores individuais (MEIs) apresentam os maiores desafios de adaptação. Há variações relevantes por setor e região, com o Sul e Sudeste à frente e o Norte e Nordeste com menores índices médios.
Essa pontuação de 35 em 80 significa que a maioria dos pequenos negócios brasileiros ainda está na metade inicial da jornada de digitalização, o que representa tanto um desafio quanto uma oportunidade real para o empreendedor que decidir avançar mais rapidamente do que a média. Segundo o Atlas dos Pequenos Negócios 2025 do Sebrae, a expectativa é que até 2026 cerca de 70% dos MEIs passem a vender por canais digitais, ampliando significativamente o alcance de seus produtos e serviços.
Quais oportunidades digitais crescem mais para empreendedores fora dos grandes centros?
A pergunta que mais interessa ao empreendedor regional não é abstrata: qual tipo de negócio digital tem demanda crescente e pode ser operado com estrutura enxuta, a partir de qualquer cidade? Os dados do mercado de trabalho e das plataformas de freelancer oferecem respostas concretas.
Um levantamento da plataforma Freelancer.com, publicado pela CNN Brasil no segundo trimestre de 2024, identificou as categorias com maior volume de vagas disponíveis para profissionais remotos: programação (PHP, WordPress, HTML), design gráfico e de interface, e, de forma especialmente relevante para empreendedores de qualquer região, a criação de documentos digitais, como escritores de PDF, que registraram crescimento de 26,7% na demanda, e redatores de documentos Word, com alta de 23,9% no período. Esses números apontam para uma demanda crescente por profissionais que sabem produzir e gerenciar materiais digitais profissionais.
Para o Sebrae, os segmentos mais promissores para 2025 com potencial para empreendedores regionais incluem: design gráfico e criação de conteúdo visual, consultoria online, produção de conteúdo para redes sociais, revenda em marketplaces e serviços de tecnologia para pequenas e médias empresas. A gestora nacional do Sebrae, Luciana Macedo, ressalta que "o que pode surgir são os modelos de negócio inovadores", e que o empreendedor regional tem vantagem competitiva ao conhecer profundamente a demanda local e conseguir combiná-la com o alcance digital.
O e-commerce como porta de entrada: como começar sem grande investimento
A barreira de entrada para vender online caiu significativamente nos últimos cinco anos. Criar uma loja em plataformas como Mercado Livre, Shopee ou Amazon não exige investimento em tecnologia própria: as plataformas oferecem infraestrutura pronta, e o empreendedor paga comissão apenas sobre as vendas realizadas. Segundo o Sebrae, 18.500 lojas criadas pelo programa de apoio ao mercado digital geraram R$ 841,4 milhões em faturamento desde 2021, uma média de aproximadamente R$ 45.500 por loja no período, resultado expressivo para negócios que partiram do zero.
O ponto crítico não é a abertura da loja, mas a gestão da reputação digital, que se constrói com avaliações positivas, cumprimento de prazos de entrega e consistência no atendimento. Para o gestor do Sebrae William Almeida, "avaliações positivas e entrega no prazo viraram moeda de confiança." Um empreendedor regional que constrói boa reputação online compete em igualdade com qualquer vendedor de grande centro, independentemente de onde esteja geograficamente.
O papel da documentação digital na rotina do empreendedor
Um aspecto da digitalização frequentemente subestimado pelos empreendedores em fase inicial é a gestão documental. Contratos com clientes, notas de entrega, propostas comerciais, catálogos de produtos e laudos técnicos precisam estar em formatos universalmente legíveis, portáveis e profissionais. À medida que o volume de transações digitais cresce, a capacidade de converter documentos digitalizados em PDF e de organizar arquivos de forma padronizada deixa de ser detalhe operacional e passa a ser parte da infraestrutura básica de qualquer negócio que opere com clientes e fornecedores de diferentes regiões.
Essa demanda explica, em parte, o crescimento expressivo na busca por profissionais especializados em formatação e produção de documentos digitais identificado pelo Freelancer.com em 2024. O mercado reconhece que a organização documental é um gargalo real para muitos pequenos negócios que cresceram com rapidez no ambiente digital, mas mantiveram processos analógicos ou desorganizados na retaguarda.
Inteligência artificial nas MPEs: o que os dados mostram e onde está a oportunidade real
A adoção de inteligência artificial pelos pequenos negócios brasileiros saiu do plano das discussões abstratas e passou a ser medida por pesquisas com dados concretos. Em 2025, o Sebrae levantou que 44% dos pequenos empreendedores já usam IA de alguma forma, em resposta espontânea. Entre as empresas de pequeno porte (EPP), o percentual sobe para 65%, enquanto entre os MEIs fica em 35%. A correlação com escolaridade é marcante: 75% dos donos de negócio com pós-graduação usam IA, contra 38% dos que têm faixa etária acima de 60 anos.
A Pesquisa de Inovação Semestral do IBGE (Pintec Semestral 2024) complementa esse quadro com dados sobre empresas de maior porte: 41,9% das empresas com 100 ou mais funcionários já utilizam IA, crescimento de 25% em relação a 2022. Entre as startups brasileiras, o índice é ainda mais alto: 78% já utilizam IA em algum processo, sendo que 65% relataram aumento de crescimento e eficiência operacional como resultado, conforme o levantamento Founders Overview 2024, do Sebrae Startups em parceria com a ACE Ventures.
Para o empreendedor regional, a mensagem prática que emerge desses números é que a IA já está disponível em ferramentas do cotidiano, como o WhatsApp Business, o Canva, o Meta Ads e o Google Analytics, e que começar pelo básico já representa vantagem competitiva em um ambiente onde a maioria dos concorrentes diretos ainda não utiliza essas ferramentas de forma sistemática. Segundo o Sebrae, 60% dos empreendedores iniciais demonstram interesse em IA e 80% pretendem ampliar o uso de tecnologias digitais nos próximos seis meses, conforme a GEM 2024.
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Indicador de digitalização |
MEI |
Pequena empresa (EPP) |
Empresa com 100+ funcionários |
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Uso de IA (resposta espontânea) |
35% |
65% |
41,9% (IBGE Pintec 2024) |
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Possui website próprio |
N/D |
52% |
85% (grandes empresas) |
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Usa WhatsApp/Telegram como canal de negócio |
Alta adesão |
75% |
74% (média geral) |
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Comercializa produtos/serviços online |
N/D |
71% |
63% (grandes em 2023) |
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Usa serviços de computação em nuvem |
N/D |
N/D |
53% (e-mail) / 33% (infraestrutura) |
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Indicador de Maturidade Digital (IMD, escala 0-80) |
Abaixo da média |
Acima da média |
N/A (não mensurado nessa escala) |
Fontes: Sebrae (pesquisa de uso de IA em pequenos negócios, 2025); Cetic.br/TIC Empresas 2023 e 2024; IBGE/Pintec Semestral 2024; Sebrae/Pesquisa de Maturidade Digital 2024. N/D: dado não disponível de forma segmentada nas fontes consultadas.
A comparação entre portes na tabela revela uma oportunidade estrutural para os empreendedores regionais de menor porte: enquanto os MEIs ainda apresentam baixa maturidade digital, as ferramentas de IA e presença online já estão acessíveis e com curva de aprendizado cada vez menor. A distância entre o que os MEIs utilizam hoje e o que as EPPs utilizam representa uma janela de diferenciação real para quem decidir avançar antes da média do setor. Ressalte-se, porém, que o dado sobre uso de IA nas empresas com 100 ou mais funcionários vem de metodologia distinta (Pintec/IBGE), que não permite comparação direta com os dados de MEIs e EPPs levantados pelo Sebrae.
Quais são os desafios reais que o empreendedor digital regional ainda enfrenta?
A narrativa otimista sobre a digitalização dos empreendedores precisa ser equilibrada com uma leitura honesta dos obstáculos que persistem, especialmente fora das regiões mais desenvolvidas.
A concentração regional do empreendedorismo formal
Os dados do Sebrae revelam que o Sudeste, o Sul e o Nordeste lideram a abertura de pequenos negócios, com São Paulo (28,6%), Minas Gerais (10,9%) e Rio de Janeiro (7,8%) nas primeiras posições estaduais no primeiro trimestre de 2025. Os estados que mais cresceram percentualmente, porém, foram Ceará (+56,8%), Piauí (+55,3%) e Amazonas (+51,3%) na comparação com o mesmo período de 2024, sinalizando que a interiorização do empreendedorismo formal está em curso, embora a partir de uma base menor.
No mapa do Índice de Cidades Empreendedoras (ICE), elaborado pela Escola Nacional de Administração Pública (Enap), as cidades melhor posicionadas para empreender continuam concentradas no Sul e no Sudeste. O Nordeste aparece pela primeira vez apenas na 24ª posição, com Aracaju. Isso não significa que seja impossível empreender digitalmente em outras regiões, mas indica que o ambiente regulatório, a infraestrutura e o acesso a capital seguem desiguais e precisam ser considerados no planejamento de qualquer negócio.
A burocracia e a carga tributária como freios persistentes
Em 2024, 66,4% dos empreendedores brasileiros demonstraram preocupação com o cenário econômico, segundo o GEM 2024/Sebrae. A burocracia e a complexidade tributária são mencionadas recorrentemente como barreiras. O advogado empresarial João Victor Duarte Salgado, em análise publicada sobre o ecossistema de empreendedorismo no Nordeste, afirmou que "o excesso de burocracia é notado no país" e que a tributação "onera o empreendedor, impedindo que os frutos obtidos por ele sejam implementados em sua empresa". Esse diagnóstico é transversal a todas as regiões, mas se aprofunda em localidades com menor infraestrutura de suporte ao empreendedor.
A desigualdade de renda entre empreendedores regionais
Entre os 29,3 milhões de donos de negócio no Brasil, 68% têm renda de até dois salários mínimos, segundo levantamento do Sebrae com base na PNAD do 2º trimestre de 2023. Nas regiões Norte e Nordeste, esse percentual sobe para 82% e 84%, respectivamente. A baixa escolaridade e a menor formalização são características comuns entre os empreendedores de mais baixa renda, o que limita o acesso a capacitação, crédito e às próprias ferramentas digitais que poderiam ampliar o faturamento. Esse dado é importante para não romantizar o empreendedorismo digital: para uma parcela relevante dos empreendedores brasileiros, a digitalização ainda é uma aspiração, não uma realidade operacional.
O que o Atlas dos Pequenos Negócios 2025 projeta para os próximos anos
O Atlas dos Pequenos Negócios 2025 do Sebrae apresenta um cenário de avanço moderado sustentado em três eixos: digitalização, crédito produtivo e formação técnica. A projeção é que até 2026, 70% dos MEIs passem a vender por canais digitais, praticamente o dobro dos que operam online antes da pandemia. A renda familiar média das MPEs chegou a R$ 13.305,99 em 2024, e em 2024 foram 2,5 milhões de brasileiros que saíram da informalidade e abriram um pequeno negócio próprio, segundo o mesmo estudo.
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), lançado em 2024 com investimento de até R$ 23 bilhões em quatro anos, inclui entre suas 31 ações a ampliação da adoção de IA em diferentes segmentos de pequenos negócios, com o objetivo de aumentar a produtividade e a competitividade de MPEs e MEIs. O plano prevê ainda o desenvolvimento de modelos de linguagem em português com dados nacionais, o que pode reduzir a barreira de entrada para o uso de IA por empreendedores com menor familiaridade com o inglês.
O que o empreendedor regional pode fazer agora
Os dados apresentados ao longo deste artigo constroem um argumento consistente: o ambiente digital criou condições reais para que empreendedores de qualquer região do Brasil ampliassem seu alcance, reduzissem custos de distribuição e acessassem mercados que antes eram geograficamente inacessíveis. O faturamento das MPEs em vendas online cresceu 1.240% em cinco anos. A taxa de empreendedorismo está no maior nível em quatro anos. A adoção de IA dobra entre empreendedores com escolaridade mais alta e porte de empresa maior. O mercado digital está em crescimento.
Ao mesmo tempo, os limites precisam ser reconhecidos com clareza. O Indicador de Maturidade Digital médio de 35 em 80 pontos mostra que a maioria dos pequenos negócios ainda está na fase inicial de sua jornada digital. A concentração de renda entre empreendedores (68% com até dois salários mínimos) evidencia que o acesso às oportunidades digitais não é igualitário. A burocracia tributária segue como obstáculo real, especialmente fora das capitais. E os dados de alcance regional são, em sua maioria, estaduais ou nacionais, sem granularidade suficiente para afirmar com certeza o que ocorre especificamente em cada cidade ou microrregião.
Para o empreendedor que deseja avançar na digitalização do negócio, três passos emergem com clareza dos dados: construir presença nas plataformas onde seus clientes já estão, priorizando redes sociais e marketplaces antes de websites próprios; experimentar ferramentas de IA acessíveis como primeiro passo de automação de atendimento e marketing; e estruturar a gestão documental do negócio para operar com clientes de qualquer região, o que inclui padronizar contratos, propostas e entregas em formatos digitais universais. Quem fizer esses três movimentos antes da média do setor sai na frente, independentemente de onde esteja no mapa.
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