Com a transição da COVID-19 de pandemia para doença sazonal, é natural surgir a dúvida: ainda é preciso vacinar? Em outubro de 2025, a Sociedade Americana de Doenças Infecciosas (IDSA) publicou novas diretrizes sobre o tema, e vale comparar suas recomendações com as do Ministério da Saúde do Brasil. A boa notícia é que, embora venham de instituições muito diferentes, as duas chegam a conclusões parecidas e ambas têm grande respaldo científico.
O que é a IDSA?
A Sociedade Americana de Doenças Infecciosas (IDSA, na sigla em inglês) é a principal sociedade médica de doenças infecciosas dos Estados Unidos, fundada em 1963. Reúne mais de 13 mil profissionais médicos infectologistas, pesquisadores, epidemiologistas e farmacêuticos clínicos e é referência internacional para diretrizes (guidelines) sobre prevenção e tratamento de infecções. Suas orientações passam por uma revisão criteriosa de todos os estudos científicos disponíveis antes de virarem recomendação um processo reconhecido internacionalmente por sua transparência e rigor.
Em outras palavras: quando a IDSA publica uma diretriz, ela é o resultado de revisão sistemática rigorosa e consenso de especialistas independentes — não está vinculada à indústria farmacêutica nem a governos.
Quem deve se vacinar segundo as duas fontes
Crianças saudáveis (sem comorbidades e sem imunossupressão)
Esse é o grupo onde as recomendações mais divergem entre as fontes e onde mais surgem dúvidas de pais e cuidadores. É importante entender o motivo: crianças saudáveis têm risco menor de COVID-19 grave do que adultos, mas não desprezível, especialmente nos primeiros dois anos de vida.
- Ministério da Saúde: a vacina contra COVID-19 está incluída no Calendário Nacional para crianças de 6 meses a menores de 5 anos, como parte da vacinação de rotina da infância. A partir dos 5 anos, crianças saudáveis podem receber uma dose se desejado, mas não estão entre os grupos prioritários para revacinação semestral.
- IDSA / Academia Americana de Pediatria (AAP): a IDSA endossa explicitamente as orientações da AAP para crianças saudáveis. A AAP recomenda a vacinação anual para todas as crianças de 6 a 23 meses, já consideradas grupo de risco pela própria idade. Entre 2 e 18 anos, a AAP recomenda uma dose anual para crianças com fatores de risco (asma, obesidade, cardiopatia, diabetes, entre outros) e deixa a vacinação disponível, com periodicidade anual, para crianças saudáveis cujos pais desejem essa proteção.
Um dado importante para essa conversa: estudo do CDC americano analisando crianças e adolescentes hospitalizados por COVID-19 entre 2023 e 2024 mostrou que 50% delas não tinham nenhuma comorbidade prévia eram crianças previamente saudáveis. Entre as hospitalizadas sem comorbidade, 18% precisaram de UTI. Isso reforça que ser saudável não elimina o risco, ainda que o reduza.
Apesar das diferenças no detalhamento, há convergência no ponto mais importante: crianças pequenas (especialmente abaixo de 2 anos) devem ser vacinadas, porque nessa faixa etária a COVID-19 ainda gera hospitalizações e mortes evitáveis. Para crianças maiores e saudáveis, a vacinação permanece disponível e é considerada segura, com a decisão podendo ser individualizada conforme exposição e contexto familiar.
Crianças com condições de risco
- Ministério da Saúde: vacinação a partir de 6 meses para crianças com comorbidades, com reforço semestral para imunocomprometidas até os 4 anos;
- IDSA: recomenda vacinação a partir de 6 meses para crianças imunocomprometidas, com pelo menos duas doses do esquema 2025-2026.
Gestantes
- Ministério da Saúde: uma dose por gestação, em qualquer trimestre, para proteger mãe e bebê (a vacina transfere anticorpos ao recém-nascido);
- IDSA: considera a gestação como condição que justifica vacinação prioritária.
Pessoas 60+
- Ministério da Saúde: uma dose a cada 6 meses para pessoas a partir de 60 anos, agora dentro do Calendário Nacional de Vacinação;
- IDSA: reforça que a idade mais avançada é o principal fator de risco para doença grave e que a vacinação anual ou semestral é fortemente recomendada nesse grupo.
Pessoas com comorbidades (doença pulmonar crônica, cardiopatias, diabetes, obesidade, doença renal, câncer)
- Ministério da Saúde: vacinação anual, integrada ao calendário de rotina;
- IDSA: vacinação recomendada, alinhada com decisão clínica individualizada.
Imunocomprometidos (transplantados, pacientes oncológicos, em uso de imunobiológicos, com HIV em imunossupressão grave, entre outros)
- Ministério da Saúde: uma dose a cada 6 meses, com três doses iniciais para quem nunca se vacinou;
- IDSA: recomendação forte a recomendação mais enfática do documento, sustentada por evidências sólidas. Ao menos uma dose da fórmula 2025-2026 o quanto antes, e uma segunda dose “provavelmente prolonga a proteção”. A IDSA também recomenda que contatos domiciliares desses pacientes estejam em dia com a vacina, para reduzir o risco de transmissão dentro de casa.
O que dizem os números: 13,5 bilhões de doses depois
A campanha de vacinação contra a COVID-19 é a maior da história da humanidade. Segundo dados consolidados pela Organização Mundial da Saúde, mais de 13,5 bilhões de doses já foram administradas mundialmente, alcançando cerca de 70% da população global com pelo menos uma dose.
Esse volume sem precedentes permitiu uma vigilância de segurança igualmente sem precedentes. Em 2023, a International Coalition of Medicines Regulatory Authorities (que reúne agências reguladoras de mais de 30 países, incluindo FDA, EMA e Anvisa) publicou um balanço endossado pela Agência Europeia de Medicamentos concluindo que as vacinas contra a COVID-19 têm perfil de segurança consolidado em todos os grupos etários, incluindo crianças, gestantes e imunocomprometidos. Como acontece com qualquer medicamento ou vacina, eventos adversos podem ocorrer, mas os mais comuns são reações leves e passageiras, como dor no local da aplicação, cansaço ou febre baixa nas primeiras 24 a 48 horas. Reações graves são extremamente raras e justamente por isso o monitoramento de segurança das vacinas contra COVID-19 é considerado o mais robusto da história da medicina, com mais de cinco anos de vigilância contínua em dezenas de países.
Quanto ao impacto na saúde pública, estudos revisados por pares estimam que as vacinas contra COVID-19 evitaram entre 14 e 20 milhões de mortes apenas no primeiro ano da campanha global, e cerca de 2,5 milhões de mortes adicionais entre 2020 e 2024 segundo análise mais conservadora publicada em 2025. A maior parte do benefício se concentrou em adultos mais velhos exatamente o grupo que continua sendo prioritário hoje.
A diretriz da IDSA, especificamente, encontrou que a vacina atualizada reduz nos imunocomprometidos:
- Hospitalização em torno de 37–46%;
- Casos muito graves em cerca de 40%;
- Mortalidade em cerca de 61%.
Sobre eventos adversos graves, a IDSA conclui que existem “pouco ou nenhum” associados às vacinas atuais, e que exacerbações de doenças autoimunes ou rejeição de transplante não aumentam de forma clinicamente relevante após a vacinação.
A mensagem comum
O Ministério da Saúde do Brasil e a IDSA partindo de contextos institucionais, políticos e geográficos completamente diferentes chegam à mesma conclusão: a vacina contra a COVID-19 segue indicada em 2026, com prioridade clara para crianças pequenas, gestantes, pessoas 60+, pessoas com comorbidades e imunocomprometidos. As duas reconhecem que o vírus deixou de ser uma emergência aguda, mas continua sendo uma ameaça real para quem tem maior vulnerabilidade biológica.
Para o paciente brasileiro, a orientação prática é simples: siga o Calendário Nacional de Vacinação, que está alinhado com o consenso internacional, e converse com seu médico se você se enquadra em algum grupo especial. Cinco anos de dados, 13,5 bilhões de doses e dezenas de estudos independentes apontam na mesma direção.
Fontes consultadas
Este artigo foi baseado em diretrizes oficiais publicadas em 2025 pelas seguintes instituições:
- Infectious Diseases Society of America (IDSA). 2025 Guidelines on the Use of Vaccines for Seasonal COVID-19, Influenza, and RSV in Immunocompromised Patients. Outubro de 2025.
- Ministério da Saúde do Brasil. Estratégia de Vacinação contra a COVID-19 — 2025/2026; Calendário Nacional de Vacinação 2026.
- World Health Organization. COVID-19 vaccination dashboard; International Coalition of Medicines Regulatory Authorities (ICMRA) statement on COVID-19 vaccine safety.
- American Academy of Pediatrics (AAP). Recommendations for COVID-19 Vaccines in Infants, Children, and Adolescents — Policy Statement. Pediatrics, novembro de 2025.
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Use of COVID-19 Vaccines for Persons Aged ≥6 Months: Recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices — United States, 2024–2025. MMWR, 2024.
- Watson OJ et al. Global impact of the first year of COVID-19 vaccination: a mathematical modelling study. The Lancet Infectious Diseases, 2022.
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