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Eleições 2022

De volta ao jogo, Eduardo Leite resgata discurso

Em julho de 2021, o agora ex-governador gaúcho pontuava os caminhos para a terceira via que agora ele tenta ocupar
Por Denis Luciano Criciúma, SC, 31/03/2022 - 12:15 Atualizado em 31/03/2022 - 12:26
Eduardo Leite em entrevista aos jornalistas Adelor Lessa e Upiara Boschi em julho de 2021 / Arquivo / 4oito
Eduardo Leite em entrevista aos jornalistas Adelor Lessa e Upiara Boschi em julho de 2021 / Arquivo / 4oito

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Na última segunda-feira (28), Eduardo Leite (PSDB) renunciou ao governo do Rio Grande do Sul, anunciou que resistiu ao convite do PSD, não trocou de partido e frisou a disposição em concorrer à presidência da República. Havia, porém, um claro obstáculo: João Doria, o vencedor da prévia contra o próprio Leite, seguia pré-candidato. Há pouco mais de quatro meses, Doria ganhou a disputa interna dos tucanos com 53,9% dos votos, contra 44,6% de Leite e 1,3% de Arthur Vírgílio Neto.

O jogo mudou nesta quinta-feira (31). O dia começou com as notícias de que Doria estava abrindo mão da disputa, renunciando à pré-candidatura à presidência e que continuará governador em São Paulo. E, de quebra, de saída do PSDB, que vinha rachado a partir da sua vitória nas prévias. Doria indicou, também, que não buscará a reeleição ao Governo do Estado.

Com isso, o caminho voltou a se abrir para Eduardo Leite. Oportunidade para recordar 5 de julho de 2021. Na ocasião, o governador gaúcho falou à Rádio Som Maior, delimitando o discurso que mantinha enquanto pré-candidato às prévias, em um teor bastante semelhante ao que pautou quando da renúncia ao governo do Rio Grande do Sul na última segunda-feira. "É o momento que a gente discute, dentro do partido, quem do ponto de vista eleitoral tem o estilo que melhor possa representar o PSDB", dizia, em julho passado. "O governador Doria faz um trabalho importante em São Paulo, tem um mérito inegável em relação à vacina", ponderava.

Eduardo em encontro com o governador Carlos Moisés no ano passado

"Uma nova perspectiva"

E batia muito na tecla de não ser um destruidor de adversários em uma eventual candidatura. "A gente não está numa disputa de quem é melhor em termos políticos e de gestão, mas uma oportunidade para o partido entender quem melhor pode ser a cara do PSDB na eleição", citava. E Leite desfraldava uma bandeira que certamente retomará com força agora, a das reformas que promoveu no Rio Grande do Sul. "Me apresento buscando sensibilizar os meus correligionários que tem em mim a possibilidade de uma nova perspectiva, um rosto novo, e ao mesmo tempo com trabalho prestado. Fui prefeito, governador do Rio Grande do Sul, assumi o Estado com três anos de atrasos dos servidores, colocamos em dia", registrou.

Outra bandeira que Leite certamente resgatará agora, que vislumbra a retomada de sua candidatura, é a da luta contra a dívida pública. Ele já tinha números na ponta da língua em julho de 2021. "A vida me apresentou a oportunidade de enfrentar crises e oportunidades. O Brasil terá um desafio tremendo no desafio da pandemia, mas ainda com os efeitos de uma crise econômica e dificuldades nas contas públlicas. O déficit nas contas do governo saiu de R$ 150 bilhões para mais de R$ 800 bilhões em 2020 em função da crise e da necessidade de aportes em diversas frentes. Isso vai demandar uma ação muito clara de reestruturação da máquina pública, de reformas", salientou.

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Como viabilizar a terceira via

E como abrir uma brecha entre Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT)? A pergunta, que segue forte agora, já se impunha há quase nove meses, quando ele falou à Som Maior. "Temos que mostrar que política não é sobre abrir feridas novas, ficar cutucando feridas diferentes, é sobre cicatrizar feridas. É a capacidade de trazer a população para um projeto para construir algo", respondeu. "Estamos gastando muita energia no Brasil, estamos perdendo energia tentando destruir uns aos outros. Eu não entro nesse processo, tentando destruir Lula, Bolsonaro nem ninguém. Quero um caminho para o Brasil se conectar com a esperança com o seu futuro", argumentou.

Eduardo Leite aposta na rejeição dos principais candidatos para conseguir espaço. "Se estão nessa polarização, as pesquisas indicam que há altíssimo nível de rejeição de cada um deles, e a rejeição de um alimenta o outro, nessa tentativa de destruição", frisou.

Leite com os tucanos catarinenses, entre os quais a deputada Geovania de Sá
e o prefeito Clésio Salvaro, no começo de outubro de 2021

O ex-governador ressaltava a dificuldade da repetição de uma onda Bolsonaro aos moldes da que ocorreu em 2018. Ele próprio admitiu que votou em Bolsonaro no segundo turno da última eleição presidencial contra Fernando Haddad (PT). "Parece muito difícil repetir a onda. Eu entendo o eleitor optando por Bolsonaro em 2018. No segundo turno, no cenário das duas candidaturas, manifestei o voto, eu não fiz campanha conjunta, mas diante da opção apresentada, a outra tendo gerado enorme frustração do PT pelos casos de corrupção e pelo modelo econômico que gerou milhões de desempregados, entendíamos que não podia voltar ao poder. Acabamos tendo o inevitável voto, entre as duas opções, aos olhos de um país que precisava se recuperar economicamente, a gente precisava dar a condição de arriscar na esperança de que pudesse ser algo diferente, e a frustração é gigantesca", relatou. "Mesmo que as esperanças não fossem as maiores, diante de um passado de muito conflito do candidato Bolsonaro", emendou.

Críticas a Bolsonaro e Lula

Reforçando o discurso crítico em relação a Bolsonaro, Eduardo Leite apontava a relação entre Bolsonaro e conflitos. "O presidente aposta nos conflitos, nas agressões, isso faz perder muita energia. Você desvia uma energia que deveria ser para atacar problemas para simplesmente atacar pessoas. Se é para fazer política do contra, que seja contra a miséria, a corrupção, o poder pelo poder, a inflação. É aí que tem que estar a nossa energia, e não contra alguém", sublinhou. "Me parece que o presidente, a população vai percebendo a falta de um projeto, de uma agenda clara, um desperdício de energia. Mas eu não estou entrando nesse processo para atacar um ou outro, eu quero falar do Brasil que pode ser", comentou.

E voltou a referir sua oposição à reeleição. Garantiu que, se chegar à presidência, não buscará um segundo mandato. "É menos sobre se apossar de cargos e cadeiras e posições, tanto que eu não concorri à reeleição para prefeito, não concorrerei a governador e se for presidente, não concorrerei à reeleição também. O instituto da reeleição foi mal assimilado no Brasil. Mais do que isso, o próximo presidente da República, se for candidato à reeleição, no dia 1 ele passa a ser atacado por bolsonaristas e lulopetistas e inviabiliza a tensão eleitoral, prejudicando o país", frisou.

E daí trouxe uma crítica a Lula, pela quantidade de eleições já disputadas pelo ex-presidente. "O próximo presidente precisa ter esse desapego, e o Lula é a antítese disso. Ele concorreu em 89, 94, 98, 2002, 2006, 2010, protagonizou em 2014 com Dilma, tentou em 2018. O Brasil não tem a capacidade, em 30 anos, de encerrar um capítulo e abrir novas páginas? Há sim caminhos alternativos para o país", observou.

Leite renunciou ao governo gaúcho na segunda-feira

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Ser gay

A entrevista de Eduardo Leite à Som Maior foi gravada no dia seguinte da polêmica fala dele em uma entrevista ao jornalista Pedro Bial, na Rede Globo, quando havia admitido publicamente ser gay. Na ocasião, ele aproveitou a fala à Som Maior para agradecer a acolhida que teve dos brasileiros após contar a sua orientação sexual. "Eu fico especialmente feliz por ser tão bem acolhido, tantas mensagens de apoio, carinho e afeto, e mais emocionado ainda por inúmeras mensagens de pessoas que se sentem aliviadas, que agora estão seguras para falar às suas famílias e amigos, pelo exemplo que dei em uma causa que não é mais que a da igualdade. Não é tentar impor algo, mas ser o que se é", afirmou.

"Não é o centro da questão. Eu fiz esse comentário para encerrar boatos", comentou. "Como governador eu toco na vida das pessoas com minha capacidade de gestor, ou por ser gay, hétero ou qualquer outra coisa", emendou. E aproveitou o gancho para outra crítica ao presidente Bolsonaro. "Infelizmente a gente vive em um país que ainda está com esse tema especialmente sensível por uma liderança equivocada. O presidente Bolsonaro patrocina discurso de ódio e de ataques às diferenças, isso é muito ruim pois a riqueza do nosso país está muito na sua diversidade. A riqueza da biodiversidade também, do ponto de vista ambiental, totalmente ameaçada por falta de cuidado com o meio ambiente, o desmatamento. E do lado pessoal se poda a nossa gente ao se tentar convencer que existe um jeito ser de ser, de se comportar. E não, as pessoas são diferentes", finalizou.

Relembre a entrevista de Eduardo Leite à Rádio Som Maior no podcast:

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