A crise bancária que levou à renúncia do presidente do Paraguai, Santiago Peña, deve ter pouco efeito sobre as indústrias brasileiras que produzem no país vizinho. A avaliação é do especialista em reforma tributária Altair Toledo, que assessora empresas brasileiras na mudança para o Paraguai, em entrevista ao programa 60 Minutos, da Rádio Som Maior.
O motivo, segundo ele, é que o banco que quebrou atendia principalmente a população e pequenos negócios, e não as fábricas. “Os nossos clientes têm usado Itaú Paraguai, Sudameris e outros grandes bancos, que são mais estáveis, mais estruturados. Olhando para o lado dos empresários que a gente tem levado para o Paraguai, o impacto é muito baixo”, explica.
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Quebra deixou quase 3 milhões sem acesso às contas
O Banco Central do Paraguai interveio no Ueno Bank nesta semana, depois que o índice de solvência do banco caiu abaixo do mínimo exigido. Cerca de 2,9 milhões de clientes ficaram sem acesso às contas, oito diretores foram detidos e o presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, que já tinha comandado a financeira que deu origem ao banco, renunciou.
A crise chegou ao governo porque Peña, ex-presidente do Paraguai, foi acionista do grupo que controlava o banco. Nesta quinta-feira (5), ele anunciou a renúncia enquanto a Câmara dos Deputados debatia o pedido de juízo político, que acabou aprovado por unanimidade. O vice-presidente, Pedro Alliana, deve assumir.
Regras para indústria não mudam
Para Toledo, a troca de comando não altera os incentivos que atraem as empresas brasileiras. Entre eles estão o regime de maquila, que permite importar insumos, produzir e exportar com imposto reduzido, e o chamado 10-10-10, com alíquotas de 10% nos principais impostos. “A política que o Paraguai estabeleceu é uma política de longo prazo, e não é a mudança de um presidente que altera isso.”
O especialista admite que a imagem do país no exterior pode ser afetada, inclusive na avaliação de risco das agências internacionais. Isso poderia encarecer os juros dentro do Paraguai, mas ele lembra que as indústrias que vão para lá dependem pouco de financiamento local.
“Uma das primeiras coisas que eles falam é para não ir para o Paraguai esperando crédito, porque lá não tem um BNDES. Muitas das empresas estão indo com recurso próprio ou com dinheiro captado no Brasil”, ressalta.
Varejo sente mais
O impacto é maior para quem vende diretamente ao consumidor paraguaio. O Ueno era o maior emissor de cartão de crédito do país, e Toledo cita como exemplo a Havan, que planeja abrir lojas no Paraguai.
Nas fábricas, o efeito deve ficar na rotina dos funcionários, que vão precisar trocar de banco. “Talvez a empresa tenha que dar algum apoio, fazer uma parceria com algum banco e transferir a folha de pagamento. Vai ter algum impacto operacional, alguma burocracia, mas não vejo algo significativo na produção”, analisa.
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