Mesmo após ter dois pedidos de recuperação judicial negados pela Justiça, uma construtora com atuação em Santa Catarina continuou vendendo imóveis, firmando contratos e captando recursos de novos clientes. A empresa agora é alvo de investigação policial por suspeita de estelionato, organização criminosa e lavagem de dinheiro, com prejuízos que já somam milhões de reais.
O caso veio à tona após um casal procurar a polícia no ano passado, relatando um prejuízo inicial de cerca de R$ 5 milhões, valor que pode aumentar com juros e correção monetária. Segundo o delegado Márcio Campos Neves, titular da 1ª Delegacia de Polícia de Criciúma e responsável pelo inquérito, a fraude teria começado no município e, posteriormente, se expandido para Itapema.
“A investigação aponta que o esquema teve início em Criciúma e, com o tempo, foi sendo replicado em outras cidades, especialmente Itapema, sempre com o mesmo modo de atuação”, afirma o delegado.
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Promessas, imóveis inexistentes e sociedade falsa
De acordo com o relato das vítimas, o casal conheceu os empresários após a falência de outra construtora, quando a empresa investigada assumiu um empreendimento. A partir desse contato, os suspeitos passaram a oferecer supostos investimentos em novos projetos imobiliários.
O problema, conforme a polícia, é que diversos imóveis vendidos nunca foram entregues. Em pelo menos um dos casos, o empreendimento sequer possuía matrícula do terreno onde seria construído. Ainda assim, os investigados continuaram prometendo novos projetos e chegaram a oferecer uma sociedade de 10% em um empreendimento que também nunca saiu do papel.
“Há situações em que o imóvel simplesmente não existe do ponto de vista legal. Não havia matrícula do terreno, não havia projeto aprovado e, ainda assim, os contratos eram firmados”, destaca Neves.
Além disso, as vítimas relatam que foram convidadas a trabalhar para a empresa por mais de três meses sem receber salário. Como suposta compensação, teriam recebido um apartamento que já estava financiado e havia sido vendido para outra pessoa.
“Esse tipo de prática reforça a tese de que se trata de um esquema estruturado, com múltiplas formas de lesar as vítimas”, pontua o delegado.
Mais de 50 vítimas e prejuízos milionários
Com a divulgação do caso, outras vítimas começaram a procurar a polícia. Uma advogada de Florianópolis afirma representar sete clientes lesados, com prejuízos individuais que variam entre R$ 300 mil e valores milionários.
Há indícios de que o esquema envolva mais de 58 credores, conforme uma assembleia recente. No entanto, a polícia investiga possíveis fraudes nessa própria assembleia, incluindo a apresentação de contratos suspeitos, com datas incompatíveis e sem reconhecimento de firma, que teriam sido usados para garantir maioria e controlar decisões.
“Estamos analisando documentos que levantam sérias dúvidas quanto à autenticidade. Há contratos com datas conflitantes e sem qualquer formalização mínima”, diz o delegado.
Luxo, propaganda e suspeita de organização criminosa
Segundo o delegado, a atuação da empresa seguia um padrão marcado por forte divulgação, eventos promocionais e festas. Durante essas ações, havia até promessas de sorteio de um carro de luxo, como uma Porsche, que nunca teria sido entregue. Os imóveis anunciados, conforme a investigação, também não teriam saído do papel.
Enquanto isso, um dos principais suspeitos ostentaria uma vida de luxo em Balneário Camboriú, enquanto as vítimas acumulam prejuízos financeiros significativos.
“Havia uma construção deliberada de imagem de sucesso e prosperidade para atrair novos investidores, enquanto os compromissos assumidos não eram cumpridos”, afirma Neves.
A investigação agora apura a existência de uma organização criminosa estruturada, com possível participação de facção criminosa na lavagem de dinheiro. Delegacias de Criciúma, Itapema e Balneário Camboriú devem atuar de forma conjunta.
Construtora BS alega divergência societária
A reportagem tentou contato com a Construtora BS, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria. Em comunicado publicado nas redes sociais, a Construtora BS sustentou que a repercussão em torno da investigação não reflete “a realidade operacional ou a idoneidade da empresa”.
“A narrativa divulgada trata-se, na verdade, de um desdobramento unilateral de uma divergência societária com um antigo integrante da empresa, fato este que já está sendo devidamente tratado na esfera jurídica competente”.
A empresa afirmou que segue com suas atividades, passando por um processo de reestruturação. A nota foi publicada no Instagram, mas o perfil foi fechado ainda ao longo da quarta-feira (21).
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