A relação de José Nestor Cardoso com o mar começou ainda na infância, em Criciúma. Aos oito anos, já tinha nadadeiras, máscara e snorkel e acompanhava na televisão séries de aventuras submarinas. O que começou como curiosidade acabou se transformando em uma carreira de mais de quatro décadas dedicada à oceanografia, ao mergulho e à formação de novos profissionais.
Nascido em Criciúma e criado em Içara, Cardoso deixou a região aos 17 anos para estudar em Porto Alegre. Foi durante esse período que conheceu a oceanologia, curso que, na época, era oferecido em Rio Grande e considerado pioneiro na América Latina.
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“Mesmo tendo passado no vestibular para Oceanologia, também fiz provas para Engenharia e Medicina, sendo aprovado nos dois cursos. Mas a paixão pelo mar falou mais alto e decidi pelo pioneirismo da Oceanologia, entrando na terceira turma do curso em Rio Grande, no Rio Grande do Sul”, relembra.
Pioneirismo no mergulho
José Nestor durante sua trajetória no mergulho I Foto: Arquivo pessoal/4oito
Formado em Oceanologia, José Nestor assumiu, em 1979, o ensino de Técnicas de Mergulho Submarino na Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Naquele período, a atividade ainda contava com poucos equipamentos e praticamente nenhuma estrutura especializada no país.
As primeiras aulas precisaram ser adaptadas à realidade da época. Faltavam piscina, cilindros, reguladores e equipamentos adequados. Em algumas atividades, o ar era levado aos mergulhadores por meio de uma mangueira ligada a um compressor, no sistema conhecido como narguilé.
As aulas também aconteciam nos arroios da região. Para chegar ao mar, era preciso enfrentar uma viagem de cerca de 12 horas até Bombinhas, onde eram realizadas as atividades finais.
O trabalho aconteceu em uma época anterior à consolidação das grandes certificadoras internacionais de mergulho. A partir da experiência adquirida, Cardoso ajudou a estruturar a formação de mergulhadores científicos e profissionais no país.
“A partir daí comecei a vislumbrar um futuro que incluía inclusive a talassoterapia, que é a terapia para determinados problemas utilizando água do mar e movimentos de ondas. Mas o que me atraía mesmo era o mergulho”, conta.
Da pesquisa ao extremo sul do planeta
Paralelamente ao ensino, o oceanólogo participou de diversas campanhas de pesquisa a bordo de embarcações da universidade, da Marinha e da Petrobras. Foram mais de 15 mil milhas navegadas(cerca de 27.780 quilômetros) em estudos relacionados às condições do oceano, entre eles levantamentos de temperatura, salinidade, correntes e outros parâmetros oceanográficos.
Um dos momentos mais marcantes da trajetória aconteceu no verão de 1982/83, quando Cardoso integrou, como um dos 12 pesquisadores, a primeira expedição científica brasileira à Antártica.
A bordo do navio oceanográfico Professor Wladimir Besnard, da Universidade de São Paulo, participou de pesquisas que ajudaram a ampliar o conhecimento brasileiro sobre a região e contribuíram para a consolidação da presença do país no continente antártico.
Uma vida entre diferentes mares
A experiência com o mergulho não ficou restrita às águas brasileiras. Ao longo de mais de quatro décadas, Cardoso mergulhou nos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico, além de diferentes pontos do Caribe e de outros países.
Entre os locais estão Panamá, Venezuela, Cuba, Colômbia, México e Bahamas. Para ele, alguns dos mergulhos mais marcantes aconteceram justamente no Caribe.
“Os mergulhos mais lindos que eu já tive, com certeza, foram no Caribe. São mergulhos excepcionais e de qualidade mundial, em locais com grande quantidade de organismos, extremamente coloridos, com formas e cores as mais lindas e impressionantes”, conta.
Entre as experiências estão encontros com meros de mais de 300 quilos, tubarões, raias, moreias, peixes-leão, peixes-espada, lulas, polvos e outros animais marinhos.
Cardoso também já mergulhou em condições bastante diferentes, desde ambientes com visibilidade praticamente zero e fundos de lama até águas cristalinas cercadas por recifes de coral.
“Os mergulhos em fundo de coral são os mais lindos”, afirma.
Em Cancun, no México, ele conheceu ainda um parque de esculturas subaquáticas, formado por centenas de peças de concreto instaladas no fundo do mar. Nas Bahamas, realizou seus primeiros mergulhos com tubarões.
Reconhecimento internacional
A experiência acumulada ao longo dos anos fez de José Nestor Cardoso uma referência também fora do ambiente acadêmico.
Em 2012, a Professional Association of Diving Instructors (PADI), uma das maiores certificadoras de mergulho do mundo, reconheceu quatro instrutores como pioneiros do mergulho no Brasil. Cardoso estava entre eles.
Ele também recebeu a certificação de mergulhador científico número 001 no Brasil pela Confédération Mondiale des Activités Subaquatiques (CMAS).
Mesmo depois de décadas de atividade, Cardoso afirma que nunca passou por uma situação que realmente colocasse sua vida em risco durante o trabalho como instrutor.
“Muitas vezes as pessoas querem saber se o mergulho é perigoso, se é arriscado. Eu posso dizer que, nesses 45 anos de atividade como instrutor, nada que tenha oferecido realmente risco de vida. Às vezes se pega uma virada de tempo, mas nada que não tenha sido planejado e que a gente possa superar”, afirma.
Para ele, o cumprimento das normas e dos protocolos é fundamental para garantir a segurança durante a atividade.
“O mergulho é uma atividade extremamente segura. Existem normas, existem protocolos internacionais que devem ser seguidos e que, seguindo esses protocolos, o mergulho é pura alegria.”
Um legado formado por pessoas
Ao longo dos anos, mais de mil alunos foram credenciados por ele em diferentes certificadoras internacionais. Muitos seguiram na área científica e hoje trabalham em diferentes partes do mundo, enquanto outros transformaram o mergulho em atividade profissional.
“Eu jamais tive um acidente da menor gravidade que fosse com qualquer um dos meus alunos. Todos seguem felizes mergulhando em todos os mares”, conta.
Entre os profissionais formados por Cardoso estão alunos que hoje trabalham em locais como Madagascar, Austrália e Tasmânia.
“Meus alunos se espalharam pelo mundo. A maior parte deles trabalha na área científica, mas também tenho alunos que saíram do curso e foram trabalhar com o mergulho como uma atividade profissional.”
Mais do que os equipamentos, as expedições ou os números acumulados ao longo da carreira, é essa formação que representa, para José Nestor, o principal legado de uma vida dedicada ao oceano.
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