Há histórias que começam antes mesmo de o personagem entrar em campo. No caso de Gustavo Heinzen Manduca, de 18 anos, a relação com o futebol nasceu praticamente dentro de um estádio.
Filho do ex-jogador catarinense Gustavo Manduca, o jovem atacante cresceu acompanhando de perto a carreira do pai pela Europa e agora começa a escrever a própria trajetória profissional justamente no clube onde o pai viveu o auge.
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Em julho, Gustavo Heinzen assinou contrato profissional com o APOEL, do Chipre. O clube é o mesmo em que Gustavo Manduca se tornou um dos nomes marcantes de sua história recente, entre 2010 e 2015.
Foi pelo APOEL que o urussanguense participou da histórica campanha que levou o clube às quartas de final da Liga dos Campeões da Europa na temporada 2011/12, além de conquistar títulos nacionais. Agora, mais de uma década depois, a camisa com o sobrenome Manduca volta a circular no vestiário do clube. Só que, desta vez, vestida pelo filho.
"Vai ser um novo começo", resume Gustavo Heinzen, ao portal 4oito. "Espero alcançar meus objetivos, meus sonhos, e espero fazer uma carreira que nem o meu pai, meu ídolo", espera.
A história dos dois, porém, começou muito antes da assinatura do contrato com o APOEL.
Uma infância entre estádios, viagens e futebol
Gustavo Heinzen nasceu em Florianópolis, em 22 de junho de 2008, enquanto o pai atuava pelo AEK Atenas, da Grécia. A escolha pelo Brasil aconteceu durante o período de férias da temporada, mas a permanência em Santa Catarina durou pouco.
"A gente optou por ele nascer no Brasil porque ele é de junho, era o período de férias, então a minha esposa preferiu por ter ele no Brasil. Mas logo depois de 15 dias de ter nascido, já veio, mudou para a Grécia e desde sempre me acompanhou junto com a família", conta Gustavo Manduca, ao 4oito.
O filho cresceu, portanto, em meio à rotina de um jogador profissional. Primeiro na Grécia e, depois, no Chipre, onde passou boa parte da infância durante a passagem do pai pelo APOEL, entre 2010 2015.
"Com dois aninhos ele mudou para o Chipre, onde eu fui jogar no Apoel. E ficou lá até o fim da minha carreira. Então ele viveu os primeiros oito anos da vida dele muito intensamente essa minha carreira", relembra.
A bola, segundo o pai, sempre esteve presente. "Desde novinho ele já demonstrou sempre esse talento, que tinha esse dom para jogar futebol, apaixonado, com a bola 24 horas por dia até a hora de dormir. E sempre crescendo nesse ambiente intenso, nos estádios, nos campos de treinamentos, presenciando junto comigo, vestiário, enfim. E com certeza isso também ainda aguçou mais esse sonho nele", lembra.
O próprio Gustavo Heinzen lembra que, apesar de ter vivido na Europa desde pequeno, o início de sua trajetória como jogador aconteceu no Brasil, em 2017, na Torino FC Academy Brasil, em Florianópolis.
Foi ali que começou a se destacar. Depois, participou de um camping na Itália e recebeu a oportunidade de treinar nas categorias de base do Torino. Aos dez anos, mudou-se com a família para Turim.
"O começo foi bem difícil, pessoas que pareciam desconhecidas para você, que você não conhecia, a escola, foi bem difícil. Mas aos poucos, sendo fortes e corajosos, todos conseguimos limpar essa barreira e nos tornamos uma família mais unida", conta.
A família permaneceu na Itália por cerca de seis anos. Gustavo passou pelo Torino, Chisola e Spezia antes de retornar ao Chisola e disputar competições de nível profissional. Foi nesse processo que, segundo ele, vieram alguns dos aprendizados mais importantes da carreira.
"Era a minha primeira experiência vivendo sozinho, sem a mãe, sem o pai, só com os amigos, só com os companheiros do time. E foi um ano difícil, mas com muitos aprendizados, muitas experiências novas que vão ficar para a vida toda", cita.
Pai, filho e empresário
A relação entre os dois não se limita ao ambiente familiar e ao futebol. Depois de encerrar a carreira como jogador, Gustavo Manduca passou a trabalhar como empresário de atletas. Hoje, ele também agencia o próprio filho.
Para Gustavo Heinzen, entretanto, a proximidade é justamente uma das principais fontes de segurança durante o processo de formação.
"Quando eu tenho dúvidas a primeira pessoa que eu pergunto é sempre o meu pai, alguém que já viveu o que eu estou vivendo. E então o meu pai para mim é tudo. É um ídolo, é o meu empresário, tudo", afirma.
Do outro lado, Manduca reconhece que ter um pai dentro do futebol oferece algumas vantagens, mas faz questão de separar a ajuda familiar do mérito esportivo conquistado pelo filho.
"Tendo um pai que está no meio do futebol sempre ajuda, óbvio, porque a gente pode sempre aconselhar, estar perto, ajudar, indicar, conduzir algumas situações. Mas ele sem dúvida tem todo o mérito daquilo que está acontecendo na vida dele, porque por onde ele passou, ele conquistou com dom, com trabalho, com sacrifício e com as habilidades dele", valoriza.
A própria mudança da família para a Itália, quando Gustavo Heinzen ainda tinha dez anos, foi uma decisão que envolveu muito mais do que futebol. Manduca conta que, além da oportunidade esportiva do filho, a família considerou os estudos da filha, as possibilidades profissionais para ele próprio como empresário e o fato de todos terem cidadania italiana.
O peso de carregar o mesmo nome
Gustavo Heinzen carrega o mesmo nome profissional do pai: Gustavo Manduca. A diferença está no segundo nome, Heinzen, herdado da mãe. No APOEL, essa conexão é ainda mais forte. Muitas pessoas no clube conheceram o pai e lembram do menino que corria pelos campos enquanto Manduca defendia a equipe.
"Ele carrega o meu nome nas costas. O nome dele também é Gustavo Manduca. Tem o Heinzen no meio, mas está sempre o Gustavo Manduca ali. Então ele tem essa pressãozinha, vamos dizer assim, a mais do nome dele", afirma o pai.
Ao mesmo tempo, o sobrenome também representa uma espécie de vínculo afetivo com o clube.
"As pessoas do clube, presidente e diretores lembravam, lembram dele de quando ele era pequenininho. Muita gente tem um carinho muito grande por ele lá, muitos amigos estão muito felizes e estão lá para ajudar, para poder cuidar dele também em algum outros aspectos", frisa.
Para Manduca, o desafio agora é justamente permitir que o filho construa uma história que não seja apenas uma continuação da sua.
"Tem essa pressão de fazer aquilo que o pai fez, mas ao mesmo tempo ele está bem ciente que está criando a história dele. Está conquistando o espaço dele, está trabalhando para isso", destaca.
A lembrança do pai que vai além dos gols
Segundo o filho, uma das coisas que mais o orgulha é ouvir, no Chipre, pessoas falando sobre a postura de Manduca fora de campo. "É um ídolo, é uma inspiração para mim em todos os pontos de vista. Ele, como pessoa, ele é incrível. Como marido, ele é incrível. Como jogador, ele foi uma pessoa, ele é uma pessoa, ele vai ser uma pessoa extraordinária sempre na minha vida."
O jovem diz que ouvir elogios sobre o comportamento do pai é ainda mais significativo do que ouvir lembranças sobre os feitos dentro de campo, e cita características que pretende carregar para a própria carreira. "Meu pai era um cara fenomenal como pessoa e estou seguindo os passos dele tentando ser também uma pessoa boa", diz.
Para Gustavo Heinzen, essa formação veio dos dois pais. "Minha mãe também em ser uma pessoa gente boa, gentil, simpática, que respeita todo mundo", adiciona
O futebol como herança
A história dos Manduca não é um caso isolado. O futebol tem uma longa tradição de famílias que atravessam gerações, com filhos seguindo os caminhos dos pais e, em alguns casos, chegando a dividir o campo com eles.
No Brasil, um dos exemplos mais conhecidos é o de Bebeto e Mattheus Oliveira. O filho do campeão mundial de 1994 foi homenageado ainda antes de nascer: Bebeto celebrou um gol na Copa dos Estados Unidos embalando os braços como se ninasse um bebê. Anos depois, Mattheus tornou-se jogador profissional e atuou no Flamengo e na Europa.
Outro caso marcante é o de Mazinho, Thiago Alcântara e Rafinha Alcântara. Tetra em 1994, Mazinho viu os dois filhos construírem carreiras de destaque no futebol europeu. Thiago passou por Barcelona, Bayern de Munique, Liverpool e pela seleção da Espanha, enquanto Rafinha também teve passagem pelo Barcelona e PSG, mas escolheu vestir a camisa da Seleção Brasileira.
Há ainda histórias em que pai e filho chegaram a dividir o mesmo gramado. Rivaldo e Rivaldinho, por exemplo, jogaram juntos pelo Mogi Mirim entre 2014 e 2015. Em uma partida da Série B daquele ano, os dois marcaram na vitória por 3 a 1 sobre o Macaé.
A lista inclui ainda outros nomes conhecidos do futebol mundial, como a família Thuram, com Lilian sendo campeão mundial pela França em 2018, e seus filhos Marcus e Khéphren seguindo carreiras de destaque.
Um novo Manduca no APOEL
É justamente essa a fase que Gustavo Heinzen vive agora. Aos 18 anos, ele chega ao futebol profissional depois de passar por diferentes etapas da formação na Europa. No APOEL, já participa da pré-temporada com o elenco principal e disputou amistosos.
Mais do que o desempenho dentro de campo, Manduca destaca aquilo que considera a maior conquista do filho até aqui.
"Acima de tudo, ele tem nos orgulhado mais ainda como homem, com o crescimento dele, pelo caráter dele. É um menino muito dedicado, muito sério, muito honesto. Trabalhador, que tem esse sonho muito vivo na mente, no coração dele, e que está disposto a trabalhar e dar o tudo para conseguir chegar o mais alto possível", finalizou.
O orgulho é compartilhado pelo filho, que não esconde o tamanho da referência que tem em casa. "Meu pai para mim é tudo. É um ídolo, é o meu empresário, tudo, e eu amo muito ele, amo muito minha família", concluiu.
Gustavo Manduca chegou ao APOEL aos 30 anos, onde encerrou a carreira e se consagrou entre os grandes nomes marcantes do clube. Gustavo Heinzen chega aos 18, com a oportunidade de construir a própria história e consolidar o sobrenome no futebol do país.
O pai já deixou sua marca. O filho começa, agora, escrever a dele.
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