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Os palanques da eleição de 2026 em Santa Catarina: parte 3

Caiado e João

Por Artur Fabro 08/09/2026 - 07:00

Na semana passada, tratei de Flávio Bolsonaro e Jorginho Mello. Hoje é a vez da parte 3 da nossa série "Os palanques da eleição de 2026 em Santa Catarina", com Ronaldo Caiado e João Rodrigues. 

Ronaldo Caiado e João Rodrigues. Crédito: Júlia Venâncio/g1 

 

Quem é Ronaldo Caiado?

Ronaldo Ramos Caiado nasceu em Anápolis, Goiás, em 25 de setembro de 1949. Tem 76 anos, é médico ortopedista e produtor rural, e integra uma das famílias politicamente mais tradicionais do Centro-Oeste brasileiro.

Sua projeção nacional começou por presidir, entre 1986 e 1989, a União Democrática Ruralista (UDR), entidade criada para organizar proprietários rurais contra as propostas de reforma agrária em debate na Constituinte. Estreou nas urnas em 1989, candidato à Presidência pelo antigo PSD, legenda sem relação com o partido atual de mesmo nome. Terminou em décimo lugar entre 22 candidatos. No segundo turno, apoiou Fernando Collor.

Em 1990 elegeu-se deputado federal por Goiás com a maior votação do estado naquele pleito. Em 2014 chegou ao Senado, onde liderou o partido Democratas e participou das articulações que resultaram no impeachment de Dilma Rousseff.

 Em 2018, aos 69 anos, elegeu-se governador de Goiás em primeiro turno, reelegendo-se em 2022.

É candidato à Presidência pelo atual PSD, com Gilberto Kassab, presidente nacional da legenda, como vice. Concorre em chapa pura, assim como Flávio Bolsonaro.

A escolha do PSD ocorreu em 30 de março, após disputa interna: o governador do Paraná Ratinho Júnior havia sido tratado por meses como o presidenciável natural da sigla e desistiu; restaram Caiado e Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, que se apresentava como alternativa de centro à polarização. A cúpula partidária optou por Caiado sob o argumento, declarado por Kassab, de que ele teria melhores condições de levar o partido ao segundo turno. 

Análise do desempenho eleitoral recente de Ronaldo Caiado

O histórico de Caiado é de duas fases nitidamente distintas.

Na primeira, ele é candidato competitivo apenas em eleições proporcionais. Entre 1990 e 2010, sucessivos mandatos de deputado federal, sempre com votação expressiva em Goiás; na segunda, a partir de 2014, torna-se competitivo também nas eleições majoritárias: senador, governador em primeiro turno e reeleito. 

Em 1989 obteve cerca de 489 mil votos, 0,72% dos válidos, para a Presidência da República. Na sua primeira eleição para deputado federal por Goiás fez aproximadamente 98 mil votos. Em 1994 disputou o governo de Goiás e ficou em terceiro lugar. Voltou à Câmara em 1998 e reelegeu-se em 2002, 2006 e 2010. Em 2014 chegou ao Senado com cerca de 1,28 milhão de votos, 47,57% dos válidos, onde liderou o Democratas. Em 2018 elegeu-se governador de Goiás em primeiro turno, com 59,73% dos válidos e cerca de 1,77 milhão de votos, contra 16,17% de Daniel Vilela (MDB). Em 2022 reelegeu-se com 51,81% e 1.806.892 votos, contra 25,20% de Gustavo Mendanha (Patriota), desta vez tendo Vilela como vice. 

Nas pesquisas nacionais das últimas semanas, Caiado desabou. Tinha 5% no Datafolha de 21 de agosto e na Nexus/BTG de 31 de agosto; caiu para 3,3% na AtlasIntel e chegou a apenas 1% na Quaest divulgada em 2 de setembro (lembrando que as pesquisas possuem metodologias diferentes; aqui comparamos os números somente para demonstrar o padrão da queda). O movimento coincide com a ascensão do escritor Augusto Cury como um novo nome da "terceira via". 

Entretanto, nas simulações de segundo turno contra Lula, Caiado continua pontuando na casa dos 40%, ou seja, ainda pode ser considerado competitivo. Se compararmos o desempenho de Caiado com o de Flávio no segundo turno contra Lula nas últimas pesquisas, encontraremos números muito parecidos, fator que ajuda a manter o espírito da campanha vivo. 

 

Quem é João Rodrigues?

João Rodrigues nasceu em São Valentim, no Rio Grande do Sul, em 23 de março de 1967. Tem 59 anos e construiu toda a carreira pública no Oeste catarinense. É empresário e comunicador e trabalhou como radialista na Rádio Centro-Oeste de Pinhalzinho entre 1988 e 2000.

Sua trajetória eleitoral é longa e quase inteiramente municipal. Elegeu-se vice-prefeito de Pinhalzinho em 1996 e prefeito da cidade em 2000, ambas pelo PFL. Em 2002 elegeu-se deputado estadual, também pelo PFL, e em 2004 deixou a Assembleia para disputar a Prefeitura de Chapecó, onde venceu pela mesma legenda e se reelegeu em 2008, já pelo Democratas. Em 2010 renunciou à prefeitura para disputar a Câmara dos Deputados, onde se elegeu e foi reeleito em 2014. Licenciou-se do mandato em diferentes momentos para comandar a Secretaria de Estado da Agricultura e da Pesca de Santa Catarina. Filiou-se ao PSD nos primeiros meses de 2011, logo após a criação do partido, e nele permanece desde então

Em 2018 foi novamente eleito deputado federal, mas não chegou a assumir, teve o registro indeferido com base na Lei da Ficha Limpa, em razão de condenação por dispensa irregular de licitação no período em que fora vice-prefeito de Pinhalzinho. Chegou a ser preso naquele ano. Em 2020, o Superior Tribunal de Justiça suspendeu os efeitos da decisão e ele voltou a ser elegível, mas sem recuperar o mandato perdido.

Ainda em 2020 voltou a Chapecó e elegeu-se prefeito pela terceira vez, reelegendo-se em 2024 para o quarto mandato à frente da cidade. Renunciou em abril deste ano para disputar o governo do Estado pela primeira vez.

Sua candidatura foi homologada em agosto, em convenção realizada na Assembleia Legislativa. Concorre pela coligação "Santa Catarina Acima de Tudo", formada por PSD, MDB e a Federação União Progressista, que reúne União Brasil e Progressistas. O vice é Carlos Chiodini, deputado federal e presidente estadual do MDB, e a chapa ao Senado é formada por Esperidião Amin (PP) e Antídio Lunelli (MDB). É a primeira vez na história de Santa Catarina que MDB e Progressistas estão juntos em uma coligação para a disputa do governo do estado. 

Análise do desempenho eleitoral recente de João Rodrigues

João Rodrigues é um candidato municipal de desempenho excepcional; entretanto, talvez o seu maior desafio enquanto candidato a governador seja justamente extrapolar a sua base de apoio, que é identificada como bastante regionalizada. 

Elegeu-se prefeito em 2020 com 50.467 votos, 47,66% dos válidos, e reelegeu-se em 2024 com 99.320 votos e 83,01%, uma das maiores votações proporcionais registradas em cidades daquele porte no Brasil. Nas eleições para a Câmara, o desempenho também foi alto: 134.558 votos em 2010 e 221.409 em 2014, sendo o segundo mais votado de Santa Catarina naquele pleito. 

As últimas pesquisas o mantêm em segundo lugar, ainda sem expectativa de que consiga levar a disputa para o segundo turno (já que, se calcularmos os votos válidos, em todas as pesquisas divulgadas até agora Jorginho Mello venceria no primeiro turno com certa folga). A Quaest, encomendada pela NSC, apurou 50% para Jorginho Mello e 17% para João Rodrigues no cenário estimulado de primeiro turno; em um hipotético cenário de segundo turno, o atual governador faria 56% a 24%. 

 

Nas partes 1 e 2, os palanques catarinenses eram evidentes e assumidos desde cedo. Merísio foi escolhido pela aliança que reúne o PT à esquerda; Jorginho Mello acompanhou Flávio Bolsonaro em agenda no estado ainda em maio, com entrega de "passaporte simbólico" em ato público.

O caso de João Rodrigues foi outro. Durante meses da pré-campanha, ele silenciou sobre Caiado. A imprensa registrou o fato com clareza, pois, quando Ratinho Júnior ainda figurava como possível presidenciável do PSD, havia entusiasmo; com a desistência do paranaense e a escolha de Caiado, veio, inicialmente, o silêncio. A dúvida cercava João Rodrigues. Ou ele daria palanque a Caiado, que claramente não era sua primeira escolha, ou migraria na prática para Flávio Bolsonaro, contrariando o PSD. João ficou com a primeira opção, pelo menos por enquanto.

Em um estado bolsonarista como é SC, o palanque de um candidato a eleição majoritária que disputa o mesmo eleitorado conservador sem o sobrenome Bolsonaro é bastante difícil, tanto que o próprio João Rodrigues, que se dizia/diz bolsonarista, teve que mudar o discurso; Caiado também mudou, mas talvez tenha demorado demais. A última pesquisa Quaest é cristalina quanto a isso: em SC, apenas 1% dos entrevistados enxergavam que João Rodrigues era o candidato de Flávio Bolsonaro (e, portanto, do bolsonarismo) no estado. 

João Rodrigues precisa dos votos que hoje estão com Jorginho Mello. E Caiado, para o eleitor catarinense, é a lembrança de que ele não é um Bolsonaro. 

Na próxima semana, será a vez de Renan Santos e Marcelo Brigadeiro.

 

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